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Rita
Farinha (Nov. 2007)
COLLECÇÃO
ANTONIO
MARIA PEREIRA
M. PINHEIRO CHAGAS
A LENDA DA MEIA-NOITE
2.ª edição
LISBOA
Parceria A. M. PEREIRA—Livraria editora
Rua Augusta, 50, 52 e 54
1906
LISBOA
Officinas typographica e de encadernação
movidas a vapor
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º
1906
A LENDA DA MEIA-NOITE
N'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa,
n'essa montanha vestida de verdura, onde se recosta Alpedrinha,
e que domina o verdejante valle do Fundão,
ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa
varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas
fazer os seus ninhos, se descortina a extensa
paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e outras villas
e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o
verde do arvoredo, e que tem como panno de fundo a
imponente massa da serra da Estrella, coroada com as
suas neves eternas.
A casa não tem formosuras architectonicas, nem aspecto
de palacio; é apenas um edificio vasto, cercado
de dependencias rusticas, tendo defronte do portão as
cavallariças, casas de habitação dos
criados, etc., que,
desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro
que dá ao edificio campestre uma especie de pateo de
entrada. A parte
mais caracteristica da residencia é a
extensa varanda de madeira, tão usada na provincia,
onde nas tardes de estio se respira a viração da
serra,
onde nas manhãs de inverno se toma alegremente a
restea do sol.
Fica isolada a habitação que a largos
traços descrevemos.
Pegada com a fachada principal está o muro,
onde se abre o portão da quinta. Esta é
assombreada
pelo magnifico arvoredo, que viça, com incrivel vigor,
n'esse torrão privilegiado conhecido na provincia pelo
nome de cova da Beira. Para um lado a pouca distancia
fica Alpedrinha, a pittoresca villa com as suas casas
penduradas entre verduras da encosta da montanha,
para outro lado a estrada desce até ao Fundão.
Por toda a parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo
das serras, os rumores mysteriosos das solidões.
É encantadora a situação d'aquelle
formoso eremiterio.
No outono e no inverno a paisagem toma uns tons
mais carregados e lugubres. A montanha assume um
certo ar de grandeza. Nos soutos espessos dos castanheiros
passa o furacão silvando com furia; a trovoada
vae-se repercutindo de echo em echo pelas concavidades
dos valles, e os relampagos illuminam, com a sua
luz sinistra, o arvoredo que se estorce nos braços doidos
do vendaval. Nos amplos salões d'esses edificios
isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos,
e o vento, fazendo ranger os pilares da varanda,
entôa a musica triste das lendas populares.
É exactamente no outono que nós conduzimos o
leitor
á casa da Fragosa, como por lá se chama ao sitio
em que ella fica. Os viscondes da Fragosa, que alli
moram, tinham convidado alguns amigos seus para irem
caçar nas
suas terras, de fórma que estavam
reunidas
bastantes pessoas no grande salão da residencia, junto
da brazeira, no momento em que convidamos o leitor
para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do
lume.
É já noite; a tarde estivera sobre-maneira
ventosa e
fria, de fórma que os convidados, reunidos na varanda,
para assistirem a um d'esses esplendidos occasos do sol,
que são tão frequentes no outono, tiveram que
retirar
e fechar-se em casa, deixando o vento gemer lá
fóra,
estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira,
e, esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma
palestra tão animada, como se se estivesse n'uma sala
de Lisboa, a dois passos do Theatro Italiano, e sentindo-se,
a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade.
O salão era vasto e simples, mobilado á antiga.
Nas
paredes alguns velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras,
de pés torneados, forradas de coiro lavrado,
dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau
santo, ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse
canto, onde se agrupavam a familia e os convidados,
havia uma profusa illuminação. O resto da sala
ficava
perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse
fundo escuro os criados que vinham fazer
algum serviço.
O toque da campainha não parecia que os chamava,
parecia que os evocava. Saíam de subito da penumbra,
como se surgissem do chão. O aspecto da
casa
era, portanto, o mais legendario que podia imaginar-se.
A conversação prolongára-se ainda
depois do chá!
Um medico, que residia em Alpedrinha, para onde viera,
não exercer a clinica, mas tratar da sua propria
saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homem
de
espirito fino e
amavel, fôra quem
sustentára
principalmente a palestra, ajudado
por um
sr. Lucio
Valença, escriptor de certa aura, e caçador
intrepido,
e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica,
alegre e desembaraçada, que, apesar de ter vivido
sempre em Castello-Branco, e de ter ido apenas
uma ou duas vezes a Lisboa, não tinha nenhum dos
acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance.
A pouco e pouco, porém, esmorecera a
conversação:
pausas cada vez mais amiudadas cortavam a palestra,
e o medico já tirára o relogio para vêr
se não íam sendo horas de retirada. Mas o
visconde da Fragosa
estava agarrado, com o commendador Madureira, e alguns
visinhos de campo, a um impertinente
boston, e
em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a tocar
a recolher.
N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do
vento na serra, e os seus gemidos e silvos nos corredores
da casa.
—Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito
uma joven senhora, de notavel
formosura, extraordinariamente
pallida, mas com umas opulentas tranças
negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados,
que lhe illuminavam com estranho fulgor o rosto
de alabastro. O vento geme com uns sons tão lugubres,
que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas.
É uma noite de lenda allemã!
—Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva,
a trovoada, a neve e muitos outros accessorios germanicos.
O vento só não basta.
—V. ex.
a gosta de lendas, sr.
a
D. Isaura? perguntou
inclinando-se para ella um elegante moço do
Fundão,
em quem pareciam ter
produzido uma
impressão
profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha
do commendador Madureira.
—Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina.
Ah! de certo, adoro-as, mas gosto de as lêr em Lisboa,
no meu gabinete e á luz do sol.
