CAPITULO XIX

O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio

Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o elemento popular falhou na Revolução de 4 e 5 de outubro. E cita-se, em abono d'esta asserção: 1.º o facto de não terem comparecido, na madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos navios de guerra; 2.º a circumstancia da guarda municipal ter conseguido sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou, pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do momento.

A asserção não é fundada. O elemento popular não falhou. A Revolução, se tinha de ser feita com o povo e com a tropa—o povo abrindo o caminho á tropa—triumphou exactamente porque as melhores energias populares não trepidaram no instante supremo. Os civis não compareceram, é certo, no ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas não compareceram, e isso já é do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em contrario. De resto, a sua acção fez-se sentir efficazmente n'outro ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra não dependia absolutamente da sua presença ao lado do almirante. Para obstar á sahida da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros não. Esses grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuição dos papeis revolucionarios: o de defrontar em primeira mão a furia do inimigo. Eram verdadeira chair á canon e deviam iniciar o combate á hora em que ninguem sabia ainda com precisão quaes os regimentos fieis á monarchia e quaes os que adheriam á Republica.

Governo Provisorio da Republica Portugueza
Governo Provisorio da Republica Portugueza

Esses homens cumpriram o seu dever. Não obstaram completamente á sahida da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e o itinerario do inimigo soffreu modificações, mas conservaram-se firmes no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a todo o instante o risco de se lançarem na lucta antes d'um signal de esperança e sem saberem se seriam ou não secundados. E uma vez dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:

—Deve-se-lhes, principalmente, a força de fé indomavel que foi o segredo da victoria e não ficar sendo a Revolução uma obra exclusiva do heroismo militar.

E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos, dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario certamente não desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as forças organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de marinheiros e arrostaram o ataque da guarnição do paço das Necessidades; foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado official de marinha, o 2.º tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um dos navios de guerra; os civis é que assaltaram o D. Carlos; na madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as forças militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos distinguiram-se no arriscado serviço de communicações durante esse periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreição correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da familia.

Contou-nos José Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na madrugada de 4, apoz a dispersão do quartel general revolucionario, quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mão, em frente da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse grupo de homens não ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento para uma execução summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente, enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.

Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria nos diversos pontos da cidade. Pensava já em mandar um emissario dedicadissimo á busca de noticias e não occultava o seu aborrecimento, provocado pela falta de informações. De repente, apparecem no acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situação. Esses dois rapazes tinham ido a pé do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali se conservaram, até á proclamação da Republica.

E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro, expondo-se ás balas com uma coragem que por vezes roçou a mais extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas os civis não falharam como se apregoa insistentemente. Foram os obreiros humildes do movimento e só lhes resta, como premio de tanto esforço e sacrificio, a orgulhosa consolação de terem sido os primeiros a correr todos os riscos da aventura.

Folheemos agora uma pagina da Revolução, que, por muito discutida, nem por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial. Referimo-nos á acção do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas do movimento, ao desanimo que o invadiu e á sua morte.

O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez militares agaloados e um grupo de civis. Estes não compareceram no local. Dos militares compareceram oito: o capitão de fragata Fontes Pereira de Mello, o tenente de caçadores Helder Ribeiro e os tenentes de marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Aragão e Mello, Monteiro Guimarães, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, após a reunião da rua da Esperança, fôra ao Centro de S. Carlos e de lá a casa d'umas pessoas de familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se á meia noite n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas, dois revolvers, de que estavam munidos.

Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola automatica. O tenente Helder Ribeiro é de opinião que elle não possuia tal arma. «E—diz o arrojado official—a rasão é simples: quando quiz carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle tinha na mão. Cedeu-m'as, mas, como não servissem, trocámos ligeiras impressões sobre a precipitação com que o armamento fôra distribuido aos revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasião outra arma que não esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu não sahir á rua, como sahi, quasi desarmado».

Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.º tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manhã:

 

«Esse vapor era o Chire, que eu procurei ao longo da muralha, apenas ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: Mandou-me procurar? Elles, porém, não me responderam o Passe, cidadão! que os devia denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher prudentemente, e assim me conservei até que chegaram os meus collegas, a quem o almirante, em breve, mandou embarcar no Chire.

