«Minha querida amiga.
«Sei que detestas Miquelina, e que procuras
perdêl-a no conceito do marido, para conquistares plenamente
uma alma digna de ti. Queres castigar o orgulho d'essa hypocrita que
lamenta a nossa
prostituição?
Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou
por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e
faz-lhe vêr que sua mulher não
é melhor que tu: porque tu és livre, e ella
é casada.
Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.
Tua amiga d'alma.»
D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria
por ellas a reputação de honrada,
se a tivesse.
Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com
indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que
não podia supportar, esforçou-se por
chamar a conversação a respeito de mulheres
casadas, e
avançou a proposição de que
não havia uma na
primeira roda, que não fosse adultera. O amante protestou
colericamente contra o absoluto da proposição.
Defendeu sua
mulher com ares de Collatino, e exprobrou acremente a maledicencia da
insolente.
A indignação ferveu: trocaram-se epithetos
ultrajantes. D. Thereza foi uma eloquente regateira, e o seu apaixonado
repetiu as phrases mais peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza,
chegado o momento dramatico, apresentou-lhe as suppostas cartas da
esposa.
O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado
pelo demonio.
D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa
felicidade em sua vida!...
—E depois?
III.
—Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a
velando o somno de um filhinho, que tinha no berço.
Perguntou-lhe o marido o que ella fazia a pé á
uma hora da noite. Miquelina respondeu que
o esperava para lhe servir a cêa, por isso que as creadas,
fatigadas de trabalho, não podiam esperar que seu amo se
recolhesse, alta noite, para repousarem.
O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma
senhora virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica
de tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a
voz dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma
carta aberta: «Conhece esta letra,
senhora?»—É minha, penso eu—respondeu ella com
promptidão.—«Já sabe naturalmente que
carta é
esta.»—Não sei... será escripta
á Antoninha? ou á prima
Angela? eu não escrevo a mais ninguem.—«A mais
ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais
ninguem?»—Juro que não, juro que
não... deixa-me vêr
essa carta, Luiz, deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela
boa sorte
da nossa filhinha.—«Veja.»
Miquelina leu estas duas linhas da carta:
Dous dias
é uma ausencia insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a
minha vida tenha algumas flôres...
Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os
gritos da desesperação! A surpreza
transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe o dom da
palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido retirou
aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um motim, um
tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina, exhausta de
forças, e
convencida da realidade daquella infame allusão, desmaiou.
Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração.
Reconheceu que havia alli uma dôr legitima. Ficou
estupidamente perplexo, e fazia dó n'esta duvida afflictiva.
Mas a innocencia, filha da justiça de Deus, devia triumphar.
Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na
subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu
aterrou-se seriamente.
Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a
seguinte carta:—«Deves possuir quatro cartas, que te foram
dadas por Thereza da Cruz. São quatro documentos
inqualificaveis da infamia d'essa mulher. Tua virtuosa senhora
escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da Cruz pôde
obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra da que
ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua
senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe
perdão, se lhe
já lançaste em rosto a calumnia forjada pela
ignobil mulher a que vives associado. Se apesar de tudo, tiveres a
impudencia de continuar relações com Thereza da
Cruz, hei-de
eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do teu caracter para
engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.
Um teu amigo.»
Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous
medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal
sabia ella que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença!
Eram tocantes as lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando
palavras inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar
aquella nova surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo
d'aquella scena, sem a comprehenderem.
«Peço perdão a minha virtuosa mulher!
(exclamou elle) perdão d'uma affronta, d'uma calumnia, que a
reduziu
a esta situação... Na presença
de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»—Sim,
sim,—bradou ella com enthusiasmo febril—eu perdôo-te de
toda a minha alma, Luiz, de todo o meu coração,
meu esposo querido!...
Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e
foi feliz, verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.
Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.
Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma
entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe
concedida.
Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta
que devia ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu
tomou aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e,
sem dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões
d'um chicote. Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio
da vergonha; mas quando a dôr physica dominou a moral,
gritou. Abreu retirou a passo rapido. Thereza fugia, quando um segundo
homem lhe lançou a mão. Ella reconheceu-o, e
pediu que a deixasse. «Não, minha
senhora,—replicou o seu conhecido—eu
não posso consentir que v. exc.
a seja
assim desfeiteada na
rua como uma mulher de alcouce...»—Deixe-me, deixe-me... por
piedade, snr. Alvaro de Sousa!
E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota
coral.
Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e
perguntou a D. Thereza se aquelle homem a insultara. D. Thereza
respondeu que não, que ninguem a insultara. Alvaro, que nem
zombando mentia, desmentiu a sua velha
amiga, dizendo que elle a vira
chicoteada cruelmente por um homem, que fugira; e que o mais que a tal
respeito podia dizer era que esta senhora morava
n'aquella casa,
era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D. Thereza da
Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas
informações ratificadas por s. exc.
a
Perguntou-lhe o nome do
aggressor, e ella
respondeu que o não dizia.
Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em
que a pobre mulher se viu! A patrulha não queria largal-a;
mas Alvaro de Sousa capitulou por uma libra com as imperiosas
exigencias da guarda municipal, e conseguiu a liberdade da pobre
mulher.
E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe
com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu
comprei com uma libra a satisfação de pagar a v.
exc.
a a menor
parte d'um grande serviço que lhe devo... Eu não
pude
esquecer-me nunca de que v. exc.
a com algumas
amigas suas, cumpriram
uma novena a Santo Anastacio, para que o servinho de Deus
alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que me atacou...
Tenha v. exc.
a uma noite feliz.»
E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.
Alvaro de Sousa estava vingado.
—Tens mentido com a mais soberana presença de
espirito!—atalhei eu.
—Não minto, juro-te que não minto...
Estás muito em occasião de verificar estes
factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de consegu
Estás muito em occasião de verificar estes
factos... Deseja conseguir a verdade, que has-de conseguil-a.
[3]
E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que
qualquer destemido despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...
—O rigor da chronologia—proseguiu o implacavel noticiador—exige que
eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.
A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de
raiz
confiscou-os a fazenda: os moveis estava designado o dia de
leilão em que deviam ser vendidos.
O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera
que sua mulher ridiculisara as pretenções
de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de vergonhosa pobreza. Bem conhecia
elle a indignidade a que tentava forçar sua mulher,
instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que tinha fortes
razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal
conceito de nobreza de coração, e sensibilidade
d'alma que qualquer
marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na
hora critica d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.
Maria da Luz, por fim, conveio na pessima
situação em que se achavam os negocios de seu
marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra que
a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos
n'estas côres.
Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era
pedido o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.
O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram
estipulados doze annos seria reformada pelo praso de duas horas......
Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no
coração, foi a raiva: o segundo foi
a vergonha: o terceiro foi a negociação com as
condições do titulo reformado, conforme a vontade
do credor.
E respondeu affirmativamente, com a sagrada
condição d'um segredo inviolavel para seu marido.
E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz,
com esta carta:
«Meu caro senhor.
«Conforme á negociação que
acabo de fazer com
sua
senhora, remetto doze mil cruzados. Da inclusa carta da exc.
ma
snr.
a D. Maria da Luz, verá v. s.
a
que este contracto
é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em vantagem minha
é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade que
eu não sei se está
hypothecada a v. s.
a Supposto me devessem
ter sido
dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu
não tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra
transacção
que possamos ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante,
nos devemos ambos considerar com mais ou menos jus á mesma
propriedade. E, como eu tenha resolvido cedêl-a em beneficio
de meu lacaio, v. s.
a não
terá duvida em
consideral-o com os direitos que eu possuia.
De v. s.a
attento venerador
Alvaro de Sousa.»
—E depois?—interrompi com anciedade.
—Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...
—Não digo... palavra d'honra!
—Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da
Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente
com sua mulher.
—Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?
—Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.
—E das outras?
—Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma
vingança que não póde ser
romantisada por ser muito simples.
O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.
Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.
Querem saber onde tudo isto aconteceu?
Agora é que v. exc.
as vão
ficar
surprehendidas...
Foi em Pekim!
Salvei a moral publica!
Cante-se o hymno!
A CAVEIRA.
PROLOGO.
Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances,
é capaz de dizer que a lua não tem habitantes, e
as alfandegas ratos.
A provincia de Traz-os-Montes é um sertão
desconhecido, um retalho de Portugal segregado da
civilisação; mas não deixa por isso de
ter uma chronica de
tradições barbaras, que virá
archivar-se em folhetins, quando os caminhos de ferro, construidos
pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das
intelligencias com as florestas virgens d'aquella região
polar.
Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da
civilisação madrugou para todos. A viabilidade
discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se extasia
nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia rural,
auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria do
augmento do salario pela facilidade dos
transportes. Ha
lavradores que addicionaram á leitura do
Borda d'Agua as prelecções escriptas de economia
politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao mercado de
Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O enthusiasmo
é universal. A expansão
fervente dos interesses materiaes, a febre eloquente da viabilidade, os
traços profundos e rasgados, com que as intelligencias
financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da nossa prosperidade,
não são já um
exclusivo da mocidade jornalistica.
