Emquanto a preparação do combate proseguia sem desfallecimentos por parte dos republicanos, dos dissidentes e d'uma fracção dos libertarios, a policia, reforçada com uma nova remonta de espiões, espreitava anciosa a agitação que percebia na sombra. De vez em quando, julgava apanhar uma nesga de luz e ficava amarrada por instantes a um rasto sem valor. Para não perder de todo o tempo e o feitio, vigiava impertinentemente as creaturas em evidencia no partido republicano, sem seleccionar de entre ellas as que conservavam realmente n'essa occasião estreitas ligações com os revolucionarios. Marchava ás apalpadelas. Embasbacava ante o menor grupo de transeuntes pacificos. Percorria os cafés, disfarçada em padres, mestras, mendigos e moços de esquina, escutava ás portas, farejava o ambiente e esquecia-se exactamente de topar com um dos muitos caixotes de bombas que, em pleno dia, e ás costas de gallegos, se entrecruzavam nas ruas de Lisboa.
Alcantara, os Loyos e até o Chiado, estavam minados de explosivos. No Bairro Alto havia depositos d'armas que despertariam a inveja d'um arsenal. Conspirava-se por todos os cantos, segredavam-se instrucções, as reuniões secretas de officiaes tornavam-se mais frequentes, as lojas dos armeiros esvasiavam-se como por encanto. Nada faltava para o bom exito. De tudo se cuidara, até dos serviços de ambulancia e manutenção. As offertas affluiam de todos os lados. (Um benemerito poz á disposição dos conspiradores uma carroça cheia de chouriços).
A febre revolucionaria não diminuia. Approximava-se a data solemne. Alguns dias mais e sobre Lisboa cahiria durante horas uma verdadeira chuva de fogo...
É n'esse momento critico da organisação da revolta que a policia tem um alegrão. Apanha, quasi sem dar por isso, um rasto de certa importancia e desata a exploral-o com uma furia indescriptivel. Effectuam-se as primeiras prisões de elementos revolucionarios conhecidos, tentando-se assim fazer abortar, pela clausura dos chefes, o movimento projectado. Contemos pormenorisadamente como isso se deu.
Alfredo Leal fôra incumbido de adquirir armamento para os 280 assaltantes dos quarteis, missão de que se desempenhou rebuscando as casas de penhores, armeiros, etc. Como as ordens da policia eram apertadas, fez essas compras pretextando umas encommendas da provincia para confecção de panoplias e, ainda com o intuito de não despertar desconfianças, munia-se sempre de dois recibos, um com desconto e outro sem desconto, que era o destinado ao freguez. O dinheiro para esse armamento forneceram-no, além do Directorio, José Relvas, que contribuiu com uma importante quantia, o africanista João Baptista de Macedo e outros individuos dedicados á boa causa.
Não tardou, portanto, que os armazens Leal, da Rua de Santo Antão, ficassem transformados em arsenal, onde Alvaro Pope, João Chagas e José Freitas Ribeiro analysaram detidamente o material destinado á revolta. Esses armazens já tinham ao tempo uma fama revolucionaria, porque desde muito eram o rendez-vous dos insubmissos. Os conspiradores conheciam as suas salas pelas salas dos passos perdidos... Para o movimento de 28 de Janeiro tambem serviram quasi diariamente ás reuniões de officiaes do exercito de mar; para lá enviou o dr. Alberto Costa duas caixas de bombas que mais tarde sahiram, a pau e corda, dos armazens para o consultorio do dr. Gonçalves Lopes; ali se reuniram diversos cabos e praças da guarda municipal aquartelada proximo das Necessidades, que faziam então causa commum com os revoltosos, e os sete grupos de 40, 60 e 30 homens destinados ao assalto aos quarteis. A essas reuniões assistiam sempre João Chagas, Alvaro Pope e Alfredo Leal. O proprietario dos armazens chegou a mandar fazer caixas de embarque e n'esse estabelecimento se encaixotaram as armas dos grupos populares, que sahiram para o seu destino levando esta marca: Telmo Bandeira, S. Thomé. E a policia, sempre ás aranhas...
Como descobriu ella, afinal, o tal fio da conspiração a que atraz alludimos? D'este modo: ao chefe d'um dos grupos populares, Victor de Sousa, aggregou-se mais um combatente, um policia, seu compadre e amigo, de serviço, ao que parece, á porta do dictador. Iniciou-o no mysterio, indicando, ao mostrar-lhe as armas já em sua casa na rua Luz Soriano, que João Chagas e Alfredo Leal eram os incumbidos especialmente d'essa distribuição de alta responsabilidade. Na madrugada seguinte era preso Victor de Sousa. Alfredo Leal tinha ainda nos armazens grande quantidade de armamento por entregar. Apesar do segredo em que a policia envolveu aquella captura, Affonso Costa e João Chagas souberam-na a tempo e pelo telephone avisaram o proprietario dos armazens para que puzesse a salvo as armas restantes. Após o aviso, o visconde da Ribeira Brava correu á rua de Santo Antão. Os armazens estavam cercados pela policia. Era urgente proceder com habilidade e frustrar os designios do juizo de instrucção.
Os armazens teem uma portinha que deita para as escadinhas de S. Luiz em frente da entrada do Coliseu dos Recreios. A sahida das armas devia ser feita por essa portinha, caso a policia não houvesse dado por ella... como não deu. As armas foram enroladas, em tapetes e, constituindo tres fardos, Alfredo Leal, seu filho José Saragga Leal e um criado de confiança, transportaram-nas á calçada de Sant'Anna, onde o visconde da Ribeira Brava as esperava mettido n'um coupé, para as ir occultar provisoriamente na sua casa, em plena Avenida da Liberdade. O material da revolta salvou-se, mas na madrugada seguinte Alfredo Leal era preso no Dafundo. João Chagas, que na vespera jantara com elle na Charcuterie Française, cahira em poder da policia ao sahir d'esse estabelecimento da rua Nova do Carmo. Escusado será dizer que as buscas emprehendidas nos armazens da rua de Santo Antão não deram o mais insignificante resultado. No emtanto, o dictador fazia espalhar pouco depois que a policia tinha ali encontrado armas e bombas em abundancia...
