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Rita
Farinha (Fev. 2008)
BIBLIOTHECA
DE
CLASSICOS PORTUGUEZES
PROPRIETARIO E FUNDADOR
MELLO D'AZEVEDO
Bibliotheca de Classicos
Portuguezes
Proprietario e fundador—Mello
d'Azevedo
CHRONICA
DE
EL-REI D. AFFONSO V
POR
Ruy de Pina
VOL. III
ESCRIPTORIO
147—Rua dos Retrozeiros—147
LISBOA
1902
CAPITULO CXLI
De como se fez em Alcacere a
coiraça para
defensão e segurança da villa, e como D. Duarte,
capitão,
se houvera de perder
El-rei entendeu logo
no fazimento da coiraça d'Alcacere, por
cuja mingua quando tornou sobr'ella de Ceuta a não
pôde soccorrer nem bastecer como quizera; porque era mais
afastada do mar, do que cumpria para navios sem empedimento e
contradição dos de fóra a poderem
prover. E tanta ordem e diligencia se poz n'isso ácerca da
pedra cantaria e cal, e madeira, e officiaes, e cousas a ella
necessarias, e assi a gente de guarnição que tudo
defendesse, que com tudo prestes e enviado a Alcacere, a dita
coiraça se começou logo á
segunda-feira de Ramos XXII dias de Março do anno de mil e
quatrocentos cincoenta e nove. Na qual obra D. Duarte, de noite e de
dia, para bom exemplo de todos assi servia e melhor que qualquer outro
pobre serviçal que hi andasse.
E em fim por fallecimento de cal; porque a obra se fundou maior e mais
forte do que primeiro cuidaram, a dita coiraça
não se acabou senão
depois do S. João do dito anno, e foi ao tempo que D. Duarte
era já bem certificado dos ajuntamentos e
apurações e convocações que
El Rei de Fez em suas terras e nas alheias fazia para vir outra vez
sobr'elle como ficara.
E porque para execução do proposito dos mouros
era grande impedimento a coiraça que se fazia de que eram
já bem avisados, por deterem e impedirem a obra com dano e
mortes dos officiaes que a lavravam, acordaram de enviar para isso
secretamente certos alcaides, com mil e quinhentos de cavallo, e outra
muita gente de pé, para que dessem n'elles e trabalhassem
por desfazer a dita obra.
E com isto, porque D. Duarte com sua gente não leixava
d'entrar e fazer grandes cavalgadas e estragos nas terras dos mouros,
acertou-se que um dia desavisado do ardil dos alcaides, determinou
entrar com a mais gente que nunca entrara. E estando á noite
dois veladores praticando sobre o muro, aconteceu que por
máo avisamento e pouco resguardo d'elles, com vozes altas um
descobriu ao outro a entrada de D. Duarte, declarando logo por onde
havia d'entrar, e os lugares a que havia d'ir, e tudo assi apontado
como que estivera á
determinação do caso. E acertou-se que um mouro
almograve, que da lingoa dos christãos tinha bom
conhecimento e era mui ousado, vindo-se de noite lançar ao
pé da
barreira por escuta, ouvio toda a pratica d'estes, com que
apressadamente logo partio, e foi logo avisar umas aldeias, de que
tomaram um mouro mais despachado, que indo com grande
trigança dar aviso a Tanger, topou de recontro com os mesmos
alcaides que vinham sobre a coiraça, aos quaes o messageiro
contou
o caso sobre que ia,
havendo que era remedio que lhes Deus a tal tempo enviava, e elles mui
alegres com tal nova lhe prometeram grandes honras e acrescentamentos;
porque lhes pareceu que leixariam entrar D. Duarte, e sem alguma fadiga
o atalhariam e tomariam como quizessem, e assi sem os trabalhos, mortes
e despezas que se lhe aparelhavam, não
sómente impediriam a coiraça, mas cobrariam a
villa em que não podia ficar gente que a defendesse.
E vieram-se os alcaides ao logar d'Anexanuz onde estava um
christão captivo, natural da Villa de Lagos, a que chamavam
o Talheiro, o qual tinha muita amizade e pratica com um mouro, cujo
nome era Azmede, que já fôra em Tavila captivo, e
sabendo bem o Talheiro o ardil e determinação dos
alcaides, pela qual a perdição de D. Duarte e da
villa
d'Alcacere com toda a gente se não podia escusar, doendo-se
d'isso como bom christão e leal portuguez, tanto aperfiou
com Azmede e tantas esperanças lhe pôs na
bondade e verdade dos christãos para sua honra e proveito,
que o houve de commover que de todo o que era concertado logo aquella
noite fosse como foi avisar D. Duarte. O qual estando para partir e
vendo tal aviso e sendo certificado por Antão Vaz,
alfaqueque, que o mouro era homem de credito e amigo dos
christãos, pôs os giolhos em terra, e as
mãos alevantadas ao ceo deu muitas graças a Deus,
e ao mouro deu logo e prometteu e fez ao diante muito bem.
E ao outro dia mandou desaperceber os fidalgos e toda a gente que para
a entrada estavam já todos prestes, que por isso ficaram
tristes e muito mais descontentes de D. Duarte, e mostrando
não ser menos irados contra o mouro, assacando-lhe que por
evitar o dano que a seus parentes estava aparelhado,
mais que por fazer bem a D. Duarte, se
movera a tal aviso, e uns o ameaçavam com a forca, e outros
com o lume para o queimarem, mas o mouro confiado no que certo sabia,
tudo soffria rindo, dizendo que cedo lhe dariam o contrario.
