De
como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e
do que logo sobr'isso se fez
E o Regente pouco mais de meia noite foi avisado da partida da Rainha
sumariamente, por Gil Pirez de Resende, contador de Santarem, sem lhe
saber dizer o caminho que fizera, nem se levara consigo as Infantes, e
a poucas horas tornou o Infante a ser certificado do caminho da Rainha,
e como levava consigo a Infante D. Joana, e leixava doente a Infante D.
Lianor, que depois foi Imperatriz, e d'esta mudança mostrou
o Regente grande tristeza e sentimento, ainda que alguns diziam que era
fingida; e
porém
mandou logo a Martim Affonso de Miranda com notairos, a escrever e
segurar todo o que se achasse em Almeirim. E o que se conhecesse por da
Rainha, que era já sómente roupa de camas e
pannos, mandou entregar aos officiaes d'El-Rei, e as outras cousas dos
seus se entregaram por recadação a um Martim
d'Almeida, cavalleiro de Santarem. E foi logo a Almeirim pela Infante
D. Lianor, que entregou a D. Guiomar de Castro, que foi sua aia
até o tempo que d'estes reinos partiu para Allemanha.
E assi mandou logo o Regente em nome d'El-Rei caminho do Crato Diogo
Fernandes d'Almeida, que era védor da fazenda, pedindo
á Rainha, sua madre
com mui brandas razões e mui fortes seguranças
que se tornasse, e que elle e os Infantes iriam por ella, e se o
não quizesse fazer que ao menos entregasse a Infante D.
Joana. E que se isto tudo denegasse, que presentes notairos que consigo
levava lhe fizesse em nome d'El-Rei protestações
a não ser
obrigado elle, nem o reino dar-lhe dote nem arras, nem outra cousa
alguma.
Diogo Fernandes aceitou a embaixada; mas segundo o que d'elle se
suspeitou, elle a não cumpriu como devera; porque chegou
sómente a Alter do Chão, uma légua do
Crato, e d'alli se tornou para
Santarem, sem obrar nada do que lhe mandáram; dando por
razão que alli fôra por maneira
informado da tenção da Rainha para não
fazer
nada do que lhe ia requerer, que houvera por escusado ir mais adiante;
mas a geral opinião foi que por ser casado com uma filha do
Priol do Crato, elle era sabedor de todolos movimento passados, e que
folgou de não fazer por si cousa em que a Rainha recebesse
nojo nem desserviço contra seu sogro.
O Regente avisou logo d'este caso os Infantes seus
irmãos, e assi os grandes,
e cidades e villas
principaes do reino,
requerendo-os e
percebendo-os com seus corpos e armas, para serviço d'El-Rei
e
defensão do reino, crendo que a Rainha não faria
de si tal movimento sem muito esforço e atrevimento de
Portugal e de Castella.
E no provimento d'estas cartas e avisos, poz o Regente tanta
diligencia, que em dia de todolos Santos ante das missas foram todas
feitas e enviadas, e assi uma sua e de sua mão á
Rainha, que não
aproveitou, em que lhe pediu muito por mercê que se tornasse,
prometendo-lhe que com sua tornada elle faria quanto ella mandasse.
Os embaixadores de Castella eram ainda a este tempo em Santarem como
disse; de que o Regente por seu descargo e limpeza houve prazer; porque
sabia que a elles era mui claro quanto elle procurava por seu assessego
d'ella, e os mandou logo chamar, e em saindo para a missa lhes fez com
muita autoridade uma falla de sua desculpa acerca da partida da Rainha,
rogando-lhes que pois se fôra tão sem
conselho e tanto contra o que cumpria a seu estado, e sem
licença d'El-Rei seu filho, fizessem com ella que ante de
sair do reino se tornasse á côrte, com grandes
prometimentos de elle em seus feitos fazer tudo o em que ella recebesse
contentamento, prazer e serviço: e d'isto para seu resguardo
pediu estromentos.
N'este dia e nos outros logo seguintes, trouxeram ao Regente presos
muitos dos que d'Almeirim se iam para a Rainha, e os que achava serem
seus moradores, logo os mandava todos soltar com liberdade e
licença segura de a irem servir se quizessem, salvo um
João Paez Cantor, e Diogo de Pedrosa, que eram casados com
criadas da Rainha, aos quaes por haver n'elles alguma sospeita, que
estando o Regente nos
paços de Santarem tratavam de o matarem á
bésta, foi dado tormento d'açoutes nos
pés, e por
não confessarem culpa que os obrigasse a outra maior pena,
os mandou soltar.
O Regente por segurar as comarcas do reino em que tinha alguma
suspeita, encomendou a da Beira ao Infante D. Anrique, e a d'entre Tejo
e Odiana ao Infante D. João. E mandou á cidade do
Porto Ayres Gomez da Silva, para com a cidade fazer defensa e
resistencia a quaesquer rebates que n'aquella comarca sobreviessem. E
assim mandou que aos do Crato não fosse em todo o reino dado
mantimento, mais do que cumprisse á Rainha, e a vinte
pessoas que a servissem, de que se ella muito aggravou.
