Mandou
a Rainha velar e afortalezar Alanquer, onde tinha
El-Rei
A Rainha estava em Alanquer, onde tinha El-Rei e seus filhos, como
já disse. E por lhe ser dito que depois do accordo de
Lisboa, o Infante D. Pedro se percebia em Coimbra de gentes e armas, e
que a fama e rumor era, ainda que falso fosse, para a vir cercar e a
levar d'alli e El-Rei ás côrtes
de Lisboa; tendo sobr'isso conselho, e não tomando o que
mais devia, mandou velar, afortalezar e repairar a villa de muros,
gentes, armas e mantimentos, e se poz em som de defeza, se tal caso
sobreviesse. Com que ácerca do povo não
aproveitou, mas damnou muito suas cousas; porque acrecentou e confirmou
a muitos a suspeita que se d'ella havia, em esperar para seu socorro e
ajuda gentes de fóra do reino.
CAPITULO XLIII
Dissensão
que a Rainha procurou d'haver
entre o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique
Sentindo a Rainha que
o Infante D. Anrique, com quanto se
mostrára sempre a seu serviço, seguia acerca do
Regimento a parte do Infante D. Pedro. Por causar entre elles suspeita
e differença em sua conformidade. Ou por ventura e mais
certo, por lh'o fazerem assi
crêr. Escreveu secretamente de sua mão ao Infante
D. Anrique que se não fiasse do Infante D. Pedro. Porque
elle para haver com menos impedimento o Regimento que procurava, e mais
soltamente usar d'elle, como era sua vontade, sabendo que
não havia no reino de quem esperasse
contradição, salvo d'elle, soubesse certo que o
queria prender, de que sua vida não estaria muito segura. E
ante que a carta d'este aviso fosse dada ao Infante D. Anrique, que
estava em Soure, o Infante D. Pedro, que era em
Montemór-o-Velho, por meios secretos que trazia, foi d'ella
primeiro sabedor. E para preservar a vontade do irmão, que
com tamanha falsidade contra elle em alguma maneira se não
damnasse, partiu a gram pressa e mui aforrado, e lhe foi fallar,
não lhe revelando cousa alguma da carta que lhe havia de
vir; mas acceitando geralmente seu coração, com a
firmeza de seu amor e amizade, para os movimentos e desaccordos que se
lhe aparelhavam. Pedindo-lhe, que se contra elle viessem a suas orelhas
algumas cousas, que a isto contrariassem, que as não
recebesse em seu juizo, e d'elle cresse que o amava como a si mesmo.
O Infante D. Anrique não se saltou muito com aquella vinda;
porque lhe parecia que os tempos e as mudanças d'elles o
causavam e requeriam. E porém com palavras que em siso e
prudencia, e confiança não desacordaram das do
Infante seu irmão, lhe
respondeu e o despediu.
A dois dias que o Infante D. Pedro se partiu, chegou Martim de Tavora
ao Infante D. Anrique com a carta da Rainha que disse. E como a viu,
maravilhado da sustancia d'ella, se foi logo a Coimbra só,
onde já era o Infante D. Pedro. Ao qual mostrando-lhe a
carta disse:
«Vêde senhor irmão o que me escreve a
Rainha;
mas porque vejaes
bem o temor que tenho de vós, venho assi percebido e seguro
a vossa casa.»
E o Infante D. Pedro rindo-se, e com mostrança de grande
amor, o abraçou e lhe disse:
«Senhor irmão, não me espanto taes
tempos e taes vontades criarem fruita tão nova. E porque
sabia
já que vos haviam de convidar com ella, sem vo-lo dizer vos
fui falar. Cá não eram a outro fim as
cautellas da segurança que vos de mim fui dar; porque ainda
que sobre tanta razão e firmeza pareciam
então escusadas. Sabei que o receio d'este damnamento as
não escusou. E porém a prisão que
vós aqui recebereis será a honra e amor que de mi
sempre recebestes, e me vós mui bem mereceis.
CAPITULO XLIV
Embaixada dos Infantes á
Rainha
Alli estiveram os
Infantes alguns dias, e com elles o conde de
Barcellos seu irmão. E para com mais repouso e menos
torvação proverem as cousas do reino, se foram ao
logar da Pereira, onde accordaram que o conde de Barcellos fosse
á Rainha requerer-lhe com razões assás
justas e
necessarias, que fosse ás côrtes de Lisboa que
haviam de ser o derradeiro dia de Novembro. E que se para sua ida e dos
seus quizesse alguma segurança, ainda que não
fosse necessaria, lh'a dariam na fórma que
apontasse.
Partiu o conde de Barcellos para Alanquer, e por seu aviso, no dia que
chegou foi ahi com elle seu filho o conde d'Arrayollos, que estando
comendo se
ajuntaram em sua
casa por modo de visitação as
pessoas principaes que hi eram. O conde lhes estranhou logo com
palavras honestas e razões mui
efficazes,
os alvoroços que na villa faziam de vellas e
roldas, e
tomamento d'armas aos vassallos, que pareciam começos de
guerra, e como cousa feita por errado conselho a fez amansar, e tornar
todo a estado pacifico. Foi logo o conde fallar á Rainha, e
lhe disse:
«Senhora, os Senhores Infantes meus irmãos e eu,
acordamos de eu vir a vós para sustancialmente saberdes que
para concordia e bom assento dos grandes movimentos e negocios, que ora
são n'estes reinos, assi do Regimento d'elles, como da cisma
dos Papas e livramento do Infante D. Fernando, é mui
necessario fazer-se côrtes geraes ante do saimento,
ás quaes é bem que El-Rei nosso Senhor e
vós vades. E elles e eu assi vo-lo pedimos que o queiraes
fazer.