E sendo o capitão por elle avisado dos lugares em que as
cilladas haviam de jazer, mandou logo pela manhã descubrir a
primeira, estando com toda a outra gente a recado e percebido; os
mouros como viram os descobridores entenderam a verdade, e que tal
descobrimento procedera d'algum aviso que os christãos
d'elles houveram, e que por isso não sairam da villa, nem
ousaram entrar em sua terra como tinham ordenado, e sairam
logo d'elles quatrocentos de cavallo em cavallos armados e arreios,
gente especial e mui concertada. Sahiu D. Duarte com até
cento e vinte de cavallo a lhes resistir, em especial a recolher os
descobridores que tinha enviados que vinham mui perseguidos, e n'isto
se travou de uma parte e da outra mui crua peleja, em que D. Duarte
tanto apertou com os mouros que os fez fugir, em que morreram alguns
d'elles, todos homens entr'elles de boa estima, e ao seguimento d'estes
sahiu a outra cillada maior em socorro dos primeiros que maliciosamente
mostravam ir fogindo por tirarem os christãos
fóra, e
fizeram todos uma volta sobre os christãos, que por
não poderem
resistir a tamanha força lhe deram as costas, e no
encalço que foi curto, mataram dois e feriram muitos.
E quiz Deus que na primeira esporada que D. Duarte n'elles deu lhe
quebraram as cabeçadas do cavallo, e em lh'as corregerem se
deteve e mandou deter a gente sua algum espaço, que deu
causa que o encalço da volta que os mouros sobre os
christãos fizeram fosse assi curta, que quasi os acharam
á sombra dos muros
a
que com sua segurança se acolheram; porque d'outra maneira
segundo os mouros vinham azedos, e com tanta sua avantagem,
fôra sem duvida para os
christãos grande perigo.
E n'este dia se lançou um moço
christão com os mouros, a que descobrio o aviso d'Azmede que
deu causa a se elle vir de todo para Alcacere, onde sendo mouro deu
aviamento a muita guerra e damno de sua propria terra, e este se chamou
depois Mafamede de Alcacere, a que El-Rei D. Affonso e depois El-Rei D.
João seu filho por seus serviços fizeram muita
mercê.
CAPITULO CXLII
De como a villa d'Alcacere foi de
segunda vez cercada por
El-Rei de Fez, e do que se passou n'este segundo cerco até
que se alevantou
Era D. Duarte de
muitas partes avisado como El-Rei de Fez se aparelhava
grandemente para no começo do mez de Julho vir sobre
a villa, e sendo logo sobr'isso certificado que era
já em Tangere, começou de concertar e
perceber suas cousas como para taes hospedes convinha.
E a uma segunda feira, dois dias de Julho do dito anno de mil e
quatrocentos e cincoenta e nove, apareceu El-Rei de Fez sobre a villa
com infindo poder de gente, e nações mui
desvairadas, e com
carriagens d'alimarias espantosas, que cobriam toda a terra.
E nos dias passados tinha D. Duarte enviado pedir a El-Rei que lhe
mandasse trazer sua mulher D. Isabel de Castro, e seus filhos que eram
em Portugal, e como quer que segundo os recados que tinha havia
muito tempo que esperava por
ella, acertou-se que em El-Rei de Fez e os outros Marins e senhores
começando de cercar Alcacere, a náo em que ella
vinha surgiu
sobre o porto. E
como D. Duarte houve
d'ella
conhecimento, determinou com gente e fustas e bateis que para isso
pôs em mui segura ordenança, de a recolher, e elle
a cavallo com outros, andaram na praia resistindo aos mouros,
até que muitos fidalgos a pé segura e
honradamente a meteram pelas portas da coiraça.
E certo não foi sem causa acertar ella tal dia em que
chegasse; porque segundo era de nobre sangue e de muitas bondades e
virtudes, bem merecia que em sua chegada a recebessem tamanhos reis e
senhores dos mouros como alli eram.
Desceu-se D. Duarte e levou sua mulher á egreja, onde em
vigilia e por devoção dormio aquella
noite, e ao outro dia a meteu em um cubello do castello, de que podia
vêr os combates e afrontas da villa.
E com a ida de D. Isabel a Alcacere foi a gente toda mui leda, e
receberam muito esforço e ousadia, assi pelo repairo que os
feridos e doentes em suas curas d'ella recebiam, como pelo favor de
suas donzellas com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam
melhor de pelejar; porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas
d'homens honrados, que guardada em todo sua honra e honestidade, sabiam
bem fallar e tratar os homens como mereciam.
D. Duarte como aquelle a que em seus feitos não fallecia
grande devoção e esforço,
depois de se encommendar a Deos com muitas lagrimas e palavras de bom
christão e singular capitão de sua
fé, fallou logo com muita prudencia e segurança a
todolos fidalgos e pessoas principaes da villa, repartindo-lhe logo com
muita alegria e despejo as estancias e guardas
que cada um havia de ter, e
avisando-os em todo como para a necessidade presente cumpria, em que
prometia honra e victoria.
