De como o Infante D. Fernando passou
por si em Africa, e
tomou a cidade de Anafee
E no anno de sessenta e nove, o Infante D. Fernando como era de mui
nobre coração, de que nunca sahia um louvado
desejo d'acrecentar sua honra e estado, especialmente na guerra dos
mouros, que lhe já vinha por legitima
sobcessão, por licença e ajuda d'El-Rei seu
irmão, com
grande frota e muita e boa gente passou em Africa onde dizem as praias,
e sem muita resistencia tomou a cidade
d'Anafee,
que é na
costa do mar; porque os mouros vendo sobre si tamanha frota, com tanto
poder a que não podiam resistir, por salvarem suas vidas
desampararam a cidade, que foi logo entrada e roubada; e
porque era de grande cerca, cuja
defensão seria mui difficil, quizera o Infante manter com
fronteiros o castello, e finalmente depois de tudo bem consirado;
porque na frota não ia gente e mantimentos que podessem
leixar e soprir á deffensão da cidade, e
bastecimento de tamanhas paredes, acordaram de em muitas partes a
desportilhar e derribar, e tornar-se o Infante ao reino, e assi o fez.
O infante D. Fernando depois d'esta vinda d'Anafee adoeceu, e foi sua
doença algum tanto perlongada, durando a qual afirmou de
todo com El-Rei seu irmão o casamento do Principe com sua
filha. E concertou outro da Senhora D. Isabel tambem sua filha ligitima
com o conde de Guimarães, que por maior ennobrecimento
d'este casamento, El-Rei o fez duque da mesma villa de
Guimarães, sendo ainda vivo o duque de Bragança
seu padre, por cuja morte sobcedeu o titulo de dois ducados.
CAPITULO CLXI
Do
fallecimento do Infante D. Fernando, e dos filhos que
d'elle ficaram
E no anno de mil e quatrocentos e setenta, a dezoito dias do mez de
Setembro, o dito Infante D. Fernando falleceu, e deu sua alma a Deos em
Setuvel, em idade de XXXVII
annos, sendo El-Rei seu irmão e a Infante sua mulher
presentes, por cuja morte fizeram claros
sinaes de grande
dôr e sentimento; foi seu corpo logo enterrado no mosteiro de
S. Francisco da observancia, que é junto
com a dita villa, e de hi foram depois seus ossos com muita honra, e
grande solemnidade, treladados ao mosteiro da
Conceição de
Beja, onde jazem em sua mui honrada sepultura, a qual a Senhora Infante
D. Briatiz sua mulher como Princesa em toda mui virtuosa, juntamente
com o dito mosteiro de novo fundou e edificou com grandes suas
despesas, e perpetuamente o dotou de muitas rendas e singulares
ornamentos.
Ficaram d'elle quatro filhos, e as duas filhas que já disse,
e dos filhos o maior houve nome D. João, a que El-Rei fez
duque de Vizeu e de Beja, e lhe deu a governança dos
Mestrados de Christus e Santiago, com todo o mais que o Infante seu
padre tinha, e logo em moço falleceu, a que em todo sobcedeu
o filho segundo, que havia nome D. Diogo, salvo o Mestrado de Santiago,
que por prazer e consentimento da dita Infante foi dado ao Principe, e
este duque houve a fim que a Chronica d'El-Rei D. João faz
menção, e o terceiro filho houve nome D. Duarte,
que o Principe recolheu para si, e criando-o em sua casa com muita
honra e grande amor como proprio filho, falleceu em moço, e
o quarto houve nome D. Manuel, que por morte do duque D. Diogo o
sobcedeu logo como se dirá. E depois por seus merecimentos e
boa ventura, por fallecimento de ligitimo herdeiro que d'El-Rei D.
João seu primo ficasse, subcedeo os reinos de Portugal, em
que viva muitos annos para os fazer como faz em
titulos
e senhorios maiores,
mais ricos e mais bem aventurados.
E tambem houve D. Simão, que em moço falleceu de
sua doença natural.
E a XXII dias de
Janeiro do anno
de mil e quatrocentos setenta e um, em Setuvel, depois de vir a
despensação de Roma, o Principe D.
João recebeu por mulher por palavras de presente a Senhora
Princesa D. Lianor, entrando o Principe em idade de
XV annos. E por a
morte do Infante ser ainda tão fresca,
não se
fizeram em
seu recebimento as festas e prazeres que em outro tempo fôra
razão.
CAPITULO CLXII
De como tendo El-Rei determinado passar
em Africa, convertia
a armada contra os inglezes pela tomada, das náos de
Portugal, e desistiu d'isso pela morte do conde Baroique, e se ordenou
a ida sobre Arzilla
E n'este anno e assi no passado determinou El-Rei de passar em Africa,
para que teve em pessoa, e assi mandou ter praticas e conselhos em
Lisboa nas casas do conde de Monsanto.
