De como se ordenou a ida d'El-Rei em
França, e se veio a Portugal com a Rainha D. Joana
E n'este tempo porque El-Rei sentia já bem que seu poder nem
ajuda dos grandes de Castella, não lhe davam para sua
demanda tão firme
esperança como cumpria, forçado de um vivo desejo
de sua honra, enviou por seus messegeiros requerer ajuda a El-Rei de
França, que com El Rei D. Fernando como só Rei
d'Aragão então
não estava d'accordo, e tinha por meio de D. Alvaro d'Atayde
feitas suas lianças com El-Rei D. Affonso, como
só e verdadeiro Rei de Castella. E a certidão
d'isto trouxe o dito D. Alvaro a El-Rei, estando em Touro. Pelo qual
vencido principalmente de seu apetite, sem muita certidão do
poder tão estranho e tão
duvidoso como era o de França, desconfiado em todo do seu,
determinou vir-se a Portugal e de hi passar logo em França,
crendo que o remedio e ajuda para seu recurso, que tanto desejava, com
sua ida e em sua pessoa se faria
mais facil, e ainda se lhe daria
maior. E que os inconvenientes que por ventura El-Rei de
França pela guerra do duque de Brogonha poderia para isso
ter, elle na confiança de seu mui chegado sangue os
temperaria, com paz e assesego que entre ambos procuraria.
E como El Rei o determinou, assi o cumprio, e deixou nas outras
fortalezas gente e capitães de recado, e em Touro gente de
guarnição, e com ella por
capitão o conde de Marialva D. Francisco Coutinho; porque a
este tempo João d'Ulhoa a quem pertencia era fallecido, e os
filhos que d'elle ficaram eram muito moços para tal encargo,
a El-Rei casou o conde com D. Maria d'Ulhoa sua filha, a que deu em
casamento a villa de Castel-Rodrigo, por morte de Vasco Fernandes de
Gouveia que a tinha; porque sem filho barão ligitimo tambem
falleceu em Castella estando em Touro.
E depois d'El-Rei prover as cousas de Castella como melhor
pôde, se partiu com a Rainha na entrada do mez de Junho, e
seguramente veio a Miranda do Doiro onde teve a festa do Corpo de Deus,
na qual com a cerimonia devida fez primeiro conde d'Abrantes Lopo
d'Almeida, que era Vedor da Fazenda, e lh'o tinha bem merecido. E de
Miranda se foi a Rainha á cidade da Guarda, e com ella o
conde de Villa Real, que era fronteiro mór d'aquella
comarca, e o Bispo de Vizeu D. João d'Abreu. E da Guarda se
foi a Coimbra, onde o Principe se veio com ella ajuntar, e a acompanhou
até á villa d'Abrantes, onde depois
esteve muito tempo, como ao diante se dirá.
E El Rei se foi de Miranda á cidade do Porto, onde com elle
se ajuntou logo o Principe seu filho, e a Senhora Infante D. Beatriz
com todolos grandes e senhores principaes do reino. E d'alli foi
enviado Pero
de Sousa
notificar a El-Rei de França a ida d'El-Rei D. Affonso, que
de todo hi foi determinada. E sendo já concordado que por
mór brevidade da viagem fosse pelo mar do Ponente e saisse
em Bretanha, mudou-se o acordo para o mar de Levante; porque pelo outro
mar Occeano poderia d'El-Rei D. Fernando receber maior
contradição, por rasão da frota
de Galliza e Biscaya, com que seria mais poderoso.
CAPITULO CLXIV
De como El-Rei partio de Lisboa para
França, e da maneira em que foi até se
vêr com El-Rei de França
E com esta determinação se partiram, e ajuntaram
todos a Lisboa, onde XVI navios
para a embarcação d'El-Rei foram logo prestes,
dos quaes se aparelhou uma urca para sua pessoa, em que embarcou no mez
de Agosto com dois mil e dozentos homens, em que iam quatrocentas e
oitenta pessoas a que em terra eram ordenadas encavalgaduras,
álem d'outra gente de pé, e com vento de viagem
arribou em Lagos, onde Cullam, famoso cossairo francês
certificado já das
amizades e lianças d'estes reinos com França,
andando
poderoso no mar, veio alli fazer reverença a El-Rei, que o
recebeu com grande honra e mui graciosamente, e além do
assinado serviço que o dito Cullam lhe tinha já
feito, em ser em sua ajuda no descerco de Ceuta, quando
então dos castelhanos e dos mouros, fôra
juntamente cercada como se dirá, ainda ficou de
concerto andar
d'armada em seu favor contra Castella, para que se ajuntou com Pedro de
Tayde, fidalgo português, que com a náo grande que
se dizia a
Lopiana, e com outros navios, de mandado d'El-Rei andaram tambem
d'armada. Os quaes todos logo de hi a poucos dias sendo El-Rei D.
Affonso em França, ao Cabo de S. Vicente aferraram quatro
carracas de Genoa, e sendo já por força entradas,
em uma se acendeo fogo em um barril de polvora, em que deu um tiro de
fogo, de que todas as náos e carracas que eram encadeadas
arderam, com mortes e perda de muita gente, em que o dito Pedro de
Tayde tambem morreu.
