De como se ordenaram e trataram as pazes entre
Portugal e Castella, e por quaes pessoas, e com que
condições e cousas
sustancialmente
N'este tempo depois
do
destroço do Bispo e ante d'elle havia
já n'este reino de gente, armas, e cavallos, e
principalmente de dinheiro, que é o sustancial nervo da
guerra, manifestas necessidades, e estas mesmas com outros maiores
receios tambem não falleciam em Castella. Porque como os
grandes e senhores principaes d'aquelle reino, por sua natural
condição sempre sejam amigos de novidades e
divisões, com quanto publicamente desserviam El-Rei D.
Affonso; porém por fazerem seus partidos mais
esforçados, nunca leixavam de trazer com elle praticas e
cometimentos secretos, para outra vez o retornarem com a Rainha D.
Joana a Castella. O que não ficava por saber a El-Rei D.
Fernando, e á Rainha D. Isabel sua mulher, que com toda sua
prosperidade eram por isso postos em terror e cuidado. Pelo qual por
occultos meios de pessoas virtuosas e de santa
tenção, que entre os Reis e o reino cometeram as
pazes, houve de uma parte e da outra taes intelligencias, e para isso
tão chegadas a conclusão, que a
Rainha D. Isabel por concerto se veio á villa d'Alcantara
em Castella, onde a
Infante D. Briatiz de Portugal sua tia, por prazer d'El-Rei D. Affonso
e do Principe D. João, se foi vêr com ella, e alli
ambas tomaram
assento de as pazes todavia se fazerem e concordarem n'este reino de
Portugal; porque assi se houve por mais favor e mór honra
d'El-Rei e de seus reinos, aos quaes a Infante com esta determinada
conclusão se tornou, para execução da
qual o Principe a que
o negocio e cargo dos tratos e assentos das ditas pazes, por prazer
d'El-Rei seu padre foi em todo cometido, por concerto já
praticado se foi á villa das
Alcaçovas d'entre Tejo e Odiana, onde veio por só
embaixador e procurador d'El-Rei e da Rainha de Castella o doutor
Rodrigo Maldonado, que vulgarmente se dizia de Tallaveira, que
juntamente com D. João da Silveira, barão
d'Alvito, que foi só procurador
d'El-Rei e do Principe de Portugal, praticaram e concordaram as
capitulações das pazes, que foram perpetuas sem
alguma limitação de tempo, em que
sustancialmente se tomaram estas conclusões principaes, que
se concordaram e capitularam na dita villa das Alcaçovas, a
quatro dias de Setembro de mil e quatrocentos e setenta e nove.
Primeiramente que El-Rei D. Affonso leixasse o titulo dos reinos de
Castella e Lião. E assi mesmo El-Rei D. Fernando e a Rainha
D. Isabel leixasse o titulo de Portugal, de que sem algum fundamento de
direito em seu ditado se intitulavam. E a Rainha D. Joana leixasse
todolos titulos de Castella e de Lião e de Portugal, de que
se intitulava, e de hi em diante não se chamasse Rainha,
Princesa, nem Infante, salvo depois que fosse casada, se casasse com o
Principe D. João de Castella, como podia ser e ao diante se
dirá.
Outro si n'estas pazes encorporaram e reformaram
os capitulos das pazes antigas, feitos
entre El-Rei D. João o primeiro d'estes reinos de Portugal
com El-Rei D. João o segundo de Castella quando outra vez
tiveram guerra. E além da aprovação
das ditas pazes antigas, foi mais concordada e firmada outra nova
adição e capitulação, que
esta nova concordia especialmente requeria, em que sustancialmente
foram declaradas e determinadas estas cousas.
Que as cidades, villas e castellos que de um reino a outro fossem
tomadas, e assi os prisioneiros todos de qualquer sorte e
condição que fossem, se restituissem e
entregassem, e soltassem livremente, e que os Reis de Castella
perdoassem como perdoaram em geral e especial a todos seus naturaes,
que depois da morte d'El-Rei D. Anrique por qualquer maneira serviram e
seguiram a El-Rei D. Affonso e ao Principe D. João seu filho
até a
publicação das pazes, e assim lhes restituissem
em Castella todas suas villas, castellos, terras, lugares, e todalas
rendas, officios, beneficios, e cousas para os terem e possuirem
indistintamente, assi como os tinham e possuiam ao tempo que com os
ditos Reis e Principe se ajuntaram.
E por alguns cavalleiros e pessoas particulares se fizeram algumas
capitulações especiaes, as quaes
por cautellozos e não proprios entendimentos que lhes os
Reis de Castella davam, nunca depois perfeitamente se cumpriram, e assi
os ditos Rei e Principe uns aos outros se remetteram, perdoaram, e
quitaram todalas mortes, danos, malles, e roubos que em guerra ou
tregoa de uma parte ou de outra por qualquer maneira se fizeram, e que
assi se derribassem como derribaram as fortalezas que nos estremos dos
reinos, de um reino e do outro novamente se fizeram.
Outrosi que o senhorio de Guiné, que é dos cabos
de Não e do Bojador até os Indios
inclusivamente, com todos seus
mares
ajacentes, ilhas, costas descobertas e por descobrir com seus tratos,
pescarias e resgates, e assi as ilhas da Madeira, e dos
Açores, e das Flôres, e do Cabo Verde, e assi a
conquista do reino de Fez ficasse
insollido, e
para sempre ao dito Rei e Principe de Portugal, e a todos seus
herdeiros e sobcessores para sempre, e que as ilhas das Canarias logo
nomeadas, com a conquista do reino de Grada ficassem outrosi
insollido
aos Reis
de Castella, e a seus sobcessores para sempre.
A qual capitulação, adoção
e reformação nova, com todas estas cousas de
Guiné e conquitas mais declaradas, o Papa Sixto quarto a
requerimento e
suplicação do Principe D. João depois
de ser Rei, confirmou e ratificou por sua Bulla,
ad
perpetuam rei
memoriam, em que as ditas capitulação
e cousas de
verbo a verbo foram todas encorporadas, com penas
e excomunhões e maldições, aos que em
qualquer maneira para
sempre as quebrantassem, além das outras conteudas nas
Bullas das doações que os outros Papas pozeram,
concederam e declararam, quando d'este senhorio primeiramente a
requerimento do Infante D. Anrique fizeram doação
a este Rei D. Affonso, e a todos seus
herdeiros e sobcessores para sempre, como na morte do dito Infante D.
Anrique brevemente atrás apontei.
Outrosi que para maior seguridade e firmeza das ditas pazes, o Infante
D. Affonso filho primeiro do Principe D. João de Portugal,
tanto que fosse em idade de sete annos casasse por palavras de futuro,
e em idade de quatorze annos por palavras de presente, com a Infante D.