E o primeiro desejo e movimento d'El-Rei foi ir sobre Tangere. Mas
porque para cercar e combater tamanha cidade, por então
não se achou no reino o
soprimento que era necessario, desistiu El-Rei d'este proposito, e com
fundamentos de bom conquistador, e com evidentes razões que
lhe foram apontadas, de que se tambem ao diante não perdia a
esperança do
cobramento de Tangere, assentou ir sobre Arzilla, que logo por Vicente
Simões, homem nas cousas do mar bem esperto e entendido, e
por Pero d'Alcaçova seu escrivão da fazenda e de
que muito fiava, mandou muitas vezes espiar e vêr, assim no
que cumpria para o ancorar e desembarcar do mar como para o assento da
terra. Em que com fingidos negocios com que os mouros tratavam,
acabaram de ser certificados de todo o que para uma cousa e para a
outra era necessario, de que perfeitamente avisaram El-Rei, que logo
mandou fazer no reino e fóra d'elle os percebimentos de
navios, armas e mantimentos para trinta mil homens,
com que determinou passar, e estando
El-Rei já casi prestes, foi certificado que doze
náos grossas de seus reinos vindo em canal de Frandes foram
tomadas, e suas mercadorias roubadas por Facumbrix, cosairo,
capitão e sobrinho do conde Baroique, que a este tempo
governava o reino de Inglaterra.
E sobre os agravos e lamentações que os
mercadores e povo d'estes reinos acerca de seus damnos e perdas fizeram
a El-Rei, elle teve logo conselho com os principaes de sua
côrte. E assi o enviou pedir aos grandes e senhores do seu
reino, que lh'o enviaram por escripto. Dos quaes sustancialmente foi
pela mór parte aconselhado, que a armada d'Africa que era
voluntaria, e convertesse por muitas razões esta contra os
inglezes, que era obrigatoria e necessaria. E que fosse grossa e de
muito e boa gente, para que d'algum castigo d'estes nascesse receio
aos outros muitos, que a seus vassallos não fizessem no mar
os males e damnos que cada dia e sem emenda lhe faziam. Á
qual parte El-Rei mais inclinado, ordenou armar grossamente, e dava por
capitão d'armada D. João filho do duque, que
depois foi Condestabre e marquez de
Montemór-o-Novo, e com elle carracas e muitas
náos grossas, e outros navios pequenos em grande numero.
E estando tudo já quasi prestes, veiu certidão a
El-Rei estando em Lisboa, no mez de Junho, que o dito conde Baroique, e
o Rei porque governava Inglaterra, eram em batalha mortos por El-Rei
Duarte, que depois pacificamente reinou, pelo qual El-Rei foi logo
movido cessar da dita armada, que para emenda e vingança do
dito conde fazia, e a mudar no primeiro proposito de passar em Africa,
sobre que primeiro se fundara. E que a entrega das náos e
mercadorias de seus reinos remedeasse como remedeou, e procurou por
embaixadas, que com pessoas d'autoridade
a Inglaterra e a Borgonha muitas
vezes depois enviou. E assi mandou pelo reino suas cartas de
percebimentos, com aviso que os condes e senhores sómente
levassem cavallos.
CAPITULO CLXIII
De como El-Rei levou comsigo o Principe
seu filho, e como
embarcaram, e com que gente e frota
Determinou El-Rei a
requerimento do Principe seu filho, e contra
conselho dos mais principaes do reino de o levar n'esta passagem
comsigo, e leixou por inteiro governador, e com nome de governador do
reino o duque de Bragança, que escusando-se por sua velhice
de tal cargo, se convidava para ir com elle á guerra dos
mouros, porque seu
coração e devoção
não enfraquecia; porque a
ella foi sampre mui inclinado. E porque El-Rei era sabedor que entre
alguns grandes e pessoas principaes de seus reinos, que para sua
passagem eram percebidos, havia odios e dissensões, e outros
jaziam em publicas
excommunhões, El-Rei com a só pena que
pôs de os não
levar comsigo se não se concordassem e asolvessem, elles por
não ficarem se concordaram e satisfezeram e se
reconciliaram.
Encommendou El-Rei o cargo da gente d'entre Doiro e Minho, e da frota
do Porto ao duque de Guimarães, que se ajuntou com El-Rei em
Lisboa no começo do mez d'Agosto do anno do nascimento de
nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos setenta e um, em que
El-Rei houvera de partir, e por ventos que não
terçavam de viagem, suspendeu sua partida
até dia da
Asumção de Nossa Senhora,
que é aos quinze dias do dito mez, em que depois de elle e o
Principe entrarem no mar com mui solemne procissão, e com
maravilhoso e grande triumpho, sobreveiu vento prospero e desejado, com
que partiu de Restello e chegou a Lagos, onde o já esperavam
os navios e gente do Algarve. E assi o conde de Valença que
viera d'Alcacere, com que sua real frota refez por todas numero de
quatrocentas e setenta e sete vellas, e até trinta mil
homens. E alli depois de ouvir missa, e para o caso uma devota
pregação, e revellar a
todos sua ida sobre Arzilla, foram elle e o Principe com uma devota
procissão e grande estrondo de trombetas e manistreis altos
e baixos, mettidos nos bateis, e de hi aos navios que logo fizeram
vella, que com vento bonançoso chegaram d'Avante
á dita villa
d'Arzilla, onde sua frota ancorou aos XX dias
do dito mez, já sobre tarde, os mouros da qual como de dia
houveram vista d'ella; porque da passagem d'El-Rei tinham já
muitos avisos, adivinhando com receio seu mal, se começaram
de prover como para tal necessidade e afronta cumpria.