—Sem
mise-en-scene não
prestam, observou com
toda a gravidade o doutor Macedo.
—A que chama
mise-en-scene, doutor?
perguntou
Isaura.
—O Lucio que lh'o explique, minha senhora; não
quero invadir os seus dominios.
—Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, não é
difficil
de adivinhar. O doutor entende que as lendas devem
ser lidas e apreciadas á noite, no meio do silencio geral,
quando se está sósinho, n'um velho castello de
Anna Radcliffe, cheio de alçapões e de
subterraneos,
quando o vento geme lugubremente nos corredores, e
faz oscillar a luz da vela que illumina a nossa solitaria
vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se
rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo,
em vez de estar n'um castiçal, e que haja um cemiterio
por baixo da janella.
—Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a
mesma imperturbavel gravidade, quero dizer... não
julgo indispensaveis esses accessorios, mas não posso
negar que augmentavam de um modo notabilissimo o
effeito phantastico da narrativa legendaria.
—Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me
morrer de susto com essas historias pavorosas. Hoje
com toda a certeza não durmo. Que idéa!
É necessario
que não tenham a minima dóse de sensibilidade
para
assim estarem
zombeteando a respeito de coisas, que
me produziriam uma impressão tamanha, que os meus
nervos de certo não resistiriam. Estou já toda
tremula!
—Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo,
as lendas são como os ananazes. Ha os nascidos ao ar
livre, na sua terra propria, e ha-os desabrochados artificialmente
com o calor da estufa. N'um velho solar
provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores,
n'uma noite de inverno sulcada de relampagos, nasce
a lenda tão naturalmente como o ananaz no
Brazil.
N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de
macios sophás, entre os rumores meridianos da rua, a
luz clara e alegre do sol, a lenda não póde ter
mais
sabor do que um ananaz de estufa.
—Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo
isso perfeitamente, e bem sei que o phantastico só
póde
produzir toda a impressão de que é susceptivel no
scenario
que o doutor descreve: mas é que levado a esse
ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto
effeito. Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou
ella, eu adoro o ideal, mas o ideal póde tambem
partir as cordas da minha alma.
—Tomo o partido de Isaura, disse não sem alguma
ironia a filha dos viscondes de Fragosa, linda menina
de cabellos castanhos claros e olhos azues, de um azul
tão vivo que produziam ás vezes a
sensação de olhos
negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da
aza negra do corvo; tomo o partido de Isaura. Os senhores
estão fallando ahi como creaturas vulgares incapazes
de sentirem profundamente as grandes
commoções.
Para as almas privilegiadas os grandes prazeres
da imaginação muitas vezes são tambem
o martyrio.
São
as Ophelias, as Marias de Noronha, as creaturas
ideaes cujos corpos são apenas, como o da irmã
do bispo Myriel nos
Misérables, de Victor
Hugo, pretextos
para conservarem no mundo almas de anjos.
—E cuidas que não ha na terra esses entes, cujas
expressões mais sublimes foram encontradas por tres
grandes poetas que acabas de citar, Garrett, Shakespeare
e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta
de Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu
idolo não comprehendêra.
—Não cuido tal, Henrique. A prova de que os ha é
que Isaura é um d'esses entes.
—Por quem és, Leonor... acudiu Isaura com uns
certos ares de modestia, que ainda mais desesperaram
o seu apaixonado.
—É assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que
se partiriam as cordas da tua alma, se quizesses lêr
á
noite n'um quarto de uma velha casa provinciana uma
historia de phantasmas. Morrias se te achasses sósinha
á noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque
tens a imaginação exaltada, a sensibilidade
nervosa
das Ophelias e das Marias de Noronha!
—E não admirava, acudiu Henrique Osorio que assim
se chamava o moço do Fundão, não
admirava, sr.
a
D. Isaura, que v. ex.
a tivesse medo de estar
sósinha
n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter
a imaginação calma, o prosaico bom senso, a fria
intrepidez
de Leonor. A marqueza da Lusacia, de que
falla Victor Hugo n'um dos seus poemas, preferia perder
a soberania do seu marquezado a ir passar a noite
sósinha, como o ordenava o costume tradicional, no
castello de seus avós...
—Logo encontrou
quem a acompanhasse, interrompeu
Leonor ironicamente.
—E não seria só ella.
—Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou
qual amargura, se quizeres passar alguma noite n'um
castello legendario, como a marqueza da Lusacia, já
tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite,
e que te cante:
Si tu veux, faisons un rêve,
Montons sur deux palefrois,
Tu m'emmènes, je t'enlève.
L'oiseau chante dans les bois.
Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que
em torno d'ella se travava; Henrique Osorio calou-se.
Leonor, um pouco arrependida de ter mostrado um tal
ou qual azedume, voltou-se para sua mãe que resonava
recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas
palavras em voz baixa, convidando-a a que lembrasse
a seu pae que eram horas de pôr um termo ao
boston. O doutor levára a
mão aos labios para cumprimir
um bocejo, e Lucio Valença, sorrindo-se, contemplava
a esplendida formosura de Isaura, e êsses olhos
que Deus fizera tão formosos, e que não
reflectiam
comtudo senão as preoccupações pueris
da mulher da
moda, e da lisbonense frivola.
No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com
mais força, para depois gemer com mais tristeza, parecendo
que se estabelecia um dialogo entre os espiritos
atmosphericos, e que aos rugidos ameaçadores de um
demonio respondiam as queixas plangentes de um ente
fraco e debil.
De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma
badalada no sino de S. Martinho de Alpedrinha.
O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas
azas as lugubres vibrações do bronze.
Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres...
doze badaladas.
—Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando
o silencio em que todos estavam, porque todos tinham
estado contando as horas.
Mas a voz do doutor tambem tomára involuntariamente
como que uma sinistra entoação.
D. Isaura soltou um grito.
—Jesus! disse ella.