Isabel, filha maior dos ditos Rei e Rainha de Castella, e
além dos corregimentos de sua pessoa, casa e camara,
houvesse em dote quarenta contos ou milhões de reaes, pagos
em certo modo e
tempo, em que os vinte contos d'elle entravam em
satisfação pelas despezas que El-Rei D. Affonso
tinha feitas na guerra, os quaes em todo caso este reino de Portugal
sempre havia d'haver, posto que os outros vinte contos por algum caso
que sobreviesse houvessem de ser restituidos a Castella.
E que d'hi a certo tempo nos contratos conteudo a dita Senhora D.
Joana, com todalas escripturas que tivesse, e se podessem haver
ácerca do que tocava á sua subcessão
de Castella, e assi os ditos
Infantes fossem postos em terçaria na villa de Moura em
poder da dita Infante D. Briatiz, na qual estivessem até
serem perfeitamente casados. Porque outrosi foi acordado que o Principe
D. João, filho dos ditos Rei e Rainha de Castella, tanto que
fosse em idade de sete annos casasse por palavras de futuro com a dita
Senhora D. Joana, e em idade de quatorze annos casasse com ella por
palavras de presente, e então se chamaria Princesa, e
haveria d'arras vinte mil florins d'Aragão, além
das rendas com que bem podesse manter seu estado, e que sendo caso que
o dito Principe aos ditos tempos com ella não se quizesse
esposar e casar, que então ella fosse livre da
terçaria,
e lhe fossem entregues suas escripturas, e mais houvesse para si em
Castella d'El-Rei e da Rainha cem mil dobras d'ouro de banda, pagas em
dois annos, ou a cidade de Touro a penhor d'ellas, com suas rendas e
jurdições sem descontar até lhe serem
pagas, e podesse então despoer de si o que quizesse.
E porém que a dita Senhora D. Joana logo se pozesse em
terçaria, em poder da Infante D. Briatiz com todalas ditas
escripturas que fossem em seu favor, ou entrasse em religião
em um de cinco moesteiros, ou em Santa Clara de Santarem, ou de
Coimbra, ou no moesteiro de Christus d'Aveiro, ou no Salvador de
Lisboa,
ou na Conceição de Beja, em cada um dos quaes
recebesse o habito, e estivesse um anno que se dizia da
aprovação. Acabado o qual de necessidade
escolheria uma de duas cousas, ou fazer inteira profissão, e
ser freira professa no habito da ordem que recebesse, ou ir-se
pôr nas terçarias de Moura com os ditos
infantes D. Affonso e D. Isabel, para n'ellas estarem em poder da
Infante D. Briatiz até se cumprirem os tempos e cousas dos
capitulos que para cada uma d'ellas eram concordados, para que a dita
Infante em sua vida e por seu fallecimento a Senhora D. Fellipa sua
irmã, ou D. Diogo duque de Vizeu, e o Senhor D. Manuel seus
filhos com seus alcaides e capitães e cavalleiros fossem os
sós e principaes mantedores e seguradores das ditas
terçarias, e n'ellas haviam de poer as guardas e officiaes
á sua vontade, sem os Reis nem Principe poderem a ellas ir
durando o tempo d'ellas, e para o melhor poderem fazer, houveram dos
ditos Rei e Principe autentica faculdade e licença para
d'elles se desnaturarem. Por tal que sem cahirem em caso, lhes fizessem
cumprir todo o que por bem dos ditos tratos e
capitulações fossem obrigados, das quaes
cousas todas se fizeram capitulações e
escripturas
juradas e firmadas pelos ditos Reis.
CAPITULO CCVII
Da publicação das
pazes e das
mais cousas que para cumprimento d'ellas se fizeram, principalmente
ácerca da Excellente Senhora D. Joana
E no fim do mez de Setembro d'este anno do nascimento de Nosso Senhor
Jesus Christo de mil quatrocentos e setenta e nove, as ditas pazes se
publicaram logo no dito lugar das Alcaçovas, e des hi por
todolos reinos de Portugal e Castela, onde de hi em diante se guardaram
e cumpriram inteiramente. E porém o titulo de Rainha e
estado que a Senhora D. Joana tinha, não lhe foi logo tirado
até os seis dias d'Outubro logo seguinte; porque
então se cumpriam seis mezes que a dita Senhora D. Joana
teve de liberdade, para sem quebrantamento d'estas pazes se poder sair
dos reinos de Portugal, mas em tal caso não podia d'elles,
nem d'El-Rei e do Principe por alguma maneira receber ajuda nem
soccorro, nem menos ser por elles intitulada Rainha, Princesa nem
Infante, e porque isto não sobcedeo á dita
Senhora em Castella como á sua honra, estado e desejo
cumpria, sendo forçado escolher um de dois meios que para
ella eram estremos de mortal sentimento, ou poer-se em
terçaria ou entrar em religião, ella escolheu por
melhor entrar em religião. Pelo qual estando ella
não com menos força alheia que
tristeza sua propria, e com dorosas lamentações
suas e de
todolos seus, leixou o titulo de Rainha e tomou nome de D. Joana, e
despio seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e vestiram-na em
habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a
corôa real de
Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella
seus cabellos como a uma
pobre donzella, e por maior seu agravo e magoa não lhe
leixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que
tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assi entrou, foi
Santa Clara da dita villa de Santarem.
E na execução d'estas cousas porque a necessidade
d'outras muitas assi o requeria, o só e principal ministro
era o Principe; porque El-Rei D. Affonso seu padre de muito anojado e
envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as leixou inteiramente
á
disposição e ordenança do filho, a
cuja vontade El-Rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e
sobjeito.
Mas se o Principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a
Senhora D. Joana, porventura mais do que por razão, piedade,
e temperança se lhe devia, e isto pela gloria e
contentamento que tinha do casamento do Infante seu filho se
não desfazer, que não era sem alguma
esperança da
sobcessão de Castella, a desaventurada fortuna como
crú algoz do rigoroso e severo juizo Divino, pela culpa do
Principe se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal
apartamento dos innocentes Principe e Princesa, depois de novamente
casados, sobre que tanto fundamento de honra e segurança
fazia. Porque o mesmo lugar de Santarem, que contra a Senhora D. Joana
foi o talho d'esta primeira sua crueza, se tornou a ser o principio
d'esta sua vingança; porque o Principe D. João
depois de ser Rei á vista da mesma
Excellente Senhora vio a supita e desastrada morte do Principe D.
Affonso seu filho, e a quem á primeira pareceo, que sendo
vivo os reinos de Portugal sem os de Castella lhe não
abastariam, elle o vio logo morto, e de uma pouca de terra para sempre
sobjeito e contente,
e a
triste e innocente Princesa sua mulher ante de bem casada se vio logo
ser viuva, privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os
brocados ricos, e ollandas delgadas que trazia, com pobre burel e
grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por cortar seus
cabellos dourados com accidental proposito de religião,
sendo apartada das pessoas mais de sua
conversação, e servida por servidores
alheios, comendo no chão e em vasos de barro, privada em
todo de todo estado, entrando n'estes reinos esposada cuberta d'ouro e
de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e trotões
á vista de todos. E saindo logo d'elles viuva, cuberta de
vaso e almafega, em cima d'azemolas, escondida de todos.
Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta
dôr aqui apontaes, soffrei-vos um pouco, cá para
outro mais proprio lugar estaes reservadas.
Nem a culpa do solemne, mas simulado e cautelozo juramento que El-Rei e
a Rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta Senhora com o
Principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda
e sentimento
seu, porque Deus em cujo desprezo pareceo que se fez, não
padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a
não madura morte do Principe innocente moço seu
filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle em que com esta Senhora
prometeram e juraram de o casar; porque elle já
então era casado com Madama Margarida, filha do Rei dos
romãos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum
d'estes Principes de que os Reis de Castella e de Portugal tanta
esperança e fundamento faziam, ficar algum ligitimo herdeiro
descendente que os subcedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os
transversaes mais chegados.
CAPITULO CCVIII
Da grande pestelença que sobreveio a estes
reinos, e como se fez a profissão á Excellente
Senhora D. Joana
El-Rei D. Affonso e o
Principe com toda a côrte se foram logo
a Lisboa, d'onde no Janeiro do anno que vinha de mil e quatrocentos e
oitenta se partiram, por causa da grande e mui crua
pestenença que na cidade sobreveio, a qual em todo este
reino durou bem dezasete annos, que se acabaram nos primeiros dias em
que El-Rei D. Manuel nosso Senhor depois começou de reinar,
que foi no tempo em que como catholico Principe de todo tirou e
arrancou de seus reinos a velha lei de Moysés, e a errada
seita de Mafamede, lançando fóra d'elles os
judeus que
não quizeram ser christãos, e assi os mouros,
como infernaes ministros e discipulos d'ellas.
El-Rei D. Affonso se foi a Viana d'Alvito, e o Principe e Princesa a
Beja, e a Excellente Senhora porque Santarem da mesma
pestenença foi logo contaminado, com gente d'armas que a
sempre guardou, foi levada ao mosteiro de Santa Clara d'Evora.
E porque o Principe no anno passado ante das pazes soube que certa
armada era ida de Castella resgatar contra sua defesa á
Mina, armou contra ella outra de que por uma vez foi capitão
mór Jorge Corrêa, comendador do Pinheiro, e da
outra Mem Palha, homens honrados e bons cavalleiros. Os quaes toparam
na Mina os castelhanos, e assi os cometeram que muito a seu salvo lhes
tomaram sua frota, com muito ouro e mercadorias, e trouxeram suas
pessoas
presos e captivos a
Lisboa, que por condição das pazes foram soltos,
e o ouro que foi muita soma assi como vinha em joias e arrieis foi
levado a Beja, de muita parte do qual o Principe fez mercê
aos embaixadores de Castella, que depois a Moura vieram sobre o
concerto das terçarias.
E porque Evora no verão d'este anno começou
corromper-se de pestenença, foi logo d'ella tirada a
Excelente Senhora, e levada com sua guarda ao Vimieiro, onde o Principe
veio, e d'alli a levaram ao mosteiro de Santa Clara de Coimbra. E
El-Rei D. Affonso se foi a Villa Viçosa, e de hi na entrada
do inverno a Coimbra, e o Principe após elle.
E porque n'aquelle mesmo tempo se cumpria o anno de
aprovação, que á Senhora D.
Joana fôra dado para no cabo d'elle escolher, ou entrar em
terçaria em poder da dita Infante D. Briatiz, ou fazer
profissão, chegaram alli por embaixadores e procuradores
d'El-Rei e da Rainha de Castella o Prior de Prado, que depois foi o
primeiro Arcebispo de Grada, e o doutor Affonso Manuel, para serem no
auto e
execução de qualquer d'estas cousas que a dita
Senhora escolhesse.
E n'este tempo e na mesma cidade de Coimbra adoeceu El-Rei D. Affonso
de grande infermidade, de que esteve á morte, e a causa
d'ella segundo seus acidentes era sómente reportada a nojo e
padecimentos que recebia por a mudança e cousas da
Excellente Senhora, para que era constrangido. A qual
forçada para dois estremos á sua alma
tão amargosos e
tristes, não fiando nem segurando sua vida na entrada das
terçarias, não por duvidar da bondade,
conciencia e virtudes da Infante D. Briatiz, mas receando-se da
continua conversação e familiaridade de
castelhanos contrairos, que não podia escusar, e assi movida
por outros respeitos,
escolheu por melhor fazer de todo profissão no mesmo habito
de Santa Clara que trazia, e n'elle servir a Deos antes que tomar
partido tão incerto, e para sua vida e sua honra
tão
duvidoso. E na bespora do dia em que foi ordenado a dita Senhora fazer
profissão, foi no mosteiro tamanho pranto de seus criados e
criadas que alli ocorreram, como se a houveram de soterrar. E com isto
em alguma maneira foi de seu proposito revolta para não
fazer profissão, a que o Principe acudio, e assi a soube
temperar com esperanças de futuro bem, e com palavras assi
brandas e prudentes, que de todo a confirmou em despejadamente fazer a
dita profissão, a qual fez dentro no dito mosteiro, a quinze
dias do mez de Novembro do dito anno de mil e quatrocentos e oitenta.
E ao auto da dita profissão esteve o Principe sem El-Rei, e
com elle foram a ella presentes os ditos embaixadores de Castella, e
todolos grandes senhores, Prelados e fidalgos da côrte de
Portugal, perante os quaes depois de ser reconhecida por a mesma
Senhora D. Joana, ella com uma paciencia e segurança com que
a muitos commovia a muitas lagrimas, das mãos de Frei
Diogo d'Abrantes recebeu o veo
preto, na fórma, e com a solenidade e cerimonias que a dita
ordem manda. Do qual todos os ditos embaixadores logo pediram publicos
estromentos, que depois lhe foram dados á sua vontade.
N'este tempo foi a cidade de Rodes cercada de turcos, e posta em grande
afronta, sendo Gram Mestre D. Frei Pedro d'Ahábusam, a cujo
socorro foi d'estes reinos D. Diogo Fernandes d'Almeida que trazia o
habito da dita Ordem, e era eleito para ser como foi Prior do Crato, e
foi bem armado e aparelhado, e no caminho e em Rodes ganhou muita
honra,
sendo ferido pelejando
com gallés, e fazendo ricas presas como homem de nobre
sangue, a que em todas suas cousas d'antes e depois nunca falleceu
discressão, bondades, e grande esforço de
coração.
