Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes á
leitura. Eram Alvaro e Julia, os dois filhos mais novos
dos viscondes da Fragosa. As creanças estavam radiantes
de alegria; emquanto Alvaro, loira creança de seis
annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil
curiosidade, no doutor Macedo, Julia, uma menina de
nove annos, toda elegante, e que era o retrato de sua
irmã mais velha, ouvia, rindo ás gargalhadas, as
historietas
de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que,
prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar
as boas graças de Leonor, que ficára um pouco
ferida pela scena da vespera, em que lhe parecêra
vêr
um resentimento que mostrava que Isaura não
fóra de
todo esquecida.
—Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando
o seu manuscripto, é só cá para
nós este conto.
A mana, o Henrique e os outros que riam ou durmam,
se quizerem. Nós cá é que nos vamos
entreter. Este
conto é só para nós, e
intitula-se...
Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma
janella aberta, interrompeu com um espirro o discurso
de Macedo.
—
Dominus tecum, concluiu o doutor.
—Obrigado, disse Lucio.
—Não é obrigado, é o titulo do conto.
Mas vejam
o que é ser-se litterato. Espirramos, diz-nos alguem
Dominus tecum; é o que
basta, saiu um conto!
Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz
admiravel, com a rara sciencia de recitação que
possuia,
começou a lêr, no meio de profunda
attenção
das
duas creanças, o seu
Dominus
tecum.
DOMINUS TECUM...
(CONTO PARA CREANÇAS)
I
Agora que a noite começa a desenrolar o seu manto
azul, onde essas fadas luminosas, que se chamam estrellas,
dançam em torno da sua branca rainha, que
percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas
solitarias e pensativas, como a scismadora Venus, outras
formando immensa e jovial choréa como as brancas
estrellinhas da via lactea; agora que principia a
ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume
de harmonia que parece exhalar-se das urnas gigantes
dos campanarios, vinde, meus meninos, vinde agrupar-vos
em torno de mim, e ouvir as historias maravilhosas
que eu tenho para vos contar.
Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos,
doirados fios que enreda, teimosa, a brisa folgazã,
como que para vos desafiar para novos brinquedos, e
fitae-me bem com
esses olhos azues, transparentes como
o lago limpido, puros como o céo ridente, que vos quero
povoar os sonhos de imagens luminosas d'esse mundo
loução de fadas e duendes!
Ó sonhos infantis! Quem poderá jámais
saber quanto
esvoaçar de azas brancas, quanto rescender de ignotos
perfumes, quanto desabrochar de lindas flôres, quanto
lampejar de suavissimos clarões nos revela aquelle innocente
sorriso que volteia nos labios da creança adormecida!
Que deliciosos colloquios não haverá entre essa
almazinha
gentil, que aspira ao céo, e os anjos, que se
debruçam meigamente do azulado Empyreo, que a tomam
nos braços, que a embalam e lhe sorriem!
E eis o motivo porque sempre despertaes chorando:
é porque os anjos vos poisam no berço, vos beijam
na
fronte; porque vêdes as suas azas candidas transporem
n'um vôo o espaço, e cerrarem-se com fragor as
doiradas portas do Empyreo.
E só vos aplaca o choro o meigo sorrir das mães;
porque, se ha anjos na terra, onde se abrigariam elles
se não fosse no brando seio maternal?
Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo?
Mas entre o céo e a terra ha outro mundo de encantos,
onde esvoaçam as fadas travessas, os maliciosos
duendes, que são tambem amigos das creancinhas e as
vão poisar, ás vezes, no purpureo
regaço das rosas, ou
nas rendas prateadas do immenso véo do luar.
De dia dormem escondidas no calice das flôres, ou no
seio dos lagos, ou nas folhas das arvores; mas, quando
soam Trindades, eil-as a esvoaçar no ambiente, e
é o
bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que produzem
esses ineffaveis murmurios que vos encantam
e que vos fazem até cair, sem saberdes por quê,
n'uma
doce melancolia.
São ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos
gorgeios, esses deliciosos trinados, que toda a natureza
escuta embevecida n'um vago extase.
São ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico
fulgor que vagueia nos prados, e matiza de oiro
o fundo verdejante da relva.
São ellas quem desentranham do seio das flôres as
nuvens de perfumes, que espalham depois, rindo, na
atmosphera.
É o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr
um vago estremecimento pelas corollas gentis das
rosas e dos lirios.
Por isso a noite é mais formosa do que o dia; porque
o dia pertence aos homens, e durante a noite imperam
os espiritos subtis.
A natureza vê passar com indifferença, e
até com
odio, o homem que se diz seu rei, e cuja realeza é uma
verdadeira tyrannia.
Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe
as flôres que viçavam alegres, e que
vão finar-se em
ramalhetes; acorda os echos doridos com o estrondear
das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece
o seu dominio, leva comsigo a destruição e a
morte.
Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta? É
horrivel! As arvores contorcem-se na agonia, erguem
ao céo os ramos esbrazeados, soltam gritos de
desesperação.
Não é a vegetação inerte
que se reduz ao
nada, é a vida que fenece em convulsões.
E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho
assolador entre a folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza!
Foi o monarcha da creação!
As fadas e os duendes não destroem assim esses
mysteriosos sanctuarios, onde se abrigam tantos amores,
tantas vidas, tão incessante trabalho de
renovação!
Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; são ellas
quem descerram a pouco e pouco os verdes botões das
rosas do matto; são ellas que penetram nos troncos, e
fazem girar a vivificante seiva em todos os pontos da
arvore caduca; são quem a ajudam depois a desabrolhar
em pimpolhos, em flôres e em fructos.
Por isso, quando á noite dançam e folgam nos
ares,
toda a natureza se compraz em lhes adornar os festejos;
as brisas volteiam com as suas urnas cheias de aromas;
os rouxinoes descantam as suas arias; a orchestra immensa
dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes
entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas
das suas franças, ou deixam que mão ignota
doideje
vagamente nas teclas das suas frondes! E tudo
canta, ri e folga, porque são as fadas que
dançam, as
fadas aéreas, os travêssos duendes.
E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas
moradas, respira uma atmosphera corrompida,
sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de dar
um giro na sala abafadiça, e cerra cuidadosamente as
janellas, para que lhes não chegue nem um murmurio,
nem um effluvio, nem um raio de luz.
E a natureza aproveita a ausencia do rei da
creação,
e canta, e folga, e ri, porque são as fadas que
dançam,
as fadas risonhas, os duendes maliciosos.
II
Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como
podem suppôr, não tem o mesmo genio, a mesma
indole
nos differentes sitios. N'uns pontos persegue-as o
infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.
Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de
veludo, aguas de crystal, sol de oiro vivo; onde nos
ares limpidos parecem brotar por encanto musicas suavissimas;
onde viçam flôres com profusão; onde as
brumas
são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes,
e não gélido manto que envolve as planicies,
folgam as
fadas de viver. É este o paiz dos seus sonhos, este e
a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram por
tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que
eram as fadas dos pagãos.
Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca
lhes faltam, abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias,
aquentando-se nos ninhos das avesitas, viajando
n'um raio da lua, não tendo mais em que cuidar
senão
em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em
banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por
anno, na bemdita noite de S. João, tem de ser oraculos
das donzellinhas, que lhes vem perguntar qual o
porvir dos seus amores.
Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e
entrar
na alma ingenua da donzella, é apenas mudar de
ninho, e não sei qual será mais suave, mais
macio,
mais delicioso e mais immaculado.
Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar!
Pois o que são os amores? E se escutavam deliciosos
gorgeios,
finas
trovas, podiam nunca ser tão mimosos
esses cantares como o poema seductor, cujas estrophes
resoam n'um coração de vinte annos?
Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do
norte, na nevoenta
Inglaterra,
na verde mas tristonha
Irlanda, não encontram as fadas e os duendes as
doçuras
d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a suavidade
d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se
as aguas, morrem de frio os passarinhos implumes nos
pobres ninhos devastados pela procella, a neve mata as
flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a luz
e affrouxa
o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas,
e ai de quem intentasse dançar nos ares quando o
graniso cae!
Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas!
Elles, que adoram a liberdade, vêem-se obrigados
a refugiar-se nos quentes curraes, na cinza do lar, e até
na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do
sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas
maculadas de fuligem, a não ser que estejam expostos
ao frio e á neve á porta de casa pouco
hospedeira, onde
não lhes abram sequer uma fisga por onde possam
metter os corpinhos enregelados.
Mas os homens são crueis e egoistas, e não
concedem
um favor sem mirarem a galardão; estão promptos
a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a
condição
que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos
duendes e as nossas fadas, fieis á sua palavra, a
ordenhar as vaccas, a guardar as ovelhas, a tratal-as
nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger os
donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não
fariam.
Mas, meus meninos, os homens, não contentes com
isso, traçam muitas vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles,
descumprir a sua palavra, e isso tudo exacerba-os,
e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos.
Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do
mal, tanto nos homens como nos duendes. A miseria,
e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah! quando virdes
um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde
primeiro
em que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras
idéas que teve, qual o estado da sua intelligencia.
E vereis sempre a miseria, o embrutecimento e as
trevas.
Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á
grande
obra da regeneração dos vossos similhantes, ao
seu esclarecimento
e á sua educação moral.
E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim
tereis cumprido o grande preceito da nossa religião
«a caridade», preceito que encerra em si todos os
outros,
raio de luz que, em se espraiando pelo mundo,
basta para dissipar as sombras mais cerradas.
Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos
iamos afastando tanto.
III
Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que
vereis como os duendes se transformam com a miseria
e com o mau exemplo dos homens.
Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer
e tem uma velhice repugnante; aqui não pensam
senão
nas suas fadas, lá ousam querer raptar as filhas dos
homens.
Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado
Patricio, que pedira um favor a um duende, offerecendo-se
a recompensal-o; mas, apenas se viu servido,
fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não
pensou mais em similhante galardão.
O duende, que já era velho e rabugento, e moido de
trabalho, enfadou-se com esta falta de palavra, e condemnou
o camponez a servil-o sete annos e um dia.
Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro
do destino, e lá não é possivel
arrancarem-se as folhas,
como se fez em Portugal, nem queimar a casa
onde o livro está, como se fez em França.
O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena
recompensa, viu-se obrigado a servir seu amo sete annos,
sem ao menos ter a esperança que teve Jacob, que
se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos
sabem, mas a quem fôra promettida em premio
a formosa Rachel.
E, ainda assim, Jacob não tinha senão que
pastorear
os rebanhos de Labão, o que, por fim de contas,
não
é uma occupação desagradavel.
Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias.
Além dos trabalhos habituaes, fazia tambem
de escudeiro de seu amo, e tinha de o acompanhar nas
suas excursões nocturnas, excursões que eram
sempre
feitas a cavallo.
Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados
em guapos corceis, como esses em que os seus papás
montam, ou em pacatos burrinhos, como esses em que
os meus meninos vão tambem dar os seus passeios?
Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham
outra casta de cavalgaduras; eram immensas porque
abrangiam toda a
natureza, e porque, a fallarmos verdade,
os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam,
por exemplo, ao meio de um campo, viam duas
feveras de palha, o duende pegava n'uma, dava outra
a Patricio, e dizia-lhe: «Monta».
Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me,
realmente, que o mais perito mestre de equitação
se
havia de vêr seriamente embaraçado.
Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza,
que o levára áquelle misero estado; mas como
arrancando
os cabellos ficava calvo, e não transformava a
palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha remedio
senão montar, e lá ia elle por esses ares
fóra
atraz de seu amo, que cavalgava tão ufano como se montasse
no celebre Bucefalo de Alexandre, em que os meus
meninos talvez já ouvissem fallar.
