Nota de editor:
Devido à
quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
mantida de acordo com o original. No final deste livro
encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita
Farinha (Jan. 2008)
ADOLPHO CAMINHA
NO PAIZ
DOS
YANKEES
DOMINGOS DE MAGALHÃES—EDITOR
54 RUA DO OUVIDOR 54
LIVRARIA MODERNA
RIO DE JANEIRO
1894
NO PAIZ DOS YANKEES
cruzador "almirante barroso"
ADOLPHO CAMINHA
NO PAIZ
DOS
YANKEES
RIO DE JANEIRO
Domingos de
Magalhães—editor
54 rua do ouvidor 54
LIVRARIA MODERNA
1894
Do mesmo autor:
A NORMALISTA
I vol. broc. 3$. cnc. 5000
Em
preparação:
BOM—CRIOULO
Typ.
da Empreza Democratica
Editora—Rua do Hospicio n. 11
Taine, o glorioso Taine, o querido
philosopho, cuja obra admiravel
tem sido uma especie de bussola para
os que se iniciam na complicada arte
da palavra; Taine, o mestre, aconselhava
sabiamente, com aquella profundeza
de vista e com aquelle raro e
superior criterio de artista e pensador:—«Que
chacun dise ce qu'il a
vu, et seulement ce qu'il a vu; les
observations, pourvu qu'elles soient
personnelles et faites de bonne foi,
sont toujours utiles.»
Devo a estas palavras a lembrança
de escrever as multiplas impressões,
os successivos transportes
de admiração, de jubilo e tristeza
por que passou meu espirito durante
alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos.
A principio afigurou-se-me obra
de alevantado alcance e de extrema
coragem traçar, ainda que ligeiramente,
o plano de um livro sobre a
grande nação americana, tão singular
em seus costumes, em sua vida
agitada e tumultuosa, em seus variadissimos
aspectos...
E de facto, esse trabalho, essa
difficil tarefa demandaria, incontestavelmente,
muito mais que uma
somma de notas mais ou menos verdadeiras
e algum estylo. Era preciso, antes
de tudo, um elevado criterio
historico e scientifico, grande cópia
de conhecimentos e profundo espirito
analytico.
Não se escreve a historia de um
paiz,—a vida inteira de um povo—sem
demorar-se em largo e paciente
estudo sobre as suas origens, seus
habitantes primitivos, sua evolução
politica e social, suas luctas intestinas
e sobre os elementos que mais
directamente influíram para sua independencia.
A elles, os historiadores e analystas da
sciencia, tão arriscada empreza.
Os poucos mezes que passei nos
Estados-Unidos apenas me proporcionaram
ensejo de admirar, atravéz
de um prisma todo pessoal, o progresso
assombroso
d'esse extraordinario
paíz.
Comprehendem-se, pois, os meus
intuitos: nada mais que reproduzir,
com a possível exactidão,
o que
vi,
somente
o que vi nessa interessante
viagem ao paiz dos
yankees.
Procurei ser espontaneo e simples,
natural e logico, evitando
exageros de observação e o estylo
rebuscado e palavroso dos que, á fina
força, pretendem transformar a litteratura
n'uma simples arte mecanica
de
construir phrases ôcas e coloridas.
Escriptas em 1890, as paginas
que se vão ler podem não ter a importancia
de um estudo completo, mas
de algum modo têm seu valor intrinseco.
Rio, 1º de Agosto de 1893.
Ad. Caminha
NO PAIZ DOS YANKEES
I
...Tinha cessado a faina geral de suspender
ancora. Os marinheiros estavam todos em
seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos,
enfileirados a bombordo e á boréste, alguns
convenientemente distribuidos na pôpa, na
prôa e nas cobertas do cruzador.
Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro
e tristeza, fria, sem estrellas, cortada de clarões
longinquos. Tão escura que se não distinguia
um palmo diante do nariz, tão feia que
os bicos de gaz da cidade, soturna e quieta,
bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula
e vacillante...
E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro,
em plena estação calmosa, no rigor do
verão.
Chuvera todo o dia. O céo conservava-se
coberto de nuvens bojudas e côr de chumbo,
velando uns restos de lua.
Um grande silencio de alto mar alastrava-se
por toda a bahia do Rio de Janeiro.
Sómente ao longe, para os lados da cidade,
badalava o sino d'uma egreja, compassado e
lugubre.
De vez em quando passava rente com a
pôpa do
Barrozo o vulto
sombrio e largo de
uma barca Ferry, com o seu pharól de côr,
dezerta, indistincta, e que desapparecia logo
na escuridão.
Seria meia noite quando o navio começou
a mover-se lentamente, caminho da barra,
cheio da silenciosa melancolia dos que partiam,
e uma hora depois a cidade, as praias, e as
montanhas sumiam-se na distancia, como si o
mar as fosse engolindo com a voracidade de
um monstro.
Restava apenas um ponto luminoso, uma
visão microscopica da terra fluminense; era o
pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra
somnolenta, atravéz da noite.
E todos a bordo, todos silenciosamente,
egoistas na sua dôr concentrada e incommunicavel,
mandaram ainda um—adeus—profundamente saudoso
á vida alegre e ruidosa do Rio.
Dizem que o homem do mar é insensivel
aquelles que nunca viram esta realidade: a
lagryma da saudade brilhar na face de um
marinheiro.
Lá fomos mar afóra...
Pernambuco foi o primeiro porto da nossa
escala.
Viagem monotona, sem accidentes notaveis,
essa do Rio ao Recife. As horas succediam-se
n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel.
