IV.
A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres
filhos, e uma filha, de todos os irmãos
a mais nova. Por então contava quinze annos. Era bonita, mas
pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos tambem
não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu
coração era da tempera d'aquelles que
não sabem
conceber
sómente o amor
com a condicional do casamento.
Eulalia não tinha a mais superficial tintura de
instrucção, e por isso não podemos, em
boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira,
nem rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel
setim para deposito de semsaborias amorosas, e por isso não
podemos chamar-lhe douda.
Era uma mulher, e n'isto está dito tudo.
Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos
poetas de aspirações ferventes e
meditações profundas. Mas não era
impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas,
e uma tristesa inconsolavel como nenhuma. «A minha
organisação—dizia elle—é um aborto,
uma enfermidade incuravel.»
Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz.
Achava-lhe traços de semelhança
com seus irmãos, e via n'elle o que ella chamava
«cara
de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira de
classificar as caras, porque não conheço as
«caras de pessoas de mal» tenho-me visto em
circumstancias
forçadas de dizer o mesmo, porque ha n'este val de lagrimas
umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas
são as peiores caras.
Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á
cozinheira da casa, e menos se lembraria de accender o fogo do amor no
illustre coração d'uma Lucena,
com quem em toda a sua vida fallára tres vezes.
Eulalia passou da dôce sympathia ao amor abrasado, e do amor
abrasado á paixão violenta. Por mais
finos e eloquentes olhares que a fogosa menina lançou ao
escudeiro, o escudeiro ou não dava por elles, ou
explicava-os de qualquer modo, com tanto que não ousasse
ensoberbecer-se d'aquelle affecto disparatado. E Eulalia
desesperava-se!
V.
Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para
fóra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas
encontrou-os pouco apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu,
depois, aos burguezes ricos, e encontrou um negociante d'alto
bôrdo, que recebeu a proposta com affabilidade e trabalhou
desde logo em levar a fim um casamento que permittia aos filhos de seu
filho appellidarem-se Lucenas.
O pai annunciou á filha o seu rico futuro, e encontrou-a
fria. Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo,
porém, era um rapaz de fina
educação, d'alguma intelligencia, de brios que o
ouro lhe estimulava, e de orgulho superior á sua classe,
porque, ha 50 annos, a classe commercial era muito humilde, supposto
já
trabalhasse para esta época de barões
commerciaes, que, digam lá o que disserem, é o
mais palpitante
triumpho da democracia. Para me não metter em graves
questões sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a
felicidade que seu pai lhe annunciára com tanto jubilo, e
declarou-se sentimental, por tempo de quinze dias, fechada no seu
quarto, sem querer vêr sol nem lua.
Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do
seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que orçaria talvez
por tres mil cruzados. E era isto verdade.
VI.
E o peor era que o tal João Leite, noivo repellido, ficou
amando desesperadamente D. Eulalia. Ferido no
seu
amor proprio, e envergonhado de tão má
estreia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em
rosto a imprudencia com que viera roubal-o á sua
tranquilidade, não podendo contar com a obediencia de sua
filha. Esta maneira de accusar vexava Francisco de Lucena, porque era
pôr em duvida o seu poder paternal, e chamar-lhe fraco,
imputação que elle odiava ainda mesmo que se
tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.
Redobravam as mortificações, e Eulalia, immovel
como o seu infeliz amor, offerecia-se de bom grado á
vingança paternal, mas dizia, em linguagem tragica, que
só reduzida a cadaver passaria para a posse do tal
miseravel, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher
que o despresava. O pai realisou o dito popular: «casar, ou
metter freira.» Eulalia optou pelo segundo, e os
preparativos para entrar no convento principiaram.
O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma
energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas
embrionarias d'um coração, que parece arfar de
improviso ao
repentino choque, ao rapto da paixão violenta.
Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas.
Uma a seu pai. Dizia-lhe que amára um só homem e
viveria d'esse amor desgraçado toda
a sua vida.
Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão d'ella,
e chorasse uma lagrima em troca das que ella
chorára, e choraria até á morte.
Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o
amaldiçoava com todo o odio do seu
coração. Que lhe atirára á
cara com um
não, e nem assim o
envergonhára de continuar a perseguir uma mulher.
Esta correspondencia conservou-a Eulalia até ao momento em
que transpoz o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o
destino competente. Depois, chorou,
chorou, e attrahiu
em volta de si os carinhos da communidade que a
mortificava com as suas frias
consolações.
