Singular raciocinio, direi eu, que não quer contar com um elemento cuja existencia reconhece! Por este caminho vamos ao nihilismo, e Tolstoï era perfeitamente logico quando acrescentava: Para que servem os governos? Se ámanhã Moscow e Petersburgo desabassem, que importava a esta aldeia? Seria inteira e completamente o que hoje é. E contava-me, como esclarecimento e demonstração, que da Russia emigram familias inteiras, e na simples carroça que leva todos os seus bens vão muito longe, á Siberia e quasi á China, fazer as colheitas. Com o producto d'esse trabalho levantam a casa, estabelecem uma lavoura n'esses desertos incultos e são felizes até que o governo os descobre para lhes pedir impostos e os filhos para o exercito.

Nova illusão, a meu vêr. Para que esta especie de nihilismo seja possivel são precisas duas condições, terra em extensão superior ao pedido e a simplicidade de costumes do moujik. Desde o momento em que a terra necessite partilha, ahi temos inevitavelmente um principio de governo; e desde que a vida se complique, igualmente apparece a necessidade de uma actividade collectiva, uma força que mantenha a ordem, e preste os serviços communs. Ora pelo que respeita á terra todos sabemos se ella abunda, e pelo que respeita á simplicidade de vida a historia e a observação dos instinctos naturaes são sufficientemente claros. O desenvolvimento e complexidade da civilisação demonstram historicamente uma tendencia irreprimivel e, se esta prova não existisse, bastava attender aos appetites e desejos dos mais simples, para descobrirmos um inicio de evolução para a complexidade. Na choupana do moujik vamos encontrar um mealheiro e estampas coloridas a adornarem as paredes; entre essa choupana e a galeria de quadros do capitalista a relação é manifesta, uma contém o germen da outra.

De fórma que essa simplicidade, individualmente possivel, é collectivamente impossivel. O que não importa a negação de uma vida mais simples do que a actual, como fim ultimo da civilisação; o balanço dos prazeres e penas da plena expansão natural, combinado com os sentimentos piedosos e aspirações christãs, conduzem a uma reducção reflectida das nossas necessidades, mas entre esta e o estado primitivo ha uma enorme differença que devemos vêr e pesar; e, sendo a simplicidade consciente um producto superior da civilisação, seria erro esperal-a do vulgo que para a attingir carece de ser educado. D'este ultimo facto a necessidade de governo e instituições educativas, que não serão portanto um mal e uma desobediencia á doutrina christã, mas sim a condição da sua realisação pratica.

Como é de uso n'esta especie de palestra viemos de parte a parte a um interrogatorio sobre o estado social de Portugal e da Russia. Repeti o que disse na minha ultima carta, que a religião me parecia a maior força do moscovita.

É e não é religioso, respondeu-me o conde. Entre Gogol e Beliensky levantou-se um dia essa questão e estou em dizer que ambos tinham razão. Se julga pelo numero das igrejas e pela sua concorrencia, dir-lhe-hei que o russo não é religioso; isso é um habito, como o alcool ou o chá, sem maior significação psychologica. Mas acontece que, differentemente do que succedeu com a Igreja romana, traduzimos o evangelho ha novecentos annos e as suas maximas divulgaram-se no povo em que ainda agora actuam energicamente. Por este lado a Russia é um paiz religioso.

Se me é dado acrescentar alguma coisa, direi que o é ainda por outro lado, o fundo fatalista, Deus, Acaso, Providencia, negação da previdencia e reconhecimento de uma vontade superior incognoscivel. O proprio conde Tolstoï representa esta feição. Mostra-a nas suas obras e conversando commigo sobre as fórmas futuras da propriedade, disse singelamente:—Quem póde prever o que acontecerá d'aqui a vinte annos?

Ao vêr o enthusiasmo com que Tolstoï me mostrava a aldeia e as habitações do moujik, ouvindo fallar dos campos e das seáras, fazendo a apologia ardente do trabalho braçal como tonico indispensavel para o corpo e para o espirito, comparando os actos e as palavras, pareceu-me que os grandes sentimentos que determinaram o seu modo de viver tão anormal, foram o amor da terra e a humildade christã. Conhecendo profundamente toda a sociedade e a alma humana, só ahi encontrou paz e satisfação á sua consciencia, e por isso envergou o habito e professou n'essa nova religião.

Quizera reproduzir todo o longo discurso de Tolstoï, mas a memoria nunca me ajuda e muito menos n'este momento, em que a successão e diversidade de materias a contrariam. Ficou-me porém esta impressão—que o pensamento vôa mais alto em duas horas de palestra com um homem de genio do que em dois annos de meditação solitaria.


Copenhague, 26 de Setembro.

Deixamos em Moscow uma cidade, producto espontaneo, e portanto caracteristico, do genio d'um povo em cujo sangue se amalgamam differentes raças, e em S. Petersburgo vamos encontrar a capital d'um grande imperio consciente da sua grandeza; a primeira é uma construcção historica, a segunda a revelação do pensamento e dos sonhos d'um imperador. A igreja da Assumpção, no Kremlim, na sua pequenez, com a profusão dos seus adornos e do seu ouro, é gigante como documento da concepção artistica do moscovita; Santo Isac, de Petersburgo, com os seus monolithos de vinte metros de altura, singela, sobria e grande, foi traçada por um francez e, se demonstra alguma coisa, é a victoria da architectura greco-romana em todo o mundo civilisado. Aquella infinita variedade de fórmas e de linhas em que se fundiam ou baralhavam a China, a Persia, o Oriente e a Italia, perdeu-se nas margens do Neva, entregues á imitação do occidente; e emquanto Moscow parece ter sahido da terra como o desenvolvimento natural e facil dos germens que continha, S. Petersburgo mostra uma vontade, um esforço de adaptação a habitos, costumes e fórmas estranhas, reflectidamente julgados melhores. É uma cidade afrancezada, como de resto o são todas as cidades modernas.