E de Lagos passou El-Rei logo a Ceuta, que poucos dias havia que sendo
n'ella capitão Ruy Mendes Ribeiro, como nobre fidalgo e
d'esforçado
coração a livrara de duas grandes afrontas e
perigos em que foi posta; porque juntamente foi cercado e combatido de
castelhanos pela Almina, e dos mouros pela Aljazira, e de todos com sua
honra e grande louvor o dito Ruy Mendes se livrou, com quanto o dito
Ruy Mendez do cerco dos castelhanos era muito mais afrontado, sendo dos
mouros comettido que com segurança sua para que lhe dariam
seguras arrefens, lhes désse entrada por dentro de Ceuta
para darem nos ditos castelhanos e os matarem e captivarem, e elle
seria livre do cerco, elle dito Ruy Mendes, como esforçado
cavalleiro e bom christão, por não minguar em sua
fé e
esforço o não consentio. O que El-Rei em pessoa
lh'o agradeceo e estimou como era razão.
E de Ceuta partio El-Rei, e sendo no mar através de Colybre,
que era de França, com proposito d'aportar em Marselha ou
aguas mortas; porque o vento não terçou bem sahio
todavia e desembarcou em
Colybre, d'onde despedio os navios em que fôra de Portugal,
e ali estava um capitão d'El-Rei de
França, de que El-Rei foi logo bem recebido, e depois
provido de bestas e cousas que cumpriam para ir, como foi por terra a
Perpinham. Onde El-Rei foi com grande honra e estado recebido, e elle e
todolos seus bem aposentados de graça, e por
reverença e acatamento de sua pessoa real, o
capitão e governadores da villa mandaram soltar e abrir os
carceres a todolos presos que na cidade havia. E assi se fez depois nos
outros lugares de França por que El-Rei passou.
De Perpinham enviou El-Rei D. Francisco d'Almeida a El-Rei de
França notificar-lhe sua chegada, e assi de sua ida logo a
elle, para que hi tambem se proveo para El-Rei e para os de sua
companhia de bestas para encavalgaduras de suas pessoas, e carretas
para fardagem, com que seguio seu caminho á côrte
d'El-Rei de França por Narbona e Mompiler e Befers e Nimis,
todas grandes cidades e villas de França em Languidoque.
E na cidade de Nimis deixou El-Rei a estrada romam, que vae a
Avinhão, e tomou outra da ponte de Santisprito, caminho da
cidade de Lião. Na qual por razão de
corrução d'ares morbosos
e pestenciaes de que estava perigosa não entrou, e passou
com sua gente adiante. E ante que a ella chegasse, no caminho lhe veio
fazer reverença o duque de Borbom, acompanhado de grandes
homens. E assi foi festejado e agasalhado em gram
perfeição em casa de Monseor
de Sam Valher, que fôra casado com uma filha bastarda
d'El-Rei de França.
E passando El-Rei D. Affonso por Lião, e chegado a um lugar
que dizem Ruana, recebeo o primeiro recado d'El-Rei de
França, fazendo-lhe saber que com sua boa ida era mui
alegre. E assi chegou á nobre cidade de Burges em
Berrí, que é na doce França, onde
repousou alguns dias, nos quaes de mandado d'El-Rei de
França vieram a El-Rei D. Affonso para lhe fazer companhia
um senhor e um Bispo de Una, com que para prazer foi vêr
algumas cousas, em especial Moris Sagevia, fortaleza que o duque de
Berrí fez no canto de duas ribeiras, a mais gentil que ha em
toda França.
E ao outro dia foi á villa, que na historia antiga dizem se
chamava Ageosa Guarda, onde agora está uma grande e devota
Abadia de S. Bento, cujo Abade mostrou a El-Rei um mui rico e antigo
livro da Historia de Lançarote e Tristão, por
ventura mais
verdadeira do que cá se magina.
CAPITULO CXCV
Da primeira vez que El-Rei D. Affonso se vio
com El-Rei de França em Tors em Toraina
El-Rei de
França era na cidade de Tors em Toraina, onde quiz
que El-Rei D. Affonso o visse e fosse bem aposentado. E depois de ter
certo seu aposentamento, El-Rei de França com uma fingida
romaria, só se partio de seu aposentamento que é
junto da cidade, e leixou n'ella toda sua côrte com o seu
Minham Monseor d'Argentam, para elle com os Regedores da cidade fazerem
como fizeram a El-Rei um mui solemne recebimento, entregando-lhe
ás portas com palavras de grande
veneração e muito
acatamento as chaves d'ella.
E El-Rei de França passados cinco dias veiu-se ao dito seu
aposentamento, que dizem Plesirdubues, e d'ali como de caminho
determinou vir vêr El-Rei D.
Affonso á sua pousada. O qual sabendo já isto,
com os senhores de seu conselho praticou a maneira de cortesia que em
seu recebimento teria. E accordou-se em todas razões, e
principalmente consirado o tempo e necessidade d'elle, que fosse a
maior que guardado o seu estado se podesse fazer, e fosse a que lhe
ensinasse a hora e tempo em que se vissem ; porque entre os Reis
não se podia dar certa fórma de palavras nem
cerimonias, que entre si dissessem e fizessem em semelhantes autos.
E avisado El Rei D. Affonso do dia em que El-Rei de França o
quereria ir vêr, vistio-se em
vestiduras onestas e reaes com proposito de a pé sahir e o
tomar na rua, ou ao menos nas escadas dos paços, mas El-Rei
de França de reavisado, pelo n'isso impedir mandou a El-Rei
diante dois seus parentes grandes senhores e mui gentis homens, os
quaes em El-Rei abalando para sair, cortezmente o detiveram, dizendo
que repousasse; porque El-Rei seu Senhor não viria
tão asinha, e sendo El-Rei avisado que El-Rei de
França era já na rua, em cometendo para sair,
tambem o detiveram. E finalmente em querendo El-Rei forçar
seus detimentos, elles com muito acatamento lhe pediram, que d'onde
estava em sua camara se não movesse; porque a elles
não cumpria elle o fazer d'outra maneira.