El-Rei de Fez e seu Marim e alcaides ordenaram seus combates
á villa em torno, providos de muitas e grossas artelharias,
e d'espingardeiros e besteiros sem conto, e d'escalas e mantas, e todo
em grande cumprimento; porque em tanto cargo e estima tomou o cobrar
d'aquella villa d'este segundo cerco, como todo o reino de cuja
privação foi dos mouros
ameaçado, se d'esta vez a não tomasse. E d'alguns
combates que os mouros deram á villa e á
coiraça juntamente, elles foram dos christãos com
tanto seu estrago e damno escramentados, que d'hi em diante
já refusavam e não se queriam chegar como sohiam.
Dizendo a El Rei pela continua e grande mortindade dos seus que os
não mandasse assi chegar ao combate; porque elle bem poderia
fazer com seu grande poder, quando quizesse, outra villa dez vezes
maior que aquella, mas que fazer elle e renovar outros tantos vassallos
mouros quantos alli perdia não podia, cá era
officio que
sómente pertencia a Deus. E com isto punham todos seu
esforço e esperança nas bombardas, que de dia
e de noite nunca cessavam de lançar pedras.
Era El-Rei de Portugal em Lisboa ao tempo que d'este cerco foi avisado,
para que com grande trigança mandou fazer prestes navios com
gente, mantimentos e armas, em que foram muitos fidalgos e pessoas
principaes do reino, alguns d'elles por especial percebimento, e os
mais de suas livres e louvadas vontades, em que entravam pessoas de
todas edades, cá os moços por ganhar e
acrescentar honra, fugiam para este cerco, e dos velhos por
conservação da
ganhada algum não queria ficar.
No meio tempo do cerco chegaram ao arraial dos
mouros as suas bombardas grossas, que
por seu peso e grandeza e pela aspereza da terra faziam suas jornadas
vagarosas, e em sua chegada não fizeram os mouros menos
festa e alegrias que na sua Pascoa que então celebraram.
Foram logo com grande presteza e alegria assentadas, e dos tiros
primeiros que fizeram começaram nos muros e cubellos de
fazer com sua furia tanto dano, que a muitos de dentro com receio de
maior mal já se mudavam as côres; porque alguns
cubellos foram em breve arrasados com os muros, que em todalas partes
tremiam, e faziam conta que se elles sendo derribados não os
defendessem, que a peleja de pessoas com pessoas tanto seria perigosa,
quanto a gente e poder dos mouros era desegual. Mas D. Duarte, cujo
coração, esforço e
segurança, d'estes medos e d'outros maiores andava sempre
priviligiado, a tudo soccorria e repairava logo com tão
engenhosos remedios, que aos mouros enfraqueciam os
corações, havendo que tão prestes e
diligente repairo eram obras de Deus mais que dos homens. Especialmente
porque claramente viam que a diligencia, trabalho e resistencia dos
christãos lhes parecia sobre forças humanas.
Pelas quaes cousas, e assi porque os mantimentos falleciam
já aos mouros, houve no arraial dos mouros grande rumor de
alevantarem o cerco, de que D. Duarte por mouros que na villa se
lançavam foi certificado.
E D. Duarte e esses senhores e fidalgos que com elle eram,
não fartos de muita honra e louvor que tinham ganhado,
escreveram ao Marim apresentando-lhe com palavras assaz cortezes
quão covardamente elle e seu Rei se tinham havido n'aquelle
cerco, do qual não se deviam assi partir com tanto seu
abatimento e deshonra, pedindo-lhe que avergonhados disto tornassem
renovar os combates, para que ficavam
alimpando as armas, que no sangue dos
seus tinham já todas sujas.
El-Rei e o Marim mostrando ser d'esta carta mui anojados, responderam a
D. Duarte com palavras de grande descortesia e muita villeza,
reportando-se ao mal do palanque de Tangere, e que já
fizeram ao Infante tio do seu Rei cavar e alimpar os cavallos, e que
assi faria a elles, a quem D. Duarte largamente replicou, reprendendo
como devia suas villezas e cobardia.
E finalmente El-Rei de Fez com todo seu arraial se alevantou de sobre a
villa, dia de S. Bertholameu, XXIV dias d'Agosto de mil quatrocentos e
cincoenta e nove.
Durou este segundo cerco d'Alcacere outros LIII dias como o primeiro.
Foram lançadas na villa duas mil e quatrocentas e cincoenta
e seis pedras grossas, foram mortos dos christãos
até XXV, e dos mouros muitos, de que se não houve
o numero certo. O que todo notificou logo D. Duarte a El-Rei, estando
em Santarem, que por o caso deu a Deus muitas graças, e a
elle muitos agardecimentos e louvores, e D. Duarte mandou logo para o
reino a gente que não era em Alcacere necessaria.
CAPITULO CXLIII
Como D. Duarte foi feito conde de
Vianna, e El-Rei quisera
outra vez passar em Africa para que se percebeu
No
mez d'Abril do anno seguinte de mil
e quatrocentos e sessenta, por prazer e consentimento d'El-Rei leixou
D. Duarte por capitão d'Alcacere Affonso Tellez, seu
sobrinho, e se veiu a Lisboa onde achou El-Rei, que d'elle e de toda
sua côrte foi
grandemente e com muita honra recebido, e d'ali se foi El-Rei a
Santarem, onde com solemne arenga de seus serviços e
merecimentos, e com devida cerimonia o fez conde de Vianna de Caminha.