O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em
cuecas, fóra da cama, sonhando-se impellido por um wagon,
doudeja de jubilo ao vêr-se comprehendido, no seu ardente
apostolado, desde Monção
até ao Cabo da Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas
frontaes, cada vez que o alvião do operario rasga no seio da
terra o tumulo do carroção ignobil! (Isto era
escripto em
1853...)
A mocidade é assim. A força creadora do talento
ha-de supprir a debilidade do thesouro. Onde os capitalistas
não chegaram, hirá o artigo de fundo, palpitante
de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a aterrar com as
forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos
periodos arredondados artisticamente.
E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas
irradiações do foco civilisador.
Um dia, os povos do Marão, agrupados nas cristas das
serranias,
verão lá em baixo passar o traço negro
do carril; e
cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as
campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!
Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados
pela
leitura repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de
sócos e coroça, nas azas do
carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e
influir seriamente no futuro da empreza lyrica.
Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas
terão uma associação industrial, uma
caixa filial, um gabinete de leitura, e um centro promotor das classes
laboriosas. O cavador, na hora da sesta lerá, na vinha, de
barriga ao ar, o
Tymes, e
Benjamin Constant. O proprietario, entregue ás subtilezas
economicas, que
distinguem o cabedal da renda, andará em guerra littetaria
com o seu visinho da aldeia proxima, por causa d'uma falsa
interpretação aos sophismas de Bastiat.
N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O
proletariado,
filho da estupidez, não virá coberto de farrapos
pedir um bocado de pão, no banquete social, por conta do
futuro fomento. Pouco ha-de viver quem não vir tudo isto.
Será então chegado o momento solemne de pedir
á provincia do norte a historia do seu passado.
Serão
exploradas então as minas de poesia, entulhadas pelo
obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes
encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de
castellan. O leitor pedirá uma heroica lucta de dous
infanções armados da fidalga espada, e
verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito
de apaixonado melindre.
Mas não será em tudo assim a chronica obscura da
provincia, onde vivi alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos
para longos trabalhos de muito proveito esthetico, plastico, artistico,
e não sei mesmo se cubico, anomalo, e hybrido.
A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade,
póde ser confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que,
pelo menos, viviam, ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa
authoridade, porque tenho direito a ser acreditado em romances, que tem
a honra de assentarem n'uma sincera base.
A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o
publico illustrado. Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado
Martim de Freitas,
obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello
da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado
por um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma
cornucopia de asneiras este litterato,
fallando de Portugal.
O publico tem direitos sagrados, e é realmente
ultrajar-lh'os, querel-o capacitar de que Mafra é um porto
de mar, e Leiria uma cidade archiepiscopal, e monsieur d'Evora
cidadão portuguez.
Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a
viabilidade, e o fluido transmutativo são a
tripeça em que está sentada a
civilisação.
Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra.
A CAVEIRA.
I.
Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos.
Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena,
mas decorada de grande brazão d'armas, e não sei
quantas ameias
modeladas pelos pilares das açoteas mouriscas. O leitor,
que, por louvavel curiosidade, quizer, de perto, capacitar-se da
fidelidade architectonica d'esta casa, vá a Villa Real, e na
rua do Cabo da Villa, pergunte pela
casa de D.
João de Noronha. Não terá de que
maravilhar-se, a não
ser da sisuda gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta
historias interessantissimas.
Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.
O
dom é quasi sempre,
entre portuguezes, indicação de fidalguia remota;
mas em D. João de Noronha era
uma
irrisão para o povo, e uma ignominia affrontosa aos fidalgos
da terra. E a razão é esta:
Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula
Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da
casa.
Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um
freguez por causa d'umas tombas, matou-o desastradamente. A
justiça apanhou-o, e condemnou-o a pena ultima.
D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir
salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os
extremos de D. Paula pelo condemnado, e attenda-se á
época em que os grandiosos
esforços d'uma fidalga são anciosamente
empenhados na
salvação d'um arrastado verme da plebe.
D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho
bastardo de seu irmão, e como tal o
perfilha. Desde que esta adopção foi consignada
no livro
dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha
está salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e
a lei, esmagada sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o
réo a cinco annos de degredo para Castro-Marim.
O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de
figos do Algarve; e, honra lhe seja feita,
á hora da morte, declarou que vivera sapateiro e
christão, e como sapateiro pedia perdão aos
homens, e como christão a Deus porque muito queria
salvar-se.
Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro,
porque não quiz partilhar das honras heraldicas de seu
irmão, que, pelos modos, não eram muito
lisongeiras para a memoria de sua mãi.
Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna
avultada, adquirida na bigorna.