E El-Rei porque entendeu que seria ordenança praticada,
folgou de lhes comprazer, e porém como elles entenderam que
El-Rei de França era entrado na salla, deram logar que
El-Rei D. Affonso saisse, e ambos os reis se ajuntaram no meio da
salla.
E El-Rei de França vinha com um só barrete na
cabeça, tendo já d'ella tirado um chapeo e duas
grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de
máo pano, e cinta uma espada d'armas muito comprida,
com a guarnição de ferro limada, e umas botas
calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da
espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada
de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas
entretalhadas de muitas côres. E
ambos os Reis com os barretes nas mãos se
abraçaram inclinados os giolos mui baixos. E tendo El-Rei de
França assi abraçado El-Rei, com os olhos no Ceo
disse que dava muitas graças a Nossa Senhora e a Monseor Sam
Martim, porque a um tão prove homem como elle era fizeram
tanta mercê. Que a seu reino e casa o viesse vêr e
visitar um tamanho Rei, que elle sempre desejara tanto de vêr
e ter por
irmão e amigo, e que porém elle não
cresse que era vindo em reino estranho, mas no proprio seu; porque assi
se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de
Portugal.
E com isto acabado se recolheram á camara, á
entrada da qual sobre quem se cobriria e entraria primeiro houve entre
ambos
grandes e louvados
debates. E emfim El-Rei D. Affonso
se deu por vencido, dizendo que havia por melhor ser-lhe bem mandado,
que cortês.
CAPITULO CXCVI
Do que El-Rei de França e
El-Rei D. Affonso
entre si acordaram para execução de sua
ida
E como entraram, depois de El-Rei de França perguntar a
El-Rei por sua disposição, e tocar em muitas
cousas de prazer, em conclusão disse, que por quanto as
cousas da guerra sobre que
era seu principal motivo requeriam muita pressa e não
padeciam dillação, que logo ambos
com o conde de Penamacôr seu camareiro-mór se
apartassem, como apartaram todos tres.
E entre as cousas sustanciaes em que falaram e em que tomaram
conclusão, foi ser necessario El-Rei D. Affonso ir em pessoa
ao duque de Brogonha pedir-lhe gente e ajuda contra Castella, e que em
caso que pelas differenças em que então andava
com o duque de
Loreina lh'a não podesse dar, ao menos tomaria d'elle duque
de Brogonha tal segurança para elle Rei de
França, sem receio de sua guerra mais livre e poderosamente
o poder ajudar. E para o fazerem todos em sua ajuda com menos cargo, a
todos cumpria justo titulo, que era dispensação
Apostollica para El-Rei D.
Affonso poder casar com a Rainha D. Joana sua sobrinha, pois dos reinos
que a ella pertenciam, como seu marido se intitulara. E que logo alli
se apartassem quatro pessoas de cada parte, para em breve consultarem e
praticarem sobre a gente, dinheiro e cousas que para sua empresa
cumpriam, e porem tudo em boa ordem. E disse mais que por quanto havia
por certo que os castelhanos ás vezes folgavam vender
fortalezas, que elle sempre houvera por melhor e mais barato compra-las
por dinheiro, que por guerra, e que o dinheiro e sua pessoa com toda a
gente de seu reino, elle lh'a offerecia para isso e para todo o mais
que a sua honra e estado cumprisse.
E depois d'El-Rei D. Affonso lh'o remercear tanto quando tamanha
esperança para suas necessidades requeria, se sairam
já de noite, e do meio da salla onde se primeiro viram
já com tochas se despedio d'elle El-Rei de
França. O qual enviou dizer depois a El-Rei D. Affonso, que
para elle convidar alguma gentil dama, como era usança e
cortezia do seu reino,
lhe pedia que quizesse d'elle tomar em tanto cincoenta mil escudos
d'ouro.
Mas El-Rei D. Affonso com palavras publicas de singular agardecimento,
e com respeitos secretos que a seu estado real cumpriam se enviou por
então escusar.
Aqui fez El-Rei de França conde d'Abranches D. Fernando
d'Almada, filho do outro conde Alvaro Vaz d'Almada, que morreu na
batalha com o Infante D. Pedro, como atraz fica.
CAPITULO CXCVII
De como foram a Roma embaixadores d'El-Rei de
França e d'El-Rei D. Affonso requerer a
despensação para poder casar com a Rainha D.
Joana sua sobrinha
E para cumprimento das conclusões em que ficaram, ordenou-se
logo embaixada ao Papa sobre o requerimento da
despensação, em que d'El-Rei D. Affonso foram
embaixadores o conde de Penamacôr, e o doutor João
Teixeira, que depois
foi Chanceller Mór, e Diogo de Saldanha, homem prudente e de
grande autoridade, que seguiu a parte da Rainha D. Joana, e d'El-Rei de
França foram o monseor de Sam Valher, e um grande letrado
governador do parlamento de Granobra, cabeça do Delfinado.
E juntos estes embaixadores acompanhados de muita e nobre gente,
fizeram seu caminho a Roma por terra, onde como pessoas que
representavam tamanhos dois Reis como E juntos estes embaixadores
acompanhados de muita e nobre gente,
fizeram seu caminho a Roma por terra, onde como pessoas que
representavam tamanhos dois Reis como era o de França e o de
Castella e Portugal, foram logo com grande honra recebidos.