CAPITULO CLXIV
De
como El-Rei tomou terra em
Arzilla
E no outro dia em amanhecendo, depois d'El-Rei ter conselho sobre sua
desembarcação e filhamento
da terra, mandou apparelhar e armar os bateis e caravellas pequenas, e
barcas de carreto para logo na melhor ordenança, e que mais
fosse possivel tomarem terra. E como quer que o porto era mui
perigoso; porque o mar
áquellas horas andava mui alevantado, e quebrava com muita
braveza em um arrecife de pedra que tem, com entradas más de
tomar, El-Rei todavia mandou com muito esforço e presteza
remar e tomar a terra, onde elle por maior esforço de todos
não quiz ser dos segundos, em
que se perdeu uma galé com outras caravellas e bateis, em
que no mar morreram até oito fidalgos, e da outra gente
até duzentos, em que eram alguns bons cavalleiros e
escudeiros.
E porém no primeiro bote sairam logo com El-Rei muita gente,
toda bem armada, sem alguma
contradição dos mouros em sua saida, e os outros
que na frota ficavam, com quanto viam ante os olhos sua clara
perdição, não receiavam por isso com
uma perfiosa bondade d'entrar nos bateis e caravellas, como se em um
rio manso entrassem, até que aos tres dias com a
segurança e maior resguardo que foi possivel acabaram de
sair em terra.
E no dia em que El-Rei sahio, logo pôs cerco á
villa em torno de mar, cerrando e defensando seu arrayal com alta cava;
porque o palanque que levava, pela braveza do mar não podera
logo sahir.
E das muitas e grossas bombardas que El-Rei levava, que com a tormenta
das náos se não podiam tirar, sairam
sómente duas pequenas, que em duas partes da villa foram
logo ensejadas. E começaram apressadamente de fazer seus
tiros, e assi os espingardeiros e besteiros não cessavam de
combater, e porém sem fundamento de ordenado combate; porque
o geral e da maior affronta em que se punha toda a esperança
da victoria, tinha El-Rei reservado para depois que todas suas
artilherias fossem assentadas. E porém as bombardas
desfizeram dois lanços do muro
até o meio, onde os mouros logo acudiram e repairaram
com muito
esforço e não sem algum dano
dos christãos, de que tambem com espingardas e
bestas os mouros
eram mui danificados.
CAPITULO CLXV
De como a villa foi entrada, e o
Principe
foi armado cavalleiro, e morreram o conde de Marialva, e o conde de
Monsanto e outros
E aos XXIV dias do dito mez, que
era dia de S. Bertolameu, pela manhã, D. Alvaro de Castro,
conde de Monsanto, a que a estancia e guarda do castello era
encomendada, enviou dizer a El-Rei que estava em sua tenda, que o
Alcaide da dita villa lhe queria ir falar sobre concerto, que era tal
que o devia aceitar. E ante de El-Rei dar final resposta, tendo vontade
de se concordar como aos mouros já escreveram e mandaram
requerer, vieram logo vozes emtoados por todos que a villa se entrava.
O que a vista propria d'El-Rei que a isso com muita trigança
sahiu, fez mui certo e verdadeiro; porque como o rumor correu que a
villa era entrada assi concorreu logo a gente do arraial aos muros, a
que com muitas escadas e engenhos que para isso eram ordenados, sem
alguma certa ordem de combate, logo com muita ardideza subiram e
entraram á dita villa por todalas partes.
E os mouros vendo-se entrados e perseguidos dos christãos,
pelejando bravamente uns se recolheram
á misquita, e outros, os mais honrados ao castello. E com os
da misquita ante de ser vencida, houve de uma parte e da outra mui crua
e sangoenta peleja. Em que dos christãos entre outros morreu
principal
e como ardido e
valente cavalleiro, D. João Coutinho, conde de Marialva, que
com seu braço acompanhou primeiro seu corpo d'outros corpos
vazios d'almas imigas, e não sem grande tristeza que El-Rei
e o Principe e toda a côrte por sua morte tomaram, e
não sem causa; porque era mancebo, e senhor de grande e
honrada casa, e em que se vivera pareciam já virtuosos
sinaes d'haver n'elle para o reino um singular homem para armas e
conselho.
E acabada a peleja da misquita, logo a gente recorreu ao castello, que
de todalas partes era mui forte e defensavel, cujo combate por
esforço d'El-Rei e do Principe, que eram presentes, foi com
tanta força e ardideza cometido, que logo antes de algumas
escadas serem postas, os christãos por lanças e
páos com muita desenvoltura sobiam ás torres e
muros, de que os debaixo com uma louvada inveja de tanta honra,
esquecidos de todo perigo cometiam seus corpos com armas pesadas a mui
fracas toucas de linho, porque os allavam e subiam acima, onde nos
muros e torres que dos christãos se entravam, e depois no
patim do castello houve tão mortal peleja, como parecia
claro nos muitos mortos e feridos que em todas partes jaziam.