N'esta altura da narrativa cabe referir que muitos dos individuos, tanto da classe civil como da classe militar, implicados na conspiração, só foram sobejamente conhecidos do publico quando, insistindo na conjura, se misturaram á organisação da revolta de 4 e 5 de outubro. Outros houve, em compensação, que, vendo mallogrados os esforços applicados ao 28 de janeiro, abandonaram definitivamente os trabalhos revolucionarios e foram surprehendidos pela proclamação da Republica n'um alheiamento completo da agitação politica.
O almirante Candido dos Reis, cuja acção no complot de 4 e 5 de outubro teve uma evidencia excepcional, garantindo, além de tudo o mais, pela sua figura de destaque, a adhesão de diversos officiaes do exercito de mar e terra, no 28 de janeiro sobresahiu por uma forma inolvidavel. Sob as suas ordens é que devia dar-se então o assalto ao S. Gabriel e ao quartel dos marinheiros; com elle conferenciaram muitas vezes o sr. Alpoim e outros elementos da revolta; para elle estava naturalmente destinado um papel preponderante, muito embora da sua acção individual não dependesse, como de facto não dependia, pôr em andamento, com determinado signal e no momento dado, o complicado mechanismo da revolução; com elle estavam promptos a exercer acção decisiva alguns officiaes dos quaes ninguem suspeitava e que á quasi totalidade dos monarchicos pareciam indifferentes ou pelo menos indecisos.
Assim, a policia, prendendo alguns dos vultos do partido republicano que, a bem dizer, não occultavam as suas démarches revolucionarias, deixava exactamente fóra da rêde de perseguições uma boa somma de executores d'esse plano maduramente combinado e que, uma vez resolvido o ataque formal ás instituições monarchicas, eram capazes de, readquirindo certa autonomia, lançar fogo ao rastilho previamente preparado. É voz corrente que o movimento do 28 de janeiro esteve para explodir antes d'essa data e que n'aquelle mesmo dia soffreu de hora para hora diversos adiamentos. Pois não andará longe da verdade quem affirmar tambem que, se as prisões effectuadas na segunda quinzena de janeiro embaraçaram fortemente a eclosão do movimento, só uma intervenção muito especial é que impediu que, apesar de tamanho contratempo, a tentativa de revolta se esboçasse com uma nitidez assombrosa.
Por mais do que uma vez, quando nos dirigentes da conspiração lavrava, não diremos desanimo, mas comprehensivel reluctancia em impellir para o campo de batalha a grande massa organisada dos revoltosos, houve necessidade de refreiar com energia os impetos generosos de creaturas ardentes, illuminadas, que não consentiam um minuto de reflexão sobre a opportunidade da explosão revolucionaria. Essas creaturas tudo sacrificavam ao desejo irreprimivel de combater a monarchia. E uma d'ellas, ponderando-se-lhe um dia que, estando presos em quarteis da municipal elementos de valor não só no partido republicano como na organização do movimento, a menor agitação extemporanea, a menor revolta imprudente, provocariam, sem duvida, a sua condemnação á morte, uma d'ellas, repetimos, depois de pesar o argumento, replicou sem commover-se:
—Que importa!... São mais tres ou quatro cadaveres!...
Mas, retomemos o fio da narrativa. Presos e incommunicaveis dois dos chefes da revolta, acompanhados d'outros individuos de menores responsabilidades na empresa, não occorreu, como seria logico, uma paragem na sua organisação. A idéa predominante, n'essa occasião, não foi a de sustar os preparativos revolucionarios. Foi exactamente a opposta: foi a de se dar pressa ao rebentar da bomba, porque todos ou quasi todos se convenciam de que o dictador não perdoava aos inimigos das instituições monarchicas. Para mais, n'essa altura do complot, o governo João Franco, ainda que não possuisse na sua mão todos os fios do trama revolucionario, sabia muito bem, por informações d'uma relativa precisão de pormenores, que o movimento não era limitado a uma simples insurreição de quartel nem a uma manifestação armada de meia duzia de visionarios.
O governo João Franco sabia perfeitamente que na conjura entravam tropa e a classe civil, que, se a primeira estava armada, a segunda não sahiria á rua desprevenida e que a monarchia vivia sobre a ameaça constante da fornalha republicana, para a qual a dictadura deitara o melhor do seu combustivel.
Mas se o governo João Franco sabia tudo isto que o levava a acautelar-se o melhor possivel contra a probabilidade de gravissimos acontecimentos, ignorava, por outro lado, a fé que dominava o povo alliciado para a revolta. O governo João Franco não fazia caso nenhum d'esse povo, calculando erradamente que a massa soberana e anonyma só se moveria tendo á frente os seus grandes idolos partidarios. Ignorava absolutamente a importancia e a valentia d'essa massa e de quanto ella é capaz, lançada decididamente no caminho da reacção ao despotismo. O povo sem Antonio José, João Chagas, etc.—pensava o dictador—não se atreve a protestar com as armas na mão. Uma vez presos esses homens, os revolucionarios civis absteem-se da lucta e ficam só em campo os militares, que uma serie de medidas urgentes e rigorosas recolhe egualmente á inacção e ao silencio. Assim pensava o governo João Franco alguns dias antes do 28 de janeiro e assim tinha pensado o juiz de instrucção criminal, na parte referente a fabricantes de bombas, quando a explosão da rua do Carrião lhe entrou pela porta dentro e desauctorisou, por completo, a famosa lista negra do Cyro. Um e outro viviam redondamente enganados.
A prisão do dr. Antonio José de Almeida contribuiu bastante para que a febre revolucionaria augmentasse de modo consideravel. O dr. Affonso Costa, que, absorvido pelo processo Djalme, andava um tanto afastado da preparação da conjura, voltou a ella ainda com mais ardor. Os conspiradores passaram a reunir-se n'uma casa da rua do Desterro, pertencente ao sr. Luiz Grandella, fez-se nova acquisição de armamento (parte d'elle fornecida pelos dissidentes) ultimaram-se as disposições de ataque e de conquista e a data de 28 passou a ser mais anciosamente esperada do que as que a tinham precedido na agenda dos revoltosos. O comité dirigente dos trabalhos era então composto de Affonso Costa, visconde da Ribeira Brava, Alvaro Pope, Marinha de Campos, Ernesto Pope e Arthur Cohen. Á casa da rua do Desterro foram dezenas e dezenas de pessoas receber armamento, instrucções, etc. A senha de entrada era Jasmim.