E El-Rei D. Affonso aparelhou sua ida ao duque de Borgonha, que era em
campo sobre a cidade de Namsy em baixa Allemanha, contra o duque de
Lorreina com que tinha guerra. E ante de sua partida El-Rei de
França lhe disse, que por a pouca seguridade que tinha do
duque de Borgonha, por ser muito orgulhoso, duvidava que tomando a
cidade de Namsy sobre que estava, e destruindo o duque de Lorreina, por
seguir novidades quereria entrar por França, e que com
receios d'isto pelos segurar tinha sua gente na frontaria, que
daria causa elle lhe não poder
dar tanta ajuda, como sem isso faria. Porém que se por seu
meio d'El-Rei D. Affonso elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e se
liassem por casamentos dos filhos, como o duque por todalas
razões devia querer, elle em sua ajuda poeria a
corôa de França com
todo seu poder, e que El-Rei D. Affonso devia requerer o duque que
fosse com elle em pessoa; porque era bom capitão, e tinha
muita gente e singular artilharia, e que sendo El-Rei D. Affonso
d'estas amizades meio segurador, cada um d'elles teria receio de as per
si quebrar, pelo não ter por contrairo, com as quaes muito
cedo se faria pacifico Rei de Castella.
CAPITULO CXCVIII
De como El-Rei D. Affonso se foi vêr com o
duque de Borgonha, e como logo se seguio a morte do dito duque
N'esta
confiança que El-Rei D. Affonso tomou de tudo assi
acabar, partiu no Novembro mui alegre, e com muita aspereza de neves e
frios incomportaveis chegou a Camansam e Almansa,
lugares mais acerca do arraial do duque,
d'onde El-Rei por terra regellada e toda cuberta de neve se foi
vêr com o duque, e viram-se e
abraçaram-se ambos a pé sobre o meio de um grande
rio todo tão
regellado, que por elle seguramente passavam bestas e carretas como por
uma forte ponte, e d'alli se tornaram ao arrayal do duque, que hi perto
estava, onde o duque sobre as cousas com que logo soube que El-Rei a
elle ia, lhe disse que elle Rei de Portugal era entrado com um homem,
em que não havia virtude nem verdade, dizendo-o por El-Rei
de França, e que para o crêr
não quizesse logo outra prova, se
não que tendo enviado a elle que no mundo era tal e
tão excellente Rei, e com requerimentos e
mostranças de tanta paz, amor, e liança, logo
após elle mandara
muita gente d'armas em ajuda do duque de Lorreina seu inimigo e para
contra elle. Porém que elle tinha ao mesmo Rei de
França em tão pouca estima, que com um
só page, que mostrou, ousaria dar-lhe batalha e esperar
victoria. Mas pois que elle Rei D. Affonso por assi lhe cumprir queria
sua concordia, que por lhe comprazer era d'ella contente, e lhe
prometia leal e verdadeiramente, não sómente de
estar em toda paz e amizade que se entre elles podesse, mas que elle
faria cumprir a El-Rei de França todo o que em sua demanda
lhe tinha prometido e prometesse.
E com esta conclusão finalmente se partiram, para nesta
sustancia do lugar a que tornavam concordarem e firmarem suas
capitullações.
E d'hi a poucos dias praticando El-Rei D. Affonso como isto se bem
faria, veio sobre o cerco do duque de Borgonha, e contra elle a mesma
gente d'armas d'El-Rei de França com outra muita do duque de
Lorreina. E o duque com quanto tinha muito menos gente e era de fome e
de frios mui trabalhada, não
aguardou ser em seu arrayal combatido,
mas sahio fóra a esperal-os, e no campo lhes deu a batalha,
em que foi desbaratado e vencido com mortes e grande perda de sua
gente, e querendo salvar-se por uma ponte já um
pedaço da peleja, achou contrairos
que a guardavam. Dos quaes pelejando sem ser então
conhecido, a um domingo, bespora dos Reis Magos do anno de mil e
quatrocentos e setenta e sete, foi morto, e depois se conheceo no campo
por os sinaes de seu corpo que um seu fisico d'elle deu, e tambem por
uma cellada rica que um seu page trazia, junto da qual pareceu que
jazia, como jazia o corpo do dito duque. Cuja morte que logo a El-Rei
D. Affonso foi notificada, pôs a elle e a todolos portugueses
em publico nojo e muita tristeza, com que deu suspeita aos franceses de
o haverem por contrairo, e esteve em condição
para d'elles receber por isso mais dano e perigo, que bom trato nem
serviço.
E na morte e perda do duque de Borgonha acabou El-Rei D. Affonso de
verdadeira e sustancialmente perder toda esperança de seu
desejo e proposito; porque em sua vida do duque estava toda a
obrigação para El-Rei de França ajudar
a El-Rei. E em sua morte foi o contrairo; porque como por ella El-Rei
de França se vio livre e desocupado dos receios que do duque
tinha, logo sem medo nem vergonha do que tinha prometido, desamparou o
negocio de Castella, e entendeo do seu proprio, que foi haver e cobrar
muitas terras da alta Borgonha e Picardia, que o duque lhe tinha
tomadas, e por seu fallecimento ficaram sem resistencia. E
porém El-Rei de França mandou logo recado a
El-Rei D. Affonso, pedindo-lhe com palavras de grande
esperança, que em tanto se fosse, como logo foi,
aposentar-se em Paris, onde esteve até o Maio, que El-Rei de
França andou
sempre em sua guerra, fazendo e acabando o que lhe cumpria.