Do que a Rainha fez depois de ser no
Crato
A Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas,
que já d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se
escusava de sua mudança, e acusava por ella o Regente e suas
asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras
d'ameaças de guerras e males do reino, que lhe tornassem o
Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que
parecia não reger como devia. E porque o reino todo,
especialmente o povo, eram inclinados á parte do Infante,
foram os que receberam suas cartas tão indinados contra a
Rainha, e tratavam tão mal os primeiros messegeiros d'ellas,
que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor es
A Rainha como foi no Crato, logo d'hi enviou por todo o reino cartas,
que já d'Almeirim levava feitas, em que sustancialmente se
escusava de sua mudança, e acusava por ella o Regente e suas
asperezas, encomendando e requerendo a todos com sombras
d'ameaças de guerras e males do reino, que lhe tornassem o
Regimento e o tirassem ao Infante, contra quem apontava cousas em que
parecia não reger como devia. E porque o reino todo,
especialmente o povo, eram inclinados á parte do Infante,
foram os que receberam suas cartas tão indinados contra a
Rainha, e tratavam tão mal os primeiros messegeiros d'ellas,
que os segundos temendo taes escarmentos, haviam por melhor escondel-as
e não apresental-as.
E o Infante D. Pedro d'estas cartas da Rainha que viu, houve muito
nojo, e mostrou grande sentimento; porque infamavam em alguns passos
sua conciencia e autoridade, e por modo de desculpa e limpeza sua,
escreveu a Lisboa como a cabeça do reino, as
forças de suas culpas que se n'ellas continham. Escusando-se
de cada uma particularmente, com a verdade de sua innocencia.
CAPITULO LXVIII
Como falleciam os mantimentos á Rainha e ao
Priol do Crato
E o Priol do Crato não se proveu de tantos mantimentos como
lhe eram para tal caso necessarios, enganado nas esperanças
do conde de Barcellos, e dos outros fidalgos da Beira, que prometeram
tanto que a Rainha fosse em suas terras, que elles em pessoa com gentes
e provimentos em abastança, seriam logo com ella, ao que
nenhum d'elles quiz nem pôde satisfazer, como quer que para
isso fossem da Rainha e do Priol mui afincadamente requeridos, e por
este caso os mantimentos recolhidos lhes começaram de
fallecer, especialmente carnes e pescados, e para os haver, pela
estreita guarda e defesa que para isso havia não tinha
já esperança nem remedio.
Pelo qual conveiu á Rainha com palavras assaz piedozas pedir
ao Infante D. João, que estava em Extremoz, que alevantasse
a defesa e lhe leixasse ir mantimentos dos logares de redor. Mas o
Infante escusando-se de o fazer lhe respondeu acusando com muita
graveza e temperança seu movimento. Em especial de poer sua
honra, seu estado, e sua honestidade em poder do Priol e de
seus filhos, que não tinham
no reino fama de muito honestos, pedindo-lhe em fim que para escusar
semelhantes necessidades e outras maiores, se quizesse tornar, do que
ella não curou.
CAPITULO LXIX
De uma embaixada d'El-Rei d'Aragão e de
Napoles que veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da Rainha
Estando a Rainha no
Crato, chegou a Santarem ao Infante D. Pedro com
embaixada d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles,
sobre cousas da Rainha sua irmã, um Bispo de Segorve, pessoa
em que havia muita doutrina e grande auctoridade. E apontou alguns
meios de concordia entre ambos, o que o Regente por conselho que sobre
isso teve, respondeu:
«Que para se tomar n'elles conclusão boa e
honesta, como esperava em Deus que tomaria, era necessario a Rainha ser
presente, ou ao menos em algum logar de suas terras, com tal repouso e
assessego que não parecesse fugida. E para isso que elle
antes de tudo se fosse á Rainha, e como com ella em cada uma
d'estas maneiras acabasse sua tornada, se tornasse a elle. E que sobre
isso se ajuntariam com elle os Infantes seus irmãos, e os do
conselho d'El-Rei nosso Senhor. E praticariam
ácêrca dos meios apontados,
e se concordariam por seu meio no que mais honesto e de
razão parecesse. E que se a Rainha não
quizesse tornar, que elle d'hi seguisse embora sua viagem e escusasse
sua vinda mais a elle.»
Ao Bispo pareceu bem o motivo do Regente, e com isso se foi
á Rainha; a qual porque não approvou
nenhuma das cousas que lhe aconselhava, se despediu d'ella e se partiu
para seu Rei sem conclusão certa do porque viera.
CAPITULO LXX
De
como o Regente determinou pôr
cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e
a que pessoas os cêrcos foram encommendados
O Infante D. Pedro
por recados e cartas da Rainha e do Priol que foram
tomados e trazidos a elle dos portos que se guardavam, foi certificado
como procuravam metter gentes d'armas de Castella em Portugal, e
bastecer as fortalezas que sustinham sua voz com armas e mantimentos de
fóra, e assi se fazerem alguns alevantamentos no reino
contrairos a seu Regimento, para que soube certo que em uma parte e na
outra se faziam trigosos percebimentos, e consirando camanho dano se
seguiria a dar-se logar a isso, e não se atalhar, determinou
com accôrdo dos Infantes, com quanto era entrada de inverno,
de logo se poer cêrco ao Crato e ás outras
fortalezas do Priol, e cobra-las por força ou partido, como
mais fôsse possivel. Para que logo mandou perceber o reino,
que a isso não foi negligente.
