VII
Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante
do sul dos Estados-Unidos.
Nosso primeiro cuidado, como era natural
foi desembarcar, «ir á terra», ceiar bem
e
dormir tranquillamente um somno bom e reparador.
Nao nos faltariam esplendidos hoteis
e magnificos
rooms onde podessemos,
á vontade,
descansar dos trabalhos da viagem.
Nossa demora devia prolongar-se ahi mais
do que em qualquer outro porto, por causa
da Exposição e a instancias dos habitantes
da cidade, que nos preparavam deliciosas
surprezas.
Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans,
para observar os costumes americanos
e fazer um juizo mais ou menos approximado
d'aquelle bello povo.
O porto estava atulhado de barcas de
commercio—vastas embarcações de dois e trez
pavimentos, duas e trez chaminés negras a
deitar fumaça n'uma actividade constante,
rodas na pôpa, muito mais amplas que as
nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas
de saccas de algodão e outros generos
do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar
de se fazerem ao largo.
Emquanto esperavamos, vivamente anciosos,
o escaler que nos devia conduzir ao caes,
assestavamos o oculo para a cidade quasi
silenciosa áquella hora, e cujas ruas não
tardariamos
a conhecer. Accendiam-se os primeiros
bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja
remota, badalava um sino triste. Já não
se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas
embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos
guinchos de locomotivas e o surdo ruido
de carros que ainda labutavam.
Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando
o dia immediato para mais commodamente satisfazerem sua curiosidade de
viajantes em terra extrangeira.
entrada
de nova-orléans
Era fim de inverno. Ameaçava chover.
O frio continuava bastante forte ainda e os
camarotes do
Barroso offereciam,
nessas condições,
agasalho confortavel aos mais friorentos.
Na manhã seguinte, grupos de officiaes
brazileiros, uns fardados, outros á paisana,
percorriam Nova-Orleans.
O
St. Charles Hotel, um dos melhores
estabelecimentos da cidade, e o
Royal
Hotel—primeiro
em luxo e ornamentação—eram procurados
avidamente.
Os jornaes davam noticias circumstanciadas
de nossa chegada e annunciavam festas
em homenagem ao Brazil.
Uma vez installados nos hoteis, cada um
de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava,
tão differente dos estreitos camarotes de
bordo, dividimo-nos em grupos.
Quanto a mim, o meu primeiro cuidado
foi munir-me de um guia da cidade, especie
de
pocket-book muito commodo,
registrando
indicações uteis de estabelecimentos e logares
principaes.
Meu quarto ficava no segundo andar do
St. Charles Hotel com frente para a
rua do
mesmo nome—uma saleta mobiliada com
a maxima sobriedade, sem luxuosas decorações,
contendo apenas os moveis indispensaveis
a um rapaz solteiro, e o fogão a um
canto.
Depois de magnifico banho morno em
bacia de marmore (perdôem-se-me estas innocentes
confidencias, aliás de bom gosto)
seguido de um valente almoço de ostras crúas,
as melhores que eu tenho provado, regadas á
Sauterne, mastigando (é o termo, porque não
sou lá muito admirador de charutos) mastigando
um charuto, que não sei bem si era de
Havana, sahi a fazer meu primeiro passeio,
minha
promenade matinal,
começando pela
Canal Street, a rua mais importante de Nova
Orleans, que a divide em dois grandes bairros—o
francez e o hespanhol.
No cruzamento das ruas de St.
No cruzamento das ruas de St. Charles e
Canal erguia-se a estatua de Clay. É esse o
ponto principal da cidade e o de maior movimento
nos dias uteis.
Parei defronte do monumento e consultei
meu alcorão, quero dizer meu guia manual.
«
Estatua de
Clay—Inaugurada solemnemente
no dia 12 de Abril de 1860. Joêl T.
Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e
proporções á estatua, assistiu ao
acto. O
orador official foi Wen H. Hemt.».
Maldito laconismo! Pouco adiantei com
as explicações do livrinho.
A estatua é de bronze, sobre pedestal de
marmore, e mede, approximadamente, quinze
pés inglezes de altura.
—Continuam as estatuas! exclamei recordando
as que vira em Barbados e Jamaica.
Felizmente até agora não vira a de nenhum
monarcha. Veio-me então á memoria aquella
colossal massa de bronze que se ergue no largo
do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um
monarcha escanchado n'um bello cavallo.
Tive pena de não ser aquelle bronze
aproveitado para outra cousa mais digna e
util.
—Que diabo!
Aquillo é uma pagina de
historia patria, reflecti.—E continuei o meu
tour.
A Canal Street é o centro commercial de
Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor d'aquella
cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso
querido becco.
Larga, bastante espaçosa e comprida,
offerece transitos especiaes para a população,
para trens, bondes e carruagens.
As ruas, na maior parte são mal calçadas,
principalmente para o interior da cidade.
É, sem duvida, admiravel semelhante incuria
em se tratando de americanos do norte,
entretanto, é uma verdade que não deve ser
esquecida,
para consolo de nossas municipalidades.
Na Canal se acham os melhores e mais
solidos edificios, as mais fortes casas commerciaes,
os mais importantes armazens da cidade,
cafés, restaurantes, clubs, etc.
Convenci-me desde logo que os principaes
productos industriaes de exportação
eram—assucar e algodão, como bem presumira
ao desembarcar, no
caes, onde era enorme
a accumulação de fardos desses dois generos.
