—Que bonita rapariga é aquella que está em casa
da A * * * na calçada do Duque?
—É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se
Rosa, mas não diz d'onde é, nem quem a trouxe
alli.
—Parece bem educada!
—Parece... e não é desbocada... Não
tem ainda
a
consciencia do seu officio...
É necessario que perverta a linguagem, se quizer
celebrisar-se...
—De quem fallam vossês?—disse um terceiro, que, na
Praça do Rocio, veio associar-se ao grupo.
—D'aquella Rosa, que tu denominaste um
cherubim
precipitado na tua poesia.
—E é...
—É!... pois tu sabes a vida d'ella?
—Sei...
—Contas?
—Não...
Este terceiro era Valladares.
Teve elle coragem de vêl-a face a face?
Não teve: entrou alli com uma mascara na terça
feira de Entrudo.
Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de
Lisboa.
É por isso que eu a vi no Porto em 1848...
O general é hoje conde. O menos torpe dos florões
da sua corôa é este... Foi
honrado e hospitaleiro!...
Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde
assim viver muitos mais, porque já não sente no
paladar o acido do cognac.
E Miquelina?
Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla
medico-cirurgica do Porto a retalharam fibra a fibra com os seus
escalpellos observadores.
Já vêdes que morreu no hospital, e foi em
pedaços atirada ao monturo da santa casa, depois de se
prestar, como cadaver, ás lucubrações
da
anatomia.
Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai,
porém, que vos não dei aqui a verdade descarnada
como ella é no conto melindroso, que vos contei. Escondi-vos
metade.
AVENTURAS D'UM BOTICARIO
D'ALDÊA.
AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.
O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico
que não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua
botica n'uma aldêa do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O
seu laboratorio chimico era um fogareiro e uma retorta de vidro,
emendada no collo por um cylindro de lata. A sua livraria era o
Medico lusitano, in folio; uma
Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume
intitulado—
Segredos da natureza. Os
lotes, que eram seis, continham
garrafões de barro vidrado, atapulhados de hervas, que
tinham o merecimento chronologico de serem contemporaneas dos
garrafões. Afóra isto, não sei que
liquidos verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos
modos, continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas
dôces, extracto d'amoras,
solimão, e oleo de mamona.
Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel
Pires fosse um sabio, não digo consumado,
intelligencia
d'alguns cirurgiões
d'aquella redondeza.
Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas
de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da
snr.
a Therezinha da Fonte. Este triumpho da
pharmacia sobre a
espinhela elevou o snr. Pires, não direi até
ás
columnas do
Zacuto, mas
até onde podiam leval-o as suas
aspirações de mestre Manoel Pires, como
respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.
Um segundo triumpho veio consolidar a reputação
adquirida no primeiro. A cura d'uma
ostrução, que
eu não sei o que é, e outra d'umas almorreimas
renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles
arredores.
O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe
cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o
juiz de paz, e associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos
destinos da freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas
em redor ninguem o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da
Pôça que o sobredito juiz de paz se
correspondia com os
governos de
Lisboa.
Não posso abonar na sua integra a verdade do dito; mas
não será
sem fundamento a cousa, attendendo á importancia d'um juiz
de paz, quando se tracta de fazer um deputado.
O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance.
Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das
bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os
collarinhos engommados com pós de batata.
As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de
simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes
acavallados simulavam uma Herculanum em miniatura, um
destroço de pilastras e ogivas e capiteis.
Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava
quarenta conquistas das melhores
raparigas
da freguezia. E, honra
lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem
consta que désse o menor escandalo. Lá como elle
fazia as cousas, e a felicidade dos seus triumphos, vai o leitor
ajuizar, se, em desconto dos seus peccados, quizer lêr uma
pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.
Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de
reins na pessoa da
tia Maria do Eiró. Não é necessario
dizer que a molestia obedeceu. Na mesma casa curou da
triz o tio João,
e por fim talhou o
bicho com
perfeição e felicidade á Mariquinhas,
rapariga d'uma vez, e cousa de pôr a cara a um lado a mais de
quatro
Antonys de sócos que lhe
andavam por lá a regougar
palavras de ternura.
O leitor não saberá o que é talhar o
bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o
diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a nossa ignorancia; e
eu faço sinceros votos porque nos não seja
preciso nunca talhar o bicho.