CAPITULO CXCIX
Da resposta que os embaixadores
houveram em Roma
ácerca da despensação que
requereram
Os embaixadores dos
Reis que eram em Roma, com muita instancia e
efficacia requereram ao Papa Sixto quarto a
despensação sobre que principalmente foram
enviados, em que por parte de El-Rei D. Fernando de Napoles, por ser
casado com uma irmã d'El-Rei D. Fernando de Castella, e por
outros senhores que favoreciam sua parcialidade, por causas de
eminentes e oferecidos danos que alegaram, houve para a
despensação se não
conceder grande e total contrariedade. Porque o Papa por ventura
aconselhado n'isso catholicamente, consirando como El-Rei D. Fernando
com a Rainha D. Izabel sua mulher eram pacificos Reis de Castella, e
El-Rei D. Affonso era n'elles em forças e poder mui
desigual, houve por grande mal e perjuizo da christandade conceder a
dita despensação, em caso que parecesse
razão por ser direito conceder-se, por não dar
com ella causa e titulo de uns e outros se guerrearem com mortes de
christãos, e guerras continuas que se
não escusavam, o que o Papa devia evitar especialmente; que
ajuda d'El-Rei de França para El-Rei D. Affonso sempre em
Roma se houve por mui duvidosa.
E estando n'estas duvidas e debates chegou a Roma nova da morte do
duque de Borgonha, com que o Papa fazendo por ella o poder d'El-Rei de
França
mui mais livre e despejado para sem contradição
se quizesse poder dar uma grande ajuda, houve o direito e
justiça d'El-Rei D. Affonso para a sobcessão de
Castella por de mór efficacia, com fundamento do qual o Papa
tomou um meio, que mais verdadeiramente foi clara
denegação, o qual foi, que por quanto pelas
razões alegadas, a El-Rei D. Affonso por si, sem
França, a dita despensação
não se devia conceder, e que com a inteira ajuda d'El-Rei de
França era
razão que se desse, que por tanto a elle mesmo Rei de
França se devia de dar tomando-a elle com seu cargo.
CAPITULO CC
Da conclusão que El-Rei D. Affonso tomou
com El-Rei de França, quando com elle se vio a segunda vez
Com esta resposta se
vieram os embaixadores, que acharam El-Rei D.
Affonso já em Paris. D'onde enviou logo o conde de
Penamacôr a El-Rei de França, que era na cidade de
Raz dar-lhe conta da embaixada. O qual volveo logo, com
determinação que os Reis ambos no mesmo Raz logo
se vissem, para onde El-Rei D. Affonso logo partio, e El-Rei de
França a cavallo e vestido casi na maneira da primeira vista
o veio receber, e foi com elle a seu aposentamento, que foi em uma mui
grande e honrada Abadia de Conegos Regrantes, em que El-Rei e toda sua
gente se alojou.
Alli esteve El-Rei D. Affonso alguns dias, esperando a cautelosa e
inutil determinação, ou mais certo
desesperação d'El-Rei de França, que
lh'a deu com
certos
apontamentos, que para discretos era clara escusa do que se pedia, com
que El-Rei D. Affonso se despedio para Portugal. E tão mal
despachado como a desaventura do tempo ordenou; porque assi como
vivendo o duque de Borgonha, El-Rei de França por ganhar sua
paz, ajudara de necessidade a El-Rei D. Affonso, assi por sua morte
achando muita da sua terra desocupada para a poder cobrar,
não curou d'isso, nem foi muito de culpar El-Rei de
França por maiores promessas que fizera; porque para dar
gente e dinheiro a Rei estranho, com que para isso ganhasse reino de
empresa tão duvidosa, e leixar perder e não
cobrar sua propria terra, o direito e rasão
que o a isso obrigasse seria escuro e máo d'achar.
CAPITULO CCI
Como o Principe cercou a villa d'Alegrete e a tomou, e
d'outras cousas que no reino se seguiram andando El-Rei D. Affonso em
França
E tornando ás cousas
do reino de Portugal, tanto
que El-Rei D. Affonso partiu de Lisboa para França, o
Principe D. João seu filho na entrada de Janeiro se foi logo
entre Tejo e Odiana, d'onde mandou continuar a guerra contra Castella,
em que se faziam grandes e danosas entradas. E porque a villa
d'Alegrete estando o Principe em Touro foi manhosamente tomada por D.
Affonso de Monroy, Mestre que se disse d'Alcantara, que a esse tempo
seguia o partido d'El-Rei D. Fernando, o Principe em que havia reaes
bondades e virtudes, e o esforço do
coração não falecia, no mez de
Fevereiro de mil quatrocentos
setenta e sete, lhe pôs tal cerco e a mandou
combater assi rijamente, que por partido se rendeo, e lhe foi entregue
com muita sua honra e louvor, e porém não sem
dano e mortes dos cercadores e
cercados.
E durando o dito cerco d'Alegrete foi tambem posto estreito cerco em
Castella a Touro, e a Crasto Nunho, e a Cantallapedra, que ainda
estavam por El-Rei D. Affonso. E o Principe determinando de lhes
soccorrer, fez muita gente prestes que mandou com o almirante Lopo Vaz
d'Azevedo, e com Fernão Martins Mascarenhas
capitão dos ginetes, e da villa de Pinhel onde chegaram, se
tornaram por serem certificados que o soccorro com que iam, pela muita
maior força dos cercos postos, se não podia por
elles
dar sem seu manifesto perigo. E em fim os capitães cercados,
Pero de Mendanha, Alcaide de Crasto Nunho e Affonso Peres de Biveiro,
capitão de Cantallapedra como nobres fidalgos e leaes
servidores, por partidos que lhe fizessem nunca se deram, nem leixaram
de ter as fortallezas até que lhe foi mandado por El-Rei D.