De que elle tinha medo principalmente era que os
seus visinhos o vissem n'aquella figura, mas d'isso não
havia perigo; o duende, sendo invisivel para olhos profanos,
tornava-o invisivel tambem a elle.
Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos
e cannas os corceis escolhidos; o bom do Patricio quiz
vêr se conseguia que seu amo acceitasse dois paus de
vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras mais
commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende
respondeu-lhe com tanta dignidade que isso era bom
para as bruxas, que o pobre irlandez não ousou insistir,
e tratou de vêr se aprendia as regras da picaria
aeria, e de escolher a posição mais commoda que
podesse
na tal fevera de palha que o transportava pelos ares.
Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou
Patricio e disse-lhe com modo benevolo:
—Meu amigo,
determinei casar. Estou a fazer mil
annos, e parece-me que é tempo de tomar estado e familia.
Escolhi para minha noiva a formosa Jenny, e vamos
esta noite buscal-a.
Patricio bem desejaria responder que os olhos azues,
as tranças loiras, a rosea bocca e as faces nevadas da
formosa Jenny não deviam ser para um velhote como
elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado,
devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga
na flôr dos seus vinte annos, e que, além d'isso,
rasão de todas a mais forte, Jenny casára n'esse
mesmo
dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda
em casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende
não gostava de reflexões, e portanto, sem tugir
nem
mugir, montou a cavallo n'uma folha de couve, que era
o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra.
IV
Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem
conta soavam a cada instante, as violas desprendiam os
seus alegres epithalamios, e a meza, servida á farta,
ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.
A noiva era realmente galante a mais não poder ser.
Nos olhos tão azues e tão meigos parecia que se
refugiára
a côr do céo, expellida do firmamento pelas
nuvens,
e com a côr do céo a doçura dos anjos.
Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo;
na bocca pequenina esvoaçava um sorriso de amor,
como borboleta em rosa. As faces eram tão brancas,
tão brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das
montanhas de Erin; mas n'esse momento incendia-as o
prazer e
tingiam-se de reflexos roseos, como a nivea
toalha dos pincaros, quando o sol a illumina ao descair
no occaso.
O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso.
O olhar ardente com que, para assim dizermos,
enlaçava Jenny, mostrava o immenso amor que lhe tinha;
a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos
olhos da gentil irlandeza, revelava que a voz d'esse
amor encontrára um echo no coração da
formosa que
o duende cubiçava para noiva.
Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no
logar de honra, campeava o gordo padre prior, que fazia
frente a um magnifico prato de cabeça de porco,
flanqueada de feijões, que lhe levava os olhos, como a
formosa physionomia de Jenny enlevava o enamorado
esposo.
O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar
por elles, e foram sentar-se commodamente n'uma das
traves do tecto. Os cavallos haviam ficado no telhado
fóra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam
muito capazes de as devorar, sem respeitarem por
fórma alguma a confraternidade que as pobres folhas
de couve allegariam.
Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um
tanto incommodado, principalmente porque lhe chegava
o cheiro dos bons manjares que ufanos campeavam em
cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria
muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos
com as saborosas iguarias.
Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende
nunca lhe consentiria mostrar-se, e, portanto, consolava-se
pensando que talvez a ceia das bodas do seu amo
fosse
ainda melhor
do que essa que o estava namorando.
Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida
para o seu companheiro da trave, e pensou que
era realmente uma barbaridade ligar assim tão donosa
primavera a tão encarquilhado inverno.
N'isto a noiva espirrou.
Um espirro não é coisa que envergonhe ninguem,
mas o espirro de Jenny fez tanta bulha, que a pobre
menina corou muito, sentindo que todas as vistas se
haviam voltado para ella.
Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado
sacerdote empunhava o garfo e a faca, e com os olhos
cravados na cabeça de porco, a nada mais dava
attenção.