Não é facil, por variadas razões, reproduzir, na actualidade e na integra, o plano do movimento. Já decorreram sobre elle alguns annos e estamos certos de que n'esse projecto muita coisa havia que, a ser cumprida rigorosamente, resultaria em fraco beneficio para o exito do complot. Na revolta de 4 e 5 de outubro cremos mesmo que se emendou a mão em varios pontos considerados essenciaes no plano do 28 de janeiro. A experiencia ainda é, afinal, a grande mestra da vida.
Mas se não podemos dar muitos pormenores sobre o projecto da revolta, da qual derivou logicamente o regicídio, é-nos licito, no emtanto, fixar aquellas das suas bases que são do conhecimento da maioria dos implicados na conspiração. Em primeiro logar, o exercito de terra e mar só se sublevaria depois de vêr feitos certos signaes que lhe communicariam a prisão do dictador João Franco. Quer dizer: a grande orchestra do complot não devia principiar o concerto sem que a batuta do regente se movesse a romper a marcha...
A prisão do dictador devia ser levada a effeito por um grupo civil entre as 4 e as 6 da tarde, quando elle, sahindo de casa, no alto da Avenida, se dirigisse para o Terreiro do Paço. Preso, conduzil-o-hiam para bordo d'um vapor de pesca, o Dinorah, d'onde o transportariam depois para qualquer navio de guerra revoltado. Entretanto, Machado dos Santos e Serejo Junior assaltariam o corpo de marinheiros; Soares Andréa tomaría o Arsenal de Marinha, auxiliado pela respectiva guarda e um grupo civil; Candido dos Reis iria a bordo do S. Gabriel, onde o 1.º tenente Branco Martins teria á sua disposição grande parte da guarnição do navio e muitos milhares de cartuchos; o visconde da Ribeira Brava, com um grupo civil bem municiado, occuparia o Arco da Rua Augusta e todas as platibandas dos ministerios que dominam as ruas da Prata, Augusta e Ouro e embocaduras das ruas da Alfandega e Arsenal.
No ataque aos navios de guerra entraria, por conveniencia dos marinheiros revolucionarios, o 2.º tenente de marinha Bernardo Alpoim, que fizera n'alguns d'elles activa propaganda contra a dictadura franquista. A sahida das forças da municipal aquarteladas no Carmo estava cortada por uma rede de dynamitistas installados no Sacramento (no Club dos Caçadores), na calçada do Duque, etc. A propria egreja do Sacramento, onde os revolucionarios entrariam usando d'uma chave falsa, serviria tambem a impedir que os janizaros do antigo regimen viessem cá para fóra espingardear o povo. Proximo dos outros quarteis da municipal e das esquadras de policia havia analogas disposições de ataque.
Os dissidentes tinham um logar marcado em especial: o elevador da Bibliotheca. Aqui reunidos desde o começo da tarde, logo que pelo largo do Pelourinho passasse um automovel conduzindo o dr. Affonso Costa, deviam correr, armados, para a camara municipal, apossar-se d'ella juntamente com aquelle estadista e outros individuos que o acompanhariam e uma vez no edificio, proclamariam um governo provisorio. Essa passagem do automovel conjugava-se com um signal dado no Tejo, que indicaria a execução immediata d'outras manobras revolucionarias. Outro grupo apossar-se-hia dos telegraphos e da rede telephonica. Em summa, mal que fosse dada ordem para o rebentar do movimento, Lisboa vêr-se-hia litteralmente enleiada n'um combate renhido, a menos que os defensores da monarchia resolvessem momentaneamente não resistir aos revoltosos.
A prisão do dictador obstaria a que elle, sahindo da sua casa de residencia, conseguisse communicar com os elementos militares de que dispunha ou com qualquer dos seus collegas no gabinete. João Franco, para que a sua acção não entorpecesse o que fôra planeado, devia soffrer, acto continuo ao inicio da revolta, uma immobilisação rigorosa. Não é facil asseverar até onde iria essa immobilisação, caso ella se tivesse produzido; mas a verdade é que no espirito de todos havia a noção clara de que o menor passo dado pelo dictador fóra das vistas dos revolucionarios transtornaria, sem duvida, o exito da causa.
Na noite de 26 de janeiro era enorme a affluencia de conspiradores á casa da rua do Desterro. De repente chega um aviso de que o edificio estava cercado pela policia. Fecham-se todas as portas e Affonso Costa, tomando a direcção da defeza, resolve resistir aos assaltantes, exclamando no auge do enthusiasmo:
—Vamos a isto!... Será o inicio da Revolução!
Dentro de breves instantes verificou-se que o aviso não tinha fundamento. Mas tornava-se necessario proceder com cautela e marcar definitivamente a hora para o rebentar da revolta no dia 28. Escolheu-se as 4 da tarde por ter a vantagem de coincidir com o maior transito das ruas de Lisboa e a menor vigilancia nos quarteis da guarnição.
Na noite de 27, os conspiradores receberam na casa da rua do Desterro uma carta anonyma, prevenindo-os de que se não abandonassem immediatamente o edificio seriam denunciados á policia. A carta era, evidentemente, d'um visinho medroso... Affonso Costa manda alugar outra casa na rua de S. Julião, n.º 32 e, vestindo a farda de Marinha de Campos, percorre varias ruas da cidade e entra em diversos portaes, sem que a policia dê por tal...
«Essa noite (a de 27)—revelou-o mais tarde o visconde da Ribeira Brava—foi tremenda de sensações! Alvaro e Ernesto Pope e Arthur Cohen desenvolveram uma actividade inexcedivel. Os automoveis giravam constantemente, percorrendo os postos, levando ordens e dando a ultima demão nos preparativos do movimento. Essa noite, eu e Affonso Costa passamol-a sem dormir, sentados os dois a uma meza, escrevendo em pedaços de papel determinações que eram enviadas a todos os que dirigiam grupos de combate, e ao mesmo tempo dando indicações para o fornecimento de armas, que se encontravam-no deposito principal. Sobre a madrugada estavamos gelados. Entre essas ordens ha uma interessante para a historia da Revolução. É a que enviámos a José d'Alpoim, concebida nos seguintes termos:
«O sr. José d'Alpoim, com os seus amigos, irá postar-se no elevador da Bibliotheca, para d'ali, na companhia de Affonso Costa e do povo assaltarem a Camara Municipal e ahi proclamarem a Republica. Pelo «comité» revolucionario, Affonso Costa e Ribeira Brava».