João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se;
mas o amor tolheu-lhe as vocações ardentes do
sacerdocio.
Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes.
João da Silva invejava o acaso d'um nascimento, e
desesperava-se na impotencia de associar-se dous appellidos euphonicos,
que o guindassem á região dos homens superiores
em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha superior
em raça ao onagro de Cacilhas.
Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se
encabeçasse na linhagem, embora bastarda, de seu tio, que
morrera legalmente inscripto no livro dos costados a folhas 1473.
João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse
instante. Tirou uma certidão, hypothecou metade da sua
fortuna ao fôro, e consegui-o. Não diremos
ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que lhe recebeu
os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado de hoje eram
litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres
móres do reino.
A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria.
Fechou os seus salões ao adepto insolente, que
ousára assignar-se D. João de Noronha, e
mandára
insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos Noronhas,
É tradição em Villa Real que os Pintos
Coelhos, representados hoje por José Antonio Teixeira Coelho
de Mello Pinto da Mesquita, mandaram borrifar de sangue as armas de D.
João de Noronha. Nada fez recuar o proposito do filho do
ferreiro. Os tempos correram, mas os odios ao pobre homem
não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D.
João, seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza,
com tanto que as differenças no azul do sangue fossem
saldadas com o amarello do ouro.
Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem
creança, e respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a
mais sisuda tolerancia. Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se
com uma donzella (oitava maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com
aquelle par conjugal, e
quiz
ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões
delirantes, as ternuras idealissimas. Não pude; e o leitor
perdeu muito com isso, que eu não era homem de privar d'um
capitulo precioso a
Physiologia do
Casamento de Balzac.
O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra
linha no mappa-mundi das minhas observações; e o
meu caro D. João
morreu poucos dias depois de sua mulher, e é de
crêr que,
abraçados em frenetica paixão, renascessem,
viçosos e frescos
como Paulo e Virginia, em mundos novos, e novas
constellações. Assim seja!
Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser
admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei
n'uma caveira, contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau
preto, enviezado de arabescos de marfim.
Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor.
Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre
cobria aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não
concebi que
relação podesse existir entre aquella caveira e a
paixão de Jesus Christo não ousava,
porém, interrogar-lhe o profundo
mysterio.
Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e
encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na
presença da caveira. Voltou-se de repente sentindo-me os
passos, e eu não pude recuar sem ser conhecido. Vi-lhe
lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos meus leitores de
coração
petrificado chorariam, se vissem a sincera angustia d'aquelle rosto
venerando.
—Venha cá—me disse elle—que eu não tenho
vergonha de chorar; Choram-se na decrepitude os risos da mocidade.
Entra-se no tumulo a chorar como se entra na vida.
Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha
aprendido estas
palavras artificiosas, com que fingimos um
quinhão de sentimento impostor. Então senti e
chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita
melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia
diz que choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf.
—Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia—proseguiu o
consternado ancião.—Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca
o senhor me perguntou o segredo d'este craneo. Eu gosto de quem
respeita a dôr alheia. Quero pagar-lhe essa fineza invocando
do tumulo do meu coração o mysterio, que aqui
está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr
da minha historia, respeite o meu silencio... É que
não poderei... Talvez
possa... O coração... dizem que manda aos labios
muito do
seu fel, quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma
grande desgraça... Será assim? Eu
não sei... vel-o-hemos.
Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia,
onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo
para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é
um livro. Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma,
hoje, que, ámanhã, talvez a pedra
rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu durmo alli o
suspirado somno do infeliz...
II.
D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o
cotovello á mesa da redoma, principiou a historia do seu
segredo, em tom de profunda commoção:
«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha
sessenta e oito annos que eu estudava latim no convento
de S. Francisco.
Era minha tenção
ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou
ambições de subir na
posição social. Quiz ser padre, e era-o, se
nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a
cruelissima amputação da
vida da alma, em commercio com o mundo.
Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,
perdi o imperio da vontade, e as fervorosas
vocações do sacerdocio. Adorei uma
d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de
desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma
chaga, aberta no coração com um ferro em brasa.
Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso
d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,
finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.
No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos.
Então apaixonava-se um homem, e sentia-se perdido para a sua
liberdade, e escravo de uma angustia interminavel. Eu, por mim,
senti-me ultrajado por uma traição
incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas
ignobeis que me prendiam á deshonra d'um abandono
injustificavel.
Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me
roubára cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por
ella se despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida
por uma paixão, que devia matal-a! Tive então
dó d'aquella flôr,
que se desfolhava na madrugada da sua primavera? O meu amor era grande
e generoso! Pedi-lhe que fosse minha irmã, minha amiga...