Sempre o mar, sempre o céo, ora
sombrios, ora azues...
Durante o dia 21 avistámos, e isso nos
consolou,
uma vela que bordejava,
muito
branca, triste garça erradia no horisonte
luminoso.
Para quem viaja no mar uma vela que se
avista é sempre motivo de innocente alegria
O marinheiro com especialidade gosta de
seguil-a com o olhar nostalgico até perdel-a
completamente. É como ao avistar-se terra
depois de longa travessia: sente-se a mesma
impressão bôa e indefinivel.
Na manhã de 26—léste-oeste com o pharol
de S. Agostinho, e ás onze horas recebiamos
o pratico.
Impossivel entrar nesse dia, por falta de
maré: passámos a noite fóra, no
Lamarão, aos
solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do
Recife, illuminada e bella, hombro a hombro
com a legendaria Olinda dos hollandezes e
dos banhos de mar.
Na falta de outro assumpto falou se de
historia patria.
Pela manhã de 27 o
Barrozo sulcava
as aguas do Lamarão, lento e magestoso,
crivado de olhares. O povo saudava-o do
cáes da Lingueta. Espalhou-se logo que o
principe D. Augusto, neto do imperador,
vinha a bordo, e toda a gente correu a recebel-o
com essa avidez instinctiva das massas
populares. O povo pernambucano, tradicionalmente
inimigo dos
imperadores, lembrava-se
do tempo em que o Sr. D. Pedro de
Alcantara dava-se ao luxo de visitar o
norte.
Mais tarde, ao desembarcar a turma de
guardas-marinha, de que fazia parte o principe,
subiu de ponto a curiosidade publica.
—Oh! o principe!—Que é d'elle?—É
um ruivo?—É aquelle barbado?
O pobre moço viu-se em apuros, e mudava
de côres, e fazia-se escarlate, e vociferava
contra a plebe, occultando-se entre os
collegas, desapontado. Um preto velho teve
a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A.
e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu,
porém, que errou o alvo e foi direito a
um outro rapaz, louro e rubro, como o principe,
que se apressou em desfazer o engano.
O imperial senhor achava-se ridiculo no
meio de toda aquella multidão servil e anonyma
que o acompanhava, «como si visse
n'elle um animal selvagem...»
É assim o povo—ingenuo, pueril.
Visitámos, em romaria, os principaes edificios
publicos: a Penitenciaria,
a Assembléa
Provincial, o Gymnasio, o Theatro.
A nova Penitenciaria do Recife é um
bello edificio no genero.
Impressiona tristemente esse casarão sombrio
com escadarias de ferro, onde mal penetra
a claridade meridiana.
Ha criminosos de toda a especie, em
cujos semblantes retratam-se delictos tenebrosos.
Nada, porém, nos commoveu tanto como
a historia do preso Gustavo Adolpho, que, ha
quasi vinte annos, cumpria a terrivel sentença
a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados
sympathicos que inspiram compaixão
a quem os observa de perto.
Um dos nossos companheiros desejou
saber a historia do seu crime e pediu ao infeliz
que lh'a contasse elle proprio.
—Não queira, disse o condemnado, não
queira obrigar-me a fazer minha propria
autopsia moral... Narral-a, essa historia,
seria um supplicio muito maior do que estar eu
aqui, n'este carcere, ha vinte annos...
Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo,
tal o aspecto humilde de sua
physionomia
e o tom commovente de sua voz. O isolamento
transformara-lhe a alma. A dôr tem
isto de bom—purifica o espirito, é como um
crysol. Esse infame, esse assassino, Gustavo
Adolpho, era um martyr. Aquelle semblante
abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado,
aquelles olhos cansados de chorar,
aquelles labios lividos de defunto, cansados de
repetir a palavra—perdão, lembravam a figura
resignada de um moribundo que nada mais
espera senão a eterna liberdade—a morte...
Vimol-o na casa dos condemnados, entre
as quatro paredes de um miseravel cubiculo,
vestido de preto, barba crescida, macilento,
arrependido e só.
Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella
pavorosa solidão, e no emtanto elle não odiava
ninguem e desejava falar a todos.
Tinha dezenove annos quando a fatalidade
o arremessou a Fernando de Noronha.
A justiça humana o havia condemnado a esta
pena infamante—galés perpetuas.
Perdoar a um arrependido nas condições
de Gustavo Adolpho, me parece a mais
nobre acção de um rei. Todavia elle continuava,
mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...
Por diversas vezes a academia de direito,
pelo orgão de seus representantes, exorara
a piedade imperial, mas o imperador nunca
estendeu o seu
magnanimo olhar
até aos carceres
senão em certos dias de gala natalicia
para indultar os escolhidos da politica dominante.
—Console-se, disse eu ao desventurado
moço. E citei Lamartine:—
Vivre c'est
attendre...
Retirámo-nos commentando aquella catastrophe
desastrada.
A historia tragica d'esse preso foi-nos
contada por um empregado do estabelecimento.
Eu podia resumil-a em duas palavras:—
cherchez
la femme, si não fosse o prurido
de registrar, ainda que brevemente, um caso
curioso de processo crime. Cada um tire as
illações que lhe aprouverem.
Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde
iniciou seus estudos como seminarista.
Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario
á educação ecclesiastica, e desviou-se
dos livros sagrados para outro genero de
leituras e estudos mais concentaneos com as
suas aspirações.
Os paes do nubil seminarista desgostaram-se
com o procedimento do filho revolucionario
e ardente apologista de Martinho Luthero, que
não occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas.