E encommendou-se o cerco e tomada do castelo de Beluer a Lopo
d'Almeida, que depois foi por
El-Rei feito primeiro conde d'Abrantes, e assi que tomasse e segurasse
os celleiros das terras chãs do Priol. E assi se encommendou
o cerco da Amieira ao capitão
Alvaro Vaz d'Almada,
conde d'Abranches, ordenando a cada um as gentes e apparelhos que
cumpriam. E foi accordado que o Regente e o Infante D. João,
e condes d'Ourem e d'Arrayollos fossem sobre o Crato. Mandou o Regente
outrosi em nome d'El-Rei fazer e pôr editos publicos, com
pena de morte e perdimento de bens, a todos aquelles que estivessem no
Crato e nas fortalezas do Priol, se dentro de dez dias não
se sahissem, salvo as vinte pessoas á Rainha
ordenadas, e assi com promessa de perdão de todos os casos
aos que a El-Rei logo se viessem. Exceptuando alguns poucos a que
expressamente o tal perdão
não se estendia, em que entrava o Priol e seus filhos.
Tomou Lopo d'Almeida com tal cuidado o cerco e tomada de Beluer, que
por seus engenhos, forças e combates poz o castello e gente
d'elle em tanta necessidade e affronta, que conveiu ao alcaide, que se
chamava João Lopez de Nobrega, bom homem e
esforçado cavalleiro, depois de fazer muita resistencia, com
grande dano dos cercadores, concertar-se e entregar o castello com
segurança sua e dos cercados, tomando primeiro certos dias
de tregoa, em que como bom servidor pediu socorro ao Priol, e por lh'o
não poder dar, entregou por seu mandado o castello a XVII
dias de Dezembro de mil quatro centos e quarenta.
O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Amieira, como disse,
era encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de
pé, que era muita e mui bem concertada, e assim com as
artilherias e provisões que para o cerco convinham, e todo
posto em mui segura e singular ordenança, fazendo-o assi
como homem que o vira e passara em outros reinos já muitas
vezes. E tambem folgou de o ordenar, assi por dar a entender n'este
pequeno cerco o que faria em outros maiores se lh'os encomendassem.
CAPITULO LXXI
Como El-Rei quiz vêr e viu o
capitão na ordenança de guerra em que vinha
Viera-se El-Rei a
Alemquer, porque Santarem onde estava,
começou de poerse mal de pestenensa; e posto que fosse de
tão pequena edade, porém bem inclinado de sua
propria natureza, que o provera de mui nobre e mui grande
coração,
desejou muito de vêr o capitão e sua gente na
ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe Alvaro
Gonçalvez d'Arayde, seu aio, este vivo argulho e desejo,
louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse; mas por
não errar em seu serviço e estado, indo de
proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem
que como d'acerto fosse á caça, ao
campo d'entre a Castanheira e Villa-Nova, e que alli como de recontro
veria o capitão e a gente que então
havia de passar.
E a outro dia andando alli El-Rei com seus galgos e gaviães,
assomou o capitão, e sabendo
já que El-Rei o queria vêr, apurou ainda muito
mais sua
ordenança, e de sua pessoa com seus pages armados se
concertou em grande perfeição. Porque n'aquelle
auto
d'armas, por seu braço e por esperimentadas ardidezas
passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor; e tanto que foi
atravez d'onde o El-Rei olhava, se apartou só da gente,
armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se
lançou fóra
d'ella, e a pé foi beijar as mãos a El-Rei, e lhe
disse:
«Senhor, assi como eu sou o primeiro que vossa Senhoria
vê n'estes habitos, assi prazendo a Deus
não
serei eu
n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço e
por defensão de vossos
reinos.»
El-Rei folgou muito de o vêr, e com palavras e
contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento
do que de sua pouca edade se esperava, e assi se despediu o
capitão e seguiu sua viagem até á
Amieira, que logo cercou e combateu até que a tomou.
E n'este cerco não aconteceram cousas assignadas para
escrever; porém houve algumas cousas d'agoiro, que por sua
novidade tocarei brevemente. Porque na hora que ali aconteceram, porque
pareciam mui duvidosas, se tomaram d'ellas testemunhos publicos e mui
autorizados. Uma foi que em se acabando d'assentar o cerco, desceu
á vista de todos tres vezes uma aguia do céo
sobre um ninho de cegonha, que sobre as casas do Priol estava, e das
duas vezes levou dois cegonhos novos, e da terceira não
ficou o pae, que para a perdição do Priol e dos
filhos foi triste
prognostico. A outra foi que a pedra do primeiro tiro de polvora que
com um quartão se fez, deu por um escudo das armas do Priol
que estava sobre a porta da villa, e só sem outra quebradura
o desapegou das mãos de dois anjos que o tinham e o levou ao
chão em pedaços.
A outra foi que o segundo tiro que se fez matou um homem, sobre cujo
corpo estando já na egreja para se soterrar, deu outra vez o
terceiro tiro, e em um escano em que jazia o tornou a
espedaçar.
CAPITULO LXXII
Como a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos
para se bastecer, e do que fizeram
Sendo a Rainha e o
Priol atalhados para dos logares vizinhos
nem do reino já não haverem mantimentos, e assi
sentindo já o engano que de seus alliados em seu movimento
receberam, não ficou aberta outra porta
d'esperança, de soccorro e provisão
senão a de Castella. Pelo qual a peso de
suas joias e baixellas, mandaram para soldo vir ao Crato um D. Affonso
Anriquez, que estava em Castella na villa d'Alconchel, com
até sessenta de cavallo e cento homens de pé, com
os quaes, e com os do Crato antes de receberem mais impedimentos e
affrontas, trabalharam de por força se bastecer de trigo,
cevada, e gados pelos logares d'arredor, entre os quaes foi
Cabeça da Vide, que D. Affonso foi barrejar e roubar com
cento e LXXX de cavallo e duzentos de pé, e recolheu o
despojo ao Crato, sem haver no logar nem no caminho outra resistencia,
salvo a que os d'Alter do Chão lhe quizeram fazer, que por
não
serem cautelosos no auto da guerra foram tambem de D. Affonso
desbaratados, e alguns de uma parte e da outra mortos e muitos feridos,
com que todo o reino e principalmente os d'aquella comarca foram para
os do Crato mui indinados, e da Rainha mui descontentes.
