VII
«Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto)
Eduardo, estando a fazer umas contas, tirou me
da algibeira e pôz-me em cima da secretária.
Depois,
a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de
mim, de fórma que eu já parecia um pobre
Encéladosinho
de seda, debaixo de um Etna de papelada.
«Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se,
e, como estivesse tocando a sineta para o
jantar, foi para a meza e não se lembrou mais da pobre
bolsa.
«Por infelicidade, na vespera,
tinham os donos da
casa recebido a visita de uma joven viuva, muito galante,
muito
coquette, e que parecia
desejar jungir ao
seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem
não se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares
cheios de fogo e de estrategia. Eduardo, como podem
imaginar, nem
reparára
em semelhante coisa; porém
sua esposa, com a perspicacia de mulher, adivinhára
tudo, e sentira o ciume, não digo bem, o despeito
apoderar-se d'ella. Não sei a que proposito, Eduardo
me fôra buscar, e a joven
viuva mostrou desejo de
me vêr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mãos
da
baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente
encontraram os dedos da gentil
coquette. Um
raio de indignação fusilou nos olhos de Camilla,
a baroneza
sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ
uma proxima tempestade.
«Por isso, e apesar da mão da baroneza ser
tão delicada
e macia como a da minha creadora, apesar dos
elogios que ella me prodigalisou, eu não fiquei satisfeita
senão quando me vi livre da sua analyse.
«Mas d'esta vez foi a mão de Camilla quem me
recebeu.
Rapidos como o relampago, os dedos elegantes,
que me tinham lançado ao
mundo,
adivinharam,
antes
d'ella a executar, a tenção que a baroneza
formára de
me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder
a mão solicita de Eduardo.
«Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom
humor de Camilla alterára-se sensivelmente,
alteração
cujas consequencias Eduardo soffria com grande pasmo
seu. Não podia comprehender o azedume que sentia em
todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando
pelo buraco da fechadura da minha gaveta, o vi
de pernas cruzadas, e em attitude meditativa, perguntando
a si mesmo quaes seriam os díabos
azues que
atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.
«Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar
café
para o sitio onde eu estava; a conversa que se travára
entre elles
affrouxava a cada instante, porque os esforços
que Eduardo fazia para a sustentar eram completamente
infructiferos, por causa da sequidão das
respostas de Camilla.
«Acabaram de tomar o café, e Camilla foi
encostar-se
á janella.
—«Está uma tarde tão bonita!—disse
Eduardo,
não queres aproveitar este lindo dia de inverno para
ires vêr os campos, que estão experimentando
já os
mantos verdejantes com que hão de comparecer na
festa annual da primavera?
—Está estragando comigo a sua poesia, respondeu
Camilla seccamente, guarde-a para as pessoas que
quizer deslumbrar. Isso era bom quando me fazia a
côrte.
—«E não sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste
tu um instante só de ser a noiva gentil que eu
adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar? Não
sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos?
Isso, a que se deu, por convenção, o triste nome
de prosa do casamento, teve nunca entrada nos nossos
corações?
—Ah! Ah! que differença! O que me dizia então:
«Oh! nunca me hei de separar de ti! Hei de estar
sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo inteiro
junto do teu olhar?» E agora sae quando lhe parece,
anda por fóra o tempo que quer, demora-se a conversar
com os amigos; porque sua mulher, essa não serve
senão para estar n'um canto da casa, á espera que
o
senhor lhe faça a esmola
da sua presença. Não é porque
eu me importe com isso! Eu, sim! É-me completamente
indifferente! Nunca estou melhor do que quando
está
longe de mim! Olhe, d'isso
póde estar certo! Se
fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.
—«Quanto és injusta, Camilla! Pois eu
não desdenho
tudo, tudo n'este mundo para estar junto de ti;
não prefiro a todos os vãos divertimentos, a
todos os
prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os
meus negocios me chamam fóra de casa, não me
affasto
de ti tão penalisado, e não aproveito a primeira
occasião de me desembaraçar d'elles para correr
alegre,
satisfeito, risonho, a abraçar-te, a beijar-te, a
testemunhar-te
o immenso e inalteravel affecto que te
consagro?
—«Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes
são elles? Talvez ir visitar a baroneza!
«Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher,
e disse:
—«A baroneza! A baroneza, porquê?
—«Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou
Camilla, fazendo-se ligeiramente córada.
—«Nada! Isso è um tanto inverosimil.
—«Inverosimil, porquê?—tornou Camilla,
irritando-se
e fazendo-se vermelha de despeito. Talvez imagine
que eu tenho ciumes do senhor. Que vaidade tão louca!
que presumpção! Que fatuidade! Ora esta! como
logo
suppôz que eu era ciumenta!
—«Mas, filha...
—«Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! é de um
ridiculo incrivel! Não querem vêr o formoso
Richelieu,
que anda semeando paixões por toda a parte! E julga
talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore
á sua vontade! Faça o que quizer! Esteja certo
que nunca me ha de dar cuidado! convença-se... entendeu?
Convença-se
bem de que nunca tive ciumes
do senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma
predilecção
passageira! Foi um capricho de que me arrependo!
—«Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no
seu amor proprio, que a união eterna de duas pessoas
não é coisa tão ligeira que se possa
decidir levianamente,
e, se não sentias por mim o amor immenso que
eu te consagrava, mais valia que me despedaçasses o
coração, do que me dirigisses agora essas
palavras
amargas.
—«Então chegou o momento! Sempre fica sabendo
que se enganou; quando suppôz que eu tinha ciumes
da baroneza.
—«Mas foi coisa em que não fallei, filha, bradou
Eduardo um pouco impacientado.
—«Bem o deu a entender! Não o disse, mas
pensou-o.
E então escolheu bem a pessoa que me poderia
tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida, uma
coquette insupportavel, que
não tem nem belleza, nem
espirito, nem graça, nem elegancia, mas que possue
em compensação uma vaidade immensa.
—«Pobre baroneza!
—«Defenda-a, ande! então porque a não
defende?
É o que lhe falta unicamente! Ouse tomar, deante de
sua esposa, o partido de uma mulher como é a baroneza.
—«Ih! Jesus! Camilla! Eu não tomo a defeza de
pessoa alguma. Mas tu fallas da pobre senhora, como
se lhe tivesses um odio mortal.
—«E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os
dentes cerrados e os olhos fusilantes, tenho odio a essas
mulheres de maneiras affectadas, de olhares languidos,
de vistas
fascinadoras, deslumbrantes na apparencia,
grosseiras na realidade, a quem os homens seguem
tolamente, como as borboletas seguem a luz, ainda que
essa luz emane de uma candeia afumada. Quando ella
hontem quiz vêr a bolsa que eu fizera, tive
tentações
de a rasgar, para lhe poupar uma profanação. E a
proposito,
onde a tens tu?
«Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever
servir de transição para uma
conversação mais serena,
começou-me a procurar alegremente por todas as algibeiras.
O acaso fôra-me collocar muito mirrada na extremidade
da secretária. No remexer dos papeis eu tinha
quasi caido ao chão; felizmente ou infelizmente,
um resalto da secretária tinha-me retido, e eu alli
ficára
suspensa por uma das borlas, estando esta de
mais a mais completamente occulta por um fragmento
microscopico de papel. Da posição em que eu
estava,
podia vêr e ouvir tudo, sem que ninguem me podésse
divisar.
«Quando Eduardo começou a revolver as algibeiras
não pude deixar de me rir. Era tão comico o
espanto
d'elle, quando, depois de ter esquadrinhado minuciosamente
todos os cantos do seu fato, não encontrava
coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam
as consequencias d'aquella scena, ria-me a fartar.
«Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e
batendo o compasso com o pé no sobrado da sala.
—«Talvez lhe esquecesse lá por
fóra!—disse ella,
accentuando muito as palavras.
—«É impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter
n'esta algibeira. Já depois de estar em casa eu a vi, e
até lhe peguei.
—«Talvez a tivesse confiado a alguem!—tornou
Camilla com o mesmo sorriso estereotypado nos labios.
—«A quem?—perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.
—«Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse
d'ella, e que a desejasse conservar por algum tempo.
—«Ora essa! Não pódes suppôr
que eu fizesse tal!
—«E porque não? Os homens julgam que tudo lhes
é permittido.
«Mas Eduardo não a ouvia. Tinha-se recordado das
contas que fizera, e tinha corrido a revolver os papeis
que estavam em cima da secretária. Eu, que via a
má
figura que o negocio ia tomando, não desgostei de que
elle tomasse aquella resolução.
«Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do chão
toda a papelada com uma impaciencia febril, debalde
tentou, depois de os ter reunidos, separal-os um a um.
Eu não apparecia; preza na minha esquininha, sem poder
revelar por fórma alguma onde estava, assisti, espectadora
muda mas não indifferente, áquella
caçada
férvida, em que tanto interesse tinham em se encontrar
a caça como o caçador, mas que apesar d'isso
ficava
sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mão
de Eduardo, revolutearem nos ares em torno de mim,
senti a sua mão impaciente pousar em cima das minhas
borlas, sem saber que estava a meia pollegada de distancia
da extremidade dos seus dedos o objecto que
tanto procurava. E elle bafejava-me com o halito e não
tinha um presentimento que o advertisse, desviava com
a mão tremula os papeis que me encobriam, e de nenhum
d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse:
«Para conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora
com dez annos da tua vida, basta-te abaixar a cabeça,
e estender a mão.»
«Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada
de suor, deixou-se cair prostrado em cima de uma cadeira,
e dirigindo-se a sua mulher, disse com voz sumida:
—«Creio que a perdi.
«Camilla não se pôde conter. As
lagrimas, tanto tempo
retidas, rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as
faces.
—«Era isso que eu esperava havia muito tempo,
bradou ella com voz entrecortada. Eis a resposta com
que não só pagam a minha
dedicação, mas tambem com
que pretendem illudir a minha boa fé. Anda! trabalha
com amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha
thesouros de affecto, sorri só ao pensares que essa
obra das tuas mãos vae ser a constante companheira
d'aquelle em que tu só pensas, por quem tu só
vives,
cuja apparição te enche de prazer, cuja ausencia
te faz
ficar immensamente triste. Ai! quanto te illudes, pobre
louca, esse teu mimo ha de ser desprezado, porque tu
tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor conjugal
é uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem
o teu presente, e vão depressa offerecel-o á
primeira
namoradeira que prender, nas suas rêdes vulgares,
a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja prisão
lhe é insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem
se exime a ella.
—«Ih! Jesus! Ih! Jesus!—dizia o pobre Eduardo
com as mãos na cabeça; mas, filha... eu sou um
estouvado...
a bolsa ha de estar por ahi... Da nefanda
traição
de que me accusas é que sou
completamente
incapaz.
—«Traição!—tornava Camilla
procurando, sem o
conseguir, conter o pranto; póde-me trahir á sua
vontade
que me é completamente indifferente. Engana-se
se julga que eu dê o menor apreço á sua
fidelidade.
—«Mas n'esse caso porquê?
—«Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim?
Riram-se das minhas creancices? Quantas caricias lhe
valeu esse sacrificio tão pouco custoso?
—«Isto é demais!
Juro-te...
—«Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem
me jurou amor eterno, e...
«E a pobre senhora desatou a soluçar, e caiu
sentada
n'uma cadeira. Eduardo, com as lagrimas nos olhos,
ajoelhou aos pés d'ella, e exclamou com voz commovida:
—«Camilla, não chores que me
despedaças o coração.
Sou um grande criminoso, mas não mereço castigo
tão cruel. Bem sabes que o amor que te consagro
é immenso, é exclusivo, e que, desde que te
conheço,
nunca mais ergui os olhos para outra mulher. Camilla...
«Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe
com modo friamente
desdenhoso:
—«Aproveite a inspiração para algum
arrufo que tiver
com a baroneza.
«E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com
um joelho no chão, as mãos erguidas, a bocca
aberta,
espantado, aterrado, paralysado, petrificado, estupefacto!
«Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo á
secretária,
e
procurou
entre os papeis. Com o revolver caíram
alguns, e eu caí d'envolta com elles; o acaso fez-me
ainda ficar tão mirrada entre duas folhas, que,
quando Eduardo veiu procurar ao chão, escapei com
grande desespero meu ás suas pesquizas. Um tal accesso
de desespero se apoderou do meu dono, que,
pegando n'um grande mólho de papeis, no meio dos
quaes ia eu, sem elle o saber, amachucou-o, e depois
enraivecido, atirou-o pela janella fóra. O vento desfez
o mólho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de Eduardo,
outro de Camilla, que estava n'uma outra janella
por traz dos vidros.
«O vento forte que soprava, tinha-me separado dos
papeis, meus involuntarios carcereiros, eu caía
magestosamente
isolada, á vista dos dois conjuges, sobre as
pedras da rua.
VIII
«Nunca vim a saber o que se passára na casa,
d'onde
fôra tão bruscamente e tão
involuntariamente expulsa!
Apenas eu caíra no chão, um gaiato de
pé descalço,
que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou
a correr, apertando-me nas mãos, com uma tal velocidade,
que, por mais ligeiro que fosse Eduardo em
me vir apanhar, logo percebi que não havia
esperança
alguma de que o conseguisse.