«N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a pouco voltaram, com esta estranha noticia: o Chire tinha as caldeiras apagadas... Houve um momento de quasi indignação e,—porque não dizêl-o?—de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso de boa vontade, accordámos em que nos tinhamos enganado no nome do vapor—e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E, um pouco ao acaso, fomos caminhando para o Dinorah, na esperança de que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimarães e eu...

«—Um momento—interrompeu o jornalista entrevistador—Isso realisou-se, é claro, depois do assalto?...

«—Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...

«—Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco fazia a descripção geral d'essa jornada...

«—Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós entrámos no Dinorah sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o passo...

«—E uma vez lá dentro...

«—Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e, sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss.as que o vapor não está navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...

«—E era certo?

«—Um pouco. O Monteiro trouxe debaixo a noticia de que na verdade o Dinorah não tinha ainda pressão, mas poderia abalar dentro de meia hora... N'estas circumstancias os officiaes resolveram esperar. E como os outros collegas tinham ficado no caes, o almirante mandou-me que os avisasse de que o vapor era o Dinorah. Desembarquei, indo pela muralha adeante, em procura dos officiaes. Não estavam já no mesmo ponto onde pouco antes os deixara. Tinham achado prudente desviar-se um pouco, porque ali começava a concentrar-se a guarda fiscal, e tinha os seus perigos uma tal visinhança... Estavam junto da cancela da linha ferrea, e, para provar que me não escapou o mais pequeno pormenor d'essa noite, direi que já lá encontrei o Monteiro Guimarães, a quem o almirante mandara com uma ordem identica e que chegou antes de mim, por eu ter perdido alguns minutos procurando os officiaes na muralha. No momento em que transmittia a ordem do almirante ouviram-se no rio os primeiros tiros de peça... Em terra já tinhamos tambem percebido o ruido da fusilaria.

«Quasi ao mesmo tempo ouvia-se, em artilharia 1, nove tiros... Contámol-os, offegantes, e, n'um grande alvoroço, ficámo-nos depois á escuta, esperando o resto.... Mas nada mais se ouviu, o que levou um dos officiaes a exclamar: «Dir-se-ia o signal das forças fieis...» (Correra entre os officiaes que o signal das forças monarchicas eram nove tiros de artilharia...) Mas estava escripto que aquella noite seria para nós de dolorosas surprezas... No mesmo instante appareceu-nos, vindo de fóra, das ruas, um collega que nos deu noticias vagas, mas muito desanimadoras...

«—Quem era esse official?—perguntou-lhe o jornalista.

«—O tenente Aragão e Mello, homem que foi a alma revolucionaria dos navios, no periodo da organisação. Porque, creia isto: no trabalho de preparação dos espiritos houve muita heroicidade, muita valentia que mereciam historia. O perigo não existiu apenas dentro das horas de combate; existiu tambem, e permanentemente, durante a obra de aliciação, que se fez, dentro dos navios e dos quarteis, á custa de sacrificios tremendos. O Aragão, destacadamente, arriscou tudo, expondo-se temerariamente, n'uma quasi loucura! Era vigiado, olhado com desconfiança, e para isso concorria a clara falta de disciplina com que as praças se lhe dirigiam, n'um quasi «tu cá, tu lá» nascido das reuniões... O Aragão foi-se do caes, e, incançavel, expondo-se sempre, andou pelas ruas, entrou nos quarteis, a sondar os acontecimentos; soube depois que voltou lá abaixo, porém em occasião em que já lá não estava nenhum official.

«—Essa ultima affirmação vae contra outras, que dão o tenente Aragão falando da muralha para Candido dos Reis, e dizendo-lhe: «Meu almirante, basta de sacrificios! Infantaria 16 está fuzilando o povo!»

«—O Aragão não pode ter communicado com o almirante. Pelo menos não o fez emquanto lá estivemos. Quem lhe falou foi o Helder que, a nosso pedido, se dirigiu ao Dinorah a levar as ultimas noticias, e as resoluções d'um pequeno conselho de officiaes que reunimos n'essa occasião para apreciar immediatamente os acontecimentos.»