VII.
Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.
Bernardo da Silva embruteceu-se ao lêr a sua.
João Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se
suspenso no ar por uma legião de demonios raivosos.
Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo
digno da melhor caricatura inédita!
Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli
apparecer imperiosamente a filha.
Quiz forçal-a a declarar o nome do homem que a
preoccupára até a fazer má filha.
Não lhe arrancou a menor revelação.
Foi por outro caminho para
chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as
paixões invenciveis d'uma filha que se présa
com extremo carinho; contou historias análogas, que acabavam
todas por casamentos desiguaes, mas nem por isso menos venturosos.
Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a impressionára, e
fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se não
viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.
O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva
energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome,
sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do
escudeiro!...
Que horror!
Nunca se viu um solavanco mais desamparado que
o
salto de tigre que Francisco de Lucena deu contra a grade que o
separava da filha! Por Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina,
arripiada como quem vê um lobo com as fauces vermelhas, e as
unhas recurvas, foge pelo dormitorio, e fecha-se no quarto.
VIII.
Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma
victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este
não podia justificadamente ser sua victima. João
Leite mostra-lhe a carta que recebêra de
Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe
dê de
ser repellido por essa infame,—lhe disse elle—Eu vou provar-lhe que
sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um
engeitado...»
Entrando em casa, procurou o «engeitado.»
Encontrou-o ainda estupidamente absorvido na
meditação d'aquella carta. A entrada rapida que
fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a
carta que tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena
arrancou-lh'a com uma convulsão de raiva superior
á furia d'um
demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som,
lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda
pancada, Bernardo
tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que reclamava
justiça. Era um sangue innocente que pedia a
intervenção de Deus. A
justiça, filha legitima do céo, virá
mais tarde salpicar d'aquelle sangue a
face de quem o derramava.
Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, não
pronunciára uma só palavra durante
este infernal martyrio. Impellido por pontapés, foi
lançado
fóra da porta do quarto. As forças faltaram-lhe.
O sangue corria a jôrros. Esvaiu-se-lhe a cabeça,
e cahiu.
O fidalgo chamou dous creados, e mandou pôr aquelle homem
fóra da porta. Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado
á rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio.
Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciencia, e sentiu
pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgraça pelos
labios molhados de fel.
E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem
sorrir assim são as que Deus elege para a santidade da
bemaventurança.
IX.
Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o
tractára sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a
aprendizagem de alfaiate lhe não valia o pão de
cada dia. Esta mulher fôra ama da
roda no tempo em que Bernardo lá fôra
lançado. Suppunha ella que talvez o tivesse alimentado ao
seu seio por algumas horas, e esta só conjectura attrahia-a
para elle com instincto maternal.
O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe
inspirasse um destino. Esperou.
Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de
Lucena, e por João Leite.
Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia
para isso era o juiz de fóra Paulo
Botelho.
O honrado moço, quando se viu na penosa
situação de agenciar a sua vida, por
não poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela
sua innocencia, procurou o juiz de fóra, e expoz-lhe com a
mais eloquente
naturalidade a injustiça com que fôra maltratado e
com que estava sendo perseguido.
Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de
entrar em sua casa sem ferros aos pés. Olhou em redor de si
procurando um aguazil para fazel-o prender traiçoeiramente;
mas o generoso mancebo,
adivinhando-lhe as intenções, disse que
não precisava
fingir-se; que elle dava a sua palavra de honra de não
retirar da casa em que estava vivendo, e que mandasse sua senhoria
captural-o quando quizesse. O juiz riu-se da
palavra
d'honra na bocca d'um creado de servir, e mandou-o
embora, por não ter a proposito um meirinho.
Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro,
João Leite, que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos
nobres, comprado pelo ouro do burguez opulento.
João Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e
perguntou-lhe:
—És tu o lacaio de Francisco de Lucena?
—Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena—respondeu Bernardo com
dignidade.
—E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?
Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa
para retirar-se.
—Vem cá, miseravel!—tornou João Leite—tu
és o amante da filha do teu amo?
—Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi.
Hoje respeito-a, porque lhe não
conheço a menor falta que a deshonre!
—Nem ao menos a deshonra de receber as tuas
affeições, lacaio?
—Eu não lh'as offereci nunca, senhor.
—Offereceu-t'as ella, sevandija?
—Não, senhor.
—Mas ella escrevia-te...
—Sem ser criminosa, por isso...