Ha muito passou ao dominio da banalidade extasiar-se a gente perante a vastidão de Petersburgo; mas essa vastidão é unica no mundo, e por isso não importa repetir o facto, porque vêl-a será sempre uma impressão surprehendente. Entre o Neva abundante e profundo a espraiar-se n'um amor barbaro, insaciavel de terra, ao fundo d'essas planicies infindas povoadas de florestas e aldeias, para encerrar a corôa que liga as neves do Himalaya ás neves do Baltico era necessaria uma cidade, cuja vastidão eclipsasse todas as capitaes do mundo. Ruas, igrejas, palacios, pontes e caes, tudo é d'uma largueza unica.

Todavia, através d'essa grandeza, que é porventura espontanea, e através da imitação do occidente, que é manifestamente pensada e deliberada, transparece certo sabor do torrão, qualquer coisa de barbaro. Muitas vezes o pensei ao atravessar a perspectiva Nevsky. No isvochik ligeiro e rapido, o cavallo ligado por uma especie de bridão (pavotkin) ao arco (duga) que liga os varaes, o cocheiro envolvido n'um amplo caftan, curvado para a frente, braços abertos, cada uma das guias em sua mão, vai levado como o vento ao trote solto dos seus formosissimos animaes, A rua é um hippodromo de barbaros, no trenó o quadro será completo; a carruagem não é ainda uma commodidade, é um meio de andar rapidamente. N'essa vastidão da Russia é preciso voar para não morrer antes de chegar ao ponto de destino.

De repente, no breve espaço de uma noite, que contraste! Para atravessar o Baltico vim embarcar em Helsingfords, capital da Finlandia; do ruido e da vastidão cahi na estreiteza e no silencio. Ou seja porque não chegou até aqui o sangue oriental ou sómente porque as condições da terra e do clima são outras, o finio é absolutamente differente do moscovita e mais se aproxima dos seus irmãos do outro lado do mar do que d'aquelles a que está sujeito. É possivel qne a constituição e quasi independencia da Finlandia proviesse simultaneamente de circumstancias historicas e do reconhecimento de insuperaveis difficuldades na russificação d'este reino.

Descendo o golfo, viemos a Abo, ainda na Finlandia, e d'ahi a Stockolmo. Com excepção de poucas horas, navegamos sempre por meio de ilhas de uma deliciosa belleza. Bem povoadas de abetos e vidoeiros, não muito elevadas mas com as inclinações abruptas, que só a firmeza das rochas graniticas permitte, aqui e além cabanas de pescadores, raros animaes na pastagem, e sempre um mar tranquillo em volta, essas bahias e ilhas têm uma paizagem rica de sensações e aspectos.

Além, na planicie, o vidoeiro absorvia os abetos, aqui na collina e na montanha separaram-se, e cada um apparece com as suas fórmas. São paizagens d'um genero que geralmente se aprecia e, a meu vêr, por esta razão são as que encerram maior riqueza. Emquanto a planicie nos dá a maxima repetição na minima e constante variedade, uma successão de manchas repetindo-se innumeras vezes mas variando constantemente na successão (como demonstração offerecerei o effeito das pinturas japonezas em sêda), na montanha temos toda a belleza linear possivel na paizagem, resultante da nitidez de traços com que se desenha no espaço e do isolamento que no arvoredo provém da disposição. Belleza a que o mar e os lagos dão maior relevo ainda, porque introduzindo novos tons e novas côres ao mesmo tempo destacam, emmolduram, dão luz. É o que n'essas ilhas acontece.

Não lhes chamarei marinhas, porque o mar aqui é accidental ou pelos menos não tem maior valor do que os outros elementos constituintes. Esse nome reservo eu aos quadros que nos mostram o mar em toda a sua immensidade, tendo para mim que o prazer que em nós despertam provém não tanto da côr ou da fórma, que é nulla, como de uma sensação de grandeza de espaço e intensidade de luz. E se me perguntam porque razão sobre esse espaço põe tamanha belleza uma nuvem, uma vela, um ponto negro que seja, responderei que é um effeito de contraste para dar relevo ao elemento capital. Na escóla hollandeza encontraremos maravilhosos quadros n'este genero: grandes barcos no primeiro plano, uma torre ou um mastro no extremo horisonte, o mar, o céo e nada mais; e os olhos naturalmente fixam-se no espaço que medeia entre o primeiro plano e o horisonte contemplando a sua vastidão, cheia de luz.

A riqueza da paizagem nas ilhas e costas da Finlandia e da Suecia não póde porém comparar-se com a riqueza das paizagens similares do occidente; a vegetação é comparativamente pobre de vigor e de variedade, e a luz é frouxa. Ás horas do poente, em vão procurei a onda trespassada de esmeralda das minhas praias; apenas um collar de perolas desbotadas sobre o dorso negro da vaga.


Paris, 29 de Setembro.

«Com o seu sólo e o seu clima, a Scandinavia não póde ter senão uma vegetação pobre e uniforme.»

Nos breves dias que passei em Stockolmo muitas vezes me lembraram estas palavras do meu Bœdeker; pois não é só a vegetação mas toda a vida da Scandinavia que deriva das condições do seu sólo e do seu clima. Nem conheço paiz em que a natureza physica tenha mais clara influencia na determinação do caracter do povo.

Epiphania não é a creação da phantasia de um poeta. O «sangue côr de rosa», a «cinza que lhe inunda os hombros» quando pelos seus cabellos passa uma briza, os olhos «puros de sombra e de desejos» que «nunca sorriram e nunca choraram», esse typo de candidez impassivel coube em sorte a Scandinavia; todos os seus povos tiveram quinhão no thesouro, embora a partilha fosse individualmente desigual como é regra em taes casos. E só uma terra pobre e um clima frio podiam dar-lh'o; um sangue mais rubro e uma circulação mais activa prejudical-o-hiam inteiramente.

D'ahi vem todas as suas qualidades moraes, a doçura, a serenidade, o bom-senso, que constituem o caracter scandinavo e são a base da felicidade d'aquelles povos. A debilidade physica parou n'um justo equilibrio da actividade sem descer tão baixo que chegasse á inacção e ao idiotismo; são felizes porque são fracos. Transportem-no a um clima ardente, dêem-lhe uma alimentação abundante e toda a excitação do calor e da luz, e o homem apparecerá apaixonado, cruel e febril. A vida será torrencial, sempre em correntes espumosas, edificando e destruindo, revolvendo e cavando a terra e a alma até ás suas mais intimas profundezas, heroica na natureza e no homem.