De vitrine em vitrine, observando sempre,
escrupulosamente, curiosamente, á cata de novidades
extrangeiras, posso affirmar que nada
vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas
caixeiras accudirem pressurosas e desenvoltas,
com o desembaraço proprio de sua raça,
aos compradores, cousa aliás muito simples,
muitissimo natural, mas não no Brazil, onde
as senhoras estão eternamente prohibidas de
competir com o outro sexo na vida publica.
Parece-me que só n'este paiz ainda não se
observa nem se permitte esse costume tão natural,
tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras
pobres empregarem-se no commercio
a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na Allemanha,
na Italia e nos Estados-Unidos é habito
velho, ao que me consta, as senhoras servirem
nos balcões, e é de notar que cumprem seus
deveres com assombrosa pericia. Ás nove
horas da manhã, que digo eu! ás seis horas,
depois de ligeira refeição, encaminham-se para
o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas
em grossas capas de
lã no inverno, a
bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar.
Vão direitinhas de casa para a loja ou
escriptorio, sem que ninguem lhes dirija uma
pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á
noite, recolhem-se da mesma fórma, sempre
alegres, transpirando saúde, a face rubra.
Muitas vezes sahem das lojas, mudam a
toilette, fazem seu penteado,
perfeitamente
dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos
concertos, nos theatros.
Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria
onde se não encontra uma senhora
exercendo as funcções de simples caxeira,
ou como guarda-livros, silenciosa na sua
carteira, escripturando cuidadosamente o
Caixa.
Em alguns estabelecimentos publicos, no
Correio, por exemplo, grande parte do serviço
é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o
de passagem, na rua Canal, é de apparencia
extraordinariamente simples e desgraciosa. O
serviço, porém, como em toda
estação americana
é correcto e sem demora.
Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se
na grande rua.
Em Nova Orleans, como em quasi toda a
a Luiziania, fala-se mais o francez que outro
idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se
negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia
falar, embora mediocremente, o hespanhol.
Havia chegado o momento fatal, inevitavel,
de nos exhibirmos tambem em lingua alheia.
Pouco a pouco, nos iamos familiarisando
com a população e com o ídioma d'esse
adoravel
canto da terra que o Mississipe banha.
O dia seguinte ao de nossa chegada á
Nova Orleans (31 de Março) estava designado
para o encerramento da Exposição das Trez
Americas. Avisados d'esta solemnidade, deviamos
comparecer a ella em grande uniforme,
encorporados.
Foi um dia essencialmente brazileiro esse.
Nos convites para a festividade lia-se esta
impagavel gentilesa:
Brasilian day.
Todas as attenções convergiam para o
Almirante Barroso (brazilian man of
war).
br />
O palacio da Exposição estava situado a
alguns kilometros fóra da cidade, n'um de seus
pontos mais pittorescos, o Upper City Park,
á margem do Mississipe—largo edificio vistosamente
adornado e do alto do qual se avistava
toda a cidade e immediações.
Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso
e coberto de nevoeiro, embarcámos em trem
especial, que nos fôra destinado pelo presidente
da Exposição, Mr. Ed. Richardson, um
yankee muito amavel, todo cortesia,
sempre
com um bello e espontaneo sorriso a captivar a
gente, correcto sempre, irreprehensivelmente
correcto.
Embarcámos na Canal street, defronte do
Pickwick Club, em companhia de
muitos officiaes
da Guarda Nacional, de Mr. Richardson
e de officiaes da corveta franceza
l'Étoile, que
se achava no porto de Nova Orleans, dos
consules e outras summidades do paiz.
O trem abalou como um raio, todo enfeitado
de bandeirolas americanas, brazileiras e
d'outras nações, ao som de musicas e
acclamações
delirantes, rasgando, na sua marcha
vertiginosa, o nevoeiro que cahia sem cessar
penetrando os wagons escancarados ao ar frio
da manhã, soltando guinchos medonhos...
Durante o trajecto não me cansei de
observar os sitios que o trem atravessava.
De um lado e d'outro da linha estendiam-se
vastas plantações de algodoeiros desfolhados
pelo rigor do inverno, amontoados
de neve, immoveis phantasmas brancos no
silencio infinito dos descampados; casas de
campo deliciosas para se passar o verão, trancadas
á neve, muito brancas e desoladas, riam,
como saudando a nossa passagem, e desappareciam
rapidamente no horisonte esfumado.
É de vêr a simplicidade reunida á
graça
que apresentam essas habitações: vêr
uma é
vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura.
Em geral são de madeira, pintadas de
branco e cinzento, com seu terraço para as
calidas noites de verão, jardim e horta arranjados
com admiravel cuidado e bom gosto.
Absorvido completamente pelo aspecto
variado da paisagem, sem prestar attenção ao
circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me
bem) formava planos de vida socegada, n'algum
eremiterio entre a eterna frescura das plantas
e o amor eterno d'uma creatura querida.
Invejava os simples, os sertanejos, os homens
dos campo—esses para quem a vida
corre sempre calma, porque seu coração
não
conhece outro amor senão o da esposa e o dos
filhos, esses de quem Boileau dizia
Heureux est le mortel qui du
mond ignoré
Vit content de soi même en un coin
retiré...
E eu me transportava outra vez ao Brazil,
outra vez eu tinha a nostalgia da patria, a
saudade vaga e inexplicavel de minha terra
natal.
Parecerá uma phantasia de poeta adolescente
isto que acabo de dizer, mas é a verdade,
a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar
a região que ia ter lá, ao palacio da
Exposição.
A tristeza da neve communicava-se ao meu
espirito imprimindo n'elle não sei que despretenciosas
ambições de silencio e recolhimento.