O Infante D. Pedro constrangido e nojado d'estas entradas e correduras
que pelo reino assi soltamente se faziam, apressou por isso mais sua
partida. E acompanhado de muita gente que o veiu servir, partiu de
Santarem caminho d'Aviz,
onde com o Infante D. João e condes d'Ourem e d'Arrayollos
tinha concertado seu ajuntamento, para hi terem conselho sobre o que
fariam; porque o Infante D. Anrique era na Beira para a defender, como
se disse.
CAPITULO LXXIII
Da resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua
embaixada enviou a Roma requerer
Em se o Regente
alongando em uns casaes, que se dizem o Couto, entre
Santarem e Aviz, chegaram a elle Ruy da Cunha, Priol de Santa Maria de
Guimarães, e o Provincial do Carmo D. João, Bispo
que depois foi de Ceuta e da Guarda, que vinham de Roma, onde foram
enviados por embaixadores ao Papa Eugenio; os quaes entre as outras
cousas que requereram e trouxeram concedidas, foi
vivae vocis oraculo a
despensação
para El-Rei poder casar com D. Isabel, filha maior do Infante D. Pedro.
E não veiu em escripto; porque a Rainha D. Lianor sentindo
que não podia fazer maior nojo, que em lhe estorvar este
casamento, trabalhou com El-Rei e Rainha de Castella, e com El-Rei
d'Aragão e de Napoles, e com El-Rei de Navarra, todos seus
irmãos, que por algumas razões que sem muito
fundamento allegaram, fizessem com o Papa que por alguma maneira
não outorgasse a despensação para o
dito casamento necessaria. O que elles todos fizeram por seus
embaixadores com muita instancia, e por tanto o Papa por não
desprezar a tantos e taes Reis, houve
então por bom expediente não outorgar a
despensação em
escripto por não ser
publica, e a concedeu aos embaixadores em secreto,
vivæ
vocis
oraculo, como disse, para o casamento se poder logo fazer, e
depois lh'a mandar por Bula patente, como mandou por Fernão
Lopez d'Azevedo, Commendador Mór de Christo, que
lá tornou por embaixador.
E assi trouxeram mais por Bulla expedida, em como o Papa isentou para
sempre as administrações de Tuy e
d'Olivença dos Bispados de Tuy e de Badalhouce, a que eram
em Castella d'antigamente sobgeitas, e assi houve o Mestrado d'Aviz
d'estes reinos por isento do Mestrado de Calatrava, e o Mestrado de
Santiago por isento da Ordem d'Ucrés, que são em
Castella, a cuja obediencia de primeiro fundamento eram obrigados. E
poz aos Reis de Castella silencio perpetuo, com estreitas censuras e
graves excommunhões, se mais o contrairo requeressem, como
até então sempre requereram. E certo esta
graça
estimou muito o Regente; porque sabia que em vida d'El-Rei D.
João seu padre, e d'El-Rei D. Duarte seu
irmão, com quanto isto sempre desejaram e requereram com
rasões e causas mui evidentes e sustanciaes, nunca os Papas
que n'aquelles tempos foram, em caso que lhes parecesse
razão, com receios d'agravos e
importunações dos Reis de Castella o ousaram
outorgar, e depois até agora sempre isso esteve e
está em pacifico effeito.
CAPITULO LXXIV
Como em se accordando o cêrco do Crato soube
o Regente que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e
como todavia seguiu, e do que se fez
Chegou o Regente a
Aviz, onde de muitas partes lhe accudiu muita gente,
para a qual com quanto no reino havia grande careza de mantimentos,
houve porém d'elles alli muita abastança. E sendo
certificado que o Infante D. João seria com elle bespora de
Natal, lhe leixou a villa para seu aposentamento. E na ribeira de Seda
se foi alojar no campo, onde os Infantes e conde d'Ourem e conde
d'Arrayollos, com outros senhores e fidalgos do conselho se viram. E
logo todos consultaram ácêrca do que fariam, em
que depois de muitos debates, finalmente se accordaram com o Infante D.
João, que disse:
«Que ante de tudo á Rainha por uma pessoa honrada
fosse primeiro pedido e requerido que se tornasse para suas terras, ou
para outro qualquer logar que ella quizesse não sendo
sospeito, com todalas
seguranças que ella pedisse, e que elles todos iriam por
ella e a serviriam e acatariam como ella merecia, por ser mulher e
madre de dois seus naturaes Reis e Senhores, e que se ella o quizesse
fazer, todo seu trabalho o houvessem n'isso por bem empregado; porque
com isso o menos ficaria por acabar, e que quando ella esto
não houvesse por bem, que então fossem cercar e
combater o Crato até o tomarem por força, ou como
melhor podessem, guardando
sempre qualquer casa ou torre em que a Rainha e a Infante
estivessem, por
acatamento e
reverença de sua real pessoa e estado, cá era
razão apagar-se logo aquella pequena
brasa; porque d'ella se não seguisse ao reino outro incendio
e dano maior.»