Essas torrentes nunca passaram nos valles estreitos e frios da Scandinavia. Os olhos flammejantes de um gaiato de Napoles e a meiguice timida de uma criança de Stockolmo dizem-nos tudo o que as duas almas encerram.

A fraqueza conduz á serenidade e á doçura; a reacção do individuo contra os accidentes da vida social e physica é proporcional á sua sensibilidade e á sua actividade. Por isso o scandinavo não se revolta contra os homens e contra as coisas, difficilmente vulneravel, entre a indifferença e o perdão.

Os seus sentimentos são os que se conformam com este temperamento que lhe vem da terra, são a familia, a paz domestica, a fidelidade, tudo o que não exija um grande esforço e dê o prazer que cabe na medida e esphera da sua capacidade; um prazer superior ou heterogeneo seria indifferente, porque não poderia ser percebido. Passemos pelos museus: o parisiense pára diante dos quadros que lhe recordam a vida sensual; o prusso extasia-se perante os campos de batalha coalhados de trophéos e de cadaveres; o russo prefere os grandes dramas intimos, a dôr da viuvez ou o olhar allucinado do remorso; o scandinavo contenta-se com menos, o desembarcar do pescado n'um recanto da praia, a sopa fumegante sobre a mesa e a familia em torno. Abençoada fraqueza! Limitando a vida damos-lhe a maior garantia de felicidade. A maior? Não, a unica. Sem esses limites a inquietação é inevitavel, os tormentos são tão grandes como as aspirações.

Este mesmo clima que produziu um typo de actividade physica e psychologica de intensidade mediocre, mas por isso mesmo regular e equilibrada, porque não tendo oppressões congestivas não tem igualmente as depressões consequentes, esse mesmo clima concorre para manter intactos os costumes nacionaes, actuando constantemente sobre a sua base, o caracter do povo. Concorre apenas; pois n'este ponto a causa determinante principal póde com bons motivos encontrar-se na situação geographica—quasi uma ilha, nos confins da Europa, desligada do continente pelo mar e pelo gelo, e durante longos mezes de inverno inteiramente isolada. O povo é pacifico e moderadamente trabalhador; nem guerras nem expansão commercial que alterem o sangue primitivo pelo contacto ou liga de outro sangue. E assim o typo nacional, filho do clima e auxiliado pelo isolamento, conserva-se puro.

Pureza relativa, já se vê; as mesmas causas geraes que crearam o cosmopolitismo, tendendo a fundir n'um só os caracteres e costumes dos differentes povos, essas mesmas causas actuam alli, contrariadas todavia por forças indestructiveis, d'onde vem a fixidez quasi unanimemente reconhecida pelos viajantes. Na Hespanha temos um caso que esclarece e completa o da Scandinavia: alli os costumes nacionaes apparecem como simples reminiscencias do passado que a civilisação ainda não logrou destruir, mas sem caracter algum de fixidez, condemnados a completa extincção. As guerras interiores, a pobreza e a difficuldade de communicações prolongaram modos e fórmas de vida, que de futuro irão provavelmente refundir-se nos cadinhos communs a todo o mundo.

Do que fica dito facilmente se deprehende a feição de Stockolmo, uma cidade burgueza, pacifica, aceiada, em ordem, sem grandes palacios nem grandes ruas, parcamente animada de commercio e de prazeres.

Já assim não é Copenhague, em que parei no regresso a Paris. Differe o povo e differe a cidade.

Perdeu-se a delicadeza de traços e pureza de linhas que tinhamos frequentemente nas raparigas da Suecia, a dinamarqueza é mais corpulenta e grosseira, mais flamenga. Talvez ainda consequencias da natureza do sólo, pois descendo a Suecia, amiudam-se as planicies que na Dinamarca se aproximam e assemelham ás da Allemanha, e além tinhamos um terreno accidentado e granitico, proprio a crear o musculo enxuto produzido pelo esforço de uma imperceptivel mas constante gymnastica.

A cidade participa principalmente do aspecto commercial maritimo, ao contrario de Stockolmo que, sendo na realidade porto de mar, parece ainda um mercado interno.

Só as cidades maritimas podem dar-nos a impressão n'um grande movimento commercial, porque só ahi se produz a accumulação indispensavel a esse fim; só ahi se encontram as massas fabulosas que, distribuidas pelos mercados interiores, perderam esse effeito pelo facto de dispersão. Por este lado, as cidades do interior, por grandes que sejam, são sempre inferiores ás cidades maritimas. O movimento de povo nas ruas de uma cidade de prazer como Paris ou de uma grande secretaria de estado como Berlim, é mesquinho ao lado das montanhas de mercadorias que fluctuam nas cidades de Inglaterra, por exemplo. Umas movem-se como formigas, as outras como rhinocerontes; á superficie do mar vem de espaço a espaço um monstro e encostando-se á terra, começa a vomitar riquezas com uma prodigalidade que entontece de pasmo e esmaga de abundancia. Exceptúo Moscow, cidade do interior com o movimento das cidades maritimas; e, se as minhas viagens fossem mais longe, era possivel que tivesse de exceptuar todos os grandes mercados da Asia. A raridade e a distancia poderão produzir accumulações semelhantes ás que resultam do abastecimento de densos e frequentes povoados.

Copenhague estabelece uma transição para o grande bulicio do occidente, mas a posição insular e as affinidades de raça deixam transparentes grandes laivos de parentesco com a Scandinavia e a Flandres. Direi mesmo que, emquanto por lá andei, lembrei-me mais frequentemente de Amsterdam do que de Stockolmo.


Marselha, 2 de Outubro.

Fui descansar a Paris das longas jornadas da Russia.