CAPITULO CCIX
De como se fizeram as entregas do Infante D. Affonso e da
Infante D. Isabel nas terçarias de
Moura
E feita a dita profissão, o Principe se partiu de Coimbra, e
mui aforrado chegou a Beja onde era a Princesa sua mulher e o Infante
D. Affonso seu filho, que ainda não era de cinco annos.
E porque no mesmo dia se cumpria o tempo em que o dito Infante havia de
ser entregue em Moura em poder da Infante D. Briatiz como era sob
grandes penas capitulado, na mesma hora que o Principe chegou, logo por
prazer da Princesa o inviara mui honradamente a Moura. E não
partiu d'ante elles com menos dôr e saudade que se lhes
levara os
corações d'ambos, e o arrancaram de sua propria
carne, e não era sem causa; porque alem de ser só
filho ainda, n'elle havia em tudo tantas e tão angelicas
perfeições, que o privar de sua vista e
conversação assi o merecia. Mas por cumprirem o
que como bons e verdadeiros Principes deviam, posta a natural
dôr que o contradizia, despensando com a
privação do filho pela piedade do reino,
permitiram que o primeiro caminho que seus mui tenros pés
fizessem, fossem com risco de sua vida ir tirar a guerra e a morte dos
reinos, porque então já esperavam.
E com tanta aflição do corpo e d'alma,
não havia
quem
a estes Principes mais confortasse que a fé e verdade que a
Deus e ao mundo sem cautella sempre mantiveram com grande cuidado;
porque n'estas que eram suas proprias virtudes, para sua
consolação
e descanso ora buscavam ante elles rasões e confortos, com
que lhe alimpavam as reaes lagrimas, que sua humanidade não
podia escusar.
E como o Infante D. Affonso foi assi entregue, logo o Principe e a
Infante D. Briatiz, por Rodrigo Affonso e por Ruy de Pina notificaram
sua entrega, e a profissão da Senhora D. Joana á
Infante D.
Isabel e aos Senhores de Castella que a traziam e com ella estavam na
villa da Fonte do Mestre, para ella vir e ser tambem entregue na dita
terçaria, como era capitulado. E feita a dita
notificação, logo
D. Affonso de Cardenas, Mestre de Santiago, e D. Diogo Furtado de
Mendonça, Bispo de Pallença, e D.
Affonso d'Afonseca, Bispo de Avyla, e outros senhores que com ella eram
se vieram a Freixinal.
E d'hi se emaderam mais e juntamente por embaixadores d'El-Rei e da
Rainha de Castella, aos outros que foram a Coimbra, o Bispo de Coria D.
João de Ortiga, e o licenceado d'Ilhescas, os quaes todos
quatro sem a Infante se vieram diante a Moura, onde com o Infante D.
Affonso e com a Infante D. Briatiz, eram já o duque de Vizeu
D. Diogo, e o duque de Bragança D. Fernando, e o conde de
Faram D. Affonso, e o senhor D. Alvaro, com outros senhores e fidalgos
do reino, e por procuradores d'El-Rei e do Principe D. João
de Mello, Bispo de Silves, e D. João da Silveira,
barão d'Alvito, para todos
concordarem e praticarem as menagens, seguridades e desnaturamentos, e
cousas que para entrega e vinda da dita Infante D. Isabel cumpriam. Nas
quaes por parte dos dois derradeiros embaixadores de Castella,
contra a opinião
e voto dos outros primeiros se moveram e apontaram de novo tantas
duvidas e condições para dilatarem a entrega da
dita Infante, com que foi necessario ir algumas vezes consulta ao
Principe, que era em Beja; porque todo este negocio sobre elle pendia,
o qual anojado de suas importunações
e injustas delongas, finalmente enviou aos ditos embaixadores dois
escriptos, com duas palavras feitas de sua mão, e em um
dizia
Paz, e no outro
Guerra, e mandou que no Conselho onde os de um
reino e do outro cada dia se juntavam fossem os ditos escriptos
apresentados aos ditos embaixadores, e que logo em nome dos Reis seus
Senhores escolhessem um d'elles, qual quizessem, e que se tomassem o da
guerra, que mais seria d'ella contente por ser uma guerra, que de paz,
que tantas guerras lhe dava. E que se quizessem o da paz, que d'elle
tambem lhe prazia sem mais
negociações das que já eram
concordadas, e que para isso logo trouxessem e entregassem a Infante.
Os quaes dois escriptos do Principe, com sua
determinação tão perantoria tiveram no
Conselho tanta força, que os embaixadores todos sem mais
altercações se conformaram e acordaram a entrega
da dita Infante, que foi a onze dias do mez de Janeiro de mil e
quatrocentos e oitenta e um, a que a Infante D. Briatiz com toda a frol
e gentileza de Portugal que alli foi junta sahio, e a uma legoa de
Moura junto com a quintã que dizem da Coroada, e no meio de
um ribeiro que alli corre, das mãos dos ditos senhores e
embaixadores de Castella recebeu a dita Infante D. Isabel. E entregou a
elles o Senhor D. Manuel seu filho, que com a gente que á
sua honra e estado cumpria, levaram á côrte dos
Reis de Castella em lugar do duque D. Diogo seu irmão, que
por contrato das terçarias houvera primeiro de ser entregue,
mas por
a este tempo o duque ser doente, ficou por então
até ser são, mas verdadeiramente assi foi muita
razão, e ainda pareceu quere-lo assi Deos, que o Senhor D.
Manuel primeiro fosse arrefens e segurança da paz e
assessego dos reinos de Portugal, pois elle por graça Divina
primeiro os havia de sobceder com a mesma paz e assessego como
sobcedeu, e ao diante se dirá.
E porém o duque foi depois a Castella, e o Senhor D. Manuel
tornou a Portugal, como em seus tempos e lugares será
declarado.
E porque a villa e fortaleza de Moura em que terçarias foram
logo ordenadas, e em que o Principe á sua custa para os
Infantes mandou fazer honrados aposentamentos, era nos
verãos naturalmente muito doentia e perigosa, requereu o
Principe a El-Rei e á Rainha de Castella e á
Infante D. Briatiz, que para segurança das vidas e pessoas
dos ditos Infantes, houvessem por bem as ditas terçarias
pelas mesmas condições se mudarem á
villa de Beja,
que de seu sitio era sã e de bons ares.
E por algum consentimento, que com razão os ditos Senhores
Reis e Infantes logo para isso deram, o Principe mandou fazer grandes
percebimentos de pedraria e madeiras e officiaes, para no castello de
Beja se fazerem outros aposentamentos. E elle e a Princesa se foram de
Beja ter a Pascoa da Resurreição a Torres Novas,
onde era El-Rei D. Affonso. Mas porque a Infante D. Briatiz por
conselhos e induzimentos não verdadeiros, com que pareceu
que foi enganada, mudou este proposito, e com todo o grande perigo de
Moura quiz ficar no primeiro de se não mudar da dita villa,
o Principe começou tomar d'ella alguns descontentamentos,
pelos quaes logo desejou desfazer ou mudar as ditas
terçarias em outra maneira.