Nem isso!... nem se quer me aceitou um conselho de pai na hora em que
mais precisa lhe fosse uma protecção que a
salvasse da deshonra, a que
se tinha cegamente abandonado.
Eu valia menos que Pedro de Mesquita.
Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre;
conquistara-se uma
opinião de heroe; batera-se
ardidamente como um leão nas ultimas batalhas. Era aqui
apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos triumphos difficeis
do amor.
E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha
a despresar-me, devia ser tudo isso.
Era muito linda esta mulher! Diziam-no as
emulações, os odios, e as intrigas, que a sua
formosura causára entre pretendentes, que não
queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.
Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria
e filho segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não
tenho necessidade de mencionar-lhe.
Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque
Pedro de Mesquita não tinha concessões a esperar
para ser mais amado que outro qualquer.
Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim
podesse afastar de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem
que tão caro devia ser-lhe. E era.
Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á
porfia um ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa
confiava demasiado em si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o
debil adversario.
O momento ambicionado chegou.
Era quinta feira santa.
Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S.
Francisco.
Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais
proximo, lugar de Martha. Pedro de Mesquita viera depois, e mordera
colericamente o beiço inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz
sahir; não a deixaram as multidões
espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era
muito despreso para a altivez do seu caracter.
Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha
sumiu-se nas turbas. Dous homens apenas, como
duas
estatuas, se fixavam sós,
e immoveis, na nave da igreja.
Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e
rapidas palavras, e desembainharam os fains.
Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor
chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o
desejo de matar, ou morrer.
Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas
benziam-se horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de
espedaçarem o forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre
o seu patricio era indubitavel, e perigosa.
Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor
não tinha já um botão na farda, quando
Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a defesa, se sentiu
ferido ligeiramente no braço esquerdo.
A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com
aquelle sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e
cahiu banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra
o assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve
mão que lhe tocasse.
III.
Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da
desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o
florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um
braço, afastou-lhe os botes, com admiravel
presença de espirito.
O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal,
redobrava de escandalo. Não se atravessavam as
multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho
desacato. A causa do seu espanto
não
era a moral
ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como
razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo
Sacramento, quando dous homens se cortavam a ferro frio.
As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de
captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por
meirinhos; e não houve
desgraçadamente authoridade militar que capturasse os
duelistas.
Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no
sangue, que os recursos da cirurgia não
estancára,
desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes de cavallaria,
ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica,
affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na
rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de
«morra!» Os que assim gritavam diziam que estava
exposto o Santissimo Sacramento; e, por tanto, não podiam
deixar de matar o impio que
desacatára, em quinta feira santa, a solemnidade da
paixão de Christo. Como elles saciavam a sede de sangue com
o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no milhares de
factos semelhantes que acompanham sempre a edificante historia dos
muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em Roma, como
em Constantinopla.
Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava
á janella quando viu entrar seu irmão nos
braços de dous
soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o facto. Contaram-lhe, com as
mais irritantes circumstancias, o acontecimento.
Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes,
sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo
d'este capote, levava um bacamarte.
Quando chegou á entrada da
rua do Jogo da
Bolla, viu um grupo de povo, que parecia vedar a
sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a
quem
faltára
a coragem para
affrontar a força bruta da
populaça.
Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante
d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe,
tigre desenfreado da
licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que
um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.
Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a
multidão. Descobriram-se todos, exclamando: «Chega
o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»
E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu
irmão.
—Assassino... não!...—respondeu o alferes.—Fui eu quem o
feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.
Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os
que podem contar muitos avós robustos de musculos, e nenhum
de vigor intellectual, não comprehendeu a delicadesa
d'aquella resposta. O que elle praticou é um acto de
barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atraz,
aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no
peito.
Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de
meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de
arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da
janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos
tormentos possiveis n'esta vida.
Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que
subira, alentado pela coragem da minha dôr, as escadas
d'aquella casa, e levantára
da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim...
não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa,
sem atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da
Misericordia, orava, talvez,
á Virgem protectora das virgens...
Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as
turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror
gelára os poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem
ousou, sequer, lembrar-lhe que aquelle sangue lhe tingia os
pergaminhos!
O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance
d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz.
Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.
Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante
mula, e seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em
Almodena, caminho de
Lisboa. E, para que esta circumstancia me não
esqueça,
dir-lhe-hei que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos
seus pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de
real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de
Mesquita.
O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao
fidalgo, que passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a
altivez do assassino, que zombára da lei.
Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os
sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.
IV.