Alguem já procurou explicar a influencia que
exerce o estado hygrometrico da atmosphera
no estado psychologico do individuo.
Eu de mim só sei que o patriotismo, longe
da patria, dupplica.
E fechemos esta especie de parenthesis.
Uma commissão de cavalheiros, competentemente
encasacados, veio receber-nos ao
desembarque.
Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente
triumphal.
Dentro e fóra do edificio era grande a
agitação.
Ondas de povo entravam e sahiam
percorrendo o pittoresco
Upper City
Park.
Felizmente «levantou o tempo», como se
costuma dizer.
Ao assomar á porta do grande salão de
honra o primeiro official brazileiro, o commandante
do
Barroso, ao lado do consul e do
presidente da Exposição, a orchestra de
professores,
brilhantemente organisada, rompeu lá
dentro o hymno nacional americano (não conheciam
o nosso hymno aliás tão vulgarisado),
os espectadores que enchiam o vasto recinto
ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas
acolheu o resto da officialidade.
Houve um momento de verdadeiro delirio,
em que todos batiam palmas sem interrupção
levantando vivas ao Brazil.
Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo
indescriptivel, apopletico, tomou a palavra
Mr. Richardson, que proferio o discurso de
encerramento, saudando a armada brazileira.
Seguiu-se na tribuna o orador official,
que, n'um improviso eloquentissimo, patenteou
a necessidade de uma união entre todas as
nações americanas, desenvolvendo largamente
as vantagens que d'ahi proveriam a todas elas.
Falou tambem o governador da Luiziania,
e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça
e Saldanha da Gama, cujas palavras foram
cobertas dos mais significativos applausos.
Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos
franqueado o edificio da Exposição, que
percorremos
examinando com interesse os differentes
pavilhões industriaes.
O Brazil—é triste dizel-o—fizera-se representar
de modo bem insignificante.
Brilhariamos pela ausencia, si o Governo
não tivesse a lembrança de mandar o
Almirante
Barroso.
Amostras de madeiras, café em grão,
fumo, artigos de borracha, constituiam os principaes
productos brazileiros expostos á curiosidade
dos visitantes de quasi todas as
partes do mundo civilisado. O pavilhão do
Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos
das outras nações, como si fossemos um
pobre paiz, cujos productos não valessem a
pena de ser expostos n'um certamen internacional!
D'ahi, talvez, o assombro dos americanos
ao verem o
Almirante Barroso, esse
esplendido
vaso de guerra de envergadura possante,
capaz de resistir aos mais fortes temporaes e
que elles, os extrangeiros, duvidavam fosse
obra nossa.
—Como? Pois no Brazil tambem se fabricam
navios de guerra? Está muito adiantado
o Brazil!
E repetiam com um ar de duvida e de
ironia medindo d'alto a baixo e de pôpa á
prôa
o magestoso cruzador, que balouçava de leve
sobre o Mississipe:
—Está muito adiantado o Brazil!
Entretanto o Mexico, a America Central
e as republicas sul-americanas, sem os recursos
invejaveis da grande nação, sobresahiam
admiravelmente. O pavilhão do Mexico,
sobretudo, desafiava a maior parte dos outros
não só em abundancia de artigos, mas,
principalmente,
em belleza e bom gosto, em elegancia
e riqueza.
Escusado, parece, falar do importante logar
que coube aos Estados-Unidos. Que profusão
de machinas e instrumentos industriaes de
invenção
puramente americana! Ali mesmo, á
vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos
objectos de fantasia e de uso domestico;
o linho, o algodão, a sêda—eram tecidos
rapidamente
aos olhos de todos.
Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a
movimentação que devia reinar ali dentro
d'aquelle immenso edificio, certamente muito
longe de ser comparado aos palacios de
exposições universaes, mas ainda assim um
dos maiores que se tem levantado n'esse
genero.
Para dar uma idéa de suas
dimensões—não
o chamaremos vaticano da industria para
não exagerar—basta dizer que o salão de
musica—
music hall—accommodava
11.000
pessoas, inclusive uma vasta área para 600
figuras.
Impossivel descrever as amabilidades, as
gentilezas que nos foram prodigalisadas largamente
pelas adoraveis americanas de Nova
Orleans nessa festa democratica de
confraternisação
internacional; recordar as phrases
deliciosas, os galanteios irresistiveis...
O que posso affirmar é que o
brazilian
day
ha de perdurar por muito tempo no coração
d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir
essa bellissima festa.
Dias depois voltei ao palacio da
Exposição,
sosinho, como simples curioso que não tivera
tempo bastante para examinar tudo no pequeno
espaço de doze horas.
Nada mais restava senão o esqueleto nú do
edificio em via de demolição. Todos os objectos
tinham sido retirados com assombrosa rapidez.
Operarios em mangas de camisa martellavam
grandes caixões, assobiando monotonamente,
emquanto outros carregavam pesados volumes
contendo os ultimos especimens da industria
americana.
Voltei immediatamente com um ar compungido
de quem acaba de acompanhar um
enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando
de mim para mim:
—Ah! americanos d'uma figa, sois um
povo excepcional!
Agora uma pergunta ingenua: Porque é
que o Brazil, com os numerosos recursos que
tem á mão, timbra em occupar logar segundario
em quasi todas as Exposições a que concorre?
Indifferença, talvez, simples indifferença
de nossos governos.
Na celebre Exposição de Philadelphia
não
sabiamos á ultima hora como e onde accomodar
os productos deste paiz, em consequencia
de não ter o governo mandado construir um
pavilhão especial.