«A mim prazera, respondeu a Rainha ir ás
côrtes como requereis, se ante d'ellas as cidades e villas do
reino revogarem a enleição do Regimento que tem
feita ao Infante D. Pedro, e elle a renunciar. E mais por quanto alguns
fidalgos e outras pessoas por juramento são obrigados, assi
a mim como a elle, de sosterem a parte que seguirmos, é bem
que tudo isto se revogue, para uns e outros poderem livremente dizer e
conselhar o que lhes parecer serviço de Deus e d'El-Eei meu
filho Senhor, e bem de seus reinos. E se isto primeiro assi se
não faz, eu por alguma maneira
não irei ás côrtes.»
Com esta resposta assignada pela Rainha se partiu o conde para Coimbra,
onde achou sómente o Infante D. Pedro. O qual depois de a
vêr, disse:
«A inclinação que os povos sem mim e
meu requerimento acordaram, elles pois tem o poder se o assi
houverem por bem a revoguem. E para
isso é mais razão e mór necessidade
que a Rainha
vá ás côrtes, onde por ella e por
aquelles que seguem sua vontade se poderá acerca d'isso
requerer o que lhes parecer direito e justiça, e eu o
não contradirei.
Cá em caso que quizesse, hi haverá taes pessoas
para sostimento de tamanha justiça e honestidade, que minha
resistencia aproveitaria pouco. E quanto ao juramento de que aponta que
releve os que seguem minha parte, seja certa que com verdade nunca se
achará um só,
que para tal obrigação me seja obrigado, e se
alguns o são, não é por semelhante
força, nem contra suas vontades, mas sómente por
criação ou
bemfeitoria que de mim tem recebido.»
O conde de Barcellos se foi logo a Guimarães, onde fez
ajuntar D. Sancho, e o Arcebispo de Braga, e Vasco Fernandes, e Martim
Vaz da Cunha, e Pero Gomez d'Abreu, e Lionel de Lima, e Alvaro Pirez de
Tavora, e Luiz Alvarez de Souza, que segundo geral opinião
seguiam todos a parte da Rainha, e com elles concertou que escusassem
sua ida ás côrtes, posto
que elle fosse, e que em qualquer forma que a qualquer parte ficasse o
Regimento, sempre seria com segurança de suas honras, e
esperança de mais seu acrecentamento.
CAPITULO XLV
Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha
para Lisboa ás
côrtes
O Infante D. Pedro partiu de Coimbra para Lisboa, e com elle
álem dos de sua casa, João Gomez da Silva, e D.
Fernando de Menezes,
e
Alvaro Gonçalves de Tayde, e D. Fadrique de Castro, e
Fernão Coutinho, irmão do marechal, e
Gonçalo Vaz Coutinho, meirinho mór, e Pero de
Lemos, e João de Tayde, senhor de Pena Cova, e a gente do
Bispo de Coimbra, que faziam numero de mil e oitocentos homens de
cavallo, e dois mil e seiscentos de pé, da qual cousa a
Rainha foi avisada, e sendo certificada que o Infante havia de Torres
Vedras ir a Alanquer para comsigo segundo diziam levar logo El-Rei
ás côrtes, e receosa de assi ser, pelo
desviar de tal proposito enviou a elle Anrique Pereira, que o topou em
Alfazeirão, pedindo-lhe «que na maneira em que ia
escusasse sua ida onde El-Rei e ella e seus filhos estavam, assi porque
pareceria desacatamento, estando elles tão sós,
como por a villa
não ser capaz de seu aposentamento, e menos bastante para os
manter. E que se sua ida assi era necessaria, que se não
podia escusar, que quizesse ir muito aforrado.»
Como o Infante isto ouviu disse:
«Anrique Pereira, vossa vinda sobre tal caso fôra
bem escusada, e verdadeiramente assi me salteam estes accidentes, que
não sei que vos responda, sómente
dizei á Senhora Rainha, que me doem muito estas sospeitas, e
porém saiba que dos que se mais mostram a seu
serviço, se deve mais guardar, pois tão
erradamente a aconselham, e mais contra mim que desejo mais de a servir
que a nojar. E que não fallo no que cumpre ao estado e
serviço d'El-Rei meu Senhor; porque em desejar de o
lealmente servir e amar, não darei avantagem a nenhum do
mundo.
E com este recado se tornou Anrique Pereira á Rainha.
Seguiu o Infante sua viagem até o Lumiar, onde a petitorio
dos da cidade de Lisboa, que ante de sua entrada quizeram fallar
primeiro com elle, sobre-esteve
alguns dias. Aos quaes com
palavras de grande aguardecimento e mercês, tendo respondido,
despediu a gente que com elle viera, leixando sómente os
seus continos e alguns que para as côrtes vinham ordenados.
Lisboa porque seus accordos eram mui difficeis, e para os particulares
não havia perfeita auctoridade, deputou doze
cidadãos, a que por consentimento de todos o conselho e
deliberação de todalas cousas
de peso, que então
occorriam
foi
comettido. Os quaes juntos sustancialmente accordaram que o Infante
fosse logo declarado por Regedor in solido, sem outra ajuda nem
companhia, até El-Rei ser em idade de per si o poder reger.
E este accordo foi publicado a todo o povo no refeitorio de S.
Domingos, onde logo com vozes e signaes de todos foi sem
contradição
approvado e consentido.