Poucas coisas me interessam mais n'uma cidade do que percorrer os mercados de toda a especie, vêr o que se produz e o que se consome; e o interesse ordinario aggravava-se agora com a circumstancia de vêr Paris immediatamente a impressões diversas das que trazia da minha terra. Involuntariamente referia o que observava ao que tinha deixado na Suecia e na Dinamarca principalmente e, em quanto respeita a artes industriaes, essa comparação era desvantajosa para a França.

Não tanto como na Allemanha, que em mau gosto na materia leva a palma a todos os paizes do mundo, as lojas de Paris, entre productos da mais fina e pura belleza, encerram, em grande quantidade, o que a imaginação póde crear de mais absurdo e incoherente. Combinam-se e ligam-se as fórmas mais oppostas, juntam-se as côres mais desharmonicas; casa-se a simplicidade grega com os monstros japonezes e sobre os tapetes e porcelanas dansam desconchavadamente todas as côres. Nenhuma sabe do seu par.

Já assim não acontece com as rendas e porcelanas da Suecia e da Dinamarca, que me encantaram e surprehenderam (na minha ignorancia desconhecia o que, parece, é sabido de todo o mundo e até famoso). Combinações de duas ou tres côres, desenhos simples, nada variados, repetindo-se com frequencia, e de tão parcos elementos, esses paizes souberam tirar effeitos que a industria franceza não conseguiu gastando e torturando a imaginação.

É bem simples a razão, a meu vêr. Quiz o acaso que em Stockolmo parasse no deposito da mais afamada das suas fabricas de porcelana e faianças, justamente no momento em que me dirigia ao museu nacional; e pude vêr quanto os productos modernos differiam pouco dos modelos historicos. Muito de proposito aponto a ordem da observação para que não se julgue que no meu juizo houve preoccupações de tradicionalista. Não houve realmente; foi a evidencia de facto que me levou a crêr que, inspirando-se na tradição, a industria encontrára alli o mais seguro guia de belleza e bom-gosto.

Não direi exactamente o mesmo do que vi em Copenhague. Ahi, embora as rendas e bordados se não afastem tambem de modelos que têm seculos de existencia, a pintura em louça tomou para base a cópia do natural. E inutil será acrescentar que, explorando esta via, não chegou a resultados menos brilhantes do que os seus visinhos seguindo na tradição.

A nenhum d'estes tutores se quer sujeitar a moderna industria franceza, e, emancipada, entrega-se á phantasia excitada pela concorrencia que lhe pede novidade, invenção. É talvez uma maneira de traduzir o espirito de liberdade n'este terreno, mas a extrema liberdade aqui como em tudo não foi mais feliz do que a obediencia sensata e justa, consciente e reflectida. E, se não, vejam-se os productos preciosos que, em França mesmo, nos apresentam as industrias que se não afastaram da tradição, o ferro forjado, por exemplo. É mais uma resurreição dos antigos modelos do que uma industria nova; pois não sei que se possa inventar coisa alguma de mais bello, e estou certo de que os estrangeiros que vierem a Paris hão de dar-me razão.

Venho a concluir que das tres fontes de inspiração apontadas, a natureza vegetal, a tradição e a phantasia, só as duas primeiras nos levam por caminho seguro. A natureza vegetal não tem desharmonias; filhas do mesmo solo e do mesmo clima, creadas com o mesmo alimento, a mesma humidade e a mesma luz, as plantas têm a harmonia necessaria de productos dos mesmos factores. É isto que nos faz dizer bellas as flôres mais exoticas e extravagantes. Demais o homem recebe a educação natural d'esses mesmos elementos e goza com o que é lhes conforme, soffre com o que os contraría.

A tradição, perpetuando fórmas e combinações, demonstra ipso facto a sua concordancia com a maneira intima de sentir de uma raça. D'outra fórma, desappareceriam como desapparece tudo o que é contrario ao seu caracter permanente, ainda que por qualquer motivo tivessem tido uma existencia mais ou menos duradoura.

Mas a novidade e a phantasia são perigosas, pois diz-nos a razão e a historia que o poder creador não é infinito, encerrado como está entre os limites objectivos, a constancia dos materiaes, e os limites subjectivos, a capacidade e a fórma de sentir de cada raça.

As artes exoticas, que são um dos muitos elementos que a sciencia e as descobertas modernas deram á phantasia, despertarão sempre curiosidade intellectual como revelações de civilisações estranhas, mas, passado este primeiro deslumbramento, não entrarão nos museus, deixando no adorno domestico só o que se conforma com as nossas concepções estheticas?


Oran, 6 de Outubro.

Despedi-me de Paris com saudades, digo-o com franqueza, por muito incoherentes que pareçam estas sympathias com o que disse nas minhas cartas anteriores; saudades aggravadas pela tristeza da cidade no dia da partida, um domingo, quasi tão despovoado e silencioso como em Londres. Todo o mundo emigra e vai dispersar-se pelos arrabaldes.

É ainda um pequenino facto a notar a differença do domingo entre Paris e Stockolmo. Alli o domingo, na cidade, é animado, os passeios, os museus e os espectaculos apinhados de povo; a vida dos dias de trabalho não é tão absolutamente extenuante como em Paris e por isso não appareceu ainda a necessidade de tão pleno repouso; nos prazeres e no trabalho mantem-se a sabedoria da modestia, que nem carece de se esfalfar na conquista de riquezas, nem demanda requintes de gozo. E, como nas aldeias, o domingo é para a palestra e para vêr os amigos, que na verdade o corpo não se sente fatigado, só o espirito necessita de alimento e expansão.

Não continuemos n'este thema; já muito tenho dito do que em Paris me magôa. É tempo de dar razão das minhas saudades.

Disse que Paris carecia de vida moral, nem outra coisa podia succeder a uma terra que, entre muitas outras causas d'esse estado, tem uma alluvião de estrangeiros em busca de prazeres, incessantemente renovada. Mas, se o homem não vive só de pão, não vive tambem só do coração e do amor divino; tem aspirações complexas e irreductiveis, e embora em sua consciencia reconheça certa ordem dominante, nem ignora a existencia das outras tendencias concorrentes nem, quando é sincero, nega o prazer de as sentir satisfeitas.