Contentamo-nos em enviar objectos bastante
conhecidos,
não fazemos
selecção na
escolha d'elles, não nos importa o modo como
devam ser acondicionados.
Na Exposição de Vienna ainda o Brazil
teve de occupar logar pouco lisongeiro, e si
alguns de seus productos principaes tiveram
a felicidade de ser premiados foi isso devido,
não ao governo, mas tão somente a
esforços
de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do
Pará.
Annuncia-se para o anno vindouro uma
Universal Great Exhibition, nos
Estados-Unidos,
cujo successo irá rivalisar, talvez, com o
da Exposição Universal realisada ha mezes em
Pariz e notavel pela colossal e tão celebre
torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que
a grande nação da America do Sul, o Brazil,
não se faça representar com todo o brilho de
sua incontestavel riqueza.
Agora que somos republica, torna-se dupplamente
preciso que patenteemos ao mundo
inteiro a infinita variedade de nossas produções
agricolas, a opulencia invejavel da
flora brazileira e da industria já bastante adiantada
d'este bellissimo
paiz, cuja natureza
extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros
sabios da Europa.
Si cada Estado souber cumprir seu dever
não poupando esforços para esse nobilissimo
fim, certo d'esta vez não teremos que corar
perante as outras nações como nos tempos do
anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.
VIII
A grande Exposição Industrial de Nova
Orleans prolongou-se até ao
Almirante
Barroso.
O bello cruzador brazileiro começou
desde logo a ser o alvo dos curiosos de
todas as nações ali representadas.
Comprehende-se o vivo interesse do povo
em assumptos d'esta ordem.
Não havia na cidade quem não soubesse
que estava no porto um navio de guerra do
Brazil, e este facto por si só era bastante para
que toda a gente ardesse em desejo de vel-o de
perto, de o percorrer d'um extremo a outro.
—Quantos canhões traz? perguntava-se.
A machina quantas milhas vence por hora?
Quantas rotações por minuto?
E quando affirmavamos que a machina do
Barroso era de ferro Ipanema e
d'outros
metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa
á prôa, era construcção
inteiramente nacional,
subia de ponto a surpreza dos nossos visinhos.
O quê! No Brazil já se constroem navios
de guerra?—
It is impossible!... E
toda a população,
tomada de um quasi espanto, duvidando,
talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes.
Todo o cruzador, desde a camara do commandante
até ao alojamento dos marinheiros,
desde o tombadilho até ao porão, foi exposto
á
curiosidade publica.
O sexo gentil, com especialidade, repetia
suas visitas.
Desde ás oito horas da manhã, ao
içar-se
a bandeira, começavam a atracar lanchas a
vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos
os sexos.
Grandes lanchas iam e vinham do caes
para o cruzador e do cruzador
para o caes,
continuamente, incessantemente, apinhadas de
passageiros, que pagavam 5 centimos de ida e
volta. Cada uma trazia á prôa, em letras
esparramadas e vivas, a senha:—
Brazilian
man of war.
Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora
de receber familias e percorrer duas, tres
e mais vezes o navio, dando explicações,
descrevendo
apparelhos e machinismos com uma
paciencia de pedagogos, iamos á terra, distrahir
nos cafés, nos theatros, nos bailes,
tanto mais quanto multiplicavam-se os convites
para todas as diversões publicas e familiares.
As familias com que iamos entretendo
relações de amizade exigiam que fossemos
quotidianamente a suas casas, como si nos
sobrasse tempo para isso; e, força é confessar,
dispensavam-nos um tratamento quasi paternal.
A melhor de todas as recepções que tivemos,
não obstante o caracter official que a
revestia, foi a do Governador da Luiziania,
esplendido baile no
Royal Hotel, no
dia 8 de, no
dia 8 de
Abril, ao qual compareceram todas as autoridades
civis e militares da cidade em uniforme
de gala.
A casaca, o clak, a gravata de sêda
branca, o vestido decotado até aonde permitte
a decencia, confundiam-se nos salões
do hotel ricamente adornados, cheios de luz,
escancarados de par em par como um palacio
em festa.
A joven officialidade brazileira, eximia
em
cotillons, expandiu-se a valer
n'essa magnifica
soirée de inverno, fria e
clara, constellada
de botões d'ouro e brilhante, longe da
patria, longe de suas familias, mas no seio
d'um povo que nos amava devéras.
Saráo principesco esse de que ainda sinto
o saibo exquisito ao traçar as reminiscencias
da minha primeira ausencia do Brazil.
Mesa abundantissima e franca, desde a
deliciosa sôpa d'ostras com molho inglez á
mais fina champagne Clicot, com escala pela
mayonnaise de lagosta, fresca e
picante, pelo
succulento
poisson à
l'itallienne, rubro e apettitoso...
e tantos, meu Deus, e tantissimos
outros pratos maravilhosos
inventados
pela
gula epicurista de todas as gerações desde
Luculo até á nossa.
Volvemos para bordo seria madrugadinha,
tropegos, cansados e somnolentos, palpebras
cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro,
dentro de nossas inviolaveis capas da
Bretanha.
Uma noite brazileira com todos os excessos
da nossa educação e do nosso caracter;
saudosa noite, a primeira de minha vida em
que me enfronhei n'uma casaca irreprehensivelmente
bem feita...
O
Barroso, diluído na
escuridão da noite,
aproado á correnteza que descia rio abaixo
cantando uma melopéa de lenda, o
Barroso—pedaço
da patria longinqua—acenava-nos
com a sua luzinha amarella palpitando ás rajadas
do vento frio.