—Então achas que não é crime escrever
a um bandalho?
—Será,
se v. s.
a o quer...
—Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da
bota! Se tivesses um nome...
—Tenho um caracter, senhor!
Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com
despreso, e olhando-o da cabeça aos pés,
replicou:
—Tu sabes que não podes ter caracter, engeitado!?
—Então, terei um braço...
—Um braço!—atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe
um valente pontapé, que o fez descer tres escadas
maquinalmente.
Bernardo assumira toda a dignidade do homem de
coração ultrajado. João Leite achou-se
comprimido entre os braços do
sevandija
que elle suppunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o
segundo.
Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e não
pôde, porque os pés falsearam-lhe,
e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os degraus de pedra.
Tirou rapido de um punhal, e roçou com elle duas vezes sobre
o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que
uma terceira punhalada lhe resvalára no peito. O engeitado
sentiu-se ferido: vacillou um instante na
resolução que se debatia entre o homicidio e o
perdão. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue
innocente, pela segunda vez, derramado, entrou no
coração de João Leite, e matou-o.
Isto foi obra d'alguns segundos. João Leite
gritára nas convulsões da morte; acudiram os
creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços cruzados
ao pé do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros
estorcimentos.
Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou
«matem esse homem!» E vendo que ninguem de prompto
lhe aceitava o diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.
Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de
passo, com serenidade de consciencia
e
maneiras d'um principe, segundo a linguagem popular dos que o viram.
X.
Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no
andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da
escrever uma sentença de forca.
Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um só homem
protegeu esse preso; sabia-se que era um
ancião que lhe levava umas sopas diariamente, e palavras
consoladoras de esperança sem esperança.
Eulalia, sabendo estes acontecimentos até á
vespera do dia em que o escudeiro devia ser condemnado, requereu que
queria ser ouvida em juizo. Não lhe admitiram o seu
depoimento. A pobre menina, inspirada da eloquencia do martyrio, entrou
um dia no côro, quando a communidade orava, e invocou o
testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que a escutasse o povo
que estava na igreja:
«Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de
martyrisado por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei,
declaro diante de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse
uma palavra só para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui
eu que lhe escrevi, quando entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz
desgraçado, mas em recompensa hei-de amal-o toda a minha
vida, e hei-de unir-me a elle na presença de
Deus!» Era uma demencia!
Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos
ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma
fôra cerrada pela
mão corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que
não havia de ser enforcado o escudeiro.
Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mãos d'um
juiz o seu instrumento inauferivel, o carrasco!
XI.
Bernardo foi condemnado á pena ultima; Ergueu-se uma forca
nas proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de
Lucena.
Eulalia exaltára-se no martyrio até causar
receios de loucura. Inspiravam-se de uma dôr de morte as
exclamações pungentes que soltava a cada ruido
que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiçado. O
espectaculo da forca era a sua idêa fixa, desde o momento que
uma religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.
A infeliz, na madrugada do dia da execução, fugiu
da cella com os cabellos em desordem, com as faces chammejantes de
febre, com os olhos embriagados de delirio, e com o
coração a estalar-lhe de uma
dôr que a endoudecia.
Chegando á portaria não houveram
forças humanas que a contivessem. Os ferrolhos cederam ao
impulso d'uma fraca mulher, forte da sua
desesperação; e
esta virgem, com habitos de noviça, e bella, na sua agonia,
como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife, corria
por entre as multidões que principiavam a agglomerar-se para
testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoço d'um
padecente entre as mãos
do carrasco, seu irmão, ambos filhos do mesmo Deus, ambos
remidos pelo sangue do mesmo Christo.
Viram-na as multidões passar; muitos a conheceram: alguns
pronunciaram o seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um
cadaver que se movia impellido pelo choque da pilha galvanica.
Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na
direcção da infeliz, a quem chamavam douda;
mas não ousou alguem embargar o passo áquella
mulher
que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.
Os que a seguiam esperavam vêl-a entrar em casa de seu pai.
Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no
salão onde fôra lavrada a
sentença de cadafalso para Bernardo da Silva.
Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma
larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.
Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.
Eulalia já não podia coordenar as idêas
que poucos dias antes clamára no côro. O sorriso
da loucura,
o gemido suffocante, uma lagrima embebida logo no ardor das faces, e
algumas palavras entaladas, e apenas intelligiveis, eram alternativas
que a tornaram mais lastimavel durante alguns minutos.