—Que tem, minha senhora? perguntou Henrique
sollicito e afflicto.
—Meu Deus! exclamou Isaura, é que me aterraram
com as suas loucas historias, é que me puzeram n'um
estado incrivel de sobre-excitação nervosa.
Meia-noite!
vê? Meia-noite é a hora dos phantasmas,
é a hora das
apparições! E esta sala é
tão lugubre, e este silencio
é tão agoireiro!
—Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente,
v. ex.
a suppõe por acaso que
nós sejamos
phantasmas,
e que estejamos quasi a dissipar-nos em fumo
como quaesquer entes mal-creados do mundo sobrenatural?
V. ex.
a está no meio d'um
batalhão de gente
viva capaz de affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe,
tres conventos de Lewis, reforçados ainda pelos
mil e um phantasmas de Alexandre Dumas.
—Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é que a
meia-noite soou de um modo tão lugubre... E nós a
esta hora ainda a p —Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é
que a
meia-noite soou de um modo tão lugubre... E nós a
esta hora ainda a pé...
—V. ex.
a
deita-se mais cedo em Lisboa?
perguntou
o doutor.
—Não, mas...
—Mas é que a meia-noite só aterra os que lhe
dão
ímportancia. É uma hora covarde e manhosa, que,
se
vê a alegria do baile, as salas illuminadas, as
danças
caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente como
outra hora qualquer, até com mais risos e mais alegrias,
accendendo mais o fogo das walsas, cumprimentando
para todos os lados amavelmente. Se vê o estudioso
debruçado sobre os livros, indifferente e sereno,
entra timidamente, nos bicos dos pés, e abafa até
as suas proprias vibrações; se encontra n'um
serão
de familia a conversação alegre, o bule de
chá em cima
da mesa, as cartas do
boston para um
lado, um livro
para outro, bate á porta discretamente, e annuncia que
é tempo de se recolher cada qual para o seu leito. Ora
agora, se encontra gente que espera com susto, que
está prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira badalada
que a annuncia, então eil-a que toma uns ares
pavorosos, engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha
em torno de si o terror e o assombro. Fóra com
semelhante fanfarrão! É necessario darmos-lhe uma
lição mestra! Peço a palavra para um
requerimento.
—Hein? disse lá da mesa do jogo o visconde da
Fragosa, que aspirava á deputação.
—Está concedida, visconde? disse o doutor, rindo.
—Mas que diz você? tornou o visconde muito espantado
dos risos com que os interlocutores do Macedo
acolhiam a sua idéa.
—Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os
effeitos seja abolida a meia-noite.
—Approvado por
unanimidade e mais um que é o
visconde, tornou, rindo, Lucio Valença. Agora queira o
sr. deputado apresentar uma proposta indicando o modo
pratico de se levar a effeito essa medida importante.
—Proponho, tornou o doutor com gravidade comica,
que de ámanhã em diante affrontemos a meia-noite
rosto a rosto, e lhe torçamos o pescoço.
—Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram
Lucio e Leonor.
—O meio é o seguinte: O mau tempo ameaça
prolongar-se,
e nós ou não podemos caçar, ou
não podemos
prolongar a caça por todo o dia, sob pena de estoirarmos
ahi de frio por essa serra. Portanto á noite
estamos frescos e descançados, e podemos protrahir o
serão. Proponho que organisemos um
Decameron para
zombarmos da meia-noite, como os narradores de Bocaccio
zombaram da peste de Florença. Cada um de
nós, que se sentir para isso com forças, se
compromette
a compôr uma historia phantastica, uma lenda,
um conto maravilhoso que será lido aqui ao bater da
meia-noite. D'essa fórma affrontamos face a face a terrivel
inimiga do repouso da sr.
a D. Isaura, e, se ella
ainda ousar fazer uso dos seus sortilegios, comnosco
se ha de haver!
—Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura,
que soltou um grito, exclamando:
—Isso é horrivel!
—Não, minha senhora, é uma receita, é
um remedio
heroico, é um banho russo. Vou-lhe combater os
seus nervos.
—Mate-me, doutor!
—Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite!
Verá
como depressa a moda acceita a minha idéa.
D'aqui
a pouco tempo não se falla em Lisboa n'outra coisa, e
a
lenda da meia-noite
será o anti-espasmodico mais empregado.
A idéa de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco
tempo se não fallaria n'outra coisa foi o que decidiu
D. Isaura. Ao mesmo tempo terminára a partida do voltarete,
e um dos jogadores, homem já de cabellos grisalhos,
vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do
romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou
alegremente:
—Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo
para uma montaria aos lobos, vamos a vêr se tambem
presto para uma montaria á meia-noite.
—É acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares.
Eu já o conheço como robusto campeão,
e assento-lhe
praça com enthusiasmo. Agora cabe-me designar o
serviço.
Henrique Osorio, você é quem rompe o fogo.
Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente
olhar á pallida Isaura.
—Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o
relogio. Saudemos, meus senhores, a ultima meia-noite
que passa, e vamo-nos deitar. Todos se riram, e um
borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores
da habitação. Ainda por algum tempo se sentiu o
rumor
de portas que se abriam e fechavam, de passos
que se perdiam ao longe, de vozes que se despediam.
Depois caiu tudo em silencio, e só se pôde ouvir o
vento que continuou toda a noite a gemer lugubremente
as suas monotonas queixas.
A previsão do doutor realisou-se. O tempo continuou
mau, e aggravou-se ainda com a chuva que principiava
a cair em torrentes. A noite seguinte passou-se alegremente.
Quando, porém, um relogio de parede, que fôra
posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda
mais pallida do que era, e houve no auditorio uns taes
ou quaes signaes de commoção.
—A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente.
Firmeza, companheiros! Do alto d'aquelle
relogio trinta minutos vos contemplam.