Alli no castello álém d'outros nobres
christãos que com ferro morreram, foi morto D. Alvaro de
Castro, conde de Monsanto, camareiro-mór d'El-Rei, que sua
morte muito sentio; porque certo elle no campo e na côrte, na
paz e na guerra era por seu siso,
discrissão e esforço, homem mui principal. E em
fim assi foram os mouros da villa e do castello cometidos, que todos
ficaram mortos e captivos sem alguma excepção,
cujo numero segundo comum
orçamento seriam dos mortos até dois mil, e dos
captivos
até cinco mil. E foi achado e tomado na villa mui grande
e rico despojo, que
foi estimado a oitenta mil dobras d'ouro. Do qual todo El-Rei fez aos
tomadores escala franca, sem reservar para si quinto, nem outro direito
algum.
Acharam-se dentro cincoenta captivos christãos, a que a
santa victoria deu livre redenção. E
El-Rei e o Principe, assi no
entrar da villa,
como no soccorrer e prover das muitas pelejas e afronta dos combates,
não sómente por seu conselho e exforço
usaram de oficios, que pareciam e eram de aprovados
capitães; mas ainda por seus braços cometeram e
acabaram feitos como ardidos e valentes cavalleiros, sem algum
resguardo nem tento do que a suas pessoas e dinidades reaes se deviam,
e certamente era grande gloria vêr aquelle
dia na mão do Principe em idade de XVI
annos sua espada de
bravos golpes torcida, e de sangue de infieis em todo banhada, em cuja
vista a mór parte da alegria era d'El-Rei seu padre, que
n'aquella victoria e perigo o tomou por parceiro, vendo que em ajuda
tão necessaria, e perigo tão
conhecido não podera no mundo escolher melhor companheiro do
que gerara por filho.
E porém como El-Rei sentiu que o feito com desejado
vencimento era de todo acabado, foi logo á misquita dos
mouros, onde sobre o corpo do conde de Marialva achou já uma
cruz, a qual por começo do serviço e sacrificio,
que a Deus n'ella ao diante se havia de fazer, logo beijou e adorou, e
depois de fazer oração, logo junto com o corpo
morto do dito conde, armou per si o Principe seu filho por cavaleiro,
com palavras de grandes louvores, e muitas bondades e merecimentos do
mesmo conde. E sendo ambos d'armas victoriosas vestidos, El-Rei no cabo
de auto tão devoto e tão glorioso, disse ao
Principe, e não sem algumas lagrimas:
—«Filho, Deus vos faça tão bom
cavaleiro como este que aqui jaz.»
E porque o conde D. João não tinha filhos, e por
sua tão honrada casa, por fallecimento de legitima
sobcessão não ficar distinta ou minguada, El-Rei
em galardão de sua morte, e por sua vida e memoria para
sempre viva, fez conde de Marialva D. Francisco Coutinho seu
irmão, que este titulo e mercê aos Reis de
Portugal e seus reinos sempre bem servio e mereceo. E assi fez conde de
Monsanto a D. João de Castro, filho do dito conde D. Alvaro.
E edificou a dita misquita em casa de oração da
avocação de Nossa Senhora, Santa Maria da
Asumção; porque n'aquelle dia partio de Lisboa
para tomar a villa, e em tal dia partio El-Rei D. João seu
avô, quando
tomou a cidade de Ceuta, e em tal venceu a batalha real, e em tal dia
falleceu, e em tal dia nasceu.
CAPITULO CLXVI
De
como Mollexeque vinha socorrer Arzila, e fez pazes com
El-Rei D. Affonso
E n'esta villa foram tomadas e captivas duas mulheres e um filho de
Mollexeque, Senhor d'Arzila, gran senhor entre os mouros, que depois
foi Rei de Fez; e
porém a este tempo que El-Rei chegou sobre
Arzila, elle era em Fez
guerreando um Marim, que governava o Rei do dito reino, por cuja morte
ficou Rei. E sendo d'isso certificado, partiu logo a gram pressa assaz
poderoso, para soccorrer a villa se fosse possivel, e em Alcacer Quibir
foi certificado da expunação e entrada da villa,
e estrago e
captiveiro de suas
mulheres e filhos, e de todolos mouros d'ella, d'onde enviou a El-Rei
sua embaixada, cuja conclusão foi: Depois de ambos partirem
aquellas terras, segundo os antigos termos de suas cidades e villas
d'Africa, requeriam desejar com elle paz ou tregoa, que com seu temor e
grande necessidade lhe pedio, e para isso lhe desse
segurança para em pessoa lhe vir fazer reverencia, e com
elle se concertar, do que a El-Rei muito prouve, e sobre firmes
seguranças que lhe enviou, o dito Mollexeque veio com
trezentos de cavallo a tiro de bombarda da dita villa.
