De como El-Rei chegou a Prazença, onde
publicamente foi jurado por Rei, e esposado com a Rainha D. Joana, e
d'outras cousas
E n'esta ordenança sem algum recontro nem rebate contrairo
chegou El-Rei á cidade de Prazença, onde o
já esperava a Rainha D. Joana. E com ella o duque e duqueza
d'Arevallo, que eram senhores da dita cidade, e com elles o marquez de
Vilhena e o conde d'Oronha, e outros muitos senhores, e pousou El-Rei
com a Rainha dentro na fortaleza, onde por alguns dias houve grandes
festas e prazeres, nos quaes se consultou a maneira do recebimento
d'El-Rei com a Rainha, e seu alevantamento por Rei, o que se fez em um
alto e mui rico cadafalso posto na praça da cidade, em que
El-Rei e a Rainha ambos juntamente estiveram.
E alli depois de feita publicamente a solemnidade dos esposoiros, como
em tal caso cumpria, logo com cerimonias de trombetas e reis d'armas em
altas vozes foram pelos senhores que eram presentes, e com outros
muitos com suas procurações, alevantados e
jurados por Reis de Castella, e por taes lhes beijaram as
mãos, e se tomaram d'isso publicos estromentos. E d'alli em
diante se intitulou El-Rei D. Affonso, Rei de Castella e de
Lião e de Portugal, etc., e chamou á Rainha
esposa, com a qual então nem depois
nunca consumou o matrimonio, por
defeito de
despensação que não tinha nem nunca
houve. E por galardão do trabalho que Lopo d'Albuquerque
tomara no concerto d'esta entrada e casamento, El-Rei o fez alli conde
de Penamacôr.
E de Prazença fez El-Rei tornar D. João
Galvão, Bispo de Coimbra, com sua gente por fronteiro da
comarca da Beira, e Pero d'Albuquerque por capitão do
Sabugal e Alfaiates.
CAPITULO CLXXIX
De como El-Rei D. Affonso e a Rainha se
foram
á cidade de Touro, e como El-Rei D. Fernando veiu sobre elle
com todo seu poder
E feita consulta do mais que se faria, moveu El-Rei logo com
a Rainha em arraial caminho d'Arevalo, em que foram sempre de noite e
de dia com grandes resguardos de segurança, especialmente
atravessando por terra d'Alva, onde com muita gente d'armas era o
duque, que por
obrigação de sangue que entre si tinham, sempre
seguio a parte de El Rei D. Fernando.
Em Arevalo estiveram poucos dias, d'onde El-Rei se foi á
cidade de Touro, por concerto que tinha de lha dar como deu
João d'Ulhoa, dentro da qual El-Rei com toda sua gente se
alojou. E em chegando se pôs cerco, e deram fortes combates
ao castello da cidade que achara contrairo, em que a mulher de Rodrigo
d'Ulhoa estava por El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel, que como
Reis esforçados, e por darem de si bom exemplo aos que em
tantas differenças
bem os servissem, cometeram de vir socorrer e
descercar o dito castello, e chegaram a meia legoa de Touro, de gentes
e artilharias muito mais poderosos que El-Rei D. Affonso.
E assentaram seu arrayal ao longo do Doiro acima da cidade. Mas o cerco
do dito castello estava em todo tão percebido e com
estancias tão armado e afortalezado, que El-Rei D. Fernando
por escusar no cometimento uma perda certa por victoria tão
duvidosa, não quiz cometer o combate. E depois d'estar alli
alguns dias, em que do conde de Marialva D. Francisco Coutinho, e de
Diogo Fernandes d'Almeida, e do conde de Faram, e d'outros fidalgos e
cavalleiros, El-Rei D. Fernando recebeo muitas vezes em sua gente e
carriagens muito dano e perda, com rebates que estes de dia e de noite,
como nobres e esforçados cavalleiros lhe davam, assi logo do
arraial como depois ao alevantar d'elle, El-Rei D. Fernando como triste
e anojado alevantou seu arraial e se foi a Valhadolid, com pouca
esperança de conseguir o efeito de sua empresa; porque a
gente por desfallecimento de dinheiro, que já não
tinham, se partia d'elle,
e do descerco de Touro, que não acabara nem cometera, deu
causa que nos corações dos castelhanos
enfraquentou muito seu partido.
E a opinião, ou mais certa verdadeira sentença
dos sesudos e bons guerreiros, foi que se El-Rei D. Affonso se soubera
approveitar da bonança n'este tempo, e sobre este desfavor e
quebra d'El-Rei D. Fernando o perseguira, e por cerco ou batalha o
apertara, que de necessidade d'esta vez o lançara
fóra de Castella, onde sem resistencia na maior parte ficara
Rei pacifico.
A mulher de Rodrigo d'Ulhoa vendo-se já desesperada de
socorro, soffrendo primeiro muitos combates
e minas, e resistindo sempre
como boa e virtuosa dona, com segurança de sua pessoa e
fazenda fez partido, com que entregou o castello a El-Rei, que o deu
logo ao dito João d'Ulhoa seu irmão d'elle.
CAPITULO CLXXX
De como El-Rei D. Affonso se foi a
Çamora,
e de hi querendo ir descercar o castello de Burgos tomou Baltanas, e
prendeo o conde de Benavente
E n'este tempo João de Porras, cavalleiro principal de
Çamora, andava em trato de fazer vir a dita cidade a
serviço e obediencia d'El-Rei D. Affonso; porque o Marechal
que tinha a fortaleza por El-Rei D. Fernando, elle tambem o commovia,
porque era seu genro.
E El-Rei D. Affonso fez João de Porras vedor de sua casa,
por prazer e consentimento de Pero de Sousa, que o dito officio tinha.