... E os bailes repetiam-se e nós
viviamos
cercados da alegria communicativa d'esse povo
americano eternamente jovial!
Falemos ainda das mulheres de Nova
Orleans.
Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes,
cheias d'uma inexcedivel graça que arrebata e
seduz voluptuosamente.
As
créoles, ah! as
créoles... ninguem as
vê que não as fique desejando.
Caracteres principaes: tez morena, com
uns tons de rosa na face, olhos muito negros,
criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas,
delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto
meigo e melancolico, muito sensiveis...
A vaga expressão de seu olhar avelludado
derrama não sei que mysterioso fluido, cujos
effeitos traduzem-se em voluptuosas sensações,
secretos desejos de posse absoluta...
Como differem as chamadas
créoles das
verdadeiras americanas!
Estas—muito rubras, cabello côr de ouro,
olhos azues—são frias, quasi indifferentes
ao amor, egoistas de sua belleza de estatua,
vivendo para o trabalho e para a familia;
aquellas—adoraveis com as suas linhas ideaes,
com a vaga e communicativa melancolia de
seu olhar voluptuoso—fazem lembrar um povo
mystico e cheio de bondade d'algum paiz
nebuloso e desconhecido...
É curiosa a origem da população
créole
de Nova Orleans. Ella descende na maior
parte de aventureiros canadaenses e
courreurs
des bois—gente ousada e valente, que emigrou
do norte para o sul da America septentrional,
por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados
de selvagens perigosissimos. Esses
aventureiros chegaram a Luiziania sem familias,
depois de uma viagem cheia de trabalhos
e fadigas, descansando, por fim, ás margens do
Mississipe. A Luiziania era então colonia
franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos
infelizes immigrantes, que viviam solteiros,
longe de sua patria natal, sujeitos a uma
castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os
para a colonisação. N'esse intuito mandou
vir de Paris um
carregamento de
mulheres,
prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a
Nova-Orleans em ferros, e onde foram postas
em liberdade e entregues á concupiscencia
da população masculina.
Isso, porem, não trazia vantagens á
colonia, que precisava de gente. Os canadaenses
satisfaziam seus apetites carnaes
sem que augmentasse o numero de habitantes—facto
este que não passou despercebido ao
directorio da Companhia da Luiziania, cujo
principal interesse era a multiplicação das
almas.
N'estas condições foram dadas outras
providencias,
e, em 1728, chegou a Nova-Orleans
um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania
historica pelas
filles de la
cassette ou
casket girls, mandadas pelo rei para
o convento
das Ursulinas afim de se casarem licitamente.
A experiencia foi coroada de successos. Em
breve tempo começou a crescer a colonia e os
descendentes da
cassette tinham
orgulho em
o serem.
Tal foi a origem humilde dos primeiros
filhos nativos da Luiziania.
Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense
e sangue francez.
A mulher americana do norte é geralmente
bem educada. Muitas vimos em Nova-Orleans,
que conheciam e falavam dois, tres idiomas,
alem do vernaculo.
Preoccupam-se pouco com bailes e modas,
trajam com simplicidade e elegancia, sem
affectação, sem a natural
coquetterie da mulher
parisiense. Seu divertimento predilecto é a
musica.
O proverbial desembaraço das americanas
manifesta-se a todo instante. Promptas sempre
a repellir com dignidade um ataque á sua
honestidade, ellas se dirigem aos homens em
qualquer parte, na rua ou nos salões, com a
mesma simplicidade com que o fazem ás amigas.
O respeito entre os dois sexos, nas
classes superiores, é um dos principaes caracteres
do povo americano. Habituados, homens
e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns
e outros em commun desde creança, as americanas
não se confundem nunca diante dos
homens.
Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado
como em parte alguma.
Os paes depositam confiança illimitada
nas filhas. Deixam, sem escrupulo, que
ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só
ou em companhia de um amigo da casa, na
certeza de que ellas saberão zelar a sua castidade.
Os raptos e os defloramentos são raros, não
sei si devido ao temperamento da raça ou si á
inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si um
rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente
honesta, não tem mais do que
namoral-a escandalosamente ás barbas de quem
quer que seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a
sem ceremonia, como si fossem irmãos, e, d'ahi
a pouco, eil-os casadinhos de fresco,
bras
dessus, bras dessous.
E ai! d'aquelle que violar os preceitos
decretados pelo governo! Immediatamente
vê-se dentro d'este triangulo medonho: o
casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel
e a policia exerce uma vigilancia sem
igual.
Informados de taes particularidades do
caracter americano, nós, brazileiros, pusemos
um dique ao nosso temperamento de meridionaes,
evitando o mais possivel os compromissos
amorosos, as manifestações de sympathia
por essas adoraveis
ladies, que, a
falar
verdade, inflingiam-nos os maiores supplicios
com o maravilhoso poder de suas qualidades
physicas.
Tantalos do coração, eramos obrigados a
conter os impetos ferozes da carne que nos
aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio
das louras
miss e das ternas
créoles.
Estão verdes, não
prestam—era a nossa
divisa e d'est'arte escapavamos sempre aos
ataques de tão perigoso inimigo...
IX
O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão
chronologica) estava destinado pelo commandante
do
Barroso para uma
excursão fluvial,
scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos
observar
de visu os importantes
trabalhos
hydraulicos, que ahi se procediam sob a intelligente
direcção do notavel engenheiro americano
Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitavel, encanecido
no serviço da engenharia, e cujo
nome
está ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.
Ás onze horas da noite a barca de passeio
Keokuk largou de Nova Orleans, rio
abaixo,
conduzindo a turma de guardas-marinha,
alguns officiaes e o commandante, com destino
ás
Jetties.