Elle, porém, o apostata, o hereje, sentia-se
instinctivamente arrebatado pelas idéas
do seculo e tratou de trocar a sotaina de
noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem
põe peias á fatalidade. Não contente
com ir
de encontro á vontade de seus paes e preceptores,
o ex-seminarista tomou o primeiro vapor,
e, subito, vio-se na capital do Brazil, sem
um amigo que o guiasse n'esse labyrintho de
ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A
rua do Ouvidor e os theatros sempre eram
mais agradaveis que o claustro e as impertinencias
do reitor,—muito mais...
Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de
um abysmo para precipitar-se imprudentemente,
como
creança inexperta, n'outro abysmo
talvez mais perigoso.
Sem amigos, sem protecção, longe de sua
terra e de seus paes,—que podia esperar o
joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis
interesses?
Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente
e cheio de esperanças, intelligente e
trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de
Pariz, por ter trocado sua patria natal por
um paiz que só conhecia de nome. Fôra em
busca de glorias e encontrou a miseria, o frio,
a fome, e a morte por fim.
Esses sonhadores como Imbert-Galloix
são sempre victimas da propria
imaginação.
A sorte de Gustavo Adolpho foi mais
cruel.
Custa a crêr que um insignificante par
de brincos leve um homem á cadeia e depois
ao exilio perpetuo!
Uma vez sem meios de subsistencia,
luctando com a má vontade de uns e a indifferença
de outros, Gustavo Adolpho, que
tinha certa dóse de espirito, d'esse espirito
fino que caracterisa o homem de talento,
fez-se
bohemio, isto é,
indifferente á vida,
nomade a quem tanto faz dormir sobre flacido
colxão, como ao relento e sobre a lage das
calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas
sympathicas. Quando um bohemio
tem espirito acha sempre quem lhe estenda
a mão. Gustavo Adolpho preferiu a mão
leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela
qual apaixonou-se devéras.
A mulher, sempre essa creatura profundamente
seductora e mysteriosa!
E, parece incrivel! quando na primeira
noite, após as ineffaveis caricias do amor, a
misera Manon, adormecida ao lado do amante,
sonhava, talvez, n'algum banquete sumptuoso,
á sombra d'alamos frondosos, talvez n'alguma
de suas passadas orgias, á luz de candelabros
deslumbrantes, elle, o malaventurado
moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova
o rosto sereno de sua amante, antepensava
um crime e um crime excepcional, monstruoso,
inqualificavel.
—Estes brincos, estes brincos... pensava
elle fitando as joias, duas grandes lagrimas
de diamante pendentes das orelhas da rapariga.
Seu espirito oscillava como um pendulo
na duvida terrivel, aguçado por um desejo
louco.
Eil-o que se levanta de um impeto,
pisando devagar, surrateiramente, tão de leve
que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha
para a porta da rua, tacteando, encostando-se
as paredes, pé ante pé, sem respirar,
olhando sempre para traz, para o leito da
amante (lembra-me a scena da «Cymbelina» de
Shakspeare).
Meia noite... Eil-o ainda que volta e se
approxima do leito onde ha pouco boiara em
mar de volupia. Traz na mão um objecto
reluzente, uma cousa disforme... uma machadinha.
Que irá elle fazer?!...
Approxima-se mais, rastejando quasi,
mansamente, subtilmente.
De repente sôa uma pancada surda, e um
grito estrangulado:—Soc...corro! Sôa outra
pancada surda, outra, outra, muitas pancadas,
e sobre os brancos
lençóes d'aquelle
malfadado
leito palpitam as carnes sangrentas,
moribundas, de um corpo de mulher que
ainda ha pouco sentia e pensava...
Obseccado pela idéa do roubo, o assassino
arranca brutalmente as joias do cadaver,
e, á luz do combustor de crystal, reconhece
que são falsas!
Foge rua fóra, como um possesso, enfia
num becco, sae por outra rua, e desapparece
na escuridão da noite.
No dia seguinte seu nome lá estava estampado
em letras garrafaes no livro dos réos:
«Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime
de assassinato e roubo.»
Mais tarde, annos depois, o joven criminoso
tentou fugir de Fernando de Noronha
onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante.
E ha poucos mezes, no anno passado,
a princeza Isabel, então regente do Brazil,
abriu-lhe as portas da prisão.
Gustavo Adolpho publicou, no degredo,
um livro de versos intitulado
Risos e
Lagrimas,
uma collecção de poesias sentimentaes
e amorosos que pouco valem pela fórma e
onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz
poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas.
Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico
e intelligente.
Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro
preso não menos interessante e que nos excitou
a curiosidade. Indigitado autor de não sei
que roubo, fôra condemnado igualmente a
galés perpetuas.
Interrogado, disse-nos contar oitenta (!)
annos de idade e possuir familia numerosa:—mulher
e 30 filhos!
—Qual foi o seu crime? perguntámos.
O velhinho todo tremulo, a cabeça muito
branca; uma nevoa humida no olhar, sem
forças quasi para dar um passo, murmurou
tristemente:
—Nenhum, meus caros senhores... Supponho
que houve engano da justiça...
—E si lhe dessem liberdade agora?...
—De que me servia? Mal me tenho em pé
e já não sei de minha mulher e de meus filhos,
Estou muito velho, preciso morrer descansado
aqui mesmo na prisão.
O edificio da Penitenciaria tem, logo á
entrada, a seguinte inscripção em marmore:
No
dia 23 de abril de 1885 sendo
presidente da provincia o Illm. Sr.
Conselheiro Dr. José Bento da C.