E porém elle com receios de cautellas e suspeitas de mouros,
com quanto El-Rei por dobrar na segurança lhe tornou a
enviar sua direita monopla d'armas, não quiz a suas vistas
chegar. E d'ali porém se concertaram, em que por contrato
escripto tomaram concordia, sobre os termos e logares que a um e a
outro ficariam, de que arrecadassem suas pareas e tributos. E
assentaram tregoa por vinte annos que El-Rei lhe deu, a qual
sómente nas terras chãs se
entendesse; porque sem quebramento d'ella a cada um ficava livre
faculdade para do outro poder tomar e conquistar seus logares cercados;
e d'ali se tornou Mollexeque.
E El-Rei como quer que d'outros senhores e grandes homens fosse para a
capitania e governança da dita villa requerido, fez
capitão d'ella juntamente com Alcacere, que já
aos mouros tinha tomado, a D. Anrique de Meneses, conde de
Valença, a quem publicamente disse muitas virtudes e
merecimentos para isso, que faziam todos por muita sua honra e louvor.
CAPITULO CLXVII
De como El-Rei foi certificado que os
mouros de
Tangere tinham leixado a cidade, e do que sobr'isso logo proveu, e de
como se foi a ella, e de hi para o reino
El-rei em provendo as
cousas da villa que cumpriam, com fundamento de
se volver para o reino, foi por dois mouros a gram pressa certificado
que os moradores da cidade de Tangere esquecidos da grande fortaleza
d'ella e de si mesmos, principalmente temendo que a mortindade e
estrago de Arzilla, de que por uma velha segundo se disse, foram
avisados, não viesse tambem sobre elles, a tinham
desamparada de todo. A qual leixaram vazia de suas pessoas e fazendas,
e cheia de muito fogo, que as casas e reliquias d'ella sem proveito dos
christãos se destruissem e queimassem.
E após a primeira nova d'esta tamanha e não crida
gloria, vieram logo outros que sem duvida o confirmaram, pelo qual
El-Rei com muita gente de pé, e com os de cavallo que foi
possivel, enviou logo á dita cidade D. João,
filho do duque, que depois foi marquez de Montemór, aos
XXVIII
dias d'Agosto, dia de Santo Agostinho, que segundo se affirma foi
já bispo d'ella. E ao outro dia o dito D. João
sem alguma
contradição entrou na cidade, em que achou certas
bombardas grossas, e muita outra artilharia e polvora, a que os mouros
por desacordo e cegueira, ou por causa de mais seu damno não
poseram o fogo, e o punham andando ás palhas e cousas
pequenas das casas. Da qual cousa logo avisou El-Rei, que alegre de
tão bem aventurado
sobcedimento, sem muito trespasso com o Principe, e com a nobre gente
de sua côrte, logo se foi á dita cidade, em que
entrou
já sem o ardente desejo de sua
destruição e
vingança, em que sempre vivia.
Foi-se logo á Mesquita que já era feita egreja,
onde deu muitas graças e louvores a Deos, e envestio de
Bispo da cidade o prior de S. Vicente de Fóra de Lisboa, que
sendo da regra e Ordem de Santo Agostinho, por
promoção e auctoridade apostolica era
já d'antes intitulado Bispo d'ella, na qual esteve El-Rei
XVII dias
não se
fartando de a vêr, dentro dos quaes proveo as cousas que para
boa governança d'ella cumpriam. E fez e leixou por
capitão e governador d'ella a Ruy de Mello seu Guarda
Mór, que depois foi conde d'Olivença, pessoa no
reino tão principal que o
tal carrego, e outro de mais honra e mór perigo e peso, por
muitas causas e razões mui bem merecia.
E assi ennovou e accrescentou El-Rei o titulo que tinha, e se intitulou
nova e primeiramente por esta maneira: D. Affonso por graça
de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'além mar
em Africa. E depois de fazer muitas terras chãs dos mouros
suas subjeitas e tributarias, e notificar ao Papa e a todolos Reis e
Principes christãos esta sua excellente victoria, partiu-se
com o Principe para Portugal aos XVII dias do mez de
Setembro, e logo ao outro dia seguinte foi no porto da cidade de
Silves. De maneira que El-Rei em XXXIII dias contados
do dia que partiu de Lisboa até este, começou e
acabou
prosperamente estes tamanhos feitos, de que Deus foi muito servido, e
seu estado e nome por todo o mundo mui accrescentado e louvado.
E os christãos d'Andaluzia não receberam por isso
menos prazer que segurança, de que com festas para
o mundo, e devotas
procissões para Deos deram claros signaes.
E de Silves se foi logo El-Rei e o Principe por mar á cidade
de Lisboa, onde foram com grande triunfo, e muitas festas e alegrias
recebidos, o que todo tambem por todo o reino com a
notificação e certeza da victoria por muitos dias
se continuou.