É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica
d'este quadro negro... Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se
não tivesse um heroismo de virtude para a
admiração, e uma santa para o culto das almas
nobres, e apaixonadas pelo sublime do martyrio.
Por ventura, póde o senhor comprehender a
situação d'um homem, que tem desmaiada nos
braços aquella por quem fôra
atraiçoado...? Não
é bastante comprehender
isto:
é
necessario compenetrar-se mais da minha
situação...
Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo
indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me
sacrificaram a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu
rival... Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha
situação?... Não comprehende,
porque se eu lhe disser que n'aquelle trance original o meu sentimento
era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival
assassinado, com tanto que Martha não fosse assim
desgraçada... o senhor,
por certo, não concebe este phenomeno, este sacrificio...
esta monstruosidade de resignação... Quem
sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por
muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos,
não é assim?»
Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D.
João me adivinhára. Córei, de
certo, quando fui surprehendido no segredo dos meus juizos. Nada
menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um
pungente assentimento á sua conjectura! A dôr
é generosa, e cala as affrontas.
Reconheço hoje que ultrajei aquelle grande sacrificio, que
comprehendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade
melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente
philosophico, diria que o diabo não quiz nada com rapazes, e
D. João de Noronha, de certo, não era mais
privilegiado que Lucifer para tirar de mim melhor partido.
D. João proseguiu:
«A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos
braços. A mãi, que prophetisára,
em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha,
apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle
lethargo, com afflictivos gemidos.
Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos
anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. Não
chorou uma só. Em quanto os sinos dobravam a finados pela
alma dos dous amantes, Martha estremecia, mas não posso
dizer-lhe como era aquelle tremor... A corda d'um instrumento ferida, e
deixada ao impulso da vibração estremece assim.
No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender
serenamente a cabeça nos
braços de sua mãi. Felicitamos-nos pelo repouso
da infeliz. Imaginamos
que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo menos, mais desabafada
d'aquella agonia que lhe suffocava não só os
gemidos, mas até a
respiração. Esperamos... mas quem não
esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que
não era Christo para restituir a filha á viuva de
Nahim.
Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se
morre assim? Dizem que a morte é a
aniquilação da materia...
mas aquelle anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da
destruição nos revelassem o rapido dilacerar
d'aquella morte! Quem dirá que aquella mulher soffreu no
corpo? Ninguem! A alma, só a alma, este ser immortal que
foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no
seu mysterio de dôres inconcebiveis, reluctando por estalar
as algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e
só a alma, meu amigo, consummou aquelle trance de
incomportavel inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...
Agora principia a minha scena n'esta tragedia... É
só minha, e só eu a comprehendo...
mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei á igreja de S. Francisco
o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao pé da
sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos
successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a
nossa eterna separação.
Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar
n'aquella sepultura durante tres annos.
Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a
pedra que cobria os ossos de Martha foi levantada.
Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror,
agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do
Santissimo Sacramento.
O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava
machinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.
Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado
pelas larvas que a desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade
revocou em volta de mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a
ella... como nos dias da sua esplendida formosura illuminada pelo
resplendor da sua innocencia, purpureada do pejo com que a candura se
rende ao imperio dos instinctos... Era ella, quando, nos primeiros
tempos da nossa infancia, me offerecia de seu
coração a parte que não podia
dar a sua mãi, e a seus irmãos... Era ella,
quando me perguntava o segredo d'aquella
attracção irresistivel, que a
arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia
ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que
sua mãi lhe não explicava nem
realisava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o
ecco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da
igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a phantasia
esfriava-se ao roçar pela mortalha d'aquelles ossos, e eu
sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me
vinha cahir aos pés.
E depois... as larvas, que a razão não podia
espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se
nas grades do côro, a tremularem por entre os cortinados dos
altares, e a esvoaçarem na abobada
do
templo como nuvens
escuras, espedaçadas pela tempestade.
Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a
face lacerada pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu
amigo... É impossivel que a imaginação
me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz...
senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus
pés...
perdoei-lhe... chorei com ella...
A voz d'um homem chamou a minha alma á realidade acerba
d'aquella scena, que se me figurava um sacrilegio, uma
profanação.
Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou
com os ossos.»
Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me,
e coou-me nas veias não sei que terror
semelhante ao do sacrilego, que não tem ainda bastante
barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de si proprio,
quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no calix, que
rouba.
Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham
agora para mim uma
superstição, um cunho sagrado, que me fazia na
alma não sei que pesar semelhante ao remorso.
Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do
coração, que se arrependera. Quiz deixar intactas
aquellas cinzas. Luctei comigo para vencer um excesso de medo, um
abuso, talvez, da imaginação. Não
pude; mas não pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um
ser sem alma, uma recordação para as lagrimas, e
uma
gloria só minha n'este mundo... a gloria de possuir na morte
uma companhia que tivesse sido incentivo de lagrimas, já que
não pude conseguir como companheira na
vida essa preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos
na eternidade.
Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos
longos soffrimentos d'um homem, que
atravessou uma
longa existencia, sem conciliar com os prazeres do mundo
a eterna viuvez da sua alma!
Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das
feições com que a vi partir d'este
mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos que me vêem...
olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos
d'esta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira,
animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das
contorsões freneticas da
desesperação... Ha alli n'aquelles ossos, onde os
labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante,
me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas
minhas dolorosas contemplações,
aqui diante d'esta redoma... Ás vezes juraria que essa
caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim,
balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo á
sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes
do nada... ciumes d'estas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da
memoria d'outras cinzas, que, ha tres quartos de seculo, esperam o dia
final... É
lamentavel a situação d'este pobre velho, que
não
pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa chimeras,
não é assim?
Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o
não disse, nem lh'o diria, se lhe
não acreditasse umas lagrimas que lhe vejo nos olhos.
Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na
dôr. O que eu não creio
é na morte. A morte é uma palavra convencional,
com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio
d'uma nova existencia. A immortalidade é uma
idêa abstracta de tudo que é comprehensivel aos
homens. O homem não explica a immortalidade, em quanto
não sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se
me comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia
bruta, e termina nos espiritos. As funcções
do espirito, sem fórmas
corporeas, pertencem á creatura, superior ao homem. Ora, o
homem não explica essas funcções, que
devem ser a sua futura
existencia, pela mesma razão que o animal, inferior ao
homem, não comprehende as funcções do
pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no
homem. Todos os seres, por tanto, vão subindo na escala da
intelligencia. Todos se transfiguram de fórma em
fórma até
deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos
espaços incognitos como vagam os espiritos. É
lá em cima,
nas proximidades do grande mysterio, ao clarão da eterna
luz, que se lê o livro de Deus. É nas
regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo
orgão
espiritual em que recebi a interminavel impressão de agonia,
que foi na terra a minha lenta peregrinação. O
amor ardente e sublime não é um attributo do
espirito?
Aquelle que muito ama, e muito devorado morre de paixões
grandes e ideaes, não é um propheta da vida
futura, uma preexistencia do futuro amor? A não ser o amor,
qual será a existencia do espirito?
Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que
quiz elevar o seu espirito á altura das minhas grandes
doutrinas, do meu querido segredo. Quiz convencel-o, não
digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa eternidade em que ahi se falla,
despida de affectos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me
dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...
Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho
exaltações de jubilo, aqui, n'este quarto, onde
conto, ha perto de setenta annos, os minutos da minha existencia. Este
goso é a minha convicção na
immortalidade... É a minha esperança, confirmada
pela
meditação e pela sciencia, de que hei-de
encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do
céo...
Basta... Seja digno da minha confidencia... Não diga
ás turbas de Villa Real os segredos de D.
João de
Noronha. Aqui escarnecem-se os que soffrem, logo que não
soffrem pelas más colheitas do vinho, ou pela
barateza dos cereaes. Não falle a linguagem dos espiritos,
onde a materia organisada dispõe do machinismo da bocca para
lhe dar uma gargalhada em resposta.»
D. João de Noronha despediu-me.
Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas
communicações. Aprendi com elle a
sciencia do espiritualismo. Se depois me materialisei, é
porque a faisca d'aquelle genio não me tinha abrasado mais
que a superficie da materia. O espirito tem a força dos
imponderaveis. A força da materia póde muito bem
calcular-se pela força dos vapores...
tantos
cavallos.
Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:
—Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86
annos de idade, com uma donzella sua contemporanea?!
—De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João
não podem considerar-se physicas nem
moraes. «Absurdo!—replica a espirituosa dama.»
Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma
pequena fortuna, e queria deixal-a a uma creada, que o servira
desveladamente toda a sua vida. D. João encarava
philosophicamente as formulas sacramentaes do casamento. Achava-o
utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se para recompensar
uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe enxugou nas faces
mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do sacrificio. Poucos dias
supportou a viuvez.
—E a caveira?—perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.
—A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de
Noronha. A viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na
mesma mortalha.
UMA PRAGA
ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.
UMA PRAGA
ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.
Este romance não devera chamar-se
«romance.» Desde que esta palavra é o
atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções
do escriptor phantastico,
não ha historia verdadeira que possa, como tal,
recommendar-se com aquelle titulo.
Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e
affeiçoados ás leis do estilo
romantico, são verdades que não deram brado, nem
se gravaram
na memoria da geração que as viu e as
não comprehendeu.
Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No
drama da familia ha lances que são do dominio do publico, e
o publico não
póde, ainda que o tente, explical-os. Nas
attribuições
individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento,
que esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina,
reputando-lh'as effeitos necessarios das causas, consequencias do crime
voluntario.
A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do
homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua
redempção do genero humano.
O homem é, desde o seu principio, a victima da culpa com o
labio collocado no calix da agonia.
A vida sobre a terra é uma interminavel
expiação. Eu pago pelos crimes de meu pai, meus
filhos expiarão meus crimes, e o ultimo ser vivo da
animalidade intelligente será o holocausto do primeiro homem
criminoso.
É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao
sobre-natural, ao mysticismo da providencia occulta para comprehender o
que vulgarmente se diz «fatalidade.»
Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel
esta necessidade, tão aterrado se sente o espirito diante
d'um facto consummado, que eu não tive escrupulo religioso
ou philosophico em subordinar um encadeamento de infortunios d'uma
familia á
praga rogada nas escadas da
forca.
I.
Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre
materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados
d'uma pobre mulher d'aldêa.
Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher
do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o
segredo do
nobre, que se dignára
descer até ella para honral-a com deshonra.
Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus
companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais
preguiçoso.
O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse
comprehender a
dôr immensa d'um grande desastre.
Lá dentro n'aquelle coração infantil
fallava uma
prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no horisonte negro do
seu futuro, o pobre moço não tinha uma
hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o
d'aquelle lethargo; e o braço, que estava suspenso com a
agulha, continuava a tarefa molhada de lagrimas.
Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para
aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por
todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.
Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era
ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo «Bernardo
Engeitado.» Nunca ninguem
se lembrou de reputal-o filho
d'alguem: nem Lucena se lembrou,
alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados á
roda, poderia ser seu lacaio.
Bernardo era creado de taboa.
II.
Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas
horas livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo
palacio de seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava
sem saber porque.
Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e
estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a
dos amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no
por compaixão.
Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com
um não sei que de estranha delicadesa.
Destacava-se da sua classe
com um ar orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas
muitas
obrigações, e ninguem sabia quando as cumpria.
Estas qualidades, rarissimas vezes encontradas n'um lacaio, tornavam-no
assumpto de estudo para os amos que principiavam a interessar-se na
analyse d'aquelle obscuro engeitado.
Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os
fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lêr, e
gastava a maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as
lições que o mordomo da casa lhe dava nas horas
de desenfado.
Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou, é certo que
o amo, por um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma
escóla, e para isso alliviou-o dos encargos de
moço de taboa, e levou-o á
jerarchia de escudeiro do menino mais velho.
III.
Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com
intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprêndera
só comsigo a grammatica
portugueza, visto que seus amos lhe não tinham permittido
esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir
ao servo sciencia que os amos não tinham! O muito illustre
Francisco de Lucena não daria o menor dos seus galgos pela
vasta sciencia do Lobato. E, talvez, tivesse razão.
Em casa de fidalgos d'esta bitóla, quando um creado adquire
a confiança dos amos, ha sempre para isso uma de duas
razões. Ou o creado, devasso como elles, encobre
astuciosamente as devassidões dos amos; ou se torna
estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as,
já que não póde reprehender-lh'as.
Bernardo estava na segunda razão. Os filhos de Lucena eram
livres e desmoralisados a não poder ser mais. Quizeram
captar a benevolencia do servo, não para
aconselhal-os, que não desciam elles a isso, mas para
acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o
braço do plebeu é muitas vezes a
salvação
das costas do fidalgo.
Não o conseguiram nunca; mas tambem não tiveram
de arrepender-se da confiança d'esse convite. Bernardo
exercia uma influencia admiravel sobre os nobres libertinos. Era a
superioridade da intelligencia. Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto
das suas idêas, e da linguagem escolhida com que o engeitado
se sahia! O facto de ser engeitado era em Bernardo, talvez, um motivo
de superstição n'aquella casa. Se elle fosse
reconhecido filho d'algum
borra-botas, como em
linguagem nobliarchica se chama um plebeu, de certo lhe não
dariam a importancia de o considerarem pela intelligencia. Mas o
mysterio, a possibilidade de ser vergontea infeliz d'um tronco
illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma aureola entre nuvens, que poderia
talvez, mais tarde, dissipar-se, e deixar na plenitude da sua luz
aquelle fructo do amor criminoso d'alguma raça nobilissima,
mais ou menos aparentada com os Lucenas!
Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto,
impossivel, é o que vai lêr-se.