N'este anno no mez d'Agosto falleceu de febre em Thomar D. Affonso,
marquez de Valença, filho maior do duque de
Bragança, sem casar, de que ficou um filho natural, D.
Affonso, que depois foi bispo d'Evora. E n'este tempo pelas praticas
que El-Rei sempre tinha com o conde de Vianna sobre a guerra d'Africa,
a que El-Rei sobre todalas cousas do mundo naturalmente era mais
inclinado, desejando de a proseguir determinou passar a Ceuta com dois
mil cavallos e gente de pé a elles conveniente, para d'alli
como
capitão, mais que como Rei fazer guerra aos mouros.
E tendo sobr'isso conselho foi de todolos principaes muito em contrairo
aconselhado, em especial do Infante D. Fernando seu irmão, e
do senhor D. Pedro, que sobre isso lhe enviaram conselhos para o caso
mui excellentes, a que El-Rei não quiz dar credito, guiado
já de seu apetito, inclinando-se á
só opinião do marquez de Villa Viçosa,
que sendo em tudo mui prudente, n'isto pareceu que desacordava. E tendo
para isso feita muita custa, com fundamento de todavia passar, desistio
da ida por causa de uma grande e perigosa doença de febre em
que cahiu e esteve á morte.
E n'este anno de mil quatrocentas e sessenta, lastimado o reino todo
das grandes e apetitosas despezas que El-Rei fazia, de que sua fazenda
e as de seus vassallos sem causa necessaria se destruiam, em umas
côrtes que em Lisboa sobr'isso se fizeram, lhe pediram que as
temperasse e quizesse ter mão mais firme nas cousas da
corôa; com que sostevesse seu estado como seus antecessores
faziam, e não as dar com tanta
soltura e sem necessidade como dava,
que se contentasse arrecadar dos vassalos os antigos e velhos direitos,
e não agravar seu povo com novos pedidos e
imposições. E para o melhor poder fazer, lhe
outorgaram cento e cincoenta mil dobras d'ouro, com que desempenhasse e
pagasse as rendas da corôa, que por tenças e por
casamentos, ou por outras dividas e
obrigações tivesse dadas, com juramento que fez
de nunca as mais dar, mas isto nem sómente aquelle anno em
que se prometeu se manteve; porque na passagem em Africa que logo fez
se desordenou tudo, e com muita mais soltura por mal da corôa
real.
CAPITULO CXLIV
De
como falleceu o
Infante D. Anrique, e de seus feitos, bondades, e virtudes
E no mez de Novembro d'este anno falleceu em Sagres o Infante
D. Anrique com sinaes e cumprimento de fiel
christão, em edade de cincoenta e sete annos, cujo corpo foi
logo soterrado na egreja da villa de Lagos.
E de hi no anno que vinha de mil e quatrocentos e sessenta e um, foram
seus ossos levados ao mosteiro da Batalha por o Infante D. Fernando,
que tinha adotado por filho, que foi por elles e os trouxe com grande
honra e muita cerimonia ao dito mosteiro, onde El-Rei acompanhado de
toda a nobre gente de Portugal e muitos prelados sahiu aos receber com
solemne procissão, e lhe fizeram honradas exequias.
O Infante D. Anrique foi em tudo Principe tão perfeito, que
não é razão que alguma de suas
muitas e
louvadas virtudes
se especifiquem; porque seria mingoar nas outras todas, que d'elle como
de uma fonte clara e perenal todas nasceram. Porém a que
pareceu que em seus dias sobre todas abraçou, foi inteira
obediencia
e firme lealdade a El-Rei, e em seu coração houve
sempre fervente amor e continua devoção
para Deus, e uma singular humanidade e nobreza para os homens, e um
vivo esforço nunca vencido com que em sua vida como
magnanimo Principe e esforçado cavalleiro sempre emprehendeu
arduas e mui excellentes empresas, especialmente contra inimigos da
fé, por seu marivilhoso engenho e muita prudencia e grandeza
de coração, e com innumeraveis gastos de
suas rendas e fazenda, não receando infindos trabalhos,
mortes, e perigos de seus criados e servidores, que muitas vezes via
morrer e padecer, depois da tomada e descercos de Ceuta em que foi,
mandou primeiramente navegar e descobrir pelo mar Occeano, onde se
acharam logo e povoraram as ricas e fertiles ilhas da Madeira, que
foram as primeiras que no mar Occeano estes reinos tiveram, e assi d'hi
em diante outras muitas de que elles e a christandade toda muito bem e
proveito recebem.