Era natural, meus meninos, que dissessem á formosa
Jenny o consagrado
Dominus tecum;
ninguem, effectivamente,
queria faltar a esse dever; mas a cortezia ordenava
que se deixasse o padre prior tomar a iniciativa,
e, por conseguinte, todos esperaram.
O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa,
mas era de se deitar á cabeça de porco; cravou o
garfo
destramente, vibrou com certeza rara a faca a um bom
tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu
prato particular.
Terminada essa difficil operação, o padre prior
poisou
as armas triumphantes ao lado do prato, travou
gravemente da colhér, e, em tres ou quatro viagens,
fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo,
uma respeitavel quantidade de feijões.
Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e,
depois d'esse pequeno incidente, a festa
continuou
com
o mesmo estrondo e enthusiasmo.
A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso
acompanhamento.
Mas o duende é que dava pulos de contente na trave,
e dizia a Patricio:
—Se ella dá mais dois espirros e ninguem lhe diz
Dominus tecum, é minha;
foi isso o que Satanaz me
prometteu.
O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez
tinha boa alma: se não fosse a tal avareza...
Emfim, ninguem póde ser perfeito.
D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre
menina ficára tão envergonhada da primeira vez,
que o segundo espirro comprimiu-o por tal fórma, que
ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via
obrigado n'esse instante a escutar uma enorme
dissertação
de seu sogro sobre o cultivo da batata.
O padre prior comia.
Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro
sem o competente
Dominus tecum.
O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em
fim, que por mais de uma vez um ou outro conviva
olhou para o tecto, mas, não vendo coisa alguma, julgou
que seriam ratos e continuou a divertir-se.
Patricio scismava; era realmente uma dôr d'alma vêr
tão gentil menina cair em poder d'aquelle espirito
malicioso;
pensava que talvez a podesse salvar, mas lembrava-se
das iras de seu amo, que podiam cair sobre
elle, e abanava a cabeça deixando-se ficar mudo e
quêdo.
Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda
mais comprimido que os dois primeiros.
Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel
Dominus
tecum, que fez
tintinar os vidros e tremer
os convidados.
E logo um corpo humano veiu, aos rebolões pelo
espaço,
baquear em cima da meza, entornando o prato
do padre prior, que soltou um grito de desespero, e
apanhou na batina o naco de cabeça de porco, antes
que um mastim faminto, que andava rondando os pés
das cadeiras, désse com tão boa fatia.
Era Patricio que, vencendo as suas indecisões, reunira
todas as suas forças e coragem, e salvára d'essa
fórma a formosa Jenny.
Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia:
—Despeço-te do meu serviço, mas ahi tens o
ordenado.
Não era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres
mezes em lençoes de vinho, e ficou toda a vida com
uma dôr nas costellas.
Mas os dois noivos, a quem elle contára o que estivera
para lhes succeder, foram-lhe eternamente gratos,
ajudaram-n'o muito na sua vida, e, quando envelheceu,
levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa cadeira,
onde se sentava a apanhar a sua restea de sol,
e onde entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe
as suas viagens aérias, e a historia dos tres espiritos.
V
Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno
esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta
a natureza quando adormece o homem; as flôres
entreabrem o
Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno
esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta
a natureza quando adormece o homem; as flôres
entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o transparente
crystal das suas
aguas, e as naiades chorosas
entoam os seus lamentos.
Já o somno começa a fazer-vos pender a fronte;
brincastes,
correstes durante o dia á luz do sol, chega a
hora do repouso, depois, quando fôrdes crescidos, gostareis
de ficar, como eu fico, a contemplar o estrellado
docel do firmamento, e a perguntar ás vozes mysteriosas
da natureza qual é o segredo que faz palpitar
tantos mundos na abobada estrellada; gostareis de vêr
os campos onde o luar se espraia, as infindas maravilhas
da creação! mas oh! nunca vereis panoramas
como os que vos sorriem agora nos meigos sonhos da
infancia.
Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz
das cortinas alvas do vosso leitosinho, e, se algum espirito
aéreo se vos entre-mostrar tambem, não tenhaes
medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos são
fadas meigas e risonhas, e não duendes malignos.