Approximava-se o momento decisivo.
Todo o dia 28, desde as primeiras horas da manhã, foi passado n'uma anciedade enorme indescriptivel. Os republicanos e os dissidentes, ainda então á solta, sabiam perfeitamente que a policia os não desfitava e que era uma questão de minutos, talvez, a perda da sua liberdade.
Proximo das 11 horas da manhã, o sr. Alpoim, que estava no centro da dissidencia progressista, recebeu a ordem revolucionaria n'outro logar transcripta, e ás 2 da tarde foi para o elevador da Bibliotheca com os srs. João Pinto dos Santos, Egas Moniz, Cassiano Neves, Batalha de Freitas e outros mais. Encafuaram-se todos n'um cubiculo, tendo á porta uma vedeta que se revesava regularmente. Das 2 ás 4, nada occorreu ali de anormal. Ás 4, os dissidentes, já então acrescidos de Marinha de Campos e Alvaro Pope, esperaram que o chefe da grande orchestra movesse a batuta. N'outros pontos de Lisboa, a scena era quasi identica. Estava tudo a postos. Faltava apenas o signal combinado...
Ao cahir da tarde, como se espalhasse o boato de que o movimento tinha de soffrer novo adiamento de horas, Marinha de Campos, Alvaro Pope e o visconde de Pedralva foram de automovel percorrer os quarteis, transportando ao mesmo tempo armas e munições. Pouco depois, entrou no elevador o tenente-coronel Amancio de Alpoim e communicou aos conjurados que a revolta gorara e que era conveniente que abandonassem o edificio, pois a policia já lhes andava no encalço.
Debandaram. Mas d'ahi a uma hora voltaram novamente a reunir-se na casa do tenente Furtado, contigua ao elevador. Isso de nada serviu, porque Alvaro Pope, que ali appareceu já noite fechada, tinha informações identicas ás do tenente coronel Amancio de Alpoim. O movimento fôra mal succedido, as tropas tinham sido postas de prevenção, as guardas dos edificios publicos haviam sido reforçadas e o comité revolucionario ordenara definitivamente a retirada das forças mobilisadas. O dr. Egas Moniz, sabendo que o sr. Affonso Costa e o visconde da Ribeira Brava tinham entrado no elevador, foi ao seu encontro. N'esse mesmo instante, a policia principiava a cercar a casa do tenente Furtado. Era evidente que se preparava para capturar o sr. Alpoim e os seus amigos, como d'ahi a pouco capturou os srs. Affonso Costa, dr. Egas Moniz e visconde da Ribeira Brava. Impunha-se a fuga.
O porteiro do edificio, informado do caso, communicou ao sr. Alpoim a existencia d'uma sahida pelo lado da calçada de S. Francisco. Os dissidentes aproveitaram-na, mas com dificuldade. A portinha era estreita e o corredor que ali conduzia era lobrego e cheio de teias de aranha. Os dissidentes desceram-no, cautelosamente, quasi roçando pelos policias, que começavam então a invadir as escadas. Em baixo, novas difficuldades e sobresaltos. A fechadura não servia desde annos e foi um trabalhão para fazer girar a chave. Na calçada de S. Francisco não havia um unico policia... O sr. Alpoim e alguns dos seus amigos foram ao centro dissidente, no largo das Duas Egrejas. Ali souberam das prisões effectuadas dentro do elevador da Bibliotheca. O visconde do Ameal encaminhou-se logo para a estação do Rocio, d'onde fugiu para Villa Franca e depois para Hespanha; o visconde de Pedralva imitou-o, e o sr. Alpoim, mettendo-se n'um trem, foi para casa. Mas, calculando que ia egualmente ser preso, passou, momentos antes da policia o procurar, para a residencia do sr. Teixeira de Souza e no dia seguinte, á noite, abrigou-se no palacete do sr. Henrique de Mendonça, d'onde se escapuliu, em automovel, para o paiz visinho.
Quasi á mesma hora em que os dissidentes abandonavam a casa do tenente Furtado, o dr. José d'Abreu corria ao Club dos Caçadores a convencer os revolucionarios que ali se encontravam da inutilidade do seu esforço, visto que o dr. Affonso Costa já tinha cahido nas garras da policia. Egual prevenção era feita aos grupos capitaneados pelo engenheiro Antonio Maria da Silva, professor Ferrão e tantos outros, que só esperavam o signal combinado para luctarem com energia, coragem e decisão em prol da liberdade politica. Depois, seguiram-se: o esboço de ataque á esquadra do Rato, onde morreu um policia, a fusilaria na rua da Escola Polytechnica e na rua Alexandre Herculano, a tentativa de ataque á esquadra do Campo de Sant'Anna, os incidentes de Alcantara, etc., emfim varios episodios que mostraram claramente aos profanos boquiabertos a extensão do movimento projectado.
Porque falhara? Já o dissemos: porque, dependendo em absoluto da prisão do dictador e não tendo o grupo civil a isso compromettido levado a cabo a sua missão, todos os elementos a postos se conservavam inactivos ou procuraram escapar com presteza á desforra do governo franquista. Todos... não dizemos bem. Affonso Costa, dentro do elevador da Bibliotheca e cercado pela policia, puxou d'um revolver para resistir até á ultima. O visconde da Ribeira Brava impediu-o de o desfechar. Machado dos Santos, Serejo Junior e Helder Ribeiro pensaram, como ultimo recurso, sublevar caçadores 2 e com esse regimento e o corpo de marinheiros tentar a libertação dos chefes revolucionarios encarcerados pela dictadura. Marinha de Campos alvitrou a sublevação da fragata D. Fernando e declarou-se prompto a fazel-o sem outro auxilio de militares. Machado dos Santos tentou tambem approximar-se das baterias de Queluz, onde os revolucionarios contavam um apoio fortissimo.
E descreve elle no seu relatorio de 1912:
«N'essa tragica noite tudo fugiu! O commandante audacioso d'um regimento teria salvo o seu paiz. As portas do quartel de marinheiros estavam completamente fechadas. Só o 2 de caçadores, que fôra reforçar a guarda do paço (onde estavam officiaes nossos) o poderia ter feito. O terror era grande na cidade. Encontro-me no Rocio com Candido dos Reis, Moura Braz e Tito de Moraes, se não estou em erro; dirigimo-nos ao Club Militar; o almirante Botto e um outro cujo nome me não occorre ouviram Candido dos Reis tentar leval-os para o nosso lado. João de Freitas Ribeiro gritava que uma dictadura nos não devia impôr um rei; os almirantes e um capitão de mar e guerra que lá estava (cujo nome tambem ignoro) ficaram mudos e quedos e nós retiramo-nos, ouvindo eu dizer a um dos tenentes que comnosco se encontravam:
«—Almirantes de borra, que nem para um acto de dignidade servem!...
«Candido dos Reis (ainda não era almirante) dirigiu-se a casa do dr. Bernardino Machado, levando-me em sua companhia; lá, falsas noticias nos chegam, e, entre ellas, duas de calibre superior; infantaria 5 tinha-se revoltado e tomado o Cabeço de Bolla e o 16 tinha-se batido contra a guarda e vindo para a rua. Candido dos Reis ordena-me que vá averiguar da verdade e, n'esse momento, chorando de raiva, lembro-me de ter sido menos correcto com o dr. Bernardino Machado, o qual muito paternalmente se não melindrou com isso, dizendo talvez no seu fôro intimo que eu era um visionario e que, como tal, era muito desculpavel o meu estado de exaspero. Ambos tinhamos razão; cada um via as coisas pelo seu prisma. Elle estava informado do retrahimento dos officiaes e eu imaginava que todos, até final, tinham obrigação de honrar os seus compromissos.»
Cumprindo a ordem de Candido dos Reis, Machado dos Santos encaminhou-se para Campo de Ourique. Em volta do quartel de infantaria 16, agglomeraram se muitos populares que affirmavam que o regimento tinha sahido, levando tudo adeante de si. Machado dos Santos, incredulo, approximou-se do edificio e perguntou á sentinella quem ia a commandal-o.
—Vá para o largo—foi a resposta que obteve.
E, quasi ao mesmo tempo, a guarda do quartel fez uma descarga de fusilaría, seguida de alguns tiros espaçados que obrigaram o triumphador da Rotunda a fugir até o largo da Estrella e depois até o Rato. Aqui formava pacatamente o 16, commandado pelo respectivo coronel. Mais adeante, em frente da casa do dictador, uma companhia d'aquelle regimento fraternisava com um esquadrão da guarda municipal. Não havia que duvidar; o 16 sahira do quartel, mas para defender a monarchia.
Em resumo; apesar do insuccesso palpavel da insurreição, é justo consignar que, na noite de 28 de janeiro, muitas das creaturas n'ella implicadas quizeram desobedecer á ordem do comité revolucionario e lançar-se corajosamente na revolta. Houve momentos de amargura, em que esses homens attribuiram a responsabilidade do adiamento, sine die, da insurreição, ás hesitações d'uns companheiros. Um grupo de sargentos de artilharia chegou mesmo a propor a sedição do regimento 1 como inicio immediato do movimento. Foi necessario que a vontade persuasiva de alguns se impusesse fortemente para evitar um copioso derramamento de sangue. O desejo de combater, a raiva que a contra ordem de revolução provocara n'um grande numero de conjurados eram tamanhos que só por milagre Lisboa não acordou a 29 de janeiro de 1908 mergulhada em horrorosa chacina.
Felizmente, não succedeu assim. O dictador, tendo-se-lhe desenrolado ante a vista turva uma boa parte da machinação revolucionaria, embrenhou-se, naturalmente, n'um amontoado de providencias de occasião. Primeiro que tudo, collocou a mordaça do estylo na bocca da imprensa; ordenou uma sahida de tropas que equivalia á declaração do estado de sitio, visto que ellas é que fizeram na madrugada de 29 a policia da cidade; ordenou rusgas; remetteu para os fortes grandes levas de presos; exhibiu a cavallaria da municipal em diversos locaes para aterrar, para suffocar o menor impulso de reacção; e no dia 29 preparou-se para completar a sua obra de repressão com o famoso decreto que o ministro Teixeira de Abreu levou a Villa Viçosa á assignatura do rei Carlos.
O governo franquista, não satisfeito com o ter lançado á tôa para diversas prisões todas as creaturas que a policia encontrou nas ruas da cidade, momentos depois do ataque á esquadra do Rato, aprestava-se a expellir pela barra de Lisboa todos os politicos, todos os cidadãos que, n'uma hora de legitima revolta contra um regimen de perfeita tyrannia, tinham ousado preparar a queda logica, indispensavel, do throno dos Braganças. Á atmosphera de pavôr immenso, que creara com essas perseguições arbitrarias—o governo civil de 28 para 29 encheu-se rapidamente de populares—queria sobrepôr uma verdadeira mortalha, embrulhando no famoso decreto todas as individualidades que elle suppunha, com bom ou mau fundamento, implicadas na conspiração.
Não o conseguiu, porém. E não o conseguiu, porque, mal o decreto foi publicado no Diario do Governo e antes que o dictador iniciasse a sua applicação feroz, outra força, e extraordinaria força, com que elle nunca sonhara, impediu a consecução dos seus designios. O regicidio travou a corrida vertiginosa para a selvajaria que o gabinete João Franco desfechara, pretendendo convencer o paiz de que assim cumpria uma missão patriotica. O regicidio... sim, foi o regicidio que evitou um authentico attentado brutal, anti-politico, libertou dos ferros da prisão alguns dos organisadores da revolta de 4 e 5 de outubro e impediu que muitos dos que implantaram a Republica em Portugal gemessem até essa data gloriosa no desterro abrasador...