E assi o dito Infante como aconselhado e esforçado,
já por divina inspiração movido a
isso, com respeitos de magnanimo Principe e mui catolico
christão, e como mui leal vassallo dos Reis e da
corôa de Portugal, desejoso do acrescentamento, gloria, e
louvor d'elles, suspirando pela santa, honrada e proveitosa conquista
de Guiné, mandou logo pedir e suplicar ao Papa Martinho
quinto, na Egreja de Roma presidente, que em nome de Deus cujo poder
tinha, concedesse e fizesse á dita corôa e
herdeiros d'ella para sempre, como com acordo e
approvação do Sagrado Collegio dos Cardeaes fez e
concedeu solemne e perpetua doação,
e lhe deu
o senhorio proprio de todo o que
na costa do dito mar Occeano, nos mares a ella ajacentes dos marcos e
cabos de Nam e do Bojador contra o meio dia e oriente por elles e por
seus sobcessores, e por suas gentes pelos tempos em diante se achasse e
descobrisse até os Indios inclusivamente. A qual
doação e concessão do dito Papa
Martinho depois o Papa Eugenio, e o Papa Nicoláo, e o Papa
Sixto á
suplicação d'El-Rei D. Affonso, e d'El-Rei D.
João seu filho confirmaram e aprovaram com sua
graça e poder, com muitas graças e
benções e
liberdades aos Reis de Portugal presentes e futuros que a proseguissem,
e com grandes excumunhões, graves censuras e
maldições a todolos christãos que em
qualquer maneira, sem prazer e consentimento dos ditos Reis de Portugal
contra ellas fossem, como nas Bulas Apostollicas que se d'isso
concederam mais perfeita e cumpridamente se contém, as quaes
sendo um divino favor e verdadeiro e ligitimo titulo para se a dita
navegação, descobrimento e conquista navegar e
proseguir o dito Infante logo primeiramente com o santo e virtuoso
principio de tão aventurado fim a emprendeu e proseguiu.
E com espantosos principios e meios de que era prasmado e nunca foi
vencido em sua vida, mandou adiante descobrir e tratar até a
Serra Liôa com
muito proveito do reino. E depois de sua morte em tempo d'El-Rei D.
Affonso o quinto seu sobrinho, além do descobrimento do
Infante se descobriu a mina do ouro, em que agora é a cidade
de S. Jorge, que El-Rei D. João o segundo mandou novamente
edificar, e assi se descobriu mais por El-Rei D. Affonso até
o Cabo de Santa Caterina, e depois de seu fallecimento, como El-Rei D.
João o segundo seu filho o sobcedeu, d'alli mandou por annos
descobrir até dobrarem o
Cabo de Boa Esperança, e
seus descobridores chegaram até o Rio do Infante, e d'alli
sendo seu proposito não cessar até descobrir a
India, por sua
doença e morte, que se logo seguiu, cessou seu
descobrimento.
E como depois o sobcedeu e reinou após elle El-Rei D. Manuel
o primeiro, nosso Senhor, como Principe que em tudo quiz herdar a
benção, reaes costumes e claras
façanhas de Reis e Principes
tão gloriosos seus antecessores, por seu mandado e com seus
capitães, navios e gentes por este caminho se desccobriram,
trataram e navegaram, com grandes perigos e muitas difficuldades, e
innumeraveis despezas outras novas ilhas e terras, e sobre tudo a
Arabia e a Persia, e a India com todalas especiarias, pedrarias, minas,
riquezas, e thesouros orientaes que hoje possue e tem com muita
segurança e prosperidade, fazendo-se pacifico Senhor de
muitos Reis e senhores que sua paz e senhorio compraram com ricos e
cotedianos tributos, como em sua chronica fará
menção, de que a elle e á real
corôa d'estes seus reinos
de Portugal e aos herdeiros d'ella, e a seus vassalos e naturaes se
acrescentou, e com a graça de Deus cada vez
acrescentará mais bem, maior honra, gloria, e louvor, e
ricos, honestos e mui grandes proveitos, com os quaes pois seu
principal fim e intento é servir a Deus e divulgar e
exalçar sua santa Fé sempre,
por isso seu grande poder será muito mais poderoso, e
não sómente a elles este bem e proveito
será
reservado, mas ainda de suas mãos e por seu meio a
christandade toda será participante, com que a fé
de nosso
senhor será por isso mais conhecida, louvada, e
exalçada, e as seitas, idolatrias e forças dos
imigos d'ella de todo minguadas e mui quebrantadas, e esta
esperança
não está de todo em a esperarmos; porque com
prosperos e desejados effeitos tem ácerca d'isto muitas
vezes
respondido, como em
seus proprios tempos e lugares melhor se dirá, que sempre se
atribuiram á honra, memoria, louvor e merecimentos d'este
virtuoso Principe e Infante D. Anrique, como a causa e primeiro
inventor de tanto bem.
Foi mais o Infante nas roupas de seu corpo mui honesto e muito mais nas
palavras de sua bocca, e por maior sua perfeição
foi em sua vida sempre casto,
e segundo o que se creu, virgem o comeu a terra, que dá
piedosa esperança de
salvação de sua alma.
CAPITULO CXLV
De como falleceu o duque de
Bragança, e
sobcedeu sua casa e herança o marquez de Villa
Viçosa, e como D. Fernando seu filho passou em Africa, e de
vinda foi feito conde de Guimarães
E no anno de mil e quatrocentos e sessenta e um falleceu D.
Affonso, duque de Bragança, cuja casa e titulo e
herança sobcedeu D. Fernando, marquez de Villa
Viçosa, seu filho segundo; porque o marquez de
Valença seu filho maior era já sem
filhos legitimos fallecido como já disse.
E entre os filhos que este segundo duque tinha, o maior era D.