O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao
coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as
cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu
archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos d'anil. O
que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os
olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a
verdade, não era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras
ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava á
porta.
Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um
estalecidio que lhe cahiu nos
bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada
d'esta
séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes
occasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de
pôrem o
coração em maré-cheia de poesia chula.
O dialogo, que mais concorreu para a solução
final, foi incontestavelmente o seguinte:
Elle.—O deus Cupido
fez dos olhos
de vm.
ce duas settas, que trespassaram o meu
coração.
Ella.—E as palavras
de vm.
ce,
como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que
não
regeste meu sensivel peito.
Elle.—Eu bem queria
dizer a
vm.
ce as ternuras do meu
coração, e as
congeminencias do meu
pensamento. vm.
ce é mais bonita que
Venus, e Cupido
é o deus do amor que me derrete aos pés de
vm.
ce
Ella.—Pois se
vm.
ce me tem
amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o
outro que diz.
Elle.—O fim para que
eu fallei a
vm.
ce só eu o sei; e a troco d'esse
negocio faz mingoa
fallarmos outra vez.
Ella.—Quando
vm.
ce quizer, e
Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso
quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim
não é. Uma rapariga que tem seus
cretos
não deve de perdel-os, e vm.
ce bem
entende as cousas que
é sabio e homem de cabeça, por muitos annos e
bês.
Elle.—E vm.
ce
que
os conte.
Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se
vm.
ce me der duas palavrinhas esta noite,
ouvirá da minha
bocca as affectiveis ternuras do meu
amante
coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras
settas.
Ella.—Pois se
vm.
ce promette
de ter toda áquella de... sim, dizia eu, se vm.
ce
promette de ter toda áquella... sim... como diz
lá o ditado...
Elle.—Pelo deus
Cupido lhe
prometto a vm.
ce de lhe não
pôr a minha
mão, nem palavra
lhe direi que seja escontra a honra de vm.
ce.
A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim
inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um
amante, é certo o triumpho. O amor é realmente o
galvanismo dos estupidos,
d'esses
cadaveres moraes, que se
levantam do tumulo da intelligencia, e cantam lerias n'um
alamiré celeste!
Não nos recordamos de ter lido em romances francezes um
dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de
affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira
d'estes obtusos amadores das salas, para os quaes não ha
assumpto, se lhes falharem as reminiscencias do borda d'agua.
Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados
n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos
para a numerosa clinica que o esperava. Sem
exageração, este
pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as
virtudes da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,
[1]
não podesse salvar o enfermo das
aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo
sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade,
quer na bocca do
estamago, quer nos
bofes quer nos
miolos! Este homem despresava a
nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros creadores
de nomes barbaros que não fazem nada á saude do
cidadão. Honra lhe seja feita!
O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de
cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam
não sei que pythonissa magica, e, por fim de contas, era um
relogio, cujo involucro suppria á farta uma bacia de
semicupios.
Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes.
Manoel Pires enfiou as suas meias de lã até
á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil
emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho
ferrado de amarello, e partiu.
Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da
Mariquinhas, esperando-a, com a anciedade propria da sua
organisação nervosa. Maus fados
quizeram
que
n'aquella
noite, e a taes horas, andasse fóra de casa o tio
João do Eiró. A rapariga entendeu que
devia esconder em casa o seu boticario, em quanto o pai não
recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na córte das vaccas, mas
lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava hir afagar a sua
vacca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitára sete
moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, mas a bestinha,
egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o snr.
Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, que
por um tris o não remetteu á
galeria posthuma dos pharmaceuticos illustres. Introduziu-o no curral
dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma
escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os
surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu
paciente amante para a cozinha, levantou um
alçapão,
fêl-o descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal
alçapão, entrava o pai.
—Que fazes tu ahi, rapariga?—bradou elle.
Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com
ambas as mãos.
Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando
podia, lhe roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para
comprar, á surrelfa, o seu cordãosinho de ouro.
Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e
não ha nada mais natural que a
irritação do velho, quando apanhou a rapariga em
flagrante delicto.
—Onde está a chave d'este alçapão,
rapariga? interpellou o tio João no mesmo
diapasão.