Chegámos ao ponto menos esclarecido d'este periodo historico. Desde a tarde de 1 de fevereiro de 1908, em que o rei Carlos e seu filho Luiz Filippe baquearam no Terreiro do Paço sob as balas desferidas por um reduzido numero de conjurados, tem-se dito tanta coisa sobre esse acontecimento que e licito suppôr que a verdade ainda permaneça envolta em denso veu. Não temos a pretenção de proferir a ultima palavra a tal respeito; mas ouvimos mais do que uma vez a pessoas bem informadas referencias ao caso, e essas referencias auctorisam-nos a considerar o regicidio sob um aspecto muito diverso do que aquelle por que é vulgarmente conhecido.
A propria policia, apesar de haver conseguido em dado momento obter um ou dois depoimentos razoaveis, nunca tirou a limpo a veridica historia do caso. E porque? Pela razão muito simples de que, tendo orientado as suas diligencias n'um determinado sentido, d'essa orientação nunca se desviou, apezar de errada. Teimou em ver no regicidio o acto de muitos conspiradores, longamente deliberado, e d'ahi não se afastou, embora o seguimento da instrucção do processo por mais de uma vez lhe indicasse o contrario. Persistiu em ver sobre as cabeças dos regicidas uma influencia especial, uma sugestão de politicos burguezes, sem coragem para perpetrarem o acto e confiando esse encargo a creaturas exaltadas, a libertarios decididos e energicos, e afinal, por aquillo que ouvimos ás pessoas as quaes já alludimos, nada d'isso existiu senão para ser utilisado no momento opportuno como uma arma de combate nas mãos dos reaccionarios.
Comprehende-se perfeitamente que, após o insuccesso do 28 de janeiro e o conhecimento das medidas ferozes preparadas pelo dictador, a opinião soffresse immediatamente um accrescimo de odio contra esse governo que não hesitava em immolar no altar da sua vingança diversos patriotas, cujo unico crime era o de se terem eximido, ou procurado eximir-se, ás suas prepotencias. Essa exaltação da opinião devia ter-se reflectido mais fundamente nos elementos revolucionarios que para o movimento de 28 de janeiro haviam prometido o concurso d'uma acção efficaz sobre os tyrannos do paiz. Quantos d'esses revolucionarios na madrugada de 31 e no periodo de horas que decorreu até ao desembarque da familia real no Terreiro do Paço, não pensaram n'outra coisa que aliás dominava o espirito até dos mais conservadores: a necessidade de se eliminar o dictador? Quantos? Essa eliminação estendiam-na naturalmente, sem hesitações, ao monarcha dos adiantamentos, porque a verdade é que para um revolucionario que pretendia supprimir uma situação de absolutismo não bastava, de certo, fazer desapparecer o braço executor do regimen de oppressão. Tornava-se imprescindivel liquidar a personificação individual d'esse mesmo regimen. Esta é a verdade e já explica, de certo, muitos dos episodios que caracterisaram a tragedia do Terreiro do Paço.
Quem passasse n'aquelle ponto da cidade na tarde de 1 de fevereiro, momentos antes do desembarque da familia real, ainda que totalmente alheio ao que d'ahi a pouco se ia desenrolar, teria a impressão de que a atmosphera, excessivamente carregada, por força desabaria em medonha tempestade. No Terreiro do Paço havia relativamente poucos curiosos a aguardarem aquelle desembarque. Em compensação, a policia, fardada e á paisana, mobilisara-se á valentona, circulando desconfiadissima por entre a assistencia.
O momento era solemne. As creaturas que palpitavam com frequencia a opinião desde o insuccesso do 28 de janeiro, calculavam com fundamento que alguma coisa se produziria, quanto mais não fosse uma manifestação platonica de desagrado ao monarcha e ao seu primeiro ministro. Outras, pelo contrario, não acreditavam n'uma explosão do odio popular e sorriam desdenhosamente perante as menores apprehensões. Acreditavam demasiado na indolencia do povo escravisado e no falso prestigio do soberano.
A policia, repetimos, a propria policia, que conhecia sufficientemente a extensão do trama revolucionario, que afinal se não desfizera ao mallogro da projectada revolução, tambem não tinha a noção do perigo que ameaçava o throno. Esse perigo, voltamos a insistir, não derivava simplesmente de uma combinação prévia feita entre meia duzia de homens desejosos de reintegrar o paiz na normalidade. Nascera e progredira na consciencia da maioria dos revolucionarios e até dos que não commungavam nos segredos da revolta. Era uma coisa acceite em principio e se toda a grande massa de povo soffredor possuisse a energia, a decisão prompta dos poucos homens que collaboraram no regicidio, este acontecimento teria sido da responsabilidade directa, não de cinco, como se affirma, mas de cincoenta, de quinhentos, de cinco mil...
Ha um relatorio policial, elaborado tempos depois da morte de D. Carlos e de seu filho, que pretende filial-a n'uma conjura mais radical nos seus meios de acção do que a que preparou o 28 de janeiro. Fala-se ahi de varios individuos, amigos do professor Buiça e de Alfredo Costa, como implicados n'essa conjura e até quasi se assegura que o grupo decidido a executar o monarcha e o principe comprehendia duas ou tres duzias de homens, escalonados desde o Terreiro do Paço ás Necessidades para a execução d'essa sentença lavrada em conciliabulo tenebroso.
Na realidade, para a nossa phantasia de meridionaes, não se percebia que um acto de tanta repercussão mundial fosse praticado sem o apparato scenico de muitas reuniões secretas, com as indispensaveis capas de embuçados e o juramento terrivel prestado em meio d'um silencio aterrador. E a policia influenciou-se d'essa phantasia, apesar de uma das suas averiguações consignar claramente um facto que reputou verdadeiro e de grande importancia para o esclarecimento do regicidio: o cavaco animado travado entre cinco homens na madrugada de 1 de fevereiro á esquina do Café Suisso. N'esses cinco homens contavam-se o professor Buiça e Alfredo Costa. Os restantes, quem eram? Vivem ainda? A policia chegou a conhecel-os? E que projectavam n'essa madrugada celebre? Decidiam ali, em plena rua, o plano do regicidio, ou apromptavam-se para um acto bem diverso?