E como El-Rei foi do trato de Çamora seguro e certificado,
se foi logo a ella com a Rainha, onde foram em tudo com muitas
cerimonias e grandes triunfos recebidos e obedecidos. E alli era
já o Arcebispo de Toledo com El-Rei D. Affonso. E porque
tinha o castello de Burgos um cavalleiro chamado Sarmento, em que era
estreitamente cercado por El-Rei D. Fernando, cujo contrairo estava,
determinou El-Rei D. Affonso de o ir descercar e prover. Pelo qual
partio logo assaz poderoso de Çamora, onde leixou a Rainha,
e por sua guarda Lopo d'Almeida, e por sua aia a Camareira
Mór, D. Briatiz da Silva sua mulher.
Foi-se El-Rei a Arevallo, onde por calmas e muitas
fruitas, e pós, e outro
máo trato que alli houve
lhe morreu muita gente, porque esteve alli muitos dias recebendo avisos
dos de Burgos, e consultando se cometeria, ou como cometeria o dito
descerco; porque para tudo havia muitas razões e mais
duvidas. E finalmente acordou descercal-o, para que partio e foi a Pena
Fiel, que era do conde d'Oronha, onde tambem por receios e
dificuldades, que recreciam maiores, sobreseve alguns dias, nos quaes
foi avisado que o conde de Benavente sabendo de sua ida a Burgos, se
viera com quatrocentas lanças á Villa de
Baltanas, oito legoas de Pena Fiel, para d'alli lhe dar rebates, e com
dano dos d'El-Rei D. Affonso fazer de sua honra, pelo qual El-Rei
determinou de secretamente o ir cercar e tomar por força, e
para maior
dessimulação d'isso, temendo de ser o conde de
Benavente avisado, mandou diante e de dia por outro caminho desviado o
conde de Penamacôr com a gente de sua guarda, e em sua
companhia Ruy Pereira da Feira, e D. Diogo de Crasto.
E como foi de noite partio El-Rei por o caminho direito de Baltanas, e
porém na mesma noite vieram-se ajuntar não longe
da villa a que iam, d'onde o conde de Penamacôr se adiantou
com seus ordenados, e em querendo amanhecer se pôs em
corrida, e chegou com pouca gente sobre a dita villa, além
da qual por se o conde não sair, se pôs logo em
batalha, a que o conde de Benavente com quanto na villa tinha mais
gente, crendo que era cillada não quiz sair, e se
pôs em ordenança de defesa, avisando do
caso outra sua gente que era acerca, por dois de ligeiros cavallos, que
enviou para logo lhe socorressem.
E porém se o conde de Benavente ante da chegada d'El-Rei que
tardou muito, dera no conde de Penamacôr, claro é
que o desbaratara, e tivera d'elle certa
victoria; porque tinha mais gente e
mais folgada, e assi os cavallos e muitos espingardeiros e artilharias.
Mas El-Rei sendo duas horas de sol chegou com muita gente, e assi com
escadas e artilharias sobre a villa, e depois de comerem, mandou fazer
signal de combate, que de todalas partes se deu á villa mui
rijo e mui afrontado, em que a gente toda era a pé, salvo
El-Rei que de uma parte para a outra andava a cavalo. E leixou de
fóra a cavallo D. Troillos, filho do Arcebispo de Toledo com
gente d'armas, e ginetes para segurar rebates e
torvações do campo.
O conde de Benavente como era gram senhor e esforçado
cavalleiro, tinha comsigo muita e boa gente d'armas, e assi
espingardeiros e outra muita artilharia, com que fez muito dano aos
d'El-Rei, e entre os mortos que de sua parte alli foram, foi o
principal D. Alvaro Coutinho, filho maior do Marichal, que entre as
ameias subindo por uma escada foi morto. E porém a villa foi
com tanto aperto combatida e entrada, que o conde de Benavente por
segurar a vida, constrangidamente a veio em pessoa pedir a El-Rei de
cima do muro, e El-Rei per si mesmo em viva voz lh'a outorgou, com que
se deceo e deu á
prisão. E a villa foi logo entrada e roubada toda, de que se
houve muito e rico despojo.
Dormio El-Rei alli aquella noite, e ao outro dia alegre e contente se
tornou a Pena Fiel, e trouxe preso o dito conde, cuja guarda encomendou
ao conde de Penela, que o teve emquanto n
Dormio El-Rei alli aquella noite, e ao outro dia alegre e contente se
tornou a Pena Fiel, e trouxe preso o dito conde, cuja guarda encomendou
ao conde de Penela, que o teve emquanto não foi delivrado.
CAPITULO CLXXXI
De
como El-Rei tomou Cantalapedra, e se tornou a
Çamora
Tornou El-Rei a ter
conselho sobre o socorro do castelo de Burgos, e
como quer que para isso pelo bom sobcedimento de Baltanas tinha bom
tempo e disposição, foi dos portuguezes
aconselhado que o não fizesse, e tornou-se a Arevallo
já no
fim de Setembro. E d'alli por trato que já achou concertado
enviou o conde de Penamacor, e Ruy de Mello, e outros fidalgos e
cavalleiros a escalar e tomar como tomaram de noite a villa de
Cantalapedra sem algum perigo nem resistencia. E El-Rei sobreveio logo
com toda a outra gente, para se se pozera em defesa a combater e tomar
por força como a de Baltanas.
Houve-se El-Rei nobre e piadosamente ácerca das pessoas e
fazendas dos lavradores da villa. E leixou hi logo por
capitão o dito Ruy de Mello, e tornou-se a Arevalo, e depois
quando por hi tornou caminho de Çamora, onde veio invernar,
leixou por capitão
Bandarra, irmão do Bispo de Coimbra.