CAPITULO CLXVIII
De como a Infante D. Joana filha
d'El-Rei foi metida no
mosteiro de Odivellas, e de hi ao mosteiro d' Aveiro, e de outras
cousas que El-Rei fez
A Infante D. Joanna filha d'El-Rei estava a este tempo em Lisboa, com
tão grande casa de donas e donzellas e officiaes como se
fôra Rainha; e porque fazia sem necessidade grandes despezas,
e assi por se evitarem alguns escandalos e perjuizos que em sua casa
por não ser casada se podiam seguir, El-Rei por conselho que
sobr'isso teve, logo no mez d'Outubro d'este anno a apartou, e em
habito secular e com poucos servidores a poz no mosteiro d'Odivellas em
poder da Senhora D. Filipa sua tia, em edade de XVIII annos. D'onde
foi depois
mudada para o mosteiro de Jesus de Aveiro. Onde sem casar com nome de
honesta e mui virtuosa, acabou depois sua vida em idade de trinta e
seis annos.
E n'este anno falleceu o Papa Paulo, e sobcedeu em Roma a cadeira de S.
Pedro o Papa Sixto quarto, a que El-Rei mandou com sua obediencia Lopo
d'Almeida.
CAPITULO CLXIX
Foi
feito primeiro conde de Penella D. Affonso de Vasconcellos
N'este anno em
chegando El-Rei d'armada, fez em Lisboa novamente conde
de Penella D. Affonso de Vasconcellos seu sobrinho, o qual por sua
nobre linhagem e singulares serviços e grandes merecimentos,
aquella e outra maior dinidade, tinha já a El-Rei e ao reino
bem merecida.
CAPITULO CLXX
Tomou
o Principe D. João sua
casa
E no anno seguinte de mil e quatrocentos e setenta e dois, tomou o
Principe D. João sua mulher e casa na villa de Beja, onde
era a Senhora Infante D. Briatiz, e d'alli se veio á cidade
d'Evora.
CAPITULO CLXXI
De como houve embaixadas e vistas entre El-Rei de Castella e
de Portugal, e sobre que
No qual anno, e assi
no passado entre os Reis de Castella e de Portugal
houve de uma parte e da outra muitas embaixadas, ainda sobre
lianças e mudança de casamento d'El-Rei D.
Affonso com a Princeza D. Joanna sua sobrinha; porque como
El-Rei D. Anrique de Castella soube
que o Principe D. João de Portugal era casado com a Princesa
D. Lianor, e não podia já casar com a Princesa
sua filha, e viu que a Infante D. Isabel sua irmã
fôra
contra seu prazer e auctoridade casada com El-Rei de Cecilia filho
d'El-Rei D. João d'Aragão,
mandou fazer d'isso autos solenes, em que com quanto pôde,
por sua desobediencia a desherdou da herança de Castella. E
procurou de casar a dita Princesa D. Joana sua filha com El-Rei D.
Affonso, sobre o qual como disse, se passaram mui continuas embaixadas,
e por meio de D. João Pacheco, Mestre de Santiago, se
concertaram vistas, em que os Reis acompanhados de mui nobre gente se
viram entre Elvas e Badalhoce. Ás quaes vieram outrosi
embaixadores do dito D. Fernando Rei de Cecilia, e da Rainha D. Isabel
sua mulher, para com evidentes causas impedir o effeito do dito
casamento. E finalmente no caso e negocio intrevieram tantas duvidas, e
com esperança de tantos males e divisões de reino
a reino, que El-Rei de Portugal tendo sobr'isso muitas vezes conselho,
nunca em vida d'El-Rei D. Anrique se acharam taes meios, com que
parecesse razão elle aceitar e concordar o dito casamento. E
tudo principalmente causava, ser a Rainha de Cecilia intitulada por
Princesa de Castella, de que tinha a mór parte dos grandes e
Senhores d'ella, em que o mal da guerra era tão certo como o
bem da victoria duvidoso. E porém depois da morte d'El-Rei
D. Anrique, El-Rei D. Affonso consentio no dito casamento, e entrou em
Castella intitulado Rei d'ella, como ao diante se dirá.
CAPITULO CLXXII
De como os ossos do Infante D. Fernando foram a estes reinos
trazidos de Fez
N'este anno sendo
ainda em Fez os ossos do Infante D. Fernando, que
lá falleceu em um santo captiveiro como atrás
fica, como quer que a El-Rei D. Affonso por resgate e
redenção das mulheres e filho de Mollexeque, que
foram captivas em Arzilla lhe fosse prometida uma grande somma d'ouro,
elle como Rei bom e piedoso denegou sempre todo outro partido e
interesse, salvo que por ellas lhe dessem os ossos do dito Infante, que
a este tempo eram em poder de Molley Belfagege.
E leixando muitas embaixadas e recados que sobre este concerto de uma
parte e da outra se passaram. Finalmente o dito Molley Belfagege enviou
a El-Rei a propria ossada do dito Infante, bem reconhecida por tal por
Molley Belfaca seu filho moço, e por Diogo de Bairros Adail
Mór, que a elle por este caso fôra algumas
vezes embaixador. Os quaes por mar chegaram com ella a Restello, e do
navio foi tirada e trazida com grande manificencia á cidade
de Lisboa, e entrou pela porta de Santa Catherina, onde com solemne
procissão foi recebida, e alli pelo priol de S. Domingos
Mestre Affonso se fez um sermão para o caso mui conveniente
e devoto, em que houve palavras de tanta piedade e
compaixão, que commoveram as gentes a muitas lagrimas como
se foram Endoenças.