A Rainha como foi certificada que os Infantes determinavam ir cerca-la,
vendo que o conde de Barcellos e os outros fidalgos se escusavam de ir
por ella e a servir como ficaram, quizera-se logo partir do Crato para
Castella; mas foi aconselhada que por agravar mais seu caso
não o fizesse até os
Infantes serem já em caminho contra ella; porque
então
pareceria razão faze-lo; pois poderiam dizer que com temor
de a não prenderem ou deshonrarem o fazia, pelo qual tanto
que soube que elles moviam seu arraial da Ribeira de Seda contra o
Crato, ella na noite em que amanheceu dia de S. Thomás, que
vem a XXIX de Dezembro, de mil e quatrocentos e quarenta e um, se
partiu para Albuquerque, e foram principaes em sua companhia o Priol do
Crato e D. Affonso Anriquez, e D. Affonso, senhor de Cascaes, e D.
Fernando, seu filho, e alguns outros; porque a mais gente ficou no
castello do Crato com Gonçalo da Silveira e Vasco da
Silveira, filhos de Nuno Martins da Silveira, a que a guarda de todo
ficou encomendada. E estes acabaram depois em serviço da
Rainha suas vidas em Castella, e assi os ditos D. Affonso e D.
Fernando, e o Priol do Crato, que no Agosto seguinte falleceram em
Çamora.
Alguns moradores do Crato e principaes, comquanto alli estavam
sobjeitos ao Priol, eram porém servidores secretos do
Regente. E como sentiram a partida da Rainha, fizeram logo
dois avisos, um ao Regente do caso como passara, e outro a
Garcia Rodriguez de Siqueira,
Comendador Mór d'Aviz, que era
capitão em Alter, para que fosse logo como foi por
meio e engenho d'elles
cobrar a villa, e depois de se bem apoderar d'ella e a segurar com
fortes palanques do dano que os do castello lhe poderiam fazer, o
notificou logo aos Infantes, que acordaram enviar logo a
Gonçalo da Silveira, e a Vasco da Silveira, Vasco Martins de
Mello, por ser casado com uma sua irmã, filha tambem de Nuno
Martinz da Silveira, para que os aconselhasse como o tempo e
razão requeria e que sem mais resistencia entregassem o
castello. Mas Gonçallo da Silveira, sobre quem a
defensão principalmente pendia, se escusou da entrega, como
fidalgo em que pareceu que havia bondade, lealdade e
discrição, e o coração lhe
não fallecia.
Com este recado tornou Vasco Martinz aos Infantes, que não
leixaram de seguir seu caminho até serem sobre o logar;
porque receiaram que a Rainha com gente e mantimentos de Castella
bastecesse os logares, pois n'elles com essa esperança
leixava sua gente.
O conde d'Ourem com a gente de Lisboa se aposentou dentro na villa, e
os Infantes fóra em torno do castello, onde em chegando
fizeram publico alardo com toda a gente, em que se acharam doze mil
homens de peleja com muita artilharia, que logo foi assentada em
ordenança de combate, de que os mais do castello
tomáram grande desmaio; e porém ante d'algum
cometimento, o Regente mandou outra vez por o dito Vasco Martinz
requerer Gonçallo da Silveira que entregasse o
castello e se tornasse para El-Rei que lhe faria muita mercê,
e serviria seu officio d'escrivão da Puridade como o
fôra seu pae, e que seu irmão seria acrecentado
com outras abastanças
e razões, de que Gonçalo da Silveira algum tanto
vencido com prazer dos Infantes, tomou assento que o não
combatessem por X dias, dentro dos quaes se a
Rainha depois de ser requerida por
elle, lhe não desse soccorro e ajuda com que bem se podessem
defender que elle entregaria a fortaleza, e que se lh'o desse, que elle
aquelle trabalho e outro maior soffreria até,
morrer por seu serviço.
Foi logo a Rainha de todo esto avisada por Gonçalo Annes,
criado do Priol e alcaide do Crato, que como prudente messegeiro, lhe
disse mui largamente as difficuldades que havia na defensão
do castello, por ser tamanho e contra tal e tanta gente, e enfraquentou
muito com vivas razões a esperança que a Rainha
lhe dava, e tinha em uns oitocentos homens d'armas que a Rainha de
Castella sua irmã lhe mandara para isso offerecer,
dizendo-lhe «que estes não eram pagos nem juntos,
e estavam ainda em Castella por suas casas. E que por tantos favores de
pães, de que os Infantes seus irmãos
enganosamente a basteciam, não abastavam para tal tempo e
tamanha necessidade, e que em caso que esta gente e outra mais os
quizesse soccorrer, que pois não podia ser pelo
céo, menos seria pela terra em que por todalas partes havia
tanta e tão forte resistencia, que era impossivel ou
assignada sandice fazer-se.»
E emfim a Rainha com o Priol visto todo, accordaram que o castello se
entregasse, para que logo mandou Pero de Goes seu filho, que com
segurança dos castellos o leixou livre, e o Regente o
entregou logo ao Infante D. João, e deu em nome d'El-Rei o
Priorado do Crato a D. Anrique de Castro, filho de D. Fernando de
Castro, e depois a D. João d'Atayde, por cuja morte o houve
tambem D. Vasco d'Atayde seu irmão. E depois de
despedir com mercês e mui graciosas palavras aquellas pessoas
que n'esta jornada o vieram servir, e que por então
não houve
mester, se partiu caminho d'Abrantes, e com elle o conde
d'Ourem. E o Infante D.