CAPITULO CLXXXII
Do cuidado que o Principe D. João tinha em
governar e defender Portugal, e como
Sobre o Principe que
tornou a Portugal carregaram muitos cuidados;
porque não sómente sobre seu justo juizo pendeo a
governança do reino nas cousas da justiça, mas
ainda muito mais sobre
seu coração e esforço a defesa
d'elle, nas afrontas da guerra. A qual pela ausencia d'El-Rei D.
Affonso seu pai, que levou comsigo a frol da gente e armas do reino,
crecia e se acendia muito nos estremos d'elle com roubos, mortes, fogo
e sangue, e com entradas de gentes contrairas, a que o Principe de
noite e de dia, e em armas sempre vestido socorria e resistia com muita
viveza e trabalho, não como Principe moço e
novel, mas como ardido e velho cavalleiro, que nos trabalhos e afrontas
por longos tempos fôra esprementado, e tanto era mais de
louvar, quanto os imigos sendo mais, e elle em todo com menos
possibilidade para os contrariar, não sómente
muitas vezes defendeo em pessoa os reinos porque esperava, mas ainda os
estranhos offendia e guerreava continuamente por muitas maneiras.
E n'este mesmo anno com quanto pareceu que El-Rei D. Affonso levou do
reino tanto dinheiro, que por muito tempo lhe podera soprir,
porém as despesas de soldos e outras necessidades
sobrevieram em tanto crecimento, que a El-Rei conveio socorrer-se aos
dinheiros dos Orfãos de seus reinos, e a outros muitos
emprestidos particulares, e por seus officiaes foram logo tirados e
levados a Castella. A cuja paga O dito Principe depois que reinou, por
descargo d'a
E n'este mesmo anno com quanto pareceu que El-Rei D. Affonso levou do
reino tanto dinheiro, que por muito tempo lhe podera soprir,
porém as despesas de soldos e outras necessidades
sobrevieram em tanto crecimento, que a El-Rei conveio socorrer-se aos
dinheiros dos Orfãos de seus reinos, e a outros muitos
emprestidos particulares, e por seus officiaes foram logo tirados e
levados a Castella. A cuja paga O dito Principe depois que reinou, por
descargo d'alma de seu pai, como bom e piadoso filho satisfez quanto
pôde com muito cuidado e amor.
CAPITULO CLXXXIII
De como o principe cercou a villa d'Ougela, e a tomou, e da
morte de João da Silva
N'este mesmo anno no
mez de Junho estando o Principe em Extremoz,
Galindo, cavalleiro castelhano, e na extremadura de Castella bem
aparentado, tomou salteada e por máo recado dos visinhos
d'ella, a villa d'Ougela junto com Campo Maior, sobre que o Principe
com a mais gente de pé e cavallo que foi possivel, e com
algumas artilharias logo acudiu, e a cercou, em cujo cerco era do
Principe capitão principal João da Silva seu
Camareiro
Mór, nobre fidalgo, e de mui conhecido e esprementado
esforço.
E finalmente foi a villa assi afrontada, que aos contrairos que a
tinham conveio com risco de suas pessoas partirem-se d'ella e
livremente a leixarem. E em vindo o dito Galindo já sobre
este concerto, com assaz de gente para recolher os seus que saissem do
cerco, sahio a elle o dito João da Silva, e vindo cada um
d'elles diante da sua gente de noite, pessoa por pessoa, por
acertamento se toparam junto com a dita villa, e d'encontros
tão mortaes se encontraram, que d'elles sós,
falsadas as armas d'ambos, ambos morreram sem outro dano algum se
receber de cada uma das ditas partes, e certo para um reino e para o
outro a morte de taes dois homens, por sua nobreza e valentia foi muito
sentida e triste, mas para suas honras e memorias assaz honrada e mui
E finalmente foi a villa assi afrontada, que aos contrairos que a
tinham conveio com risco de suas pessoas partirem-se d'ella e
livremente a leixarem. E em vindo o dito Galindo já sobre
este concerto, com assaz de gente para recolher os seus que saissem do
cerco, sahio a elle o dito João da Silva, e vindo cada um
d'elles diante da sua gente de noite, pessoa por pessoa, por
acertamento se toparam junto com a dita villa, e d'encontros
tão mortaes se encontraram, que d'elles sós,
falsadas as armas d'ambos, ambos morreram sem outro dano algum se
receber de cada uma das ditas partes, e certo para um reino e para o
outro a morte de taes dois homens, por sua nobreza e valentia foi muito
sentida e triste, mas para suas honras e memorias assaz honrada e muito
de louvar.
CAPITULO CLXXXIV
De como o Principe indo vêr-se com El-Rei D.
Affonso seu padre, foi por elle avisado da
traição da
ponte de Çamora, e se tornou de Miranda do Doiro
El-Rei D. Affonso
como disse veio invernar a Çamora, d'onde
muitos portuguezes, e os mais sem vontade d'El-Rei se vieram a este
reino, o qual desejoso de vêr o Principe seu filho, e ter com
elle conselho sobre cousas que em tantas necessidades a seu estado e
honra cumpriam, lhe escreveu, que logo o fosse vêr a
Çamora, o que o Principe depois
de prover as frontarias e cousas do reino com muita diligencia e
obediencia logo cumprio. E sendo já em Miranda do Doiro
aforrado, para d'ali com gentes d'El-Rei entrar seguramente, foi de
mandado d'El-Rei avisado por o Chicorro, capitão dos ginetes
que passou o Douro a nado, que se volvesse por causa da
traição da ponte de Çamora, que foi
brevemente n'esta maneira.