CAPITULO CCX
Do socorro que pelo Bispo d'Evora foi enviado contra o Turco,
quando tomou a cidade do Tranto em Italia
E por quanto no anno passado de mil e quatrocentos e oitenta, o
exercito do Gran Turco com seus capitães passou em Italia no
reino de Napoles, e por força tomou na Pulha a cidade de
Tranto com outras villas e castellos, com grande e piadoso estrago de
christãos, e D. Affonso duque de Callabria, filho d'El-Rei
de Napoles era já em cerco sobre a cidade para a cobrar; o
papa Sixto quarto, que então era presidente na Igreja de
Deos, por atalhar á destruição de
Italia e
Roma, que se aparelhava, enviou pedir socorro e ajuda a todolos Reis e
Principes christãos, para que outorgou certas dizimas que
mandou lançar pela clerezia, pela qual El-Rei D. Affonso e o
Principe seu filho estando em Torres Novas, por obedecer ao Padre Santo
em obra tão santa e tão piadosa, e que de seus
corações e legitima
devoção não era alheia, depois de as
dizimas serem ordinariamente tiradas, e elles darem para isso toda
outra ajuda necessaria, enviaram para a dita
expunação do Tranto e resistencia do Turco o
Bispo d'Evora D. Garcia de Menezes com grande frota, e muita e mui
nobre gente de seus reinos, que de caminho tocando em Barcellona onde
eram os Reis de Castella, foi a gente de Portugal e suas armas e
gentileza muito louvada. E de ahi foi a Ostia, porto de Roma, por onde
entrou pelo Tibre acima, e o Papa o recebeu e ouviu em S. Paulo, onde o
Bispo porque entre os bons oradores de Italia era
singular orador, lhe fez uma elegante,
e para o caso mui louvada oração.
E em fim por acabar primeiro com o Papa seus feitos, e haver com o
bispado d'Evora, que tinha, o da Guarda que juntamente houve, fez alli,
e depois em Napoles indo já caminho do Tranto tanta demora,
que não sómente não foi onde era
ordenado, mas ainda por sua longa estada lhe adoeceo e morreu muita
gente. E porque alli veio certa nova que pela morte do Turco que
então de peçonha morrera em Grecia, os que em seu
nome tinham a cidade de Tranto desesperados de soccorro, por partido se
deram ao dito duque de Calabria, o dito Bispo d'Evora cessou de sua
ida. E depois de despedir em Roma suas cousas, se veio a estes reinos
depois da morte d'El-Rei D. Affonso.
CAPITULO CCXI
De como o duque de Vizeu foi a
Castella, e se tornou a
Portugal o Senhor D. Manuel seu irmão
E o duque de Vizeu tanto que de sua doença convalleceo, com
estado de grande Principe, e acompanhado de muitos fidalgos e d'outra
muita escolhida gente sua e d'El-Rei, indo-se á
côrte dos Reis de Castella como era concordado, adoeceu outra
vez em Caceres, onde por mandado dos ditos Reis tinha cargo de o
acompanhar e servir D. Pedro Portocarreiro, senhor de Palma. E de hi
com algum melhoramento se foi a Madril, d'onde o Senhor D. Manuel seu
irmão que alli era, se despedio d'elle, e se tornou a estes
reinos a Moura.
O duque de Vizeu ficou para cumprir o tempo que era capitulado, e foi a
tempo que El-Rei de Castella então se partira socorrer e
abastecer a gram pressa a villa d'Alfama do reino de Grada, que o
marquez de Callez então tomara, e porém a Rainha
vio o duque
de Vizeu secretamente; porque outra vista sua e recebimento publico se
fez depois em Cordova, d'onde o duque sahio a receber El-Rei o dia que
n'ella entrou, vindo anojado e descontente do cerco de Loxa, em que por
aquella vez sua ida e victoria não sobcedeo
á sua vontade, porque foi pelos mouros feito em sua gente
grande destroço, e mataram-lhe o mestre de Calatrava, com
outra nobre gente.
CAPITULO CCXII
De
como foi a morte d'El-Rei D.
Affonso
E depois da profissão da Excellente Senhora; porque El-Rei
D. Affonso em Coimbra foi em ponto de morte como disse, nunca mais foi
alegre, e sempre andou retraido, maginativo e pensoso, mais como homem
que avorrecia as cousas do mundo, que como Rei que as estimava. Pelo
qual no seguinte verão elle foi a Beja vêr o
Principe seu
filho e a Princesa D. Leanor sua mulher, e alli tiveram o pae e o filho
entre si praticas secretas, em que El-Rei determinou querer no fim
d'este anno se vivera fazer côrtes geraes em Estremoz; porque
em Lisboa e Evora morriam, e leixar a inteira governança dos
reinos ao Principe seu filho, e elle em habitos honestos de leigo e
não com obrigação de
religião se retraer no mosteiro de Varatojo junto com Torres
Vedras,
que elle de novo
fundou para alli servir a Deos e em sua vida temperar e remediar os
odios e
dissenções que já entendia que por sua
morte entre o Principe seu filho e os da casa de Bragança se
não podiam escusar, e cousa justa fôra permitir
então a
bondade e misericordia de Deos este bem, porque tanto mal depois se
não seguia, e porém o Principe
ficou em Beja para d'alli continuadamente mandar visitar e prover o
Infante D. Affonso seu filho, e a Infante D. Isabel que eram na
terçaria em Moura, como sempre fez.
E El-Rei D. Affonso na entrada d'Agosto se foi a Cintra, onde adoeceu
de febre muito aguda, de que o Principe sendo avisado, a gram pressa
foi logo com elle, que achou já em
desposição
mortal e sem esperança de vida. Na qual El-Rei tendo feito
seu testamento, e recebendo todolos sacramentos alli acabou como bom e
catholico christão, dando sua alma a Deos a vinte e oito
dias d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor Jesu Christo de mil
e quatrocentos e oitenta e um. E na propria casa em que nasceo, ali
morreu e acabou. Foi seu corpo logo metido em um ataude, e posto sobre
uma azemola que com cruzes, tochas, e clerigos foi pelo conde de
Monsanto, que hi era, e por outros fidalgos levado ao mosteiro da
Batalha, e enterrado na casa do cabido, onde jaz até haver
sua solemne merecida sepultura.
CAPITULO CCXIII
Das feições, bondades e virtudes
d'El Rei D. Affonso
Foi El-Rei D. Affonso
Principe mais de grande que meã
estatura, e em todos seus membros bem feito e mui proporcionado, salvo
que nos derradeiros dias foi algum tanto envolto em carne, e por
encuberta d'isso costumava sempre vestiduras soltas; teve o rosto
redondo, bem povoado de barba preta, e em todalas outras partes do
corpo muito cabeludo, salvo na cabeça, em que depois de
trinta annos começou de ser calvo.