Fernando, que por acrescentar em sua honra, tendo para a dita passagem
dos cavallos feita muita despeza, pediu a El-Rei licença
para se ir a Alcacere como foi no mez d'Abril do dito anno, com
duzentos de cavallo e mil homens de pé, em que entraram
muitos fidalgos e outra nobre gente da côrte. E d'Alcacere em
companhia de D. Affonso de Vasconcellos, que depois foi conde de
Penella, e do conde
D.
Duarte, a que o duque seu padre e elle tinham grande
affeição, entraram muitas vezes em terra
de mouros, e foram correr até ás portas da cidade
de
Tangere, onde se fizeram honrosos feitos d'armas, e de que trouxeram
grande numero de captivos e mui grandes cavalgadas. E fizeram outras
cousas, em que D. Fernando ganhou bom nome e muita honra, com a qual se
tornou a estes reinos logo no mez de Junho seguinte. E El-Rei por seus
serviços e merecimentos o fez primeiro conde de
Guimarães, porque depois quando casou com a duqueza D.
Isabel filha do Infante D. Fernando, por honra de tão
honrado casamento foi em vida de seu padre feito e intitulado duque da
mesma Villa de Guimarães.
CAPITULO CXLVI
De
como falleceu a Infante D. Caterina,
sendo
já concertada para casar
N'este anno era
tratado e concordado casamento entre a Infante D.
Caterina, irmã d'El Rei, com D. Carlos, Principe de Navarra
e d'Aragão; e porque o dito Principe falleceu, foi a dita
Infante levada ao mosteiro de Santa Clara de Lisboa, e sendo concertado
depois casamento entre ella e El-Rei D. Duarte de Inglaterra, ella
adoeceu de febre, e com nome de mui honesta e virtuosa Princeza
falleceu no mesmo mosteiro, e foi seu corpo trazido ao mosteiro de
Santo Eloi de Lisboa, onde na capella da mão direita jaz mui
honradamente sepultada.
CAPITULO CXLVII
De como foi a ida d'El-Rei em Africa
com
os dois mil de cavallo, e do escallamento de Tangere
E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e dois, se
principiou e ordenou a ida d'El-Rei em Africa, sobre o escalamento de
Tangere, que foi n'esta maneira.
Havia n'este tempo em casa d'El-Rei Diogo de Bairros e João
Falcão, homens mancebos e fidalgos, que desejosos
d'acrescentar em suas honras pediram a El-Rei licença, e
lh'a deu, para irem ao soldo que El-Rei de Fez então
apregoara em seu reino contra outros mouros seus imigos e reveis, os
quaes para melhor seu aviamento se passaram a Andaluzia pedir cartas ao
duque de Medina Sidonia, com que o dito Rei de Fez tinha paz e
mostrança de singular amizade.
E o duque com respeito de serviço d'El-Rei não
vendo para isso sua carta se escusou, pelo qual conveiu a estes pedir a
El-Rei que por sua carta lh'o encommendasse, e em tanto porque o conde
de Viana acertou d'entrar de Alcacere em terra de mouros, foram estes
com elle na entrada, onde por caso Diogo de Bairros topou um
João d'Escalona, de Tarifa, que já em Tangere
foram ambos captivos e em poder de um senhor. E praticando entre si
sobre um cano que era nos muros da cidade aberto e sahia para
fóra, se por elle haveria disposição
de entrar n'ella
gente: acharam que em alguma maneira seria possivel, e com isto
tornando-se estes a casa do duque acharam cartas d'El-Rei, porque lhes
revogou a licença e mandou que logo se tornassem
á sua côrte, o que
cumpriram, e acharam El-Rei em Cintra, onde a voltas da conta
que lhe deram de sua
jornada, tocaram na pratica do cano para se entrar Tangere, que no
coração
d'El-Rei fez logo muita impressão. E com isso os tornou a
mandar providos de mercê e de cartas para o conde de Viana, e
asi para João d'Escalona, e para outro Sancho Fernandez, de
Tarifa, seu tio, que tinha um bregantim e era bom piloto, que para o
caso cumpria e se não podia escusar.
Passaram todos em Alcacere, e recontaram ao conde o proposito do cano
de Tangere com que iam, o qual anichillou de todo sua fantesia, e
concordaram que se não podia fazer, e acordado Diogo de
Bairros d'outra parte do muro por onde a cidade melhor se podia escalar
e mais a salvamento, depois de sobr'isso praticarem, foram por
aviamento do conde com boa dessimulação
vêr o dito logar, e com quanto a cidade se velava,
porém todos tres por uma escada de corda subiram ao muro,
por onde andaram, e sem algum alvoroço nem sentimento
colheram hervas d'elle, com que se tornaram a Alcacere, e de hi a
Portugal, e com elles João d'Escalona, onde depois de a El
Rei dizerem todo o que acharam e experimentaram, ficou muito contente,
e
sobr'isso praticou logo com o
Infante D. Fernando seu irmão. E concordaram que para este
caso haver secretamente bom effeito, que o Infante com desejo de honra
e outros respeitos e
obrigações que mostrasse ter para passar em
Africa, pedisse a El-Rei para isso licença, porque com esta
mostrança este feito se poderia melhor e mais encobertamente
fazer, e assi se cumprio.