—A chave tem-na vm.
ce
O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave,
resmungando:
—Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar
po'lo vêso, minha cabra de não sei que diga!
Fechou o alçapão, e foi-se deitar.
A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto,
achava-se n'uma posição falsa, diz o
leitor. Elle sabia lá o que eram
posições falsas! O
que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse
lá comsigo: «no chão não me
deito eu.»
Continuou fleugmaticamente a fazer o seu juizo critico do local em que
se achava, e esbarrou com o nariz n'um presunto. Não
obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão:
«de fome não morro eu.» Mais adiante
esbarrou n'uma pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os
nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o
caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade!
«Deixa correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se
francamente sobre a caixa á espera d'um somno regalado.
Passára-se uma hora, e o boticario, começando a
pensar seriamente na sua situação, teve momentos
de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o ouvido, e
nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em Dezembro
não é facil aquecer o corpo no
fogão do amor. Deu alguns passos maquinaes, buscando uma
sahida qualquer, e encontrou um albardão.
«Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do
albardão,
collocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.
Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.
Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto,
já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de
pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila
não atinava com a maneira de
pôr no olho da rua o seu querido pharmaceutico. Inspirada
pelo derradeiro esforço da sua dôr sublime,
lembrou-se de
pôr em execução um plano digno de
melhor sorte.
O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé,
entrou-lhe no quarto e sahiu com as calças, em cujo bolso
estava a chave. Judith não sahiu mais contente da tenda de
Holofernes!
Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em
que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um
sacco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama,
gritando: «ó
rapariga!»
Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento
profundo dos classicos, a
atrapalhação da cachôpa! O tio
João procurou as calças,
e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa
(
proh
pudor!) saltou do quarto para a cozinha,
já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o
quinteiro.
O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de
sua filha, e filou-a pelo gasnete:
—O que hias tu fazer á loja, Maria?
—Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do
pão ou dos feijões!
—Então a que hias tu lá, diabo?
—Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro
da caixa...
O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da
noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao
alçapão; mas... ai
d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado
chefe de
familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até
á loja.
Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já
não foi ouvido pelo João do Eiró, que
desmaiára.
Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido,
mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou
a cozinha,
amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar
no desenlace d'aquella tragedia.
A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama
o seu velho, e sentiu ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com
voz do intimo, tres vezes, o seu João, e como ninguem lhe
respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando
responsos a Santo Antonio,
de
mistura com
não sei quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das
suas sócas.
E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!
A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á
cozinha, que era o ponto convergente de todas as
operações
d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto, e
não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella
fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá
debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e
grita desentoadamente «aqui d'el-rei
ladrões!» A visinhança alarmou-se, e
pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no
quinteiro do tio João do Eiró.
Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á
loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por
dous lados, e não sei quantas costellas desmanchadas. Reinou
o silencio do mysterio! Ninguem conjecturava a causa d'aquelle estranho
successo, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um
pé por debaixo d'um albardão! Levantou-se uma
gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o
albardão, soltou um brado terrivel d'espanto:
—O senhor mestre Manoel Pires!
Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que
é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma
sucia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o
boticario produziu na chusma de valentões de fouce
roçadoura, que o
cercavam.
O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para
agradecer-lhe a promptidão com que viera cural-o. Mas a tia
Maria poz tudo em pratos límpos: contou tudo a seu marido,
que a
escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflicto.
Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por
que a sua importancia, passado o
momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na
opinião
dos lavradores.
Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma
honrosa satisfação estava
chegada. O pharmaceutico, superando com a sua voz o ruido da turba
conspirada, disse:
—Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do
negocio como elle é.
O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante,
o segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu
rival.
—Oh su alma do diabo!... exclamou elle.
Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a
filha. A pobre rapariga era uma cascata de lagrimas. Veio a muito
custo, cuidando que era então a
sua
fim, como ella depois disse.
A sua apparição impoz ás
multidões um respeitavel silencio.
Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o
braço direito em attitude prophetica:
—Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a
troco d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é
mal acabado.
Ámanhã se Deus quizer lêem-se os
banhos, e não ha nada mais a
fazer aqui!
A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino.
Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento
mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu
á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde
não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer
de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas
celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro,
comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forn
A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino.
Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento
mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu
á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde
não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer
de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas
celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro,
comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.