Vem isto a dizer que, independentemente da vida intima social ha uma outra vida social mais larga e menos profunda, que é uma necessidade e um prazer, e em que a sympathia rege o que na primeira é regulado pela amizade, e a urbanidade substitue a dedicação paciente. Ora a este genero de vida, cuja actividade sentimos todos os dias e, póde dizer-se, todas as horas, a este genero de vida Paris deu todo o encanto real e attingivel, com as suas formulas de polidez e com uma comprehensão instinctiva das pequeninas coisas que podem ferir ou magoar. Muito francez—diz-se como significando falta de sinceridade, e é possivel que um longo habito tornasse inconscientes actos e palavras que d'outro modo teriam valor moral; mas é incontestavel que embora essas formulas, esse modo de ser externo, não tenham valor moral positivo, não deixam por isso de ter reduzido ao minimo os espinhos e asperezas da convivencia; podem não ser virtude nem peccado, mas são em todo o caso uma arte com todos os prazeres de tal natureza. E, quando alguem os sente, abandona-os com a mesma tristeza com que os bons bebedores abandonam os bons vinhedos, onde por baixo preço sorvem com delicia todos os dias o precioso perfume a que mais querem.

Emquanto assim pensava, aproximavam-se as bocas do Rhodano, cuja paizagem me deixou indifferente. Os campos são largos, vastos, e por vezes viçosos e ferteis, e ao longe descobrem-se as ultimas ramificações dos Alpes, mas os montes estão excessivamente distantes para que possam entrar como valor importante, e a planicie, muito cultivada, tem uma variedade de vegetação e regularidade de plantações que destroe toda a harmonia natural. A paizagem carece pois de movimento.

Parecerá absurda esta expressão—movimento da paizagem—mas, observando e reflectindo, veremos que a repetição de uma mesma curva acompanhada da repetição simultanea dos mesmos tons de colorido e dos mesmos reflexos dá na realidade a impressão de uma determinada ondulação, um mesmo movimento, como acontece nas montanhas ou planicies povoadas de uma só especie vegetal, ou, pelo menos, de uma só especie dominante. Ora este effeito perde-se nas terras em que a cultura obriga á variedade.

Voltando ao Rhodano—não quero dizer que não tenha quadros encantadores, para o que lhe basta a abundancia de luz. São todavia limitados e sem relação entre si; são para a grande paizagem o mesmo que os innumeros quadros da vida domestica são para a grande pintura historica que condensa a epopêa d'um povo, lançando n'uma tela estreita seculos de vida.

Caminhemos. Adiante encontramos Marselha, e á paizagem vem juntar-se a cidade para nos lembrar a distancia a que estamos de Paris e um pouco tambem para nos avivar as saudades. Marselha é um prenuncio da Hespanha: reappareceu o penteado tão cuidado que não tornára a vêr desde Salamanca, os cabellos pretos e a desenvoltura. Esta gente é irrequieta, o que é uma coisa bem differente da vivacidade franceza. A vivacidade, para mim, é constituida por gestos e movimentos da physionomia, breves em intensidade e duração mas repetidos e revelando uma actividade de espirito simultanea e semelhante; a desenvoltura é prodiga de movimentos que nada dizem das suas relações psychologicas. A vivacidade, quando ri, scintilla de sympathia; a desenvoltura, rindo, é egoista se não encerra um sarcasmo. Os francezes são mais vivos, a gente de Marselha mais desenvolta, como os hespanhoes.

Estamos á beira-mar; mais vinte e quatro horas e bateremos ás portas do mundo arabe.

Pela manhã trovejou, e das bandas de Africa sopra um vento asphyxiante e morno.

A um canto do vapor uma criança ao collo repete com o olhar fixo de mysterioso scismar que as crianças têm ás vezes: Pa... pá, pa... pá... Ao lado, uma mulher nova e galante conversa com o capitão, brandamente, n'um tom meigo de saudade.

—Vamos, disse elle.

Bon voyage.

Au revoir. E abraçaram-se, silenciosos, mudos, sem uma lagrima.

Ella seguiu pelo caes, voltou-se e olhou quando o vapor partia e perdeu-se no borborinho da rua, caminhando ao lado do filho, lenta, tranquillamente, o coração envolto na dôr, na esperança a na virtude.

Vi ainda uns vagalhões titanicos e cambaleando deixei-me rolar como um fardo no canto de um divan. Na ancia e na fraqueza semi-febril obscurecem-se os limites do sonho e do pensamento consciente.

Via o enterro d'um amigo; um enterro civil. A porta desconjuntada e carunchosa d'um quintalejo, n'um sitio ermo, veio uma carroça empoeirada de cal, puxada por um macho escuro, somnolento, orelha derrubada, uns arreios sujos, de pregos amarellos, resequidos e gretados do sol. O caixão appareceu sobre a carroça, não sei como, e sobre elle, o carroceiro, um soldado francez, de largas calças vermelhas e jaqueta azul, sentou-se, perna bamboleante, costas para o macho. Fallou-lhe e partiu. Ao lado da carroça pendia uma lanterna; no limiar da porta ficára uma mulher da Beira, morena, espadaúda e baixa, o cabello empastado na testa e as mãos cruzadas debaixo do avental.

—Não quer a lanterna accesa, tio Manoel?

—Não é preciso, a noite está clara.

E n'aquelle silencio sentiu-se só o estremecer da carroça sacudida no macadam da estrada á beira d'um juncal, caminho do cemiterio.

Monsieur, nous sommes à Alger, disse alguem perto de mim.

Levantei-me e subi. Na noite escura, mais escuro ainda um grande panno negro, uma montanha semeada de luzes; e em baixo sob um rosario de bicos de gaz, pernas e faces negras e nuas entre gorros vermelhos e farrapos brancos enxovalhados—foi o meu despertar no mundo arabe.

Um sonho mau entre um quadro de amor domestico e um quadro de miseria—são todas as minhas impressões d'esse Mediterraneo azul, limpido, sereno, dissolução filtrada de anilina que em tempos que já la vão faria a delicia dos janotas e a fortuna das engommadeiras de Lisboa, vendido a retalho.