Houve de novo
entrain, risos e
enthusiasmo. N'isto
o sino de S. Martinho deu a primeira badalada da meia-noite.
Soava ainda mais lugubremente do que na vespera.
Solta no meio dos loucos rumores do vendaval,
a vibração do bronze parecia uma nota perdida de
agonia
e de desespero.
—Henrique! disse o doutor. Vamos! Estás um pouco
pallido? É a commoção do auctor e
não a da meia-noite,
juro-o aos deuses immortaes.
Vá! inflexão lugubre,
voz cavernosa, gesto sombrio!
Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da
attenção geral, leu o seguinte:
JULIETA
CONTO PHANTASTICO
I
Eram onze horas da noite, e estava-se tomando chá
em casa do meu amigo Frederico B * * *, em Bemfica.
Havia uma roda d'intimos; a conversa estava animada
e o meu amigo, a quem a alegria e o
entrain dos convidados
deixavam mais liberdade no cumprimento dos
seus deveres de dono da casa, aproveitava-se d'isso
para contemplar extasiado sua linda mulher, com quem
casára havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria
tambem com a meiguice e ternura da mulher que
ama devéras.
A conversa animára-se tanto, que se ia transformando
em algazarra.
Discutia-se acaloradamente a questão da existencia
das almas do outro mundo, com grande desprazer d'um
jornalista que por força queria conduzir ao bom caminho
aquelles
discutidores extraviados, propondo que se
tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte
essas tolices, que não serviam para nada. Mas ninguem
lhe prestava attenção, o que fez com que elle
desesperado
fosse lêr pela centesima vez um artigo seu publicado
n'um jornal que estava em cima de uma das mezas
da sala. Essa producção do seu engenho, que o
jornalista relia com tanto enthusiasmo merecia indubitavelmente
tão paterna sollicitude, porque elle e o revisor
da imprensa tinham sido os seus unicos leitores.
Mas o auctor tantas vezes o tinha lido, e tal
admiração
professava pelo seu proprio talento, que podéra dizer,
sem receio de ser taxado de mentiroso—«
que
o seu
artigo tinha feito tal impressão, que lhe constava ter
havido
uma pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo
crescente, honra de que se podiam gabar poucos
artigos politicos da imprensa portugueza.»
—Concluamos, bradava entretanto um medico materialista
por dever de profissão, onde collocam os senhores
esse agente mysterioso a que dão o nome de espirito,
teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo
material, que a morte paralysa? Quando esse
relojoeiro sombrio, que se chama tempo, quebra com
mão despiedosa as rodas complicadas do nosso systema
vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel
a que os senhores espiritualistas querem dar as
redeas do governo d'este barro quebradiço, que constitue
o homem? E durante a vida quaes são os laços
invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo
material e fragil á alma etherea e immortal? Tremendo
absurdo, utopia talvez respeitavel, sublime tolice pela
qual se tem sacrificado innumeras gerações! Ah!
mas
sobretudo,
é doido devéras quem imagina que essa
invenção
impossivel, resultado das aspirações da
humanidade
para a existencia eterna, possa vir aos cemiterios
animar os restos putrefactos dos reis da creação;
quem tal suppõe, não sentiu nunca debaixo do
escalpello
anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem
póde avaliar com a vista infallivel da sciencia o nada
immenso das vaidades humanas!
—Fóra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta;
sabes tu, meu caro doutor, que a primeira vaidade
humana cujo nada immenso tu devias avaliar, é
a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presumpçoso
Hippocrates,
que tens de recuar vencido perante o primeiro
obstaculosinho, que a natureza caprichosa queira
oppôr á vista infallivel, como tu dizes, do saber
dos
homens? E és tu que andas perdido no meio da
confusão
dos systemas medicos a procurar no labyrintho
scientifico o fio conductor que te está sempre a escapar
das mãos, és tu que pretendes entrar com passo
firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera,
continuou elle vendo entrar um mancebo muito
pallido, que foi apertar a mão de Frederico, e comprimentar
a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi
tens tu um homem vivo, que teve relações directas
com
um phantasma.
—Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente
a historia do teu espectro, se v. ex.
as
não se
oppõem a isso ainda assim, continuou elle, voltando-se
para as senhoras presentes, que tinham escutado a
discussão metaphysica, com ligeiros signaes de
aborrecimento.
Propôr a senhoras uma historia de phantasmas é
despertar-lhes a
attenção, é
fazer-lhes passar nas veias
o estremecimento do enthusiasmo. Não sei porque, esses
entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos negros
ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos
encantadores e timidos adoram tudo o que os faz
tremer, e recreiam-se sobre tudo com essas historias
terriveis, em que o leitor estupefacto encontra um punhal
ao voltar de cada pagina, um ladrão á esquina de
cada periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo.
Por isso a parte feminina da assembléa acolheu a
proposta com enthusiasmo: e a mim e aos outros homens,
que estavam presentes, não desagradou a idéa
de ouvir uma historia terrivel, em
petit
comité, no pino
da meia noite, tendo de voltar depois para casa por
aquelles caminhos desertos dos arredores de Lisboa;
a mim sobretudo, que tinha de passar pelas casas arruinadas
de Campolide, sorria a idéa de
ir com a imaginação
povoada de phantasmas, que poderia distribuir
á vontade pelos recantos d'essa paisagem tão
magestosa,
quando a lua envolve os paredões solitarios na
branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se
desenha sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil
grandioso do aqueducto sombrio.
Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez
rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e
começou pouco mais ou menos n'estes termo
Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez
rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e
começou pouco mais ou menos n'estes termos:
II
«Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez
o
Baile de mascaras. Era uma noite
de delirio no theatro
de S. Carlos. Franschini, o cantor sublime, fazia
tremer de enthusiasmo a platéa inteira, e a voz portentosa
de madame Lotti despenhava sobre o publico
palpitante torrentes de melodia e de sentimento. O
personagem de Amelia, interpretado como então o foi,
deixava de ser um typo creado pela imaginação do
poeta
para se transformar, animado pelo Prometheo do genio,
n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em
suspiros de harmonia, iam arrancar os
soluços dos peitos
dos espectadores.