«A corrida era desenfreada. Apertada na mão
callosa
do garoto, eu, habituada ao fino contacto das mãos
aristocraticas, que até ahi me tinham manuseado, sentia
dôres atrozes, e uma profunda
humilhação. Eu, a
favorita dos opulentos, tratada assim tão
irreverenciosamente
por um rapaz
pertencente á escoria da sociedade!
Ao meu passado de gavetas de secretárias, de
sophás, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro
de palheiro, de calças esfarrapadas, de degraus humidos
de escadarias. As feridas abertas na minha pelle,
tão cuidadosamente curadas e cicatrisadas pela minha
senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez alargadas
pelos dedos travêssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu
pensando, em quanto o meu roubador corria a bom
correr, primeiramente pelas ruas da cidade, e depois já
pelo campo.
«Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz
descalço á desfilada, não é
um caso tão grave, e tão
raro, que os encarregados da policia descessem da sua
dignidade, para inquirirem o que motivára a carreira
despedida em que elle ia.
«Chegou ao pé de uma fonte, e, pensando
provavelmente
que já estava fóra do alcance dos seus
perseguidores,
entendeu que podia descançar. Por conseguinte
estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira
um lenço muito esfarrapado, começou a limpar o
suor que lhe escorria pelas faces.
«Estavamos já nos primeiros dias da primavera, e
os
campos revestiam-se de um manto verdejante, que os
malmequeres e as boninas esmaltavam. A agua da fonte
corria com um doce murmurio, e myriades de insectos
com as azinhas doiradas pelo sol, esvoaçavam zumbindo
pelo prado. O sôpro, mysteriosamente vivificador da
primavera, percorria a creação.
«O meu novo possuidor deitara-se, como já disse,
em cima da relva, e collocára-me ao seu lado. Para mim
tudo quanto me rodeava era completamente novo. Eu
nunca tinha
saído da cidade, e o aspecto dos campos
enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro
ambiente, que via um céo mais largo, mais azul!
Um enchame de novas sensações se agitava dentro
de mim.
«Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo
com uma alegre curiosidade. As feveras da herva que
se agitavam em torno, mettiam as suas cabecinhas tambem
curiosas pelos intersticios da seda, afim de observarem
que monstro desconhecido eu era. As boninas
coquettes como todas as
flôres, mostravam-me com desvanecimento
a sua formosura, para verem se d'ellas me
enamorava. Era a tentação que todas as formosas
sentem,
de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios:
«Ninguem é propheta na sua terra»
«Santos de casa
não fazem milagres», são, n'este caso,
da mais escrupulosa
exactidão. As abelhas, que vem de fóra, extrahem
mais depressa a essencia das flôres, do que as que
pertencem á colmeia do jardim.
«Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado.
O vento, acamando a relva e as florinhas, perguntava-lhes,
no seu dialecto incomprehensivel, que vós não
entendeis, mas que para todas nós é clarissimo,
quem
era a recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que
arfavam debaixo de mim, respondiam que era o Hymalaia,
e os insectos zumbidores respondiam que era uma
grande flôr verde com estames de oiro.
«O que é certo é que eu
consubstanciava-me de todo
com a relva que me cercava. Egualmente verde, não
transtornava em nada a unidade do tapete, e as minhas
borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.
«Assim estava n'aquelle
dolce
farniente, e confesso
que,
apesar de me lembrar de vez em
quando
dos donos
que me eram tão affeiçoados, e de quem me tinha
separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo
prazer completamente novo que me embriagava.
«Mas aquelle ocio não podia durar sempre. O
Tytiro,
que me apanhára, não estava muito disposto a
repousar
sub tegmine fagi, mais do que
convinha á sua indole
vagabunda, e depois de ter saboreado, por espaço
de dez minutos, quando muito, as delicias da
posição
horisontal succedendo á rapidez da corrida, levantou-se,
dirigiu-se á fonte, encheu de agua a palma da
mão,
disposta para esse fim, levou-a á bocca, bebeu, repetiu
duas ou tres vezes esta operação, e depois,
dirigindo-se
a mim, levantou me do chão, e
foi-me levando
socegadamente pelos campos fóra.
«É tempo agora de descrever o meu novo dono. Era
um rapazito dos seus quatorze annos, de rosto alegre
e queimado, com uns olhos negros muito vivos e rasgados,
uma bocca grande, que parecia estar sempre
preparada para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia
n'umas calças rotas, n'uma camisa muito suja, e
n'uma jaqueta tão arremendada, que era um verdadeiro
mosaico, porque creio que tinha todas as côres do espectro
solar, e todas as combinações que com ellas se
podem fazer. Um bonet, que estava rodeado por uma
densa armadura de sebo, occupava o alto da cabeça;
porque julgo não haver exemplo de ter sido collocado
na posição habitual, e a testa do garoto, se lhe
dissessem
que este possuia um bonet, estou que ficaria summamente
espantada.
«E lá ia elle por ahi fóra,
baloiçando o corpo a compasso
de uma cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se
no
caminho a apanhar
borboletas, a atirar
pedras aos cães, fugindo depois a bom fugir quando
estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores
da estrada a espreitar se já haveria ninhos entre
os seus ramos, cobertos de novas folhas, e saltando os
muros dos pomares, para se ir empoleirar nas larangeiras,
trincando as laranjas verdes ou maduras, que
se lhe deparavam.
«Devo confessar que a minha situação
durante estas
excursões, motivadas pelos entretenimentos do meu
dono, não eram das mais invejaveis, e que bastantes
vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar
dos campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos
seus prazeres do que ás minhas commodidades, e nem
posso descrever os sustos que curtí, quando os
cães
corriam atraz de nós, e que eu via os seus dentes agudos,
que seriam capazes de me despedaçar n'um segundo;
a triste impressão que eu sentia, vendo as borboletas
tão gentis, tão galantinhas, nas garras do seu
caçador cruel; as dôres que me faziam os esgalhos
das
arvores, rasgando me sem piedade, em
quanto elle subia
descuidoso,
indifferente, affastando a
ramaría, para
vêr se, n'alguma verdejante alcôva, não
teria ido a carinhosa
mãe dos passarinhos depôr o berço
gentil, que
as auras embalariam.
«Sobre tudo o que me atormentava era o costume
que elle tinha de saltar os muros dos pomares para se
ir sentar nas larangeiras, a fartar-se d'esses pomos que
a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e
que o seu Camões asseverou terem
A côr que tinha Daphne nos
cabellos;
o que é pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha,
que vinha a ser hyper-ruiva, se acreditarmos as
asserções
do cantor dos
Lusiadas.