Já lá vão cinco annos.
Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do
verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este
anno veio a banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram
o louvavel desejo de o ser.
COUSAS QUE SÓ
EU SEI.
COUSAS QUE SÓ EU SEI.
I.
Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de
Fevereiro, do corrente anno
[2]
pelas 9 horas e meia da noite entrava no
theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre
leal cidade, um dominó de setim.
Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da
platêa, quando um outro dominó de velludo preto
veio collocar-se-lhe frente a frente, n'uma
contemplação immovel.
O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e
virou-lhe as costas com indifferença natural.
O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma
attenção, com a mesma
penetração de vista.
D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta
n'aquelle desgracioso falsete, que
todos nós conhecemos:
—Não quer mais do que isso?
—Do
qu'isso!...—respondeu um
mascara que passava por casualidade, esganiçando-se n'uma
risada que raspava o tympano.—
Olha do
qu'isso!... Já vejo que és
pulha!...
E retirou-se repetindo—
do qu'isso... do
qu'isso...
Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a
menor contrariedade com este charivari. E o dominó-velludo
nem se quer acompanhou com os olhos o imprudente que viera
embaraçar-lhe uma resposta digna da pergunta, fosse ella
qual fosse.
O
setim (fique assim conhecido para
evitarmos palavras, e tempo que é um preciosissimo cabedal)
o
setim, d'esta vez, encarou com mais
alguma reflexão o
velludo. Conjecturou
supposições fugitivas, que se destruiam
mutuamente. O
velludo era
forçosamente uma mulher. A pequenez do corpo, cuja
flexibilidade o dominó não encobria; a delicadeza
da mão, que protestava
contra o ardil mentiroso d'uma luva larga; a ponta de verniz, que um
descuido, no lançar do pé,
denunciára debaixo da fimbria
do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca reunidos em um
homem, captaram as serias attenções do outro,
que,
incontestavelmente, era um homem.
—Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto!
Tomára eu saber o que vês em mim, que tanta
impressão te faz!
—Nada—respondeu o velludo.
—Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma
semsaboria, mais eloquente que o teu silencio.
—Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e
seria um crime de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas
graças salobras, capazes de fazer
calar para todo o sempre um Demosthenes
de dominó.
O
setim mudou de opinião
a respeito do seu perseguidor. E não admira que o recebesse
com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó em
corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um
theatro, permitte umas suspeitas que não abonam as virtudes
do dominó, nem lisongeam a vaidade de quem lhe recebe o
conhecimento. Mas a mulher em quem recahe semelhante hypothese
não conhece Demosthenes, nem diz
leso-carnaval, nem aguça
a phrase com o adjectivo
salobras.
O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos
olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo
aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O
setim
juraria, pelo menos, que aquella mulher não era estupida. E,
seja dito sem tenção offensiva, já
não
era insignificante a descoberta, porque é mais facil
descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais
facil ser Christovão
Colombo que Emilio Girardin.
O
setim, ouvida a resposta do
velludo, offereceu-lhe o
braço, e gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.
—Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa,
bello dominó...
—
Bello, me chamas tu!...
É realmente uma leviandade que te não faz
honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz
bonita, ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma
exclamação
de terror na presença d'um nariz... que nariz não
seria, santo Deus!... Não sabes essa historia?
—Não, meu anjo!
—
Meu anjo!... que graça!
Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não sei, nem me
importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como
Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e
voluptuoso como
Voltaire aos 60 annos.
Imagina que o tedio d'esta vida chilra que se vive no Porto te obrigou
a deixar no teu quarto a pythonissa descabellada das tuas
inspirações, e vieste por aqui dentro a
procurar um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de
carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de
espirito, um anjo de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma
d'estas creações miraculosas que fazem rebentar
uma chamma improvisa no coração mais de
gêlo, e de lama, e
de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão,
não
é assim? Um coração de toucinho
parece-te uma offensa ao bom
senso anatomico, não é verdade? Pois, meu caro
dominó; ha corações de toucinho
estreme. São
os corações, que reçumam oleo em
certas caras estupidas... por exemplo... olha este homem redondo, que
aqui está, com as palpebras em quatro refêgos, com
os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com o queixo inferior
pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo d'uma pingadeira,
orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece um
grande rijão?