CAPITULO CLXXXV
De como foi a dita traição, e da
maneira que El-Rei D. Affonso sobre isto teve
A dita ponte tem duas
torres, uma na entrada da cidade, de que era
alcaide um Pedro de Mazaregos, e outra da outra parte, que tinha um
chamado Valdes, seu cunhado, dos quaes El-Rei fôra
já avisado que se segurasse, porque contra seu
serviço
tratavam com El-Rei D. Fernando. O que El-Rei crendo que eram suspeitas
falsas que d'elles lhe davam, não o quiz remedear.
E no dia em que El-Rei havia de Çamora mandar a gente pelo
Principe, foi certificado pelo doutor Pareja, corregador da
cidade, já de noite, como gente grossa d'El-Rei D. Fernando
sobre concerto da ponte era partida de Vilhalpando contra
Çamora. E o trato era sabendo da vinda do Principe, que o
leixassem com toda a gente meter e entrar na ponte, e que se
levantassem contra elles, e cerrassem ambas as torres, e os matassem ou
prendessem, e pela duvida que El-Rei D. Affonso contra os da ponte
tinha já concebida, conveio sem mais esperar poer-se logo a
cavallo. E sendo com elle o Arcebispo de Toledo e outros alguns,
chegaram á ponte da parte da cidade, e mandou a Pedro de
Mazaregos que logo abrissem a torre e lhe viesse fallar, o qual se
escusou d'isso com taes palavras e mostranças, por que
El-Rei e os que com elle iam, claramente conheceram ser
traição.
E como cousa já danada, logo assi de noite como iam sem mais
outro acordado proposito, tentaram de por força tomar a
ponte, mas pela forte resistencia e
defesa que dentro houve, não poderam.
El-Rei e todolos outros mui tristes se volveram á cidade,
que com repique do sino grande, e com dobradas vozes de
«traição,
traição», foi logo metida em temeroso
alvoroço d'armas, e certamente consiradas bem as
circumstancias de muitas cousas que n'aquella noite concorreram, ella
geralmente a todos e em cada parte foi de grande temor e espanto;
porque a todos era notorio haver traição, e mui
poucos sabiam em que pessoas e de que maneira seria. E com este medo
tão claro e segurança
tão escura, assi trabalhavam de se salvar os castelhanos dos
portuguezes,
como os
portuguezes dos castelhanos, sem haver de uns para os outros nenhuma
certa fiança, até que foi manhã, que a
todos fez certos da
clara verdade.
CAPITULO CLXXXVI
De como El-Rei combateu a ponte, e do
que se seguiu, e como
El-Rei D. Affonso leixou Çamora, e se foi a Touro
E no dia seguinte depois de amanhecer El-Rei se pôs em armas,
e todolos senhores principaes e fidalgos com elle para combate da
ponte, e posto que com toda ardideza e perigo, com espingardas e tiros
outros, e bestas e lenha, pez e fogo, á parte da dita ponte
contra a cidade o deram mui aturadamente e sem algum medo, em fim o
damno todo ficou com os d'El-Rei, a que com espingardas e tiros que de
dentro furiosamente jogavam, lhe feriram muitos senhores principaes e
fidalgos, e mataram alguns, de que os principaes feridos d'espingardas
foram, o conde de Villa Real, e D. João de Lima, que depois
foi bisconde, e D. Rodrigo de Castro filho do conde de Monsanto, e foi
morto João Alvarez Pereira, page d'El-Rei, e outros, pelo
qual vendo El-Rei a perda tão manifesta, e a
esperança da
victoria tão desesperada, afastou sua gente do combate, e se
recolheu á cidade. Onde dos castelhanos que seguiam seu
partido foi principalmente aconselhado que algumas pessoas suspeitas
que n'ella houvesse mandasse sem armas lançar
fóra, e elle pois bem podia, a mantivesse e a defendesse, e
por alguma maneira não se saisse, e que o damno e perigo da
ponte poderia
levemente
remedear, mandando logo fazer entre ella e a cidade um muro mais forte
que a porta da mesma ponte, com que os da cidade se fariam mais fortes
contra a ponte, que os da ponte contra ella, e mais que tinha a
fortaleza certa e segura a seu serviço, que para sua
segurança era um fundamento mui principal.
E finalmente a torvação foi em todos tamanha, que
este tão são e seguro conselho nunca o
quizeram entender, e se o entenderam não o quizeram obrar,
porque El-Rei desconfiando já dos castelhanos e acostando-se
ao conselho dos portuguezes, foi d'elles aconselhado que com a Rainha
se saisse, e não se fiasse já dos de
Çamora, que havendo vista
d'El-Rei D. Fernando se sobre ella viesse, se volveriam contra elle, de
que seria mui difficil elle e todolos seus escaparem, pelo qual se
partio El-Rei e a Rainha caminho de Touro, onde estava João
d'Ulhoa, que os recolheo com tamanha fé e lealdade, como era
a desconfiança que muitos levavam de elle contra El-Rei e a
Rainha fazer e usar do contrairo.
CAPITULO CLXXXVII
Dos percebimentos que o Principe fez em
Portugal para ir
socorrer a El-Rei D. Affonso seu padre, e como entrou em Castella
E tornando ás cousas do reino de Portugal, o Principe da
traição cometida contra El-Rei seu padre foi
muito anojado, e desejando de o ajudar e socorrer não
sómente como bom e piedoso filho, mas como amigo poderoso e
verdadeiro que era,
volveu-se
logo á cidade da Guarda, onde teve conselho em que se
determinou dar-se socorro a seu padre de gentes e dinheiro do reino,
quanto fosse possivel, e que o Principe fosse socorre-lo em pessoa. Em
cumprimento do qual fizeram logo para gente
apurações e percebimentos geraes, e para o
dinheiro além do que se pôde haver das rendas do
reino, se tomou por certa recadação toda a prata
das
egrejas e mosteiros, salvo a sagrada, callezes, custodias e relicairos,
e assi por imprestidos de pessoas particulares se houve alguma somma de
dinheiro. E não sem grandes dôres e gemidos do
povo que o muito sentiam.