E d'alli foram os ossos postos no mosteiro do Salvador, e de hi levados
ao mosteiro da Batalha, e postos com devidas exequias em sua ordenada
sepultura,
na capella
d'El-Rei D. João seu padre, onde segundo alguma clara
evidencia, Deos por merecimentos do dito Infante, e em signal de sua
bemaventurança fez alguns milagres. E certamente com a
restituição
da ossada d'este bemaventurado Infante, por justas causas e mui claras
razões recebeu todo o reino prazer e alegria sem conto, e
El-Rei dos seus naturaes e estranhos não menos honra, gloria
e louvor que das prosperas expunações de Arzila e
Tangere.
CAPITULO CLXXIII
Do fundamento que El-Rei D. Affonso
teve para entrar em
Castella por morte d' El-Rei D. Anrique
E no fim do anno de mil e quatrocentos setenta e quatro, El-Rei D.
Anrique de Castella falleceu na villa de Madrid; foi seu corpo levado
ao mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella maior
á mão direita jaz em sua real
sepultura como parece, e da outra parte jaz a Rainha D. Maria sua
madre.
Fez El-Rei D. Anrique seu solemne e acordado testamento, em que
declarou a Princeza D. Joana por sua filha, e por Rainha herdeira dos
reinos de Castella. E a El-Rei D. Affonso por governador d'elles,
pedindo lhe finalmente que aceitasse a dita governança, e
casasse com ella, o qual testamento foi logo trazido a El-Rei D.
Affonso, que estava em Extremoz, no mez de Dezembro do dito anno de mil
e quatrocentos e setenta e quatro, sobre o qual El-Rei logo teve grande
e geral conselho, para que foram
alli juntos com El-Rei e com o
Principe todolos grandes e principaes do reino.
E o Principe desejando que El-Rei seu padre com esperança de
acrecentar seus reinos de Portugal, aceitasse, e não se
escusasse do casamento e empresa de Castela, tinha suas fallas e
maneiras com esses principaes, a que revellava seu desejo, com que os
commovia para que conselhassem El-Rei seu padre e o
esforçassem para isso. Porque depois de sua morte, muitas
vezes o Principe D. João seu filho sendo Rei, com aquella
onestidade e reverença que devia, acusava a negligencia ou
não bom conselho d'El-Rei seu padre; porque não
censentira e
aceitara os primeiros cometimentos dos casamentos de Castella, El-Rei
D. Affonso com a Infante D. Isabel, e elle com a Princesa D. Joana, com
que de uma maneira ou d'outra foram d'Espanha pacificos Reis e
Senhores.
E porém o conselho do Arcebispo de Lisboa, que depois foi
Cardeal, e do duque marquez de Villa Viçosa por causas
muitas que allegaram, foi que El-Rei em tempos de tanta
devisão, e com tamanho pendor contrairo como tinha,
não devia entrar em Castella nem aceitar a empresa d'ella, e
leixala aos naturaes que a quizessem favorecer e soster. Pelo qual ante
de se tomar final assento, acordou El-Rei de enviar primeiro como
enviou a Castella Lopo d'Albuquerque, Camareiro-Mór, que
depois foi conde de Penamacor, a saber quantos e quaes eram os
cavalleiros da valia da Rainha D. Joana, e concertar-se com elles, e
tomar d'elles certidão d'obediencia para em sua
segurança, se parecesse razão, El-Rei entrar
em Castella. E o dito Lopo d'Albuquerque, foi principalmente
aderençado a D. Affonso Carrilho, Arcebispo de Toledo, e ao
marquez de Vilhena, e ao duque do Infantado, que então era
marquez de Santilhana,
e ao duque e duquesa d'Arevallo, e a outros muitos de sua parentella e
valia. Os quaes a este tempo eram todos declarados por a dita Rainha D.
Joana, de que trouxe a El-Rei autenticas certidões, e
promessas de casando com ella o servirem e obedecerem como a proprio
Rei de Castella.
CAPITULO CLXXIV
Como El-Rei determinou todavia entrar
em Castella, e dos
requerimentos que logo enviou a El-Rei D. Fernando e á
Rainha D. Isabel
E com esta certidão com que o dito Lopo d'Albuquerque chegou
a Évora, no Janeiro de mil e quatrocentos setenta e cinco,
determinou El-Rei, pospostos outros muitos inconvenientes que com tudo
se apontaram e se offereceram, todavia aceitar como aceitou a empreza,
e sem escusa entrar em Castella, pelo qual mandou logo perceber os
grandes e senhores, prelados, fidalgos, e cavalleiros, e gente outra de
seus reinos, para na entrada do Maio logo seguinte serem em Arronches,
por onde acordou d'entrar.