N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa tão prodiga
em reflexões.
—O espanto, em que me colloca a sua erudição,
impede-me
de reprehender energicamente o tom com que
falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me, quem a fez
tão instruida?
—Não antecipemos os acontecimentos, como diria o
visconde d'Arlincourt, respondeu-me a bolsa.
—O quê? Pois tambem leu ou ouviu os romances
do visconde d'Arlincourt?
—Então! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando,
nem tudo são rosas na instrucção.
—Bem, continue.
«Como já disse, esse costume do meu dono
incommodava-me
sobremaneira; porque a escalada tinha para
mim todos os seus inconvenientes, e muitos mais, sem
ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a
subida pelo muro era summamente incommoda; porque
o bom do meu amigo, tendo todas as algibeiras
rotas, e, por conseguinte, não me podendo confiar a
nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas
calças e a sua jaqueta estavam tão amplamente
providas,
levava-me na mão, apertava-me sem cerimonia de
encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo
tempo uma pobre meia corôa que eu tinha dentro
de mim, e que eu sentia, de afflicta, resmungar no
meu seio.
«Depois, quando, á força de trabalhos e
de arranhões,
chegavamos ao cimo do muro, novos desastres nos esperavam.
Garrafas partidas
formavam uma especie de
negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar
os seus dentes agudissimos nos aventureiros que
intentassem a conquista. Mas o meu dono, que era, segundo
parece, já pratico n'aquelles assedios, tinha tomado
as suas precauções, e foi então que eu
vi que
não era só a questão das algibeiras
que o inhibia de
me resguardar, mas sim tambem uma questão de defeza
propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu
era, para assim dizer, o
césto, á
sombra do qual o garoto
jogava o murro com as paredes. N'uma das mãos
ia eu, na outra o lenço de assoar muito embrulhado.
A mão que eu protegia, era ainda assim a que estava
resguardada melhor; porque o tal lenço, para fallarmos
verdade, parecia a moldura de um quadro ausente;
um immenso rasgão formado por uma multidão de
rasgõesinhos
que se tinham annexado, occupava o centro-rodeado em toda a
extensão por uma pobre tira. Creio
que a historia d'essa transformação se
póde explicar
geographicamente. Imagine que o lenço ao principio se
assimilhava com aquelle territorio da America do Norte,
onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros.
Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos
que separam esses lagos, e que as aguas trasbordando,
e unindo-se, formavam um verdadeiro mar no
genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com
os rasgões do lenço do garoto.
—V. ex.
a permitte-me, interrompi eu, que a
proponha
para socia do Instituto Geographico de Paris?
—Muito obrigada! Não estou agora decente para entrar
n'uma academia.
—Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas
vasias devem ser
da mesma fôrma que as cabeças, as
que mais depressa sejam admittidas n'essas sociedades
sábias. Póde continuar.
«Não findavam aqui os meus soffrimentos.
Experimentava
alguns rasgões, mas consolava-me com o pensamento
de que o meu sacrificio era util ás mãos do
meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel
sympathia. É verdade que o demonico do rapaz
parecia não se affligir muito com as arranhadellas
que recebia. A mão esquerda, confiada á
protecção nominal
do lenço de assoar, chegava toda em sangue, e
isso, em vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a
e dar melhor sabor ás laranjas com que se fartava.
«Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se
no ponto de união de dois ramos, toucado de folhas,
baloiçando os pés no ar, e enviando as
mãos em
toda a direcção, a fazerem uma atrevida
razzia aos
taes pomos de oiro do antigo jardim das Hesperides.
E quer as laranjas estivessem ainda verdes, e por conseguinte
amarellas (n'esse caso tem rasão Camões e a
antiguidade), quer estivessem já em pleno sazonar, e
por conseguinte trajassem a purpura que merecem,
como rainhas que são de todas as fructas, o meu bom
gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade digna
de especial menção, e, ministro justiceiro dos
negocios
do seu estomago, escolhia para funccionarios todos
os fructos, sem distincção de côres.
«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto,
esfarrapado,
mais feliz no seu throno de cortiça do que
os reis no seu throno de oiro, comendo as laranjas do
proximo com mais satisfação, de certo, do que a
que
sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos
de que é victima a infeliz Polonia.
«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria
as más consequencias dos prazeres do meu senhor.
Para poder comer á sua vontade, o meu amigo largava-me
e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava
á mão. O vento baloiçava o ramo;
ás vezes um gatinho,
que andava passeiando por cima dos muros, vendo-me
ondular na extremidade, saltava e principiava a brincar
comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma
altura para mim desmesurada. Era necessario que os
latidos de um cão de guarda viessem inquietar o meu
dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha
incommoda posição, afim de operar a sua retirada.
Já vê, por conseguinte, que a minha existencia
aventurosa,
se tinha as suas vantagens, tinha tambem os
seus inconvenientes.
IX
«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento,
que eu não estava vasia, mas ainda se não dera
ao trabalho de verificar a quanto montava a sua nova
riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de laranjas,
cançado de trepar ás arvores, entendeu que era
já
tempo de attender aos negocios do thesouro. Sentou-se
por conseguinte n'uma pedra da estrada, abriu-me com
toda a gravidade, e tirou de dentro triumphalmente a
moeda de cinco tostões.
—«Olá! um
caiado!—bradou elle com alegria, e
para
demonstrar melhor o seu regosijo entoou a aria da
Saloia,
e atirou comigo ao ar a uma distancia immensa,
com grande desespero meu, porque vim assustadissima,
aos trambolhões pelo espaço, cair na
mão aberta do garoto.
«Este não ficou em
contemplação diante do seu thesouro;
metteu o outra vez no sitio em que estava,
levantou-se,
e continuou o seu caminho, cantando com uma
voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para
me receber, attitudes de tambor-mór.
«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia
sendo tambem mais frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se,
e as casas começavam a apparecer. Nem
por isso o gaiato deixou de cantar a
Saloia a plenos pulmões,
com grande escandalo das velhas sentadas nos
degraus das portas, que acompanhavam cada estrophe
da aria popular com um desafinadissimo côro de
imprecações.
—«Valdevinos!—Bregeiro!—Gaiato sem emenda!—D'onde
vens tu, maroto?—Ah! boa sova!—Fosse
eu tua mãe que te havia de moer o corpo com
pancadas!—Só
se perdiam as que caissem no chão!—D'onde
vens tu, desavergonhado, vens de roubar laranjas?—Tu
vaes direitinho para o
inferno!—
Berzabum te valha,
démo pequeno!—O descarado vem a cantar para
quebrar a cabeça ás almas
christãs!—Quem te puzesse
uma farda ás costas!
«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle
só
respondia, grave e serenamente, com esta invariavel
apostrophe:
—«Eh! bruxas!
«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito
gordo, com umas barbas de phariseu, uns olhos esgazeados
e orlados de vermelho, uma d'estas physionomias
baixamente
orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo
o servilismo para com os poderosos, o desabrimento
para com os humildes. Desbarretava-se até ao chão
quando passava alguma carruagem, onde ia pessoa conhecida
d'elle, e correspondia ligeiramente á
saudação
dos pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo,
com aquelle ar gravemente cortez dos homens do
campo, para lhe dizerem:
—«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.
«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de
lhe
fazer alguma, foi acto simultaneo. Com um sorriso malicioso
nos labios enrolou-me na mão muito bem enrolada,
de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde
estavam
os cinco tostões, e approximando-se, pé ante
pé,
do empavezado passeiante, ergueu a mão, vibrou-me
com toda a força, e fez-me desabar, indo a meia
corôa
de esquina, na copa do chapéo do gorducho.
«A
gebada foi magistral; o
chapéo enterrou-se até aos
olhos; e em quanto o dono d'elle, espumante de raiva,
procurava desembaraçar a cara d'aquelle inesperado
invólucro,
o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e,
já lá
muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da
sua
victima, que ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o,
esquartejal-o.
«O homem ficára desesperado. Pois não
tinha rasão;
o seu chapéo, como sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.
X
«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso,
houve por bem rir-se ás gargalhadas do que
praticára.
Com effeito merecia a pena. Eu, apesar de ter padecido,
não desgostei da correcção.
«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor da
gebada
que não poderia ser completa a sua
satisfação se
não visse a cara do paciente depois do castigo. Reflectiu
como poderia conseguir vêl-o sem ser visto, e como
afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a
procurar inspiração, deu com a vista n'uma arvore
que
se erguia mesmo ao seu lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi
uma e a mesma coisa. O mirante era optimo, bem arejado,
completamente resguardado da curiosidade dos
profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio
um delicioso panorama para se entreter emquanto não
passasse aquelle a quem esperava. Attendendo, pois,
ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa
da dita arvore, estabelecemo nos n'ella
sem cerimonia,
eu n'uma caminha de folhas, elle encostado a
uma especie de janella verdejante, d'onde via optimamente
tudo quanto se passava na rua.
«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia
curiosa e maliciosa á espreita por entre os ramos,
parecia um macaquinho agil, que espera occasião
propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.
«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro,
macilento, mostrando no rosto a timidez envergonhada
d'aquelles que um soffrer verdadeiro obriga a pedir esmola,
estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas silenciosas
lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da
desventura estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos
brancos, que o vento agitava, cingiam aquelle
infortunio de uma aureola de magestade. Era augusta
aquella miseria!
«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair
uma pobre moeda de cobre n'aquelle chapéo supplicante,
que se lhes estendia. Uns seguiam desdenhosos
o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto
á muda rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais
humanos, faziam distrahidamente um gesto negativo,
levando ao mesmo tempo a mão ao chapéo. Outros,
mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha
paciencia»
ou «Não levo troco», e todos diziam,
lá de si para si,
a phrase conhecida: «Este maroto provavelmente tem
mais dinheiro do que eu. Desavergonhado! Abusarem
assim da caridade publica! Os que mendigam não
são
os que precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha
a verdadeira pobreza.»
«Ah! miseraveis! que fingís pensar que
é um officio
divertido o expôr-se um velho, alquebrado de
forças, ao
sol, ao vento, á chuva, ás
humilhações, ao desprezo,
para fazer uma pobre colheita de dez ou doze moedas
de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a
inundar os membros mal resguardados do pobre pae
de familias! E o sol a abrazal-o! E a imagem dos seus
filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe na
imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras!
«Porque vós não sabeis, ou antes
fingís não saber, vós
que julgaes que esse homem vem pedir esmola para se
ir embebedar na taverna proxima, não sabeis que ha
n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia
de espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle
a quem despedis com as mãos vasias! Não sabeis,
vós
que accusaes de falta de resignação, de falta de
animo,
o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos,
não sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor
para se embrulhar
na pobre capinha, sair furtivamente
do misero alojamento, e ir collocar-se, espectro da miseria,
ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso
para se despenhar da janella da sua agua-furtada e
despedaçar a cabeça nas lages da rua!
«Continuemos.
«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava
sequer ao pobre velho a esmola de um olhar de compaixão.
O meu gaiato mirava-o de vez em quando.
«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho
estendeu-lhe o chapéo, murmurando mansinho:
—«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos
morrem de fome.
«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente
imaginará,
de muito mau humor. Trazia a
gebada,
para assim
dizer, atravessada na garganta. As sobrancelhas franzidas,
o olhar fusilante, a cara fula de raiva, denunciavam
o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco
amolgado, tambem mostrava resentir uma nobre
indignação.
«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma
valvula de segurança, por onde póde sair uma
porção
de colera, que, mais tempo contida, o faria rebentar.
Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a humanidade.
«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava
bruscamente o chapéo do pobre velho:
—«Sucia de mandriões! Estão estes
marotos á esquina
de todas as ruas, para nos roubarem o dinheiro
que nos custa a ganhar com o suor do nosso rosto!
Vossê não tem vergonha de pedir esmola?
Vá trabalhar,
ou metta-se no hospital se está doente, ou vá
para
o asylo! Está o governo a pagar um bom par de contos
de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e pessoas
ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo
é quem cae em tal, não ha de ser nunca o meu
dinheiro
que elles hão de apanhar; mas está alli aquelle
estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife
que não tem eira nem beira, para que? Para andarem
estes velhacos a incommodar-nos. Fosse eu da camara
municipal! Rêde para os cães, rêde para
os mendigos.
Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco
réis!
Canalha!
«E o digno homem continuou magestosamente o seu
caminho.
«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do
velho!
Fez um gesto de resignação, e deixou pender a
cabeça sobre o peito.
«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto
negro.
A noite com o seu duplo cortejo de alegrias, de
festas, de prazeres, de suspiros enamorados, e de tristezas,
de crimes, de horrores, de soluços da miseria!
A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que
se deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia
das aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda
a parte pelo fulgor das estrellas, que é o olhar de
Deus.
«E o velho scismava tristemente. Não tivera
resultado
o sacrificio! Nem um pedaço de pão podia levar
aos
filhos esfaimados! Tristeza! A brisa soprava asperamente,
e elle não a sentia! As lanternas das carruagens
que passavam pareciam olhar para elle ironicamente,
mas as estrellas, essas miravam-no tristemente.
«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde
vivia,
representava-se-lhe na imaginação! Via a
filha
doente, ella que á força de trabalho sustentava
os irmãos,
os pobres innocentes, que pediam de comer! E
elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para
lhes dizer: «Morrei, não tenho que vos
dar!»
«Então pareceu-me vêr na fronte do
garoto surgir
uma estranha aurora! Immovel na arvore, contemplava
o pobre velho, e a sua physionomia maliciosa tornava-se
pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho
fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões,
comprar bolos, ir ao theatro, alugar um burro, mil extravancias
que elle acariciava com o amor de creança!
N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões
por
um imperio!
«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu
a mão para mim, tirou-me do ramo, e deixou-me
cair no chapéo do mendigo.
«E depois de ter gozado por um instante da
estupefacção
do pobre homem, deixou-se escorregar da arvore,
e escapou-se sorrateiramente.
«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia
vêr alvejarem vagamente, na escuridão nocturna,
as azas luminosas do anjo da caridade.
XI
«Quando me achei no chapéo, e depois na
mão do
pobre velho, a primeira sensação foi a da
alegria, a do
desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára
da boa acção do rapaz, e que me competia uma
parte
dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que e
«Quando me achei no chapéo, e depois na
mão do
pobre velho, a primeira sensação foi a da
alegria, a do
desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára
da boa acção do rapaz, e que me competia uma
parte
dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que estava
longe
de esperar,
é que seria eu quem os receberia
a todos.
«Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito
tempo em torno de si, depois de mirar bem a arvore,
cujos ramos se estendiam sobre a sua cabeça, concluiu
por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia
o beneficio que recebêra; e, depois de ter reflectido
bastante tempo, convenceu-se devéras de que a bolsa
lhe caira do céo, e tão arreigada conservou esta
convicção,
que ninguem seria capaz de lh'a arrancar. Veneravel
candidez de crenças! Não se importou com
o pensamento de que não
valia a pena fazer um
milagro
para dar cinco tostões, e que, ainda que o céo
estivesse
inclinado a economias, não era natural que a Providencia
tomasse a precaução de collocar a sua esmola
dentro
de uma bolsa de seda verde.
«A tudo isso responderia elle que a menos que a
bolsa não se formasse no ar, e caisse por si mesma,
ou que existissem actualmente arvores com esse fructo,
esse dinheiro não podia vir senão do
céo. E vinha com
effeito.
«Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso
desalento á immensa alegria, ajoelhou, beijou-me
fervorosamente, depois levantou-se, e correu com
uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias
á sua pobre familia.
«Foi então que eu me pude convencer de que
não
eram a mim que se dirigiam, no tempo da minha prosperidade,
os comprimentos que tanto me enchiam de
orgulho, mas sim e unicamente á opulencia que eu
representava.
Foi essa uma desillusão fatal, e que me
causou uma tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastará
esse
dia para eu
conhecer o egoismo dos homens.
Desde o instante em que eu saíra da casa em que
nascêra,
no curto espaço de duas ou tres horas, que de
agargas lições, que de tristes
ensinamentos!
«Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor,
ninguem olhava para mim, assim como ninguem
olhava para elle. N'uma loja de capellista onde o velhinho
foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de
sua filha, a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente
o demonio da miseria, estavam umas senhoras
arrastando sedas, e resplendendo em joias. Estavam
comprando não sei o quê, mas fosse qual fosse
a compra, ellas demoravam-se immenso, porque desejavam
escolher á vontade, e obrigavam a dona da loja,
que satisfazia as suas exigencias com toda a complacencia,
a revolver todas as caixas, a mexer em todas
as gavetas, a abrir todos os armarios.
«O bom do meu velhinho, impaciente como estava,
para levar de comer á sua pobre familia, depois de esperar
um pedaço, não pôde deixar de
dizer,
collocando-me
timidamente em cima do balcão:
—«Se a sr.
a Ignacia me podesse aviar
n'um instantinho...
«A capellista, interiormente enfurecida pelas
maçadas
que lhe estavam dando as suas opulentas freguezas,
voltou-se, e empurrando-me bruscamente, tão bruscamente
que caí no meio do chão, bradou com uma
voz desesperada:
—«Espere, não tenha pressa, guarde o seu
dinheiro.
Não vê que estou a servir estas senhoras?
«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem
murmur
«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem
murmurar sequer. O que havia elle de fazer? A capellista
fiava lhe os
utensilios necessarios a
sua filha, em
occasiões de apuro, e até ás vezes,
porque no fundo a
tia Ignacia tinha um bom coração, lhe emprestava
os
seus vintens.
«Eu é que não admitti circumstancia
attenuante possivel
para o ultrage que recebêra. N'essa manhã mesma
eu fôra tratada tão amavelmente n'uma loja de
capellista
com estanco, onde Eduardo entrára a comprar
charutos, que não percebia qual fosse o motivo da subita
differença.
«Já vê que as
lições ainda não tinham aproveitado.
«N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras
da minha nova posição. Felizmente, a scena que
se lhe seguiu veiu adoçal-as um pouco.
XII
«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus
de uma escada tortuosa e escura, que conduzia
á agua-furtada onde habitava. Quando chegou ao ultimo
patamar parou para respirar. O coração batia-lhe
com
alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente,
como um homem que leva sobre os seus hombros
o peso enorme do infortunio; pensára tanto no
soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse
com o desespero na alma ao mesmo sitio onde parára
ebrio de alegria; pensára tanto no triste espectaculo que
se lhe havia de deparar, no desgosto profundo que havia
de sentir; pensára tanto em tudo isso, que
chegára
quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidade
encontra-o armado
para a desgraça e desprevenido para
a ventura.
«Finalmente entrou.
«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu
divisei! Das trevas, que envolviam a casa, saiam gemidos
abafados, soluços horrendos, murmurio dilacerante,
reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados
do inferno accumulados na tenebrosa
géhenne que Dante
visitou. O meu dono, depois de abrir a porta, ficou um
instante parado, e involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe
as faces, parando nos labios, que sorriam
com um sorriso de consolação.
«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude
então vêr no fundo do quarto, e deitadas em cima
de
uma pobre enxerga, duas creanças de nove para dez
annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi
nús, tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam,
e choravam de fome! Mais ao fundo, n'um pobre
catre, que era ainda assim o unico traste da casa,
jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos
annos, a quem o soffrimento arrancava gemidos.
Uma pobre coberta esfarrapada mal a resguardava. E
comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre violentissima;
o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava
phrases incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a
escuridão atroz a suffocal-a! E lá ao fundo, na
sombra,
a fulgirem sinistramente as garras do demonio livido
da fome!
«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto.
No primeiro andar havia baile. A dois passos do risonho
turbilhão das walsas o horrido vendaval do infortunio!
«Ó destino!
«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois
pôz
na chaminé a lenha que trouxera, e accendeu o lume.
Espalhou-se no quarto um doce calor.
«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!
«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de
couves, migou-as, tirou um pão, fel-o em sopas, deitou
tudo dentro de um pobre tachinho de barro, e pôl-o
ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.
«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de
cãs,
inclinou-se meigamente para as loiras cabecinhas que o
rodeavam.
«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em
pé,
abraçando-lhe os joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de
novo dos olhos, a voz embargou-se-lhe na garganta, e
só pôde dizer:
—«Meus filhos!
—«Pão!—foi a resposta das creanças.
—«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante.
Haveis de ceiar, haveis de ceiar, meus pobres pequeninos,
e haveis de dormir depois o somno de innocentes,
que a fome repelle ha tanto tempo de cima das
vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar
de vossa irmã, da minha querida filha, que tanto
soffre por nossa causa.
«E o velho approximou-se da pobre doente, que
olhava para elle com uns olhos desvairados, coou-lhe
por entre os dentes um calmante, que comprára n'uma
botica, porque o pobre do homem gastára até aos
ultimos
cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira
necessidade tinham ficado ainda por comprar!
«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu
a prostração, e a costureira adormeceu com um
somno pacifico e reparador.
«Então o resto da familia agrupou-se em torno da
enxerga, meza improvisada, para onde foi trazido em
triumpho o tacho das couves. Os pequenos lançaram-se
sofregamente á comida, e em poucos minutos desappareceram
as couves e as sopas, sem omissão de um
talo, sem esquecer uma migalha.
«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido
na contemplação de seus filhos satisfeitos, nem
pensára na sua propria fome. De vez em quando levantava
ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava
palavras incomprehensiveis. É essa a
oração que a
Deus mais agrada; porque é a effusão sincera, e
livre
de preceitos, de um coração que trasborda de
reconhecimento.
«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou
as creanças para junto de si, e fazendo-as ajoelhar,
e unindo-lhes as tenras mãosinhas, disse-lhes com voz
grave:
—«Meus filhos, agora que por uma esmola divina
saciaram a fome, é justo que se não
esqueçam d'Aquelle
que se amerceou de vós. Vinde, e repeti comigo:
—«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa
omnipotencia,
vos não esqueceis dos vossos filhinhos, que
déstes pão a quem tinha fome, e
consolações a quem
estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita
bondade, nos salvastes da morte, e a nosso pae
do desespero! Vós que sois todo misericordia, tende
compaixão de nossa pobre irmã! E vós,
nossa mãe
querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambem
a Deus que
dê saúde a quem é o
nosso amparo!
Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso, e
promettemos
sempre ser dignos da vossa affeição, e
conservarmo-nos
no caminho da virtude, para que a alma da
nossa mãesinha se não afflija de nos
vêr peccadores.»
«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina
aquellas singelas palavras, pronunciadas pelo velho, commovido,
que estendia as mãos tremulas sobre essas cabeças
innocentes, e erguia para o céo os olhos humedecidos.
«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as
deitar. Elle apagou a luz e o lume; sentou-se á borda
da enxerga, e, encostando a cabeça nas mãos,
meditou.
«Porém o dia fôra agitadissimo; a
natureza foi mais
forte do que elle, e d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando
a pouco e pouco as palpebras, adormeceu.
«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror
fugira. Á porta, um anjo do Senhor, com um dedo
nos labios, velava meigamente sobre o somno da innocencia.
XIII
«Cinco tostões não duram eternamente, e
a prova
d'isso é que já tinham desapparecido. A miseria,
que
fugira um instante espavorida, voltava de novo a bater
á porta. Que remedio senão abrir-lh'a!
«Não era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras
vezes obtinha o dinheiro sufficiente para comprar o
necessario. Sua pobre filha melhorára sim, por um prodigio
da natureza completamente desajudada da sciencia;
mas a sua convalescença, desprotegida d'aquelle
conforto,
d'aquelles cuidados tão indispensaveis para o
restabelecimento da saude, prolongava-se, apesar de todos
os esforços que a animosa rapariga fazia para resumir,
e que, como é facil de suppôr, só
contribuiam
para a accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava
tão fraca, tão fraca, que, apenas dava dois ou
tres
pontos, caía desmaiada sobre a costura, e assim passava
os dias em continuados desfallecimentos.
«Seu pae tambem estava completamente impossibilitado
de trabalhar. Eu chamei-o velho, porque com
effeito os desgostos e as privações essa
apparencia lhe
haviam dado; mas não o era effectivamente. Ainda
não
contava cincoenta annos, e já não tinha na
cabeça um
só cabello preto.
«Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava,
porque a sua nimia fraqueza o tornava completamente
improprio para os rudes trabalhos manuaes da fabrica,
vira-se só com tres filhos, sem recursos, sem poder
obter, n'um outro emprego mais suave, o pão para si
e para elles.
«A sua completa ignorancia tornava-o improprio para
qualquer trabalho que não fosse manual.
«Ó ignorancia, negra irmã da livida
miseria!
«Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os
proventos que o pobre homem tirava da mendicidade.
As comidas iam sendo cada vez mais frugaes, e a pobre
rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando
cada vez mais incapaz de trabalhar.
«Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma
casa onde reinava tão profunda miseria! Espanta-se de
que me não tivessem vendido no dia immediato
áquelle
em que tinham gasto os cinco tostões. Eu lhe explico
esse facto na
apparencia incomprehensivel, eu lhe dou
a chave d'esse enigma.
«O meu dono considerava-me, para assim dizer, como
uma enviada de Deus, e não estava muito longe de
imaginar que existisse no meu seio um anjo occulto.
Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria
de certo uma profanação.
«Candidamente supersticioso, o bom velho tinha lá
de
si para si que eu, como mensageira que fôra de uma
esmola providencial, não podia deixar de fazer a felicidade
d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia
tão difficil, como aos romanos cederem, em troca
dos mais enormes thesouros, o palladio que fazia a republica
invencivel. Eu era a égide da casa, emfim.
«Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais
triste e amargurado do que nunca. O dia correra-lhe
como aquelle em que eu o tinha visto pela primeira vez,
com a differença que nenhum garoto compassivo, enviado
pela Providencia, se fôra esconder na ramaria de
uma arvore protectora. O velho entrava, pois, em casa,
sombrio, triste, como entraria uns poucos de dias antes,
se não fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.
«Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario
que havia na parede, onde eu habitava, e, tirando-me
para fóra, disse-me, depois de me ter contemplado
lugubremente alguns instantes:
—«Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos
de allivio, e cuja côr suave me aconselha a
esperança.
A esperança?! não a posso ter já! Ai!
a minha
sina fatal é mais forte do que a tua benefica influencia!
Ramo verde que uma pomba do céo trouxe no bico a
esta pobre arca, que vae sem rumo nas aguas de um
diluvio de infortunios, enganaste-me involuntariamente!
Não parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae,
não procures luctar mais contra a minha má
estrella!
Vae, e que a tua mesma partida nos seja ainda bemfazeja!
Os anjos de Deus, ou quando descem ao mundo,
ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante,
ou deixam após si, um rasto luminoso!
«E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e
saiu.
«Foi triste a sua peregrinação
á procura de um comprador
que se resolvesse a dar por mim um preço razoavel.
Todos, vendo-o assim pobre, mostrando no rosto
livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam,
depois de me terem mirado com desdem, um preço
tão
baixo, que, fosse qual fosse a extrema necessidade que
o meu dono tivesse de dinheiro, entendeu que me não
devia deixar ir assim.
«Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos
donos d'ellas se resolveu a comprar-me. Pois eu não
valia tão pouco como isso, e estou convencida que muitas
das pessoas, a quem o velho mendigo me apresentava,
desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito,
mas, segundo depois vim a saber, isso é trica de negociante
para especular com a miseria. Sabem que ainda
que a sua primeira proposta repilla o vendedor, este,
por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir
muito o preço que estabelecera.
«Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem
não quer não venha cá, accrescentam,
terminando com
a phrase pittoresca: «Eu não lhe puz a faca aos
peitos.»
É regra estabelecida que o vendedor peça um
preço exorbitante, e o comprador offereça um
preço diminutissimo.
Que
venha á discussão, mesmo por acaso,
o valor real do objecto, isso é raro. Um negocio de
compra e venda é um jogo de azar em que dois jogadores
trapaceiam. Vêr qual dos dois ha de roubar o
outro,
that is the question. Nunca
um só vendedor se
lembrou de calcular: «Este objecto custou-me tanto,
devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por
tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos»;
e o comprador de pensar: «Posso gastar tanto,
se o objecto valer mais, não compro.» Isso nunca:
sem
uma discussão preliminar, é sensabor o negocio.
Se a
invenção da moeda simplificou as
relações mercantis,
quanto as não simplificaria a invenção
d'esta moeda dos
corações nobres, que se chama «boa
fé!».
«A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos
ladrões
e dos negociantes, acertava devéras se accrescentasse—e
dos consumidores.
«Desculpe estas reflexões um pouco prolixas; mas
eu sou o Nestor das bolsas, e desde o celebre ancião
homerico, cujas palavras eram doces como favos de
mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal
fórma pelo rei de Pylos, que não sei como os
gregos
não tomaram uma indigestão de melaço:
desde esse
vulto epico, todos os Nestores gostam de pregar grandes
massadas. Eu não me podia esquivar á regra geral.
«Agora vou continuar.
«O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos
compradores, e fez-lhes falhar os calculos. Saía das lojas
com o desespero na alma, o rubor da indignação
na fronte, e não voltava.
«Assim se passaram duas horas.
«O preço, que lhe offereciam, ia sempre
diminuindo:
porquê? Porque de cada vez a physionomia do mendigo
se tornava mais livida. A anciedade pintava-se-lhe
nas feições. Cada ruga de mais, que se lhe cavava
na
fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco
réis de menos no preço que lhe offereciam.
«Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou
n'uma ultima loja, e, quando entrou, deixou-se cair em
cima de uma cadeira. As pernas recusavam-se a sustental-o
mais tempo.
«Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo
não sei o quê. Sei apenas que era um rapaz de
uma physionomia sympathica.
«Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas
o espanto do primeiro era um espanto encolerisado, o
do segundo um espanto compadecido.
«O dono da loja receiava para as suas cadeiras o
contagio da miseria. Que um cão se estirasse em cima
d'ellas, passe; mas um mendigo!
«O meu dono estendeu-me com mão tremula para o
logista, e disse com voz que mal se ouviu:
—«Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me dá o
senhor por ella?
—«Que diz vossê?—tornou o dono da loja com modos
irritados. Falle de maneira que se entenda! Julga
que tenho ouvidos de tisico? Graças a Deus sempre
gozei de boa saude.
—«Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo
um esforço sobre si mesmo para fallar com voz
mais intelligivel, é porque estou muito fraco. Desejava
saber quanto o senhor me dá por esta bolsa.
—«Ah! até que emfim! Não seria mau que
vossê se
levantasse, porque este senhor talvez se queira sentar.
—«Deixe
estar o pobre homem,—interrompeu o
freguez com vehemencia, não vê que mal se
póde ter
em pé. Coitado!
—«Pois sim, sim!—resmungou o logista, se toda
a gente que não póde andar se me viesse pespegar
nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos lá a
vêr
a bolsa. Ah! está toda esfarrapada! que trapo! isto
não vale cinco réis. Quanto quer vossê
por isto!
—«V. s.
a dirá quanto quer
dar por ella!
—«Eu! olhe, já lhe digo que não lhe
dou mais de
quatro vintens. Nem um real. Serve-lhe?
—«Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!—tornou
o meu dono com uma profunda accentuação
de amargura na voz.
—«Sim! que ella está muito bonita. E quem me
assevera
que vossê não roubou isto? Nada, parece-me
que nem os quatro vintens lhe dou.
—«Roubar! eu?—bradou o meu bom velho, erguendo-se
indignado da cadeira.
—«Sim! sim! Eu já conheço essas capas
de santidade.
O senhor não póde imaginar, continuou elle,
voltando-se para o freguez, quanto esses malandros
são finos! Olhe, um dia d'estes...
—«Este homem não tem cara de ladrão,
interrompeu
bruscamente o desconhecido.
—«Muito obrigado, senhor, muito obrigado!—exclamou
o meu dono. Sirvam-me de consolação as suas
palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de um
coração
nobre.
—«Emfim, tornou o logista um pouco despeitado,
se me quer dar a bolsa ahi tem os quatro vintens.
—«Que remedio, senhor! A necessidade é
má conselheira!
ahi
tem a bolsa! Sempre meus filhos não
morrerão hoje de fome!
—«Não, interrompeu ainda o generoso rapaz,
agarrando
no braço do mendigo, não consentirei que se
pratique um roubo assím na minha
presença. Sou eu
quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostões, é
tudo
quanto tenho comigo. Creio que a bolsa não valerá
muito mais.
«E, pondo na mão do mendigo duas meias
corôas,
saiu levando-me comsigo, deixando o logista estupefacto,
e sendo acompanhado pelas bençãos do velho.