Cometeo o Principe e deu por autoridade d'El-Rei o inteiro regimento e
governança do reino á
Princesa D. Lianor sua mulher. E com ella ordenou e leixou pessoas
d'autoridade e letras e bom conselho, com que nas cousas do reino se
aconselhasse, e proveo as fronteiras de capitães, alcaides,
e gentes como cumpria. E depois de feito isto, e ter sua gente prestes,
partiu da Guarda no mez de Janeiro de mil e quatrocentos setenta e
seis. E foi a Castello Rodrigo, e de hi entrou em Castella por villa de
S. Fellizes, que por estar contra serviço d'El-Rei seu padre
a combateo, e tomou por força, e foi toda roubada, e a
leixou então por si, em que foram alguns mortos e muitos
feridos, e de S. Fellizes foi junto com Ledesma, que com quanto era
contraira deu ao arraial dinheiro, mantimento e provisões em
abastança. E d'alli no fim do mez de Janeiro em tanto
concerto levou sempre o Principe sua gente, que no caminho nunca
recebeo rota nem recontro, até que chegou á
cidade de Touro, onde El-Rei seu padre, depois de sair de
Çamora, seguio e tratou em sua propria pessoa as cousas da
guerra muitas vezes, mais como cavalleiro
fronteiro, que como tamanho
Rei, e tão poderoso como era.
CAPITULO CLXXXVIII
De como El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel se apoderaram
de Çamora, e poseram cerco ao castello
El-Rei D. Fernando
com a Rainha sua mulher vieram-se logo a
Çamora, a que El-Rei D. Affonso com desejo de batalha foi
dar vista duas vezes, sem haver entre elles peleja. E El-Rei D.
Fernando tambem veio dar outra vista sem rota alguma entre elles, uma
legoa de Touro. E depois vieram seus corredores a Touro, a que o conde
de Penamacôr sahio, e lhes seguiu o encalço
até junto com
Çamora, d'onde sahio outra gente de refresco, que prenderam
e feriram o dito conde, e assi prenderam e feriram outros fidalgos
portuguezes. E porém El-Rei D. Fernando pôs logo
cerco e estancias mui fortes ao castello da cidade, que era seu
contrairo. E a
determinação d'El-Rei D. Affonso era combater e
romper as ditas estancias, e soccorrer á fortaleza. E o
proposito d'El-Rei D. Fernando, a que tudo logo se revellava, era de
lh'o resistir com todas forças e poder, e a um Rei e ao
outro não era escondido que n'este só ponto de
Çamora estava a
esperança de todo o feito d'ambos; porque o que d'esta
contenda ficasse com melhoria, essa d'hi em diante teria sempre nos
debates de Castella, pois cada um de proposito ajuntava para isso todo
seu poder e valia, e assi foi e se seguio como se dirá.
CAPITULO CLXXXIX
De
como El-Rei D. Affonso e o Principe cercaram
Çamora da parte da ponte
E o Principe em sua chegada a Touro foi d'El-Rei seu padre, e de toda a
sua côrte altamente e com muito prazer e alegria recebido;
porque n'elle estava toda sua e só esperança. E
logo sem
delação acordaram e quizeram poer em obra dar nas
estancias, e ir descercar o castello de Çamora, mas porque
da fortaleza e repairo das ditas estancias foram assim certificados que
sem perda de toda sua gente ou a mór parte d'ella se
não podiam
combater, e em fim que o castello se não descercaria, El-Rei
acordou por melhor ir poer cerco á ponte da outra banda do
rio, onde sem algum seu risco o podiam ter, com affronta e necessidade
d'El-Rei D. Fernando e dos da cidade.
E assim supitamente se cumprio; porque depois de leixar o duque e o
conde de Villa Real em Touro em guarda da Rainha e da cidade, partiu
El-Rei com sua gente, e foi assentar seu arraial nas hortas de junto
com a dita ponte. E El-Rei e o Principe se alojaram no moesteiro de S.
Francisco, e a ponte com baluartes e cavas foi de todas partes cercada,
e assi continuamente combatida com pouco dano dos que eram dentro. E os
do castello que eram por El-Rei D. Affonso, tambem á sua
vista assi estavam, sem algum poder sair, nem d'elle receber falla,
ajuda nem soccorro.
Em durando este cerco, em uma ilha que se faz no Doiro, foram da parte
de Castella juntos por concerto de paz, o duque d'Alva, e o almirante,
e da parte
de Portugal o sr.
D. Alvaro, e Ruy de Sousa, e o licenceado de Cidá Rodrigo,
para todos praticarem e consultarem, se entre os Reis se poderia tomar
algum meio de paz e concordia, e em fim depois de muitos debates e
praticas, cada um teve em tamanho preço seu partido, que se
não pôde achar meio que
parecesse bom para todos ficarem concordes.
CAPITULO CXC
De
como se ordenou a batalha dos Reis entre Touro e
Çamora
E passados alguns dias vendo El-Rei D. Affonso o pouco que no cerco
aproveitava, e o muito trabalho e dano que sua gente recebia,
especialmente não se podendo prover a grande mingoa de
mantimentos, que dava causa sua gente mingoar, e a dos contrairos
acresentar-se cada vez mais, a uma sexta feira primeira de
Março de mil quatrocentos e setenta e seis annos, mui cedo
pela manhã, El-Rei de Portugal alevantou secretamente e de
supeto seu arraial para a cidade de Touro, e porque sabia que El-Rei D.