Era o poema da paixão, com todas as suas peripecias,
mas da paixão verdadeira, da paixão que geme e
rasga os seios da alma, da paixão que verte lagrimas,
de cujas feridas brota o sangue, e não d'essa
paixão
ficticia, cuja expressão convencional anima só a
mascara,
que a artista desafivella apenas desce o panno.
Eu, perdido n'um canto da platéa, escutava, como escuto
sempre quando vou ao theatro lyrico. N'isso devo
confessar-lhes que tenho idéas um pouco originaes. O
panno, que sóbe lentamente no principio da opera, descerra
para os outros espectadores meia duzia de taboas
rodeadas por bastidores de lona, onde uns poucos de
artistas vão cantar umas poucas de arias para divertimento
do publico. Para mim é como que uma janella
encantada que se abre por onde eu me arrojo para os
espaços azues do ideal. Os outros analysam com toda a
paciencia a instrumentação e o canto, investigam
se foram
executadas as leis do contraponto, e depois de satisfeitos
applaudem compassadamente para não rasgarem
as luvas, voltam-se bocejando, e comprimentam a
senhora condessa de * * *, ou a senhora baroneza de * * *,
cuja chronica escandalosa vão contar immediatamente
ao seu visinho da esquerda.
Mas eu não. A minha alma, que illumina o fogo do
enthusiasmo, não póde ficar na terra, quando
sente passar
no espaço o sopro da harmonia, da casta filha do
céo. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores,
desapparece a ficção. Arrastada no manto de fogo
do ideal, a minha alma sente, enleva-se, palpita, geme,
pranteia, soluça com Macbeth o grito do remorso, suspira
com Desdémona a canção da saudade,
gorgeia com
Helena o hymno da desposada, escuta com Rosina a
meiga serenata, sólta com Lucrecia o rugido da envenenadora,
e volta depois á terra, deixando-me ficar pallido,
extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante
claridade de um mundo desconhecido.
Tinha começado o segundo acto, e eu seguia cheia de
um vago terror a scena lugubre do principio. As notas
da aria de Amelia soavam-me aos ouvidos como dobres
de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de pavor,
que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo
estremecer os espectadores, eu levantei-me pallido,
convulso, e senti correr-me pela raiz dos cabellos
o halito de fogo de uma mysteriosa commoção.
O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me,
deixei cahir a cabeça entre as mãos, e scismei.
—Ó ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver
a longos tragos o teu nectar precioso na cinzelada
taça da phantasia?
«Ó virgem dos meus sonhos, ó anjo das
azas de
ouro, quando poderá a minha alma, abraçando-se
comtigo
nas regiões celestes, aspirar a plenos pulmões a
balsamica aragem da poesia?... O que és tu, ente
mysterioso, que assim bafejas o
espirito
dos grandes
poetas, e lhes vaes murmurar, em noites de
inspiração,
os segredos sublimes que o vulgo profano admira, mas
não comprehende?
«Oh! quaes serão as visões d'estes
homens portentosos,
e nas suas noites de febre, de delirio e de insomnia,
em que mysticos amores te enlaças tu com
elles, ó ideal sublime, ó ideal inspirador? E
emtanto
nós, os desherdados, bebemos com um riso alvar a agua
insipida e lodosa dos prazeres do mundo, e caminhamos
n'esta planicie monotona da vida, olhando com
terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados
da divina aureola, os harmoniosos prophetas, os
validos da inspiração!
«Não posso; falta-me o ar no recinto estreito da
vida
social; a prosa d'este mundo opprime-me o
coração. A
minha alma está sequiosa de amor, e este apparece-me
sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o
rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes,
ou a mascara odiosa do capricho sensual. Amor!
amor! mas um amor como o teu, ó casta e pura Amelia,
como o teu, ó Julieta, ó noiva gentil de Romeu e
da sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se
elle não se encontra na terra, surge dos tumulos,
ó
pallida virgem por quem eu anhelo, e mostra-me ao
menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da eternidade!»
N'isto levantei a cabeça, e os meus olhos
involuntariamente
fixaram-se
n'um camarote, que ficava pouco
distante do logar que eu occupava na platéa. Uma senhora
de belleza maravilhosa estava sósinha n'esse camarote,
e encarava-me com uma attenção extraordinaria.
Não sei porque gelou-se-me o sangue nas veias, e
fiquei extatico a contemplar aquella esplendida formosura.
Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A
correcção das linhas, a pureza dos contornos, a
magestade
do perfil deixavam na sombra os mais perfeitos
modelos da antiga estatuaria. Praxíteles quebraria
desesperado
as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado
contemplar as inflexões suaves, a
perfeição das fórmas
d'aquella viva esculptura.
Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez
marmorea da physionomia. Via-se que nem tristezas
nem alegrias seriam capazes de alterar a regularidade
do semblante, que só parecia ter vida nos olhos, que
eram lindos a mais não ser, e d'onde emanavam raios
magneticos e deslumbrantes, que enlouqueciam quem
se atrevesse a encaral-os. Aquelle rosto assemelhava-se
a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse
collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um
fragmento de gêlo dourado levemente pelos reflexos de
um vulcão, mas essa physionomia tinha um não sei
que de mysterioso e sombrio, que me impressionou
profundamente.
Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no
mostrador meia-noite em ponto.
No theatro os conjurados cantavam o côro das gargalhadas,
e repetiam rindo o estribilho:
Ah! chè baccano-sul caso
strano
Andrà dimani per la città!