Affonso, andando em França, visto como os não
podia soccorrer que o fizessem, pelo qual a salvamento de suas honras e
pessoas entregaram as fortalezas. E com as bandeiras reaes de Portugal
tendidas, por Castella se vieram a estes reinos; porque assim tomaram
por partido.
E n'este anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, houve o Principe
de Pedro Pantoja, cavalleiro castelhano, as fortalezas de Zagalla e
Pedra Bôa, que são do Mestrado d'Alcantara, junto
com Albuquerque, em que pôs seus alcaides e
capitães, e por ellas lhe deu em Portugal a villa de
Santiago de Cacem, que é do Mestrado de Santiago. As quaes
fortalezas com outras rendas n'este reino, depois deu o Principe
ao dito D. Affonso de
Monroy, porque seguisse e servisse a El-Rei D. Affonso seu padre, como
na guerra sempre serviu bem e fielmente até ás
pazes. Outro si porque no anno em que El-Rei D. Affonso entrou em
Castella a fortaleza de Noudal que é Mestrado d'Avis, por
engano e astucia de guerra se tomou, e a este tempo era em poder de
Martim de Sepulveda, fidalgo castelhano, o Principe por concerto o
trouxe a seu serviço com promesssas que lhe fez. As quaes
depois com elle cumpriu, a contentamento do dito Martim de Sepulveda
segundo era obrigado. E sendo El-Rei D. Affonso em França, o
Principe fez côrtes geraes em Mantemór-o-Novo,
onde para estas necessidades da guerra lhe foi pelo reino outorgado
dinheiro, para que lançaram pedidos.
CAPITULO CCII
De como El-Rei D. Affonso desapareceu em
França, e o Principe seu filho por seu mandado se alevantou
por Rei em Portugal
E volvendo a El-Rei D. Affonso que era em França, despedido
elle de Ras como atraz fica, se foi com sua gente a Ruão,
onde esperando pelo aviamento que se dava á sua
embarcação, repousou muita parte do
verão, e d'alli se foi pelo rio abaixo até a
Aynafrol, que é porto de mar, onde a
frota e cousas da armada para sua vinda se aparelhavam, e alli esteve o
mez de Setembro, no qual tempo sentindo elle que a esperança
para as cousas de Castella não lhe respondiam conforme a seu
proposito, e que não fôra por fallecimento de seu
esforço, cuidado
e diligencia, pois em Portugal e Castela, e em Roma, em
França e Borgonha, tinha procurado todo o que para sua
empresa pareceo conveniente e necessario, e todo lhe falecera, vendo
já cerrados todolos outros caminhos de que esperasse
conseguir desejado effeito, crendo que tantas contrariedades
não podiam ser sem vontade de Deus, determinou entresi como
desconfiado já de remedio leixar este mundo e seus debates,
e sem ser conhecido ir-se a Jerusalem, onde propôs servir a
Deus, e para o cometer e fazer sem dos seus ser sentido, custumou por
alguns dias ir só em romaria ante manhã junto com
Aynafrol, e
assi tambem retraido escrevia de sua mão algumas cousas, que
logo metia em um cofre de que trazia a chave, dando a entender que por
se haver de meter no mar em tempo de inverno fazia ou reformava seu
testamento.
E em fim um dia ante manhã, vinte e quatro dias de Setembro
de mil e quatrocentos e setenta e sete, El-Rei cavalgou como sohia, e
levou comsigo a cavallo Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, ambos seus
moços da camara, e a elle aceptos, e dois moços
d'esporas. E mandou a Estevão Martins seu
capellão, que o fosse aguardar á estrada de hi
meia jornada, onde logo com elle se ajuntou. E d'hi fez tornar a
Aynafrol um dos moços d'esporas a que deu a chave do cofre
que leixava, com mandado que o abrissem, como abriram, em que leixava
uma carta para El-Rei de França com remoques dissimulados
reportados á sua desaventura, em que tambem lhe dava conta
do fundamento que tivera para sua partida, que era servir a Deus;
porque assi lhe fizera voto de o fazer depois da morte da Rainha sua
mulher, sendo o Principe seu filho em idade para reger seus reinos como
era, pedindo-lhe amparo, favor, e ajuda para os seus
que em seus reinos ficavam. E outra
carta para o Principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta da
sua viagem, encomendando-lhe e mandando-lhe por sua
benção que logo se alevantasse e
intitulasse por Rei. E outra d'esta sustancia para todolos do reino,
que como a proprio e verdadeiro Rei obedecessem ao Principe. E outra
para os seus que alli leixara, que estivessem á obediencia e
ordenança do conde de Farão, com que todos foram
tão tristes,
e fizeram tão dorosos prantos como a razão
ensina, que em terras tão estranhas e em tanto desamparo, e
a Rei tão amado devia ser.
E as cartas escriptas e ordenadas para Portugal, enviou logo ao
Principe Antão de Faria, seu camareiro, que a esse tempo hi
se acertou, e era lá ido com
visitação e outras cousas entre o pae e o filho
secretas, e por este apressado aviamento que ás cartas se
deu, o Principe solenisou logo seu alevantamento em Santarem no
alpendere de S. Francisco, a dez dias de Novembro de mil e quatrocentos
e setenta e sete. O que não foi sem muitas lagrimas e grande
tristeza sua e de quantos hi eram.
E ante que o moço d'esporas d'El-Rei chegasse com a chave,
já os portugueses vendo sua desacostumada
tardança eram por ella em desesperado pensamento. Nem o foi
menos o monseur de Lebret, que com El-Rei para melhor ser aviado e
servido sempre andava, acusando com irosas e graves
reprensões a negligencia dos portugueses, por leixarem ir
El-Rei assi só e de noite em terras alheias, nem elle se
escusava de muita magoa por não dar d'elle melhor conta.