Figueiredo foram removidos os presos
para este edificio organisado
sob a direcção do engenheiro José
Mamede Alves Pereira.
Contava, portanto, trinta e cinco annos.
Foi a mais interessante de todas as nossas
visitas em Pernambuco.
II
No dia 27 deixámos o Recife em
direcção
ás Antilhas.
Como até ahi, a viagem continuou a
vapor,—uma verdadeira viagem de recreio si
não fosse a exiguidade dos commodos a bordo
do cruzador.
O commandante levava ordem para chegar a
Nova Orleans em tempo de assistirmos a
abertura da exposição internacional americana,
onde o
Almirante Barroso devia
figurar
como legitimo e admiravel producto da industria
naval brazileira tão pouco conhecida no
extrangeiro.
Adoptavamos, sempre que o vento permittia,
a navegação mixta, e deste modo, á
vela
e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas
que puxam para o norte, alcançámos, a 2 de
Março, a linha equatorial, onde apanhámos
alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera
ardentissima.
Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as
velas á mingua da mais leve aragem, armaram-se
os toldos para que podessemos supportar
o calor na tólda, e os banhos salgados
de ducha foram recebidos com especialissimo
agrado. Suava-se a valer. Imagine-se:
embaixo, no porão, as fornalhas accesas,
e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador,
cahindo como um caustico sobre o navio.
Á tardinha incendiavam-se os horisontes
de um colorido rubro, ensanguentado, de
magica, reflectindo-se no espelho do mar
tranquillo como num grande lago de crystal...
Demos graças a Deus quando nos vimos
fóra de tão desagradaveis regiões.
No dia 11 avistámos terra de Barbados,
uma das mais prosperas colonias inglezas das
Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro
do intinerario.
O Capitão do Porto foi o primeiro personagem
que pisou a bordo: um inglez de
aspecto duro como em geral o de todo inglez,
olhando atravéz de uns grandes oculos azues
e ostentando fleugmaticamente um par de
soiças ruivas. Trajava
dolman branco, muito
justo ao corpo, calças de panno preto e chapéo
de cortiça branco, de grandes abas, tombado
para a nuca.
Fez a visita sacramental e poz-se ao
fresco em menos de dois minutos, depois de
um fortissimo
shake-hand.
A ilha de Barbados vista de bordo é de
uma nudez quasi completa: nenhuma vegetação
cobre as vastas planicies que primeiro
ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe,
porém, novas paisagens de effeitos
cambiantes vão-se desenrolando á maneira de
cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do
vento que ordinariamente é fresco ahi, casas
de campo confortaveis, arvores, chaminés
fumegantes, tudo isso vai apparecendo á medida
que nos approximamos, até que, com
verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade
de Bridgetown e então basta um golpe de vista
largo para abrangel-a.
Á distancia Bridgetown semelha uma
pobre cidade deshabitada, sem indicio de
civilisação.
A surpreza que experimenta o viajante
é completa depois. Alguem que ahi
esteve annos antes admirou-se da enorme
quantidade de embarcações inglezas surtas no
porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados,
bonitos vasos que honram a Inglaterra
affirmando o grande poder maritimo desse paiz,
cuja esquadra ainda hoje não tem rival no
mundo.
Um dia e meio—eis todo o tempo de
nossa demora em Barbados, tempo sufficiente
para conhecermos a ilha a
vol
d'oiseau.
A população, na maior parte negra, é
composta de gente de baixa classe e geralmente
intratavel.
Abundam os
ciceroni, especie
curiosissima
de especuladores, que perseguem os
viajantes de uma maneira barbara. Querem,
á fina força, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e
não os largam emquanto não satisfazem a sua
ambição, cobrando, no fim de contas, certo
numero de
shillings.
Falam um
patois detestavel; ninguem
os
entende com facilidade. Imagine-se um pobre
diabo acompanhado d'uma multidão que grita
e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto
aos ouvidos:—
Came hear! came hear!
discutindo,
altercando-se de cacete em punho.
O misero julga-se por um momento transportado,
como por encanto, ás costas d'Africa,
fecha ouvidos á grita dos importunos
ciceroni,
brada mil vezes
no, no, no..., e
não tem remedio
senão deitar a correr como um possesso,
perseguido sempre pela turba multa de vadios,
até que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado,
offegante, pallido, embarafusta pela
porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado,
morto de cansaço!
E ainda por cima vociféra a legião faminta
dos negros!
Nao exagéro. Parece realmente um paiz
semi-barbaro aquelle, e ai! de nós si não
fossem os
policemen, a, activos e
energicos guardas
da vigilancia publica, que a um simples
franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a
medonha horda de capadocios, ou que melhor
nome tenham esses turbulentos demonios.
É espantosa a ambição do povo por
dinheiro.
Ao tilintar do
money surgem de
repente
vinte, trinta cabeças negras, cada qual
mais negra, disputando a posse do precioso
metal.
Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado
e já grande numero de pequenas
embarcações
á vela e a remos,—
fly
boats,—approximavam-se
do navio, cortando-lhe a prôa com
risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então,
de todos os lados vozes que gritavam:—
I am
pilot! I am pilot!
Embalde procuravamos persuadir áquelles
esfaimados de dinheiro que não precisavamos
de pratico, pois a bahia de Bridgetown é
bastante espaçosa e offerece entrada franca.
Davamos com o lenço, mandando-os embóra—que
não! mas os gritos repetiam-se:—
I
am pilot! I am pilot!
Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir
o navio extrangeiro
ao ancoradouro e
para isso exigiam um preço fabuloso.