Foi Principe de mui granciosa presença, grande humanidade, e
doce conversação, mas foi em tanto extremo, que
para Rei superior não foi muito de louvar; porque com grande
familiaridade que de si, contra sua gravidade e estado real a muitos
dava, além de lhe muitas vezes não guardarem
aquella reverencia e acatamento que deviam, tomavam ainda atrevimento
de lhe requerer, e elle vergonha de lhe não outorgar muitas
e maiores cousas do que os merecimentos nem honestidade, nem do que o
acrecentamento de patrimonio real requeriam, segundo todo Rei e
Principe é obrigado. Foi de grande memoria e maduro
entender, e de sutil engenho, remisso mais que trigoso nas graves
execuções. Especialmente nas da
justiça que tocavam contra grandes pessoas, as quaes mais
folgava de dessimular ou temperar brandamente, que executal-as com
rigor, e crê-se que isto procedia de sua grande humanidade, e
assi por assessego de seus reinos. Suas palavras no que queria dizer
eram sempre bem ordenadas, e entoadas com mui gracioso
orgão, e por pena, de seu natural escrevia assi bem,
como se por longo ensino e
exercicio d'oratoria artificialmente o aprendera; foi amador de
justiça e de ciencia, e honrou muito os que a sabiam.
Foi o primeiro Rei d'estes reinos que ajuntou bons livros, e fez
livraria em seus paços, e tambem foi o primeiro Rei que
pelas praças e lugares publicos das cidades e villas de seus
reinos fez a todos mui familiar sua vista, porque até seu
tempo os Reis d'estes reinos assi raramente o faziam, que quando alguma
hora ante a face do povo sahiam, concorria de todalas ruas tanta gente
para os vêr, como se fosse uma gram novidade, mas isto
procedeo de sua humana condição, por as gentes
mais facilmente lhe
poderem pedir mercê e requerer justiça, em cujo
despacho
foi sempre mui liberal e atento.
Foi tão confiado de seu saber, que com dificuldade queria
estar por alheios conselhos se contradiziam sua vontade, especialmente
nas cousas da guerra dos mouros, em cujo proseguimento foi sempre
tão aceso e inclinado, que ácerca d'isso todo seu
apetito lhe pareciam
vivas razões; foi Principe mui catholico e amigo de Deos, e
mui fervente na fé; ouvia continuada e mui devotamente os
Officios Divinos, e pela mór parte sem grandes pompas e
cerimonias; deleitava-se com homens honestos religiosos e de bom viver,
e com elles apartado muitas vezes, ao seu modo conversava, e com isto
em seu tempo deu causa que muitos fingidamente quizeram parecer de
fóra melhores do que eram de dentro, e esta especie de
hypocrisia depois de sair das casas de Deos, entrou nas casas dos
homens, que a muitos aproveitou, de que não faço
alguma
especificação por não ser odioso, pois
não é
necessaria.
Foi no comer, beber, e dormir mui regrado, e sobre tudo de mui louvada
continencia; porque havendo não mais de XXIII annos, ao
tempo que a Rainha sua
mulher
falleceu, sendo aquella idade de maiores pongimentos e
alterações da carne, tendo para isso muita
desposição e despejo, foi depois
ácerca de mulheres muito abstinente, ao menos cauto.
Nos trabalhos do corpo que se lhe offereciam, ou elle por seu prazer
queria tomar, não era delicado, antes os soffria bem e como
outro homem robusto n'elles criado.
Folgou muito d'ouvir musica, e de seu natural sem algum artificio teve
para ella bom sentimento.
Foi esmolador e de mui piedosa condição. E na
nobreza e liberalidade teve sem medida tanta parte, que mais
propriamente se podia dizer prodigo que verdadeiro liberal,
especialmente nas cousas da corôa do reino, de que sem
grandes merecimentos nem muita necessidade, mas por sós
manhas e praticas que com elle os grandes usavam, a desguarneceo e
minguou em não pouca parte. Poucas vezes e por poucas cousas
recebia ira nem senha, e as semelhantes cousas porque se lhe causava,
em que a consciencia o não contradizia, levemente as
perdoava, e por ser Principe de mui alto e esforçado
coração, foi
sempre zelador de emprender cousas arduas, e prosegui-las por armas
como cavaleiro, mais que de entender como Rei no regimento civel e
politico de reinos.
Viveu quarenta e nove annos, de que foi Rei os quarenta e tres. E
d'estes os XXXIII regeo persi o reino; porque dez annos primeiros de
seu reinado, por sua pouca idade regeo por elle o Infante D. Pedro seu
sogro e tio, como atraz fica.
FIM DO III E ULTIMO VOLUME
INDEX
1º VOLUME
| capitulo |
pagina |
|
|
| I—Narração |
12 |
| II—Alevantamento
d'El-Rei |
14 |
| III—De
como começaram de entender nas cousas do reino e se
viu o testamento
d'El-Rei |
17 |
| IV—Da
vinda do Infante D. Anrique á côrte, e das
cousas que se logo
acordaram |
19 |
| V—Como o Infante
D. Fernando foi jurado por Principe,
se El-Rei
não houvesse filho
legitimo |
21 |
| VI—Primeiro
consentimento da Rainha para El-Rei seu
filho casar com a
filha do Infante D.
Pedro |
22 |
| VII—Resposta do
Infante D. Pedro á
Rainha |
23 |
| VIII—Contradicção
que houve em
algumas pessoas
no consentimento do casamento d'El-Rei com a filha do Infante D.
Pedro |
24 |
| IX—De como se fez
o saimento d'El-Rei no mosteiro da
Batalha |
26 |
| X—Como ante de se
fazerem as primeiras
côrtes em Torres
Novas, se fez uma conjuração contra o
Infante D.
Pedro |
27 |
| XI—Como se deu a
obediencia e fizeram as menagens a
El-Rei e se
praticou sobre quem
regeria |
29 |
| XII—Concordia
feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro
acerca do
regimento |
30 |
| XIII—Da
contradicção e
mudança que
houve n'este
acordo |
31 |
| XIV—Apontamentos
que
publicamente se fizeram contra o testamento de
El-Rei para a Rainha não dever
reger |
32 |
| XV—Do
meio que o Infante
D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante
D. Pedro acerca do Regimento |
34 |
| XVI—Como
a Rainha por
meio do conde de Barcellos enviou pedir ao
Infante D. Pedro o alvará que lhe tinha dado sobre o
casamento
d'El-Rei |
37 |
| XVII—Como
El-Rei se foi a
Lisboa, onde o Infante D. João
veiu a primeira
vez |
39 |
| XVIII—Do
despacho que se
deu aos embaixadores de
Castella |
40 |
| XIX—Como a Rainha
começou de reger e ser em
seu regimento
prasmada |
42 |
| XX—Fallecimento da
Infante D.
Filippa |
43 |
| XXI—Nascimento da
Infante D.