Uma excellente embarcação a
Keokuk,
especie de pequena cidade fluctuante, muito
larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões
aos vapores da Companhia Brazileira.
Tres pavimentos: o superior, coberto por um
grande toldo, onde os passageiros podiam
fumar á vontade; o do meio formando um
salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os
camarotes e o porão, para mercadorias; rodas
á pôpa, systema de locomoção
que não conheciamos;
duas chaminés, e machina possante.
Em semelhantes condições eramos
capazes de fazer a
volta do mundo em oitenta
dias...
Passámos a noite sobre o rio, navegando
á meia força, ao sabor da correnteza.
Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos!
Preparámo-nos para dar quixotesca
batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso
querido companheiro, o barbeiro de Sevilha,
quero dizer o barbeiro de bordo, o impagavel
hespanhol que tanto nos divertira na caça aos
mosquitos.
Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads,
defronte do
escriptorio central do respeitavel
engenheiro.
Café, biscoitos..., e desembarcámos.
O bom velho já nos esperava com o seu
bello ar de urso domestico, barba muito
branca, de barrete e oculos, entre os seus
mappas coloridos e os seus prospectos representando
steamers e as
jetties.
—Folgo bastante em lhes poder mostrar
o plano da empreza ha tantos annos iniciada
sob minha direcção, disse elle com um amavel
sorriso de bonhomia patriarchal.
E começou a desenrolar diante de nossos
olhos uma serie infindavel de cartas hydrographicas,
mappas, desenhos...
Vale a pena se admirar essa obra monumental.
Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos
braços de sua foz, por modo a effectuar-se a
navegação livremente, na linha da correnteza,
e terem entrada embarcações de grande calado,
desenvolvendo-se assim o já notavel commercio
de Nova-Orleans. Com esses trabalhos
o porto irá melhorando consideravelmente,
sendo para notar o grande movimento de
navios que entram e sahem durante o dia.
O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis
que os americanos dia a dia tratam de
aproveitar dando sahida a innumeros productos
do fertilissimo valle do Mississipe, o qual
abrange cerca de 768.000.000 geiras
das mais
ricas terras do mundo, como elles lá
dizem.
Sua emboccadura é, portanto, a passagem
natural de todos aquelles productos.
Desde 1726 têm sido empregados esforços
inauditos a fim de se aprofundar essa parte do
famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo
dos Estados Unidos contratou definitivamente
esse serviço com Mr. Eads, e é bem provavel
que em futuro não muito remoto esteja o porto
franqueado a todos os navios do mundo,
graças á perseverança e aos
esforços de habeis
engenheiros.
A visita foi curta, mas proveitosa.
Tomámos novamente a barca, e ás cinco
horas da tarde atracavamos no forte Jackson,
velha fortaleza abandonada, á margem direita
do rio. Lá estava ainda, immovel e muda, a
descommunal artilharia que Farragut, o velho
almirante, commandara na guerra sanguinolenta
dos separatistas, que terminou com a
tomada de Nova-Orleans.
Os velhos canhões dormiam seu somno
de bronze, lá dentro, nos corredores escuros
como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes
de historia naval, inspiravam não sei que respeito
sagrado. Perante elles falavamos baixo,
como para não os acordar...
A fortaleza é grande, mas só tem a importancia
archeologica que a historia lhe empresta;
não resistiria, talvez, ás modernas baterias.
Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em
derredor.
O seu aspecto é sombrio como o de um
cemiterio: as grossas paredes denegridas e o
silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso
de crypta subterranea e produzem no
visitante uma incommoda sensação de abandono
e tristeza. Em cada canto parece surgir
a sombra de um confederado clamando vingança.
Retirámo-nos em marcha funebre, calados
e supersticiosos...
Dormimos ainda essa noite sobre o rio
para amanhecermos em Nova-Orleans. Já
estavamos com saudade do
Barroso.
Continuaram as manifestações de amisade
ao Brazil.
O neto do imperador, jovem e irrequieto,
embalde procurava fugir ás insistencias da
aristocracia local e por diversas vezes desejou
ter nascido simples burguezinho, como
qualquer de seus collegas.
E digamos aqui, muito a discreção, Sua
Alteza podia ser um bello moço, um digno
cavalheiro, um excellente amigo e camarada,
mas... Sua Alteza era um pessimo principe.
A sua grande aspiração era a vida livre, sem
peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota
depressa nos
cafés-concertos e nos
restaurants.
Não gostava de continencias e despresava
o juizo imbecil dos que lhe apodavam de estroina.
O certo é que esse juizo em nada o
compromettia perante o
high-life
americano
que o estimava sufficientemente. Elle era o
representante immediato da familia imperial,
era o alvo predilecto de todas as manifestações
ao Brazil na grande festa internacional.
Seria ocioso, senão monotono e fatigante,
descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes,
com todas as suas côres mirabolantes,
essas manifestações, profundamente fraternaes
e democraticas, com que nos recebeu a distincta
sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas,
passeios improvisados, concertos, brindes,—e
não raro a tolda do nosso bello cruzador converteu-se
em esplendido salão de baile, acordando
a sons de orchestra e gritos de alegria o
silencio agreste das margens do Mississipe.
