Henriqueta.»
IX.
«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o
coração de reconhecimento.
Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a
injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de
egoismo que entorpece o espirito, e calcina o
coração. E, de mais,
suppunha-te insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui
um disparate, que
eu não ousaria
balbuciar na
presença do mundo. O que vale é que as minhas
cartas não
serão lidas pelas mediocridades, que se acham em concilio
permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas
conveniencias, as heresias do genio.
«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu
fórmo do homem transcendente em genio, em estro, em fogo, em
originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que
se detesta, muitas vezes.
«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns
conheço eu que o mundo proclama virtuosos, e sabios.
Deixal-os proclamar. O talento não é a sabedoria.
Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a
sciencia. O talento é a
vibração convulsiva do espirito, a originalidade
inventiva e rebelde á authoridade,
a viagem extatica pelas regiões incognitas da
idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham
são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós,
Voltaire e Byron são talentos. Compara as vicissitudes
d'essas duas mulheres, e os serviços prestados á
humanidade
por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em
que luctam o talento com a sabedoria.
«Porque é mau o homem de talento? Essa bella
flôr porque tem no seio um espinho envenenado? Essa
esplendida taça de brilhantes e ouro porque é que
contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?
«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á
cabeça d'uma mulher, ainda mesmo reforçada por
duas duzias de cabeças academicas!
«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter
talento. Pedi-lhe as circumstancias do seu martyrio sublime, e
respondeu-me o seguinte com a mais profunda
convicção, e a mais tocante solemnidade
philosophica: Os talentos são raros, e os estupidos
são muitos. Os estupidos guerream barbaramente o talento:
são os vandalos do mundo espiritual. O talento
não tem
partido
n'esta peleja desigual. Foge,
dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por
fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em
silencio aquelle fel de vingança, que, mais cedo ou mais
tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra desviado do corpo do
exercito.
«Ahi tem—acrescentou elle—a razão porque o homem
de talento é perigoso na sociedade. O odio inspira-lhe a
eloquencia da traição. A mulher,
que lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias,
acredita-o, abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando
contra o seu algoz, e pedindo á sociedade que grite com
ella.
«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos
acreditar este doudo. Eu por mim não me satisfaço
com o seu systema, todavia sinto-me propensa a aperfeiçoar o
prisma do doudo, até encontrar as côres
inalteraveis do juizo.
«Seja o que fôr, eu creio que és uma
excepção e não soffra com isto a tua
modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias,
escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha
Thebaida, sem cilicios, sim?
«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim
philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se
diz, que não vale nada.
«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado.
Não era ella, porém, tão
intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra
não era meu
irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o
segredo de nossas relações. Bem longe estava eu
de
comprehender este zelo de virtuosa honestidade, quando a mão
d'um demonio me tirou a venda dos olhos.
«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de
admiração, mas acredita que foi uma urgencia
rhetorica, uma composição artistica,
que me obrigou a
admirar-me,
escrevendo,
de cousas que me não
admiram, pensando.
«Que é o que levou tão depressa este
homem a aborrecer-me, pobre mulher, que despresei o mundo, e me
despresei a mim propria para satisfazer-lhe o capricho d'alguns mezes?
Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha, supposto que esta
vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle... Vasco amava a filha
do visconde do Prado, a
Laura
d'alguns
mezes antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei
quantos centos de contos de reis.
«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao
é verdade, Carlos? Não devo soffrer um
instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com uma grilheta
d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para
não ouvir-lhe o ruido... a sentença
do forçado que o segue até ao fim d'uma
existencia
farta de opprobrio, e celebre de infamias!
«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma
ulcera que não tem cura... choro, porque é
intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não
tenho
lagrimas que não sejam remorsos... não tenho
remorsos que não sejam picados pela affronta que fiz a minha
mãi, e a meu irmão... Não me doe o meu
proprio
aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo,
algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o
desejo de torturar-me...
«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios,
meu paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e
hei-de conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me
converter em estatua, como a mulher de Loth, quando olho com
attenção para o meu passado...
«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu
genro. Vasco não sei como recebeu o convite; o que eu sei
é que os vinculos d'estas
relações estreitaram-se
muito,
e Elisa, desde esse dia,
expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas.