João se tornou para a cidade d'Evora.
CAPITULO LXXV
Como
o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a
Lamego para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos
se poz em defesa, e do que se n'isso passou
E ante de seu apartamento tiveram conselho sobre o que ao diante deviam
fazer, e accordaram que por quanto já se começara
d'entender contra os que eram reveis e desobedientes a seu Regimento,
que o Regente se fosse á Beira juntar-se com o Infante D.
Anrique, para que ambos pela melhor maneira que o tempo lh'o
offerecesse, assessegassem os desmandos e alvoroços em que
os fidalgos d'aquella comarca andavam. E assi soubessem logo se o conde
de Barcellos queria estar á sua obediencia e
ordenança como os outros, e se o contradissesse, que
procedessem contra elle de feito e direito, como sua contumacia
requeria, pois com ella dava causa a se fazer em muita parte do reino
muito mal, e pouca justiça.
Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que
pôde, e posta em ordenança e com
esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu
com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas
e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria
se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi
poderosos passarem o Douro, e o Re
Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que
pôde, e posta em ordenança e com
esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu
com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas
e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria
se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi
poderosos passarem o Douro, e o Regente usar inteiramente de seu
officio nas comarcas d'Entre Doiro e Minho, e Tras os Montes.
A Rainha por conselho do conde de Barcellos se partiu d'Albuquerque,
com fundamento de ir ao longo do estremo até
através da comarca de Tras os
Montes, para ir entrar em Portugal pelas terras d'Alvaro Pirez de
Tavora, onde o conde de Barcellos e os de sua opinião se
offereceram de a irem receber e servir. E de Ledesma a que chegou,
enviou seus messegeiros ao conde para saber sua
determinação e vontade, e
para lh'a fazer maior e mais forte, lhe enviou novos
esforços com esperança de grande honra e
acrecentamento seu; os quaes messegeiros foram a elle, que estava em
Guimarães ao tempo que os Infantes chegaram a Lamego, e
sendo de sua chegada d'elles certificado, e da maneira e
tenção com que iam, não
pôde dessimular a muita tristeza e grande cuidado que por
isso recebeu, e respondeu á Rainha escusando-se com coisas
necessarias, a não poder cumprir por
então seu requerimento, reprendendo com largas
razões o pouco cuidado que os Infantes d'Aragão
para sua restituição mostravam. E por se mostrar
forte aos
que de sua parte já sentia mui fracos, enviou dizer ao conde
d'Ourem seu filho, que dissesse como disse da sua parte ao Regente, que
escusasse passar o Douro, porque elle lh'o não havia de
consentir, de que o Infante mostrou grande sentimento, e com palavras e
contenença não livres de sanha, respondeu ao
conde por maneira, que sentindo elle como a honra e estado de seu pae
se despunha a grande perigo, pediu ao Regente por mercê que
sobre o caso não houvesse
por mal que elle mandasse um cavalleiro por messegeiro a seu pae, de
que ao Infante aprouve, e ainda com desejo de mais assessego o obrigava
que para isso elle não devia mandar alguem, mas ir em
pessoa. E porque Luiz Alvarez de Sousa, que ao conde foi sobr'isso
enviado, não lhe abrandou em nada sua
tenção,
tornou a
elle em pessoa o conde d'Ourem seu
filho, o qual como quer que com palavras de muito amor e
razões de grande efficacia lhe pedisse que se decesse de sua
opinião, pois o tempo e a razão
assi o queriam, nunca o pôde acabar, e assi assaz triste e
anojado tornou para o Regente sem alguma conclusão.
O conde de Barcellos moveu de Guimarães com
mostrança de ao Infante defender por força a
passagem. E assentou-se com sua gente em auto de guerra em Meisanfrio,
que é logar sobre o Douro duas leguas de Lamego. E mandou
alagar e metter de sob a agua todalas barcas e bateis do rio, pelo qual
o Infante aceso já em desejo de vingança para que
os
desprezos e porfia do conde o moviam, determinou logo de passar contra
elle, e para isso ordenou que no Douro sobre toneis se fizesse uma
ponte porque a gente e cavallos podessem em breve e mui seguramente
passar, e assi se fez prestes do mais que para rompimento e peleja
cumpria. As quaes cousas vendo o conde d'Ourem aparelhadas com tal
trigança para destruição de seu pae,
ajuntou comsigo para sua
ajuda alguns principaes, perante quem fallou ao Regente. E com palavras
de grande prudencia e muita piedade, e com outras de não
menos obrigação,
lhe pediu que sobrestivesse em sua passagem e lhe desse logar que
volvesse a seu pae; porque esperava de o tornar á sua
obediencia e serviço prouve d'isso
ao Infante, e lhe louvou muito a dôr e cuidado que para
remedio de seu pae a todos mostrava. Porque entre as outras virtudes
muitas que no Infante havia, esta era n'elle de grande
perfeição, ser para as
execuções de sua sanha mui temperado, e mui
ligeiro de mover por rogos e intercessões dos bons.