Joana |
43 |
| XXI—Praticas que o
Infante D. Pedro teve sobre
descontentamentos que
tinha da Rainha ácerca do
regimento |
44 |
| XXII—Como o
Infante D. Pedro e o Infante D.
João ambos se
viram e fallaram sobre o
regimento |
45 |
| XXIII—Como a
rainha lançou fora de sua casa
certas
donzellas por suspeitas a ella, e affeiçoadas ao Infante D.
Pedro |
48 |
| XXIV—Do
alvoroço que se seguiu contra a
Rainha pela
execução dos varejos de
Lisboa |
49 |
| XXV—Ida do conde
d'Arrayolos a Lisboa sobre assessego
d'ella, e como
não
aproveitou |
51 |
| XXVI—Como o
Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e
assessegar as
uniões da
cidade |
54 |
| XXVII—Como a
Rainha mandou secretamente preceber os de
sua valia que
viessem ás côrtes
armados |
56 |
| XXVIII—Como o
Infante D. Pedro e o Infante D.
João sobre
estas cousas se tornaram a vêr, e o que
acordaram |
58 |
| XXIX—Como o
Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino
sobre os
alvoroços que se
ordenavam |
60 |
| XXX—Como se o
Infante despediu da Rainha, e da falla
que como
descontente lhe
fez |
61 |
| XXXI—Como a Rainha
com El Rei e seus filhos se foi a
Alanquer, e do
que se seguiu em
Lisboa |
62 |
| XXXII—Acordo
que o povo
de Lisboa fez acerca do
regimento |
64 |
| XXXIII—Como
a cidade de
Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro
pelos cubelos da alcaçova que
tomou |
65 |
| XXXIV—Vinda
do Infante D.
João á
cidade |
67 |
| XXXV—Como
a Rainha
escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego
d'elle |
67 |
| XXXVI—Declaração
que Lisboa fez de o Infante D.
Pedro só reger o
reino |
68 |
| XXXVII—Forma
do acordo sobre o
Regimento |
70 |
| XXXVIII—Notificação
d'este
acordo ao Infante D.
João, que o
approvou |
72 |
| XXXIX—Notificação
do dito acordo
á
Rainha, que o contrariou, e assi aos Infantes e ao
reino |
73 |
| XL—Partida
do Arcebispo D. Pedro fóra do
reino |
75 |
| XLI—Como
o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e
dado ao Infante
D. João, e o que se n'isso
seguiu |
77 |
| XLII—Mandou
a Rainha velar e afortalezar Alanquer,
onde tinha
El-Rei |
81 |
| XLIII—Dissensão
que a Rainha procurou
d'haver entre o
Infante D. Pedro e o Infante D.
Anrique |
81 |
| XLIV—Embaixada
dos Infantes á
Rainha |
83 |
| XLV—Recado
da Rainha ao Infante D. Pedro quando de
Coimbra vinha para
Lisboa ás
côrtes |
85 |
| XLVI—Entrada
do Infante D. Pedro em Lisboa, e como
ante as
côrtes acceitou o
Regimento |
88 |
| XLVII—Notificação
do acordo
passado á
Rainha, que o não
consentiu |
91 |
| XLVIII—Ida
do Infante D. Anrique á Rainha
para leixar vir
El-Rei ás côrtes, e lh'o
tornarem |
92 |
| XLIX—Entrada
de El-Rei em Lisboa para as
côrtes |
93 |
| L—De
como se apontou e aprovou não ser bem
El-Rei se crear
em poder da
Rainha |
96 |
| LI—Como
a rainha teve pratica com os seus principaes
sobre a ida dos
Infantes a ella como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu
irmão |
101 |
| LII—Como
Lisboa cometeu de querer fazer uma estatua ao
Infante D.
Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe
respondeu |
104 |
| LIII—Como
a Rainha sobre
suas cousas se querellou aos Infantes
d'Aragão seus irmãos, e da embaixada que
enviaram |
106 |
| LIV—De
como se entendeu
na redempção do Infante
D. Fernando, e do que se
seguiu |
108 |
| LV—Como
a Rainha D.
Lianor se partiu de Cintra para Almeirim contra
vontade de d'El-Rei e dos Infantes, e como se El-Rei foi a Santarem, e
do que se
seguiu |
113 |
| LVI—Liança
do
Infante D. Pedro com o Condestabre e
Mestre d'Alcantara de Castella, contra os Infantes d'Aragão,
e das ajudas que lhe
deu |
115 |
| LVII—Conselhos
que o
Infante D. Pedro teve sobre o assessego e
segurança d'estas cousas, e como a Rainha fingidamente se
concordou com
elle |
117 |
| LVIII—Como
o conde de
Barcellos desdisse muito á Rainha
esta concordia com o Infante, em caso que não fosse
verdadeira |
119 |
| LIX—Como o Priol
do Crato consentiu em receber a
Rainha em suas
fortalezas |
120 |
| LX—Como o conde de
Barcellos fez liança com
os Infantes
d'Aragão, e como foi por isso muito
prasmado |
121 |
| LXI—Como o Infante
D. Anrique se viu com o conde de
Barcellos seu
irmão para o concordar com o Infante D.
Pedro |
123 |
| LXII—De como veiu
a El-Rei embaixada de Castella, e
como foi
recebida |
124 |
| LXIII—Como o
Infante D. Anrique procurou de trazer o
Priol do Crato a
serviço e prazer do Infante D. Pedro, e do que n'isso
passou |
127 |
| LXIV—De como se a
Rainha aconselhou sobre a ida para o
Crato, e como
emfim posposto o conselho se
partiu |
128 |
| LXV—Do que fizeram
os da Rainha depois que souberam da
sua
partida |
130 |
| LXVI—De como o
Regente foi avisado da secreta partida
da Rainha, e do
que logo sobr'isso se
fez |
131 |
| LXVII—Do que a
Rainha fez depois de ser no
Crato |
134 |
| LXVIII—Como
falleciam os mantimentos á
Rainha e ao Priol do
Crato |
135 |
| LXIX—De uma
embaixada d'El-Rei d'Aragão e
de Napoles que
veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da
Rainha |
136 |
| LXX—De
como o Regente determinou pôr cêrco ao
Crato e ás outras fortalezas do Priol, e a que pessoas os
cêrcos foram
encommendados |
137 |
| LXXI—Como
El-Rei quiz vêr e viu o capitão na
ordenança de guerra em que
vinha |
139 |
| LXXII—Como
a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos
para se bastecer, e do que
fizeram |
141 |
| LXXIII—Da resposta
que o Regente houve d'algumas cousas que com sua
embaixada enviou a Roma
requerer |
142 |
| LXXIV—Como em se
accordando o cêrco do Crato soube o regente
que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como
todavia seguiu, e do que se
fez |
144 |
| LXXV—Como o
Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego
para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz
em defeza, e do que se n'isso
passou |
148 |
| LXXVI—Das
côrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei
com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D.