Não crês que este baboso tenha um
coração de toucinho?
—Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado
está a gemer debaixo do teu escalpello...
—És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!...
É verdade, ahi vai a historia do
hespanhol, que tenho que fazer...
—Então queres deixar-me?
—E tu?... queres que eu te deixe?
—Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...
—És muito amavel, meu querido Carlos...
—Conheces-me?!
—Essa pergunta é ociosa. Não és tu
Carlos!
—Já fallaste comigo na tua voz natural?
—Não; mas começo a fallar agora.
E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e
insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e
afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que,
que só se
escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam
a gente a prestar fé aos privilegios,
ás prerogativas, aos dons muito peculiares da aristocracia
do sangue. Todavia, Carlos não se recordava de ter ouvido
semelhante voz, nem semelhante linguagem.
«Uma aventura de romance!» dizia elle lá
comsigo, em quanto o dominó-velludo, conjecturando o enleio
em que pozera o seu enthusiasta companheiro, continuava a fazer gala do
mysterio, que é de todas as alfaias aquella que mais alinda
a mulher! Se ellas podessem andar sempre de dominó! Quantas
mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge Sand! Quantas
physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de Abdel-Kader!
—Então quem sou eu?—proseguiu ella—não me
dirás?... Não dizes... pois então,
tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?
—Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te
«anjo.»
—Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és
nada original!
Anjo!... é
um appellido tão safado como
Ferreira,
Silva,
Sousa,
Costa... et cetera. Não
vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade. Ficarei
sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?...
Imagina que te possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que
phantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho,
pedindo-lhe uma esperança, um sorriso affectuoso
através da mascara, um aperto convulsivo de mão,
uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E
essa mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez
mais radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias,
declarando-se muita
feia,
indecentissima de nariz, horrivel até, e, como tal, pesa-lhe
na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando a
mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas,
abrasas-te n'um
ideal, que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de
lhe dizer que te abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella
não levanta a cortina d'aquelle mysterio que te dilacera uma
por uma as fibras do coração. Chamas-lhe
Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se chama
Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que, na
minha humilde opinião, são
completamente fabulosos. O dominó quer fugir-te
ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um
dito espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os
mascaras, que a fixam como quem sabe que está alli uma
rainha, envolta n'aquelle manto negro. Por fim, a tua
perseguição é tal, que a desconhecida
Desdemona finge assustar-se, e sahe comtigo ao salão do
theatro para levantar a mascara. Arfa-te o
coração na anciedade d'uma esperança:
sentes o jubilo do cego de nascimento, que vai vêr o sol;
estremeces como a creança a quem
vão dar um bonito, que ella não viu ainda, mas
imagina ser quanto o seu coração infantil
ambiciona n'este
mundo... Ergue-se a mascara!... Horror!... vês um nariz... um
nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um nariz maior que o do duque de
Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a cavallo!... Recúas!...
sentes despregar-se-te o coração das entranhas,
córas de
vergonha, e foges desabridamente...
—Tudo isso é muito natural.
—Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe
conto o resto, que é o mais interessante para um mancebo que
faz do nariz d'uma mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do
coração. Imagina, meu joven Carlos, que sahiste
do theatro depois, e entraste na
Aguia
d'Ouro a comer
ostras, segundo
o
costume dos
elegantes do Porto. E quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do
nariz, te apparecia fatidico dominó, e se assentava ao teu
lado, silencioso e immovel, como a larva das tuas asneiras, cuja
memoria procuravas delir na imaginação com os
vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes
contracções no estomago, que te
ameaçam com o vomito. A massa enorme d'aquelle nariz
figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já
não pódes
levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um
fragmento d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir
com o silencio do dominó; mas não
pódes. A
inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com um sorriso cruelmente
sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o nariz o copo
de vinho. Achas isto natural, Carlos?
—Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a
desgraça, porque a missão do
poeta é a indulgencia não só para as
grandes
affrontas, mas até para os grandes narizes.
—Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime
missão da generosidade para com as mulheres feias, vai ser
punido. Imagina que aquella mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a
mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escandalo do dono da
casa, que naturalmente tem a sorte do boticario de Nicolau Tolentino.