III
Sem poder explicar a mim mesmo a fascinação
irresistivel,
que me impellia tão imperiosamente á
contemplação
d'aquelle formoso semblante, nunca mais desviei
a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com
uma meiguice de enlouquecer.
Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia
para fazer realçar a alvura da sua tez. Trajava
elegantissimamente, mas com uma singeleza, que me
encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom
gosto na simplicidade.
Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem
poderia
ser? Tão nova, tão formosa, e só! Oh!
meu Deus!
seria ella uma d'essas mulheres sem pudor, que arrastam
por toda a parte o manto de seda da ignominia,
que foram apanhar da lama, onde deixaram em troca
o candido véo da innocencia? Impossivel! O seu porte
modesto, a simplicidade do seu trajo
eram um protesto
vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas
Messalinas venaes.
Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava,
estivesse escondida na sombra do camarote;
talvez tivesse saído. Tudo podia ser, mas a suspeita
é
que não podia manchar nem por momentos a luz serena
d'aquelle rosto angelical.
E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação
estranha se operava em mim. Parecia-me que as luzes
do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco até se
reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes,
o palco e a
platéa confundiam-se n'um vasto
cemiterio, onde o vento da noite fazia ondular a copa
dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os
raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga
das sepulturas.
E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me
com o seu olhar tão triste:
—Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo
material, ó doido, que aspiras ao infinito sem pensares
que tens os pés embaraçados na immunda vasa
d'esse
oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não
queiras conhecer os segredos dos tumulos, porque tu,
meu louro poeta, voltavas ao mundo de cabellos brancos,
se tocasses um só minuto com os labios na taça
inebriante dos amores da eternidade!
—Oh! que me importa a vida, respondia eu na
allucinação
febril, se em troca d'esses dias de prosa me
posso arrojar um instante só aos espaços
infinítos das
sublimes commoções! A minha alma é
como a aguia,
que se arroja ás regiões das nuvens, affrontando
a tempestade,
e cae depois na terra fulminada pelo raio, que
altiva foi provocar. Que me importa a mim a morte, a
condemnação eterna, se podér sorver
nos teus
labios
voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o
poema sublime do amor, que eu phantasio?
A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora
d'Oscar, o elegante pagem, vinha murmurar-me aos
ouvidos:
Pieno d'amor
Mi balza il cor;
Ma pur discreto
Serba il segreto.
E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em
letras de fogo a mesma confissão inebriante:
Pieno d'amor
Mi balza il cor.
IV
Tinha acabado a opera. Levantei-me e saí.
Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para
o camarote fatal. A pessoa que o occupára durante a
noite produzira em mim uma impressão tal que cheguei
a ter medo... medo da influencia pasmosa que
ella ía tomando sobre o meu pobre
coração.
Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro
vulto, que passou por diante de mim, foi o vulto
elegante e nobre da gentil desconhecida. Ia só!
Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar,
me lançou um d'esses olhares que endoidecem o
homem de rasão mais fria, que lançam no inferno o
mais virtuoso santo do paraizo.
Não tive forças para luctar contra a
fascinação irresistivel
d'esse olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia
magnetica do olhar de José Balsamo sobre a pobre
Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a pobre
italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle
jugo oppressor, debalde oppunha toda a força da sua
vontade e do seu odio á tenacidade diabolica do terrivel
magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da
sua devoção, com todo o vigor da sua alma
virginal
áquelle poder incomprehensivel, mas horrendamente
verdadeiro; tinha
de recuar diante d'esse olhar, como
diante d'uma espada chammejante, até caír
oppressa e
desesperada aos pés de José Balsamo.
Então esse corpo
quebrado pela resistencia, reclinava-se nos braços
da voluptuosidade, e a voz que ia terrivel a bradar:
«Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar:
«Adoro-te».
Ao vêl-a, disse eu commigo mesmo: «Não
quero,
não quero ceder a esse imperio inexplicavel.» E
minutos
depois, surprehendia-me a seguil-a apressadamente
pelas ruas de Lisboa.
Ha occasiões em que nos vêmos obrigados a
acreditar
em forças sobrenaturaes que nos attrahem e nos
repellem, é quando a nossa vontade se aniquila, e quando
as leis da nossa organisação são
violentamente revogadas
por um despotismo estranho.
Submetto esta reflexão á
consideração dos illustres
materialistas que me escutam!
V
A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar
de todos os meus protestos me surprehendi a seguir
a senhora de negro, foi a desculpa da curiosidade.
Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente
baforadas de fumo do charuto que acabára de
accender no momento em que passou por diante de
mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural?
Encontro uma linda mulher em S. Carlos, linda como
poucas, e original a mais não poder ser. Vejo-a no camarote
sósinha, e torno a vêl-a, saíndo a
pé, e ainda
só.
Não tenho nada que fazer, e por conseguinte
sigo-a.
É naturalismo.
E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:
—É o brilho da chamma tentadora, ó doida
borboleta,
é o olhar fascinador da serpente, ó ave
descuidosa.
—Ora adeus, respondia a voz da minha apparente
philosophia, prejuizo, superstição, fanatismo,
como dizia
o tenente Boutraix de um dos romances de Carlos
Nodier. Vou offerecer-lhe o meu braço.
A senhora que eu seguia caminhava lentamente a
quinze passos adiante de mim, quando muito. Passava
ella então defronte da egreja dos Martyres. Puz o
chapéu
ao lado com modos conquistadores, colloquei o
charuto ao canto da bocca, e accelerei o passo.
Apesar d'isso, e apesar da minha bella não alterar por
fórma alguma o seu andamento, não diminuia, pelo
menos
sensivelmente, a distancia que nos separava. O vulto
elegante da senhora de negro, ao passar por diante dos
candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza
de fórmas, em toda a magestade do seu porte airoso.
Havia uma suprema distincção no seu modo de
andar,
mas apesar d'isso havia um não sei quê de
mysterioso
n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriçado, que fazia
uma impressão pouco agradavel.