No dia seguinte áquelle em que o doutor Macedo
contára, com grande gaudio das creanças, a lenda
do
Dominus tecum, uma carruagem parava
á porta do visconde
da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa
de nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia
para fallar ao visconde e á viscondessa da Fragosa.
Era a mãe de Henrique Osorio, que vinha pedir para
seu filho a mão de Leonor.
Fez algum reboliço em casa dos viscondes este subito
pedido feito para pessoa que sempre vivera em intimas
relações
com Leonor, e que nunca
até ahi mostrára
desejos de a requestar.
Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor
Macedo disse:
—É para que saibam que, quando se semeia sempre
se colhe alguma coisa, ainda que não seja aquillo
que se previu. Das nossas lendas da meia-noite saíu
este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento
e a mortalha no céo se talha.
—Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento
e a mortalha devem estar intimamente ligados...
O homem que ama espectros... O auctor de
Julieta!
N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira
que a sua carruagem o esperava. Despediram-se
elle e a filha dos viscondes da Fragosa, Isaura deu um
beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique
Osorio.
—Espero tornal-o a vêr no Espinho, disse ella com
requintes de amabilidade a Lucio Valença.
—Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor.
Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio
e disse-lhe:
—Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem
nome. Sabe comtudo, Lucio, que sou seu amigo, e que
não tenho no que vou dizer-lhe o minimo pensamento
reservado. Não se deixe prender nos laços
d'aquella
formosa mulher, que é uma
coquette sem intelligencia
e sem alma.
—Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo
hoje pelo prisma que você me legou. Hei de dizer mal
d'elle talvez d'aqui a algum tempo. Agora não ha remedio;
tenho-o encaixado nos olhos.
Henrique encolheu os hombros.
—Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que
vira Leonor entrar a dirigir-se para o seu noivo, tem
a
lenda da meia-noite uma
conclusão inesperada; mas
isso foi bom para que tivesse alguma.
—Effectivamente, disse Lucio Valença, o nosso fim,
confessamol-o, não se conseguiu. As pessoas nervosas,
quando estiverem sósinhas á meia-noite n'um
quarto de
lugubre aspecto, hão de continuar a tremer de espectros.
Affrontal-os em boa companhia não torna aguerrido
ninguem.
—Eu não posso dizer coisa alguma; na
lenda
da
meia-noite encontrei eu, disse Henrique, a ventura da
minha vida.
—E ainda que outra coisa não se alcançasse,
logrou-se
passarem-se algumas noites agradavelmente.
—Assim seja! concluiu o doutor Macedo.
Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso
livro.
FIM
Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA
VULGARISAÇÃO
DOS MELHORES LIVROS
DAS
LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS
Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.
Volumes publicados
| 1— |
Tristezas
á
beira-mar, por
Pinheiro Chagas. |
|
47— |
Ninho
de guincho, por Alberto
Pimentel. |
| 2— |
Contos
ao luar, por Julio
Cesar Machado. |
48— |
Vasco,
por A. Lobo d'Avila. |
| 3— |
Carmen,
trad. de M. Level. |
49— |
Leituras
ao serão, por A.
X. Rodrigues Cordeiro. |
| 4— |
A
Feira de Paris, por
Iriel. |
50— |
Luz
coada por ferros, por
D. Anna A. Placido. |
| 5— |
O
direito dos filhos, por
George Ohnet. |
51— |
Esgotado. |
| 6— |
John
Bull e a sua
ilha,
trad. de P. Chagas. |
52— |
Relampagos,
por Armando
Ribeiro. |
| 7— |
Esgotado. |
53— |
Historias
rusticas, por Virgilio
Varzea. |
| 8— |
A
lenda da meia
noite, por
M. Pinheiro Chagas. |
54— |
Figuras
humanas, por Alberto
Pimentel. |
| 9— |
A
joia do vice-rei,
por P.