E porém a tenção propria e verdadeira
d'El-Rei, em caso que logo a não revelasse, foi ser tambem
na passagem que outro si logo foi divulgada. Em cujos percebimentos e
apurações se seguiram tantos estrondos e
alvoroços que os mouros, e principalmente os de
Tangere, como do dano de tal passagem
mais receosos foram de todo, e para todo logo avisados e percebidos, o
que El-Rei por o conde de Viana logo soube, pedindo-lhe que
para cousa tão feita como esta de Tangere em seus
começos parecia, com semelhantes estrondos a
não desfizesse nem danasse, para que abastaria
não tanta gente como a de que se percebia, que pouca e pouca
podia dessimuladamente vir a Alcacere, e d'alli o feito se faria com
segurança e salvamento.
E a este siso não obedeceu o apetito d'El Rei, para que
ajudou o conde de Villa Real, que a este tempo estava na
côrte, e com o conde de Viana não era em
muito accordo; porque envejoso da gloria e honra que se a outrem
aparelhava, por ter n'ella parte como por seu nobre e
esforçado coração
sempre desejou, por seus meios e modos que por si e seus parentes
buscou, teve maneira que El-Rei o mettesse n'este feito, em que lhe
diziam não ser razão que por dito de
dois homens elle com seu reino se aventurasse, e que ante de o cometer
convinha que tal pessoa como era o conde de Villa Real com elles em
pessoa fizesse juntamente a mesma experiencia. E que El-Rei para ser
desenganado era bem que estreitamente lh'o encommendasse, especialmente
que elle era tal que buscaria em Tangere outros logares por onde a
cidade melhor e mais seguramente se cobrasse. Anichilando como suspeito
o conselho do conde de Viana, atribuindo-lh'o a cautelosas manhas com
que á custa alheia queria sempre ganhar honra e
acrescentamento para si. E em fim, o conde de Villa Real foi d'El-Rei
para isso rogado, e elle acceitou a ida com encarecimentos de receber
morte e captiveiro por seu serviço, pedindo-lhe que, se
lembrasse em tal caso d'elle e de seus filhos. A, que El-Rei logo
d'ante mão satisfez concedendo-lhe
liberalmente á custa dos
bens de sua corôa, mui
grandes e duvidosos requerimentos que com elle trazia.
O conde de Villa Real partiu de Lisboa no anno de mil e quatrocentos e
sessenta e tres, com elle Diogo de Bairros e João
d'Escalona, e no caminho se ajuntou com elles João
Falcão, e chegaram a Lagos onde a condessa sua mulher estava
parida de D. Fernando seu filho primeiro, e d'alli a levou a Ceuta, e
d'hi com achaque de buscar gente com que poderosamente entrasse em
terra de mouros passou em Tarifa, d'onde por mar foi vêr o
lugar do escalamento, a que não sahiu do mar, nem foi n'elle
por causa da muita tardança que fizeram os que primeiro
sahiram. A que se juntaram mais Lourenço de Caceres, adail,
e Pedro Affonso, os quaes acharam o lugar bem desposto e sem alguma
mudança, e com isso se foi o conde mui alegre a Gibaltar,
que o anno passado fôra aos mouros filhada, d'onde logo
avisou El-Rei da boa
desposição do feito, para o qual ficou alli
precebendo manhosamente a mais gente que pôde para a passar a
Ceuta, como passou, em que foram cento e cincoenta de cavallo e
quatrocentos de pé, com fundamento entre El-Rei e o conde
já concertado, que no dia que El-Rei por mar houvesse de ser
no escallamento de Tangere, a que havia de ir da banda de Castela, de
um lugar que se diz Bollonha, esse mesmo dia entrasse o conde por terra
e fosse sobre a cidade para soccorrer e ajudar os que n'ella subissem e
entrassem, e assi impedir qualquer soccorro que aos mouros da cidade de
fóra viesse. E porém na partida
d'El-Rei e do Infante se pôs tanta
dillação
além do tempo que tinham assignado, que o conde sem
descobrir o caso não pôde reter mais a gente
estrangeira que
sustinha, e a despediu.
CAPITULO CXLVIII
Da
grande e danosa tormenta que El-Rei
e o Infante passaram
no mar
El-rei e o Infante
cuja passagem de todo era descoberta e divulgada,
sendo prestes partiram de Lisboa segunda feira sete dias de Novembro do
dito anno de mil e quatrocentos sessenta e tres, com vento algum tanto
contrairo para sua viagem, e á quarta chegaram a Lagos, e
ahi recolheu El-Rei o conde d'Odemira e o almirante, donde contra
conselho de todolos pilotos e mareantes, partiu com assaz fortuna de
tempo, o qual carregou tanto sobre a frota, que El-Rei para salvar sua
pessoa foi aconselhado que se acolhesse ao porto de Silves, o que
erradamente não quiz fazer; antes mandou guiar a
prôa direita de seu navio, porque sem torcer nem se deter
seguisse sua viagem, e sobre a noite a tormenta se dobrou tanto, que os
navios todos correram grande risco de se perder, e os mais por
segurarem suas vidas alijaram com grande perda muita parte de suas
fazendas, salvo El-Rei, que não consentiu que do seu navio
se alijasse com medo cousa alguma. Perdeu-se n'esta tormenta o navio de
D. Affonso de Vasconcellos, cuja fazenda e muitos nobres homens se
alagou, e as pessoas por milagre se salvaram, e assi sossobrou de todo
o mar uma caravella, em que se perdeu grande fazenda de muitos.