E os cidadãos enviaram logo ao Infante Pero de Serpa, e
Martim Çapata, e Ruy Gomez da Grã, e
João Carreiro a notificar-lhe o accordo passado, e pedir-lhe
que ao outro dia quizesse entrar e ser seu hospede, com fundamento, que
primeiro havia de prometter e jurar que logo só sem outra
companhia nem ajuda começasse uzar do Regimento
inteiramente. O Infante depois de lhes aguardecer sua ida e
tenção, lhes disse:
«Amigos, sabei que n'este caso acordastes mais o que
quizestes, que o que devieis; porque eu n'elle para o que a mim cumpre
tambem não posso fazer se não o que devo, que
é d'este cargo
não me antremeter assi absolutamente, sem meus
irmãos e sobrinhos, e sem os procuradores dos tres Estados
que para isso são chamados. Porque do contrairo, a uns
será desacatamento, e a outros causaria escandalo. Pelo qual
me parece que a trigança para isso não
é agora
necessaria; mas que deveis sobre-ser até as côrtes
que serão logo. E o que n'ellas se accordar e determinar,
isso será o que se então deve fazer e
cumprir».
«Senhor, disseram elles, essas
justificações de que vossa honestidade se
acautella, bem era que cessem assi; mas ellas para este caso
já são feitas;
porque das cidades e villas, que n'elle hão de dar voz, aqui
temos por suas cartas seus consentimentos. E para o cumprimento de
vossos irmãos, aqui tendes vosso
irmão o Infante D. João que o requere assi e ha
por bem. E com os outros já fallastes, que o não
contradizem. E por tanto Senhor, vos pedimos que não
alongueis o que vos tão justa e devidamente offerecemos. Nem
deis causa que de vossa escusa se sigam alvoroços e
desconcertos de povo, que serão depois impossiveis, ou mui
trabalhosos de concertar.»
CAPITULO XLVI
Entrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as
côrtes acceitou o Regimento
E como quer que da vontade do Infante fosse todavia leixar tudo para
determinação das
côrtes. Porém vendo-se constrangido dos
cidadãos, teve conselho com esses principaes que trazia, dos
quaes todos foi aconselhado, que ao outro dia entrasse na cidade e
fizesse o que ella lhes requeria, pois o contrairo pelas cousas que
eram já n'isso passadas, não contradizia a
honestidade nem razão. Pelo qual o Infante consentiu no
entrar ao outro dia. E defendeu a solemne procissão e outros
grandes estrondos e cerimonias com que ordenavam de o receber.
Mas que seu recebimento fosse
sómente ao costumado que lhe sohiam fazer sem outra
ennovação.
Ao outro dia entrou o Infante, sendo no caminho recebido do Infante D.
João e de todolos fidalgos e pessoas de conta da cidade com
gram prazer e alegria. E assi foi levado ás casas do Mestre
d'Aviz, que estão junto com a Sé, onde pousou.
E ao outro dia, dia de Todolos Santos, foi ouvir missa á
Sé, onde lhe foi requerido que o
juramento que a cidade tinha acordado, elle o fizesse, como logo fez,
nas mãos de D. Alvaro d'Abreu, Bispo d'Evora, onde
publicamente jurou e prometeu com as mãos postas sobre os
Evangelhos e Cruz, de bem e lealmente reger e defender estes reinos em
nome d'El-Rei D. Affonso seu Senhor, até ser em
disposição de os per si poder reger e defender, e
que então lh'os entregaria livremente e sem
contradição nem
cautella, e o serviria sempre com amor e lealdade, como bom e leal
vassallo.
Tardou o ajuntamento das côrtes até os dez dias de
Dezembro, onde os Infantes com todolos procuradores sendo juntos nos
Paços d'Alcaçova, o Infante D. João se
levantou em pé e disse que algumas
cousas que a todos ali queria propoer por serviço de Deus e
d'El-Rei, e bem do reino, por não estar por então
em disposição de per si as poder
dizer, encomendou ao doutor Diogo Affonso Mangancha que por elle as
dissesse, pedindo-lhes que logo o ouvissem.
O doutor que era presente, cessando todo o rumor, propoz uma arenga
grande e bem dita, cuja sustancia foi aprovar em nome do Infante D.
João, que fôra bem feito enleger o Infante D.
Pedro por só Regedor, contradizendo o accordo e
determinação das
côrtes de Torres Novas, em que o Infante não
fôra, e de si mostrou com claras razões, aprovadas
por Direito Divino
e
Humano, e autorizadas por claros exemplos, que mulher não
devia ter Regimento. Nem que dois em companhia não deviam
reger; mas um só, e para ser um só devia ser o
Infante D. Pedro, e que a Rainha servissem e acatassem todos como era
razão e o requeria ser mulher e madre de taes dois reis,
sangue e virtudes que tinha.
Foi por todos geralmente consentido na proposição
do doutor, e aprovaram sem contradição o Infante
D. Pedro haver só de reger, de que se fez um accordo que
testemunharam quatro notairos que a todo eram presentes, Lopo Affonso e
Ruy Galvão, e Martim Gil, e Gonçallo Botelho,
officiaes da camara e fazenda de El-Rei. O qual accordo foi logo por
todos alli assignado, salvo pelo conde d'Arrayollos, que se escusou de
o assignar, nem chamou depois ao Infante Regente, mas seu nome; como
quer que obedecesse a seus mandados inteiramente, e melhor que alguns
que o enlegeram e assignaram.
Foi isso mesmo acordado que o Infante fizesse como fez, juramento na
fórma do passado, de reger bem o reino e o entregar
livremente a El-Rei, como fosse em edade e
disposição de o por si reger e deffender.
E certo o Infante D. Pedro o fez assi sempre bem, e como devia, que
para ser louvado sobre todolos Principes de seu tempo, não
lhe falleceu se não ser Rei; porque em Regedor
não dava assi as cousas á
inteira execução que se requeria. E tudo por
temperança e assessego do reino, e por evitar escandalos,
odios, invejas a que não pôde fugir, cá
em fim
o encalçaram com a morte, e com quebra de seu estado, como
adiante se dirá.
CAPITULO XLVII
Notificação
do acordo passado
á Rainha, que o não consentiu
O Infante D. Pedro por si só, e des-hi os outros infantes,
condes e fidalgos e procuradores das cidades e villas que foram
presentes, por suas cartas notificaram logo á Rainha que
estava em Alanquer, todo o passado, com razões e fundamentos
de serviço de Deus e d'El-Rei, e grande descanço
d'ella. Pedindo-lhe todos com muito acatamento que o houvesse assi por
bem e quizesse trazer El-Rei á cidade para lhe ser feita a
reverença que lhe todos deviam e desejavam fazer. E para em
sua presença se tratarem algumas cousas, que a seu estado e
serviço, e bem de seus reinos convinham.
Com este recado o Infante enviou á Rainha Alvaro
Gonçalvez de Tayde, governador de sua casa, homem prudente e
bem razoado, e de que muito fiava.
A Rainha recebeu a messagem com signaes de grande tristeza, e por
conselho dos que com ella eram, sustancialmente respondeu
que
se os Senhores Infantes,
condes e povo, revogassem a enleição do
Regimento, que era feito ao Infante, e o dessem a ella como eram
obrigados, seria contente levar El-Rei á cidade. E d'outra
maneira que o não faria. E ao dar da
resposta tomou d'isto estromentos por seu resguardo.
Tornou-se Alvaro Gonçalez aos Infantes com esta resposta, e
vendo-a contraira a sua determinação,
acordaram de enviar a ella com a mesma sustancia Affonso Nogueira, que
depois foi Arcebispo de Lisboa, e o ministro de S. Francisco, confessor
d'El-Rei, como pessoas
esprituaes, e de boas conciencias, os quaes como quer que para a
commoverem a consentir no passado lhe dissessem causas e
razões para Deus e para o mundo assaz evidentes, ella
forçada por ventura de sua fraca humanidade, ou dos errados
conselheiros, que em contrairo tinha ouvido, acusou com
palavras
mui honestas a si mesma, e a dureza de sua conciencia por o
não poder fazer. E em fim nem consentiu em o Regimento lhe
ser tirado, nem de levar El-Rei, nem dar lugar que fosse por outrem
levado a Lisboa, com quanto lhe fossem feitas grandes
seguranças de logo El-Rei lhe ser tornado, como na cidade
estivesse alguns dias.
CAPITULO XLVIII
Ida do Infante D. Anrique á Rainha para
leixar vir El-Rei ás côrtes, e lh'o
tornarem
Com este recado foram
os Infantes mui descontentes, e o povo mui
alvoraçado, e leixadas muitas praticas e
tenções que se moveram, finalmente foi acordado
que o Infante D. Anrique por derradeiro e principal cumprimento fosse
sobre o mesmo caso a ella, como foi.
E apartados ambos, o Infante lhe fez uma falla, em que obrou tanto sua
virtuosa tenção e bom
proposito com que ia, que demoveu a Rainha ao que desejava. D'onde foi
de crêr, segundo era virtuosa e amiga de Deus, que se
conselheiros apassionados a não torvaram, ella e sua vida e
estado conseguiram outro fim de mais sua honra e descanso.
Ao outro dia partiu d'Alanquer o Infante D. Anrique com El-Rei e com a
Rainha e Principe, para
Santo Antonio, camara do Arcebispado de Lisboa, e o Infante D. Pedro,
sabendo que a Rainha não resistiria ao Infante D. Anrique, e
viria ao que elle quizesse e levava ordenado lhe requerer, se foi de
Lisboa a Alverca, d'onde sahiu ao caminho, e com grande acatamento
beijou as mãos a El-Rei e á Rainha, como quer que
ella se quizera d'isso muito escusar, e assi chegáram a
Santo Antonio bespora de Natal, onde foi acordado que El-Rei e a Rainha
tivessem a festa. A qual passada, os Infantes todos tres foram por
El-Rei e por o Principe seu irmão. Dando primeiro
á
Rainha segurança por seus assignados, de logo lhe tornarem
El-Rei a seu poder, criação e
governaça.
CAPITULO XLIX
Entrada
d'El-Rei em Lisboa para as
côrtes
Veiu El-Rei por agua
até Lisboa e foi recebido á
Porta d'Oura, e d'alli levado á Sé e aos
Paços d'Alcaçova. Indo El-Rei e seu
irmão e os Infantes
sómente a cavallo, e os condes e outros senhores foram todos
ante elles, e esse recebimento foi com tantas cerimonias d'acatamento,
obediencia e alegrias assi celebrado, que em qualquer parte do mundo
onde mui altamente recebimentos se costumassem fazer, este
fôra mui muito louvado, e o Infante D. Pedro foi
só o que poz El-Rei a cavallo e o deceu. O que
não
sómente fez aquelle dia, com assignado acatamento e leal
obediencia e grande reverencia, mas sempre depois o continuou e
acrecentou, em dez annos que por elle regeu seus Reinos. Cá
por si o serviu e fez aos outros servir com tamanho cumprimento de seu
estado e serviço
que se não póde dizer
que outro algum Principe fosse melhor criado no mundo, nem ensinado.
Mandou logo o Infante D. Pedro a Ruy
Gonçalves de Castel-Branco, védor que
fôra d'El-Rei D.
Duarte, que fizesse nos paços correger em grande
perfeição a salla em que El-Rei havia d'estar nas
côrtes. E concordado o dia, que foi aos dez dias de Dezembro
de quatro centos e XXXIX, e assentado El-Rei em sua cadeira, e
acompanhado de senhores e officiaes, como para auto tão real
convinha e se acostumava, o doutor Diogo Affonso Mangancha propoz a
arenga em nome d'El-Rei ao povo, cuja principal sustancia foi:
«aprovar e confirmar a enleição por
elles feita de o
Infante D. Pedro para por elle reger, e agardecer-lhes e prometer-lhes
mercês, honras e liberdades pela assi fazerem, e assi
encommendar ao Infante que o fizesse assi bem e direitamente, como
d'elle confiava, e mandar a todos que lh'obedecessem, como á
sua propria
pessôa».
E em acabando o doutor, o Infante D. Pedro com os giolhos em terra
beijou a mão a El-Rei, e sua Senhoria lhe entregou logo um
páo em que estava atado o sello secreto, em signal e nome de
poderio. E como se deu fim a estas cousas, foi logo El-Rei tornado
á Rainha sua madre, segando pelos
Infantes lhe fôra prometido.
O Infante D. Pedro na casa das côrtes fez logo ajuntar os do
povo e alguns do conselho, e sendo entre elles em pé, lhes
disse com muita gravidade:—«que
pelo grande cargo do Regimento que lhe fôra encommendado, era
necessario elle fazer de si outro homem».—Pelo qual lhe fez
alguns avisados amoestamentos, em signal de sua grande bondade e muita
prudencia, para os que bem e direitamente vivessem
esperassem d'elle em nome d'El-Rei seu
Senhor, bem e mercê, e assi pena e castigo aos que o
contrairo fizessem, encommendando-lhes outrosi que o amassem e lhe
obedecessem, e quizessem ajuda-lo e deffende-lo com seus corpos e
fazendas, assi como elle faria a elles mesmos quando lhes cumprisse. E
principalmente que confiassem d'elle que todo o que fizesse seria afim
de bem e justiça, em caso que lhes parecesse o contrairo.
Ás quaes cousas lhe foi por um deputado respondido, conforme
a sua tenção e petitorio, e o Infante descobrindo
sua cabeça lh'o agardeceu.
O conde de Barcellos mostrava d'este feito não ser contente,
e desejoso de haver para si alguma parte do Regimento, e por
enfraquecer ao Infante seu poder fez e ordenou certos capitulos em
fórma de Regimento, que o Infante havia de ter em sua
governança. Pelos quaes todolos feitos principaes tirava de
seu juizo e os remetia ás côrtes, que cada anno
apontava que se fizessem. O qual Regimento mostrado aos procuradores
dos povos, houveram por escusado ennovar-se mais do que tinham
acordado, e El-Rei aprovado. De que o conde mostrou ser
assáz descontente, e começou logo de requerer a
restituição da posse do Arcebispado ao Arcebispo
D. Pedro seu cunhado; e porque não podia ser sem prazer e
consentimento dos cidadãos, que d'elle tinham apellado para
Roma, o Infante D. Pedro por contentar e assessegar vontades
contrairas, e tirar inconvenientes e torvaçõas a
seu regimento, e assi tambem o Infante D. João, entenderam e
trabalharam n'isto muito com diligencias, que pareciam verdadeiras e
não fingidas. E em fim a cidade por Pero de Serpa seu
cidadão, se escusou de o consentir com muitas
razões, em que pareceu que não fallecia
serviço de Deus, honestidade e muita justiça.
Afirmando,
que todavia
haviam de seguir sua appellação,
durando a qual seria o Arcebispo suspenso, e trabalhariam porque fosse
privado, e por esta dureza que os infantes acharam nos
cidadãos, pela mais não agravar,
houveram por bem leixar por então este requerimento,
esperando que depois se faria melhor, como fez. De que o conde de
Barcellos não sómente contra os
cidadãos, mas contra o Infante principalmente, mostrou
grande sentimento, parecendo-lhe que por sua conjuntura e prazer a
cidade tinha aquelle esforço de resistir.
A estas côrtes entre as outras graças e liberdades
que o Infante D. Pedro em nome d'El Rei outorgou ao povo, foi que
não houvesse aposentadoria em Lisboa, fazendo estados e
casas, em que se El-Rei e sua côrte podessem alojar; e depois
se deu assi a Evora e Santarem.
CAPITULO L
De como se apontou e aprovou não ser bem
El-Rei se criar em poder da Rainha
Estando já
as côrtes e despachos d'ellas em
conclusão para os procuradores se poderem ir, um
João Gonçalvez, procurador da cidade do Porto,
com outro seu parceiro se foram á camara de Lisboa, sendo os
officiaes d'ella em vereação. E cuidando
os da cidade que iam despedir-se d'elles, como era de cortesia e
custume, João
Gonçalves disse:
«Senhores, a mim e a meu parceiro parece, que vós
e todolos outros nossos irmãos e parceiros, que em nome do
reino a estas cortes viemos, as daes já por acabadas. E
certo muitas cousas, mercês a Deus, se
concludiram n'ellas; porque El-Rei
nosso Senhor é mui servido, e nós contentes.
Porém a principal
ficou por requerer e fazer. Sem a qual, todo o que se fez a nosso
parecer é nada ou aproveita muito
pouco».
Os cidadãos enleados de sua
proposição, sabendo que era homem d'autoridade,
cessaram de suas praticas em que estavam, e seguraram os rostos e as
vontades para o ouvir. O qual proseguindo disse:
«Porque concludindo brevemente meu proposito, digo-vos que
por se escusarem muitos danos e grandes inconvenientes que se
não escusam, El-Rei não deve ficar em poder da
Rainha como está, e alguns apontarei e os outros mais
vós por vossa
discrição e saber os entendei. Primeiramente a
criação
d'El-Rei por ser em poder de mulher, é a elle mui danosa, e
sempre por isso ficará fraco e feminado. Que para qualquer
homem privado é aleijão sobre todos, quanto mais
para Rei. E se as comparações não
fossem odiosas, e isto não fosse tão claro, por
exemplos bem vo-lo
poderia provar. Outrosi de sua creação, por tal
maneira está mui evidente o perigo do Infante D. Pedro
Regente, e tambem nosso; porque
segundo a Senhora Rainha,
isto que acordamos sente por sua deshonra e grande quebra de seu
estado, como em suas cartas e protestações parece
claro, não
é duvidar que criaria El-Rei em odio contra o Regente e
contra nós, de que ao diante poderia por isso commeter uma
grande crueldade, em que não haveria remedio. Porque como
naturalmente aquellas cousas que os moços recebem na tenra
edade se lhe emprantam no coração e em sua
memoria para sempre, esta principalmente se lhe emprantaria muito mais,
por lhe ser dita tão a meude, e com tantas lagrimas. Outro
dano é a que se deve atalhar o crecimento de despezas
desordenadas, a que as rendas do reino não
bastáram. Cá
umas são necessarias
ao Regente para manter seu estado e do reino, e outras cumprem
de necessidade a El-Rei e a seu irmão, e outras á
Rainha e suas filhas. Com
outros inconvenientes que agora são escusados
apontarem-se».
Aos cidadãos pareceu bem o motivo de João
Gonçalves, e fizeram logo avisar os outros procuradores, que
logo á tarde foram hi juntos, onde depois de havidas algumas
praticas e altercações sobre o caso,
accordaram que El-Rei e seu irmão deviam todavia ficar em
poder do Infante D. Pedro. Ao qual d'este accordo logo avisaram,
pedindo-lhe que o quizesse assi consultar com os Infantes seus
irmãos, com os quaes ordenasse que se cumprisse.
O Regente depois de ouvir dois cidadãos que a elle sobr'isso
foram, lhes respondeu:
«Dizei aos cidadãos e procuradores, que lhes rogo
muito que cessem d'este movimento, e não me daria
persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse
devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito
melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua
madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua
consolação e
contentamento como é razão e está
concordado, como
tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria
moço é, e sujeito como todos a enfermidades e
casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não
queira e o defenda, é certo que seria com grande minha
tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e
d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que
entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella
requere e é razão;
e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com
tal cargo «Dizei aos cidadãos e procuradores, que
lhes rogo
muito que cessem d'este movimento, e não me daria
persumir-se que eu n'elle cabia por principal, se fôsse
devido e necessario; mas eu o digo assi, porque na verdade ei por muito
melhor ficar El-Rei meu Senhor e seu irmão em poder de sua
madre, que no meu. Assi por satisfazer a sua
consolação e
contentamento como é razão e está
concordado, como
tambem por mais minha segurança e descargo, e sua Senhoria
moço é, e sujeito como todos a enfermidades e
casos mortaes, de que fallecendo, o que nosso Senhor não
queira e o defenda, é certo que seria com grande minha
tristeza e muita pena, e a mim poderiam dar a culpa de sua morte, e
d'hi ávante eu com este cargo tenho tantas cousas em que
entender, que a essa não poderia satisfazer como a ella
requere e é razão;
e que podesse, sabei que queria fugir aos odios dos aios, que eu com
tal cargo não posso escusar, especialmente refreando El-Rei
e seu irmão em cousas a
que sua mocidade os
inclinará, em que por ventura mereceram mais emmenda e
reprensão que louvor.»
Os cidadãos lhe replicaram:
«Senhor, quem vos bem conhece e vosso justo juizo e grande
saber, sem errar vos póde dizer que d'outra maneira o
entendeis, do que o fallaes. E por tanto isto que vos propozemos
é assi em nós todos
tão determinado para se cumprir, como o mais que fizemos.
Cá se o passado foi proveitoso, n'isto ha proveito e
necessidade; porque não é razão, nem
queira Deus que um tão alto Principe como é
El-Rei nosso
Senhor, e que em tão pequenos dias nos dá de si
tantas esperanças de bem entendido e virtuoso, seja assi
creado em tanto aleijão, como é a
criação em poder de mulheres. Antes pois em
vós para isso ha tantas razões, é
razão que o crieis e
façaes ensinar em letras e reaes costumes, e o leveis ao
monte e á caça, e
lhe mostreis por vós o exercicio das armas, e por exemplos e
doutrina, e merecimentos da cavallaria. E assi as outras cerimonias,
manhas, e cousas que ao estado de um tal Principe convém,
assi para os tempos publicos, como secretos, e com isto elle
é de tão
são e perfeito entender, que conhecerá que o
servis bem e lealmente. E por isso vos amará e
fará aquelle
acrecentamento e mercê, que lhe prazendo a Deus
merecereis.»
O Regente acalçado n'este caso da necessidade e
razão de que se não sabia escusar, disse:
«que se fallasse aos Infantes seus irmãos, e o que
elles accordassem por melhor, elle o seguiria.» Aos quaes por
os procuradores foi logo fallado, e assi aos condes e ás
outras pessoas d'estima que eram na côrte. E
por todos finalmente foi accordado: «que pospostas todalas
cousas e assento passado, El-Rei ficasse em poder
do Regente». O que em pessoa
lhe foi logo assi notificado. O qual disse:
«Certo não por resistir a vosso conselho e
determinação, a que folgarei sempre de obedecer.
Mas a mim parece que n'este caso o melhor será que a Senhora
Rainha e eu andemos pelo reino juntamente, de que se seguirá
que sua Senhoria criará El-Rei meu
Senhor seu filho, e eu vê-lo-hei e servirei nas cousas que
apontaes, quando fôr necessario. E prazendo a Deus, eu o
farei por maneira, e com tanto prazer e contentamento d'ella, que sua
Senhoria terá razão de conhecer de mim a verdade
de que sempre duvidou, e perderá com isso alguns queixumes e
escandalos que sem causa lhe fizeram ter contra mim.»
E louvando todos aquelle parecer, se foram com elle á
Rainha, que ainda era em Santo Antonio, á qual pelo Infante
D. Pedro e por os outros Infantes foram mui verdadeiramente ditas
todalas cousas e razões que no caso havia para o haver de
seguir. Mas ella finalmente não quiz, salvo que lhe ficasse
a
governança da fazenda juntamente com a
criação de seus filhos, referindo-se ao accordo
das primeiras côrtes. E que se das rendas para
serviço d'El-Rei se houvesse alguma cousa despender, que
fosse por sua autoridade e mandado. E como quer que pelos Infantes lhe
fossem apontados muitos pejos e inconvenientes para assi não
poder ser, e lhe pedissem que quizesse haver por bem o que
accordáram, a ella não
prouve. E os Infantes vendo sua determinação, se
despediram d'ella para ainda consultarem se se acharia algum bom meio
com que ella ficasse contente.
CAPITULO LI
Como a Rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida
dos Infantes a ella e como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu
irmão
Partidos os Infantes,
a Rainha a esses principaes que com ella eram
notificou logo os apontamentos de sua vinda. E assi a
conclusão com que ficara, e quiz d'elles saber o que lhes
parecia, dizendo:
«Não pode ser mór angustia da que meu
coração tem n'este caso. Cá de uma
parte o sentimento e nojo que tenho do Infante D. Pedro me faz desejar
não haver cousa no mundo para o poder vêr, e
d'outra segundo o que sinto, isto é já quasi
privarem-me
de meus filhos. Cuja natural piedade e grande amor que lhes tenho, me
constrange não os leixar. Especialmente me obriga muito
parecer-me que segurarei com a graça de Deus suas pessoas,
de que teria mór
esperança, e com menos receios, que de andarem sem mim em
poder do Infante D. Pedro. O qual segundo já descobre sua
grande cubica para reinar, quem duvidaria que para o fazer mais
livremente, não lhes encurtara mais cedo as vidas. E n'elle
ha muitas
dessimulações e hipocresias com que tudo
saberá mui bem encobrir. Assi que n'estes dois tamanhos
extremos não sei qual meio tome, ou ter meus filhos e andar
com elles por sua segurança, e ir com o Infante á
melhor parte sem outro encarrego, ou leixa-los de todo á
disposição de Deus que os
guarde, e da fortuna boa ou má que lhes pode vir. O primeiro
d'estes bem sinto que é um bom desejo da alma, a que por
ventura consirando tudo sem
paixão eu devia ser mais conforme. O segundo é
apetito do corpo e da honra, em que sinto tamanhas forças,
que me inclinam a elle de todo, e n'esta tamanha diferença e
torvação a que meu juizo não abasta,
quero saber de vós o que vos parece.».
Os quaes responderam, dizendo:
«Senhora, esta derradeira é a melhor
determinação que podeis ter, e o vosso
coração para
quão real é, não deve soffrer andar
sobjeita em poder de
um homem vosso imigo, e que segundo o desamor que vos tem, vos
fará cada dia mil nojos e abatimentos, e a nós
outros que vos servimos, como desesperados d'elle em todo bem e
mercê, será razão que
nós vamos ás judarias ou fóra do
reino, pois havemos ser d'elle pior tratados que judeus. O que
não deveis haver por pequena dôr e vituperio
vosso, e com isto bem sabeis que ha n'elle praticas e cautellas, para
com todo mostrar ao povo que o faz muito pelo contrairo; porque elle
não ha mais mester que favor de villãos que
o tem por idolo. Pelo qual nosso conselho é, o com que
despedistes os Infantes, não aceitardes a
criação de vossos filhos sem governardes toda a
fazenda, e que pois haveis de ser agravada, que o sejaes de todo,
principalmente pois sabeis que a emmenda d'isto se apressa, e
não pode já tardar muito. E pelo que
ora vossos irmãos vos escrevem de Castella, e assi de
Portugal o Priol do Crato e o Marechal, e os outros fidalgos que
defendem vossa querella, o podeis mais claramente vêr e
afirmar, e para segurança de
vossos filhos, sob reverença de vosso juizo, é
muito
pelo contrairo. Cá para o Infante D. Pedro cumprir seu
máo proposito, se o tem de acabar vossos filhos, sabei que
vossa presença é mais azo, e a melhor
encuberta que para isso pode ter. E por ventura o fará
mais levemente, e com menos
temor em vosso poder que no seu. E nas enculcas e espias que
já agora traz comvosco, de que sabe aqui
não sómente
o que fallaes, mas o que cuidaes, podereis conjecturar se para tal caso
achará ministros. Assi que leixai-lhe todo o Regimento, e os
filhos juntamente até que Deus queira».
N'este conselho contrariou com razões mui vivas Pero
Lourenço d'Almeida, Almotacé Mór
do reino, que era presente, desfazendo á Rainha e aos outros
conselheiros com fundamentos mui claros as esperanças que
tinham de seus irmãos em Castella, e assim dos fidalgos de
Portugal. Pedindo-lhe que quizesse acceitar o meio que os Infantes lhe
tinham apontado, que segundo a disposição do
tempo houve por bom. Mas como a vontade da Rainha, e assi a dos outros
estavam para o contrairo determinadas, não aprovaram o
conselho de Pero Lourenço, reputando-lhe não a
siso mas a fraqueza por se não sahir de sua casa e boa
fazenda que tinha em Lisboa. Pelo qual a Rainha determinou partir-se e
leixar seus filhos, e levar sómente as filhas comsigo.
Isto se passou em Santo Antonio a um sabbado, e logo ao domingo a
Rainha mandou chamar secretamente alguns seus de Lisboa, que vieram hi
dormir. E passada a meia noite ouviu missa, e fez alevantar os filhos
da cama, e tomou El-Rei nos braços, e com muitas lagrimas
lhe disse:
«Filho e Senhor, praza a Deus por sua piedade que vos guarde
e vos dê vida, e a mim não leixe viva e
desamparada de vós, como o sou d'El-Rei meu Senhor vosso
padre.»
E com isto se despediu com tamanho pranto seu e de todos, como se os
leixaram soterrados para os nunca mais vêr.
El-Rei salteou-se com tamanha novidade, e posto que para isso
não teve edade de que se esperasse tamanho accordo,
não lhe falleceu natural prudencia e
discrição com que n'aquella hora, com grande
repouso e segurança, e por palavras doces e avisadas, soube
confortar a Rainha sua madre, que se partiu para Cintra, de que o aviso
foi logo a Lisboa, e o Infante D. Anrique como o soube se partiu a gram
pressa pela alcançar no caminho, e já
não pôde senão no logar d'onde a
não pôde mover de seu proposito,
e o Infante D. Pedro e o Infante D. João foram logo a Santo
Antonio e trouxeram El-Rei e o Principe seu irmão a Lisboa,
onde a cada um deram casa com seus officiaes apartados, porque
até alli se serviam ambos juntamente, e n'estes movimentos
foi tanta a prudencia e resguardo d'El-Rei, que sendo de tão
pequena edade, e tendo tanto amor e affeição
á
Rainha sua madre, como era razão, nunca por se vêr
d'ella
apartado foi ninguem que n'elle contra o Infante podesse conhecer algum
signal de má vontade. Nem que reprendesse ou louvasse os
feitos de um nem do outro, nem com seu escandalo.
CAPITULO LII
Como Lisboa commetteu de querer fazer uma estatua ao Infante
D. Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe
respondeu
Os procuradores do reino com isto acabado se foram, e os
cidadãos de Lisboa por memoria da mercê
e liberdade que lhes o Infante em nome d'El-Rei fizera, quando lhes
tirou as aposentadorias,
como já disse, lhe quizeram com seu consentimento ordenar
uma estatua de pedra sobre a porta dos Estáos, que o Infante
novamente mandou fazer, e perguntando-lhe em que fórma a
haveria por melhor que estivesse, o Infante com o rostro carregado de
tristeza e pensamento, o desviou e defendeu, dizendo-lhes, como por
verdadeira prophecia de sua fim:
«Se a minha imagem alli estivesse esculpida, ainda
virão dias que em galardão d'essa mercê
que vos fiz e d'outras muitas que com a graça de Deus espero
de vos fazer, vossos filhos a derribariam, e com as pedras lhe
quebrariam os olhos. E por tanto Deus por isso me dê bom
galardão, cá de
vós em fim não espero outro se não
este que digo, e por ventura outro pior.»
Das quaes palavras foram então os cidadãos
tão maravilhados, como foram depois certificados que dizia
verdade, quando assi o viram cumprir. E seguiu-se mais depois, para se
presumir que o Infante alguma revelação tinha de
sua morte, que em Coimbra indo
elle quando regia, e o Infante D. Anrique para a porta de S. Bento, que
sae á ponte onde estão as
armas da cidade, que são uma mulher posta sobre um calez,
com uma corôa na cabeça, e a uma teta um
leão, e a outra uma serpe, o Infante D. Anrique olhando-as,
disse pelo contentar:
«Bem se póde Senhor Irmão comparar a
vós esta figura, pois tambem de uma parte daes mantimento ao
leão, que é Castella, e da outra a Portugal,
que é a serpe do nosso timbre.»
«Verdade é, disse o Infante D. Pedro; mas
vêde-a melhor, e consirae que está sobre calez,
que significa sangue, em que mais claro parece, que de meus trabalhos,
serviços e beneficios, esse ha de ser meu
galardão.»
E certo, com quanto este Principe era mui catholico, devoto e justo, e
em que havia muitas outras virtudes, assi se seguiu como ao diante se
dirá.
CAPITULO LIII