E porém por todolos caminhos e por toda a terra com gente de
pé e de cavallo fez e mandou com muita trigança
infindos avisos, dando voz que El-Rei de Portugal
que lhe fôra
encomendado era fugido contra prazer e serviço d'El-Rei de
França. Pelo qual
todolos franceses ouvida esta fama, leixadas todas suas cousas seguiram
ávante pelos caminhos de Roma, em que não podiam
errar; porque de uma parte corria o rio de Ruão, que
não podia passar, e da outra era o
mar. Os quaes troteiros tanto que d'El-Rei acharam nova, logo de uns em
outros correram e seguiram com tão apressurada diligencia,
que a dois dias foram em continente com elle, que de noite estava
já aposentado em uma villagem, e jazia já, onde
na pousada e camara entrou com elle um gentil homem francês,
e porque os portugueses negaram El-Rei, conveio a elle por ser
fóra da duvida acorda-lo e reconhece-lo; porque El-Rei por
dissimulação d'aquelle apartamento, por
não ser por caminhos em alguma differença
conhecido, não comia nem dormia apartado, mas com todos
familiarmente, e tanto que El-Rei foi conhecido, o francês
com muito acatamento lhe pedio perdão pelo espertar, dando a
culpa aos seus pelo encubrirem, e lhe não dizerem a verdade.
E leixando-o na cama se sahio, e da parte d'El-Rei de França
fez logo ajuntar todo o lugar, por que mui sem rumor em toda a noite
foi guardado e velado, d'onde ainda que quizera já
não podera sahir. E logo n'aquella noite a gram pressa este
gentil homem fez messegeiros, uns a El-Rei de França, que
por acertamento não era de hi longe,
e outros a Aynafrol aos portugueses e a Monseor de Lebret, detendo
El-Rei na mesma casa em que o achára, e fazendo-o mui bem
servir.
O conde de Penamacôr com tanta sua magoa, como foi a culpa
d'este caso por ser a isso mais obrigado por ser seu camareiro
mór, era já em caminho em
busca d'El-Rei, com determinação de nunca sem
elle
tornar a Portugal, e pelo aviso que houve de ser já achado,
foi logo com elle, e porque
o achou forte para sua tornada, avisou logo e enviou chamar o conde de
Farão, e D. Alvaro seu irmão e outros senhores
aceptos, que logo não com menos pressa que alegria o foram
vêr, e d'elles e de uma carta consolatoria que hi veio
d'El-Rei de França, se leixou vencer para tornar e desistir
de seu proposito.
CAPITULO CCIII
De como El-Rei D. Affonso embarcou em
França e se veio a Portugal, e se vio com o Principe seu
filho
E para embarcar, por algum pejo que teve dos que o conheciam,
não tornou a Aynafrol, mas por outro caminho em que por seu
desporto todos os principaes juntamente comiam e folgavam, vieram a uma
angra do mar que dizem a Oga, onde para a pessoa d'El-Rei estava
já prestes uma carraca que mandara fretar a Antona, e alli
vieram logo de Aynafrol as outras naus de França, para todos
embarcarem como embarcaram, e fizeram logo vella, e em poucos dias
foram ancorar através d'Antona á
ilha d'Oyque, onde El-Rei houve rebate de novas de oitenta urcas
d'allemães que vinham contra franceses. E porém
por ventos contrairos não poderam as urcas entrar, e a
El-Rei conveio sair da ilha não pela banda do Norte por onde
entraram, mas pelas agulhas que dizem logar mui perigoso.
E d'alli no mez d'Outubro fez vella, e com um pouco de temporal que
sobreveio uns navios em que vinham cavallos não poderam
aguardar a conserva,
e vieram-se diante a Portugal, por que o Principe da vinda d'El-Rei seu
padre foi logo avisado, sendo havia muito pouco alevantado
já por Rei, como atrás disse.
Arribou El-Rei em Cascaes, onde logo foi certificado que o Principe seu
filho era já obedecido e intitulado por Rei, e foi surgir a
Oeiras, e ao outro dia sahio em terra, e no mesmo dia veio hi logo o
Principe seu filho, que em o vendo com lagrimas de tanto prazer e
alegria, como foram de paixão e tristeza as de Santarem,
quando em sua vida e por sua obediencia se alevantou por Rei. E com
muita reverença com os giolhos em terra lhe beijou as
mãos, ás quaes com
palavras de Principe tão excellente, e filho tão
bom e tão obediente como elle era, logo renunciou e
depôs o titulo de Rei, de que por cumprir seu mandado e por
haver sua benção mais que por
cobiça de reinar se intitulara.
Com este despejo e bondade do Principe ficou El-Rei e todolos de sua
companhia muito descarregados e alegres, e El-Rei logo com
razões e causas muito de louvor quizera obrigar o Principe
para não desistir do nome de Rei e do hereditario cetro que
já tinha, mas elle com outras de não menos
honestidade que merecimento, sempre se escusou, e como quer que depois
El-Rei lhe movesse e rogasse que todavia se chamasse e fosse Rei de
Portugal, e que elle se contentaria ser Rei dos Algarves com a parte
d'Africa, onde na guerra dos mouros folgaria servir a Deos e n'ella
acabar, o Principe pelo amor e grande acatamento que lhe tinha nunca o
quiz aceitar, e sempre o contrariou, de maneira que El-Rei D. Affonso
não leixou o nome inteiro de seus reinos, nem o Principe em
sua vida acrecentou o seu.