O conde d'Ourem foi logo a seu pae, e tão evidentes lhe
mostrou os erros de sua dureza e os principios
que se ordenavam para sua
quéda, que vencido do evidente perigo que via, mais que de
sua propria vontade, lhe prouve vir como veiu a Lamego falar aos
Infantes. Os quaes como souberam de sua vinda sahiram a recebe-lo
fóra da cidade acompanhados de muita e mui nobre gente.
E posto que entre o conde e o Regente havia odios mui verdadeiros,
porém n'aquella hora que se viram houve entre elles palavras
fingidas de tanto amor e cortezia, e se abraçavam a cada
passo com tanta alegria, que pareceu que um não estimava nem
desejava mais bem que a vista do outro, sem alguma lembrança
de roturas passadas, e nas contenenças do povo que os assi
viam, bem parecia que todos haviam d'isso grande prazer.
Era hi presente o Arcebispo de Braga D. Fernando, que com vozes altas
começou de cantar o principio do salmo
Ecce quam
bonum & quam jucundum
habitare fratres in unum; como a quem parecia que na
concordia d'estes Senhores se segurava de todo a paz e
descanço do Reino. Os quaes como foram na cidade fallaram
entre si suas cousas, e assi nos desvairos passados, e o Regente
recebeu com bem na cara as desculpas do conde, que ficou de todo
á sua obediencia, approvando em todo o seu Regimento, e
prometteu de mais não servir nem seguir a Rainha, salvo
n'aquellas cousas em que os mesmos Infantes a servissem, e assi
concludiram que o casamento d'El-Rei de necessidade se fizesse logo com
a filha do Infante, ao menos com recebimento simples; porque ao tomar
de sua casa, se fariam depois suas festas solenes e reaes, como a sua
honra e estado cumpria. E assi prouve ao Regente a requerimento do
conde que seu cunhado D. Pedro, o Arcebispo de Lisboa, que andava em
Castella desterrado, fosse como foi á sua dinidade
restituido,
e lhe outorgou para
si e para os seus outras muitas graças e mercês, a
que depois seu
agardecimento não respondeu com egual balança.
E concordado assi todo se despediram uns dos outros: o Regente e o
conde d'Ourem para Lisboa, e o Infante D. Anrique para suas terras, e o
conde de Barcellos tornou-se d'onde viera; e isto foi no fim de
Fevereiro do anno de mil e quatrocentos e quarenta e um.
CAPITULO LXXVI
Das côrtes que se fizeram sobre o casamento
d'El-Rei com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D. Pedro
Como o Regente foi em
Lisboa logo ordenou côrtes, que com
solene ordenança de cidades e villas, e pessoas principaes
do reino se fizeram em Torres Vedras, onde além d'outras
muitas cousas, em que por bem da Republica se entendeu, o Infante D.
Pedro com fundamentos passados da vontade d'El-Rei D. Duarte, e com a
necessidade presente que disse, com muita autoridade e eficacia
requereu aos do reino outorga e consentimento para El-Rei seu Senhor
casar com sua filha, e o povo por conhecer ser verdade o que apontava,
e que em christãos não havia por então
mulher com que El-Rei
tão bem podesse casar como a seu estado e honra cumpria, e
assi movidos da humanidade e resguardo com que o pediu, não
sómente foram d'isso todos
contentes, mas ainda para quando embora tomasse sua casa lh'offereceram
um rico presente. Pelo qual o Infante se foi a Obidos, onde era El-Rei,
e alli em dia da Ascensão, á tarde, no anno de
mil e quatrocentos
e
quarenta e um,
á vista de todos se celebraram os esposoiros entre El-Rei e
a Rainha, nas mãos de um Daião d'Evora que servia
El-Rei de seu fisico, entrando El-Rei em edade de dez annos. E como os
procuradores do povo acabaram de ser respondidos a seus capitulos e
requerimentos, se despediram.
CAPITULO LXXVII
Como
o Regente por meio do conde de Barcellos procurou
de se concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas por que ella
não quiz
O Infante D. Pedro de se assi concordar com o conde de Barcellos
mostrou que recebia prazer e descanso, crendo que para tranquillidade
do reino que procurava, tinha a mais aspera difficuldade passada. E
para temperar e vencer a outra da Rainha que sobre tudo desejava, ante
de partir de Lamego fallou com o conde seu irmão, e lhe
pediu que para ambos se concordarem, como sempre desejara, quizesse
entre a Rainha e elle ser medeaneiro; porque elle tinha
razão de n'isso a servir, e ella de o querer.
Mostrou o conde que d'isso lhe prazia muito, e enviou logo a ella que
era já em Madagal, Alvaro Pirez de Tavora, de que muito
fiava, encommendando-lhe muito com razões e causas mui
evidentes o concerto da Rainha com o Infante, e assi sua desculpa pela
não servir na fórma que com ella tinha assentado.
A Rainha não ouviu esta embaixada com boa vontade, nem a
acceitou como se confiava. Assi por haver já por suspeito o
conde, pela concordia feita entre
elle e o Regente, em que Alvaro
Pirez tambem entrara; como porque lhe parecia, segundo os Infantes seus
irmãos estavam então apoderados de Castella e
Aragão e Navarra, que com as gentes e poder d'estes reinos
apremariam e guerreariam o Regente por maneira que de necessidade lhe
conviesse leixar a ella livremente o Regimento, como requeria e
desejava. E este esforço e presunção
tomava ella
porque n'este tempo os Infantes seus irmãos e o Principe D.