Granada, 9 de Outubro.

Argel, vista de noite, nas sombras da luz escassa, dá-nos a impressão de uma grande miseria; mas, vindo a manhã, no movimento das ruas e dos mercados, essa miseria conver-te-se n'uma grande mascarada para os olhos surprehendidos do viajante europeu, pouco habituado ao contacto das civilisações mescladas e exoticas. Rimos d'essa confusão de arabes, de turcos, de francezes e marroquinos e rimos ainda mais do albornoz e do turbante; associados ao chapéo de sol e ás botas de elastico, vivendo em santa paz na mesma pessoa. Ao lado da franceza toda encalmada, de manga curta e collo descoberto, vêm as mulheres da terra, embiocadas em leves roupas brancas que a imaginação do nosso povo escolheria para trajo das almas do outro mundo; entre os mercadores de blusa azul, de pé, lestos em attender o freguez, como os vemos pelas nossas praças, está o arabe, sentado, de pernas cruzadas, indifferente e moroso, com um lento pestanejar de ruminante.

Rimos emquanto o pensamento não nos inicia em caminho differente; porque logo, reflectindo, entre o grotesco e o comico de associações disparates descobrimos o orgulho do vencedor, dominando imperioso e inflexivel, e, em baixo, a seus pés, a babugem de uma onda outr'ora forte e temerosa, agora fraca e quasi extincta, agitando-se semi-morta nas prisões de ferro em que a Europa a lançou. N'uma cidade, como Argel, em que passeiam hombro a hombro vencedor e vencido, a derrota é patente todo o dia como na hora do combate. Quando a Allemanha venceu a França, cada um recolheu ás suas terras e ahi recobrou altivez; mas Argel vencida foi tambem conquistada e o povo arrasta as algemas de uma escravidão mais ou menos real e mais ou menos consciente. Por aquellas ruas anda uma população que se agita e move, livre, risonha, altiva, calcando uma terra que lhe pertence, e rasteja tambem um denso rebanho que o pastor conduz, mas a que não falla senão para ordenar. N'uma hospedaria, um criado europeu manda vir o arabe para acarretar as bagagens com a mesma entonação com que mandaria vir um jumento.

Respondem-me que essa gente vive livre e feliz, sómente sob as leis e regulamentos que foi necessario dar-lhes. Nem tanto mereciam.

Não derramarei lagrimas sob a sua sorte nem mesmo direi que seja má a sua condição material e que tivessem merecimentos para melhor. Apenas aponto um facto; é que no momento actual Argel nos da o espectaculo altamente interessante e instructivo do aviltamento moral de uma raça conquistada em frente dos seus senhores.

Uma outra coisa nos offerece Argel, não menos interessante. É um bairro arabe, quasi uma cidade, que o camartello europeu ainda não alcançou e em que os costumes, a gente, e as habitações indigenas são ainda de grande pureza.

Nada direi d'essas viellas ingremes em que as casas quasi se tocam de um ao outro lado, especie de fortalezas com uma pequenina porta e raras frestas nos muros. Tudo está minuciosamente descripto em muitos livros e, de resto, esses recintos são vedados aos simples viajantes. Deixaram-me uma pequena impressão—pequenez e frescura. Tudo me pareceu acanhado e pequenino, fresco e humido como os logares profundos onde o sol não penetra.

O arabe vem descendo até aos bairros europeus, e ahi abundam as lojas e officinas. Bordam, tecem, costuram, têm as suas cozinhas e cafés e tudo aquillo se assemelha tanto á nossa regularidade que naturalmente perguntamos como tende a aniquilar-se uma raça que chegou a organisar o trabalho, a arte, a familia, a religião, a politica, que creou uma civilisação, uma ordem social, funccionando e correspondendo na sua organisação á capacidade ethnica. Parece que um povo que chegou a este estado não deveria ser tão facilmente destruido e dominado dentro do seu proprio habitat.

Não soube defender-se—é a resposta que mais immediatamente encontramos no nosso espirito; se tivessem inventado os canhões de Krupp talvez os seus destinos fossem outros. E vamos a dar razão á Allemanha: Pois a primeira necessidade de um povo não é ser forte? Virtude, grandeza d'alma, um ideal, para que? Se não tem musculos sãos, armados d'aço e lançando fogo, esse povo será devorado pelos lobos sempre á espreita das ovelhas.

Mas lançados n'esta ordem de cogitações encontramos a Allemanha receiosa e timida diante do cossaco esfarrapado que vi nos acampamentos da Polonia. Já não vale a força; tudo ameaça dissolver-se n'essa infinita vastidão em que já um dia se perderam setecentos mil homens. «Vive em paz com a Russia», recommendára, diz-se, o velho Guilherme moribundo a Frederico, seu filho; no seu espirito fluctuava já o desanimo com que Napoleão voltou de Moscow ás margens do Niemen e antecipadamente se entregava a essa amizade obrigada.

E o espirito perde-se buscando em vão uma base de força duradoura, eterna, indestructivel! Não pensará assim o arabe, que tudo aceita sem espanto, como derivado da ordem logica e natural das coisas, se é que podemos aventurar-nos a penetrar tão intimamente no espirito de uma raça estranha. Duvido.

Muitas vezes na Argelia, pensando no arabe mysterioso, surgiu no meu espirito esta duvida. Podemos comprehender inteiramente a psychologia de uma raça estranha? Modos de vêr e de sentir differentes devem conduzir a differentes ordens de pensamento e, embora vejamos as suas conclusões externas e praticas, no modo de funccionar intimo poderá existir qualquer coisa mysteriosa que nos escapa. Comprehendemos claramente a psychologia da criança; não ha entre ella e nós senão graus de desenvolvimento e de actividade sendo iguaes a tendencia evolutiva e o modo de funccionar, tendencia e modos que devem variar de raça para raça. É verdade que o nosso espirito não concebe duas logicas, mas fóra d'esse estreito terreno commum que margem não fica para variantes incomprehensiveis? Pasmamos muitas vezes da logica excentrica de certos espiritos, da maneira por que n'elles se prendem e ligam as idéas, e este facto, combinado com uma reconhecida differença de base physica, não basta para nos levar a qualquer conclusão mas deixa no espirito certa desconfiança quanto a affirmações positivas sobre a psychologia das differentes raças.

Talvez que sobre o espirito arabe o juizo mais acertado seja o de uma senhora americana muito instruida com quem conversei largamente sobre essa gente. «Só gostava de saber o que elles pensam...»—«Creio que pensam muito pouco», respondeu-me.

É possivel que n'estas palavras se resuma toda a sua psychologia. Um clima ardente congestiona e opprime, como o frio entorpece; em qualquer caso ha uma paralysação de vida. A indifferença arabe não seria como a do russo uma conclusão final do cogitar sobre a inanidade de todas as previsões, seria uma abdicação por indolencia, seria a aceitação das coisas sobre o que o pensamento se nega a reflectir. Mata e morre friamente, n'um torpor de somnolencia invencivel. Sabe lavrar e conduzir os rebanhos na pastagem, caminha arrastadamente, e apto para o trabalho lento; não sabe cavar, repugna-lhe o trabalho activo e diligente.

Este mesmo clima que produziu uma raça avassallada pelo ardor do sol, movendo-se sob impulsos mysteriosos, creou a paizagem que deslumbra e cega os olhos do artista europeu educados na luz coada pelas nevoas do norte. Deu á sensualidade tudo o que ella podia exigir de mais intenso e vivo; e por isso se comprehende que a paizagem da Argelia tenha na pintura um culto reservado e distincto. Para a poder sentir é necessario ter olhos insaciavelmente cubiçosos e nem todos attingem tamanho vigor de Sensualidade visual. Para os que ficam áquem, esses prazeres perdem-se despercebidos, quando não repugnam, ferindo e maguando. Uma luz abundantissima n'uma atmosphera sêcca; e todas as impressões virão aos nossos olhos nitidas, precisas, distinctas, vibrando rijamente, soltas e desvendadas da humidade attenuante que modera, corrige e confunde, mostrando-nos toda a natureza através d'uma atmosphera transparente sim, mas uniformemente colorida.

A atmosphera tem portanto côr? Pela primeira vez surgiu no meu espirito este pensamento quando em Copenhague encontrei na exposição pinturas japonezas em sêda, esboços grosseiros de paizagens sobre um fundo sem nuvens, unicolor. E todavia transmittiam-me a impressão de uma paizagem por muito que me repugnasse crêr na realidade do céo e do ar amarello ou verde. Parece que da terra e do céo, de todos os reflexos fundidos resulta um prisma distincto para cada paizagem, através do qual a vemos e conhecemos.

Talvez resultado d'este scismar, uma noite, em Argel,—ainda outro sonho!—vi essa terra como as ruinas do Coliseu de Roma. Era uma enorme bacia formada de montanhas escalvadas, de uma argilla vermelha que descia em degraus até ao fundo e sobre a terra, immoveis, equidistantes, os albornós brancos dos arabes; um espaço vermelho e cavado, maculado de pontos brancos. Assim toda a paizagem da Argelia estaria envolvida n'essa atmosphera vermelha.

Não contradiz este sonho o que acima disse relativamente á intensidade de impressão resultante da seccura atmospherica. Uma coisa é o colorido ligeiro que provém da fusão dos reflexos ambientes, outra a decomposição da paizagem através da nevoa mais ou menos densa; essa attenua e confunde profundamente, a outra dá apenas um ligeiro colorido sem prejudicar a predominancia das impressões primitivas; uma sente-se principalmente nos espaços vazios, a outra actua com igual força sobre toda a natureza terrestre.

A paizagem da Argelia, pois, com a sua atmosphera propria, como as demais paizagens, e a sensualidade requintada da riqueza e intensidade de impressões visuaes que resultam da seccura do ar associada á abundancia de luz. Explica-se d'esta fórma como nos quadros dos pintores que têm estudado essas regiões apparecem com tão grande frequencia as montanhas, as ruinas e o mar; são aquelles elementos em que este caracter de nitidez, de transparencia e de variedade consequente apparece mais distinctamente.

Para nós, porém, a paizagem da Argelia não tem o valor que lhe dá a gente do norte. Estes crepusculos em braza que se prolongam n'um esmorecer lento, a luz que á tarde doura o arvoredo, como com tanta saudade a vi nas mattas de pinheiros de Alepo, em Orleansville, nada d'isso é novo para nós com quem a natureza foi tão prodiga.


Sevilha, 13 de Outubro.

Duas coisas bem differentes temos que vêr no sul da Hespanha, os monumentos arabes e a Andaluzia, os vestigios d'uma raça e d'uma civilisação extinctas n'esta parte do mundo e os povos e a civilisação agora existentes na mesma região. Ambas igualmente interessantes; a primeira porque encerra documentos de primeira ordem no seu genero, e a segunda pela importancia de todo o elemento activo contemporaneo.

Nem a Alhambra nem a mesquita de Cordova nem o alcaçar de Sevilha destruiram a impressão que a Argelia me tinha deixado da arte arabe; antes confirmaram o que ahi tinha pensado e que em certo modo se relaciona com o que em Moscow julguei de todo o Oriente. Aqui tambem como alli, encontrei uma concepção esthetica que não é da nossa raça e não se conforma com o nosso modo de sentir. N'este ponto as duas impressões são identicas. Differem porém: emquanto no moscovita domina a imaginação insaciavel, um enredar infindo, parecendo que o seu pensamento não consegue definir-se em certa ordem de linhas geraes, o arabe alcançou esse ultimo estado, definiu o seu conceito em fórmas precisas e determinadas. Depois de termos visitado os monumentos arabes, por longo tempo nos ficam diante dos olhos certas proporções e direi mesmo certos angulos, embora tenha a certeza de que os seus angulos variam de grandeza em numero infinito. Ha manifestamente uma tendencia, um movimento n'uma direcção fixa.

D'esse conceito, d'essa visão ultima e final, producto de series de impressões successivas, resultam para mim duas idéas—a ausencia de grandeza e a preferencia do adorno sobre a estructura.