Formidaveis importunos os taes negros de
Barbados!
A edificação de Bridgetown, puramente
ingleza, é curiosa, pittoresca mesmo, si bem
que uniforme.
As casas, baixas quasi todas, geometricamente
dispostas, alpendradas na frente,
simples e elegantes na sua architectura, são
confortaveis e convidam ao
far-niente.
As ruas, porém, estreitas e mal calçadas,
são, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia
do poeiral que sobe, como fumaça, ao
rosto dos transeuntes.
No que respeita a estabelecimentos importantes,
vimos a—
St. Leonard's School e uma
igreja-cemiterio.
A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar,
ergue-se, em bronze massiço, n'uma das melhores
praças do logar—
Nelson's
square, si
me não engano.
Os poucos hoteis que existem na ilha são
vastos e offerecem o necessario conforto ao
viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico
vinho, deliciosos
sorvetes—
ice-cream—e,
finalmente, boas camas e muito aceio.
O brazileiro que viaja, com raras excepções,
tem necessidade imprescindivel de duas
cousas que elle julga essenciaes ao seu bem
estar: café e cigarros.
Spleen e charutos—são
cousas inseparaveis
de um inglez da Inglaterra; café e cigarros—eis
o que um brazileiro não dispensa.
Infelizmente para nós, o café, tal qual se
prepara em Barbados, é um licor detestavel
composto de muito pó e pouca agua, que os
naturaes mixturam á guisa de chocolate, mas
de um sabor desagradavel, repugnante.
Duas linhas de bonds percorrem a capital
d'um extremo a outro.
A ilha é circumdada por uma via-ferrea.
De resto, é admiravel senão assombroso
o progresso d'essa colonia, relativamente
pequena e tão longe da metropole.
E, note-se, de vez em quando atravessam
aquellas regiões terriveis cyclones produzindo
estragos incalculaveis em toda a extensão da
ilha. Innumeras embarcações, algumas de
grande porte, têm sido arrojadas á costa por
esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu
em 1851 e figura nos annaes da navegação
como um dos grandes desastres maritimos
do Atlantico.
III
Na manhã do dia 13 suspendemos ancora
em direcção á ilha da Jamaica,
fundeando no
mesmo dia na bahia de Port-Royal.
Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze
alvissima, as altas montanhas que orlam magestosamente
a antiga colonia hespanhola.
Ao approximarmo-nos da pequena e elegante
cidade de Port-Royal, pedimos pratico
o qual nos levou á Kingston.
O brazileiro que, depois de longa ausencia
do Brazil, chega á Jamaica sente logo um
prazer especial, um fremito de patriotismo, ao
contemplar as soberbas montanhas da ilha,
tanto ellas lembram a natureza do nosso paiz.
A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de
verduras, verdadeiras ilhas fluctuantes, em
cujas aguas immoveis bandos de aves ribeirinhas
ostentam sua plumagem garrída e multicolor,
voando d'uma margem á outra n'uma
contradansa animada, offerece aspectos lindissimos.
Jamaica parece um pedaço do Brazil
transplantado para as Antilhas, tal a opulencia
da sua natureza.
É a maior e a mais florescente das colonias
inglezas da America depois de Barbados.
Mede approximadamente quarenta leguas de
comprimento.
Kingston não é uma cidade como Bridgetown,
onde a cada passo depara-se com uma
prova de adiantamento material. É, por assim
dizer, uma capital morta, quasi sem commercio,
mas, em compensação, muito mais
pittoresca que a capital de Barbados. Os
habitantes são morigerados, e uma paz religiosa
parece reinar no seio de cada familia.
Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente
o povo é mais educado, mais
pronunciado o instincto de civilisação.
Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier
Bower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon,
um dos principaes fundadores da—
Jamaica
Mutual Life Assurance Society, Sir Charles
Theophilus Metcaf, governador em 1845—todas
ao redor de um parque. Isso prova
quanto respeito infunde ao inglez o nome de
um compatriota celebre.
Um brazileiro estabelecido em Kingston
disse-nos ser o
Almirante Barroso o
primeiro
navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.
Nossa demora em Jamaica foi rapida como
em Barbados. Telegrammas officiaes do Rio
apressavam-nos cada vez mais. Já se havia
inaugurado a Exposição de Nova Orleans;
era-nos forçoso assistir ao menos o encerramento.
Estavamos convictos de que o cruzador
brazileiro ia figurar com brilho no importante
certamen americano. Tanto em Bridgetown
como em Kingston não lhe faltaram
elogios de pessoas competentes.
Todos anceavamos pela chegada ao paiz
maravilhoso dos
yankees, ao
berço da electricidade,
todos queriamos conhecer
de visu o
celebrado paiz das descobertas engenhosas.
Desde logo entrámos, de combinação, em
«serios» estudos do idioma inglez praticando
uns com os outros, compulsando manuaes de
conversação, decorando significados,
preparando-nos,
emfim, da melhor forma, para retribuir
gentilezas, captar amizades, responder a
todas as perguntas que nos fossem feitas á
queima roupa. Sim, porque tudo quanto
haviamos aprendido theorica e praticamente
na Escola, não era bastante. Faltava-nos a
facilidade, o traquejo da palavra extrangeira,
que haviamos de adquirir á força de vontade
e applicação assidua.
Alguns officiaes, entre os quaes o commandante,
riam-se do nosso apuro, e, de vez
em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta
em inglez. Quanto disparate, quanta
tolice a principio! O certo é que depois, com
o tempo, já nos entendiamos soffrivelmente.
Noblesse oblige...