Estas intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás.
Foi ella a propria que me disse que esperava ainda poder chamar-me
irmã! Isto é uma atrocidade
sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias
possiveis! O insulto não podia ser mais
despedaçador! O punhal não podia entrar mais
dentro no virtuoso coração da pobre amante de
Vasco de Seabra!...
Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu
amigo! Tenho direito á tua compaixão, se
não
pódes estremecer de enthusiasmo diante do heroismo d'uma
martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti fugir-me o
entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na garganta...
horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem
uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle
idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem
nos labios um sorriso de imbecilidade...
«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da
minha physionomia... Fez-me não sei que perguntas...
não me lembro mesmo se aquella mulher permaneceu diante de
mim... Basta!... não posso prolongar esta
situação...
«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria.
Pedi-lhe que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia;
eram minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha
mãi.
«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de
almoço, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas:
«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de
ter deshonrado Henriqueta de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna
d'uma corôa de virgem, virgem do
coração, virgem na sua honra, quando abandonava
um villão, que não pôde infectar da sua
infamia o coração
da
mulher, que arrastou ao abysmo da sua
lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a
salvou!»
«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui
á estação dos caminhos de ferro.
«Dous dias depois entrava n'um paquete.
«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as
mãos, e chorei... Era a vergonha e o remorso. Diante do
Porto senti uma inspiração do céo.
Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um
conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.
«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não
m'a negou. Aluguei uma agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos;
onde, ha quatro annos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem
antiga, os cilicios do meu remorso.
«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me
morta, e eu peço a Deus que não haja um indicio
da minha
vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me
denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.
«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que
disse que seu marido a abandonára, chamando-lhe
Laura. Aquella
está punida...
«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma
pequena aventura, que aproveitei para tornar menos insipidas aquellas
horas, em que me acompanhaste... Foi uma rival que não honra
ninguem... uma
Laura com os respeitos publicos, e
as considerações que se
barateiam a corpos ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos
matizados. Ainda eu era feliz, quando o infame amante d'essa mulher me
dava aquelle annel, que viste, como oblação de
sacrificio que me fazia d'uma
rival...
«Escreve-me.
«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.
«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:
«Não me achas mais defeituosa que o nariz
d'aquella andaluza da historia, que te contei?
Henriqueta.»
X.
É natural a exaltação de Carlos,
depois de erguido o véo, em que se escondiam os mysterios de
Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do bello, e pela poesia da
desgraça, Carlos não teve nunca
impressão na vida, que mais lhe incendiasse uma
paixão!
As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem
esperança. Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta,
imprimiu-os n'aquellas cartas escriptas, debaixo de uma
impressão, que lhe roubava a tranquilidade do somno, e o
refugio d'outros affectos.
Henriqueta respondera concisamente ás explosões
d'um delirio, que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta
não podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do
coração.
Esterilisaram-lhe a arvore dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de
sarcasmo e ironia os instinctos do carinho brando, que acompanham a
mulher até á sepultura.
Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se
que havia um estalão moral para todas. Confiava no seu
ascendente, em não sei que mulheres, entre as quaes lhe
não fôra penoso nunca fixar o
dia do seu triumpho.
Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O
amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel,
adquire uma nova feição, e converte-se em
paixão, como as paixões primeiras, que nos sopram
a tempestade no limpido lago da adolescencia.
Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No
lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos
pés d'aquella mulher,
que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.
Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a
imaginação, quando lhe occorreu a astuciosa
lembrança de surprehender a morada de Henriqueta
surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas,
subscriptadas a Angela Michaela.
Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos
empregou n'esta missão um vigia
insuspeito.
No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.º
628. O
que a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e
este homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo
Ovidio. Feliz das vantagens, que lucrára em tal
commissão, correu a encontrar-se com Carlos. É
ocioso descrever a precipitação com que o
enamorado mancebo,
espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa.
Em honra de Carlos, é necessario dizer que aquellas libras
representavam a eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu
favor, por isso que, á vista das
informações que tivera da pobreza da casa,
concluiu que não era alli a residencia de Henriqueta.
Acertou.
A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos
se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para
dizer-lhe duas palavras.
