Como
a Rainha sobre suas cousas se querellou aos
Infantes d'Aragão seus irmãos, e da embaixada que
enviaram
A Rainha como dos effeitos da esperança que tinha, e lhe
davam para reger, começou de se vêr no reino
enganada, dobrou-se n'ella o desejo de seu proposito. E por um modo
já de victoria e vingança, assi no reino como
fóra d'elle, para
cobrar o Regimento dobrou suas forças e deligencias, para o
qual enviou notificar e se queixar aos Infantes d'Aragão e
á Rainha de Castella seus
irmãos, como por força lhe tiravam o Regimento, e
a titoria de seus filhos. E assi o aggravo e abatimento que n'isso
recebia, fazendo-os participantes na injuria do caso pelos mais obrigar
e acender para o que desejava, crendo ella que por serem já
retornados em Castella, logo teriam o poder onde tivessem a vontade, e
que com seu receio em Portugal se não faria a cousa em que
elles recebessem descontentamento.
Mas os Infantes seus irmãos sabendo a pouca firmeza e
segurança que tinham em Castella, e que lhe não
cumpria fazer por então novas
alterações contra si, tomaram a parte mais
branda, e enviaram aos Infantes d'estes reinos com sua embaixada um D.
Affonso Anrique, bisneto d'El-Rei D. Anrique, que da sua parte com
palavras honestas lhes rogou em sustancia «que
sobre a
determinação das primeiras
côrtes não fizessem com a Rainha sua
irmã alguma outra
enovação.» Ao qual os Infantes
responderam «que á Rainha
não era feita injuria nem desserviço, nem lhe
tiravam
senão cuidados e trabalhos, a que suas forças por
ser mulher não abastavam, e cargos de conciencia, o que ella
devia querer; porque o Regimento do reino a ella de razão e
direito não pertencia. E a quem
direitamente convinha e o saberia e poderia fazer o tinham
dado.»
Com esta resposta se houve D. Affonso por despachado, e se foi a Cintra
por vêr a Rainha. E posto que fosse homem de grande linhagem,
não havia
porém n'elle aquelle tento, discrição
e prudencia, que a pessoa de tal cargo pertencia. Porque em lugar de
poer a vontade da Rainha em bom assessego e temperar
suas
paixões, acendeu-lh'as muito mais
com esperanças vãs, que lhe deu de ser por
força, e com ajuda de seus irmãos restetuida e
vingada. Offerecendo-se para o caso com gentes de cavallo e de
pé, como principal capitão do reino, e para logo
a vir servir não tomou largo prazo. E com estes enganos em
que a Rainha levava gloria, tirou d'ella prata dinheiro, e tornou-se
para Castella onde deu resposta aos Infantes. Os quaes, porque suas
cousas não estavam em desejada segurança para
fazer movimentos, ao menos por não parecer que desamparavam
de todo os feitos da Rainha sua irmã, tornaram a enviar ao
Infante D. Pedro e aos Infantes seus irmãos um
Daião de Segovia, pedindo-lhe com palavras mansas e honestas
que guardasem á Rainha o acatamento e reverencia que ella
merecia, e lhe tivessem aquelle amor que deviam. De que os Infantes
foram mui contentes depois em todo ao cumprir, para o qual
encommendaram ao Daião que fosse fallar com ella para que
quizesse
repousar a
vontade, e não dar causa a
boliços, de que tanto mal se podia seguir; porque com isso
ella seria servida e acatada, como se El-Rei seu marido fosse vivo.
O Daião lhe foi fallar e a aconselhou, dizendo-lhe
«que por quanto os feitos de seus irmãos
não estavam em Castella n'aquelle assessego que convinha
para n'elles de certo remedio ter firme esperança, que em
tanto temperasse e dessimulasse cá a seus negocios o melhor
que podesse; porque concertados os dos Infantes em Castella, em
Portugal se faria dos seus o que ella desejava.»
CAPITULO LIV
De como se entendeu na
redempção do Infante D. Fernando, e do
que se seguiu
E porque não pareça que a
redempção e soltura do Infante D. Fernando,
depois da morte d'El-Rei seu irmão se esqueceu, é
de saber, que com todalas mudanças e divisões
passadas entre a
Rainha e o Infante D. Pedro, sempre d'elles foi muito lembrada e
negociada, cuja deliberação foi muitas vezes aos
mouros cometida por grande somma de dinheiro ou de captivos, e por
outras maneiras. Nas quaes elles não quizeram nunca
entender, e se mostravam que entendiam, logo se mudavam em outras
sentenças, afirmando-se finalmente que lhes dessem Ceuta
segundo fórma do contrato que o Infante D. Anrique e os
outros capitães do palanque de Tangere com elles fizeram.
Pelo qual a Rainha e o Infante D. Pedro ante de seus desvairos, por se
satisfazer ao Infante D.
Fernando e cumprir a vontade d'ElRei D. Duarte, que em seu
testamento o leixara muito encommendado, determinaram com os do
conselho, e houveram por bem, que pospostas
amoestações do Papa e
conselhos de muitos Principes christãos que o contrariavam,
que Ceuta todavia se desse por elle, e sobre isso passaram em nome
d'El-Rei as cartas e procurações
necessarias, assignadas por ambos, com as quaes foram por embaixadores
Martim de Tavora, reposteiro mór d'El-Rei, e o licenceado
Gomes
Eanes, desembargador na casa do civel.
E em chegando a Arzilla acertou-se que morreu
Çalabençala, que fôra senhor de Ceuta
ao tempo que se tomou, e a este tempo era alcaide de Tangere e Arzilla,
com o qual os ditos embaixadores haviam de tratar. Depois de sua morte
ficou seu irmão Muley Buquer portector do filho maior do
dito
Çalabençala, o qual seu filho tambem por
dependencia do mesmo caso do cerco de Tangere era captivo, e
fôra dado por arrefens em Portugal.
E querendo os embaixadores entender com elle no negocio, certificando-o
da abastança do poder d'El-Rei que para o caso levavam, elle
se escusou dizendo:
«Christãos, sabei que Ceuta é tamanha
cousa, que em quanto D. Fernando conde de Villa Real,
capitão d'ella fôr terceiro para a entregar, nunca
crerei que vós trazeis desejo d'alguma certo
conclusão,
cá por elle não perder tal senhorio com tanta
honra como agora em Ceuta tem, bem sei que mostrando que não
desobedece a vosso Rei e seus governadores, sempre buscará
corados achaques e cautellas para a nunca entregar».
E depois de os embaixadores lhe desfazerem com razões sua
opinião e haverem entre si sobre o
caso
muitas
altercações, finalmente se concordaram
«que Muley Buquer notificasse a vinda dos embaixadores a
Muley Buzaceri, Rei de Fez, em cujo poder o Infante estava, e que se
n'este feito desejava boa conclusão, que tornasse o Infante
a Arzilla, e como alli fosse, se o conde D. Fernando logo por elle
não entregasse Ceuta como era concordado, que
então se teriam outros meios com que sem escusa se
fizesse». D'esta conclusão foi o mouro contente;
sómente
disse «que emquanto elle n'isto entendia, elles se viessem a
este reino e com El-Rei procurassem que da sua tornada em Africa viesse
logo com elles outra pessoa, e com taes provisões a que
Ceuta logo se entregasse e tirasse do poder o conde».
Com este apontamento se tornaram os embaixadores, e por acharem a
Rainha e o Infante D. Pedro no meio dos móres desvairos
sobre o Regimento, sobre-esteve o negocio até sem contenda
se dar inteiramente ao Infante como já disse, o qual ouviu
logo os ditos embaixadores em conselho, onde foi determinado por
algumas causas em que se fundaram, mais de piedade do dito Infante que
de honra do reino, que Ceuta sem mais debate se desse por elle.
E por quanto a duvida de Muley Buquer, quando lhe pareceu que o conde
D. Fernando, por não perder tal governança
retardaria a entrega de Ceuta se houve por razoada, acordaram que a D.
Fernando de Castro, Governador da casa do Infante D. Anrique, e a D.
Alvaro seu filho, a ambos e a cada um fosse entregue a cidade, e n'ella
estivessem para a darem, e receberem por ella o dito Infante, e que a
este reino se viesse o conde D. Fernando, a quem se daria por a
capitania e governança d'ella sua dina
satisfação, e que Martim de Tavora e o licenceado
estivessem por negoceadores em Arzilla.
D. Fernando de Castro era homem de nobre sangue, prudente, e de grande
conselho, e tinha boa fazenda; e porque houve este encargo por de muita
honra para si e sua linhagem, ordenou sua ida para o mar e para a
terra, o mais perfeita e honradamente que pôde. Especialmente
o moveu a isso com maior cuidado e diligencia levar
esperança que o Infante D. Fernando havia de casar com uma
de suas filhas, de que estando em Fez lhe enviara sua
certidão, consirando que seu conselho e auctoridade lhe
podia por isso em sua deliberação muito
aproveitar, e D. Fernando para
o mais obrigar havendo sua soltura por certa, lhe levava feitos
á sua custa todolos corregimentos que para a
pessôa, cama e mesa de um tal Princepe eram pertencentes. E
assi levava navios sobresalentes para o Infante e o conde, e os
moradores de Ceuta n'elles se virem, além d'outros em que
para sua segurança
levava mil e duzentos homens, entre os quaes iam muitos fidalgos e
gentis homens da casa d'El-Rei e dos Infantes, e com tudo prestes,
partiu D. Fernando de Lisboa no mez d'Abril de mil e quatrocentos e
quarenta e um, com vento de boa viagem. E indo os navios de sua
companhia espalhados pelo mar: além do Cabo de
São Vicente, acertou-se que uma carraca de Genoa, que andava
d'armada, veiu demandar e afferrar o navio em que o dito D. Fernando
ia, o qual como quer que logo por razões d'amizade e depois
com armas e grande esforço quanto foi possivel se
defendesse, finalmente o navio com a mais força da carraca
foi entrado e roubado, e D. Fernando acabou n'elle sua vida de uma
bombarda, e os genoeses achando-se com tal rica presa, receiosos da
emmenda, porque a outra frota já vinha sobr'elles, meteram
suas vellas e tomaram o mar por sua salvação. E
quando os outros navios da conserva acudiram sobre o navio do
capitão e o
acharam morto, vendo que a vingança
de sua morte já não estava em seu poder,
tornaram-se
a Tavila, onde em São Francisco enterraram seu corpo, com
assaz honra e lagrimas.
D. Alvaro seu filho a que a capitania e negocio do Infante ficava
encommendada, sem alguma mais detença se foi d'hi a Ceuta,
d'onde escreveu ao Regente o triste caso passado, pedindo-lhe
ordenança e
provisão para o futuro. E posto que então fosse
mancebo, por haver n'elle muita discrição,
foi-lhe
respondido com abastante commissão para o acabar como D.
Fernando seu pae: mas Lazaraque-Martin governador d'El-Rei de Fez,
não sómente não deu
logar que o Infante fosse tirado de Fez para Arzilla, ou para algum
outro poder, como por Muley Buquer lhe fôra já
requerido, mas ainda quando depois soube que a vontade d'El-Rei e do
Regente era que todavia Ceuta se desse, e que o conde D. Fernando se
fosse, para que D. Alvaro de Castro com poderes abastantes era vindo,
disse «que era contente se lh'a entregassem primeiro, e que
para segurança dos christãos, elle por Mafamede e
por sua Lei faria juramento, em que como d'ella fosse apoderado, logo
entregaria o Infante D. Fernando, e que esta era segurança
assi abastante e segura para os christãos, que com ella
não
deviam ter d'elle receio nem sospeita alguma»!
Mas porque sua fiança por suas maldades, pouca verdade e
tirania, se houve por duvidosa, não foi
razão acceitar-se seu meio. E como quer que outros muitos
seguros meios e mui razoados lhe fossem apontados, nunca em algum
d'elles quiz condescender. E o que de sua contrariedade e contumacia se
pôde n'este caso verdadeiramente entender, foi que claramente
lhe pesava entregar-se Ceuta aos mouros, e nos modos que sempre teve
para se não acabar pareceu mui claro
que a causa d'isto era, porque com a
necessidade da guerra de Ceuta ocupava assi os sentidos do povo infiel,
que lhe não dava lugar acabarem de poder entender e remediar
os grandes males de sua tirania. Da qual cousa sendo o Regente
certificado, havendo a negociação por escusada,
mandou a D. Alvaro e aos embaixadores que se viessem ao reino, como
vieram, com fundamento de se consultar algum outro remedio para a
deliberação do Infante. A qual
como quer que o Infante D. Pedro, segundo suas mostranças e
continuas diligencias, pareceu que sobre todalas cousas desejava, nunca
porém sobre ella se apontou e requereu meio por evidente que
fosse, que podesse vir a effeito.
CAPITULO LV
Como
a Rainha D. Lianor se partiu de Cintra para Almeirim
contra vontade d'El-Rei e dos Infantes, e como se El-Rei foi a
Santarem, e do
que se
seguiu
A Rainha D. Lianor era em Cintra, e por
lhe parecer que o Infante D. Pedro tinha alli taes guardas e avisos em
sua casa, que para seus negocios era quasi privada de sua liberdade,
sendo para isto induzida dos que seguiam sua vontade, e principalmente
do Priol do Crato D. Frei Nuno de Goes; determinou para com mais
licença e mór
segurança enviar e receber recados, assi de Portugal como de
Castella, de se ir como foi para
Almeirim,
junto com Santarem. Do que aos Infantes muito
desaprouve; porque sentiam que taes mudanças não
eram por serviço d'El-Rei nem bem e assessego do reino, e
para haver alguma mais causa e razão de as temperar,
accordaram que El-Rei
se fosse como foi logo a Santarem; porque estando tão acerca
da côrte
haveria menos disposição e mais receio de
tratarem com ella e a moverem a mais alvoroços.
E d'alli enviou logo o Infante D. Pedro á Rainha o doutor
Vasco Fernandes, pedindo-lhe por mercê que assessegasse o
corpo e o coração no reino, em
que seria servida e acatada como era razão, e não
ouvisse máos conselheiros que a moviam para cousas que eram
muito dano de sua alma, e grande quebra de seu estado, e assi o Infante
em nome d'El-Rei mandou publicamente deffender a alguns fidalgos e
outras pessoas que se logo juntaram com a Rainha, que sob graves penas
a não conselhassem nem induzissem para o contrairo do que
cumpria ao bem, paz e assessego de seus reinos, de que os mais por
serem confiados em suas esperanças vãs, faziam
pouca
estima.
O Infante D. Pedro com quanto sabia que no reino havia pessoas
principaes a elle contrairas, e que sostinham e favoreciam a parte da
Rainha; porém todo seu receio causavam os Infantes
irmãos da Rainha, que a este tempo eram retornados em
Castella, e a governavam juntamente com a pessoa d'El-Rei,
especialmente porque depois de a Rainha ser em Almeirim, foram suas
cartas tomadas em Punhete e trazidas ao Infante, em que pareceu que
apertava muito com seus irmãos que fizessem a estes reinos
mostrança de guerra, e não geralmente a todos;
mas sómente ao Infante, e a aquelles que contradiziam seu
Regimento; porque com o temor d'isso, o povo por ventura revogaria o
Regimento ao Infante, e o dariam a ella; mas o Infante crendo que assi
fosse, e para lhes em alguma maneira melhor resistir e impedir seu
poder, trabalhou de se liar com o Condestabre D. Alvaro de Luna, e com
o Mestre d'Alcantara D. Goterre,
que eram ambos liados contrairos
aos Infantes, e tinham o favor d'El-Rei e muito poder em Castella.
CAPITULO LVI
Liança do Infante D. Pedro com o
Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella, contra os Infantes
d'Aragão, e das ajudas que lhe deu
E para melhor entendimento d'este passo é de saber, que no
tempo que El-Rei D. João o segundo reinava em Castella, era
Condestabre este D. Alvaro de Luna, homem abastado de saber e malicia,
com pouco temor de Deus. O qual se soube assi haver, que em todalas
cousas ora redundassem em seu acrecentamento, ora em
destruição e dano d'outros, El-Rei
satisfazia sempre a sua
vontade. E porque os Infantes filhos d'El-Rei D. Fernando
d'Aragão, que então prosperavam em Castella por
sua autoridade e valor, contrariavam as execuções
de seu desordenado e máo desejo, por elle ter mais soltura
para obrar o que queria, assi trabalhou com El-Rei que os desamou
grandemente e lançou fóra do
reino. E porque o Condestabre depois fez fazer individamente algumas
cruezas e desterros contra muitos grandes do reino, e parecia que
El-Rei vivia em sua sobjeição, era de todos mui
desamado, pelo qual alguns grandes ordenaram e trataram que os Infantes
retornassem outra vez como tornaram em Castella, e que o estado e
pessoa d'El-Rei se governasse por elles, e o Condestabre fosse como foi
fóra da
côrte. Outrosi porque o Mestre d'Alcantara D. Goterre por
engano tomara a villa d'Alcantara, e por força o Mestrado a
D. João Souto Maior seu tio, que era
Mestre e feitura dos Infantes, e prendeu
n'ella o Infante D. Pedro, irmão dos Infantes. Era
pôr isto
em grande odio a elles, que com suas forças procuravam em
todo sua destruição, os quaes Condestabre e
Mestre d'Alcantara, por ambos serem tocados de uma necessidade e temor,
ambos entre si e suas terras e gentes tomaram uma liança e
remedio para o resistir como o fazíam, e sentindo assi isto
o Infante D. Pedro, por enfraquentar o poder dos Infantes, enviou por
seus messegeiros secretos offerecer contra elles o favor e ajudas
d'estes reinos ao Condestabre e Mestre. O que elles mui alegremente
receberam; porque conheceram que o Infante não tanto por
aproveitar a elles, como por a mesma sua necessidade se movia a isso.
Pelo qual muitas vezes lhe requereram depois ajudas e
soccorros contra os Infantes, e elle por accordo e conselho dos
principaes d'estes reinos lh'o deu algumas vezes assaz poderosamente,
havendo primeiro consentimento e autoridade d'El-Rei de Castella, para
sem quebrantamento das pazes que tinham o poder direitamente fazer.
Porque com quanto El-Rei era em poder e governança dos
Infantes
d'Aragão, o Condestabre por suas astucias e maneiras, sempre
trazia em sua côrte e camara taes pessoas, que secretamente
requeriam a El-Rei todo o que compria por seu favor e amparo. Ao que
El-Rei pela grande affeição que lhe tinha,
folgava muito de
satisfazer, e enviou para isso ao Infante D. Pedro mui autenticas
aquellas provisões que sentiu ser necessarias, por cuja
virtude o Infante em favor do Mestre d'Alcantara, e contra a
tenção do
Infante D. Anrique Mestre de Santiago,
enviou a Castella por vezes e tempos, muita gente abastecer Magazella e
Bemquerença, fortalezas do Mestrado d'Alcantara, e assi
tomar a villa de Salanqua, que estava pelo Infante D. Anrique, e por
outra vez enviou outrosi
muita gente d'estes reinos a Andaluzia, em ajuda e soccorro do
Condestabre, e em desfavor e dano do mesmo Infante D. Anrique, e lhe
tomaram Carmona com seu grande destroço.
E outra vez a requerimento d'El-Rei D. João, quando cercou
os Infantes em Olmedo, lhe enviou o Infante D. Pedro em sua ajuda muita
e mui nobre gente d'estes reinos, e por capitão principal
seu filho primogenito o Senhor D. Pedro, que depois foi e morreu
intitulado Rei d'Aragão.
E segundo a universal opinião dos que n'este caso
sãmente entenderam, se creu que segundo os Infantes eram
amados em Castella, se não tomaram assi claramente o Infante
D. Pedro por contrairo, e não se pozeram em
mostranças de o guerrear e destruir, como mostraram, e o
Infante não impedira seu poder, que seu valor e prosperidade
d'elles não descahira em Castella como descahiu, nem a
Rainha D. Lianor sua irmã, enganada de suas promessas e
esperanças
impossiveis, não acabara sua vida em desterro com tanta
necessidade e tristeza, e tão individa a suas bondades e
estado, como ao diante se dirá.
CAPITULO LVII
Conselhos que o Infante D. Pedro teve sobre o
assessego e segurança d'esta cousas, e como a Rainha
fingidamente se concordou com elle
Mas o Infante D.
Pedro sentindo com estas mudanças o reino
diviso, teve sobr'isso conselho, no qual se accordou para atalhar
ás praticas que a Rainha e os outros fidalgos poderiam ter
com o conde de Barcellos, que da divisão era
cabeça
principal,
e para qualquer outra segurança, que o Infante D. Anrique se
fosse, como foi á cidade de Vizeu; porque com seu receio os
recados não passassem, e que para o dano que a estes reinos
poderia vir de Castella por meio dos Infantes, enviassem como enviaram
uma pessoa secreta a El-Rei, que o não consentisse, o que
muito aproveitou.
E o cargo da guarda e assessego da Rainha ficou ao Infante D. Pedro,
que pelas estreitezas que n'isso poz, os que eram com ella em Almeirim,
que com novo alvoroço a vieram servir, se acharam para suas
honras e fazendas de todo atalhados, e mui enganados nas
esperanças de supetos acrecentamentos, que cada um logo para
si maginava. Pelo qual com necessidade e razões assaz
evidentes pediam á Rainha que emquanto as cousas
não se despunham como para seu recurso cumpria, tratasse com
o Infante D. Pedro alguma amizade e fosse fingida, com que em tanto
ella e elles se remedeassem e provessem a suas vidas e fazendas, e a
podessem melhor ao diante servir.
A Rainha aprovou este conselho, e para o cumprir mandou por o ministro
da Ordem de S. Francisco, e por Ruy Galvão, secretario,
tratar amizade com o Infante, mostrando fingidamente que seu desejo era
já poer em assessego sua alma, e esquecer-se de todo o
passado.
O Infante d'este recado crendo ser verdadeiro, foi mui alegre, e o
acceitou com palavras de grande cortesia e contentamento, e deu por
isso muitas graças a Deus. E da concordia que entre si por
então tomaram passáram seus assignados, que o
Infante logo mandou divulgar pelo reino, que pelo haverem por bem e
geral assessego, faziam por isso geralmente a Deus muitos signaes de
devoção, e ao mundo de grande alegria,
e assi o notificou a Castella. E
confiando n'esta concordia, que havia por certa e não
fingida, mandou tirar as guardas dos portos para que livremente
podessem á Rainha ir e vir messegeiros e servidores d'onde
quizessem sem pena nem receio.
CAPITULO LVIII
Como o conde de Barcellos desdisse muito á
Rainha esta concordia com o Infante, em caso que não fosse
verdadeira
Foi o conde de
Barcellos d'esta concordia por via geral certificado,
mas não se alvoroçou nada; porque da secreta
dessimulação com que se fizera,
foi logo pela Rainha avisado: porém elle temendo-se da
prudencia e saber do Infante D. Pedro, e não segurando
n'isso da constancia da Rainha, accordou com os fidalgos da sua parte
de lhe notificarem o erro e desfavor que para seus feitos em tal
concordia fizera, em caso que fosse fingida, de que se seguira os que
desejavam seu serviço, vendo-a em poder do Regente,
não
ousarem de a servir, e que para isso, porque mais em breve se
executasse o que desejava, ella mui secretamente se devia vir ao Crato,
onde tinha mui certo o Priol com suas fortalezas a seu
serviço. E que d'alli poderia seguramente passar o Tejo e
entrar na Beira, onde o Marechal por ser comarcão, com
outros fidalgos e gentes se iriam para ella, e que o conde com todolos
outros fidalgos outrosi lhe acudiriam e a recolheriam em suas terras,
que logo começaria de reger, e que da
execução e obra d'esta empresa os
Infantes seus irmãos, e assi todolos outros seus servidores
tomariam mais esforço e desejo de a proseguir.
Este recado foi assi secretamente trazido á Rainha, que o
Regente não houve d'elle algum sentimento, e ella com os de
seu conselho a quem o mostrou e louvou, e houve por bom, o fez logo
saber ao Priol do Crato. O qual como era homem de muitos dias e grande
experiencia e siso, houve o feito por sem fundamento e muito duvidoso.
E assi lhe respondeu em muitas e boas palavras, e em fim que se de todo
em todo sua vontade quizesse forçar as armadas de
tão vivas razões, como lhe mandou para o ella
não
cometer, que elle estava prestes de a receber onde ella quizesse, e
para isso lhe offerecia a perdição de
sua vida, honra, e fazenda, que elle não podia escusar.
CAPITULO LIX
Como o Priol do Crato consentiu em receber a Rainha em suas
fortalezas
Esta resposta do
Priol a que a Rainha com razão dava grande
credito, suspendeu e amansou muito seu alvoroço; e
porém de todo avisou logo ao conde de Barcellos, o qual por
meio d'Aires Gonçalves seu secretario, acabou com o Priol
que pospostos seus pejos todavia recebesse a Rainha. Desfazendo-lhe os
inconvenientes que apontara, com promessas e esperanças, e
seguranças falsas com que lhe cegaram o verdadeiro juizo,
para o que ajudaram muito dois filhos do Priol, homens mancebos, que
sostinham a parte e tenção do conde, que lhes
mostrava abrirem-se caminhos de suas honras, e grandes acrecentamentos.
O Priol do Crato assi como determinou de receber a Rainha em suas
terras, assi ordenou
logo d'abastecer, o mais encobertamente que pôde suas
fortalezas, e a Rainha mandou a todoslos seus, e assi a outros d'El-Rei
em que tinha confiança, que se percebessem de cavallos e
d'outras cousas necessarias para caminho, e a verdade d'este fundamento
era para esta sua partida; como quer que ella fingidamente dava a
entender que os percebia para a acompanharem até o mosteiro
da Batalha, onde queria fazer o saimento a El-Rei seu marido, para que
dessimuladamente mandou lá fazer algum percebimento.
D'estas mudanças foi o Regente algum tanto sabedor; mas
confiando na concordia que entre elles era feita, e por não
mostrar que com achaques a rompia, não quiz sobre uma cousa
nem outra fazer novas
alterações; e porém elle
não era em certo sabedor que a Rainha se queria partir para
o Crato.
CAPITULO LX
Como o conde de Barcellos fez liança com os
Infantes d'Aragão, e como foi por isso muito
prasmado
E o conde de Barcellos sentindo como as cousas se chegavam a
rompimento, sendo duvidoso da fim que haveria, acordou de se liar como
liou com El-Rei de Navarra e Infante D. Anrique, irmãos da
Rainha, concordando entre si suas capitulações
de serem amigos d'amigos, e imigos de imigos, e com ajuda certa de
gentes d'armas, que cada uns dariam aos outros, quando a suas
necessidades e afrontas cumprisse.
D'estas lianças foi logo o reino todo sabedor e mui
espantado, especialmente
mostraram d'isso grande sentimento o Infante D. João seu
genro, e o Infante D. Anrique ambos seus irmãos. E o Infante
D. João
lh'o enviou muito estranhar por Vasco Gil seu confessor, que depois foi
Bispo d'Evora, e o Infante D. Anrique por Fernão Lopez
d'Azevedo, Commendador Mór de Christo. Aos quaes o conde
respondeu, que não desistiria do que tinha feito, e que
sabia bem o que lhe cumpria. E assi o disse ao conde d'Arrayollos seu
filho, que a elle sobr'isso foi em pessoa. Mas o conde d'Ourem tambem
seu filho, que a este tempo era mui á banda do Infante D.
Pedro, não quiz
n'este caso entender, não leixando de o haver por feio, e
mostrando que se os feitos viessem a rompimento, que elle seria por
serviço do Regente contra seu padre; mas o que das maneiras
d'ambos, pae e filho poderam os prudentes conjeiturar e entender,
sempre pareceu que no
começo
dos movimentos, entre elles se concordara o pae
ficar á parte da Rainha, e o filho á do Infante
D. Pedro; porque a qualquer d'estas
parcealidades a que a fortuna boa se inclinasse, cada um ter n'ella um
principal que remedeasse o outro, e que em tanto cada um tirasse da
banda que servisse todo o que para sua honra e proveito podesse; porque
em fim, toda havia de ficar em uma só herança.
Nem
se creu que o conde de Barcellos inventara estas lianças e
pendores, salvo por meter o reino em necessidade de sua pessoa e casa,
e lh'a haverem de compoer com villas e terras como fizeram; porque da
Rainha não havia tão urgentes razões
que o a isso
obrigassem, e dos Infantes d'Aragão muito menos. A Rainha
ante que de sua pessoa fizesse alguma mudança, mandou a
Castella secretamente, por Mossem Gabriel de Lourenço, seu
capellão mór, todalas joias d'ouro, prata e
pedraria que tinha, que eram assaz muitas e boas;
porque álem das que trouxe
d'Aragão, houve com o movel d'El-Rei seu marido todas as que
ficaram por seu fallecimento, e foram postas no
Castello
d'Albuquerque, que era Villa do Infante D. Anrique de Castella. D'onde
lhe vieram muitas a Almeirim, que ella secretamente mandou pedir para
sua partida.
CAPITULO LXI
Como o Infante D. Anrique se viu com o conde de Barcellos seu
irmão para o concordar com o Infante D. Pedro
O Infante D. Anrique de Portugal para atalhar os azos de mais
desaccordos e uniões, se foi a Vizeu como disse; e porque
sentiu que no assessego do conde de Barcellos, segurava o assessego do
reino e da Rainha, viu-se com elle e com os de sua valia no mosteiro de
S. João de Tarouca, junto com Lamego, onde sobre muitas
praticas e altercações
que todos entre si houveram, nunca o Infante pôde acabar que
o conde se decesse de sua opinião, nem pôde nunca
por elle saber algum evidente fundamento d'agravo, ou contentamento
descuberto que para isso tivesse; porque todalas que dava eram
razões tão fracas, que por si mesmas se
desfaziam, e em fim o Infante se despediu d'elle com algum
temporizamento, até se vêr com os Infantes seus
irmãos.
Mas por mais enfraquentar seu partido, tirou logo de sua
liança o marechal, e Martin Vaz da Cunha, e João
de Gouvêa,
que eram fidalgos da Beira, e os levou comsigo.
CAPITULO LXII
De
como veiu a El-Rei embaixada de Castella, e como foi
recebida
Ao mez d'Outubro d'este anno de mil e quatro centos e quarenta, estando
ainda El-Rei em Santarem e a Rainha em Almeirim, lhe veiu d'El-Rei de
Castella uma grande embaixada, em que vieram por pessoas principaes D.
Affonso, filho bastardo d'El-Rei de Navarra, que depois morreu duque de
Villa Formosa, e um Bispo de Coria, pessoa de muita autoridade, e
outros letrados, e por esta embaixada ser a primeira que veiu a El-Rei,
foi da côrte muito bem recebida, e d'El-Rei e dos Infantes
com muitas grandezas cerimoniada, e a sustancia do que a El-Rei e ao
Regente, e assi aos Infantes e conselho propozeram, se fundou em duas
cousas. Uma em se queixarem de danos e tomadias que os portuguezes
fizeram por mar e por terra aos naturaes de Castella, e a outra mais
principal acerca das cousas da Rainha e
restituição do Regimento em que sobre todo mais
insistiram, e tambem pediam a El-Rei em nome da Rainha D. Lianor, com
que já tinha fallado, que a leixasse ir para Castella,
mostrando que não queria estar no reino para que tantos
males se aparelhavam; porque ao tempo que esta embaixada sahiu da
côrte de Castella, os Infantes d'Aragão ainda
regiam e governavam a pessoa d'El-Rei; e por isso se fez lá,
e propoz cá com as gravezas,
protestações e cautellas, que elles em nome
d'El-Rei ordenaram. Affigurando que por ventura o povo de Portugal, com
receio de futuras guerras que elles tocavam, desistiria da parte
do Infante
ácêrca do Regimento, e seguiria a da
Rainha.
E para os embaixadores fazerem mais geral esta impressão,
pediram ao Regente logar e licença
para esta mesma embaixada irem dar pelas cidades e villas, e assi aos
principaes do reino; mas o Regente por ser cousa nova e
então desacostumada o não
outorgou nem
consentiu, e se
escusou com a
semrazão d'elles, e com outras razões assaz
justas e honestas; e emfim o Regente para lhe responder, tomou alguns
dias d'espaço, dentro dos quaes a todalas pessoas principaes
do reino que não eram presentes, enviou pedir conselho por
escripto, com o trellado da embaixada. E esta ordenança
guardou sempre o Infante emquanto regeu, de nunca em cousas sustanciaes
tomar conclusão sem conselho escripto dos presentes e
ausentes, e depois que houve a resposta de todos, e se conformou com o
que melhor pareceu, respondeu aos embaixadores:
«Quanto ás tomadias, que para
justificação d'ellas se pozessem juizes de uma
parte e da outra nos estremos danificados. E quanto ás
cousas que tocavam á Rainha, que El-Rei enviaria seus
embaixadores a El-Rei de Castella com tal resposta com que devesse ser
satisfeito.»
E sobr'isso foi enviado Lopo Affonso Secretario, com fundamento de
dilatar e temporisar o negocio; porque o Regente soube secretamente por
o Bispo de Coria, embaixador, que esta embaixada em que elle vinha era
de cumprimento para a Rainha e para os Infantes d'Aragão,
mas não da vontade d'El-Rei de
Castella, a quem parecia bem a maneira que no Regimento do reino se
tivera, e assi não leixarem á
disposição da Rainha a
criação d'El-Rei, pois era mulher; porque elle
mesmo Rei sentia em si quanto mal
recebera por em semelhante caso ser
criado em poder da Rainha D. Caterina sua madre, e que o contrairo
não se esperava de taes Principes como eram os filhos
d'El-Rei D. João.
E á Rainha enviou o Regente em nome d'El-Rei pedir com
palavras de muito acatamento, e com razões que faziam assaz
por sua honra, honestidade e proveito, que houvesse por bem
não consentir que de seus reinos se fosse para os estranhos.
Mas isto não lhe assessegou a vontade que tinha para se ir;
porque assi pela determinação passada da partida,
como pelo novo alvoroço que d'alguns dos embaixadores para
isso recebeu, determinou muito mais em si de o fazer.
Os embaixadores não se houveram d'esta resposta do Regente
por satisfeitos nem despedidos, antes disseram que traziam em mandado
de seu Rei que sem determinada resposta de todalas cousas, sem outro
seu especial mandado não se partissem, e a carta em que isto
se continha d'hi a dois dias a mandaram mostrar ao Regente, o qual como
prudente consirou que taes cartas e instrucções,
tão sem
razão e vindas tão brevemente se compilavam em
Almeirim, cá poderiam trazer de Castella signaes d'El-Rei em
branco e sêllos de fóra, sobre que poeriam o que
quizessem, como fizeram. E para d'isto ser certificado, avisou d'isso a
gram pressa o Condestabre D. Alvaro de Luna, o qual era fóra
da côrte; e porém por
seus meios secretos, que com El-Rei trazia, soube logo d'elle que nunca
tal mandára, de que logo certificou o Regente por carta da
propria mão d'El-Rei: pelo qual o Regente n'esta
confiança determinou com alguma mais graveza despedir como
despediu os embaixadores, e lhes mandou «que pois eram
respondidos, que se fossem embora dos reinos e côrte d'El-Rei
seu Senhor.» Mas
elles não se
despacharam assi brevemente, que ainda não estivessem em
Santarem, ao tempo que a Rainha se partiu para o Crato, como ao diante
se dirá.
CAPITULO LXIII
Como o Infante D. Anrique procurou de trazer o Priol do Crato
a serviço e prazer do Infante D. Pedro, e do que n'isso
passou
O Infante D. Anrique de Portugal, sentindo que um dos principaes
esforços que a Rainha tomava para seu movimento, era o Priol
do Crato, por atalhar a isso virtuosamente como em todo era seu
costume, por seu messegeiro o enviou muito reprender d'isso, e da
opinião que tomara contra o Infante D. Pedro, e lhe mandou
que logo em pessoa se viesse desculpar ao Regente, e d'hi em diante o
servisse lealmente como a elle mesmo.
O Priol foi d'este recado mui triste por duas causas a elle mui
contrairas, uma por viver com o Infante D. Anrique, a quem havia por
grande caso e perigo não obedecer inteiramente. E a outra
fallecer á
Rainha e ao conde de Barcellos, a quem se offerecera já com
suas fortalezas; e finalmente deliberou de não ir ao Infante
D. Pedro por si, escusando-se por velhice e doença, e de se
mandar desculpar fingidamente por seu filho Fernão de Goes,
e todavia de cumprir com a Rainha o que lhe tinha promettido.
Veiu Fernão de Goes a Santarem, e offereceu a embaixada
falsa de seu pae por sua crença ao Regente, mostrando
quere-lo desculpar do passado, offerecendo-se em todo o que estava por
vir ao que elle mandasse,
e pediu logo ao Regente licença para ir fallar
á Rainha; porque lhe queria dizer o em que ficava com elle,
e assi lhe pedir que d'hi em diante nas cousas que fossem contra
vontade e serviço do Infante, ella não se
quizesse servir do Priol seu pae, nem d'elles seus filhos, salvo nas
cousas em que os Infantes a servissem. Mas isto em seu
coração e
proposito era muito em contrairo; porque como foi ante a Rainha,
concertou com ella sem differença o dia e hora de sua
partida, que havia de ser logo em bespora de todolos Santos
á noite. E que elle e seu irmão
Pedro de Goes viriam por ella, com maior resguardo e com a mais gente
que podessem.
E com isto se partiu, e o notificou ao Priol, que com muita diligencia
e maior dissimulação fez
logo prestes a mais gente que pôde. Dando publicamente a
entender por não fazer na terra suspeita nem
alvoroço, que já eram concertados com o Regente,
e que para o mais obrigarem o queriam ir honradamente servir, de que
toda a terra mostrou ser mui alegre.
CAPITULO LXIV
De como se a Rainha aconselhou sobre a ida para o Crato, e
como emfim posposto o conselho se partiu
E com quanto a Rainha no cuidado d'estes cuidados temporaes,
tinha para este mundo assás que entender; porém
porque era Senhora muito devota e de mui religiosa vida, não
se partiam de sua alma para o outro outros espirituaes, que a
fizeram mandar ao mosteiro de Bemfica da Ordem de S. Domingos, por um
Frei João de Moura, seu confessor,
padre de
grandes dias e doutrina, e assi de mui santa vida, para com elle em
confissão consultar esta secreta mudança. E
depois d'ella lhe dizer com largas palavras sua
determinação, elle lh'a
contrariou com outras mais de tanta verdade e prudencia, que pareceu
dizer-lh'as como por espirito divino.
E certo assi foi, porque ella em seu desterro, desamparo e
desaventuras, que pelo não crêr depois padeceu,
sentiu bem que o padre a aconselhava mais que homem, e como de mandado
de Deus, e d'isso ella ao diante se acusava muitas vezes.
E como quer que Frei João não pôde em
sua presença afrouxar a tenção da
Rainha, porém
porque ella era de bom siso e mui são proposito, fizeram
depois suas palavras no coração d'ella tamanha
casa, que
assentava já em sua vontade não se partir,
pesando-lhe muito da palavra que dera aos filhos do Priol. Os quaes a
noite de bespora de todolos Santos que tinham posto, foram com suas
gentes acerca de Almeirim, e por não serem sentidos leixaram
toda a gente ao Paul da Atella, e elles ambos, cada um com seu
escudeiro e seu page, chegaram aos paços já de
noite, com cuja chegada e vista a Rainha recebeu muita e descuberta
tristeza, e lh'a confessou logo. Do que elles ficaram mui torvados,
porque a conheceram já mudada de todo, e sobre isso houveram
entre si muitos debates, em que a Rainha finalmente foi dos agravos
d'elles vencida, e quiz contra sua vontade satisfazer ao que tinha
prometido.
E d'este segredo era em sua casa sómente sabedor Diogo
Gonçalves Lobo, seu vedor, que com muita trigança
deu aviamento a todo o que cumpria para sua partida.
A Rainha depois de concertar com elles o feito como seria,
ás nove horas da noite se tornou com grande
assessego e
dessimulação a seu estrado, e hi
deu boas noites sem algum alvoroço, e ás dez
horas se
sahiu por uma porta secreta contra a coutada, e com ella a Infante D.
Joanna, de mama, e sua ama que a criava, e Diogo Gonçalves,
e João Vaz
Marreca, seu escrivão da puridade, e Maria Dias sua
covilheira, e Briatyz Corelho, donzela Aragoesa. E estas pessoas a
acompanharam até o Paul, onde ficara a gente, com que logo
seguiram seu caminho, e não muito depressa por lhes
não aturarem as bestas em que iam, e ao outro dia
ás dez horas chegaram sem decer á Ponte do Sor. E
hi comeram e repousaram um pouco. E em anoitecendo foram no Crato, onde
o Priol já a estava esperando, e a recebeu com grande
alegria, dando-lhe as chaves de todas as fortalezas, com
razões de grande humildade e muita obediencia. E ella o
agasalhou com palavras e mostranças de grande
aguardecimento, e bem conformes a sua necessidade.
CAPITULO LXV
Do que fizeram os da Rainha, depois que souberam de sua
partida
A gente da Rainha que ficou em Almeirim, como passou meia noite
sentiram grande rumor pelo lugar, e ainda com claras vozes dobradas sem
certo autor, que diziam.
«Fugir, fugir do Infante D. Pedro, que vos vem
prender».
De que cada um não guardando a certa ordem em suas
vestiduras, com grande pressa se soccorriam á Rainha como a
casa da vida. E como o pranto de suas
criadas e creados lhes davam certidão de sua partida e
ausencia, assi cada um desamparado de siso e d'accordo, se iam chorando
e mal dizendo a suas vidas por essas charnecas.
E como foi de dia, os que foram certos do caminho que a Rainha levava e
poderam, a seguiram. E entre os mais principaes foram D. Affonso,
senhor de Cascaes, já velho, e sua mulher D. Maria de
Vasconcellos, e D. Fernando seu filho. Como quer que D. Affonso
forçado da mulher e do filho se partiu; porque
abraçando-se com a terra, e com muitas lagrimas dizia:
«Leixai-me comer a esta terra que me criou, e a que
não fui nem sou tredor. Não me desterreis
este corpo sem culpa, nem lhe deis sepultura em terras
alheias».
Mas em fim o levaram.
CAPITULO LXVI