Chegámos assim á rua Nova do Carmo; ella voltou
para baixo; eu segui-a.
A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo
o numero das pessoas que caminhavam para
aquelles sitios, saindo, como nós, de S. Carlos, eu tomei
uma resolução definitiva, e comecei a dar grandes
passadas
para apanhar finalmente aquella mulher que me
fugia
incessantemente como esse caçador das lendas do
norte, que foge sempre, sem perder um palmo de terreno,
mas sem poder tambem desapparecer, á sua matilha
infernal.
Nem assim pude diminuir a distancia que me separava
d'esse vulto extraordinario.
E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio,
sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo
nas ruas solitarias.
Chegámos ao Rocio. Eu começava a estar suado.
Despi, sem affrouxar o passo, o paletot que me incommodava,
e pul-o aos hombros.
Depois dei a andar com dobrada rapidez.
A senhora de negro caminhou pelo Rocio na
direcção
do Passeio.
Chegámos ao largo de Camões.
Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava
entre nós.
E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio,
sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo
nas ruas solitarias.
Eu apertava as mãos na cabeça, porque sentia uma
torrente de fogo a inundar-me o cerebro, e a rasão a
abandonar-me.
A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me
sinistro devéras o aspecto d'essa massa do
Passeio Publico, envolto n'um manto de trevas.
A quinze passos adiante de mim caminhava sempre
elegante e distincto o vulto negro da minha gentil desconhecida.
Perdi a cabeça e deitei a correr, litteralmente a correr,
atraz d'ella. A bulha da corrida produzia um som
lugubre, e fazia-me
estremecer de vez em quando. O
suor escorria-me em fio pela cara abaixo.
Saimos da rua Oriental do Passeio, entrámos na
calçada
do Salitre, chegámos á esquina da travessa do
Moreira, e eu não conquistára um palmo de
terreno.
E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio,
sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo
nas ruas solitarias.
Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente
na travessa, e eu parei. Sentia o coração
palpitar-me
com violencia, e... tive medo, confesso o.
Era tão extraordinario o que me estava succedendo,
que este sentimento, devem confessal-o, era um pouco
desculpavel.
Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente
n'essa rua tão deserta.
Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma
casa isolada no meio da travessa, parou, voltou-se para
mim, e bradou com uma voz melodiosissima:
—Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta
janella.
Eu estaquei attonito de surpreza.
VI
Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito,
quando voltando para casa me fui sentar á mesa de
trabalho, e comecei a reflectir fria e pausadamente na
aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e
fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias
para o sobrenatural.
Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra
coisa que
não fosse a seducção
inexplicavel, que me attraía
para esse ente incomprehensivel, fui no dia seguinte
á meia-noite ao
rendez-vous aprazado.
Soava não sei em que relogio a ultima badalada da
meia-noite, quando se abriu a janella, e appareceu ante
os meus olhos deslumbrados o formoso rosto da gentil
desconhecida.
Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me
ao céo da bocca, e não pude dizer uma palavra
que se entendesse.
—Porque me seguiu hontem? perguntou ella
com
uma voz melodiosa e triste, como o gemer da brisa
nos cyprestes.
—Porque a amo.
—Sabe quem eu sou?
—Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo
que nos afaga em sonho o nome com que o distinguem
nas phalanges celestiaes?
—E ama-me?
—Mais do que a vida!
—Só?!
Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim?
Não sei; sei que lhe respondi com o olhar inflammado:
—Mais do que Deus!
—Não estranha o mysterio em que me envolvo?
—Não sei. Este amor é uma paixão
fatal. Virgem
ou devassa, candida ou profanada, anjo ou demonio,
amo-a cegamente, sem me importar com o passado nem
com o futuro, desejando só ter o presente meu, só
meu. Este amor é para mim um vinho que embriaga,
e se no fundo da taça encontrar veneno, que importa?
morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto
é
uma
loucura, bem
sei, mas se podesse conhecer a atonia
moral em que o meu espirito tem existido! Se soubesse
como eu anhelo por estas commoções
extraordinarias,
que devoram n'um minuto a existencia de um
homem! Já vê quão pouco exigente eu
sou; não me
negue um raio d'essa aureola d'amor que lhe circunda
a fronte. Essa luz tenuissima transformal-a-hei em chamma
esplendida, que ha de illuminar as trevas do meu
viver prosaico.
—Acceito o seu amor, se essas palavras não o
exageram.
Não queira penetrar no mysterio que me envolve.
Quando fôr necessario, eu mesma o rasgarei, e confie
em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. Entretanto
creia e espere. Adeus.
—Já?
—Não me posso demorar nem um minuto.
—Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este
amor immenso não encontrou echo no seu
coração?
—Amo-o.
—Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante,
immenso?
—Immenso... como a eternidade.
E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada
vez mais espantado da estranheza dos seus modos.
VII
Assim continuou todas as noites aquelle amor
excentrico.
Todas as noites eu tomava a firme resolução
de não tornar lá, e sempre as badaladas da
meia-noite
me
surprehendiam na
travessa do Moreira, por baixo da
janella fatal.
No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam
meus paes do meu casamento com uma menina
rica, que não desgostava de mim, e por quem eu,
não
sentindo amor, não sentia tambem antipathia.
Era ella uma menina capaz de inspirar uma
affeição
fraternal, mas nunca uma paixão a um espirito arrebatado
como este meu.
Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar.
A pobre menina não tinha culpa d'isso. Demais a
mais era o que se podia chamar um acerto: dote soffrivel,
excellentes qualidades de mulher e de dona de
casa.
Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente.
Não sendo muito guloso, não era eu o mais
proprio para poder apreciar dignamente esta prenda,
que a distinguia.
Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de
S. Carlos. Um dia passei occasionalmente por lá, e vi-a
com os olhos
vermelhos de chorar.