Chagas. |
55— |
Dolorosa,
por Francisco
Acebal, trad. de Caïel. |
| 10— |
Vinte
annos de vida
litteraria,
por A. Pimentel. |
56— |
Memorias
de um fura-vidas,
por A. de Mesquita. |
| 11— |
Honra
d'artista,
trad. de P.
Chagas. |
57— |
Dramas
da côrte, por Alberto
de Castro. |
| 12— |
Esgotado. |
58— |
Os
mosqueteiros d'Africa,
por Mendes Leal. |
| 13_e_14— |
A
aventura d'um
polaco,
trad. de Maria A. Vaz
de Carvalho. |
59— |
A
divorciada, por José
Augusto Vieira. |
| 15— |
Os
contos do Tio
Joaquim,
por R. Paganino.
|
60— |
Phototypias
do Minho, por
J. Augusto Vieira. |
| 16— |
Esgotado. |
61— |
Insulares,
por Moniz de
Bettencourt. |
| 17— |
Noites
de Cintra, por
Alberto
Pimentel. |
62_e_63— |
Historia
da
civilisação
na Europa, trad. do
Marquez de Sousa Holstein. |
| 18_e_19— |
Esgotado. |
64— |
Triplice
alliança, de Raul
de Azevedo. |
| 20_e_21— |
A
irmã da
caridade,
por Emilio Castellar, trad.
de L. Q. Chaves. |
65— |
Retalhos
de verdade, por
Caïel. |
| 22— |
Migalhas
de historia portugueza,
por P. Chagas. |
66— |
A
pasta d'um jornalista,
pelo Visconde de S. Boaventura. |
| 23— |
Esgotado. |
67— |
Os
argonautas, por Virgilio
Varzea. |
| 24— |
Contos,
por Affonso
Botelho. |
68— |
Fitas
de animatographo,
por Alberto Pimentel. |
| 25— |
Esgotado. |
69_e_70— |
Poesias
do Abbade de
Jazente, annotadas por Julio
de Castilho. |
| 26— |
Esgotado. |
71— |
Aspectos
e sensações, de
Raul d'Azevedo. |
| 27— |
O
naufragio de
Vicente Sodré,
por Pinheiro Chagas. |
72— |
Contos
e narrativas, por P.
W. de Brito Aranha.
|
| 28— |
Vida
airada, por
Alfredo
Mesquita. |
73— |
Quadros
e letras, historias
e romancetes, por Sanches
de Frias. |
| 29— |
O
bacharel Ramires,
por
Candido de Figueiredo. |
74— |
Individualidades,
por Henrique
das Neves. |
| 30_e_31— |
Esgotado. |
75— |
Alfacinhas,
por Alfredo de
Mesquita. |
| 32— |
As
netas do Padre Eterno,
por A. Pimentel.
|
76— |
Patria
amada, pelo Visconde
de S. Boaventura. |
| 33— |
Contos, por Pedro Ivo. |
77— |
Historias
e romancêtes, por
Sanches de Frias. |
| 34— |
O
correio de Lyão, por
Pierre Zaccone. |
78— |
Esbocetos
individuaes, por
Henrique das Neves. |
| 35— |
Vida
de Lisboa, por Alberto
Pimentel. |
79— |
Recordações
da mocidade,
por Adolpho Loureiro. |
| 36— |
Historias
de frades, por
Lino d'Assumpção. |
80— |
Sorrisos,
novellas e chronicas,
por A. Campos. |
| 37— |
Obras primas, por
Chateaubriand. |
81— |
Lucta
de sentimentos, por
Maria O'Neill. |
| 38— |
O
exilado, por Mauricia C.
de Figueiredo. |
82— |
Do
Rocio ao Chiado, por P.
de Vasconcellos. |
| 39— |
Poema
da Mocidade, por
Pinheiro Chagas. |
83— |
A
dança do destino, por
Luthgarda de Caires. |
| 40_e_41— |
A
vida em Lisboa,
por Julio Cesar Machado. |
84— |
Um
drama de ciume, por
Maria O'Neill.
|
| 42_e_43— |
Espelho
de portuguêses,
por Alberto Pimentel. |
85_e_86— |
Resumo
da origem de
todos os cultos, por C. F.