É este o unico consolo d'aquelles que
andam no mar em serviço da patria—o repousar
em terra amiga. Vão-se as saudades para
dar logar á franca expansão dos
corações:
a alma do marinheiro transforma-se, como por
encanto, n'um hostiario de alegrias de uma
ingenuidade incomparavel, e elle ri com os
outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse
em seu proprio paiz, no meio de seus
amigos e de seus parentes. Encantadora
illusão, que só dura emquanto elle não
abre
as velas mar em fóra nessa interminavel derrota
de argonautas que vão atraz do bezerro
de ouro da felicidade...
Não direi, não, o que nos divertimos, as
multiplas sensações por que passou o nosso
espirito n'essa Luiziania que o Mississipe
embala com o rithmo nostalgico de suas aguas
côr de barro. Seria desdobrar a natureza
humana tão complexa e mysteriosa.
Vamos adiante, consultemos o caderno de
notas.
25 de Abril...—Estavamos na
Paschoa,
a festa risonha e popular da ressurreição do
Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma
tristeza, nenhuma magoa toldara o céo
purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em
mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno
o espirito, aberto o coração a todos os influxos
bons. Boa vida, por um lado, essa de quem
viaja sem grandes preoccupações, no bojo de
um navio patricio.
Eis que, de repente, uma nota dissonante
e sombria chamou-nos á realidade pungente
da vida humana: morrera um nosso companheiro
de bordo, o
Leocadio..., que digo eu?
um d'esses heróes anonymos que usam gola ao
pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade
arrebatou de sua terra natal para morrer tysico
em paiz estranho.
Ninguem imagina a dolorosa impressão
que produz a morte de um companheiro de
viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.
Fez-se o enterro com todas as honras devidas
ao obscuro soldado e velho marinheiro,
nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado
na escola das tempestades. Tinha sessenta
annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre
o
seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira
como symbolo da patria reconhecida.
N'esse dia, conforme já estava assentado,
toda a guarnição do
Barroso desembarcou
a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na
cathedral de S. Luiz, o mais importante dos
templos catholicos da cidade, situado na rua
Chartres.
Bem que antiga, essa egreja parece resistir
ainda por muito tempo. Foi o primeiro edificio
catholico erigido
em Nova-Orleans pelos
capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação
da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em
homenagem ao rei da França.
Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou
sobre a nascente cidade, cuja população
elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que
arrasou todos os edificios, causando uma mortandade
incalculavel. Narram os chronistas que
foram arrojados á costa trez navios que se achavam
fundeados no porto. Em breve, porem,
a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruida
a egreja, essa mesma que ainda hoje
ergue seus torreões vetustos na rua Chartres.
Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans
foi dividido em tres grandes districtos
sob a administração dos capuchinhos, dos
carmelítas e dos jesuitas. De então em diante
multiplicaram-se os edificios religiosos, egrejas
palacios episcopaes, conventos, etc.
O convento das Ursulinas data egualmente
da fundação da cidade e é um
estabelecimento
catholico á maneira do de Ruão conhecido
por esse mesmo nome.
É um dos ultimos conventos que ainda
existem nos Estados-Unidos. Consta de trez
andares e ergue-se á margem do rio, para onde
abre suas janellinhas atravéz das quaes se vê
passar a sombra phantastica das religiosas.
X
Um bello povo, o de Nova-Orleans—jovial,
communicativo, hospitaleiro e sincero. A elle
devemos os melhores dias dessa longa viagem
ao paiz suggestivo e excepcional dos
yankees,
universalmente querido e respeitado por sua
grandeza industrial e por suas bellas tradições
de energia e patriotismo.
E emtanto approximava-se o dia da partida:
iamos embora rumo de norte, levando
comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé,
«le roi des fleuves», e das legendarias
terras que Chateaubriand poetisara nas suas
inimitaveis
viagens. Restava-nos,
porem, o
consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York
dos trens aere. Restava-nos,
porem, o
consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York
dos trens aereos e das emprezas colossaes.
Corações á larga, rapazes! Um homem
é
um homem!...
A saudade, porem, não é uma simples figura
de rethorica, pelo amor de Deus! É um estado
d'alma como a nostalgia, como o amor, como
a tristeza, como a dôr...
A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente
real e determinado na ordem dos
factos psychologicos. Não nos venham dizer
outra cousa os senhores neologistas
fin de
siècle.
Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por
isso a saudade deixa de ser o que é na verdade—uma
commoção nervosa interessando o mais
delicado e sensivel do coração humano, uma
dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel
como um sonho nebuloso, tocada de doçura e
ungida de tristeza...
Por que uma pessoa tem barba no rosto e já
passou dos vinte annos, segue-se que não deve
ter mais saudade, que deve ser um insensivel,
uma massa inabalavel?
Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na
como quizerem os doutores da sciencia,
hade existir emquanto palpitar em nós
esse musculo que se chama coração, emquanto
a humanidade soffrer e houver um motivo sentimental
para commover os seres dotados de
intelligencia. É talvez uma questão de mais ou
menos intensidade nervosa. Por que tudo é
egoismo neste seculo essencialmente palavroso
e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não
muito longe, a raça humana se transforme
n'uma como esphynge, sem affectividade possivel,
ou que o systema nervoso passe a exercer
funcções negativas na physiologia do porvir?
Não o acreditamos...
A lagrima hade existir
per omnia
secula,
e a saudade terá sempre a sua lagrima, como
sentimento superior ás nossas forças.
Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão
natural, tão humano como chorar porque nos
separamos de um ente querido. Não desejo
agora, por um velleidade de rabiscador sentimentalista,
fazer a psychologia da lagrima. O
que eu quero é confessar, embora d'isso me
advenha o qualificativo de
piégas, que
não podiamos—eu
e a maior parte dos meus collegas—pensar
em deixar Nova-Orleans sem um demorado
fremito de
palpebras e uma nevoa
humida no olhar triste...
