De como o Senhor D. Pedro, filho do
Infante D. Pedro, se foi
de Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão
E porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o
Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade
acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que
para isso houve foi n'esta maneira.
Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles,
não ficou filho algum legitimo que o herdasse, e
sómente lhe ficou um filho bastardo, D. Fernando, que depois
da morte d'El-Rei seu padre, por favores e grandes riquezas que lhe
leixou, herdou e teve o reino de Napoles; era irmão d'El-Rei
D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que herdara este reino
por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou, de que
houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de Castella, de
que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D.
Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se
chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por
haver liança para suas contendas, que em Castella e
Aragão tinha, casou com uma filha do almirante de Castella,
de que tendo já filhos sobcedeu por morte do dito Rei D.
Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de
Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da
madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger,
pois a elle
in
solidum por contracto pertencia, e porque o pae
não disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos,
até que o
dito Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a
Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que
foi julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á
Rainha sua madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal
que os reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D.
Fernando filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e
d'Aragão, de que os povos foram mui tristes e anojados;
porque D. Carlos era Principe de muitas virtudes, e lhes dava
esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de Barcellona,
com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a El-Rei D.
João, e a deram a El-Rei de França, que os
deffendeu um tempo, até que se concertou com El-Rei D.
João, que pelo não
guerrear lhe leixou o condado de Roselhão pacifico, em que
entrou Perpinhão, e anojados d'isso os de
Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D.
Anrique de Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se
concertaram.
E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em
sua defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e
famosas vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor
João Fernandez da Silveira, que depois foi barão
d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D. Anrique enviados por El-Rei D.
Affonso.
E porém os regedores de Barcellona buscando já
por caminhos desesperados alguma esperança de sua
salvação, trataram secretamente com o dito Senhor
D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa
d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos
d'Aragão quizesse intitular-se d'elles, e assi receber logo
em seu senhorio e poder o principado de Catelonha com a cidade de
Barcellona com cujo poder
e forças, se o
coração e saber lhe
não fallecesse, cobraria o mais que El Rei D.
João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo
se aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe
fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns
fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi
aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que
não
sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e
tão honrada que assi livremente lh'offereciam, mas ainda que
a devia trabalhar e requerer, e com ella antes morrer, que viver nos
desfavores e desprezos e mingoas em que vivia. Com as quaes cousas
movido o dito D. Pedro, determinou aceitar a dita empresa, e por seus
assinados e sellos assi o certificou e segurou á dita
cidade.
E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a
Ceuta, onde sobre concerto vieram armadas duas gallés de
Barcellona, com mostrança que
vinham a seu trafego d'armada.
D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e
quando tornou a Ceuta achou hi as galés, de cujos
patrões e regedores que n'ellas vinham, foi de sua
tenção certificado, que era logo o levarem, e
depois de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu
irmão, e o conde de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador
Mór de Lisboa o quizesse ouvir, elle com palavras de muita
obediencia e autoridade disse a El-Rei todo o movimento passado, e que
a este fim eram vindas aquellas galés, pedindo-lhe para isso
licença, allegando-lhe muitas razões porque o
devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua
feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.
E leixadas muitas alterações que sobre isso
houveram, El-Rei por então não se pôde
escusar, e
lhe outorgou
a dita
licença; e porque o conde de Villa Real tinha grande
afeição pela muita honra
mercê, que o Infante D. Pedro em regendo sempre lhe fizera,
offereceu e deu logo ao dito Senhor D. Pedro, prata e bons
corregimentos de casa, e depois lhe enviou cavallos e gente d'armas, o
que outro algum do reino não fez. E porém
começou El-Rei de
dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com fundamento
de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera de gentes
e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande
paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava
vêr-se com El-Rei D. Anrique, de que receava que sua ida em
Aragão sendo revellada receberia total embargo, e com elle
manifesta queda de tamanha honra como parecia que se lhe aparelhava.
E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida,
presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir
remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite,
porque os patrões já mais não queriam
esperar, se metteu nas galés e se foi com elles, e a El-Rei
leixou por escripto a causa porque assi se partira, e a leal
tenção que levava para sempre o servir. Mas
n'esta prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com
peçonha sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior
jaz sepultado.
CAPITULO CLII
De como o escallamento de Tangere se
commetteu a
segunda vez pelo Infante D. Fernando sem consentimento d'El-Rei
Estando El-Rei em
Ceuta, algumas vezes commetteu entrar e ir sobre
Arzilla, com desejo e apparelhos de a tomar, e tantas contrariedades
recebeu para isso dos grandes invernos que logo sobrevinham, que nunca
seu desejo com seus commettimentos poderam vir a algum
effeito, e da derradeira vez d'Alcacere se tornou El-Rei para
Ceuta, havendo que o
escallamento de Tangere era a elle desesperado; porque cria
que aos
mouros era já descoberto, assi por christãos que
captivaram, como por mouros que fugiam, que todos lh'o diriam,
em
especial pela gente sua que viram quando a primeira vez sobre a cidade
foi amanhecer.