IV
A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos
conquistado a sympathia. Todos sentimos
deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos
habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso
acolhimento. Lenços ascenavam para
bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas
da tarde de 21, despedindo-nos talvez para
sempre d'essa boa gente.
Durante os dias 22 e 23, mar e vento
rebellaram-se contra o navio.
Navegavamos á bolina, sempre á vela e a
vapor, amurados por bombordo.
Grandes rajadas frias sopravam do norte,
cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os
com violencia.
O thermometro baixara sensivelmente, e
a columna barometrica punha-nos calefrios...
O mar quebrava-se de encontro ás bochechas
do cruzador desafiando-lhe a resistencia
colossal.
Sabiamos que a latitude em que navegavamos,
nas Antilhas, era muito frequentada
pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos
navegantes, que arrastam em sua cauda milhares
de vidas. Receiavamos esses phenomenos
tanto mais porque os seus effeitos fazem-se
sentir a grandes distancias.
Os symptomas visiveis, si não eram evidentes,
approximavam-se das descripções de
navegantes experimentados. O céo estendia-se
limpo, como um largo pallio azul esbranquiçado;
apenas no horisonte fluctuavam pequenos
stratus em fórma de rabo
de gallo e
algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos
a attenção.
Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça,
com um disco azulado ao redor.
E crescia o mar em vagalhões medonhos
e esfusiava o vento no cordame.
O navio caturrava e arfava morosamente;
ouvia-se o barulho do helice trabalhando fóra
d'agua.
Pela madrugada de 24 lobrigámos por
boréste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito
branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo
do Mexico.
Poucos dias restavam para alcançarmos
Nova-Orleans.
E nada do supposto cyclone!
Por via de duvidas, como o tempo continuasse
borrascoso, ferrámos a maior parte do
panno, conservando apenas as gaveas risadas
nos
terceiros e a mezena de capa.
Capeámos tres dias consecutivos, sem que
apparecesse o medonho visitante.
No quinto dia o vento amainou rondando
para nordeste e o mar, por força das circumstancias,
tambem acalmou-se. Ferrámos o
resto do panno, navegando só a vapor.
A idéa da chegada preoccupava todos os
espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto
de todas as conversações.
Cedo tratou-se da limpeza do navio.
Cada qual tratou de si, de sua roupa, de
seus objectos que o mar sacudira de um lado a
outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam
o curioso aspecto de um campo de batalha;
malas confundiam-se umas sobre outras
formando empilhamentos, a roupa branca
usada andava de mixtura com os fatos novos
de panno; livros, papeis—tudo quanto era de
uso quotidiano estava espalhado no convéz,
como si andasse por ali alguma creança traquinas.
Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem
se fez esperar. Começaram as
arrumações,
uma faina açodada, durante a qual soaram boas
gargalhadas filhas de inalteravel bom humor.
Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa
n'um acanhadissimo compartimento que mal
os comportava. Ahi tinham suas camas, suas
malas, seus livros.
Quantos prejuizos! Quantas decepções!
E todos acocorados, arrumando e desarrumando,
n'uma confusão burlesca, maldiziam
o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e
Eolo nunca receberam tantas manifestações
desairosas. Pois não! Ninguem tem suas
cousas para vel-as de um dia para outro arruinadas,
inutilisadas pelos caprichos incoerciveis
do mar e do vento.
Finalmente, como nada ha melhor que um
dia depois de outro, veio o dia 29 de Março
em que dos váos do joanete de prôa o gageiro
annunciou—terra!
Continuava, entretanto, incessantemente,
a asáfama. A guarnição da bateria
occupava-se
da limpeza das peças, collocando-as em
posição, abrindo e fechando culatras, lixando-as,
lubrificando-as emquanto o fiel ia distribuindo
o cartuxame.
Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se
um vago odor de tintas, como ao entrar-se
n'uma casa nova, pintada de fresco.
Já era tempo de repousarmos das fadigas
da viagem.
V
Ninguem póde imaginar o que é a chegada
de um navio de guerra a porto extrangeiro
depois de uma tempestade ou mesmo
depois d'uma ameaça de temporal. A faina
tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É
de
ver-se a promptidão, a rapidez com que se
executam as ordens. Como que ha mais vontade
para o trabalho, desenvolve-se logo um
contagioso bem estar, ninguem foge ao serviço.
Tezar cabos de laborar, baldear o convez
a ficar alvo e polido, como uma sala de visitas,
limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem
relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a
capricho, cuidadosamente, de modo a confundil-o
com as vergas e os mastros, preparar os
escaleres—tudo isso é cousa d'um abrir e
fechar d'olhos.
A guarnição do
Almirante
Barroso, disciplinada
e obediente como todas as que serviam
sob as ordens do commandante Saldanha, primava
pelo aceio, pela ordem, pela destreza e
pela actividade. Não se lhe póde fazer maior
elogio. Cada marinheiro era como uma machina
prompta sempre ao menor impulso.
A chibata era n'esse tempo, como ainda
hoje o terror das guarnições da armada.
Sempre manifestei-me contra esse barbaro
castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir.
Um castigo de chibata é a cousa mais
revoltante que já tenho visto, mormente
quando é mandado applicar por authoridade
deshumana, sem noções do legitimo direito
que a cada homem assiste, quem quer que elle
seja soldado ou pariá.
O meu primeiro passo ao deixar a Escola e
envergar a farda de guarda-marinha foi publicar
um protesto contra essa pena infamante,
e fil-o desassombradamente, convicto mesmo
de que sobre mim ia cahir a odiosidade
de meus superiores em geral apologistas da
chibata.
A primeira vez que minha posição official
obrigou-me a assistir um desses castigos, tive
impetos de bradar com toda a força dos pulmões
contra semelhante attentado á natureza
humana.
Quem já assistiu uma d'essas pavorosas
scenas do eito, magistralmente descriptas por
Julio Ribeiro na sua obra
A Carne,
póde fazer
idéa do que seja o castigo da chibata.
Despir-se a meio corpo um pobre homem,
um servidor da patria, pés e mãos algemados,
muita vez depois de trez dias de
solitaria a
pão e agua, e descarregar-se-lhe sobre a
espinha, sobre as espaduas, sobre o peito,
sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o
corpo cincoenta, cem, duzentas chibatadas, em
presença de todos os seus companheiros, me
parece indigno d'uma geração que se
préza,
de uma sociedade de homens civilisados, de
cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente
galões dourados na farda—na farda,
que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo
e a honra d'uma nação.
Revoltei-me contra semelhante barbaridade
inquisitorial, como quem tem consciencia
de que está praticando uma acção justa
e honrosa.
Doía-me por um lado pertencer a uma
classe nobre por tantos titulos, é certo, mas em
cujo seio era permittido a chibata e, o que é
mais, o seu abuso.
A esse tempo a
Gazeta de Noticias do
Rio de Janeiro publicava semanalmente um
boletim litterario no louvavel intuito de estimular
os incipientes das letras. Offerecia-se-me
opportunidade para um conto maritimo,
cujo assumpto fosse a chibata.
Escusado é dizer que o meu artigo provocou
o despeito dos culpados indirectamente
feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei
satisfeito, como si tivesse sacudido para longe
um fardo pesadissimo; e, é preciso dizer, não
hesitei em declarar-me autor do conto que
vinha firmado por meu nome, então desconhecido
na armada.
Alguns de meus companheiros taxaram-me
de imprudente e
«indiscreto». Outros levaram
seus conselhos até á minha
inexperiencia
de adolescente indisciplinado.
Todo o mundo julgou-se com direito a
censurar meu procedimento: «que roupa suja
deixa-se ficar em casa; que a chibata era um
castigo imprescindivel», e outros arrasoados
soffrivelmente banaes.
Meu consolo é que d'entre aquelles que
preconisavam os effeitos prodigiosos da chibata
n'outros tempos, muitos concorreram em
demasia para a sua extincção.
Dei parabens á patria e á humanidade.
VI
Como militar e disciplinador o commandante
Saldanha da Gama distinguia-se por sua
inflexibilidade porventura exagerada, especialmente
para com as guarnições sob seu zeloso
commando. Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso,
sujeito a transições bruscas,
inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre
marinheiro, espirito eminentemente illustrado,
não sabia, entretanto, guardar a necessaria
calma quando devia applicar as penas do
codigo. Essas penas, como se sabe, acham-se
perfeitamente explicitas, precisamente formuladas
de modo a não deixar duvida nos espiritos
rectos e amigos da lei. Entre os artigos
que constituem o codigo penal militar existe
um que limita o numero de chibatadas, o qual
não deve, em caso algum, exceder de vinte e
cinco por dia.
Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas
vezes castigava conforme a lei.
Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis,
sua natureza rancorosa, sua vontade
suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em
mandar açoitar com duzentas chibatadas uma
praça qualquer, tal fosse o delicto commettido.
A um simples olhar seu as guarnições tremiam
como caniços. A qualidade caracteristica
d'esse illustre official era ser arbitrario e
prepotente. Por isso a guarnição do
Almirante
Barroso corria a seus postos, em occasião
de manobra, com a velocidade d'uma
setta.
Estavamos quasi á entrada do Mississipe,
a grande arteria fluvial da America do Norte,
que nós imaginavamos um colosso talvez superior
em volume d'agua ao Amazonas,—o Mississipe,
decantado pelo autor dos
Natchez, e
em cujas margens fica a cidade de Nova
Orleans nosso ponto de chegada.
Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro
para só se lembrar de Nova Orleans, a
Cidade
Crescente, como a denominam os americanos.
Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações
á vela e vapores bordejavam fóra
da barra á espera de pratico, sem o qual era
impossivel a entrada. Mar calmo, com uma
côr esbranquiçada, lembrando na sua
quietação
dormente um vasto lago estagnado. Em
frente, muito longe ainda, mal distinguiamos
com o binoculo o pharol, microscopica torre
branca, invisivel quasi.
Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados
até o pescoço ao abrigo do frio que se
tornava insupportavel para nós da zona torrida,
de pé no tombadilho, machina a um quarto de
força, bandeira nacional desfraldada na carangueja
do mastro de ré, esperavamos tambem o
pilot que nos devia conduzir
á Nova Orleans,
110 milhas da foz do Mississipe.
O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos
a grande corrente.
Não tardou muito o pratico, por cujo
intermedio tivemos noticia da estrondosa
manifestação
com que os
habitantes da cidade
americana aguardavam a chegada do cruzador
brazileiro.
Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo
entre os noveis officiaes.
Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo
Mississipe a anciedade a bordo tocou o seu
auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar
as embarcações que, dizia-se, vinham nos
receber.
O autor d'estas simples notas de viagem,
que admira os Estados-Unidos como uma
segunda patria, porque ali moram juntas todas
as liberdades e florescem prodigiosamente
todas as nobres idéas civilisadas, de braços
cruzados estendia o olhar cheio de admiração,
cheio de deslumbramento por cima das extensas
planicies das margens do grande rio.