Mas... vingança do céo!... aquella mulher ao
levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e
deixa vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha
seis mil annos! O hespanhol quer ajoelhar áquella dulcissima
visão de um sonho, mas a nobre andaluza repelle-o com um
gesto, onde o despreso está associado á
dignidade mais senhoril.
II.
Carlos scismava na applicação da anedocta, quando
o dominó lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento:
—Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me
supponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia
não vai tão
longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um
nariz enorme: não é physico nem
moral; é um defeito repulsivo e repellente: é uma
cousa
que eu não sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que
é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me
lembro que sou assim defeituosa!
—És um enigma!...—atalhou Carlos, embaraçado, e
convencido de que encontrára um typo maior que os moldes
tacanhos da vida romanesca em Portugal.
—Sou, sou!...—acudiu ella com rapidez—sou aos meus proprios olhos um
dominó, um continuado carnaval de lagrimas...
Está bom! não quero
tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu
não vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas
aqui, procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que
és espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade,
ajudar-me a passar algumas horas de illusão. Fóra
d'aqui, tu ficas sendo
Carlos, e eu serei sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro.
Agora acompanha-me: vamos ao camarote 10 da 2.ª ordem.
Conheces
aquella familia?
—Não.
—É uma gente da provincia. Não digas tu nada;
deixa-me fallar a mim, e verás que não passas
mal... É muito orgulho, não achas?
—Não acho, não, minha querida; mas eu antes
queria
não
desperdiçar estas horas porque fogem.
Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que tenho
ciumes de ti?
—Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo
conhecimento do coração
humano? Já vês que não sou a mulher que
imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a
desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu
amor proprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras
calculadas uma innocente a quem possas fazer feliz, em quanto a
enganas...
—Julgas, por tanto, que te minto!...
—Não julgo, não. Se mentes a alguem é
a ti proprio: bem vês que não te creio... Tempo
perdido! Anda, vem comigo, se não...
—Senão... o que?
—Senão... olha...
E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com
delicadeza, e retirara-se, apertando-lhe a mão.
Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o
frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por
quem se mataria.
—Não—exclamou elle com enthusiasmo—não me
fujas, porque me levas a esperança mais bella que o meu
coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te
conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas
deixa-me vêr a face da tua alma, que deve ser a realidade
d'um sonho de vinte e sete annos...
—Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha
pobreza de palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo
fervente para sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve
cançar-te, e a tragedia desde Sophocles até
nós não
póde dispensar uma segunda pessoa...
—És um prodigio...
—De litteratura grega, não é verdade? Inda sei
muitas outras
cousas da Grecia. A
Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas com um
garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E serei eu
o mesmo? Já vês que a
litteratura não é symptoma de virtudes dignas da
tua
affeição...
Tinham chegado ao camarote na 2.ª ordem. O
dominó-velludo
bateu, e a porta foi, como devia ser aberta.
A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem
typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a
attenção d'um leitor
avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia um
mundo, ou cousa maior que o mundo—o coração d'um
poeta.
As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo
halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma
vida agitada, via-se-lhe no rosto protestando não contra os
prazeres, mas contra a debilidade d'um sexo, que não
póde acompanhar com a materia as
evoluções desenfreadas do espirito.
Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi d'aquellas
feições! que
projecção de uma sombra azulada lhe descia das
palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a soberba, talvez
demasiada, da sua superioridade.
O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe
Laura.
Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a
mão repentinamente como se uma vibora lh'a tivesse mordido.
Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma
grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.
—Laura—repetiu o dominó—não me apertas a
mão? Deixa-me ao menos sentar-me perto... muito perto de
ti... sim?
O homem, que mais proximo estava de Laura,
afastou-se
urbanamente para deixar
aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a
distincção pela mão.
E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a
cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria
disfarçar a sua angustia intima.
A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos,
enleado nos embaraços naturaes d'aquella
situação toda para elle enygmatica,
recusava cumprir as imperiosas determinações
d'uma mulher
que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que
pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia
aos dominós. Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram
que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas
mulheres que se fallavam de perto como duas amigas intimas. O
cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-n'a por
uma D. Antonia.
Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem
uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita,
profundamente conhecedora da situação da sua
victima, fallou ao
ouvido de Carlos:
—Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em
circumstancias de ser Max... Soffro demasiado para contar as
pulsações d'este
coração. Se te sentires condoido d'esta mulher,
tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que
ella.