O sr. José de Alpoim, que se occupou do assumpto pouco depois de implantada a Republica Portugueza, procurando expurgal-o das falsidades e das invenções dos reaccionarios, que durante dois annos o exploraram sem pudor pela verdade, parece inclinar-se para esta hypothese, embora o não diga claramente:
Os cinco revolucionarios que na madrugada de 1 de fevereiro um espião policial surprehendeu em conciliabulo á esquina do Café Suisso (ou outros cinco, mas comprehendendo tambem o Buiça e o Costa) projectavam simplesmente eliminar o dictador. Subiram a Avenida com esse intuito, esperando poder executal-o á sahida da casa onde elle morava. Por qualquer circumstancia que não vale a pena mencionar, esse designio falhou. Os cinco revolucionarios desceram novamente a Avenida, dispersaram-se durante um pequeno espaço de tempo e voltaram a reunir-se no Terreiro do Paço, ainda com a intenção de desfecharem as armas de que estavam munidos sobre o primeiro ministro de D. Carlos. Essa tentativa foi, como a antecedente, mal succedida; e elles então, não vendo o dictador mas vendo chegar o rei, resolveram n'um lance impulsivo descarregar sobre a carruagem do monarcha.
Por outro lado, Alfredo Costa, vinte e quatro horas antes de consumado o regicidio, dissera a alguem que no dia immediato se abalançaria a ir para a cabeça do touro. Que quereria elle dizer com essa phrase pittoresca? Referir se-hia já n'essa altura á probabilidade do rei Carlos ser attingido pela sua Browning, ou pensava apenas no primeiro ministro que submettera á assignatura do rei o famoso decreto da morte civil de dissidentes revolucionarios e republicanos? No emtanto, ha uma coisa que o sr. Alpoim registou no artigo a que n'outro logar alludimos e que é digno de relevo n'uma narrativa em que se fale do regicidio: o acto não foi combinado antes do 28 de janeiro, pelo motivo bem simples de que a revolta devia rebentar estando a familia real em Villa Viçosa; a carabina utilisada pelo professor Buiça, comprada em casa do armeiro Heitor Ferreira por um rapaz que não era o professor, só entrou na posse d'aquelle revolucionario depois de reconhecido o mallogro do movimento em que entravam republicanos e dissidentes.
Por ultimo, se é certo que o professor Buiça se dispoz antecipadamente a morrer em prol da liberdade—prova-o o seu testamento, que a imprensa publicou—se é geralmente sabido que no seu espirito fulgurou mais do que uma vez a ideia de se exterminar o rei dos adeantamentos, idea acceite não só por Alfredo Costa mas por outros tres homens fundamente exaltados contra o regimen de absolutismo, não é menos certo que até o momento do desembarque da familia real no Terreiro do Paço esse grupo de destemidos tinha em mira liquidar o chefe do governo e, se este escapou da chacina, a um quasi milagre o deve. Com um pouco menos de sorte, o dictador teria perecido sob a fusilaria do grupo, a policia teria despertado da molleza com que vigiava a integridade do monarcha, e a tarde de 1 de fevereiro, longe de marcar uma étape formidavel de revolução, ficaria limitada á queda do gabinete João Franco, pela queda mortal da sua cabeça dirigente.
Vejamos agora outro ponto do regicidio muito discutido até pelas proprias testemunhas do acto: quem atirou primeiro sobre a carruagem real? Foi Alfredo Costa ou o professor Buiça? Tentemos esmiuçal-o.
Assim que a familia real, vinda de Villa Viçosa, desembarcou na ponte dos vapores do Sul e Sueste, o rei Carlos approximou-se do tenente-coronel Dias, que dirigia no local o serviço da policia fardada, e perguntou-lhe á queima roupa:
—Isto... como vae?
(Isto era a situação da população lisbonense, o estado da opinião publica após o famoso decreto de morte civil).
O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas, quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:
—Meu senhor, isto vae muito mal!...
D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mãos de contente pelo que a publicação do tal decreto representava de força do ministerio e de provocação altiva, ironica, de desafio insolente á ralé insubordinada. Não sabemos o teor d'essa conversa; mas é de crer que o monarcha houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa altura, ainda desprezava a agitação da escumalha, considerando-a incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.
D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estação do Sul e Sueste e tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multidão formava alas pouco compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da fazenda, um homem que até então se conservara immovel e sereno do lado da Praça do Commercio, olhou para um outro que se especára mais aquem e transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabeça. O segundo fez um gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua, desembaraçou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando uma carabina á capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o professor Buiça, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa, correndo por diante d'um antigo kiosque da Praça do Commercio, conseguira alcançal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho, tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos. A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaçando-o com o ramo de flores que tinha na mão, mas n'esse momento o panico já era enorme e, dentro de segundos, o Terreiro do Paço transformava-se em verdadeiro campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam á tôa e a maioria dos populares fugia em diversas direcções, confusos, medrosos, sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.
O resto é sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos, hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio inconcebivel não só sobre os dois homens que realmente tinham atacado a carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade, haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installação dos dois corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, João Sabino da Costa. Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares capturados no momento do regicidio e que, repetimos, não tinham responsabilidades effectivas na execução do monarcha dos adeantamentos.
É natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros de Buiça e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e não é facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que o futuro desvendará o que o presente não permitte conhecer em todos os seus pormenores.
N'este caso especial, porém, o mysterio não pode ser, não deve ser profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de furiosa reportage, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o segredo dos conspiradores. A quem não andou implicado em qualquer movimento revolucionario é difficil affirmar que as cousas se passaram de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informações precisas sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma distancia consideravel, que poucos ousariam transpôr.
Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no instante da tragedia, sacudira com um ramo de flôres era um dos filhos do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Paço e ao Arsenal verificar a exactidão das noticias alarmantes que o telephone transmittira á redacção do Seculo (onde trabalhavamos), o primeiro pormenor que alcançámos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava até que esse sportsman é que disparara primeiro que qualquer outro uma carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco Heredia emprestara um varino ao professor Buiça e lhe offerecera a famosa arma, instrumento da execução. A propria policia, orientada no mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle nome tão citado pelos reaccionarios á bocca pequena. E mais do que uma vez pelas redacções dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de instrucção criminal passara um mandato de captura contra o pretendido regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:
«Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, nenhum, tomára parte no movimento; nenhum se inscrevera; seu pae não os implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo d'Alpoim que, de combinação com seu pae, collaboraria n'um dos factos mais graves da Revolução. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Paço e a escoria clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusações! Chegou-se a comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira Brava procurou o ultimo juiz de Instrucção Criminal para lhe communicar factos gravissimos a tal respeito!
«Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia, á hora em que o attentado se commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E—o que ninguem sabe!—a pessoa mais indignada foi a rainha sr.ª D. Amelia, que recebeu sempre no Paço, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia semelhante accusação e que ella propria dissera ao juiz de Instrucção Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava prompta a affirmar que não se achara entre os que assaltaram o coche real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmação, estas palavras da rainha; e, comtudo, ellas não desarmaram gente da côrte e politicos que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do Paço!»
Mas não foi só o sr. Francisco Heredia que a opinião desvairada apontou como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de 1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente, teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a investigações minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirára sobre um e outro, e um dos agentes do juiz de instrucção encaminhou-se para o paiz visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buiça. Baldado empenho: o hespanhol já não vivia em San Sebastian e o seu rasto perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a semanas, fez um croquis, fixando-o bem nos seus traços physionomicos? Não é possivel dizel-o com segurança. Pessoas que se nos affiguram bem informadas desmentem redondamente esse boato, como antes já tinham egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro recomeçou a respectiva indagação policial:
—O X... que o juiz procura não é nem o filho do Visconde da Ribeira Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fôra musico no nosso theatro lyrico). Tambem não é, como para ahi se disse, o estudante preso por causa da explosão na rua do Carrião, que ao tempo se achava escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio creio que o X... é outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um acto semelhante á execução do monarcha dos adeantamentos.
«Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante alguns mezes o X... do regicidio. Não por esse facto... Capturou-o, conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de leve que aferrolhava nos seus calabouços um authentico companheiro do Buiça e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um croquis elucidativo. Eram cinco os do complot... Alfredo Costa, o professor Buiça, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na tragedia; os restantes escaparam...»
Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buiça e Alfredo Costa á 1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no Café do Gelo, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem servido a rendez-vous de estudantes e... estudantes de idéas avançadas.
Na vespera do regicidio, o professor Buiça, que tinha no café do Gelo o seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres conversaram demoradamente e ha todas as razões para crêr que só se separaram na manhã de 1. Á 1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buiça e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala que deita para a rua do Principe. O professor Buiça bebeu uma cerveja e Alfredo Costa serviu-se d'uma omolette. Na mesma sala, alem dos dois revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da Escola do Exercito. O professor Buiça desenvolveu um plano qualquer ao seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a palavra com gestos expressivos:
—A carruagem avança, disse elle, a carroça apparece, esbarra e eu intervenho...
E ao affirmar a sua intervenção, o professor Buiça moveu os dois braços de modo significativo, como se mettesse uma espingarda á cara.
—E nós? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?
—Vocês... procederão como a opportunidade indicar.
O outro calou-se e continuou a comer a omolette. O professor Buiça piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:
—Estamos aqui, estamos em Timor...
O dr. Maximo Brou procurou desfazer essa apprehensão, argumentando risonho com a belleza do dia—á 1 e 30 da tarde o sol inundava a cidade de luz faiscante—mas o professor Buiça insistiu na previsão e d'ahi a pouco um silencio melancholico amortalhou o ambiente. Ás 5 e tal, quando o dr. Maximo Brou soube no Martinho que o rei Carlos fôra alvejado no Terreiro do Paço, não poude conter-se, e recordando o que ouvira no Gelo, exclamou para uns amigos:
—O Buiça não errou a pontaria!...
E não errara, com effeito. Até ha pouco, ainda se asseverava convictamente que o primeiro regicida a atacar a carruagem real fôra o Alfredo Costa e que o Buiça se limitara a secundar-lhe o gesto. Não succedeu assim. O professor é que atirou primeiro, collocando-se no meio da rua e visando serenamente o pescoço do rei Carlos que emergia da capota do vehiculo. Depois, a policia postada do lado das arcadas do ministerio da fazenda disparou sobre elle varios tiros de revolver, emquanto mais adiante Alfredo Costa investia contra o lado direito da carruagem.
Não admira, por isso, que o Buiça ficasse na chronica da execução como o principal dos regicidas e que a opinião extrangeira o houvesse immediatamente collocado em plano superior ao dos seus companheiros. De resto, o nome do professor soou logo no dia 2 de fevereiro de modo bastante suggestivo para o grande publico. Por outro lado, a circumstancia de ter empunhado e desfechado uma carabina—arma que exige, na sua utilisação, sangue-frio extraordinario; e a aureola que um jornalista extrangeiro lhe teceu, evocando deante do seu cadaver na Morgue uma vida de apostolado e de martyrio, o sacrificio da familia, dos filhos votados á orphandade por amor da libertação do paiz; uma e outra coisa concorreram egualmente para que elle alcançasse uma supremacia de heroicidade que a historia futura indubitavelmente conservará.
Mas, pergunta-se agora: os cinco homens que na tarde de 1 de fevereiro se abalançaram ao regicidio tinham unicamente em mira supprimir um dos seus semelhantes—o rei ou o dictador? O que previam afinal sobre as consequencias do seu acto? Admittindo a hypothese de que pensavam apenas em matar o dictador (e essa hypothese, repetimos, é a mais verosimil) diremos que obedeciam naturalmente ao seguinte raciocinio:
Attingido o primeiro ministro do rei Carlos, a policia, se os apanhasse em flagrante, procuraria logicamente poupar-lhes as existencias, esperançada em que qualquer d'elles, succumbindo cedo ou tarde ante o juiz investigador, revelaria todos os pormenores do complot. Apoz a suppressão de João Franco, rebentaria irremissivelmente a revolta e a Republica, uma vez triumphante, veria com olhos differentes dos dos monarchicos o arrojo e decisão de quem lhe facilitara a proclamação por uma maneira tão notavel. O proprio Buiça, como n'outro logar registamos, contava em que o degredo de Timor seria o mais provavel dos castigos que sobre elle incidiria no momento opportuno.