O pôr do sol entre a neblina que cobria
os horisontes fazia lembrar as paginas de
Chateaubriand na sua
Voyage en
Amérique,
paginas esculpturaes e cheias da commovida
nostalgia dos que se vão da patria...
Quanta verdade nas sumptuosas descripções
do poeta! Quanta
poesia n'aquellas
paragens desertas da foz do Mississipe,—Sahara
de neve estendendo-se a perder de vista nos
horisontes sem fim! Que de maravilhas occultavam-se
por traz d'aquellas planicies, lá onde
o olhar não attingia!
Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil,
dos sertões de minha terra natal, da torresinha
branca do Senhor do Bomfim badalando o
terço
das almas, justamente aquella hora, quando as
boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancolicas...
Ave-Marias!... Mesmo quando não se é
crente, áquella hora da tarde o
coração fica
cheio de não sei que terna e piedosa
uncção
mystica...
Fundeámos no ponto em que o rio se
divide em dois braços ou pequenos confluentes,
e ahi passámos a noite inteira, essa longa
e tristissima noite de inverno.
Frio de rachar. As aguas do rio, pardas
e barrentas, estavam quasi geladas.
As margens do Mississipe, em varios pontos,
são, no inverno, verdadeiras planicies, onde
apenas medra a herva rasteira. Á distancia,
pobre alma perdida no descampado, ergue-se
ás vezes uma arvore muito esguia, como um
phantasma de braços abertos para o céo. De
quando em quando atravessa a solidão uma
ave desconhecida batendo as azas, como um
agouro.
N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos
pastando silenciosamente, plantações verdejantes,
casas de campo, postes de correio, em
cujas portas destacam-se em caracteres maiusculos
as palavras—
Post office.
O povo parece viver satisfeito no meio
de suas plantações e de seu gado, entregue
á
cultura e á creação.
Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda
a noite. «—Caramba! exclamava o barbeiro de
bordo, um estimavel hespanhol que traziamos
do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por
mosquitos me gustam mas los del Brasil!»
E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos
do Mississipe são muito capazes de dar
cabo d'um pobre homem. E que medonha
orchestração nos ouvidos da gente?
Felizmente na manhã do dia seguinte
levantámos ferro.
O navio estava completamente prompto a
fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante
quasi toda a noite a guarnição occupara-se em
colher cabos, esfregar a amurada e baldear o
costado.
Como passatempo liamos os jornaes que
o pratico trouxera, os quaes noticiavam a
recepção
popular e official que se nos preparava.
Dois hiates a vapor—o
Cora e o
Pansy—propriedade
de Mr. Morris, largariam de Nova
Orleans a nosso encontro, embandeirados,
com bandas de musica, commissões de senhoras,
representantes do commercio e d'outras
classes sociaes.
Ou fosse a natural affinidade que existe
entre as duas nações americanas, ou fosse o
facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um
representante da familia imperial do Brazil, o
certo é que durante nossa travessia da foz do
Mississipe á cidade fomos con
Ou fosse a natural affinidade que existe
entre as duas nações americanas, ou fosse o
facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um
representante da familia imperial do Brazil, o
certo é que durante nossa travessia da foz do
Mississipe á cidade fomos constantemente saudados
de ambas as margens do rio a tiros de
espingarda e a lenços que nos acenavam de
longe.
E o
Almirante seguia devagar, alvo
de
mil olhares curiosos.
Ao meio-dia ouvimos as notas de uma
musica alegre que se approximava, e em breve
surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos
hiates—o
Cora e o
Pancy—apinhados
de gente, enfeitados de galhardetes de côres
variadas, em cujos mastros tremulavam as duas
bandeiras amigas.
De ambos os lados, no cruzador e nos
hiates, hurrahs confundiam-se no ar.
Em viva effusão de inexprimivel jubilo
patriotico estreitavam-se as duas grandes potencias
da America; a mesma brisa balouçava
simultaneamente os dois gloriosos pavilhões.
A gente do
Barroso subiu
ás vergas accelerada,
e, acenando com os lenços e os bonés,
saudava com vivas estrepitosos e delirantes
acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo
tempo que das duas embarcações partiam
ruidosas manifestações ao Brazil.
Fardada em segundo uniforme, espada
e dragonas, a officialidade do cruzador brazileiro,
em pé no tombadilho, vivamente commovida,
descobria-se a todo instante risonha e
feliz.
Sentiamos a falta de uma banda de musica
bem organisada, que n'aquelle momento, verdadeiramente
solemne, entoasse o hymno da
republica a bordo.
Passado o primeiro momento de delirio,
approximaram-se os dois hiates que nos acompanhavam
e o cruzador diminuiu a marcha.
Ficámos borda á borda. N'um instante toda
aquella gente que vinha nos vaporesinhos,
passou para o
Barroso.
Houve um silencio respeitoso de parte a
parte e começaram os abraços.
O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador
de Mendonça, tão conhecido entre nós
por seu
talento e por sua illustração, como homem de
letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis,
consul em Nova-Orleans, foram recebidos no
portaló pelo commandante e officiaes com
todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se
os representantes
da imprensa, do
commercio, etc.
Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se
entre brazileiros e americanos uma
camaradagem franca, uma corrente communicativa
de affabilidades, como si já fossemos
conhecidos velhos. As taças de
champagne
chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se
toasts ás duas
nações, trocavam-se os
mais espontaneos comprimentos.
A viagem continuou ao som da musica do
Cora e do
Pansy.
Ás 4 horas da tarde largámos ferro
defronte da antiga capital da Luiziania.