E porém em se partindo disse ao Infante seu irmão
que por conselho e accordo dos condes, que com elle eram, mandasse
tentar a dita entrada ou outra alguma, porque a cidade bem se podesse
filhar, e se tal fosse o avisasse; porque quando não viesse
com toda sua gente e poder, ao menos como cavalleiro, e com poucos,
folgaria ser no feito.
O Infante sobr'isto mandou algumas vezes tentar e experimentar o dito
escalamento, que se achou e examinou estar ainda sem alguma
innovação, e
para se fazer como cumpria, pelo qual determinou fazer-lo por si sem
El'Rei. Dizendo que do sentimento que algumas escutas dos mouros
haveriam de sua vinda, poderiam os de Tangere receber tal aviso, com
que o feito de todo se perdesse, e porém ante de sua
partida,
tendo conselho com
muitos e principaes homens que com elle estavam, Fernão
Tellez lhe disse que era presente:
«Senhor, n'esta determinação que
tomaes, e em que nos pedis conselho, ante de dizer meu voto, queria de
vós saber primeiro duas cousas, a primeira se houvestes
licença d'El-Rei para só fazerdes o feito, e a
segunda se tendes para elle gente que vos abaste».
E o conde d'Odemira vendo que aquelles eram pontos sustanciaes e que em
todo contradiziam á vontade e proposito do Infante, pelo
lisonjar para a commissão de Mertola, e da Commenda
Mór de
Santiago, que lhe então requeria e houve, respondeu logo a
Fernão Tellez com palavras assi irosas e asperas, em que o
Infante consentio, que no exemplo d'este aprenderam os outros o que no
caso diriam.
E porém o Infante, porque a pergunta de Fernão
Tellez ácerca da gente lhe pareceu boa e necessaria, quiz
saber de todos de que gente para o feito se perceberia. Em que houve
muitas sentenças, e com alguma o commettimento do infante
(por lhe não desprazerem) se desfazia, anichillando em todo
a resistencia e fraqueza dos mouros, salvo com a do conde de Viana que
disse:
«Senhor, eu não sei como estes senhores entendem
isto que vos conselham, não querendo para acabar este feito,
uns dizem vinte, e outros ao mais cento homens, pois eu Senhor
não sou mais sandeu, e certifico-vos que me pesaria ser dos
quinhentos que o commetessem para o bem acabar; porque quem bem
consirar que por força ha-de lançar
fóra de suas casas, e de tal cidade como é
Tangere, a cerca de tres mil homens de peleja que n'ella vivem, e lhe
haver de captivar suas mulheres e filhos, e roubar suas fazendas, em
cujo amor se criaram e vivem, a razão lhe
ensinará a gente que lhe
cumprirá para vencer
tantas forças, quanto mais que esta gente não
são alarves com cajados por armas, mas é bem
armada, feroz e ousada, e já se não
hão d'espantar das
mortes das mulheres e filhos; porque já muitas vezes as
viram e padeceram, por isso Senhor vêde bem primeiro o em que
vos meteis».
Mas o Infante pelo ardente desejo que para isso tinha, pospostas
todalas contradições, determinou de o fazer, de
que alguns tiveram que o Infante por seu mui nobre e alto
coração com que sempre suspirou por grandes e
arduas empresas, não se contentava fazer nenhuma cousa, por
boa e façanhosa que fosse, sendo debaixo de mando e
capitania d'outrem, ainda que fôra um grande Imperador.
E porém Diogo de Bairros, e João
Falcão tiveram maneira que logo El-Rei fosse em Ceuta, como
foi por elles de todo avisado, e de noite como El-Rei houve o aviso,
logo a grande pressa mandou diante o Chichorro com vinte ginetes, para
que o Infante sobresevesse em sua partida até sua chegada,
mas o Chichorro achou já o Infante partido, e El-Rei com
grão trigança partiu logo apóz elles
acerca de sol
posto com oito de cavallo e muita gente de pé, que de
cançada
ficou em
Alcacere. E assi apressou
seu caminho que ante manhã chegou aos medoõs que
são junto de Tangere.