A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram
ao tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua
parecia chumbada sobre o seu tumulo.
A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como
solução. Fallavam do
justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o
balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as
razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o
homem que, pouco depois, havia de perdoar as injurias com a
cabeça no laço da forca.
A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o
ponto culminante da morte, ou da alienação
irremediavel.
—Innocente! Innocente!—eram os gritos unicos, as derradeiras palavras
que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.
XII.
N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite,
pai de João Leite.
Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com
religioso respeito.
As suas palavras foram estas:
—Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem
cahirá sobre a minha face! Matou defendendo-se d'um
aggressor infame! Senhor juiz de fóra, requeiro a
suspensão da execução da
sentença. Eu sou parte, e declaro innocente o
réo!
Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural.
Eulalia voltou os olhos para o homem que fallára, quiz
arrastar-se de joelhos aos pés d'elle; não
pôde; a
impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio
caminho.
O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco
physico fôra creado pela lei. Não podia
eximir-se a pegar do cutello, e seguir seu caminho.
—É tarde!—respondeu elle.
—Não é tarde!—replicou Pedro Leite, e continuou
com solemne exaltação:—Tarde, senhor juiz,
é depois que o tribunal do mundo se fecha atraz d'aquelle
que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é quando um juiz
de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos
condemnados
com a face borrifada de sangue innocente!
—Basta!—exclamou Paulo Botelho com authoridade!
—Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das
pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este
sangue innocente que vai ser derramado!
O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua
nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram
o juiz.
—Não se trata só de punir o assassino de
João Leite!—exclamou o juiz—trata-se de castigar a
affronta que recebeu um nobre, feita por um lacaio que ousou levantar
olhos de amante para sua filha!
—Não, não!—gritou Eulalia, erguendo-se com
impeto, com as mãos postas, e cahindo outra vez sobre os
joelhos.
O cynico já não tinha coragem para tanto!
Soára a hora do ultimo mandato ao carcereiro.
Expirára o ultimo instante de oratorio.
—Cumpra-se a lei!
Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as
ondas de povo que tinham concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de
Eulalia, e pelo perdão publico de Pedro Leite.
Eulalia foi conduzida em braços para o interior da
habitação do juiz.
XIII.
A procissão onde a impudencia collocára um
Christo, o Deus da caridade, nas mãos d'um padecente, que
hia ser esganado!... a procissão, onde se via um homem de
tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns sacerdotes d'um
Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de
repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella
rêz! A tumba da misericordia fechava aquella orgia de sangue!
Era um insulto a Deus! o cadaver d'um homem atirado á face
do Creador! um escarneo satanico á intelligencia, e ao
coração
da humanidade!
O prestito parou na praça do sacrificio.
Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha
aurora da eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de
Deus mostrava-lhe o seu regaço. A
morte do justo era um crepusculo de nova existencia a alumiar-lhe o
rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo
sorrir para o seio do céo que se lhe abria! Trazia nas
mãos a
imagem do Redemptor; mas lá em cima via elle o Espirito
Creador, a grande alma, onde se refugiam as almas dispersas na face
d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da ira, e da
vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade
entregou o azorrague da flagellação do virtuoso.
Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam
contrahidas as respirações. Um
gemido, menos suffocado, podia ser ouvido por quinze mil almas que
vieram a contemplar aquelle apparelho de morte, segundo a lei,
formulada pelas
inspirações do Evangelho! pelo
codigo dos perdões! pelos preceitos do Filho de Deus que
morrêra, perdoando!
XIV.
Através da multidão abriu-se uma clareira para
deixar passar um homem, que devia representar um principal papel
n'aquelle festim da lei.
Convergiram todas as attenções para aquelle
ponto.
Era Pedro Leite—ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a
face cadaverica das longas noites que chorára sobre o tumulo
de seu filho unico.
Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?
Que força occulta o arrasta a abençoar nas
escadas da forca o assassino de seu filho?
Phenomenos occultos da Providencia! A voz de
Deus,
soando pelos labios do mysterio! Explicai-me as
operações de Deus, e eu vos explicarei a
inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem
o perdão os labios, que beijaram morto um filho
estremecido...
Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguem lhe
embaraçou o passo.
Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:
«Eu venho pedir o seu perdão á beira do
patibulo. Fui eu que o arrastei até ao tribunal em que foi
condemnado;
mas não sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua
innocencia. Pedi, ha momentos, a suspensão d'este acto, em
que a minha dôr será mais... muito
mais prolongada que a sua. Não me ouviram: impozeram-me
silencio, e mandaram-me sahir do sanctuario da lei, que resfolegava
sangue pela bocca do seu sacerdote.