Comprimentei-a,
ella
correspondeu me tristemente, e retirou-se da
janella.
—Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar
nos marmelos. Talvez ali esteja um coração!
accrescentei
eu no monologo mental. Não creio, continuei,
o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a
no
varrer da casa.
Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores;
idéas d'um espirito extravagante que procurou
sempre em regiões inaccessiveis a felicidade, que nunca
pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu lado
sem eu dar por isso.
O meu espirito talvez fosse como o Rouvière de uma
comedia de Feuillet, que, depois de ter percorrido o
mundo em todos os sentidos, fica espantado de encontrar
a felicidade sentada ao canto da lareira de uma familia
burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.
VIII
Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de
amor. Até o nome era de fazer enlouquecer um enthusiasta
como eu.
Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare
circumdou a fronte da pallida italiana, parecia
atravez das edades vir doirar com um reflexo luminoso
a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.
Foi a unica informação a seu respeito que d'ella
obtive.
Tudo o mais ficava para mim envolvido n'um mysterio
que eu não tentava penetrar.
Uma noite a nossa conversação foi tomando a pouco
e pouco um caracter mais ardente e languido. Palavras
de amor entrecortadas, suspiros involuntarios vindo interromper
o dialogo, longos silencios durante os quaes
eu sentia o palpitar apressado do meu coração, em
quanto via a imagem seductora de Julieta desenhar-se
na janella illuminada caprichosamente pelo fulgor da
lua, tudo isto despertava em mim uma voluptuosidade
deliciosa, mas que me magoava.
Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga
contemplação da lua e da noite perfumada, eu
involuntariamente
approximei-me da parede da casa, e ajudando-me
com as grades da janella do pavimento das lojas,
pude trepar
até ao parapeito da janella, e de repente,
sem que ella parecesse reparar na ousadia do meu procedimento,
imprimi-lhe nos labios um beijo de fogo.
Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.
Olhou para mim com olhar meigo e recuou.
Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando:
—Julieta, amo-te!
E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores.
Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel.
Não podia dizer se era ternura, se ardor, se frieza, o
que esse olhar continha; sei sómente que quanto mais
ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.
—Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me
o braço á roda do pescoço, e
arrastando-me com
meiguice para uma porta entre-aberta, vem! sobre o
lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o
rouxinol as suas trovas de amores! é tudo mysterio
n'esta hora encantadora! Vem!
Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido.
IX
Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres
se expandem na atmosphera thesouros de aroma e de
languidez, e em que o homem absorto julga escutar
vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia
das espheras.
Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as
perolas do seu canto, e em que a natureza escuta embevecida
o hymno mavioso do seu interprete sublime.
Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e
o mundo parece envolver-se por momentos no manto
da sua virgindade, afim que Deus possa reconhecer a
sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme
pretencioso que se chama o homem.
E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza,
revê-se silencioso no espelho da
Creação.
Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto
luminoso sobre as alamedas desertas do esplendido jardim!
Como os seus raios se baloiçam mollemente no
berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos
no crystal das fontes!
E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo,
parecem espreitar complacentes os mysterios da voluptuosidade
que se vão abrigar nos caramanchões floridos!
E emtanto as acacias que lhes assombreiam os
vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das
flôres vermelhas as pregas ondeantes da sua roupagem
marmorea!
E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre
os alegretes, e a voz do rouxinol da balseira despertava
no meu coração um rouxinol desconhecido que me
fallava
de amor e de ternura.
Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que
sentia ao tocar-lhe nos labios as azas brancas do anjo
da pureza que davam áquella fronte limpida um resplendor
celestial.
Por um sentimento involuntario troquei o meu annel
pelo annel de Julieta.
Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos
contemplava com indulgencia!
X
Mas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos
de terror, e correu-me pelas veias um calafrio.
Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue refluiu ao
coração.
Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o
rouxinol suave, sumiram-se as estatuas, fugiram as
acacias.
Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de
um cemiterio, de um lado e de outro avultam as pedras
brancas das sepulturas.
O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios,
e o pallido clarão da lua vem beijar melancolico as cruzes
tumulares.
O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba
a paz dos mortos; por entre a relva dos sepulchros
fulgura a lugubre phosphorescencia dos cemiterios.
É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a
sentir-se
um vago rumor, que parece o longiquo ruido de
um exercito marchando.
E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre
os tumulos, dando vida ás loisas e voz ao cyprestal.
Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e
as figuras de pedra que guardam, sentinellas inanimadas,
o somno dos finados, agitam-se convulsamente ao
sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.
A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres
vezes echoou na immensidade aquelle som terrivel.
E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor
gelado me inundava a testa.
Então um côro de vozes cavas e profundas entoou
lugubremente o
Dies irae, o hymno
da colera de Deus.
E logo uma longa procissão de phantasmas brancos
começou a desfilar por diante de mim n'um silencio
aterrador.
Depois deram-se as mãos e formaram em torno de
mim uma dança de espectros.
E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor
gelado me inundava a testa.
Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo
e avançou para mim.
E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no
terreno, e uma força invencivel me domava.
O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas
eu sentia-o vibrar no fundo do coração.
Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe
a fronte a grinalda virginal das rosas brancas.
Reconheci as pallidas feições de Julieta, da
minha
noiva de ha pouco.
—Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella
sorrindo; vem, meu pallido amante, vem inebriar-te com
as mysticas voluptuosidades das sepulturas.
O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro
do cemiterio serão as danças dos finados o nosso
baile nupcial.
Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de
dentro da loisa entreaberta a alva mortalha do nosso
leito de noivado!
E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um
sepulchro, e senti que a mão de Julieta me arrastava
invencivelmente.
Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos
finados, o mocho
soltava o seu grito funebre, e a lua
entornava sobre as campas a sua luz tão pallida.
E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e
um suor gelado me inundava a testa.
Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue
por diante dos olhos e cahi desmaiado!