Dupuís. |
| 44— |
A
fada d'Auteuil, trad. de
Pinheiro Chagas |
87— |
Vencido,
romance por F. A.
M. de Faria e Maia. |
| 45— |
A
volta do Chiado, por E.
de Barros Lobo. |
88— |
Elogio
da loucura, critica
de costumes, por Erasmo. |
| 46— |
Séca
e Méca, por Lino
d'Assumpção. |
|
|
OUTRAS OBRAS
Azevedo (Domingos de)
Diccionario (Grande)
contemporaneo francez-portuguez
e v. v. 2.ª
edição, muito correcta e
extremamente
augmentada.
Grammatica da
lingua franceza.
Grammatica
Nacional, para aprender
portuguez sem mestre.
Lições
praticas de conversação
franceza.
Ollendorff
aperfeiçoado para aprender francez sem mestre,
(2 vol.).
Carvalho (D. Maria
Amalia
Vaz de)
Ao correr do
tempo.
Arte de viver na
sociedade.
Aventura de um
polaco, (2 volumes).
Cerebros e
corações.
Chronicas de
Valentina.
Coisas d'agora.
Contos e
phantasias.
Em Portugal e no
estrangeiro.
Figuras de hoje e
de hontem.
Heroismo do clero.
Impressões de historia.
No meu cantinho.
Nossas filhas.
Pelo mundo
fóra.
Raphael, trad. de
Lamartine,
(ed. de luxo).
|
|
Pinto (Silva)
(Collecção
d'algibeira)
A queimar cartuchos.
A torto e a direito.
Ao correr do pello.
Entre nós.
Frente a frente.
Moral de João Braz.
Mundo (O) furta-côres.
Na Procella.
Na travessia.
N'este valle de lagrimas.
No colyseu.
No mar morto.
Para o fim.
Philosophia de João Braz.
Por este mundo.
Riso amarello.
Rompendo o fogo.
Velha historia.
Queiroz (Dr.
Teixeira de)
Amores... amores...
Arvoredos.
Cantadeira (A).
Caridade (A) em Lisboa (2 vols.).
Cartas d'amor.
D. Agostinho.
Morte de D. Agostinho.
Noivos (Os) (2 vol.).
Nossa (A) gente.
Sallustio Nogueira (2 vol.).
Amor Divino.
Famoso Galrão.
Ao sol e á chuva.
Grande (A) Chimera. |
Notas
[1]
Não é da auctora a idéa
inicial d'esta lenda. Encontrou-a de
certo n'um magnifico livro do conde de Résie, intitulado
«
Historia
e tratado das sciencias occultas.»
O livro em que fallo é um optimo archivo de todas as
tradições
européas. Ha alli thesouros de poesia! Traduzo litteralmente
o periodo,
que me suggeriu a idéa d'este conto. É o
seguinte:
«Nas costas do Baltico estava outr'ora situada uma egreja,
que
alguns impios profanaram um dia, e que com elles se sepultou no
mar. Quando está socegada a noite, ouvem-se ainda esses
desgraçados
cantar soluçando os psalmos da penitencia; e
vêem-se brilhar
atravez das ondas tranquillas os cyrios que accendem no altar,
junto do qual estão condemnados a chorar até ao
fim do
mundo.»
E nada mais.
Como vêem, estava tudo por fazer. Mas a idéa era
extremamente
poetica e prestava-se a um grande desenvolvimento. Pena
foi que a não deparassem escriptores como o auctor das
Lendas
e Narrativas, ou como esse poeta da prosa portugueza,
que soube
dar tão esplendido colorido á
Lenda do castello de Santa-Olaia.
Emfim o conto ahi está, bom ou mau; e com esta nota fica em
repouso
a minha consciencia litteraria.