Sobre esta creio não haver duvida. Dentelle—foi a palavra que mais vezes ouvi do guarda da Alhambra que me acompanhava; rendas são na verdade todos esses minusculos trabalhos em gesso de que os seus muros estão cobertos. Para lhes dar todo o relevo estenderam-se sobre o ouro e as côres mais vivas, um azul intenso e um vermelho rutilante, e não se pouparam as perspectivas que os projectassem sobre a grandeza do espaço e da luz; e, depois de os ter despendido com uma prodigalidade infatigavel, cobriram-se os intervallos que restavam com azulejos e couros de Cordova, rendas ainda, posto que d'outra materia. Não se levantaram palacios, atapetaram-se alcovas de sultana.

É de crer que me neguem a falta de grandeza nos monumentos arabes, adduzindo como primeira prova de contestação a mesquita de Cordova. Ao que responderei que é d'esse mesmo documento que pretendo tirar a melhor prova do meu pensamento.

Quando lá entrei, lembrou-me um pomar de macieiras frondosas e bem alinhadas, d'esses que os brazileiros da minha terra têm alli pela Villa da Feira. Li depois que Theophilo Gautier a comparára a uma floresta, mas as florestas bracejam á vontade, erguem-se ao sol e desconhecem a linha recta, errando gigantes por onde a luz e a terra mysteriosamente as conduzem. Transcrevo as proporções d'esse edificio e o leitor dirá se n'ellas cabe grandeza.

Supprimamos a capella-mór e vejamos só as proporções da mesquita no seu estado primitivo. Um quadrilatero, cento e sessenta e sete metros de comprimento, cento e dezenove de largura, dez d'altura; dezenove naves n'uma direcção e trinta e seis na outra, arcos mouriscos assentes em columnas de cerca de tres metros. É facil de imaginar o aspecto de tanta galeria tão baixa, tão estreita e tão longa.

A isto chamou-se grandeza, sendo aliás a sua negação. A grandeza está nas proporções d'um só conceito, e o arabe, não podendo alcançal-a, vingou-se na extensão, repetindo n'um vasto campo o mesmo conceito. Incapacidade de espirito ou consequencia de um mau ponto de partida? Foi o espirito arabe que carecia de grandeza ou a grandeza era incompativel com a fórma d'arco que adoptára e que mais amava? E questão que por certo os homens do officio terão resolvido ha muito, e elles saberão dizer-nos se com o arco arabe poderemos ir muito longe; para os meus olhos desprevenidos e ignorantissimos aquelle arco parece concluir sempre o edificio, tornando impossivel uma sobreposição equilibrada apparentemente, já se vê, porque quanto á realidade não ha duvida.

Perdôem-me os expertos se n'isto vai grande barbaridade, mas em tempos de suffragio universal é permittido ouvir-se a voz do vulgo. De resto, questão incidente; prosigamos. Ausencia de grandeza e abuso do adorno não são qualidades de gente guerreira, e por isso comprehendo Carlos V mandando arrasar parte da Alhambra e construindo no seu logar um palacio da mais bella renascença; foi ingenuamente o homem da sua raça. Quem dos jardins do Generalife vir os telhados da Alhambra, baixos como cabanas ao lado do palacio sumptuoso e altivo, comprehenderá porque razão isto venceu aquillo. Estão alli duas architecturas e duas almas.

Lamentamos e com razão que se houvessem destruido tão boas fontes de saber. Penetrar o espirito alheio, abranger na extensão do nosso pensamento a vida de toda a terra e de todo o universo, se possivel, é para nós um tão grande prazer como a contemplação de quanto nos deleita a vista: e n'este sentido são justas as lamentações de todo o monumento perdido. Mas não é menos justa a sympathia pela expansão forte, viril e inconsciente dos instinctos de uma raça, ainda não pervertida pela largueza intellectual que conduz ao scepticismo, pondo o cant no logar da admiração sincera: e então os actos barbaros como o de Carlos V têm seus laivos de grandeza.

E todavia quem falla d'esta fórma da arte arabe ainda hontem poderia ser surprehendido em flagrante delicto de admiração diante da entrada de um casino de Sevilha. Que singeleza! Um vestibulo rectangular, ladrilhado de marmore, as paredes com uma cercadura de um metro de azulejo e depois gobelinos até ao tecto de madeira, apainelado; ao centro tres arcos sobre quatro columnas de marmore branco dando entrada para o pateo, quadrado, com uma ornamentação semelhante á do vestibulo. Não ha n'isto grandes reminiscencias dos mouros? Ha, decerto; toda a differença consiste não em desconhecermos a belleza da sua arte mas em a tornarmos como subordinada a uma concepção mais alta. De fim ultimo e principal, os seus mais bellos elementos transformam-se ás nossas mãos em accidente e complemento.

É tempo de passarmos á formosa Andaluzia, formosa nas suas mulheres, no pittoresco dos costumes, retardatarios da desnacionalisação, porque a formosura dos seus campos soffre grandes reservas.

Pelos montes e outeiros predominam os olivaes, e a palmeira (chamærops humilis), as agaves, o esparto, a giesta, e as lavouras de trigo preenchem os intervallos; as terras baixas são mimosas, onde têm agua, mas com esta indecifravel confusão de plantas dos terrenos bem cultivados, perdem toda a fôrça e caracter como paizagem. Para esta ficam só as terras altas e que pouco dizem porque as oliveiras estão muito distantes entre si e as outras plantas muito dispersas para darem qualquer fórma ou colorido definido. Ainda assim, onde o olival é basto accentua-se certo caracter de calor e suavidade; a folha da oliveira, leve de colorido e pouco brilhante, semelhando cobre velho oxydado, desenrola sobre a terra um tapete que se sente profundo e leve, sem a dureza polida e fria das vastas superficies luzentes. Caracter que as restantes plantas partilham: o brilho é proprio das plantas viçosas e aqui não as ha, têm falta d'agua. A propria palmeira é bem differente d'aquillo que parece nos nossos jardins, mais coriacea, não se expande nesse viço que é uma phase brilhante de estiolamento.