Venho pedir o seu perdão nas escadas da forca, e vasar o
fel, que me devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que
pede a sua cabeça a altos
gritos!»
Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia
sopeada entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em
que o sangue d'um plebeu continuava a operação
regeneradora do
sangue de Jesus Christo.
Bernardo ouviu com presença de espirito a
exclamação de Pedro Leite.
«Eu lhe perdôo!»
Foram as suas palavras unicas.
Choraram-se então muitas lagrimas. A piedade teve uma
explosão, que as cronhas dos soldados reprimiram. As turbas
queriam rasgar o quadrado para arrancarem da morte um santo. Este
conflicto foi serenado por outro mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se
um homem que sobresahia entre as molas populares. Era o velho,
protector unico de Bernardo da Silva, durante a sua prisão.
Poucos o conheciam.
Foram estas as suas palavras:
«Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vêr teu
filho que morre enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem
vêr o filho da mulher que deshonraste, como é
nobre nas escadas da forca! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem
vêr teu filho, o filho de minha filha, que borrifa os teus
pergaminhos com o teu sangue illustre!»
E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem lá estava
erguido como o anjo dos tumulos á espera que Deus mande
quebrar a lousa d'uma mulher que ahi falta n'esse trance afflictivo!
Essa mulher morrêra, deshonrada, suffocada pela
mão da ignominia, a que a soberania fidalga de Francisco de
Lucena a abandonára.
Esse ancião era o pai d'essa mulher, unico que
recebêra em seus braços o filho da deshonra, unico
sabedor d'aquella existencia, que acompanhou sempre, porque lhe
marcára um braço com uma cruz. Desde o ventre
á forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra
de sua filha abafado no coração, este
homem seguira os vestigios do neto, sem declaral-o nunca, porque um
appellido illustre não o salvava a elle d'uma
illustre ignominia.
Que impressão fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas,
momentos depois, chamavam-lhe
doudo. Por ordem do
juiz de
fóra hia ser preso o demente. Aproximou-se a
justiça d'el-rei. «É
doudo...!» dizia o meirinho ao lançar-lhe a
mão.
«
Não é
doudo... é
morto... »
responderam
algumas vozes.
Morto, sim!
XV.
Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis.
Bernardo poz o pé direito na ultima prancha da forca.
Voltou-se para o povo. Brilhou-lhe na face o clarão d'um
outro mundo. A sua voz era melodiosa como o cantico do anjo da morte
suavissima: mas n'aquelle todo via-se a terrivel magestade do anjo do
dia final. As suas ultimas palavras foram estas:
«Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca:
Que a justiça de Deus
se cumpra
na presença dos homens!»
O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de
sangue negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte.
N'esse momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do
justiçado a sua protecção na
presença de Deus!
CONCLUSÃO.
Passaram quinze dias.
Eulalia de Lucena recuperára o juizo, e entrára
no mosteiro. Um anno depois, professára. A sua vida foram
tres annos de adoração extatica. Ouviram-na
murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um anjo devia
apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e
adoraram-na morta.
Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre
afastado de sua
filha pela mão do remorso, morreu de repente
no mesmo local em que fôra hasteada a forca.
Simão Botelho, filho de Paulo Botelho, déra um
tiro em seu pai. O pai quiz sentencial-o: deu-lhe sentença
de forca, que depois lhe foi commutada em degredo perpetuo. Apenas
desembarcou em Cabo Verde, abriu-se-lhe uma sepultura.
Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria
á vigesima quinta punhalada que
recebêra, por não dar exactas
informações d'um
peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas
visinhanças de Villa Real.
A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S.
José um anno depois.
Restavam tres filhas de Paulo Botelho.
Foram devassas até ao escandalo de serem arrastadas a um
recolhimento por expresso mandado regio.
Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procurára
evadir-se.
Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios.
A terceira enforcou-se no batente de uma porta.
A justiça de Deus
cumpriu-se na
presença dos homens.
A praga do justiçado nas escadas da forca teve o seu
complemento do genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se
déra.
Forca por forca.
Tendes a curiosidade das averiguações? Procurai
em alguns cartorios de Vizeu a sentença pronunciada entre
1776 e 1780.
REMATE.
