XIV
«Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono,
percebi que a minha posição não
melhorára consideravelmente.
A mobilia da casa não era muito mais numerosa,
do que a da miseravel agua-furtada, d'onde
eu saíra n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando
ao peso dos livros, e uma meza cuja superficie
desapparecia debaixo de uma triplice camada de papeis,
ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella
casa.
«O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente
uma descripção á Balzac, compunha-se
de um
leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho, uma das
quaes se distinguia pela ausencia de um pé, o que lhe
dava as prerogativas de tripode, e a outra primava na
singular docilidade com que se domava a todo o corpo
que se lhe pozesse em cima; porque se prostrava immediatamente
no chão em signal de obediencia. Confesso
que,
quando o meu
generoso possuidor atirou
comigo para a tal cadeira nimiamente flexivel, receei
que apesar da minha leveza, obrigasse o pobre movel
a dar provas da sua habilidade gymnastica.
«O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco
e atirou com elle irreflectidamente para cima da
cadeira cortez, onde eu, por minha desgraça, estava
tambem collocada. Receber o casaco, fazer um
plié com
toda a habilidade de um mestre de dança, e ir parar
ao chão arrastando-me na quéda, foi uma e a mesma
coisa para a cadeira. O meu dono nem reparou em tal,
e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se á meza,
pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e começou
a escrever com uma rapidez incrivel.
«Eu entretanto não estava lá muito
á vontade. Litteralmente
esmagada debaixo do casaco, tinha, para cumulo
de desventuras, mesmo encostado a mim um
grosso caderno de papel, que saía de uma das algibeiras,
e que me pregava no chão, comprimindo-me
atrozmente. Eu ficára embirrando com papeis, desde
o momento em que, por causa d'elles, fôra expulsa
irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos,
e ai! sem esperança de para lá voltar.
«Mas, ainda que eu não tivesse essa
justificadissima
prevenção
contra a papelada, bastava a attitude aggressiva,
que este caderno tomára para comigo, para eu
ficar odiando mortalmente a sua raça. Debalde eu gritava,
ralhava, resmungava, fazia esforços inauditos para
me desembaraçar do peso que me opprimia, tudo era
inutil. O caderno era inflexivel, e o casaco ainda mais.
Não tive remedio senão resignar-me.
«Vendo-me socegada, o caderno de papel começou
a entabolar umas
taes ou quaes
relações comigo. Percebendo
que, por fim de contas, a melhor resolução,
que eu podia tomar, era corresponder á amabilidade
com que me tratavam, troquei algumas palavras com
elle, primeiro n'um tom bastante sêcco, e a pouco e
pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco minutos
estavamos os melhores amigos d'este mundo.
«Foi então que elle me disse que o seu dono era
litterato,
como quem diz, não tinha officio nem beneficio.
Andava sempre abundantemente provido de idéas e de
dividas. As idéas eram sublimes, as dividas eram pasmosas.
Nem por umas nem por outras havia quem désse
dez réis. Tinha por costume confiar ao papel os seus
pensamentos; mas por mais empenhos que o papel almasso
mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha
conseguido que este se encarregasse de repartir com
elle as honras da confidencia. Não porque o litterato
não tivesse talento; pelo contrario, asseverava o papel
que tinha muito; mas infelizmente, como ainda não se
descobrira o meio de se começar a escrever pela segunda
obra, e os editores queriam unicamente imprimir
os seus escriptos se elle já fosse conhecido, o homem
estava sériamente ameaçado de nunca os
vêr em
lettra redonda.
«Em compensação, um editor Mecenas, um
protector
das lettras com loja de livros n'uma escada, offerecera-lhe
o honroso logar de traductor dos romances
de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes,
com o pingue ordenado de tres mil réis por mez.
Este homem era tido pelos seus collegas como um perdulario.
«Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente,
concebêra
a atrevida
idéa de tentar fortuna imprimindo
as obras do pobre diabo. Pedira-as para as
vêr, pedido que ia dando com o escriptor em doido...
de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo.
Este folheou os
differentes
cadernos por
espaço de cinco
minutos, e devolveu-os ao livreiro, asseverando que o
rapaz tinha uma lettra tão boa, que não podia
chegar a
ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do
emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem
os escrevêra, offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar
de caixeiro.
«O litterato atirára com os cadernos á
cara do editor,
depois com os livros que achou á mão, e
já baloiçava
a cadeira gymnastica para lhe fazer tomar o caminho
que haviam tomado os livros e os papeis, quando
o bom do editor descia os ultimos degraus da escada,
e sacudia o pó das suas sandalias á porta de casa
tão
pouco hospitaleira.
O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo
dizer de passagem, que fôra elle um dos
projectís de
que o seu dono se servira, um dos navios encarregados
de operarem um reconhecimento nas costas editoraes),
o que elle me affirmou foi que, se o nosso homem
não sacudisse tão depressa o pó das
suas sandalias,
o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o pó da
sobrecasaca.
«Aqui está em resumo o que me narrou o meu
officioso
visinho.
«Não tentarei descrever a vida que eu passei
durante
dois ou tres mezes em casa d'esse seu collega. Póde
imaginar qual era; repouso completo, enercia absoluta.
Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre
socegada, sempre vasia, conversando muito com os lívros
meus visinhos, que me ensinaram tudo quanto eu
sei, e me fizeram adquirir a erudição que tanto o
admirou,
e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre
agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma
rima, ou um lenço de assoar, ou um editor.
«Rimas encontrava elle quasi sempre, lenços de
assoar
algumas vezes, editores nunca!
«A traça fôra o editor unico d'aquelles
papeis.
«Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos,
que lhe apresentaram um papel sellado, e que lhe disseram
serem elles os encarregados pelo sr. Bartholomeu
Nunes, de proceder a uma penhora por causa de
não sei quantos mil réis que elle devia ao dito
senhor.
«O meu dono não fez a minima
objecção, pegou no
chapeu e saiu, dizendo:
—«Escolham o que quizerem.
«Coisa que elles não o obrigaram a repetir.
Percorreram
minuciosamente todos os cantos e recantos. Nada
lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo levaram. Eu,
já se vê, não escapei ao desastre;
lá fui envolvida com
os livros, e sabe quem eu vi tambem no frete?
«A celebrada cadeira das mesuras. Até isso lhes
servira!
XV
«O meu dono (quinto, segundo vê; eu se
não fosse
tão modesta dizia-lhe que pozesse no titulo, em vez de
Memorias de uma bolsa verde, a
Odysseêa de uma bolsa
verde), o meu novo dono era um usurario amador. Magro,
com umas pernas
que se cançavam antes de chegar
aos pés, a tez biliosa, o nariz adunco e cavalgado
por uns oculos, era perfeitamente o typo que Shakspeare
(que foi meu visinho) attribue á sexta edade do homem,
na celebre comedia intitulada:
As you like
it, titulo que
o leitor póde traduzir
como
quizer. Observando rigorosamente
as regras da economia, não comprando senão
o que lhe era restrictamente necessario, e assim mesmo
inventando para seu uso proprio um
necessario especial,
as riquezas que obtinha, moeda de cobre a moeda
de cobre, serviam-lhe unicamente para as ter enterradas
n'uma burra collocada no seu quarto.
«N'esse ponto tinha elle uma certa
coquetterie. As
libras doiradas, em que transformava os patacos dos
desgraçados, encerrava-as dentro de uma infinidade de
bolsas elegantes e ricas até, que estavam dispostas
symetricamente
por fileiras, no fundo do seu
coffre
fort.
Todas as noites, antes de se ir deitar, abria-o, descerrava
as bolsas, e fazia cair sobre o solo uma chuva de
oiro. Alli, Danae de si mesmo, estirava-se elle, enchendo
as mãos de punhados de libras, e fazendo-as cair no
monte a pouco e pouco, enterrando os dedos n'aquella
eira monetaria, revolvendo-a, fazendo-a rolar, apanhando-a
espiga a espiga, juntando-a, contando-a de novo,
enchendo as bolsas, e tornando-as a collocar dentro da
burra. Tudo isto elle fazia com uma delicia, com uma
soffreguidão taes, que não trocaria de certo este
prazer
pelo melhor divertimento do mundo.
«Quando eu cheguei á porta já elle
estava á nossa
espera. Ajudou a descarregar o frete, procurou os livros,
determinou que os vendessem immediatamente,
e deu um grito de surpreza quando eu appareci.
«Era uma bolsa que o acaso lhe dera para juntar á
sua collecção. Bem sei que eu estava um tanto
rota,
um pouco esfarrapada, e que os rasgões me adornavam,
apesar de eu ser ainda bem nova. Mas as cicatrizes,
n'um rosto imberbe, dão a esse rosto a magestade da
velhice, e eu, considerada debaixo d'esse ponto de vista,
estava magestosa a mais não ser. De mais a mais, nos
emprestimos que o usurario fizera ao litterato, os juros
tinham absorvido o capital, havia já tanto tempo,
que se podia dizer que toda a mobilia do meu ex-possuidor
vinha a sair de graça ao honesto agiota. E n'esse
caso que importava que eu estivesse rasgada? «A bolsa
dada não se olha á seda.»
«Por conseguinte o bom do velhote magrito, assim
que me viu, fez-me mil caricias, e, depois de ficar só,
foi a uma gavetinha, não sem olhar primeiro para todos
os lados afim de se assegurar se alguem o espreitava,
tirou de dentro um cartucho de libras, despejou-o
dentro de mim, prestando um ouvido encantado ao som
metallico do dinheiro, e, levando-me com toda a cautela
bem apertada na mão, dirigiu-se pé ante
pé para
o seu quarto, abriu a burra que estava ao pé da cama,
e depois de contemplar por um instante as bolsas,
amontoadas umas em cima das outras, deixou-me caír
com um suspiro de satisfação, e fechou o cofre.
«Eu ao principio fiquei completamente atordoada.
Esta passagem repentina da luz para as trevas, do ar
livre para um carcere estreito, produziu em mim uma
impressão terrivel. Comtudo a pouco e pouco fui-me
costumando e resignando. Comecei a distinguir alguns
objectos n'aquella escuridão. Os perfis vagos de umas
coisas informes, que eu percebia estarem junto de mim,
foram gradualmente
fixando os seus contornos, e no fim
de um quarto de hora comprehendi que estava rodeada
de uma chusma de minhas irmãs.
«Agora percebo eu que fui pouco habil na
narração.
Pois não o devia ser; porque na estante do litterato
conversára muitas vezes com uma
collecção da
Presse
e do
Constitutionnel; e os folhetins
romances d'estes
jornaes tinham-me ensinado todos os estratagemas, com
que se tem suspensa a curiosidade do leitor, incitando,
aguilhoando-o com a espora do mysterio, de fórma que
elle percorra a narração, como um cavallo
desenfreado
percorre a planicie, sem se importar com as bellezas
dos accessorios, e desejando só chegar ao fim, que
é
para o cavallo o precipicio em que se despenha, para
o leitor a peripecia ultima, que se póde compôr,
á vontade
do romancista, ou de trinta punhaladas, ou de vinte
casamentos.
«Apesar d'essas lições, vê
se que eu ainda estou
muito inexperiente, e que se os meus companheiros de
estante chegarem a conversar alguma vez com esse papel,
que o meu amigo transformou em confidente das
minhas tribulações, hão de
envergonhar-se da má discipula
que tiveram.
«Com effeito, para que fui eu dizer totalmente ao
leitor que o usurario se debruçára a contemplar
as
bolsas? Privei-me assim de umas poucas de phrases
interrogativas, que produziriam uma optima impressão!
«O que seriam esses objectos informes immoveis no
fundo da caixa? Que mysterio se occultaria n'aquellas
tenebrosas profundezas?» Etc., etc. Ora vejam o que
eu perdi.
«Emfim o mal está feito, e não tenho
remedio senão
continuar a narração, prescindindo d'esses
auxiliares de
que me lembrei tão tarde.
«Um murmurio confuso se elevou assim que eu cheguei.
Na existencia monotona dos prezos é sempre um
acontecimento importante a chegada de um estranho.
A curiosidade irritada por uma longa abstinencia, procura
saciar-se com frenesi assim que se lhe offerece
occasião para isso. Era destino meu concorrer para matar
a fome, umas vezes de pão, quando eram humanos
os que soffriam, outras vezes de curiosidade quando
eram bolsas.
«Por isso, apenas trocámos os primeiros
comprimentos,
logo caíu sobre mim a chuva de perguntas. Quem
era eu? d'onde vinha? como fôra alli parar? De todos
os cantos do bahú saía uma
interrogação; todas as bolsas
olhavam para mim, as mais distantes punham-se
nos bicos dos pés, para me verem melhor, depois cochichavam
entre si; as novas faziam observações zombeteiras
ácerca das minhas feições, e,
comparando-as
com as suas, concluiam que eu nunca lhes poderia disputar
o pomo da belleza; as que estavam intactas achavam-me
horrenda por causa dos meus rasgões; as que
estavam mais rasgadas do que eu, achavam que me ficava
pessimamente o estar pouco dilacerada; as velhas
só olhavam para mim com complacencia, lembravam-se
do seu tempo, suspiravam, e chamavam-me «filha.»
«Depois de satisfazer, o melhor que pude, a curiosidade
geral, chegou a minha vez. Não foi necessario
que eu rogasse muito, para ser informada da vida das
minhas companheiras, não foi preciso até que eu
dissesse
uma só palavra a esse respeito. Se de alguma
coisa me pude queixar, foi da pressa que ellas tinham
de me contar a sua
historia, o que fazia com que fallassem
todas ao mesmo tempo, havendo na caixa uma
balburdia incomprehensivel. Dir-se-ia que era alli a base
da torre de Babel!
«Ai! meu amigo, que horrendas coisas eu vim a saber!
Que de crimes estavam alli escondidos, d'estes que
escapam á justiça dos homens, mas sobre os quaes
estão
abertos os olhos vigilantes da Providencia! Cada
moeda de oiro accumulada n'aquelle cofre, representava
uma enorme somma de soffrimentos. Aqui uma viuva,
reduzida á miseria! mais adiante uma donzella, pura
como os anjos, lançada no abysmo da devassidão!
Acolá
um orphão defraudado da herança paterna. Sommas
consideraveis representavam vidas e vidas de torturas
incriveis, soffridas pelos vossos pobres irmãos, cujo rosto
o acaso do clima revestiu com um manto luctuoso! Que
horrores jaziam alli escondidos! Que de trevas entravam
na composição do fulgor d'aquelle oiro!
«Era já noite. Sentimos uma chave ranger na
fechadura;
tudo entrou no silencio.
«Abriu-se o cofre, e appareceu-nos o rosto livido, e
a extensa figura do usurario. Estava de barrete de dormir
e de roupão. Trazia um castiçal.
«Collocou-o em cima da meza da cabeceira, sentou-se
no chão, despejou-nos uma a uma, e começou a
revolver
a massa brilhante do oiro.
—«Saltem, saltem, minhas meninas, dizia elle em
voz baixa e roufenha, saltem que bem me custam a ganhar.
Não as crimino por isso; pelo contrario. Que prazer
ha ahi que se compare com o que eu experimento
n'este instante? Como tudo isto deslumbra! Tenho aqui
o sufficiente para comprar Portugal todo, incluindo as
consciencias dos
seus habitantes. Para quê! Puf! Que
me importa a mim com essa canalha, que me chama
usurario, e que me vem lamber os pés. Prazer, ineffavel
prazer é este que vós me daes. Saltem, saltem,
minhas
meninas!
«E sorria-se com um sorriso de hyena, o miseravel!
«Finalmente cançou-se, tornou-nos a encher com
toda
a paciencia, fechou o cofre, e foi-se deitar.
«Caíu tudo em silencio de novo.
«Deu meia noite!
«As pancadas do relogio resoaram lenta e lugubremente
na solidão do quarto.
«E eu senti um frio terror percorrer-me o corpo;
porque um vago e convulso estremecimento agitára no
meu seio as libras silenciosas.
«E o cofre abriu-se como se mão invisivel o
tocasse,
e um vulto melancolico e severo, com azas negras nos
hombros, appareceu em pé junto de nós.
«Era o anjo do remorso! Que magestade n'aquella
fronte sombria, que pungente contracção no seu
labio
severo!
«E elle estendeu a mão com um gesto imperioso, e
eu, gelada de susto, senti as peças de oiro moverem-se
por si mesmas, e adquirirem como que umas azas pequeninas.
«Um vago e sinistro suor lhes percorreu a fronte, e
esse suor era um suor de lagrimas!
«E todas se ergueram; o enxame de sinistras abelhas
saíu em bando da tenebrosa colmeia, e a bulha das
suas azas metallicas produzia não sei que lugubre som!
«E, ao mando do anjo do remorso, foram todas pairar
sobre o leito do avaro.
«Então vi um terrivel espectaculo; de cada uma
d'essas peças de oiro começaram a escorrer
lagrimas
e sangue, que iam caír gôta a gôta na
livida fronte do
usurario.
«E elle agitava-se na cama, erguia as mãos
supplicantes,
procurava limpar a fronte, debalde! porque a
horrenda chuva cahia incessante, incessante, e alastrava
em nodoa immensa, que parecia o funebre sêllo
da reprovação de Deus.
«E das peças de oiro saía um concerto
dilacerante!
concerto composto de gritos, de soluços, de blasphemias,
e de imprecações!
«Depois, a um signal do anjo, as moedas desappareceram
e transformaram-se em espectros, que vieram
doidejar em torno do leito do meu dono.
«E a punição ainda era mais cruel!
«Uma tomára as fórmas de uma mulher,
joven, bella,
um anjo emfim, mas um anjo caído!
«E approximou-se do usurario, e disse-lhe com voz
rouca:
—«Era virgem, estava só! Protegia-me a dupla
auréola da innocencia e da orphandade! Tu vieste,
especulador infame, arrojaste-me a um abysmo, e
manchaste de lodo a minha candida tunica.
«E outra mudava-se n'um pobre velho, de cabellos
brancos, que arrastava uma grilheta preza no pé:
—«Eu era o symbolo da honra; mas tinha filhos!
Reduziste-me á miseria, e eu roubei!
«E todos os espectros bradavam com voz pavorosa:
—«Sê maldito!
«Era horrivel, horrivel aquella scena!
«E durou até que os primeiros e tenues
clarões da
madrugada entrassem timidamente pela janella do
quarto.
«Com o primeiro raio da aurora, vi apparecer no
quarto um anjo de brancas azas, com a face luminosa
banhada em pranto.
«Veiu e ajoelhou aos pés do seu terrivel
irmão.
—«Ainda não está satisfeita a tua
vingança?—bradou
elle com uma voz melodiosa, de que é apenas um
frouxo echo o plangente suspiro da harpa éolia.
«Era o anjo da guarda do usurario, que o tinha
abandonado,
chamado pelo Senhor, mas que attrahido pelo
invencivel amor, que nos consagram estes celestes protectores,
vinha na hora do supplicio invocar, para o
seu protegido, a misericordia!
«E o anjo do remorso, vencido pelas preces do seu
candido companheiro, fez um signal, e o tumultuoso
enxame entrou no cofre, que se tornou a fechar.
«Um vago bater de azas denunciou-me que os dois
anjos tinham voltado ao céo levados pelo primeiro raio
do sol da manhã.
XVI
«Isto repetia-se todas as noites. O costume já me
tornára indifferente.
«Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu
nunca saí da minha prisão, e em que, pelo
contrario,
entraram muitas novas companheiras que vinham augmentar
o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite,
tornar tambem mais numeroso o funebre cortejo dos
phantasmas.
«No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu
de repente!
Não tivera tempo de fazer testamento,
e, segundo me disseram, iamos passar para as mãos
de uma herdeira, parenta muito afastada do finado.
«Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu
Nunes, vieram uns quatro gallegos para levar
a burra a pau e corda.
«Tivemos a consolação de os derrear!
«Quando chegámos á casa para onde
iamos, os gallegos
escorriam em suor, e praguejavam como uns damnados.
«Uma voz argentina fez-se ouvir junto de nós. Esta
voz não me era desconhecida; mas onde a ouvira eu?
Impossivel lembrar-me!
«Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se
o cofre. Que rosto imagina que me appareceu? O de
Camilla! o da minha creadora!
«Descrever-lhe a alegria que senti é-me
completamente
impossivel.
«Ella primeiro não me conheceu. Espantada de tanta
opulencia, não fazia senão repetir:
—«Como aquelle homem era rico!
«Depois tirou para fóra algumas bolsas. Entre
ellas
ia eu.
«Camilla mirou-me attentamente, e murmurou:
—«Que estranha similhança... É
impossivel!...
Seria extraordinario!
«Era-lhe facil sair d'aquella incerteza. A sua delicada
mãosinha bordára no meu corpo as iniciaes d'ella
e de
seu marido; por conseguinte, podia procurar esse signal.
Foi o que fez.
«As duas letras—
C
E—cá estavam enlaçadas
amorosamente.
«Camilla deu um grito de alegria. Beijou-me freneticamente,
exclamando:
—«Ó minha gentil bolsinha! Torno a encontrar-te.
Como estás desfigurada! Que te tem acontecido? Ainda
conservas as nossas iniciaes n'um estreito abraço! Symbolo
de um amor que passou, que doce amargura eu
sinto em te vêr!
«Que se passára n'aquella casa? Que acontecimento
motivára as tristes palavras de Camilla?
XVII
«Juro-lhe que n'esse momento tive pena de não ser
um ente possuidor da faculdade do movimento, de vida,
emfim, para poder corresponder aos ternos beijos com
que a minha boa dona me saudava. Infelizmente, tinha
de me contentar com os receber e não podia retribuil-os.
Via-me obrigada a ficar immovel, gelada, na
apparencia indifferente.
«Para lhe poupar o trabalho, que eu tive, de saber
a pouco e pouco o que se passára, eu lh'o digo em
poucas palavras.
«Camilla, como sabe, tinha genio ciumento. Eduardo
era impaciente e teimoso.
«Tinham-se repetido muitas vezes scenas similhantes
áquella que me obrigára a sair pela janella, como
um amante surprehendido. Uma vez, porém, a
discussão
fôra mais agitada, do que era habitual. Eduardo
irritára-se, Camilla teimára, e o rompimento
seguira-se.
Fôra uma especie de divorcio
intra
muros, com consentimento
de ambos. Não havia nem sombra de escandalo.
Muito
amaveis um
para com o outro na sociedade,
em casa viam-se apenas ás horas da comida, fallavam-se
muito cortezmente, e depois cada um partia para o seu
lado.
«Esta intoleravel situação durava, ia
para seis mezes.
E não julgue que o amor dos dois esposos tinha
afrouxado; pelo contrario, amavam-se cada vez mais;
porém o seu genio orgulhoso impedia a cada um d'elles
dar o primeiro passo para a reconciliação.
Soffriam,
e soffriam em silencio.
«Ahi tem a explicação das phrases de
Camilla.
«Estava-me ella ainda beijando, quando bateram á
porta devagarinho.
—«Dá licença?—disse a voz de Eduardo.
«Camilla enxugou os olhos rapidamente, collocou-me
em cima da meza, e respondeu com voz ainda um
pouco tremula:
—«Entre!
«Eduardo entrou. O tempo não alterára a
belleza varonil
do mancebo; só um bonito bigode negro substituira
o ligeiro buço do adolescente.
«Eduardo devia ter vinte e nove annos.
—«Desculpe-me incommodal-a, disse elle, sorrindo;
mas nomeou-me procurador n'este negocio da herança,
e, por conseguinte, vejo-me obrigado a estar sempre a
importunal-a para lhe dar as minhas contas. O ministro
da fazenda deve ter entrada franca junto d'el-rei.
—«Póde vir sempre sem receio de me
importunar.
—«Ah! diga isso á vontade. Eu nunca tomo as
coisas
ao pé da letra. Erro grosseiro, que tanta gente
commette, e d'onde resultam tantos desenganos. É para
mim axiomatico o seguinte principio: Todo o homem
na
conversação deve ser um agiota feroz;
não receber
as palavras sem um desconto de cincoenta por cento.
Eu podia n'este ponto fazer um
calembourg sobre as
palavras e as letras... de cambio; mas sou misericordioso.
Ah! a proposito de agiota; estava dando balanço
aos fundos do seu parente? Já vejo que não podia
chegar
em melhor occasião.
—«Não! enganas-te; estava contemplando as bolsas
em que elle mettia o dinheiro. Tem algumas que não
são feias.
—«Ia jurar que conhecia esta, atalhou Eduardo, erguendo-me
com vivacidade; parece-se tanto com uma...
«Interrompeu-se, passou a mão pela testa, e depois
continuou:
—«Com uma que desappareceu, como tudo o que
ella symbolisava.
—«Recordações?! tornou Camilla,
sorrindo ironicamente.
—«Não, vento de inverno que sacudiu um instante
as cinzas frias de um amor que morreu! Se uma centelha
fulgurou por acaso, desculpe-me.
—«Desculpal-o?!
—«Sim, desculpar-me! Nem todos teem força
sufficiente
para arrancar pela raiz, do jardim do coração,
as ridentes flôres da mocidade. Sobre o tumulo, em
que sepultámos o passado, brotam involuntariamente
rosas. Passa uma aragem ligeira, e lá nos vem um perfume
acariciar de novo. Mas deixe, que hei de decepar
a roseira, ainda que da hastea cortada corra o sangue
em borbotões.
—«Quem foi o culpado d'isso?
—«Quem? Nem eu sei. Sei apenas que esse algoz
desconhecido
retalhou-me bem fundo o coração. Bem
fundo! Como vê, a cicatrização
não foi perfeita, e a ferida
ainda sangra de vez em quando! Que loucura!—continuou
elle mudando de tom, e sentando-se n'uma
cadeira com modos affectadamente joviaes, se não foi
melhor assim! Para fallarmos verdade, Camilla, já nos
iamos tornando ridiculos com o nosso eterno arrulhar!
Que absurdo! Dois pombinhos namorados, atravessando
o mundo, atados um ao outro com o laço côr de
rosa do santissimo matrimonio! O mundo ria-se e tinha
rasão; porque o mundo tem sempre rasão. Agora
é
que estamos bem. Somos uns esposos comedidos; encontramo-nos
tres vezes por dia; eu sou o seu procurador,
v. ex.
a a minha intendente. Eu sou o encarregado
dos negocios estrangeiros, v. ex.
a dos do reino.
Vejam se ha n'este mundo viver melhor! A paz do Senhor
habita comnosco! Ah!—continuou Eduardo animando-se
successivamente, morram as suaves recordações!
Arraze-se o jardim, para fazer brotar a ora das
conveniencias! Morra tudo quanto nos possa recordar
as doces horas do alvorecer do nosso amor, esses arrufos,
chuvas de primavera, os beijos da reconciliação,
iris delicioso! Olhe, dê-me licença que afaste da
nossa
vista tudo quanto possa despertar pensamentos perigosos,
prejudiciaes ao nosso repouso. Morra este ultimo
objecto, que ainda se atreveu a fallar-me em coisas
para sempre esquecidas.
«E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de
agitação, e agarrando em mim com vehemencia, ia a
atirar-me pela segunda vez pela janella fóra. Eu estava
já desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo
mostrava para me fazer saltar pela janella, e «E, dizendo
isto, levantou-se n'um incrivel estado de
agitação, e agarrando em mim com vehemencia, ia a
atirar-me pela segunda vez pela janella fóra. Eu estava
já desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo
mostrava para me fazer saltar pela janella, e pensando
na minha triste sorte, que ia atirar comigo ao mar das
aventuras, quando julgava entrar no porto de
salvação.
«Um grito de Camilla foi quem me livrou de travar
de novo conhecimento com o espaço.
—«Eduardo, Eduardo, bradou ella com as lagrimas
nos olhos, vê bem essa bolsa!
«Eduardo contemplou-me, viu as iniciaes, reconheceu-me,
e, voltando-se para Camilla, leu-lhe nos olhos
uma tal expressão de amor, que, sem se poder conter,
caiu-lhe aos pés, banhado em lagrimas deliciosas, em
quanto ella, n'um extase ineffavel, lhe beijava os cabellos.
«Que momento aquelle!
XVIII
«Termina aqui a minha narração. Nas
bolsas como
nas nações, são felizes as que
não tem historia.
«Dir-lhe-hei unicamente que fui conservada em casa
de Camilla e de Eduardo, como uma reliquia preciosa,
que se conservava tal qual eu tinha reapparecido, para
trazer a concordia áquelles dois estouvados.
«Quando Eduardo morreu, fui eu a confidente e a
consoladora de Camilla. Como esta nunca tinha tido filhos,
era comigo que fallava em seu marido, e muitas
vezes me regou com as lagrimas que derramava. A pobre
senhora conservava sempre viva e ardente no
coração
a imagem do seu esposo.
«Morreu a opulentissima viuva. Os herdeiros, tambem
já bastante ricos, quizeram liquidar aquelles immensos
haveres. Venderam tudo, eu fui com a
mobilia
da casa, e alli,
graças ao meu amigo, salvei-me de cair
nas garras de algum segundo Bartholomeu Nunes, que
me tivesse seis annos fechada em cofre.
«Ao menos com o senhor tenho podido tagarellar.
«Aqui ponho ponto.»
XIX
Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo
textualmente o que ella me dictou.
Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade.
A aurora começava a apontar no horisonte. Ao passo
que a deusa dos roseos dedos abria as portas do Oriente,
a bolsa a pouco e pouco ia perdendo a animação
ficticia,
que um poder sobrenatural lhe emprestára, e ia-se
deixando cair em cima da meza.
Eu, ingrato, não me importei com isso. Em quanto
ella ia voltando ao seu estado normal, contemplava satisfeito
o papel inundado de garatujas, cuja perpetração
principal não fôra commettida por mim, e escrevia
no fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes:
Finis, laus Deo.
Quando Lucio Valença acabou a sua longa leitura, o
visconde da Fragosa resonava maravilhosamente, e o
conselheiro Madureira formava com elle um duetto mais
ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam
calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas;
Isaura lançava olhares assassinos ao auctor, que na febre
da vaidade litteraria nem reparava n'essas amaveis
provocações. O doutor Macedo indignou-se.
—O Lucio, bradou elle, saíu fóra do meu
programma.
Inpingiu-nos um romance humoristico debaixo da
bandeira de conto da meia-noite. Lavro um protesto, e
peço que se lance na acta.
—Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando.
—Mas, doutor... acudiu Valença, rindo.
—Qual mas nem meio mas! Então isto é conto
phantastico?
Você nunca leu Hoffman? Você nunca leu Carlos
Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o romance
fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e
impingiu-o. Quer editor! Não é outra coisa,
minhas
senhoras, quer editor! Então onde ha aqui espectro?
onde ha visão? onde ha os terrores legendarios da
meia-noite?
—Peço a palavra, interrompeu Lucio, rindo.
—Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou
gravemente o visconde da Fragosa.
—Sobre o espirito, redarguiu Lucio.
—Não é parlamentar, tornou o visconde.
—Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu já o
esmago.
—Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor?
Matar a meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio
se contaram coisas medonhas, coisas de arripiar os cabellos,
vieram aqui á praça defunctas que vão
a S. Carlos,
phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que
se illuminam mysteriosamente á meia-noite. Algum de
nós
trepidou?
Não; pelo contrario. A meia-noite hoje
passou, e ninguem deu por tal. Queriam que eu abusasse
da victoria? A meia-noite morreu.
Parce
sepultis?
—Sophismas! sophismas vãos!
—Appéllo para o
claro auditorio
meu.
—Ó vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso é de
Bocage, sabes tu, profano? ousas comparar-te ao gigante?
—Eu por mim gostei, exclamou Leonor.
—Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista
d'olhos com a gentil filha dos viscondes da Fragosa,
ainda que me parece que os arrufos de Eduardo e de
Camilla duraram mais do que seria de rasão.
—Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor.
Exhalas um vago perfume de flôr de larangeira.
—Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda,
declaro que ainda aqui não ouvi coisa de que mais gostasse.
—Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se
em agradecimentos.
—Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor
Macedo. E agora deixem-me pronunciar a dissolução
da sociedade
Inimiga da meia-noite.
Está a terminar
o tempo da
villeggiatura. Depois de
ámanha é a
ultima caçada. Está dissolvida a
associação.
—Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um
requerimento, disse a doce voz de Leonor.
—Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa.
—Que requerimento é? perguntou Macedo.
—A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam
aqui, depois d'elles se deitarem, historias pavorosas,
e
as criadas
vêem-se gregas com elles para os despirem
quando chega a hora de os deitarem, porque não
é senão dizerem que querem ficar a pé
para ouvirem
as historias. Prometti-lhes que uma noite d'estas assistiriam
á entrevista. Como decididamente já ninguem
pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de
não se esperar a hora fatidica, não podiamos
ámanhã,
ao anoitecer, abrir a sessão para os pequenitos assistirem?
—Ora... para quê, Leonor? acudiu a viscondessa,
os teus irmãos caem de somno ás primeiras
palavras.
—De certo, se se lhes não escolher coisa de que elles
gostem. A
Julieta de certo a
não perceberiam, acudiu
Leonor, sorrindo maliciosamente para Henrique.
—Não eram só elles, resmungou Henrique Osorio.
Isaura não ouviu; estava toda embebida n'uma larga
conversação com Lucio Valença.
—Ah! eu me encarrego d'elles; pago ámanhã a
minha
quota, aproveito o precedente de Lucio.
—O quê? o quê? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar
o seu nome.
—Falla se por aqui no teu precedente, ou no
teu
predecessor, que é a mesma coisa. Julgavas que o
não
tinhas?
Leonor desatou
a rir, Henrique
fez-se ligeiramente
córado, Isaura não comprehendeu.
—Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou
o doutor, apresentarei ámanhã, em obsequio ao
Alvaro
e a Julia, uma
lenda da meia-noite,
que não será lenda
e que não será á meia-noite, o que
dará a Roberto
Soares assumpto para um estudo intitulado:
De como
degeneram as lendas.
Dispersou-se a companhia, porque era já tarde, mas
Henrique e Leonor tinham aberto uma janella e conversavam
animadamente.
Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava
o braço, não pôde eximir-se a
dizer-lhe:
—Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.
—Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se
em espectros ou em nada, que é a mesma coisa, as
loucas visões que sonha a phantasia enferma. Esses
sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impressão
pesada e morbida. E quando se acorda é que
se percebe que as Julietas nunca foram amadas com o
coração, foram sempre um pretexto para as
divagações
de uma imaginação desnorteada.
—E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio,
motejador.
—Encontrei, sim, meu amigo.
—Procurou-a por muito tempo?
—Estava ao meu lado. Somos tão loucos que nunca
pensamos em reparar se nas pedras do nosso jardim
habitualmente não se encontrará alguma que tenha
as
qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos
attrahir tolamente por umas pedras que brilham, que
julgamos diamantes e que são apenas...
—O quê?
—Pedaços de vidro que brilham ao sol; o fulgor
era do sol e não d'elles.
Os dois companheiros de serão trocavam já olhares
inflammados, e nas suas vozes havia um tom ameaçador.
Isaura assistia olympicamente desdenhosa a esse
torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada, sentia
os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas.
—Se não se vão deitar, apago eu mesmo as luzes,
exclamou o doutor Macedo intervindo de subito e separando
bruscamente os quatro personagens da scena.
Olhem que massadores!
E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas
um pouco frias, o doutor Macedo fechava a janella
murmurando:
—
Cherchez la femme.