E, dizendo isto, está dito o que nos merecia
a hospitaleira população d'aquella cidade.
Entretanto, ainda não estavam satisfeitos
os luizianenses. Como ultima prova de verdadeira
estima o
Luiziania Jockey-Club
deu-nos
um magnifico baile na vespera da partida.
Tenho ainda na memoria essa derradeira
impressão que me ficou de Nova-Orleans.
Fazia um luar soberbo, um luar tropical,
um luar de legenda, tão limpido e tão claro
que se não viam as estrellas... O
Jockey-Club,
em baixo, fazia um effeito surprehendente
com a sua illuminação de mil côres
rodeando a grande raia das corridas, com o
seu aspecto phantastico de kermesse nocturna,
salpicado de pontos luminosos e galhardetes
em miniatura, immoveis na calmaria da
noite.
Em derredor a mudez solemne da floresta
acordada de instante a instante pelo echo da
musica cortando o ar calmo.
Perto do
Club tinha-se armado um
grande
estrado para a dansa ao ar livre, sem tecto,
sem toldo, sob o luar.
Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso,
ao som das walsas americanas e dos
galopes á brazileira.
N'essa noite, e pela primeira vez, conversei
longamente com uma
créole, Mlle...
já me não lembra o nome, um typo ideal de
Walkyria de olhos negros com um extraordinario
brilho nas pupillas,—microscopica, delgada,
flexivel, cintura extremamente fina, certo
geito adoravel de pender a cabeça para os
lados, n'um abandono irresistivel... Toda de
preto.
Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me
a passeiar no Prado.
Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto,
teso dentro da minha farda de guarda-marinha,
levado quasi que machinalmente por
essa formosa dama d'olhos negos e seductores,
arranjando a custo umas phrases de effeito,
que eu não teria coragem de reproduzir; ella,
desenvolta e pequenina, muito leve na sua
toilette escura, conduzindo-me
n'aquella esplendida
promenade
au clair de la
lune, para
onde... não sei eu...
Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas
e ricas, si no Brazil dansava-se muito, e
que tal nós tinhamos achado as americanas.
Explicou-me então a differença entre
créoles
e americanas propriamente ditas.
Respondi-lhe como pude, exaltando as
nossas patricias, «bellas e ricas, como não ha
eguaes no mundo...»
Parámos. Tinhamos andado seguramente
dois kilometros e não viamos agora senão
a parte superior do
Club, por traz
do arvoredo,
toda illuminada ao longe, como uma
cousa phantastica.
Á proporção que nos afastavamos dos
nossos companheiros a conversa tornava-se
menos animada, e, por fim, já seguiamos calados,
como dois somnanbulos, no silencio da
noite enluarada...
Depois é que vimos a distancia que nos
separava do centro da festa.
Na volta encontrámos outros pares em
doce confabulação, como nós, longe do
ruido.
Despedi-me para tomar o trem, e ella, a
dama dos olhos negros, disse-me um
Good
bye
tão sentido e tão suggestivo que eu
não tive
geito senão perder o trem.
Good bye! Nada mais doce e
expressivo
que estas simples palavras em bocca de americana.
Uma ingleza talvez que as não pronuncie
com tanta suavidade, com tão sonora
flexão, com tanto sentimento.
Good
bye... Ha
qualquer cousa de avelludado no timbre cantante
com que ellas, as
miss da
Nova-Inglaterra
dizem a sua phrase sacramental de
despedida. O nosso
adeus,
aliás tão laconico e
singelo não exprime tanto, não caracterisa
tão
bem esse estado d'alma que se denomina—saudade.
E, a proposito de—
Good bye, vem-me
a memoria
um episodio de uma simplicidade primitiva
e commovente que a minha indiscrição
de observador tagarella não deixa calar.
Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e
narremol-o em toda a sua verdade.
Entre os
nossos companheiros de
viagem
havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes
aventuras
amorosas. Chamava-se
Manoel..., o apellido de familia não nos interessa.
O joven official de marinha, moço de
bella apparencia e excellente coração,
apaixonara-se
por uma Eva Smith muito conhecida
nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui
nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante
de um
bock, seus olhos se
encontraram, e,
desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos
olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias,
gosaram todas as delicias imaginaveis, elle
prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o
de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se
de commum accordo, sem que
nunca houvesse entre elles a menor desavença.
—Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella
só o tratava por Manoel).
—Sim, filha, depois havemos de ver
isso...
—I love you very much...
—Oh! yess... I think so...
Viviam felizes como um casal de noivos,
longe da cidade, n'um quarto d'hotel, onde
havia do melhor vinho e da melhor sôpa.
Um bello dia:
Elle—Olha, sabes? O
Barroso suspende
ferro amanhã.?.
Ella (surprehendida)—What do you
say?!
Elle (trincando um
rabanete)—É o que
estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas,
o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.
Ella (cruzando o
talher)—Impossivel!
Por que já não me disseste?
—Para te poupar o desgosto...
—Oh! não, meu querido Manoel, é historia,
tu não vás amanhã...
—Assim é preciso. São cousas da vida...
—Não, não, meu amor (
my
love) tu não
vás, porque eu não quero, do contrario
faço
escandalo, estás ouvindo?
E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva
deixou cahir uma lagrima...
Silencio. Manoel continuou a jantar sem
interrupção, muito calmo, com uma fleugma
verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu
a soluçar baixinho, fungando a mais não
poder, sem se aperceber de que estava fazendo
de um guardanapo um lenço.