Pedro |
152 |
| LXXVII—Como o
Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se
concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas porque ella
não
quiz |
153 |
| LXXVIII—Como a
Rainha D. Lianor se foi á côrte de
El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a
Portugal |
155 |
| LXXIX—De como o
Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se
daria, fez côrtes
geraes |
157 |
2.º VOLUME
| LXXX—D'outra
embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de
Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que houveram,
e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da
Rainha |
5 |
| LXXXI—De
como o Infante D. João falleceu, e que filhos
d'elle
ficaram |
10 |
| LXXXII—De
como falleceu o filho do Infante D. João que era
Condestabre, e como o filho maior do Infante D. Pedro foi
d'aquella
dinidade provido, que foi causa e fundamento da morte do dito Infante
D. Pedro |
12 |
| LXXXIII—De
como foi a morte do Infante D.Fernando que era captivo em
Fez |
14 |
| LXXXIV—De
como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando
já para se tornar a
Portugal |
15 |
| LXXXV—Como
o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a
Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra os
Infantes d'Aragão, e do que se passou até
tornar |
19 |
| LXXXVI—De
como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a
El-Rei a primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e
como El-Rei lh'o tornou a
dar |
22 |
| LXXXVII—De
como as filhas do Infante D. João foram
casadas |
25 |
| LXXXVIII—Como
El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem
pediu ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o
leixou |
27 |
| LXXXIX—Das cousas
que o conde de Barcellos fez em abatimento do
Infante D. Pedro depois que soube que já não
regia, e para lançarem o
Infante fóra da
côrte |
29 |
| XC—Como o Infante
D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro
para seu favor, e assi o conde
d'Abranches |
34 |
| XCI—Vinda do conde
d'Abranches ás
côrtes |
35 |
| XCII—De como o
Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o
Infante D. Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que
se
seguiram |
37 |
| XCIII—De uma
fórma de concordia que El-Rei fez em escripto
entre o Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras
cousas que contra o dito Infante se
seguiram |
39 |
| XCIV—De como
El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas,
que tinha em
Coimbra |
41 |
| XCV—Como o conde
d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante
com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se damnavam
mais |
43 |
| XCVI—De
como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua
côrte, e como o Infante D.
Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não
leixaria-o passar por sua
terra |
46 |
| XCVII—Do
recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo
já em
caminho |
48 |
| XCVIII—Da
resposta do duque ao Infante D.
Pedro |
49 |
| XCIX—Do
que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para
não leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que
El-Rei ao Infante D. Pedro
enviou |
51 |
| C—De
como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque, e
se percebeu e partiu para
isso |
55 |
| CI—De
uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a
cavallo |
56 |
| CII—De outra falla
que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra
o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe
respondeu |
58 |
| CIII—D'outra falla
que o duque fez a todolos seus, em que determinou
não leixar o seu
caminho |
60 |
| CIV—De como o
conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que
desse no
duque |
62 |
| CV—De como o duque
não quiz esperar o Infante, e se salvou
atravessando secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante
sobr'isso disse e
fez |
63 |
| CVI—Como o duque
se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez
contra o
Infante |
66 |
| CVII—De como
El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer
geraes percebimentos de guerra para ir
sobr'elle |
68 |
| CVIII—Do que o
Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando
entre o Tejo e
Odiana |
70 |
| CIX—De uma carta
que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre,
sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou
destruição, e
do conselho e determinação que o Infante
sobr'ella
teve |
72 |
| CX—Dos conselhos
desvairados que ao Infante sobre sua
proposição foram
dados |
75 |
| CXI—De como o
Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que
foi
morrer |
78 |
| CXII—Como
o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches
consagraram ambos de morrer um quando outro
morresse |
79 |
| CXIII—Como
a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre
se elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa
porque não houve
effeito |
81 |
| CXIV—Como os
imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio
que amor nem afeição entre
El-Rei e a Rainha sua
mulher |
84 |
| CXV—De um
cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia
por meio de religiosos fez com
El-Rei |
85 |
| CXVI—Como El-Rei
não tinha possibilidade de ir sobre o
Infante como proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi
causa da sua
morte |
87 |
| CXVII—Como o
Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu
caminho até Rio Maior, e do conselho que hi
teve |
89 |
| CXVIII—Como o
Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as
pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa
porque |
94 |
| CXIX—Como El-Rei
proveu e segurou a cidade de Lisboa, para o Infante
se não recolher a
ella |
96 |
| CXX—Como o Infante
partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro
d'Alfarrobeira |
97 |
| CXXI—Como El-Rei
chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como
por caso e sem deliberação se seguiu sua
morte |
99 |
| CXXII—Como o conde
d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou
como esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo
da
batalha |
102 |
| CXXIII—Da
maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como
foi vilmente tratado e
soterrado |
104 |
| CXXIV—Exclamação
á morte do Infante
D.
Pedro |
105 |
| CXXV—Das
feições, costumes e virtudes do Infante
D.
Pedro |
110 |
| CXXVI—Do que a
Rainha fez com a nova da morte do Infante seu
padre |
113 |
| CXXVII—Como
a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e
do que se fez de seus
filhos |
114 |
| CXXVIII—Como
os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da
Rainha, e quão virtuosamente El-Rei o fez com
ella |
115 |
| CXXIX—Como
El-Rei fez aos Reis e Principes christãos uma
geral notificação da morte do Infante, e das
respostas que houve, e da embaixada do duque e duqueza de Borgonha, que
sobre a morte do dito Infante e sua desculpa foi
principal |
117 |
| CXXX—De como a
judaria de Lisboa foi roubada, e a causa
porque |
119 |
| CXXXI—De como foi
o casamento da Imperatriz D. Lianor irmã
d'El-Rei com o Imperador Frederico, e festas que por elle se
fizeram |
120 |
| CXXXII—Da partida
da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com
ella
foram |
124 |
| CXXXIII—Como a
Imperatriz chegou á Italia e foi do
Imperador recebida, e assim como ambos foram pelo Papa recebidos e
coroados em
Roma |
126 |
| CXXXIV—Dos filhos
que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando
secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a
elles |
128 |
| CXXXV—Como o Gram
Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa
publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a
tomou |
133 |
| CXXXVI—De como a
Rainha pariu o Principe D. João e d'outras
cousas a que El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e
como casou a Rainha D. Joana com El-Rei D. Anrique de
Castella |
135 |
| CXXXVII—Da
treladação e exequias que se fizeram
aos ossos do Infante D. Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu,
e os ossos da Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro
da
Batalha |
137 |
| CXXXVIII—Como
El-Rei outra vez acceitou a cruzada contra os turcos
quando fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou
em Africa e tomou aos mouros a villa
d'Alcacere |
140 |
| CXXXIX—Como
El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por
El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde
socorrer, e desafiou El-Rei de
Fez |
150 |
| CXL—Das
cousas que passaram n'este cerco, até que de todo
se
alevantou |
153 |