Anrique, com odio que tinham ao conde e Condestabre se concordaram e
cercaram El-Rei em Medina del Campo, e o entraram por força,
e recolheram sua pessoa d'El-Rei a seu poder, e lançaram
fóra fugidos e
destroçados o Condestabre e o Mestre d'Alcantara, e outros
que eram dentro em ajuda e defensão d'El-Rei. E n'esta
sombra de prosperidade em que a Rainha via seus irmãos em
Castella, tomou tanta confiança
para seu recurso, que não quiz haver por bom nenhum meio que
de Portugal sem o Regimento e criação d'El-Rei
lhe fosse cometido. Antes para mais apressar sua
destruição e proveza, foi como não
devia aconselhada, que para em seu caso obrigar mais seus
irmãos, quando os fosse vêr devia levar e dar-lhe
para sua ajuda alguma gente d'armas, de que em suas revoltas tinham a
necessidade que sabiam, o que á Rainha pareceu bem, e para
prover aos seus e a outros que para isso tomou, de cavallo armas e
soldo, vendeu e apenhou a mór parte de quanta prata e joias
tinha. E camanho erro n'isso fez, ella em suas minguas sem longa
tardança o sentiu, porque finalmente o amparo e soccorro que
em suas fadigas houve de seus irmãos, com quanto eram
tamanhos Senhores, se tornou sómente em fortunas dobradas, e
claros enganos em que a trouxeram, e com que acabaram de lhe levar todo
o que para repairo seu e dos seus lhe ficava.
CAPITULO LXXVIII
Como a Rainha D. Lianor se foi á
côrte d'El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a
Portugal
A Rainha n'esta enganosa confiança de sua certa
restituição se foi á côrte
d'El-Rei de Castella, a que os Infantes d'Aragão
então governavam de todo; dos quaes logo em sua chegada foi
com muita honra e acatamento recebida e agasalhada. Onde depois de em
pessoa recontar suas querellas e aggravos, com mais graveza por ventura
do que foram em effeito, El-Rei por satisfazer a ella e cumprir a
vontade dos Infantes, enviou ao Infante D. Pedro uma e muitas vezes mui
continuas embaixadas, umas brandas e outras com aspereza, umas
mostrando desejar paz, e outras mais desafiando guerra, apontando
sempre taes meios em favor e contentamento da Rainha, que a sem
razão e o desserviço d'El-Rei de
Portugal e o dano do seu reino, que claramente comsigo traziam,
conselhavam que se não acceitassem;
especialmente porque em todos se requeria que a
criação d'El-Rei e do Principe seu
irmão e irmãs fosse
á desposição da Rainha, ou ao menos em
poder de dois cavalleiros, quaes a ella prouvesse, que fossem de todo
isentos da juridição e mandado do Infante, o
que o reino todo por causas mui evidentes e necessarias sempre
contrariou, e muito mais o Regente, que mostrava haver por singular
bem-aventurança e grande repouso para si e para seus filhos
o amor d'El-Rei, de que tinha certa esperança, pois com
tanto amor e perfeição o criava, e de que seria
desesperado se
fóra
de seu
poder, e com seu odio e de muitos outros o criassem.
E porém sempre lhe prouve, e assi o respondia, que
á Rainha tornando-se a estes reinos fossem inteiramente
dadas todalas terras e renda que n'elles tinha, com a
criação de seus filhos livremente. Ainda que em
umas côrtes que n'este anno de mil e quatrocentos e quarenta
e dois em Evora se fizeram, foi por todolos tres estados requerido e
concordado que a Rainha devia por direito ser de todo privada, e que
principalmente não devia vir a estes Reinos, assi pela gente
estrangeira que como imiga n'elles metera e os guerreara, como pelos
grandes trabalhos e muitas despezas que com receio de guerra tinham por
sua causa padecido, em especial se houve por mui perigoso inconveniente
o odio e má vontade que aos principaes do reino
já tinha, de que se esperava ella com El-Rei seu filho
procurar sempre destruições e cruas
vinganças, que a muita lealdade de seus vassallos lhe
não mereciam.
Os Infantes d'Aragão confiados no mando da
governança de Castella que possuiam, havendo por seu
abatimento não se
fazerem os feitos da Rainha sua irmã á
sua vontade, enviaram ao Regente que era
em Santarem outra embaixada, que elles fingiam ser
já
derradeira, em que vieram por embaixadores um Gomez de Benavides, e
outro Affonso Fernandes de Ledesma, doutor em leis, e pessoas de grande
estima e auctoridade em Castella; estes em seus apontamentos seguiram
os passados dos outros. Trazendo logo comsigo arautos e trombetas, como
officiaes de desafio real, para que se ás cousas tocantes
á Rainha
não respondessem conformes a seu requerimento, que
solemnemente desafiassem logo a guerra de reino a reino. A qual
publicavam mui soltamente, crendo que
com medo d'ella este reino
ácerca do Regimento se mudara de seu primeiro proposito.
E estando estes embaixadores ainda por responder, veiu com uma carta da
mão d'El-Rei para o Regente, um Custodio, da Ordem de S.
Francisco de Castella, e com o trellado d'ella aos embaixadores, em que
sustancialmente affirmava o que elles mesmos já requereram.
Apontando as cousas porque devia com rasão favorecer e
ajudar a Rainha. E que por ellas sem quebrantamento das pazes podia a
estes reinos justamente fazer guerra.
CAPITULO LXXIX