E d'alli El-Rei por conselho que para isso teve, ante d'outro
proseguimento enviou Ruy de Sousa a El-Rei D. Fernando, e á
Rainha D. Isabel, que em Valhadolid estavam em festas e justas reaes,
notificando-lhe como por ser casado com a Rainha D. Joana filha
legitima d'El-Rei D. Anrique, os reinos de Castella lhe pertenciam,
requerendo-os e amoestando-os com as razões e
protestações que
n'isso cabiam, que se fossem dos ditos reinos e lh'os leixassem
livres. A que os
ditos Rei e Rainha, com outras razões que pareciam ser
conformes a justiça e
honestidade, responderam e outrosi requereram que elle não
entrasse nos ditos reinos, que sómente a elles diziam que
pertenciam. E em fim a determinação do feito
ficou entre os Reis não a boas razões, nem
justificação de Leis que apontassem, mas
sómente a
disposição e força das armas como se
fez, e ao diante se dirá.
CAPITULO CLXXV
De
como El-Rei se foi a Arronches, por onde acordou d'entrar
em Castella
El-Rei se foi na
entrada do mez de Maio a Arronches, e com elle o
Principe seu filho, a que deu as provisões que cumpriam para
inteira governança e regimento do reino de Portugal em que
ficava, e assi outras declarações secretas
como por via de testamento, em que quiz e declarou que todalas
graças e doações, que durando
esta empresa e necessidade de Castella a quaesquer pessoas fizesse, que
passassem de dez mil réis de renda, não sendo
aprovadas, consentidas, e assinadas juntamente pelo dito Principe seu
filho, fossem de nenhum valor, como cousas por constrangimento e sem
vontade outorgadas.
CAPITULO CLXXVI
De
como a este tempo naceu o Principe D. Affonso neto d'El-Rei
Estando El-Rei
já prestes para d'Arronches mover com todo
seu arraial, veio a elle e ao Principe certidão, que a
Princesa D. Lianor pario o Infante D. Affonso em Lisboa, a
XVIII dias de Maio de
mil e quatrocentos setenta e cinco. Com que todo o Reino mostrou
geralmente muita gloria e alegria. E por seu nacimento declarou logo
El-Rei, sendo caso que o Principe D. João seu filho em sua
vida fallecesse, a tempo que elle mesmo Rei tivesse outro filho lidimo
da Rainha D. Joana sua esposa com que havia de casar, que ao dito
Infante D. Affonso sempre pertencesse e viesse a sobcesão
dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo jurado e obedecido,
como depois o foi com a devida cerimonia e solemnidade, de que para uma
cousa e para a outra se outorgaram e fizeram provisões e
escripturas autenticas.
CAPITULO CLXXVII
Da gente com que El-Rei entrou em Castella, e em que
ordenança ia
E com a gente que a El-Rei veiu e com elle se ajuntou em Arronches, e
com a do duque de Guimarães e do conde de Marialva, e de Ruy
Pereira e d'outros fidalgos, que atalhando pela comarca da Beira se
foram ajuntar com El-Rei já em
Castella, se fez de gente numero certo,
ao todo de cinco mil e seiscentos de cavallo, e quatorze mil homens de
pé, todos bem armados e encavalgados, e providos
d'artilharias, armas e tendas, e de todo o mais que para guerra
pertencia, e tudo em gram
perfeição. E com os que eram em Arronches partiu,
e foi ter o primeiro arraial em campo á fortaleza da
Codiceira já em Castella, e de hi a Pedra Boa, d'onde o
Principe se despedio d'El-Rei seu padre, e se veiu a Portugal; porque
até alli sempre foi despachando o que lhe cumpria.
E a ordenança da hoste e batalhas d'El-Rei iam n'esta
maneira: diante ia logo Diogo de Bairros, Adail Mór com
certos ginetes por descobridores. E após elle o marechal D.
Fernando Coutinho, com guias e outra gente ordenada, por apousentador e
assentador do arraial. E logo Vasco Martins de Sousa Chichorro,
capitão dos ginetes d'El-Rei em sua batalha. A quem logo
seguia o conde de Penamacôr, capitão da avanguarda
d'El-Rei, após o qual seguia logo a carreagem.
E a batalha real com suas reaes bandeiras tendidas iam no meio, na qual
El-Rei o mais do tempo ia. E porém ás vezes com
certos ginetes andava provendo
de batalha em batalha, trazendo sempre de trás de si nas
mãos de um page um guião de sua divisa,
que foi um rodizio de moinho com gotas d'agoa derrador espargidas, que
tomara pela Rainha D. Isabel sua mulher. E na reguarda ia o duque por
Condestabre; porque em caso que D. João seu irmão
tivesse o
nome e servisse o officio nas villas e causas judiciaes,
porém sempre no campo a priminencia do officio ficou ao
duque.
E além d'estas batalhas eram outras ordenadas ás
allas da batalha d'El-Rei, em que iam de cada parte,
D. Affonso conde de Faram, e D. Anrique
de Menezes conde de Loulé, e D. Affonso de Vasconcellos
conde de Penella, e o conde de Monsanto, e outros.
CAPITULO CLXXVIII