Não sou contumaz, nem me ufano de relapsia.
De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar
ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida
faça contra Plutus, unico deus da unica religião
cujo codigo penal me intimida.
Ha cousas incriveis n'este volume? É que eu, e os meus
amigos litteratos, poetas, jornalistas, e até
redactores encartados de necrologios sabemos passagens que arripiam
carnes e cabellos. Se o siso commum as não adopta,
é que os chronistas do tempo formam,
á parte, um
status in
statu, cousa
inintelligivel aos que não sabem latim, por grande fortuna
sua.
N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os
evangelistas, que a propagam são Catões, com
tanto que os não obriguem a inquietar a sadia
tranquillidade dos intestinos. Aqui, não se sacrifica um
dedo a uma pisadella, porque não vale a pena.
É necessario escrever, visto que ha leitores.
Eu, e os meus correligionarios, se até hoje não
temos irradiado sobre a humanidade ondas de luz, é porque a
humanidade precisava ser, primeiramente, operada na catarata. O luzeiro
da civilisação aqueceu,
não ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos
molluscos moraes, que vão sahindo agora a
espanejar-se ao sol.
Não quero dizer que os molluscos passassem a articulados.
Póde muito bem ser que o leitor, ou leitora sejam ainda
legitimos molluscos; mas a excepção
deploravel não claudica a generalidade. E, por tanto:
Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia
não deve estar muito tempo debaixo
do
alqueire, nem os
talentos (dinheiro) soterrados vencem juros: e tendo nós
outro sim, em muito afan e desvelo desaffrontar a litteratura patria de
injurias com que estrangeiros e nacionaes a desconceituam, desairando-a
como pobre de romances, pela sua incapacidade inventiva—o que
não só é malicia, mas
até aleivosia: resolvemos escrever romances em que
figurassem muitas pessoas nossas conhecidas, e outras, que viremos a
conhecer no decurso d'esta meritoria tarefa.
Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta
idêa lucida, coube o quinhão de trabalho, que a
posteridade me devolverá em gabos e applausos, e o futuro
Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de Cedofeita, em que
tenho a honra de morar, não deixará de consignar
nos fastos gloriosos.
Disse.
PATHOLOGIA DO CASAMENTO.
DEDICATORIA.
exc.ma
snr.a
D. Fulana.
Conceda-me v. exc.
a a gloria de offerecer-lhe um
quadro d'esta
galeria. Vai lêr um drama intitulado
Pathologia do Casamento.
Pathologia, minha querida snr.
a
D.
Fulana, é uma palavra grega, composta de
pathos,
doença, e
logos,
tractado. Quer, por tanto, dizer
molestias do
casamento.
Balzac escreveu a
«
physiologia»;
outro, que me não vem á memoria, escreveu
«
anatomia
do coração»; faltava
uma «
pathologia»
que apparece agora, e, mais tarde, se me não faltar a vista
intellectual, que já
sinto muito cançada, escreverei a
«
Pharmacia
do casamento» que hei-de dedicar a uma
outra D. Fulana, que eu cá sei.
V. exc.
a é uma senhora fina, que,
além de ter a
cabeça no seu lugar, apresenta muitas vezes lume no olho.
Sympathiso com o seu talento, e talvez casasse com a
snr.
a
D. Fulana, se
tivesse a certeza de podermos entreter o nosso tempo traduzindo os
trinta e sete livros de Plinio, e os trinta e cinco
De
Linguâ
Latinâ de Terencio Varro, que Deus tem em
sua santa gloria.
Penso que v. exc.
a não estaria por
isto. O seu espirito tem
calefrios de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez
patriarchal, devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que
poderia valer alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas não
vale nada no cavername ossudo d'este seu creado.
Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero
que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e
de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.
Eu não sei se v. exc.
a sabe alguma
cousa d'isto; mas
desconfio que não. Falla-me muito em Victor Hugo, e na
Petite Fadete de George Sand.
Já a encontrei a lêr
les Liaisons
Dangereuses, e a
Manon
Lescaut. Palpita-me que a snr.
a D.
Fulana tem na
cabeça muita somma de
têas de aranha, e não serei eu a vassoura da
limpeza.
Não obstante, respeito-a, admiro-a até ao ponto
de lhe offerecer a minha «
Pathologia do
Casamento.»
Digne-se v. exc.
a acolhel-a no regaço
da sua benevolencia,
e dê-me occasiões de mostrar-lhe que sou