E voltando-se para Laura:
—Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar
homenagem á tua conquista. Deus, que é
Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem
esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto
de estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te
chamem anjo, não despresarás vaidosa
a
homenagem d'uma
pobre creatura, que
vem depôr a teus pés o obulo sincero da sua
adoração.
Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão,
que o sustinha, tremia; e os olhos, que o contemplavam,
pareciam absortos n'um quadro afflictivo.
E o dominó continuou:
—Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o
fructo abençoado da
abençoada semente que o Senhor fecundou no teu
coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar
muitas graças á Providencia, que velou os teus
passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abysmo da
prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao
throno das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma
excepção a milhares de desgraçadas,
que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes de
opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas
da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os
olhos da razão a desgraça
sentada á cabeceira do teu leito... e, com tudo, eis-te ahi
rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que pódes
insultar toda essa turba de mulheres, que te
admiram!... Ha tanta mulher infeliz!... Queres saber a historia
d'uma?...
Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que
estava, não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a
urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a
a responder affirmativamente com um gesto.
—Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.
Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar
Laura, perguntou
á mulher que assim era chamada:
—Elisa, ella chama-te
Laura?
—Não, meu pai...—respondeu Elisa, titubeando.
—Chamo Laura,
chamo... e que tem lá isso, snr.
visconde?—Atalhou a incognita, com affabilidade, erguendo o falsete
para ser bem ouvida.—É um nome de carnaval, que passa com
os dominós. Quarta feira de cinza torna a filha de v. exc.
a
a chamar-se Elisa.
O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz,
e fallando naturalmente:
III.
—Henriqueta...
Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O
rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta
sensação violenta não podia ser
desapercebida. O visconde, que parecia estranho á
conversação intima
d'aquellas suppostas amigas, não o pôde ser
á
agitação febril de sua filha.
—Que tens, Elisa?!—perguntou elle sobresaltado.
—Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...
—Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...
—Antes para casa—respondeu Elisa.
—Eu vou mandar buscar a sege—disse o visconde; e retirou-se.
—Não vás, Elisa...—disse o dominó,
com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça
inexoravel.—Não vás... porque, se vaes, contarei
a todo o mundo uma historia que só tu has-de saber. Este
outro
dominó, que tu não conheces, é um
cavalheiro:
não temas a menor imprudencia.
—Não me martyrises!—disse Elisa.—Eu sou infeliz de mais,
para ser flagellada com a tua vingança... Tu és
Henriqueta, não és?
—Que te importa a
ti saber quem eu sou?!...
—Importa muito... Sei que és desgraçada!...
Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o
coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.
O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia
tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no
salão do theatro. Elisa satisfez a carinhosa anciedade do
pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse
até mais tarde.
—Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não
é assim?—perguntou Henriqueta.
—Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia
encontrar-te... Que historia me queres tu contar?... a tua? Essa
já eu sei... imagino-a... tens sido muito infeliz... Olha,
Henriqueta... deixa-me dar-te esse tratamento affectuoso com que nos
conhecemos, com que
fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o
destino nos marcava com o mesmo stygma de infortunio...
—O mesmo... não!...—atalhou Henriqueta.
—O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te,
direi que invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...
Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo
desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas
duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque
eram inimigas. A belleza impõe-se á
compaixão. Elisa
era bella, e Carlos era d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle
já sabia decidir-se entre aquellas duas mulheres. A
mascarada
poderia ser, mas a outra
era um anjo de sympathia e
formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde o bello; mas
decide-se pela belleza real, sem mysterio.
Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes
não era possivel avaliar-lhe o
coração
pela
exterioridade da physionomia,
exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos
sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:
—Teu marido?
—Está em Londres.
—Ha quanto tempo o não viste?
—Ha dous annos.
—Abandonou-te?
—Abandonou-me.
—E tu?... abandonaste-o?
—Não concebo a pergunta...
—Ainda o amas?
—Ainda...
—Com paixão?
—Com delirio...
—Escreves-lhe?
—Não me responde... Despresa-me, e chama-me
Laura.
—Elisa!—disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a
mão com enthusiasmo nervoso—Elisa! perdôo-te...