E d'alli d'Oeiras se veio El-Rei a Lisboa, e para o
vêr vieram logo a Princesa
D. Lianor, e o duque e duquesa de Bragança, e assi todolos
senhores do reino, onde estiveram depois de Janeiro de mil e
quatrocentos e setenta e sete. E de Lisboa se foi El Rei a
Montemor-o-Novo, onde esteve o verão, e no fim d'elle se foi
a Evora durando ainda a guerra de Castella, que se continuava e fazia
com muitas entradas e grandes cavalgadas.
E n'este tempo depois da vinda d'El-Rei D. Affonso de França
elle enviou seus recados e messegeiros a Castella, para outra vez
tornar entrar n'ella, e casar publica e perfeitamente com a Rainha D.
Joana, para que já tinha boa
disposição, com
que muitos grandes de Castella se tornavam a offerecer. Mas o Principe
por causas justas que o a isso moveram, amoestado e castigado dos
enganos e pouca firmeza que n'elles se achou da primeira entrada, o
estorvou da segunda, e assi do casamento que nunca consentio que por
isso se fizesse.
CAPITULO CCIV
De como Lopo Vaz Torrão se alevantou com a
villa de Moura por El-Rei de Castella, e do que se seguio
N'este anno de mil e
quatrocentos e setenta e oito, Lopo Vaz de
Castel-Branco, que por alcunha se dizia o Torrão, sendo
alcaide mór da villa de Moura, sem causa alguma e por
induzimentos alheios que cegaram e forçaram sua propria
lealdade, se alevantou com a dita villa e fortaleza por El-Rei de
Castella, e contra El-Rei D. Affonso que o criara,
e chamou-se conde d'ella. Mas logo
arrependido d'isso, assi por sua propria
inclinação como por
ser amoestado de seus parentes, homens principaes e mui leaes que no
reino havia, tornou a alevantar-se por Portugal, e desestio do titulo
que individamente e por Rei e Senhor não proprio tomara, e
chamou-se como d'antes se chamava, mas o Principe que d'este seu
alevantamento primeiro foi muito sentido, não se segurando
nem fiando já d'elle para o segundo se, o fizesse, e assi
por elle não estar chão a seu
serviço, teve o Principe maneira como João Palha
e Mem Palha irmãos, e Diogo Gil, e Ruy Gil os Magros,
d'Evora, tambem irmãos, e outros seus parentes manhosamente
como fugidos e temorizados de justiça se acolhessem, como
acolheram ao Castello de Moura com o dito Lopo Vaz, dos quaes em uma
saida que fez a folgar, fiando-se d'elles o mataram no campo, a que o
Principe em pessoa logo accodiu e toda a côrte
após elle, e segurou a villa e a fortaleza, e a entregou
á Infante D. Briatiz como titor que era do duque D. Diogo
seu filho.
CAPITULO CCV
De como se seguiu a batalha de Merida,
em que o Bispo
d'Evora, capitão mór, foi
vencido
A condessa de Medellym em Castella, D. Briatiz Pacheca, irmã
do marquez de Vilhena, com suas fortalezas e outras alheias que tinha,
esteve sempre a serviço d'El-Rei D. Affonso, e na entrada do
anno de mil e quatrocentos e setenta e nove, sendo certa que o Mestre
de Santiago de Castella D. Affonso
de Cardenas, e outros
capitães d'El-Rei D. Fernando se dispunham para vir cercar
suas fortalezas, enviou pedir ajuda e soccorro a El-Rei D. Affonso, que
determinou dar-lh'o por seus capitães com quanto podesse, e
para isso mandou por capitão mór D. Garcia de
Menezes, Bispo d'Evora, e com elle por capitães D.
João de Menezes seu irmão, e Diogo Lopes de
Souza, e Affonso Telles, e outros que fizeram setecentos de cavallo,
sem alguns de pé de peleja.
E sendo o Bispo entrado em Castella; porque o dito Mestre de Santiago
era já de sua ida bem avisado, sabendo a pouca gente que
levava, determinou com sua gente que era muita mais e mais folgada,
recebe-lo com batalha no caminho junto com Merida; porque com o dito
Mestre eram outros capitães d'El-Rei e da Rainha de
Castella, com mil e tresentos de cavallo, e tres mil homens de
pé para peleja, e podendo o Bispo escusar a peleja, e sendo
razão que a escusara,
porém porque era de nobre sangue e de esforçado
coração, filho, neto, e irmão de
singulares capitães
herdeiros já de louvadas victorias, houve por abatimento
retraer-se sem peleja. E determinou dar-lhe como deu a batalha, em que
pela desegual comparação de uma
gente á outra, com quanto por ambas as partes foi bem e mui
ardidamente pelejada, finalmente o Bispo foi vencido, ferido, derribado
e preso, e com elle a maior parte de sua nobre gente foram feridos e
alguns presos.
E o Bispo posto já em poder de um escudeiro que o tinha
preso, com esperança de grande galardão
que lhe prometeo, e depois deu, se concertou com elle que o salvasse, e
levasse como levou a Merida, onde e assi em Medellym a que alguma gente
que do destroço fugindo se acolheo, se tornou a reformar, e
sem esperar já soccorro se manteve muito tempo cercado,
soffrendo
grandes perigos dos contrairos, mas muito maiores de grandes
doenças em que
cahiam, fazendo sempre em armas coisas assinadas de sua honra e louvor.
E assi com nome d'esforçado se manteve todo o
verão, até o concerto das pazes que se logo fez,
que foi n'esta maneira.
CAPITULO CCVI