Fernando havia de sahir como sahia após elle, teve-se n'isso
para segurança de tudo
mui bom recado.
E porém a gente contraira assi como sahiu pela porta da
ponte fóra, assi sobreseve e não seguio El-Rei D.
Affonso, e fez corpo até juntamente ser toda recolhida
fóra da ponte, receando que em outra maneira indo afiada,
fazendo El-Rei D. Affonso volta sobr'ella se despunham a grande perigo
e destroço, o que deu causa ser El-Rei D. Affonso com sua
gente
já mui
alongado, quando seus contrairos começaram
de mover contra elle, o qual sendo a duas leguas de Çamora,
adiantou-se pelo fio a reter sua gente, que a Touro se recolhia com
tenção secreta de aquella
noite dar de salto em seiscentas lanças d'El-Rei D.
Fernando, que sob a capitania do duque de Villa Fremosa, seu
irmão bastardo, estavam em Fonte Sabugo, mas o Principe que
por sua vontade e sem necessario constrangimento quiz esperar e dar a
El-Rei D. Fernando a batalha, avisou logo d'isso a El-Rei seu padre,
que não descontente d'isso chegou já
ao campo junto com Touro, onde a batalha se deu, e foi a tempo que as
batalhas d'El-Rei D. Fernando passavam já um porto de uma
pequena serra que hi a cerca estava, onde o conde de Loulé
em voltas que fez foi ferido, e se foi a Touro.
E El-Rei D. Affonso mui contente e alegre de não negar a
batalha, para que por um trombeta e arauto d'El-Rei D. Fernando era
já desafiado, com quanto tinham muito menos gente,
porém elle e o Principe seu filho fizeram rostro para lh'a
dar com sua gente, de que muita era a Touro já recolhida, e
outra muita mais ficara na dita cidade com a Rainha e com o duque e
conde de Villa Real como se disse.
E sendo já o tempo mui curto para El Rei e o Principe
concertarem e repartirem sua gente em batalhas, como para
tão chegada necessidade cumpria, vendo as d'El-Rei D.
Fernando já mui acerca e chegar-se com muita pressa, fizeram
logo de toda a gente não mais de duas batalhas.
A primeira e de maior numero foi a d'El-Rei D. Affonso, que com sua
bandeira real se pôs acerca do rio ao encontro da batalha em
que era a bandeira real, mas não a pessoa d'El-Rei D.
Fernando, o qual por se segurar como prudente dos revezes da fortuna
em taes tempos, depois
de leixar sua batalha em ordenança, e encomendada sua
bandeira a bons cavalleiros e capitães, tornou-se atraz onde
na reçaga ao tempo do encontrar esteve em uma batalha
pequena.
E a segunda batalha de menos gente, e porém
cortezã e mui limpa foi a do Principe, que com sua bandeira
se pôs affastado á mão esquerda
d'El-Rei seu padre, um grande pedaço ao encontro de duas
grandes batalhas que contra a sua vinham ordenadas, e porque o Principe
foi aconselhado que tambem mandasse repartir a sua em outras duas
batalhas, mandou logo apartar de si contra o pé da serra com
gente da sua guarda, Fernão Martins Mascarenhas, seu
capitão dos ginetes, com o qual porque em sua batalha
não havia tanta gente como se requeria, o Principe
encomendou a Gonçallo Vaz de Castello-Branco e a Ruy de
Sousa, que com sua gente que era muita e mui boa se ajuntassem, como
logo ajuntaram com Fernão Martins, e após elles
porque cria que havia entr'elles algum desconcerto e competencia sobre
a capitania da gente, enviou logo a D. Pedro de Menezes, que depois foi
conde de Cantanhede, com que se refez uma boa batalha.
CAPITULO CXCI
De como romperam as batalhas, e as do
Principe venceram as
d'El-Rei D. Fernando, e a d'El-Rei D. Fernando venceu a d'El-Rei D.
Affonso, que se recolheu a Crasto Nunho, e do mais que se seguiu
até fim da batalha
E postas e ordenadas com espantosa vista as azes de uma parte e da
outra para encontrar, sendo já casi sol posto, El-Rei mandou
dizer ao Principe que com sua benção rompesse
logo, o qual por lhe obedecer e cumprir o que tanto desejava, depois de
em ambas as batalhas se fazer pelas trombetas sinal de batalha, elle e
assi seus capitães com singular destreza e maravilhoso
esforço, deram assi rijamente nas batalhas contrairas, que
nem podendo ellas soffrer nem resistir tanta força, logo uma
após outra foram
desbaratadas e postas em fugida.
E para aquella hora ante da peleja deu o Principe á sua
gente por apellido S. Jorge e S.
Christovão, S. Jorge por padroeiro de Portugal, e S.
Christovão por devoção de Jorge
Corrêa,
commendador do Pinheiro, que na mesma hora lh'o lembrou; era alferes do
Principe que levava sua bandeira Lourenço de Faria, homem
fidalgo, que n'este dia e em todolos outros por sua obediencia e
esforço o fez como bom cavalleiro, e o Principe por tal o
reconheceu sempre.