És bem mais desgraçada que
eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu
não tenho senão um nome... sou Henriqueta! Adeus.
Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo
d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com
precipitação, e sahiu do
camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que
se davam tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.
—Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou
Henriqueta; mas não me atraiçoes, se queres a
minha amisade.
—Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem
és? Pódes chamar-te Julia em vez de Henriqueta,
que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo mysterios! Tens-me,
ha mais d'uma hora, n'um estado de
tortura!
Eu não sirvo para
estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...
—Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do
visconde do Prado?
—Não a conhecia...
—Então que mais queres que eu te diga?
—Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes
tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella
mulher...
—Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra...
Estás satisfeito?
—Não... Quero saber que relações tens
tu com esse Vasco ou com aquella Laura?
—Não saberás mais nada, se fores impaciente.
Imponho-te mesmo um profundo silencio a respeito do que ouviste.
Á menor pergunta que me faças,
deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma
mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a
obrigação de te contar a minha vida?
—Não; mas contrahiste com a minha alma a
obrigação de eu me interessar na tua vida e nos
teus infortunios desde este momento.
—Obrigado, cavalheiro!—Juro-te uma sincera amisade.—Has-de ser o meu
confidente.
Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao
quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na
frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou
conversação com a familia que o
occupava. Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se
para um novo enygma.
Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma
analyse rigorosa. Não era possivel,
porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.
—Dominó, porque não deixas vêr este
annel?—Perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro,
como uma viuva rigorosamente enluctada.
—Que te importa o
annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti,
aqui em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula?
Fica-te bem essa côr de esquifes, mas não
sustentas o caracter
artistico com perfeição. A tua tristeza
é
fingida, não é verdade?
—Não me offendas, dominó, que eu não
te mereço essa injuria... A desgraça nunca se
finge...
—Disseste uma verdade, que é a tua
condemnação. Eu, se tivesse sido abandonada por
um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um baile
de mascaras. A desgraça não se finge,
é
verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha
não se ostenta radiosa d'esse sorriso que te brinca nos
labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres que nasceram para esta
época, e para estes homens. Ha outras que a Providencia
caprichosa atirou a esta geração
corrompida como os imperadores romanos atiravam os christãos
ao amphitheatro dos leões. Felizmente que tu não
és das segundas, e sabes harmonisar com o teu genio
folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um
sophá de pennas, onde te recostas com um perfeito
conhecimento das attitudes languidas das mulheres cançadas
do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!... És
a unica mulher para quem este paiz é pequeno.
Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e
as filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e
as aias da duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá
é pequenissimo para as
Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente
pesado em que o coração, nas suas
expansões romanticas, encontra, quasi sempre, a
mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os
respiradouros... Parece que te enfadas de mim?...
—Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me
não deres o incommodo de te mandar retirar.
—És
muito delicada, minha nobre Sophia!... Já
agora, porém, deixa-me dar-te uma
idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar
das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me
cá... Tens uma sincera paixão, uma saudade
pungente por aquelle bello capitão de cavallaria, que te
deixou, tão
sosinha, com as tuas agonias de amante?
—Que te importa?...
—És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com
que te faço esta pergunta?... Quantos annos tens?...
—Metade e outros tantos...
—A resposta não me parece tua... Aprendeste essa
vulgaridade com a filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38
annos, a não ser mentiroso o assento de baptismo, que se
lê no cartorio da freguezia dos Martyres em Lisboa.
Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e
cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30,
amavas com delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35,
amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava...
não me recordo... diz-me, por piedade o nome d'esse homem,
que, se não, fica o meu discurso sem o effeito do drama...
Não dizes, má?... Ai!... eu tenho
aqui a mnemonica...
Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou
vêr um annel... Sophia estremeceu, e córou
até ás orelhas.
—Já te recordas?... Não córes, minha
querida amiga... que não fica bem ao teu caracter de mulher
que conhece o mundo pela face positiva... Deixa-me agora arredondar o
periodo, como dizem os litteratos... Ora tu que amaste desenfreadamente
cinco antes do sexto homem, como queres fingir debaixo d'esse vestido
negro, um coração varado de saudades e
orphão de consolações?... Adeus, minha
bella hypocrita...
Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o
braço a Carlos.