E porque não topou com seu irmão, que
fôra por outro caminho e ficava atrás, houve por
sem duvida que elle era já dentro na cidade com o feito
prosperamente acabado, pela qual maginação elle e
todos davam muitas graças e louvores a Deus, e
porém estando assi com os ouvidos álerta,
esperando a grita e rumor da cidade, chegou a El-Rei o marechal, que o
Infante mandara correr a cidade, por dessimular o
escallamento a que com tempo devido
não podera chegar; porque como o Infante no caminho viu que
a noite lhe fallecia para n'ella chegar á cidade,
lançou-se a duas legoas em cillada, e por
dissimulação mandou correr com fundamento de ao
outro dia tornar commetter o feito. Mas El-Rei com
mostranças mais de tristeza que d'alegria se tornou a
Alcacere, mui cansado e todolos seus; porque sem descer nem repousar
andaram as maiores, nem mais fragosas quinze legoas que podem assignar,
e o Infante onde estava em cillada, como soube da vinda e
descontentamento d'El-Rei, partiu logo, e foi-se tambem a Alcacere
anojado do conde D. Duarte, de quem suspeitou que o aviso d'El-Rei
procedera. Mas o Infante não pôde escapar a uma
grave e aspera
reprensão que El-Rei seu irmão lhe fez pela
perigosa ousadia que sem sua licença e contra seu mandado
commettera.
CAPITULO CLIII
De como o escallamento de Tangere se
commetteu
finalmente a terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado
sobcedimento que houve
Partiu-se El-Rei para
Ceuta, com fundamento de se vêr com
El-Rei de Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante
ficou em Alcacere, onde pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo
não desistir do mesmo escallamento que
havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle lhe
vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle
de todo desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte
não fosse com elle; porque além de
não ser
necessario, segundo elle sabia entoar suas cousas, cresse que todo o
merecimento do feito quanto se bem fizesse havia de atribuir a si
mesmo.
E a tenção de tal conselho bem parece que de
inveja, ou d'alguma outra paixão ia propriamente guiada e
mais que da verdade, segundo a qual o conde D. Duarte fôra
para conselho e ajuda de tal feito mui necessario; porque pelo
acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado por mui
singular capitão.
Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se
se podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu,
dizendo-lhe que segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle
tão contraira o havia de todo por perdido, e
porém o leixava nas mãos de
Deus e nas suas, e visse se por alguma maneira podia tomar o lugar;
porque posto que lhe prouvesse muito acertar-se no feito;
porém muito mais lhe pesaria perder-se, se sem elle se
podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante a Alcacere, sem o querer
revelar em Ceuta, receando não se poder escusar do conde D.
Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de requerer. E
depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do
escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta
e quatro partiu
d'Alcacere, e
mandou levar
quatro escadas, de que deu cargo áquellas pessoas em que
entendeu que havia saber e esforço para isso.
E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do
feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o
cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á
vista de todos um espantoso cometa, que lançava de si muitos
raios de fogo em figura de dragão. Ali disse
então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande
coração:
«Oh! noite má,
para quem t'aparelhas»,
que ficou em proverbio muito tempo acostumado.
E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde
porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas
ante manhã. E
logo Diogo de Bairros, e João Falcão como
principaes movedores do feito, pediram e requereram a alguns do
conselho d'El-Rei e do Infante que hi eram, que juntamente fossem com
elles como testemunhas vêr como estava; porque se por algum
caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por verdadeiros e livres
da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo pareceu bem
acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as escadas
não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros
descesse do castello para fundo.
E aqui é de saber que este lanço de muro porque o
escallamento era ordenado, cerra no castello da parte do
sertão em que ha cinco cubellos, em fim dos quaes seguindo
para fundo está uma torre que se chamava de Gillahare.
E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte
levadiça, acordaram os christãos,
que por quanto os mouros do castello sentindo a gente no muro poderiam
sahir pela ponte e impedir e damnificar os que subissem pelas escadas,
que a gente assi como subisse no muro, assi se mettesse logo entre a
dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos mouros que do castello
quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a fundo para tomarem
outra torre que está sobre um postigo, que se chama de
Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e
seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui
livremente sem perigo nem contradição dos mouros,
e a segunda senhoreavam a
escada do muro para que a
salvo podiam descer e entrar para a cidade.
E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no
muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E
acertou-se que a rolda dos mouros havendo já d'elles algum
sentimento estava lançada entre as ameas d'aquella parte,
para
differençar bem se eram os barbaros da serra, que
ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao
pé
do muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço
tomou para de sua duvida se certificar, que dos christãos
houveram sessenta lugar para subir, que por pontos d'honra em taes
tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram guardar o que
entre elles fôra concordado. Pelo qual João
Falcão vendo
começos de tanto desmando, disse a João de Sousa
que tomasse ou matasse um mouro guarda que tinha ante si. E
João de Sousa como fidalgo acordado e de bom
coração remetteu a elle, o qual da sombra da
morte que comsigo viu, acabou ser desenganado de sua duvida e
começou de se poer em defesa, e em João de Sousa
correndo a lança nas mãos para lhe dar, o mouro
em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar,
d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com
elles o damno dos christãos que se aparelhava, e os
christãos como
os ouviram sem mais outra consiração, crendo que
outra sua grita ao menos para desmaio dos contrairos aproveitaria
muito, logo a deram com altas vozes, e não sem grande
estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros
acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa
de tamanho rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro
porque os christãos haviam de passar. Os quaes assi como
viram os nossos estar no muro, assi se tornaram
e pozeram á porta da
torre, de que podiam bem defender aos christãos a passagem
do muro para o não poderem descer para a cidade; porque com
sós paos sem outras armas, aos que por elle passassem,
segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo,
e assi o faziam, e os christãos não
podendo já passar não leixavam por isso de subir;
porque
o Infante era já ao pé do muro, que a uns por
amor,
e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam
não podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e
outros descendo para fundo não podendo passar ficavam
amontoados, sem poderem aproveitar a si nem danar aos contrairos.
A cidade era já toda posta em armas e grande
alvoroço, e como o alcaide que se chamava Abrahem Benaamet
foi por si certificado que nas outras partes da
cidade não havia
outro commetimento nem affronta
que muito receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade
de fogo, e com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou
metter no pomar que era defronte d'onde os christãos
estavam, matavam e feriam muitos, e muitos em se
revolvendo cahiam do muro entre elles, que claramente eram
logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello, que
sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no
muro, ainda que não foi sem grande peleja que sobr'isso
houve, e foi de maneira que do castello e de todalas partes, os mouros
sem algum seu perigo faziam um piadoso estrago nos
christãos, porque sendo as escallas tomadas
não tinham algum remedio de salvação.
O que todo bem visto por João de Sousa, disse ao Infante de
cima do muro, que não mandasse subir mais gente; porque o
feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o Infante sobre
esperança de tanta alegria, ouvindo recado
tão certo e
tão triste, não
menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de
troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo
que o que fosse de tão bons criados e servidores como
já dentro eram, seria d'elle até com elles
morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór de
Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom
esforço o detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e
nobre que fosse, em caso que Portugal a perdesse, bem
poderia cobrar outra tal e melhor; mas não a elle que era
tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para sempre muita
mingua e grande necessidade, e que não desse causa que
Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com
estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o
Infante obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se
tornou para Alcacere.
E dos christãos entre mortos e captivos ficaram trezentos,
todos os mais homens escolhidos e especiaes, duzentos mortos e cento
captivos, e dos mortos foram principaes, D. Gonçalo
Coutinho, conde de Marialva, e D. Rodrigo seu filho bastardo, e Gomes
Freire d'Andrade, e D. Jorge de Crasto, filho de D. Alvaro, que depois
foi conde de Monsanto, e D. João de Eça, e
João de Taide, e Pedro Coelho, e Rui
Diaz Lobo, e Pero de Sousa seu irmão, Fernão de
Macedo, e Pedro de Macedo seu irmão, e Alvaro de
Sá, e
Fernão Vaz Côrte Real, Rui Paes, e Pero Paes,
filhos de Payo Rodriguez, Contador Môr, e assi outros muitos
e bons cavalleiros e homens de nobre sangue e bom
coração.
E dos captivos principaes, que aos cubellos se recolheram e preitejaram
com os mouros, foi D. Fernando Coutinho, marechal, Fernão
Tellez, Ruy Lopez Coutinho, João Falcão, e Diogo
da Silva, que depois foi
conde de Portalegre, Garcia de Mello, D. Alvaro de Lima, filho do
visconde D. Lionel de Lima; e outros muitos até o dito
numero, em cujos grandes resgates além das mortes de tanta e
tão nobre gente, o
reino recebeu uma durosa magua e grandissima perda, a qual testemunhou
bem com os grandes prantos e geraes lamentações
que em todo elle por este caso se
fizeram, e na gloria da victoria que os mouros tinham, praticando e
examinando se entre os christãos mortos ou captivos seria hi
o conde D. Duarte, respondeu um velho e entre elles de grande
auctoridade:
«não busqueis hi o conde D. Duarte; porque na
grande desordenança
dos christãos vi eu bem que não andava
hi».
CAPITULO CLIV
Como El-Rei foi d'este triste caso
avisado em Ceuta, o dia
que tinha concertadas vistas em Gibaltar com El-Rei de Castella, a que
todavia foi, e o fundamento das ditas vistas
Um Antão
Vaz, alfaqueque, era n'este desastrado caso, e como
viu o triste sobcedimento d'elle, logo a grande pressa o veiu notificar
á condessa de Viana, que era em Alcacere, a qual logo com
grande trigança por mar e por terra o fez saber a El-Rei,
cujos avisos, por impedimentos que no caminho houveram, precedeu um
outro, que o Infante em chegando a Alcacere logo lhe enviou por um seu
escudeiro, que chegou a El-Rei ante manhã, na hora que
estava de caminho para Gibaltar, onde por meio do conde de Ledesma
tinha vistas concertadas com El-Rei D. Anrique de Castella que o
já esperava.
E El-Rei não quiz desfazer sua ida, e porém
despachou o conde de Viana, que logo tornou ao Infante seu
irmão ao confortar e desapassionar do caso passado, que o
cumpriu com muita prudencia e despejo, e de que o Infante mostrou
receber algum descanço e menos dôr.
El-Rei em partindo avisou o escudeiro, que até
não ser no mar não dissese nada do caso, por
não
commover a choro e tristeza os senhores que em sua companhia tinha
ordenados, que eram o conde de
Guimarães,
e D. João seu
irmão, o conde de Monsanto, o conde da Atouguia, o Prior do
Crato, e muitos outros do conselho, e gentis homens fidalgos de sua
casa, com os quaes El-Rei passou a Gibaltar, onde El-Rei de Portugal e
El-Rei de Castella tiveram suas praticas e concordias, cuja sustancia
foi requerer El-Rei D. Anrique liança a El Rei D. Affonso,
para contra os grandes de Castella, que com desleal alevantamento
d'El-Rei D. Affonso o moço seu meio irmão lhe
queriam desobedecer, e que para ter mais razão de o ajudar,
queria que a Infante D. Isabel sua irmã casasse com El-Rei
D. Affonso; e D. Joanna que então era havida por sua filha,
e jurada por Princeza de Castella, casasse com D. João
Principe de Portugal. E sobr'isto fizeram acordos promettidos e jurados
nas mãos de D. Jorge, Bispo d'Evora, que depois foi
Arcebispo de Lisboa e Cardeal. Os quaes principalmente pela grande
inconstancia do dito Rei D. Anrique, e por impedimentos e
contradições outras que se seguiram
não houveram effeito.
E não sómente sobre estes casos os ditos Reis
fizeram esta vez estas vistas; mas depois outras com muitas embaixadas,
e porque d'ellas nunca resultou conclusão que entre elles se
executasse nem cumprisse, não farei agora d'ellas nem depois
muita
menção.
CAPITULO CLV
De
como El-Rei em pessoa correu o campo
d'Arzilla
Tornou-se El-Rei a
Ceuta, onde foi aconselhado que por quanto a boa
fortuna n'esta jornada d'Africa então lhe não
terçava
á sua vontade, consirada isso mesmo a perda da gente com
outros inconvenientes assaz efficazes, que sem mais fazer nem commetter
outra cousa se devia de tornar ao reino, e dar a seus vassallos algum
pão de paz e descanso. E
porém El-Rei sem embargo de todo determinou correr primeiro
o campo d'Arzila, e vê-la, com desejo de a tomar, o que logo
pôs em obra; porque partiu logo para Alcacere, e de hi com o
Infante passou a serra pelo porto d'Alfeixe, e em amanhecendo deram em
umas aldeias, que com o aviso e mêdo da ida d'El-Rei eram
já despovoradas, e porém correram legoa e meia
por outras partes, e n'aquellas principalmente que o Infante D.
Fernando barrejou mataram alguns mouros e captivaram muitos, e
arrancaram muito gado e outro despojo, com que já de noite
passaram o rio de Tagadarte, e junto com elle da banda d'Alcacere se
alojaram aquella noite. Na qual sobrevieram tantas chuvas, e
tão aspera tempestade com que a ribeira encheu de maneira,
que se a não tiveram passada e ficando alem d'ella, se
dispunham a mui certo perigo; porque a infinda gente dos mouros que
logo cresceu deu d'isso ao diante claro testemunho.
E por esta causa não pôde El-Rei vêr
Arzilla, de que recebeu então gram desprazer, e muito mais
depois que soube que os mouros da villa indo elle sobre ella tinham
determinado dar-lh'a, e virem ao caminho entregar-lhe as chaves, e
tornou-se a Ceuta onde os
cavallos e a gente por mau trato, e
por aspereza dos tempos lhe falleciam. E por isso logo
começou de declarar sua vinda e despedir a gente; e
porém El-Rei não era satifeito; porque em todo
o tempo d'esta passagem se não vira em alguma travada peleja
de mouros, como elle desejava.
CAPITULO CLVI
De como El-Rei D. Affonso foi correr a
serra de
Benafocú, e como foi em grande perigo, e como mataram os
mouros o conde D. Duarte, e a Diogo da Silveira, escrivão da
poridade
Estando El-Rei com
este descontentamento, que de seu animo grande e
esforçado procedia, vieram por caso
a Ceuta quatro mouros, que o metteram em grande
alvoroço de grande cavalgada e boa
escaramuça, que lhe
dariam na serra de Benacofú, onde havia
a mais guerreira gente d'Africa. E El-Rei com um natural desejo que
para isso tinha, e com outra sêde já de
vingança, fallou
com Lourenço de Caceres, adail, que foi
vêr, e lhe disse o
caminho que para aquelle podia levar.
Era em Ceuta o conde D. Duarte, e como quer que alli viera aforrado sem
cavallos, armas, nem gente para sómente despachar com elles
seus negocios, El-Rei mandou que fosse com elle, ao que obedeceu, e
porém com carregume e tristeza de sua morte, que a alma lhe
adivinhava, e logo publicamente o disse, que aquelle dia seria sua fim,
especialmente porque um Frei Luiz, D. Abbade do Mosteiro da Cerzeda,
homem estrangeiro, e de juizos d'astrologo mui certo lhe disse que
havia de morrer sob alheia capitania.
Partiu El-Rei com oitocentos de cavallo, e pouca gente de
pé, e foi-se alojar junto com o castello
d'Almunhacar, onde repousou o outro dia quasi todo, e o Infante D.
Fernando seu irmão era já partido para
Portugal, e porém com El-Rei eram capitães e
pessoas principaes o duque de Bragança, o conde de
Guimarães, e D. Affonso que depois foi conde de Faram, seus
filhos, e o conde de Villa Real, D. Affonso de Vasconcellos, que foi
depois conde de Penella, e o conde de Monsanto, e o conde de Vianna, e
D. Anrique seu filho, e outros muitos fidalgos e cavalleiros e nobres
homens com que partiu e entrou de noite na serra, que em todo para os
de pé era mui aspera e fragosa, quanto mais para cavallos
tão trabalhados,
e como foi manhã repartiram-se as gentes em capitanias, e
á ventura começaram de correr a terra, e os
mouros que por almenaras eram já d'esta entrada avisados,
uns embrenhavam suas mulheres e filhos nas mattas e serras que ali ha
mui fortes e com grande espessura, e outros com muita braveza e
esforço vinham travar escaramuças e pelejas, que
por uns e por outros houve em muitas partes mui bem pelejadas, em que
dos mouros entre mortos e feridos houve gram numero, e não
sem muito dano dos christãos, de que muitos em offender
mouros e defender e salvar christãos fizeram feitos mui
assignados.
El-Rei andou pelo espigão da serra; porque a encavalgou por
um de dois espinhaços que ella faz, e sahiu por outro, e foi
ter a uma grande aldeia cabeceira das outras, onde comeu e repousou um
pouco. E então mandou a Lopo d'Almeida e ao adail, que com a
gente necessaria levassem a cavalgada ao pé da serra onde o
esperassem, e d'ali abalou El Rei com mais vagar do que o tempo e a
terra requeriam, e de um cabeço em que se pôs,
mandou aos espingardeiros
e besteiros e gente de pé, que por mór
despejo se fossem diante caminho de Tutuam, onde aquella noite havia de
repousar, e depois de passado um grande espaço ainda com
passos vagarosos seguiu sua viagem, e após elle sem muito
alvoroço vinham
alguns mouros de cavallo, e sobresendo El-Rei disse:
«Parece-me que estes mouros na maneira em que vem mais
quererão paz que peleja», com os quaes esteve
á falla, querendo d'elles saber se queriam ser seus como os
outros, a que os mouros pediram horas d'acordo e consulta com outros
seus visinhos, que em grande somma eram postos em um cabeço
que El-Rei já
leixara; e porque a resposta tardava El-Rei abalou, e com seu
estandarte diante sobiu com os de cavallo a um cerro alto e de pedras e
barrocas mui fragoso; era na reguarda d'elle o conde de Villa Real e
bem detraz, e o conde de Guimarães pediu a El-Rei que por
quanto o conde seu cunhado ficava em grande perigo o mandasse com
espingardeiros e besteiros soccorrer, para que já se
não acharam, e El-Rei lhe mandou dizer que logo sem mais
esperar se recolhesse a elle; mas o conde como era esforçado
e singular
capitão, e nas manhas dos mouros assaz avisado, mandou dizer
a El-Rei que lhe despejasse o porto e se fosse embora; porque elle por
seu serviço se recolheria com sua honra e com dano dos
mouros.
E certamente como quer que o conde de Villa Real por sua bondade
d'armas outras vezes mereceu e ganhou grande honra e muito louvor,
n'este dia em especial o acrescentou muito mais; porque
álém de
se recolher como cumpria a um singular capitão, indo como
ardido cavalleiro, os imigos nas voltas e esperadas que n'elles muitas
vezes fez receberam muitas mortes e damnos.
Estando El-Rei n'aquelle teso, a sua gente cada vez
lhe mingoava mais, e a dos mouros
crescia contra elle em maior avantagem, e em vozes altas e iradas
disseram contra os christãos:
«Dizei a vosso Rei que não queremos com elle paz
se não crua guerra, e que saiba por estas barbas e
cabeças que tocamos, que hoje é o dia da nossa
vingança»
E em se El-Rei decendo da serra carregaram os mouros logo sobr'elle, e
das ilhargas feriam mui mal os cavallos, a que El-Rei com quatrocentos
de cavallo que com elle seriam, fez com muita destreza tres voltas
curtas, em que além d'outros feriu e matou per si um mouro
com muito despejo e ardideza, e porque o perigo sobre El-Rei recrecia
cada vez maior, alguma gente sua esquecida da lealdade e defendimento
que lhe deviam, lembrando-se mais de sua propria
salvação começavam de o desamparar, e
náo aproveitavam brados nem vozes, por bem que se n'elles
altamente afiasse a desleal vergonha com que em tal tempo leixavam seu
Rei com sua bandeira.
E vendo-se já El-Rei mui afrontado, sendo estreitamente
aconselhado que ao menos das serras se salvasse para o campo, chamou o
conde D. Duarte e disse-lhe:
«Conde, ficai com estes mouros, porque lhe conheceis melhor
as manhas, e acaudellai esta minha gente.»
E o conde lhe respondeu:
«Senhor, eu não quizera que em tal tempo me dereis
este cuidado, especialmente porque não tenho aqui minha
gente que me conhece, cá pois estes que são
presentes e vossos, não obedecem a vosso mandado, menos
cumprirão o meu, porém pois que o assi
haveis por vosso serviço, hei por muito bem empregado a mi
mesmo em qualquer trabalho e perigo que me acontecer, até
morte.»
E o conde não era em suas palavras enganado,
por que como El-Rei moveu, assi o
fizeram todos após elle, sem o conde poder aproveitar em
nada, antes seu cavallo logo lhe foi morto, e elle ferido, sobre que
acudiu o conde de Monsanto seu cunhado, trabalhando de o poer em outro
cavallo, em que se acertaram os loros tão
compridos, que o conde
com a perna direita nunca pôde vingar a sella, antes com a
espora feriu o cavallo nas ancas, que aos couces o
lançou logo no chão.
O conde D. Duarte não vendo já
esperança de sua vida, pediu ao conde de Monsanto que
salvasse a sua e o leixasse. E porém os mouros
carregaram sobre elle e leixaram alli seu corpo sem vida, e
não
sem primeiro sentirem muita vingança de sua morte, sendo
já primeiro junto com elle morto um Nuno Martins de
Villa-Lobos seu criado, que como bom recebeu aquella morte por lhe
querer soccorrer com seu cavallo de que se deceu.
E El-Rei com assaz afronta se recolheu por uma lomba a fundo, onde seu
estandarte nas mãos de Duarte d'Almeida, alferes, foi dos
mouros muitas vezes abatido, e fôra tomado se o
esforçado acordo
do alferes e valentia de Ruy de Sousa o não salvaram.
Foram alli mortos Diogo da Silveira, escrivão da poridade, e
Fernão de Sousa, alcaide de
Guimarães, e Luis Mendes de Vasconcellos, e Pero
Gonçalves, secretairo, e outros que acabaram como bons e
leaes cavalleiros.
Deceu El-Rei ao pé do monte ainda dos mouros
bem perseguido, e quizera
fazer sobr'elles uma volta, para com elles em pelleja esprementar sua
fortuna, mas por força de nobres homens que hi eram, vendo a
disposição de tamanho perigo, o tiraram e
passaram além de um rio, onde chegou a elle o conde
de Villa Real que sempre
ficara de tras, que seu braço e acordo escusou muito dano a
El-Rei, que em publico lhe disse: «Conde a fé
ficou hoje toda
em vós», e de hi contra vontade de muitos, El-Rei
se
foi aquella noite alojar a Tutuam, e ao outro dia partiu para Ceuta. E
no caminho fez vir ante si D. Anrique de Menezes, filho do conde D.
Duarte, e o confortou com louvores da honrada morte de seu pae, e com
esperança de grande acrecentamento, que por seus
serviços e merecimentos lhe faria como fez, porque alli o
fez conde, e lhe deu todalas mercês que seu pae tinha.
Verdade é que lhe tirou Vianna de Caminha, e lhe deu depois
Vallença com o titulo de conde d'ella, e depois o de
Loulé.
CAPITULO CLVII
De como El-Rei se veiu a Portugal e foi
em romaria, a
Guadalupe, e se viu com El-Rei D. Anrique e com a Rainha, sua mulher
Tanto que El-Rei
despachou suas cousas em Ceuta, se partiu logo para o
reino, e veiu desembarcar a Tavilla, e de hi foi ter a Evora a Pascoa
d'este anno de mil e quatrocentos e sessenta e quatro. Passada a qual
se foi a Elvas, e d'hi com alguns senhores e fidalgos escolhidos,
secretamente se foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe. E de hi para
concerto já praticado se foi ao lugar da ponte do Arcebispo,
onde se viu com El-Rei D. Anrique, e com a Rainha D. Joana sua
irmã. E alli tiveram as mesmas praticas e acordos de
Gibaltar sobre casamentos e lianças, que em fim
não houveram effeito,
porque a Infante D. Isabel de Castella,
contra vontade d'El-Rei D. Anrique, e por meio do Arcebispo de Tolledo
casou logo com D. Fernando, Principe d'Aragão e de Cicilia,
que depois reinaram pacificamente em Castella, e o Principe de Portugal
casou com a Senhora D. Lianor sua prima com irmã, filha
maior do Infante D. Fernando, que depois foi Rainha de Portugal.
N'este anno de mil e quatrocentos sessenta e quatro, no mez d'Agosto,
falleceu o Papa Pio, e sobcedeu após elle o Papa Paulo
segundo.
CAPITULO CLVIII
De como houve em Castella grande
devisão,
sobre que houve vistas na cidade da Guarda com a Rainha irmã
d'El-Rei
E no anno seguinte de
mil e quatrocentos e sessenta e cinco houve em
Castella entre El-Rei D. Anrique e os senhores do reino grande
differença; porque alguns por vicios e erros que lhe punham,
lhe alevantaram a obediencia e a deram ao Infante D. Affonso, que em
moço alevantaram por Rei, sobre a qual cousa a Rainha D.
Joana de Castella para pedir ajuda e socorro contra os revés
a El-Rei D. Anrique seu marido, e assi ainda sobre os ditos e
lianças veiu á cidade da Guarda em
Portugal. Onde El-Rei tambem veiu, e fez côrtes de todolos
grandes e povos de seus reinos, e todos a ellas vieram salvo o Infante
D. Fernando, que em vindo adoeceu na sua villa de Covilhã e
não
pôde estar n'ellas, nas quaes a Rainha em nome d'El-Rei e seu
requereu
a dita ajuda,
com fundamentos e causas que pareciam de honra, razão e
proveito, mas em fim conhecida a condição
variavel do dito Rei D. Anrique, e outras cousas mui perjudiciaes a
taes lianças, foi El-Rei aconselhado que em tal discordia e
empreza nem lianças se não antremettesse, da qual
cousa
com a mais honestidade que pôde se escusou. Como quer que nos
primeiros movimentos sua tenção foi
dar-lhe ajuda, para que antes d'estas côrtes fez alguns
percebimentos. E segundo o muito desejo que para isso tinha,
não fôra maravilha forçar as
prudentes vozes e acordos de seu conselho, se o dito Rei D. Anrique
fôra dos seus vassallos mais tempo desobedecido; mas falleceu
logo o dito Rei D. Affonso seu irmão e competidor, por cuja
morte todalas rebeliões e alvoroços cessaram em
Castella; porque os cavaleiros desobedientes não tendo
cabeça de seu alevantamento, volveram logo a obediencia
d'El-Rei D. Anrique.
CAPITULO CLIX
De como se concertou casamento entre o
Principe D.
João com a Senhora D. Lianor filha do Infante D. Fernando
E as cousas que nos annos seguintes de mil e
quatrocentos
sessenta e seis, sessenta e sete e sessenta e oito, n'estes reinos de
Portugal sobcederam, foi concerto que se fez do Principe D.
João, filho
d'El-Rei D. Affonso com a Senhora D. Lianor,
filha maior do Infante D.
Fernando; porque como quer que o dito Principe
muitas vezes
fôra d'El-Rei D. Anrique requerido para casar com a Senhora
D. Joana sua filha, Princeza que então se dizia
de Castella, e El-Rei D. Affonso era a
isso inclinado; porque no tempo d'este requerimento sobreveio o mau
sobcedimento do escallamento de Tangere, de que o Infante D. Fernando
ficou mui anojado e triste, e El-Rei D. Affonso seu irmão
pelo confortar e alegrar como era razão, e tambem porque a
dita Senhora D. Lianor sua filha por seu real sangue, muitas bondades,
e gram perfeição era dina de um grande Imperador,
prouve-lhe que o casamento do Principe seu filho se fizesse com ella. E
que emquanto ambos cumprissem a idade necessaria para contraer perfeito
matrimonio, se houvesse a despensação Apostolica
como se houve do Papa Paulo. E porém ao tempo que a dita
despensação veio, que foi no anno de
mil e quatrocentos e setenta, o Infante D. Fernando era fallecido como
se dirá.
CAPITULO CLX