E assi como as batalhas do Principe no desbarato fizeram a estas
d'El-Rei D. Fernando, assi a batalha grande d'El-Rei D. Fernando fez na
d'El-Rei D. Affonso, que sem alguma força nem resistencia a
rompeu logo, e
destroçou com damno e mortes de muitos, e não foi
sem causa ser assi, porque na batalha do Principe era a
frol dos fidalgos e nobre
gente de Portugal, que falleceram n'esta d'El-Rei D. Affonso, e mais na
batalha d'El-Rei D. Fernando vinha muita e mui grossa gente d'armas
encubertados, além dos ginetes, e mais lançaram
diante de si
uma gram soma d'espingardeiros, que ao romper fizeram com seus tiros
fronteiros duvidar e enfiar os cavallos e a gente da batalha d'El-Rei
D. Affonso. Na qual sendo elle com sua bandeira dos dianteiros,
acharam-se com elle ao tempo do encontrar mui poucos, entre os quaes
eram D. Gomez de Miranda, Prior de S. Marco em Castella, e Bispo que
depois foi de Lamego em Portugal. E por tanto vendo-se em alguma
maneira da victoria desesperado, conveio-lhe volver e procurar por sua
salvação, parecendo-lhe que
pois a sua batalha onde a mais força estava fôra
desbaratada, que a do Principe seu filho em que havia menos gente e de
que não havia vista nem recado, tambem seria perdida. Pelo
qual havendo já suas cousas por chegadas ao derradeiro
estremo de desaventura, vendo já diante entre si e a ponte
de Touro muita gente contraira, crendo que sem ser morto ou preso se
não podia já á dita ponte recolher,
foi aconselhado por Pedralvares de Souto-Maior, conde de Caminha, e por
João de Porras, e por outros poucos que o sempre
acompanharam, que por aquella noite se acolhesse á fortaleza
de Crasto Nunho, que estava por elle, e assi o fez.
O Principe aquelle dia e hora não menos avisado que bem
afortunado capitão, como se viu com sua gente em segura e
perfeita victoria, por se lhe não seguir do longo
encalço algum perigoso revés,
logo a mais que pôde recolheu para a sua bandeira. E
porém
alguns seus e pessoas principaes esquentados e favorecidos do prospero
vencimento que seguiam, por não terem no seguimento o
resguardo que deviam, no cabo do encalço tornaram a ser
mortos e presos, porque os castelhanos das batalhas
destroçados que fugiam, refizeram-se com uma batalha de
El-Rei D. Fernando, que acerca de uma legoa na reçaga
estava, com que achando-se muito mais fizeram sobre os portuguezes
volta, os quaes sendo já atalhados e cingidos da outra
batalha grande, que desbaratara a El-Rei D. Affonso, não se
poderam salvar.
E porém o Principe depois do desbarato que fez, alli onde
acabou de recolher sua gente, esteve no campo em um corpo
çarrado sem nunca mover atrás sua bandeira, a que
muitos da batalha vencida d'El-Rei D. Affonso por seu bem e
salvação se
recolheram, com os quaes, e com outros que fóra do tempo
necessario sobrevieram de Touro, refez uma grossa batalha, com que
aquella noite ficou pacifico senhor do campo. No qual algum dos Reis,
cuja era a querela e esperança de vencer, não
aturou nem
esteve; porque como disse tambem El-Rei D. Fernando não foi
em pessoa propria na sua batalha, que venceu a El-Rei D. Affonso, mas
como era pratico guerreiro, por vêr como as cousas de tamanha
ventura sobcediam, apartou-se fóra em uma batalha, e quando
logo vio vencidas e desbaratadas suas tamanhas e primeiras batalhas,
pelas batalhas do Principe que eram menos em gente, crendo que assi o
seriam as outras suas pelas d'El-Rei D. Affonso, foi aconselhado que se
recolhesse como recolheo, e se foi a Çamora. Pelo qual sua
gente achando-se no campo sem Rei, nem certo capitão que a
regesse, com temor da batalha do Principe que viam refeita,
não sendo bem certificados do destroço d'El-Rei
D. Affonso, se refizeram
tambem junto com ella em uma outra batalha de que uns e outros
não se viam tanto como ouviam; porque a este tempo a noite
era já casi çarrada, e todo o mal que de uma
parte e da outra se fazia era sómente de gritas e tocar de
trombetas e atabales que nunca cessavam.
Alli D. Vasco Coutinho, que depois foi conde de Borba, prendeu D.
Anrique, conde d'Alva de Liste, que vinha de contra Touro reconhecer a
batalha do Principe, não sabendo pela noite cuja era.
E alli um escudeiro que se dizia Gonçallo Pires, criado de
Gonçalo Vaz Pinto, trouxe ao Principe a bandeira real
d'El-Rei D. Affonso, que por força e como homem de bom
coração a tomou a um
Souto-Mayor, castelhano, que a levava, e o prendeu sobre sua menagem, a
qual não foi aquelle dia tomada das mãos de
Duarte d'Almeida, alferes pequeno, até
que lh'as primeiro não deceparam com outras infindas
feridas, que no rosto e em todo o corpo houve, de que escapou. E a
tanto mal se estende o máo sobcedimento das cousas, que este
alferes, a que tanta honra e riqueza após isto se devia,
viveu depois aleijado e pobre, e não com galardão
dino de tal
serviço. Nem ao escudeiro da bandeira carregou muito a
balança de sua satisfação; porque com
a venturosa
fidalguia e armas honradas, que por isso lhe deram, houve
sómente cinco mil reis de tença, com que
lhe foi forçado tomar a fouce e a enxada, por mais seguras e
proveitosas armas do sustentamento de sua vida, com que sem mais bem
nem favor, e com muita pobreza viveu e acabou.
E estando assi no campo juntas estas batalhas e ambas contrairas, a dos
castelhanos por estar sem Rei e duvidosos de sua ventura, e por terem o
recolhimento de Çamora mui longe, começaram entre
si
de ferver e se afiar
mostrando claros sinaes de destroço se foram cometidos. E
porém tomaram por conselho retraer-se e acolherem-se, sem
cometer batalha nem peleja se lh'a não desse, e assi o
fizeram, e sem algum recado e com muito desmando se acolheram a
Çamora. Pelo qual achando-se o Principe só no
campo, e sem receber em sua pessoa nem sua gente rota nem
destroço, antes o tinha feito nos contrairos,
houve-se por herdeiro e senhor da propria victoria.
E porque os Reis esperavam para mais claro conseguimento, sua
determinação foi sobreser no campo, e
não se partir d'elle tres dias. Mas o Arcebispo de Toledo
que no mesmo campo era com elle, publicamente lhe disse que depois dos
imigos partidos bem cumpria por os tres dias estar no campo tres horas
continuas, a razão de hora por dia, por
comparação que trouxe da
Resurreição de nosso Senhor, que
foi depois da morte tres dias não todos inteiros, mas porque
tomou de tres dias tomando a parte por todo. E com este conselho que o
Principe tomou do Arcebispo, como de pessoa tão principal, e
no semelhante auto e cerimonias tão pratico e sabedor,
depois d'estar no campo as tres horas e mais, sem parecer n'elle gente
contraira, elle com repoiso e regrada ordenança abalou
contra Touro. E ao entrar da ponte houve muita pressa; porque
até sua chegada a entrada se çarrou a todos, e
por sua ordenança
entraram na cidade todos mui tristes e desconfortados, uns pelos
filhos, parentes e amigos que não viam, nem sabiam se na
batalha foram mortos ou feridos e presos, e todos pela dorosa
privação d'El-Rei D.
Affonso, que ali não viam, nem por então saberem
d'elle novas.
O Principe pela incertidão de seu padre, crendo
pois alli não parecia, que
seria morto ou preso, foi sobre todos mais triste e anojado, e posto
aquella noite em grande pensamento, e não menos o foi El-Rei
onde estava, duvidando da vida e salvação
do filho, de que a mór parte da desaventura não
falleceu á Rainha que estava no castello, até o
outro dia
que o pae foi certificado da saude e prospera victoria do filho, e o
filho da salvação e saude do pae
acolhido em Crasto Nunho. Na qual fortaleza indo El-Rei tão
só e desacorrido, o alcaide d'ella Pero de Mendanha, por
nação fidalgo castelhano, e no amor e
lealdade bom e verdadeiro português, o recolheu e lhe
obedeceo com muita lealdade e firmeza, e em caso tão triste
e tão averso para El-Rei, elle e sua mulher o agasalharam
honradamente e confortaram com muito despejo, dando-lhe em suas
fortunas por emxemplos d'outros mui grandes
esperanças, até o outro dia, que com muita gente
que o Principe mandou de Touro El-Rei tornou a elle seguramente.
CAPITULO CXCII
De como o Principe se tornou a Portugal, e do que El-Rei D.
Affonso fez por então em
Castella
Onde sobre conselhos
que ácerca d'estes feitos El-Rei e o
Principe tiveram, foi acordado que o Arcebispo de Toledo se fosse como
foi a Tallavera e a suas terras, e com elle por sua
segurança D. Garcia, Bispo d'Evora, o que foi cousa mui
dificil e de assás perigos, pelas muitas terras de
contrairos porque com tão pouca gente haviam de passar.
E como o Arcebispo ficou em salvo, o Bispo
d'Evora com grande risco se veio a
Portugal á frontaria de riba de Odiana, que lhe foi
encomendada. E assi acordou que o Principe se tornasse a Portugal, o
qual como era Principe bom e piedoso, depois de prover e remedear com
mercês e visitações aos
que de sua batalha foram presos e feridos, partio na semana maior de
Touro, e veio dormir a Crasto Novo, fortaleza que estava por El-Rei seu
padre, e ao outro dia passou a gente o rio em uma barca, e os cavallos
e bestas a nado, por um porto que se diz Rico Váo, e de hi
foi ter a Pascoa a Miranda do Doiro, e com elle o conde de Penella D.
Affonso de Vasconcellos, e assi pouca gente; porque os mais grandes e
senhores com todolos mais ficaram em Touro com El-Rei.
E ficando El-Rei D. Affonso em Touro, El-Rei D. Fernando veio logo
cercar mui poderosamente Cantalapedra, dentro da qual muitos fidalgos e
cavalleiros da côrte d'El-Rei D. Affonso, como desejosos de
honra se lançaram.
Foi o cerco em todo bem apertado, em que era por capitão
Bandarra, e depois á partida d'El-Rei D.
Affonso para Portugal deixou Alonso Perez de Biveiro, casado com D.
Mecia de Menezes, portugueza, e de Touro durando o cerco, foi El-Rei em
pessoa lançar uma grossa cilada aos cercadores, e soltou
corredores que foram dar no arraial, que apoz elles se soltou com tanto
desmando, que se o duque de Bragança com outros ante tempo
se não descobriram cairam os contrairos na cillada, e se
fizera uma cousa muita assinada e de muita honra e serviço
para El-Rei.
E n'este tempo sendo El-Rei D. Affonso certificado de um dia que a
Rainha D. Izabel, de Madrigal onde estava se havia de ir a Medina,
sahio de Touro aforrado com sós mil lanças sem
carriagens, e foi
secretamente dormir a Crasto Nunho, e de hi ao outro dia por encubertas
que levou, se foi
escondido lançar junto do caminho por onde a Rainha havia de
passar, cuja gente sahindo já fóra de Madrigal
á
vista das batalhas d'El-Rei, essa que era fóra com pressa se
tornou a recolher á villa, e outra alguma de dentro
não
sahio mais, por onde pareceu claro, que fôra aviso secreto
que a Rainha d'alguma pessoa do arrayal d'El-Rei D. Affonso recebera, e
com isto desaviado se tornou El-Rei a Touro, não esperando
já nenhum bom effeito de sua empresa.
CAPITULO CXCIII