A velha, que não podia receiar alguma aggressão
traiçoeira aos seus virtuosos oitenta annos, franqueou os
umbraes da sua possilga, e prestou ao seu hospede a cadeira unica do
seu camarim de tecto de vigas, e pavimento de lages.
Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado
da chave com que
Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a
á abertura da prosa, e conheceu de prompto as vantagens de
ser classico, quando convém. A velha, quando viu cahir no
regaço duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais
carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo. Luziram-lhe
os olhos, e
dançaram-lhe os nervos em todas as
evoluções dos seus vinte e cinco annos.
Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes
termos:
«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser
repetido, se vm.
ce me fizer um grande
serviço, que
póde fazer-me. vm.
ce recebeu, ha
pouco, uma carta, e vai
entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas minhas
mãos. Estou certo que vm.
ce
não ha-de
querer occultar-me a morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O
serviço que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem,
é este; póde fazer-m'o?
A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir
de encontro á legenda, que D. João V.
fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas
reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de
Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil
á tentação do ouro, que lhe
roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado
refugio.
Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da
rua
dos Pelames, subia a um
terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta.
Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de
chapéo de senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o
rapaz fallou, e a porta foi immediatamente aberta.
Henriqueta estava sem dominó na presença de
Carlos.
Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos
viu, não saberemos nós pintal-a. Era o original
d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel do seculo XVI fazia
saltar
da téla, e consagrava a Deus, denominando-as Magdalena,
Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.
O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da
belleza! Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que
balbuciou foi
«perdão!»
Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que
devia suppor-se-lhe, uma tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que
lhe correra de improviso todo o corpo.
A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu,
e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos,
olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta
revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra
violado. Carlos invocava ao
coração palavras que o salvassem d'aquella crise,
que o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.
Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias
do leitor, que pede contas das
interjeições, e das reticencias d'um dialogo.
O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista,
é que a musa das
lamentações desceu á
invocação de Carlos, que, por
fim, desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta
ouviu-o com a seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro
da fazenda, que lhe conta os chatissismos e massudos negocios das
finanças.
Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e
de resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu
infeliz amante.
As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se
archivarem para escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios
de Jupiter Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que
tiveram a desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume
electrico de seus olhos. Foram estas as suas palavras:
«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveram
ligados por umas
nupcias, que eu pensei não perturbarem
a nossa cara tranquillidade, nem escandalisarem a caprichosa
opinião publica. D'hora em diante, um solemne divorcio entre
os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez
má, em prender-lhe a sua attenção n'um
baile mascarado. Perdoe-me, que
sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu amigo.
Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo
estreito da minha vida, em que a mão de Deus tem derramado
algumas flôres. Se não póde
avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma
mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade
de a deixar sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu
prometto nunca mais alargar a minha alma n'estas
revelações, que morreriam comigo, se
eu podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha
desgraça...»
Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr
sincera, lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas
cartas, debaixo do sagrado juramento de nunca mais a procurar.
Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou
anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se....
E nunca mais se viram.
Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.
Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias
informações, e entrou em casa da mãi
de Henriqueta. Uma senhora, vestida de lucto, e encostada a duas
creadas, veio encontral-o n'uma sala.
—Não tenho a honra de conhecer...—disse a mãi
de Henriqueta.
—Sou um amigo...
—De meu filho?!...—interrompeu ella—Vem-me
dar
parte do triste acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho
é um assassino!...
E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular
palavras.
—O filho de v. exc.
a assassino!... interpellou
Carlos.
—Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o
seductor da minha desgraçada filha?!... da minha filha...
assassinada por elle...
—Assassinada, sim, mas só na sua honra—atalhou Carlos.
—Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus,
eu vos agradeço!...
A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos
sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação
religiosa, que quasi o fizeram ajoelhar
com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....
Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu
irmão, e choravam ambos abraçados com toda a
expansão d'uma dôr represada.
Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem
não saberá descrever nunca.
Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um
convento onde pede incessantemente a Deus a
salvação de Vasco de Seabra.
Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance
da sua vida como um heroismo digno d'outras épocas.
Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz
com o seu segundo marido, digno d'ella.
Acabou o conto.
DINHEIRO! DINHEIRO!
Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um
homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle
é não o direi eu,
ainda que me façam... eu sei cá!? bacharel! Eu
bem sei que não posso encarecer-me com este segredo, porque
ha ahi uma boa duzia de pessoas que o sabem, por triste experiencia,
mais miudamente que eu.
Mas o que é mais bonito, e não sei mesmo se mais
romantico, é que eu conheço pelo menos quatro
primas-donas, afóra as comprimarias, d'esta partitura, que
negam com toda a energia dos seus brios o importante papel que
desempenharam.
Deixal-as negar, que eu tambem não digo quem ellas
são, ainda que me deem o habito de Christo.
Outra cousa:
O muito veridico archivista dos factos, que vão
lêr-se, pediu-me, por tudo quanto ha sagrado no folhetim, que
não divulgasse, nem por sombras, o seu nome.
Não o direi nunca, ainda que me façam...
barão!
E está dito tudo.
Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, começa o
romance, em nome da moralidade, do decoro e dos interesses materiaes...
DINHEIRO! DINHEIRO!
I.
Foi assim que principiou o meu illustre amigo:
—Alli onde o vês é um embryão de
romances desgrenhados...
Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era
uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se
podia contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas
d'um não sei que
desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me
muito a sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos
negros e magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me
áquella petulancia d'olhar, áquelle carregado
provocante da sobrancelha, e, graças a Deus, já
me não custa
tanto.
Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado
corporalmente o snr. Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.
—Com que então (disse eu) é um
embryão de romances aquelle senhor?! Bem me parecia a mim
que
a vida
d'aquelle homem não devia ser
symetrica, pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer
lhe sei de nada! Ando cá tão fóra
das barreiras da sociedade, e dos dramas contemporaneos... que nem ao
menos sei se a mazurka está no quinto grau da
refinação, ou se as polkas cederam o terreno
á
restauração do minuete da côrte... Que
miseria!
—Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria
está escondida no manto de lentejoulas com que esta
sociedade desdentada e trôpega se encobre. E, se
não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de Alvaro
de Sousa, e verás como se vive por lá...
Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser
da fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de
gosos imposta pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem
avós, Alvaro achava-se aos vinte annos n'este mundo sem
saber o fim para que viera, nem a fileira social em que devia
perfilar-se.
—Pois não ha tantos officios?—interrompi eu.
—Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar
n'uma tripeça um homem de intelligencia?
—Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal?
Alvaro de Sousa seria um habil redactor do
jornal dos
sapateiros.
—Estás zombando!
—Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá
porque horisontes vai ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a
tripeça terá uma plastica e uma
esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um
bello ideal? Sabes se
a tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as
mathematicas virão, com a sua geometria applicada
á bota, regular as dimensões do salto? Sabes se a
dynamica será a ultima expressão do pino? E
não
achas aqui n'este complexo de sciencias um succolento
pabulo para um sapateiro talentoso, para um
sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?
—Tenho entendido
que não queres a historia do homem...
Façamos treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu
fechas a torneira ao espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal,
que desperdiças, para os teus folhetins. Farás
rir um fidalgo de raça,
embora o seu quinto avô fizesse borzeguins para a tua quinta
avó. Farás indignar o sapateiro, teu
irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu
irmão pela arte, porque, em fim, eu não sei se a
sociedade dispensa mais depressa os teus folhetins que as botas...
E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena
liberdade de historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que
continúa assim:
—Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu
relacionar-se em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras
mulheres. Eram talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de
iniciação para os noviços que entravam
no faustuoso templo das vestaes em quinta mão.
O rapaz foi mais adiante nas suas ambições.
O coração pedia-lhe alimento, o espirito
pedia-lhe amor, as aspirações anceavam-lhe um
ideal, e o
altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres deviam comprehendel-o no
coração, no espirito, e nas
aspirações.
Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!
A primeira declaração, que balbuciou, teve em
troca um sorrir de despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava,
que o escaldava, por dentro, e achou de gêlo todas aquellas
mulheres. E não era isto
só. Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das
declarações; e algumas galhofeiras senhoras
reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem que, todas juntas,
hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio para que o
servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É
onde podia levar-se o insulto!
Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo
sem luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os
sentimentos generosos com que entrára n'este mundo ingrato.
Pobre! esta maldita palavra, estigma
de reprovação, era o seu demonio das vigilias e
dos sonhos!
Como o supersticioso, que recua espavorido á larva
imaginaria do seu crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se
elles, juizes implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua
pobresa.
Mas um coração altivo de impotente orgulho
não podia transigir com estas leis barbaras da sociedade,
que amputam no coração do pobre os mais augustos
sentimentos da sua vitalidade.
Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e
a pobresa: é a reconciliação do odio:
é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do
affrontado; é uma letra de usura avara de
desforço, a vencer-se, sem praso fixo, mas a vencer-se um
dia.
Esta fôra a reconciliação de Alvaro de
Sousa com as
generosas mulheres da
sua
affeição.
—Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte
d'essa reconciliação...
—Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que
sentia freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e
devora, na solidão do seu quarto, um rancor profundo...—A
mim:—interrompeu uma d'ellas—Que pena! Oh Theresinha, não
é uma
verdadeira calamidade o odio d'aquelle rapaz?—Ai! Maria da Luz! que
triste futuro nos espera...»
E chasqueavam assim o seu
ridiculo
inimigo, perguntando aos amigos d'elle em que dia finalmente as
hostilidades se romperiam.
Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a
vingança impossivel, nas almas fortes, está o
suicidio.
—
Nas almas fortes! (atalhei eu com
gravidade
philosophica). Então não sei eu o que
são «almas fortes!» Cobardes chamo eu
aquelles que desesperam. A suprema das miserias humanas é a
vingança
reservada por causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa
será muito romanesco, mas tambem é um grande
tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao amor d'essas
mulheres? «Despresaram-no porque era pobre»
respondes tu. E se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa
tenha muitas seducções? E porque
não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha bem
bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um
ideal
olympico e metaphysicamente imponderavel porque foi
elle procurar o seu ideal nas mulheres carnalmente vestidas de
tafetás e veludos? A mulher ordinaria, virgem na alma, sem a
depravação das Aspasias que o
repudiaram, não lhe seria mais interessante pela candura,
pela innocencia, e pelo angelico scismar dos singelos devaneios? Eu
não posso soffrer estes Werters caricatos que appellam para
o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos não
póde altear-se ás delicadas
concepções da sua alma! Vai a vêr-se a
mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e
depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos,
incapaz de conceber a generosidade, gelada para as suaves
impressões d'uma amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem
o
espirito da franceza,
mas opulenta como ella de
materia.
Repito: porque
não vão estes impostores queimar o incenso das
suas angelicas adorações
aos pés d'uma donzellinha d'olhos timidos, e faces
purpurinas? Não é tão bello
surprehender o pejo da
innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas lagrimas de um
primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que passa ao longe
do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras, tantas
Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu
sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu
não posso sentir
comtigo
as
desventuras do snr.
Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim, escrevo folhetins, e minto quasi
sempre para encher um espaço de papel. Póde ser
que
digas alguma cousa que valha a pena de captar a
attenção
d'este publico portuense, que lê constantemente, e,
á
falta de romances, por não poder emendar o costume de
lêr sempre, começa a mastigar profundas
lucubrações sobre a doença das
vinhas.—Ora, diz lá.
II.
O meu amigo continuou:
—Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os
intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a
levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram
á alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma
cousa d'um outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava
no quarto o terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto,
d'onde a vivesa e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas
cadavericas d'uma lenta agonia.
—Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram
privilegio dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como
os do Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo,
não é verdade?
—O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente,
ou, pelo menos, desgraçado, que não sei
se é menos, por toda a vida.
Agora, levanta-se o pano do segundo acto.
Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro
bahús atraz de si. Este homem procurou a morada de um seu
irmão; este irmão, que tinha morrido, era o pai
de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia,
era
um rico brasileiro, que acabava
de manifestar seiscentos contos.
Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva
abraçou seu sobrinho, chorando a morte de seu
irmão, que era muito semelhante com seu sobrinho. Deu
graças á Providencia por encontrar um
herdeiro do seu ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem
offensa da metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma
alma muito grande, maior que a alma universal de Platão!
só comparavel
á alma que faz girar um sangue azul nas veias d'um
merceeiro.
Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo,
e respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os
labios vibraram-lhe uma eloquencia nova. O
coração bateu-lhe
pulsações d'um orgulho expansivo. O corpo
endireitou-se na linha vertical que a Providencia geometrica marcou a
todos os que podem parodiar Luiz XIV, e dizer: o dinheiro sou eu!
O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas.
Era um homem regular, com sentimentos de homem não
bestealisado pelo ouro.
Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos,
e deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi,
uma carruagem, e duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o
fausto d'aquella magica metamorphose.
E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,
menos para casar-se, porque detestava as mulheres.
Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com
um folhetim.
—Muito obrigado; não me despeço do favor.
—Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não
prescinde, na riqueza, da vingança
premeditada no infortunio.
Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas
eguas, a sua carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous
mezes, ao fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe
assim um conceito de grave sisudez, e uma plena confiança.
Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel
como ellas, grangeou amisades, que não tinha...
—Necessariamente... Olha que novidade me dás!...
É melhor dizer...
comprou amisades, que
não tinha...
—Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto
pobre, era desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de
través irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era
como os que soffrem rheumatismo agudo, que não consentem uma
mosca no travesseiro. E a pobresa, seja dito em proveito da pathologia,
é o rheumatismo agudissimo da humanidade...
Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.
O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as
relações dos que lhe
eram muito inferiores, e até d'aquelles que repellira na
infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu
não te minto.
—E as mulheres que faziam?
—As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso
é uma historia muito complicada...
—Quaes são as que figuram?
—Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da
Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de
trinta e tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei
porque, Maria da Luz, era a preferida no odio, talvez porque sendo a
primeira a repellil-o, desairou-o, para todas as outras...
Não sei.
Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque
a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a
captar-lhe a benevolencia
para
conservar certos
proventos, que estavam muito em perigo.
O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz
lêr-lhe o seu programma de vingança, mas
achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e esperou.
Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz
sustentar a dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta
safada. Alvaro ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por
fóra. Dava-se uns ares de esquecido, e apertava a
mão da sua victima com a cordialidade d'um bom homem. E
Maria da Luz espantou-se.
Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio
nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar
desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz.
Quando menos se esperava, este homem é demittido, e obrigado
pela fazenda a um saldo de contas que o empobrecia. O brasileiro, que
n'este tempo já era visconde de Sousa, quiz salval-o, mas
encontrou em seu sobrinho um violento accusador das immoralidades
d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra reflectia na face de quem o
protegesse. As instancias redobradas encontraram frio o visconde, que,
por fim, declarou que não intervinha em certos negocios que
delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das conveniencias do paiz, e
da moralidade dos funccionarios. Com este fragmento de
artigo do
fundo, foi despedido o marido da Luz, cujo decahir
para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que subira.
Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.
—Realmente era...
—Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A
mulher, que eu principio a chamar pobre, fechára os seus
salões, e não esperou que os alheios se lhe
fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás
d'aquellas salas desertas,
onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A
desgraça,
ainda assim, não lhe aniquilava a
soberba. Julgava ella que, humilhando-se a Alvaro, encontraria uma
protecção, mas tambem uma ignominia. O marido,
que cahira primeiro na sua miseria, perdeu, primeiro, a dignidade.
Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e encontrou-a sempre negativa.
E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia
chegar.
Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança.
Thereza da Cruz era a segunda victima de Alvaro. Esta não
podia ser ferida nos interesses materiaes. Era rica das suas
propriedades. Era solteira, e amava profundamente um homem casado.
Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a,
senão posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz
fascinava-lhe a cabeça d'aquelle amor-appetite que Stendhal
judiciosamente distingue do amor-paixão. Mas Thereza da Cruz
detestava a virtuosa esposa do seu amante, com toda a raiva d'um ciume
reconcentrado.
E Alvaro sabia-o.
Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com
estrondo e deshonra para Thereza da Cruz.
O que elle fez é uma ignominia, é,
porém uma vingança que medrara em fel durante
tres annos de torturas suffocadas.
Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz,
escripta a uma sua amiga.
O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua
perversa habilidade.
Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.
E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de
relações que a prendiam a um
homem, que se não nomeava.
Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,
que dizia assim: