O melhor, mais bem feito, mais importante jornal de Londres, a Pall Mall Gazette, envergonhado de tudo isto, explica, com a sua usual habilidade, que estas fanfarronadas não são destinadas á Europa, mas ao Egypto «para levantar o moral das tropas!» Têm pois esses regimentos em campanha nos areaes da Africa, diante d'um inimigo formidavel, vagares para ler as gazetas? Recebe cada soldado raso, com o seu rancho da manhã, um numero do Times? A respeitavel Pall Mall blaguêa. Para animar, recompensar as tropas, lá estão as proclamações dos generaes. Ahi, sim, a emphase deve correr em torrentes: e quando um desgraçado homem depois de ter marchado todo um dia, com fome, com sêde, com os pés em sangue na areia e um ceu de fogo nas costas, volta á noite ao acampamento, estendido n'uma maca com duas balas no corpo—não é muito que se lhe diga que elle é o primeiro soldado do mundo!
É também «para levantar o moral das tropas» que o Times e o Spectator, fallam, de mão na cinta, e suissa ao vento, de «impor á Europa a vontade da Inglaterra?»
Não; é mera fanfarronada.
E não é só nos jornaes. Entre-se n'um club, n'um restaurante, converse-se com um conhecido, entre duas chavenas de chá—e vem logo a mesma jactancia de roncador: «Vamos dar cabo de tudo. Temos dinheiro a rodo. Cá, ao pulso inglez, nada resiste... E se o mundo respinga, quebram-se-lhe as ventas!...»
A Inglaterra perdeu as suas boas maneiras.
É forte, de certo—mas falla da sua força com a brutalidade de um Hercules de feira que esbogalha os olhos e mostra os musculos; é rica, de certo—mas falla do seu dinheiro com a grosseria d'um ricaço que abarrota fazendo tinir as libras na algibeira...
Onde está a famosa self-possession da Inglaterra, a sua tranquilla dignidade? John Bull tornou-se Ferrabraz. Ora uma muito velha banalidade ensina-nos que não ha verdadeira força sem serenidade e que sem modestia não ha verdadeira grandeza.
Os jornaes inglezes d'esta semana têm-se occupado prolixamente do Brazil. Um correspondente do Times, encarregado por esta potencia de ir fazer pelo continente americano uma «vistoria social» definitiva deu-nos agora, em artigos repletos e massiços, o resultado do seu anno de jornadas e de estudos.
O ultimo artigo é dedicado ao Brazil: eu, que nunca visitei o imperio, não tenho naturalmente auctoridade para apreciar essas revelações (porque o correspondente toma a attitude de um revelador) sobre a religião, a cultura, os productos, o commercio, a emigração, o caracter nacional, o nivel de educação, a situação dos portuguezes, a dynastia, a Constituição, a republica, et de omni re braziliensi e não posso transcrevel-as tambem porque ellas enchem, no Times, vasto como é, mais espaço que o proprio Brazil occupa no territorio da America do Sul. Esse artigo excitou o interesse e os commentarios da Pall-Mall Gazette e de outros jornaes, e ahi se rompeu a fallar do Brazil com sympathia, com curiosidade, com essas admirações ingenuas pela sua rutilante flora, esse pasmo quasi assustado pela sua vastidão, que decerto tiveram nossos avós, quando o bom Pedro Alvares Cabral, largando a procurar o Preste João, voltou com a rara nova das terras entrevistas do Brazil...
Devendo mostrar-lhes a opinião presente da Inglaterra sobre o Brazil, d'esses artigos floridos, escolho o do Times, annotando e glosando o trabalho do seu enviado. (É d'este modo respeitoso que se deve fallar sempre de um correspondente do Times).
Começa, pois, o grande jornal da City por dizer—«que a descripção do vasto Imperio do Brazil com que foi fechada a serie das cartas sobre o continente americano, deve ter feito transbordar o sentimento de admiração pelo explendor, etc...» Seguem-se aqui naturalmente vinte linhas de extasi. É, em prosa, a aria do 4.º acto da Africana: Vasco da Gama, de olhos humidos e coração suspenso no enlevo de tanta flôr prodigiosa, de tão raros cantos d'aves raras...
Depois vem o espanto classico pela extensão do Imperio: «Só o simples tamanho de um tal dominio (exclama) na mão de uma diminuta parcella da humanidade é já em si um facto sufficientemente impressionador!»
E todavia esta admiração do Times pelo gigante é misturada a um certo patrocinio familiar, de ser superior,—que é a attitude ordinaria da Inglaterra e da imprensa ingleza para com as nações que não têm duzentos couraçados, um Shakspeare, um Bank of England, e a instituição do roast-beef... N'este caso do Brazil, o tom de protecção é raiado de sympathia...
Depois o artigo rompe de novo n'um hymno: «A Natureza no Brazil não necessita do auxilio do homem para se encher de abundancias e se cobrir de adornos!... Para seu proprio prazer planta, ella mesma, luxuriantes parques! E não ha recanto selvagem que não faça envergonhar as mais ricas estufas da Europa...» Isto é decerto exacto: mas o Times, receiando que os seus leitores viessem a suppor que a natureza do Brazil está de tal modo repleta, tão indigestamente attestada, que não permitte, que se recusa com furor a receber no seu ventre empanturrado uma semente mais sequer—apressa-se a tranquillisal-os: «Mas (diz este sabio jornal judiciosamente) ainda que a Natureza dispense bem todo o trabalho do homem, que outros solos menos generosos requerem para se abrir em flôres e fructos,—não o repelle todavia». Isto socega os nossos animos: ficamos assim certos que nenhum fazendeiro, nos distantes cafesaes, ao atirar á terra, a terra mãe, com a enxadada fecundadora a semente inicial, corre o risco atroz de ser por ella atacado á pedrada ou a golpes de bananeira... Nem outra cousa se podia esperar da doce e pacifica Ceres.
Tendo assim floreado, de penacho oratorio ao vento, o Times investe com as ideias praticas. E começa por declarar, que, segundo o copioso relatorio do seu correspondente, «o que surprehende na America do Sul (se exceptuarmos aquella tira de terra que constitui a Republica do Chili, e alguns bocados da costa do enorme imperio do Brazil) é a grandeza de tais recursos comparada á desapontadora magreza dos resultados». Seria facil responder com a escassez da população. O Times de resto sabe-o bem, porque nos falla logo d'essa população nas republicas hespanholas, mas não a acha escassa; o que a acha é torpe!... A pintura que nos dá do Perú, Bolivia, Equador e consortes é ferina e negra: «Essa gente vive n'uma indolencia vil, que não é incompativel com muita arrogancia e muita exagerada vaidade! D'esse torpor só rompe, por accesso de frenesi politico. Todo o trabalho ai emprehendido para fazer produzir a natureza é dos estrangeiros: os naturaes limitam-se a invejal-os, a detestal-os por os verem utilisar opportunidades que elles mesmo não se quizeram baixar a usar!» Isto é cruel: não sei se é justo: mas entre estas linhas palpita todo o rancor de um inglez possuidor de maus titulos peruanos. «E se o nosso correspondente (continua o artigo) offerece de alto o Brazil á nossa admiração, não é em absoluto, é relativamente, em contraste com os paizes que quasi o egualam em vantagens materiaes, como o Perú e o Rio da Prata, mas onde a discordia intestina devora e destroe todo o progresso nascido da actividade estrangeira. O Brazil é portuguez e não hespanhol: e isto explica tudo. O seu sangue europeu vem d'aquella parte da Peninsula Iberica em que a tradicção é a da liberdade triumphante, e nunca supprimida.» O Times aqui abandona-se com excesso ás exigencias rythmicas da phrase: parece imaginar que desde a batalha de Ourique temos vindo caminhando n'uma larga e luminosa estrada de ininterrompida democracia!...
Mas, emfim, continúa: «Quando o Brazil quebrou os seus laços coloniaes não tinha a esquecer feias memorias de tyrannia e rapacidade; nem teve de supprimir genericamente todos os vestigios de um máu passado.» Com effeito; pobres de nós! nunca fômos de certo para o Brazil senão amos amaveis e timoratos.
Estavamos para com elle n'aquella melancolica situação de um velho fidalgo, solteirão arrasado, desdentado e tropego, que treme e se baba deante de uma governanta bonita e forte. Nós verdadeiramente é que eramos a colonia: e era com atrozes sustos do coração que, entre uma Salvè Rainha e um Lausperenne, estendiamos para lá a mão á esmola...
O Times prossegue: «Ainda que independente, o Brazil ficou portuguez de nacionalidade e semi-europeu de espirito. Pelo simples facto de se sentir portuguez, o povo brazileiro teve, e conserva, o instincto do grande dever que lhe incumbe: tirar o partido mais nobre da sua nobre herança... Sejam quaes tenham sido os erros de Portugal, não se póde dizer que se tenha jámais contentado com o mero numero das suas possessões, sem curar de lhes extrahir os proventos...» O Times aqui dormita, como o secular Homero.
E justamente o que nos preoccupa, o que nos agrada, o que nos consola é contemplar simplesmente o numero das nossas possessões: pôr-lhes o dedo em cima, aqui e além, no mappa; dizer com voz de papo, ore rotundo: «Temos oito; temos nove: somos uma nação colonial, somos um povo maritimo!...» Emquanto a extrahir-lhes os proventos, na phrase judiciosa do Times, d'esses detalhes miseraveis não cura o pretor, nem os netos de Affonso de Albuquerque!... Mas prossegue o Times: «O imperio colonial de Portugal talvez tenha sido outr'ora caracterisado por desfortuna—quasi nunca por estagnação.» Talvez é bom: com o imperio do Oriente no nosso passado, que é um dos mais feios monumentos de ignominia de todas as edades... Continuemos.
«Da origem d'onde o Brazil deriva a sua actividade, deriva tambem (o que não é menos importante) o respeito pela opinião da Europa. O vadio das ruas de Lima, de Caracas ou de Buenos-Ayres nutre um soberano desprezo pelos juizos que a Europa possa formar das suas tragi-comedias politicas... Não tem consciencia de cousa alguma, a não ser do seu sangue castelhano... Sente decerto o inconveniente de ser expulso do credito e das bolsas da Europa... Mas avalia esta circumstancia apenas pelos embaraços momentaneos que ella lhe traz. O financeiro brazileiro, porem, esse presta uma tão respeitosa attenção ao temperamento das bolsas de Pariz e Londres, como ao da mesma praça do Rio de Janeiro...»
O Times vê n'este symptoma a consideração que o Brazil tem pela opinião da Europa.
Mas, onde o Times se engana é quando pretende que o Brazil deve ao seu sangue portuguez esta bella qualidade de obedecer aos juizos do mundo civilisado. Não ha paiz no universo, onde se despreze mais, creio eu, o julgamento da Europa, que em Portugal: n'esse ponto somos como o vadio das ruas de Caracas, que o Times tão pittorescamente nos apresenta: porque eu chamo desdenhar a opinião da Europa não fazer nada para lhe merecer o respeito. Com effeito, o juizo que de Badajoz para cá se faz de Portugal, não nos é favoravel, nós sabemol-o bem—e não nos inquietamos! Não fallo aqui de Portugal como Estado politico. Sob esse aspecto gosamos uma razoavel veneração. Com effeito, nós não trazemos á Europa complicações importunas; mantemos dentro da fronteira uma ordem sufficiente: a nossa administração é correctamente liberal; satisfazemos com honra os nossos compromissos financeiros.
Somos o que se póde dizer um povo de bem, um povo bôa pessoa. E a nação vista de fóra e de longe, tem aquelle ar honesto de uma pacata casa de provincia, silenciosa e caiada, onde se presente uma familia commedida, temente a Deus, de bem com o regedor, e com as economias dentro de uma meia... A Europa reconhece isto: e todavia olha para nós com um desdem manifesto. Porque? Porque nos considera uma nação de mediocres: digamos francamente a dura palavra—porque nos considera uma raça de estupidos. Este mesmo Times, este oraculo augusto, já escreveu que Portugal era, intellectualmente, tão caduco, tão casmurro, tão fossil, que se tornára um paiz bom para se lhe passar muito ao largo, e atirar-lhe pedras (textual).
O Daily Telegraph já discutiu em artigo de fundo este problema: Se seria possivel sondar a espessura da ignorancia luzitana! Taes observações, além de descortezes, são decerto perversas. Mas a verdade é que n'uma epocha tão intellectual, tão critica, tão scientifica como a nossa, não se ganha a admiração universal, ou se seja nação ou individuo, só com ter proposito nas ruas, pagar lealmente ao padeiro, e obedecer, de fronte curva, aos editaes do governo civil. São qualidades excellentes, mas insufficientes. Requer-se mais: requer-se a forte cultura, a fecunda elevação de espirito, a fina educação do gosto, a base scientifica e a ponta de ideal que em França, na Inglaterra, na Allemanha, inspiram na ordem intellectual a triumphante marcha para a frente; e nas nações de faculdades menos creadoras, na pequena Hollanda ou na pequena Suecia, produzem esse conjunto eminente de sabias instituições que são, na ordem social, a realização das fórmas superiores do pensamento.
Dir-me-hão que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em cada parochia, e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o paiz escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escriptos, e que se interessasse pelas artes que já estão creadas. A sua esterilidade assusta-me menos que o seu indifferentismo. O doloroso espectaculo é vêl-o jazer no marasmo, sem vida intellectual, alheio a toda a ideia nova, hostil a toda a originalidade, crasso e mazorro, amuado ao seu canto, com os pés ao sol, o cigarro nos dedos e a bocca ás moscas... É isto o que punge.
E o curioso é que o paiz tem a consciencia muito nitida d'este torpor mortal, e do descredito universal que elle lhe attrahe. Para fazer vibrar a fibra nacional, por occasião do centenario de Camões, o grito que se utilizou foi este:—Mostremos ao mundo que ainda vivemos! que ainda temos uma litteratura!
E o paiz sentiu asperamente a necessidade de affirmar alto, á Europa, que ainda lhe restava um vago clarão dentro do craneo. E o que fez? Encheu as varandas de bandeirolas, e rebentou de jubilo a pelle dos tambores. Feito o que—estendeu-se de ventre ao sol, cobriu a face com o lenço de rapé, e recomeçou a sésta eterna. D'onde eu concluo que Portugal, recusando-se ao menor passo nas lettras e na sciencia para merecer o respeito da Europa intelligente, mostra, á maneira do vadio de Caracas, o despreso mais soberano pelas opiniões da civilização. Se o Brazil, pois, tem essa qualidade eminente de se interessar pelo que diz o mundo culto, deve-o ás excellencias da sua natureza, de modo nenhum ao seu sangue portuguez: como portuguez, o que era logico que fizesse era voltar as costas á Europa, puxando mais para as orelhas o cabeção do capote...
Mas, retrocedendo ao artigo do Times, a conclusão da sua primeira parte é que «em riqueza e aptidões o Brazil leva gloriosamente a palma ás outras nacionalidades da America do Sul». Todavia, o Times observa no Brazil circumstancias desconsoladoras: «Doze milhões de homens estão perdidos n'um estado maior que toda a Europa: a receita publica, que é de doze milhões de libras esterlinas, é muitos milhões inferior á da Hollanda e á da Belgica: com uma linha de costa de quatro mil milhas de comprimento, e com pontos de uma largura de duas mil e seiscentas milhas, o Brazil exporta em valor de generos a quarta parte menos que o diminuto reino da Belgica.»
O Times, todavia, tem a generosidade de admittir que nem a densidade de população, nem o total das receitas, nem a cifra das exportações constituem a felicidade de um povo e a sua grandeza moral. A Suissa, que tem dois milhões de habitantes e justamente os mesmos dois milhões de libras de receita, vive em condições de prosperidade, de liberdade, de civilisação, de intellectualidade bem superiores á tenebrosa Russia com os seus oitenta milhões de libras de receita, e os mesmos oitenta milhões em homens. «Todavia, continúa o Times, se a escassez da população, de rendimento e de commercio, não collocam o Brazil n'um estado de adversidade, são uma prova que faltam a esse povo algumas das qualidades que fazem a grandeza das nações. Que os colonisadores portuguezes, apenas apoiados pelo pequeno throno portuguez, tivessem feito da metade do novo mundo, que lhes concedeu o papa Alexandre, mais que os colonisadores hespanhoes que tiravam a sua força da grande nação de Hespanha, é uma cousa que prova a favor do sangue portuguez comparado com o sangue castelhano, andaluz ou aragonez. Mas que as conquistas feitas no Brazil á natureza sejam tão insignificantes, e tão vastos os espaços que permanecem não só inconquistados mas desamparados—indica que são analogos os defeitos da colonia hespanhola e da colonia portugueza...»
O resto do artigo é mais serio; e eu devo transcrevel-o sem interrupção. «O Brazileiro não é, como o peruano ou boliviano, altivo de mais, ou preguiçoso de mais para se dignar reparar nos meios de riqueza e de grandeza tão prodigamente espalhados em torno de si. Não; o brazileiro tem energia sufficiente para ambicionar e para calcular. A sua attenção está fixa nas ferteis regiões do interior. Desejaria bem vêr a rede dos seus rios navegaveis cobertos de barcos e vapores. Succede mesmo que, nos pontos mais ricos da costa, o habitante queixa-se que uma excessiva porção dos impostos com que é sobrecarregado vae ser gasta em collossaes trabalhos emprehendidos em vantagem de remotas e incultas regiões que nunca ou, ao menos, só d'aqui a longos annos, poderão aproveitar com elles. Mas, em todo o caso, o Brazil sente em si força sufficiente para dar ao seu vasto territorio os beneficios de uma sabia administração.»
O Times aqui tem um pequeno periodo, alludindo á nobre ambição que têm os brazileiros de fazer tudo por si mesmos, vendo com aborrecimento as grandes obras entregues á pericia estrangeira, e preferindo os esforços da sciencia e do talento nacionaes, ainda mesmo quando elles falham, custando ao paiz milhões perdidos... Depois prossegue:
«Mas emquanto o brazileiro se mostra assim, em theorias politicas e administrativas, ancioso por fomentar elle mesmo, por elle mesmo fazer todas as obras dos seus cinco milhões de milhas quadradas—ás suas mãos repugna o agarrar o cabo da enxada, ou tomar a rabiça do arado, que é justamente o serviço que a natureza reclama d'elle. N'um continente, que depois de tres seculos e meio continúa a ser um torrão novo, a grandeza das Republicas ou dos Imperios depende exclusivamente do trabalho manual.
«Italianos, allemães, negros, têm sido, estão sendo importados para fazerem o trabalho duro que repugna aos senhores do solo. Mas, inaclimatados, em certos districtos, elles nunca poderiam labutar como os naturaes dos tropicos. Nem mesmo nas provincias mais temperadas do Imperio jámais os immigrantes trabalharão resolutamente—até que o exemplo lhes seja dado pela população indigena, senhora da terra. O brazileiro ou tem de trabalhar por suas mãos, ou então largar a rica herança que é incompetente para administrar. Á maneira que o tempo se adianta, vae-se tornando uma positiva certeza que todos os grandes recursos da America do Sul entrarão no patrimonio da humanidade.»
O Times aqui embrulha-se. Prefiro explicar a sua ideia, a traduzir-lhe a complicada prosa; quer elle dizer que o dia se approxima em que a civilisação não poderá consentir que tão ricos solos, como os dos Estados do Sul da America, permaneçam estereis e inuteis, e que, se os possuidores actuaes são incapazes de os fazer valer e produzir, para maior felicidade do homem, deverão então entregal-os a mãos mais fortes e mais habeis. É o systema de expropriação por utilidade de civilização. Theoria favorita da Inglaterra e de todas as nações de rapina...
Continúa depois o artigo, com ferocidade: «No Perú, na Bolivia, no Paraguay, no Equador, em Venezuela... em outros mais, os actuaes occupadores do solo terão gradualmente de desapparecer e descer áquella condição inferior, que o seu fraco temperamento lhes marca como destino. (Nunca se escreveu nada tão ferino!) O povo brazileiro, porém, tem qualidades excellentes e a Inglaterra não chegará promptamente á conclusão de que elle tem de partilhar a sorte de seus febris ou casmurros visinhos... Mas, dadas as condições do seu solo, o Brazil mesmo tem a escolher entre um semelhante futuro ou então o trabalho, o duro esforço pessoal, contra o qual até agora se tem rebellado. Se o seu destino tivesse levado os brazileiros a outro canto do continente, nem tão largo, nem tão bello, poder-se-hia permittir-lhes que passassem a existencia n'uma grande somnolencia. Mas ao brazileiro está confiada a decima quinta parte da superficie do globo: essa decima quinta parte é, toda ella, um thesouro de belleza, riquezas e felicidades possiveis; e de tal responsavel—o brazileiro tem de subir ou de cahir!»
E com esta palavra, á Gambetta, termino. Já se alonga muito esta carta para que eu a sobrecarregue de comentarios á prosa do Times. No seu conjuncto é um juizo sympathico. O Times, sendo, por assim dizer, a consciencia escripta da classe media da Inglaterra, a mais rica, a mais forte, a mais solida da Europa, tem uma auctoridade formidavel; e escrevendo para o Brazil, eu não podia deixar de recolher as suas palavras—que devem ser naturalmente a expressão do que a classe media da Inglaterra pensa ou vae pensar algum tempo do Brazil. Porque a prosa do Times é a matéria-prima de que se faz em Inglaterra o estofo da opinião.
E reparando agora que, por vezes n'estas linhas, fui menos reverente com o Times—murmuro, baixo e contricto, um peccavi...
A mais engraçada festa das creanças de que me lembro, foi em Inglaterra, na casa de campo dos meus amigos Birds, no paiz de Cornwall. Era uma mascarada reproduzindo em miniatura a côrte de el-rei Arthur e dos cavaleiros da Tavola Redonda. E o que tornava interessante a ressurreição d'este mundo heroico e gentil, popularizado por Tennyson, é que nós estavamos alli justamente na região de Cornwall, onde viviam, entre saráus e batalhas, Arthur, a sua rainha Guinevra e os doze valentes da Tavola. A pouca distancia do parque dos Birds, n'uma collina coberta de carvalheiras, a tradição colloca os paços de Arthur e a maravilhosa e sombria cidade de Caerleon. O rio em que pescavam trutas era o velho Usk. Nas suas frescas margens erguera-se outr'ora o mosteiro, onde o irmão de Percival, uma noite, da janella da sua cella, viu passar n'uma nuvem côr de rosa, entre aromas de junquilhos, o vaso do Santo Graal cheio de sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. E das varandas da sala de jantar, podiam avistar-se em dias claros, lá ao longe, na costa, e entre as rochas, as ruinas d'esse castello de Tintagil, que apparece em todas as balladas do rei Arthur, negro e triste junto ao mar de Cornwall.
A côrte começou a reunir-se cedo, á hora do lunch, no grande salão branco, sobre o jardim. Era o filho dos Birds quem esplendidamente recebia, vestido de rei Arthur. O primeiro personagem da lenda que chegou, acompanhado pela sua governante, foi o feiticeiro Merlino, um adoravel bébé, gordo e embezerrado com a corôa de hera, uns cabellos louros e umas enormes barbas propheticas enchendo-lhe a bochecha côr de rosa. Depois, seguidos das mamãs, vieram entrando todos os outros figurões da romantica chronica, cavalleiros de cinco annos armados e emplumados, mongesinhos nedios, bispos quasi de mama com os seus baculos nos braços, bardos rabugentos, mesteirais vestidos de seda, e fadas mais lindas que as fadas. As tres rainhas mysticas do Walhalla chegaram por ultimo, gravesinhas, todas tres pela mão, cobertas de véos negros, escoltadas por um grande lacaio empoado.
Pouco a pouco o salão ficou animado como o velho Caerleon n'uma manhã de torneio. O pequeno Bird, de Rei Arthur, com seu manto bordado d'ouro, os cabellos frisados sahindo em anneis de sob a corôa carregada de pedras, passeava magestoso, entre os seus irmãos de armas. Uma senhora, encantada, quiz dar-lhe um beijo. Elle repeliu-a asperamente, como teria feito o casto Rei Arthur. Mais orgulhoso do que elle, só o bravo Lancelote do Lago, a quem tinham pintado um buço, e que revestido de armas negras, com uma longa pluma escarlate ondeando-lhe desde o elmo até ás esporas d'ouro, não tirava a mão da espada. E o que parecia ensoberbece-lo mais era a sua faxa de gaze branca, passada sobre a couraça, e feita em rigida obediencia á epopéa, d'um véo da rainha Guinevra. Essa era a grande belleza do saráu, a rainha Guinevra, uma irlandezasinha com as duas tranças negras e os olhos verdes como os prados d'Erin. Séria e fria, envolta na pesada capa de setim azul, conservava-se no meio de um sofá, immovel, com um sorriso que lhe punha uma covinha no queixo, indifferente aos madrigaes, insensivel ás proezas dos cavalleiros, e sempre de olhos baixos, ou por ella os bardos firam as harpas, ou por ella se batam os vassalos junto ao mar de Cornwall.
Um escudeiro annunciou o lunch, tocando uma buzina de prata, tal qual como no Caerleon. E pelo corredor, aos pares, toda a côrte seguiu á sala de jantar o rei Arthur, que levava pela mão, com uma graça solemne, a linda rainha Guinevra. Depois, mas não sem alguma confusão, em que necessariamente as mamãs tiveram de ser energicas com os cavalleiros, ficou completa a Tavola Redonda, ornada de baixellas e flôres. E nada faltava do que mandam as poeticas chronicas.
Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos Genios, lá se achava o velho feiticeiro Merlino, a quem a governante, para elle comer com limpeza a sua sopa, tirára as barbas propheticas. Não havia um javali assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto roast-beef. Mas o rei Arthur levantava o seu copo d'agua, misturada de uma gota de Bordeus, com a nobreza com que o outro, ha tantos centos de annos e n'aquella mesma collina, erguia a taça de hydromel em dias de victoria. De resto a sala, com o seu tecto de carvalho lavrado, tinha o severo apparato d'outras éras e através da janella lá estavam, como nos versos da Morte d'Arthur, as ruinas do Castello de Tintagil, negro e triste junto do mar de Cornwall.
A Côrte mostrava tanto apetite como á volta de uma batida aos lobos nos bosques, que avisinham o Usk. Até as fadas devoravam. Sir Galahad, esse que possuia a força de mil, porque o seu coração era virgem, já por duas vezes reclamára pudding de batatas, batendo furiosamente com o garfo sobre o seu murrião de prata, posto ao lado da mesa entre os crystaes.
Fôra preciso, por causa da sua magnifica tunica de setim verde, atar um guardanapo ao pescoço do cavalleiro Bors, essa radiante flôr de bravura christã. No meio de toda a alegria o forte Percival, incommodado com a sua armadura, permanecia manso e corado com o ar de estar pensando (como o outro Percival) em se recolher ao mosteiro de Wik. Depois, de repente e inexplicavelmente, rolou abaixo da cadeira, entornando todo o molho nos joelhos do intrigante Modred, o mais violento cavalleiro da Tavola.
Modred despropositou e arrepelou os cabellos d'ouro de Percival. A tia do heróe acudiu assustada, e então, como o famoso Lancelote do Lago se estava tornando turbulento, foi arrancado da Tavola Redonda ignominiosamente, nos braços d'um escudeiro, aos berros.
Depois do lunch, a côrte de el-rei Arthur voltou ao saráu a regozijar-se com danças. Saráu delicioso! Havia dois monges extraordinarios, de bureis brancos, tão pequenos e tão tropegos que as senhoras tinham de os segurar pelos braços nas quadrilhas e que queriam constantemente dançar, mais joviaes que os cavalleiros, promptos a atirar-se sempre aos bracinhos das camponezas toucadas de flôres.
O puro Sir Galahad, já sem broquel e sem murrião, galopava doidamente com uma ligeira fada, chegada n'essa manhã da Bretanha, das florestas de Broceliande. Um bardo, com a corôa de folhas de carvalho enterrada até aos olhos, chorava por ter perdido a sua harpa. Havia tambem um principe do Mar do Norte, um castellão de Erin e o bravo cavalleiro Bors, que se tinham refugiado a um canto, por detraz d'um sophá, onde sentados no chão continuavam na sua divertida merenda com bolos, dando gritos, quando as senhoras queriam pôr cobro áquella gula tão impropria de paladinos christãos.
No corredor o pae Bird teve de suster um rechonchudo abbade, que arregaçava as vestes sacerdotaes e ia, furioso, sovar o intrigante cavalleiro Modred. E não foi possivel realizar a parte mais picante da lenda, fazendo com que Lancelote do Lago cortejasse Guinevra. O bravo Lancelote (bem differente do outro) parecia de coração duro e sem gosto pelo sorrir das damas. Terminou mesmo por ter uma hedionda perrice, e cahiu nos joelhos da mamã, com duas grossas lagrimas nas pestanas e a sua bella penna escarlate cahida no chão, como n'uma tarde de derrota.
Cedo os bébés começaram a estar cançados. Eu mesmo, no meio da festa, tive de levar ao collo o veneravel bispo de Blackburn com a sua mitra e com o seu rico baculo. Os seus doces olhinhos azues fechavam-se de somno. Deitei-o no sophá, junto da mais pequenina das rainhas do Walhalla, que já alli dormia sob o véo negro, com os cabellos d'ouro soltos e o lyrio do Paraiso entre as mãosinhas cruzadas...
E o santo bispo candidamente adormeceu ao lado da mystica rainha.
É ao mesmo tempo lamentavel e piccaresco o caso succedido ao Times. Este nobre in-folio diario, que inspira orgulho a todo o inglez sinceramente patriota, e que aos olhos respeitosos do estrangeiro apparece como uma das mais fortes columnas da sociedade ingleza, como a propria consciencia da Inglaterra posta em lettra redonda; este augusto periodico que nunca, desde a sua fundação, citou o nome d'um collega, nem jámais se abaixou a uma controversia, pelas mesmas razões de inflexivel etiqueta que vedariam a Luis XIV argumentar com Colbert; esta austera gazeta que preferiria despedaçar as suas magnificas machinas a consentir que ellas imprimissem um bon-mot, uma pilheria, uma linda bagatella ou uma jovial anecdota; este papel tão pudico que evita o nome de Zola, como uma indecencia—o Times, emfim, o venerando Times, foi ultimamente victima de uma d'essas partidas, como nós dizemos, facecias em acção, como dizem os Americanos, que são ao mesmo tempo nefandas e patuscas, que nos abrazam a face de indignação e nos arrancam aos labios um sorriso, que nos fazem vituperar publicamente o farçante e saborear secretamente a farça, como se vissemos um rabo de papel pregado ao manto d'el-rei, ou sobre os cabellos em caracoes da imagem do Senhor dos Passos—um chapéu alto.
Todas as pessoas que teem folheado esses vastos lençóes de materia impressa que constituem um numero do Times, sabem que a quinta pagina é ordinariamente destinada á publicação dos discursos pronunciados por homens eminentes da politica, da litteratura, da sciencia, da arte, em meetings, comicios, banquetes, inaugurações, conversazioni, em todos esses ajuntamentos de ladies and gentlemen onde a Inglaterra dá vazão ao seu tumultuoso fluxo labial!... O Times é famoso por estas reproducções. Não são resumos, nem extractos: são as arengas, palavra a palavra, especialmente tachygraphadas para o Times por um pessoal experimentado, com as interrupções correctamente transladadas, os murmurios religiosamente marcados, sem que lhes falte um meus senhores!, sem que ficasse perdido um oh! ou um ah! e revistas, esmiuçadas, zeladas como se tivessem cahido dos labios de Socrates ou de Christo prégando outro Evangelho.
Este simples serviço custa por anno ao Times milhares de libras—mas dá-lhe a vantagem de ser elle a acta official do verbo publico da Inglaterra. Todos os jornaes da Europa assim o reconhecem: quando se discute um discurso do Sr. Gladstone, uma conferencia do professor Huxley ou uma predica do arcebispo de Canterbury, tem-se presente, como texto sagrado, o texto do Times. Um orador póde negar a incorrecção de um adjectivo, a violencia de uma apostrophe, quando a apostrophe ou o adjectivo tenham apparecido nos resumos rapidos de outro jornal: nunca, quando hajam apparecido nas columnas infalliveis do Times. Sabe-se a despeza, o desvelo, a minuciosidade, empregada para obter a exactidão—e essa exactidão nunca é contestada.
Quando o Sr. Gladstone, na campanha eleitoral da Escocia, soltou essa famosa invectiva contra o imperio dos Hapsburgos,—o protesto cortez do embaixador d'Austria era fundado em citações do Times. Um orador que, querendo deixar um monumento solido da sua arte, publique os seus discursos em volumes—collige-os do texto seguro do Times. O Times tem aqui o valor d'uma reproducção photographica. Insisto n'isto, para tornar mais vivo o horror da facecia.
Ha semanas Sir William Harcourt, o ministro do interior, fez um discurso em Manchester, discurso consideravel, muito annunciado, muito esperado, tocando todas as questões que inquietam agora a Inglaterra, a anarchia da Irlanda, o tratado de commercio com a França, a intervenção no Egypto, a criação do Governo Municipal de Londres, outras coisas graves ainda.
Esta arenga, tachygraphada pelo pessoal do Times em Manchester, telegraphada para os escriptorios do Times em Londres, foi composta, lida pelos revisores, revista pelo secretario de Sir William Harcourt, verificada, comprovada, relida ainda, e, emfim definitivamente installada na sua pagina... E aqui se colloca a facecia.
Mas é necessario primeiro, para maior indignação e maior goso, conhecer Sir William Harcourt. De todos os membros do ministerio Gladstone, Sir William é o mais austero. Já a sua apparencia intimida: grosso, membrudo, de hombros compactos, com a face imperiosa, pallida, rapada, Sir William tem as linhas solemnes e marmoreas do busto de um Cesar.
E dentro d'esta fórma romana habita um espirito rigido de doutrinario: liberal (em comparação com o marquez de Salisbury, que é quadradamente feudal), Sir William representa no Governo a tradicção, a formula whig. É o contrapeso conservador d'este ministerio radical: está alli como um bloco de granito constitucional para impedir que os outros ministros, Chamberlain, Sir Charles Dilke, os discipulos de Stuart Mill, se adiantem muito pela grande estrada da Revolução: e tem por isso essa ampla solemnidade de maneiras, essa cadencia pomposa de expressão, de quem se honra em guardar as coisas supremas—a corôa, a egreja, a aristocracia territorial, os privilegios, a integridade do imperio... É um solemne. Mesmo abotoado n'um paletot, parece embrulhado n'uma toga. É moroso, massudo, incapaz de sorrir, tem essa especie de magestade official que faz lembrar ao mesmo tempo Guizot e um elephante.
E quando a gente o contempla no parlamento, grave, rispido, vestido de negro—não o póde conceber nas attitudes triviaes da vida, fumando um cigarro n'um sophá, com uma perna por cima da outra, muito menos de joelhos, com uma linda mão de mulher entre as suas, murmurando coisas ternas e tontas...
E é isto que torna atroz e deliciosa a facecia... O discurso solemne d'este solemne estadista estava, pois, paginado, pronto para passar ás machinas, quando aproveitando um momento em que a policia interior dos escriptorios do Times casualmente afrouxára de vigilancia, alguem, um monstro, um scelerado, subtilmente, pé ante pé, foi ao discurso, arrancou-lhe dez ou doze linhas, e substitue-as por outras, compostas de ante-mão, perfida e habilmente compostas! E que linhas! meu Deus! como posso eu, conservando-me casto, explical-as aos leitores da Gazeta de Noticias?
Essas linhas intercaladas no severo discurso do severo ministro eram (tremo de dizel-o) eram linhas eroticas! Era um grito convulsivo de desordenada lubricidade; era o ruido d'uma besta agitada por todas as furias de Venus; era como esse rouco e secco bramar dos veados, nos bosques, sob a calma do estio; era a balbuciação ebria dos Faunos da fabula, do deus Priappo, dos Satyros caprinos que vagueavam pelos pendores sagrados do monte Olympo, ululando, trincando a brancura dos lyrios, violando o coração das rosas, arremessando-se com pulos ferozes de bodes ao entreverem, entre as ramagens dos olmos, as claras nymphas das aguas... Era tudo isto, e era ainda mais.
E, para requinte de facecia, isto não destoava, não chocava, apparecendo bruscamente e sem ligação, como um monturo immundo entre roseas flôres de rhetorica. Não: tinha sido encaixado com uma habilidade diabolica. Sir William Harcourt estava accusando os conservadores de affectarem uma patriotica melancolia em presença dos suppostos perigos, que sob o regimen liberal correm os grandes principios da ordem monarchica, a integridade mesma da Inglaterra. E aqui perguntava-lhes, naturalmente n'um natural movimento de oratoria: «Porque são esses gemidos? Porque é essa exageração de tristeza publica? Decerto a questão da Irlanda e a do Egypto são graves: mas o governo de Sua Magestade sabe que as soluções proveitosas e gloriosas não tardarão... Nós estamos tranquillos. Eu, por mim, sinto-me na disposição de quem, depois de cumprir um dever official, tem para o recompensar o sorriso sereno e approvador da consciencia, etc., etc.»
E justamente aqui as linhas perversas entravam naturalmente traçadas, desenvolvendo mais esta affirmação de contentamento intimo, mostrando a exuberancia de espirito d'um ministro galhofeiro, que, em presença do glorioso estado da cousa publica, admitte que o regosijo da nação tome a fórma excentrica mas justificavel, de uma tremenda bambochata, de um regabofe de estalar tudo... Sir William prosseguia (comprehendem bem que eu dou só expressões aproximativas e atenuadas; traduzir á lettra o que appareceu publicado no Times seria arruinar para sempre os creditos da Gazeta de Noticias) Sir William prosseguia: «Eu, por mim, estou contente. Acho-me até capaz de uma bella folia! Porque não nos daremos com effeito a uma rica patuscada, com vinhaça e mulherinhas? Oh, as mulherinhas! Senhoras que me escutaes, arremessae chapéus e vestidos, e toca a pandegar e a bater um rico batuque!... Evohé! Viva o deboche! Olé, champanhe! Abracemo-nos, deliremos!...» Isto é só para dar ideia: o que se lia no Times tinha outra crueza d'expressão, outro arranque d'orgia!...
Imaginem o effeito ao outro dia, quando milhares de numeros do Times, contendo esta abominação, penetraram n'esses recatados interiores inglezes, onde (segundo aqui dizem) habita o typo superior da familia christã. O Times, o mais caro dos jornaes, é a folha querida da aristocracia, da alta burguezia, da grande finança. Não se comprehende um gentleman inglez, do padrão classico, sem ter logo pela manhã percorrido conscienciosamente o seu Times: é como o coração mesmo da Inglaterra, que elle sente um momento entre as mãos e onde verifica cada dia, com orgulho, um accrescimo de força, uma pulsação maior de vitalidade. Ordinariamente é ao almoço que se lê o Times: e n'essa manhã, vendo-se na quarta pagina, em lettras grossas, O DISCURSO DE SIR WILLIAM HARCOURT EM MANCHESTER, corria-se naturalmente a elle com curiosidade, já pelo interesse nacional, já pela sympathia que inspira Sir William, o seu nome historico, a solida pureza dos seus principios, a sua alta posição...
Imaginem-se então as scenas! Aqui é uma velha e devota duqueza, cheia de enthusiasmo pelas questões sociaes, que se aconchega na sua rica poltrona de tapeçaria, para melhor saborear a nobre oratoria de Sir William—e que de repente estaca, encara o Times, limpa as lunetas, imaginando ter lido mal, torna a percorrer o periodo, passa a mão tremula pela face, procura anciosamente o seu frasco de saes, volta ainda a verificar se a não enleia uma allucinação, e, arremessando emfim para longe a gazeta immunda, sae da sala a passos offendidos, pensando comsigo que são esses os resultado de um seculo de democracia, de materialismo e de libertinagem!
Além é um casal de noivos, que, aninhados no mesmo sophá ao pé do fogão, com os braços entrelaçados, precorrem o Times, menos para saber da questão no Egypto, do que para ler o compte-rendu de outros casamentos elegantes ou as noticias de Paris, onde tencionam ir findar a sua lua de mel; mas encontram o discurso de Sir William, dão-lhe um olhar distrahido, quando de repente lhes salta d'entre as linhas o jorro immundo das apostrophes eroticas!
N'outra casa é uma fresca e loura creaturinha de desoito primaveras, puro lyrio domestico, que faz a leitura do Times a um velho tio general, tolhido de gotta, reliquia veneranda das guerras peninsulares; o velho escuta, pouco attento á politica do dia que detesta, mas muito ao encanto d'aquella voz d'oiro ao seu lado; de repente, porém, o pobre anjo gagueja, pára, faz-se da côr d'uma rosa, treme, a sua vergonha é tal que lhe saltam as lagrimas dos olhos, e foge, deixando o immundo Times nas mãos do general assombrado:—ou então, caso peior, a doce rapariga, na sua candura de flôr d'estufa, não comprehende, imagina que aquillo é politica, continua a ler com a sua voz d'oiro,—e o veneravel tio ouve de repente sahir dos labios de botão de rosa, feitos só para murmurar o que ha de mais casto na musica de Weber, um enxurro torpe de babugens lubricas.
É medonho! E uma feição curiosa do incidente é que este negro attentado só foi descoberto nos escriptorios do Times ás onze horas da manhã: isto é, quando o jornal já estava distribuido em Londres, levado pelos trens de madrugada para toda a provincia, e pela mala de Dover para toda a Europa! A administração do Times telegraphou logo a todos os seus agentes no mundo, para suspender a distribuição e comprar por todo o preço os torpes numeros já espalhados.
Só estes telegrammas custaram perto de dois contos de reis. Mas o melhor é que apenas se soube a historia da catastrophe, e que o Times comprava por todo o preço o numero maldito—esse numero tornou-se logo um valor, um papel de credito, base de especulação, com cotações no mercado, eguaes, se não superiores, aos fundos de muita nação civilisada. Eu sei d'um restaurante que toma regularmente quatro numeros do Times—e que vendeu os seus exemplares immundos a duas libras cada um.
Realizaram-se, porém, ganhos maiores. O Times não regateia, paga. E até hoje diz-se que em comprar essa fatal edição tem gasto já perto de quarenta contos.
O autor da facecia ainda se não descobriu. É sem duvida, um monstro, e seriamente merece a tremenda sentença com que decerto os tribunaes inglezes o demoliriam, se elle apparecesse. Mas, por outro lado, considerando que quarenta contos são apenas um somma minima para a fortuna do Times, e que esta gazeta austera leva o seu pedantismo e a sua empolada pruderie a sustar, como obscena, a menção sequer dos livros de Zola e de outros realistas,—eu não posso deixar de pensar, com laivos de regosijo, que a Providencia tem armas obliquas e terriveis!
Nunca, decerto, desde a invenção da imprensa, aconteceu um jornal publicar, na sua melhor pagina, em letras salientes, doze linhas immundas de desbragada obscenidade; e ser o Times, o primeiro que o fez, o Times, o mais pesado, mais moroso, mais solemne, mais pedagogico, mais reverente de todos os jornaes que têm existido desde a invenção da imprensa—é, digam o que disserem, divertido.
E, terminando, peço ás almas caritativas e justas uma bôa risada á custa do Times.