E mais morreram Lourenço de Guimarães, e
João Vogado, escrivães da fazenda d'El-Rei, e
Gonçallo
Cardoso, escrivão da camara, e um rei d'armas Portugal, com
outros muitos e bons homens e muita fazenda, e n'esta tormenta andou
El-Rei com o Infante
seu irmão até o sabado, que só sem
alguma outra companhia entraram no estreito, e havendo o conde D.
Duarte conhecimento d'El-Rei pela bandeira real e capitoa que o seu
navio trazia, foi-lhe fallar no mar, e com elle Pero
d'Alcaçova que a elle fôra enviado
com o aviso e ardil de sua vinda, e depois de se El-Rei lamentar pelo
desaviamento de seu proposito, que era não poder desembarcar
da parte de Castella, e o conde o confortar mais que reprender pelo
erro que fizera, El-Rei e o Infante se partiram para Ceuta, onde poucos
e poucos recolheram ao domingo seus navios, e cada um com grande perda
e muito destroço, e assi o duque e seus filhos com outros
muitos fidalgos, que escapando da tormenta milagrosamente sahiram todos
em terra em camisas e descalços, e assi foram em romaria a
Santa Maria d'Africa, com que provocaram todos a grande
devoção.
CAPITULO CXLIX
De
como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere
E depois d'El-Rei declarar sua tenção de tornar a
Tangere, por cuja fim alli viera, se partio
para Alcacere d'onde enviou logo doze navios de remo com gente
escolhida para irem escalar a cidade, cujo capitão foi Luiz
Mendes de Vasconcellos, homem fidalgo, e nas cousas do mar bem
entendido, com fundamento de El-Rei com seu poder os socorrer
á hora do escalamento por terra, e porém o conde
D. Duarte contradisse muito o cometimento por mar,
pelas incertidões e perigos que tem, mas
não foi
crido, e Luiz
Mendes
todavia partio bem avisado do que
á sahida do mar e á entrada da cidade havia de
fazer.
El-Rei e o Infante e o senhor D. Pedro seu primo, e o duque e condes e
toda a outra gente partiram por terra, e uma hora ante manhã
chegaram acerca de Tangere, e os que foram nos navios á hora
do desembarcar acharam o mar tão bravo, que não
ousaram por aquella vez sahir em terra, e ao recolher dos navios
havendo os mouros da cidade vista d'elles pelo aviso que já
sobre si tinham, fizeram almenaras na cidade, e mandaram poer fogo
ás bombardas que pelo muro tinham. E porque aquelle era o
signal que se havia de fazer quando a cidade se entrasse, foi El-Rei e
todos os que com elle eram mui alegres, e assi abalaram logo rijamente
e não sem devida ordenança, mas não
tardou muito que foram em conhecimento da verdade, que todo seu prazer
converteu em tristeza, e toda esperança do feito em
desesperação, e com tudo El Rei com a cara mui
segura como seu real coração era sempre nos
perigos, foi com sua gente
á vista da cidade, que esteve olhando um pouco, e em se
recolhendo disse contra muitos,
não
me leixastes crêr ao conde D. Duarte, por ventura se o fizera
esta vinda se empregara melhor, e então se
tornou logo a Alcacere, e d'ahi para Ceuta, e com elle o Infante seu
irmão.
CAPITULO CL
De como o Infante D. Fernando sem
El-Rei entrou d'Alcacere e
correu a terra aos mouros
E porque veiu nova que o conde de Vianna e o conde de
Guimarães queriam fazer d'Alcacere uma entrada em terra de
mouros, quiz o Infante ser n'ella, e pediu licença a El-Rei,
que para
isso e para
repartir e affrouxar o apousentamento em Ceuta lh'a deu, e a El-Rei foi
commettido que fosse
em pessoa, mas elle por algumas justas causas que apontou o
não houve por bem, e estimou por mais sua honra e
serviço, antes em seu nome ir um seu
capitão tão poderoso, e tal pessoa como era o
Infante.
E aos quatro dias do mez de Dezembro o Infante partiu d'Alcacere com
todolos senhores da hoste, salvo o duque e o conde de Villa Real, que
ficaram em Ceuta, e foi correr umas aldêas, que
são na
faldra da serra de Benaminir, terra muito fragosa e muito povorada,
onde segundo fama vive a melhor gente de peleja d'aquella frontaria, de
que mataram até duzentos mouros, e trouxeram captivos
duzentas e vinte almas com muito gado e outro grande despojo, e se
tornou a Alcacere, e dos christãos por máo
resguardo morreram até quinze.
Quiz o Infante haver, e houve para si o quinto d'esta cavalgada, com
muito aggravo do conde de Vianna, e não sem algum prasmo e
geral reprensão do mesmo Infante, que por seu alto sangue e
real condição, saindo d'Alcacere devia em caso
que lhe
pertencera fazer d'elle mercê ao dito conde, quanto mais que
os quintos da villa de direito e por
doação pertenciam ao dito conde, a quem El-Rei o
compoz e satisfez depois com dinheiro de sua fazenda.
CAPITULO CLI