 

Esse conselho decidira adiar o embarque por mais algum tempo até os officiaes alcançarem noticias exactas sobre o que se estava passando n'outros pontos de Lisboa. As suas resoluções, claro é, ficaram, no emtanto, dependentes do arbitrio do almirante. O tenente Helder, depois de conferenciar sobre o assumpto com Candido dos Reis, voltou para junto dos seus camaradas da marinha e communicou-lhes que o almirante desistia do embarque. É o proprio tenente Helder quem nos refere esse incidente da revolta:

 

«—Carlos Candido dos Reis desanimara e no meio d'esse desanimo ouvi-o proferir estas palavras:

«—Está tudo perdido... Não podemos effectuar o desembarque da marinha, porque os dois vapores não vão junto dos navios de guerra; infantaria 16 conserva-se fiel á monarchia; artilharia 1 não adheriu; dos outros regimentos não ha signal de cooperarem na revolta. Falhou a tentativa... O melhor agora é todos nós voltarmos cada um para sua casa, mas de modo que a policia não nos surprehenda.

«E voltando-se para mim e outros officiaes:

«—Os senhores podem desembarcar já. Eu ainda me demoro no vapor alguns minutos...

«Insistimos com elle para que saltasse immediatamente em terra, mas o almirante teimou em conservar-se a bordo do rebocador, e só sahiu de lá quando dispersámos no Aterro...»

 

Momentos depois, Candido dos Reis, sempre inquieto e desanimado, estava á porta da casa de banhos em S. Paulo. Sahindo do Dinorah, com a obcessão,—chamemos-lhe assim—de que o movimento abortára, fôra até ali, não esperançado em obter noticias que o reconfortassem, mas para ouvir os outros revolucionarios e combinar com elles o partido a tomar em taes circumstancias. Talvez se extranhe que o valoroso almirante houvesse succumbido logo após a primeira contrariedade—elle, tão energico, tão cheio de fé, tão dedicado á propaganda republicana, em summa, tão devotado á organisação revolucionaria. Mas, Candido dos Reis soffrera com o 28 de janeiro uma desillusão profunda e ao perceber que falhara o assalto aos navios de guerra—esse assalto que elle julgava indispensavel ao bom exito da revolta—não se conteve e exclamou, fóra de si, n'um arranco de patriotica indignação:

—Já não ha portuguezes!...

Em S. Paulo, Alfredo Leal encontrou-o á porta do balneario, ao lado de Soares Guedes, com os braços cruzados e em attitude pensativa. D'ahi a pouco, appareceu no local o dr. Affonso Costa, que extranhou vêl-o ali, á hora em que o programma revolucionario o mandava ir a caminho dos navios de guerra. Candido dos Reis respondeu-lhe contristado:

É verdade, estou aqui porque perdi a esperança no movimento e não sei o que devo fazer. O meu logar era no caes, ao pé da Companhia do Gaz, onde devia encontrar-me com os officiaes. Mas em vez de preparativos da revolta eu apenas observei as evoluções da policia e da municipal, e tenho o presentimento de que está tudo perdido.

Todos trataram de o serenar a tal respeito, e o dr. Affonso Costa aconselhou-o a metter-se no automovel com Alfredo Leal, a fim de verificarem o que se passava nos principaes pontos revolucionarios. Foram e nada notaram de animador. Logo adeante de S. Paulo encontraram dois policias fardados, que pareceram desconfiar do automovel. Proximo do quartel de marinheiros apenas havia grupos de seis ou sete populares. No caminho da Estephania e de Arroyos esbarraram com piquetes de policia e guarda municipal que investigaram o auto com olhares prescrutadores. N'essa altura, Candido dos Reis voltou a mostrar-se desanimado, expressando-se, pouco mais ou menos, n'estes termos:

General Antonio do Carvalhal
General Antonio do Carvalhal
Comandante da 1.ª Divisão Militar

—Extranho isto. Em vez de agitação revolucionaria, só se vê a policia e tropas de prevenção. Presinto que vamos ser assaltados e que terei de dar um tiro nos miolos. Você, Leal, não acha ridiculo que eu vá acabar n'uma esquadra de policia? Isso de forma alguma. Sahi para me bater, e ou hei de morrer na revolução ou hei de liquidar a vida pelas minhas proprias mãos.

Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis insistiu na ideia do suicidio:

—Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...

Como era arriscado andar na rua áquella hora, Alfredo Leal aconselhou o almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:

—Bem. Eu vou para casa de minha irmã, n'esta mesma rua, n.º 153. Você vae saber o que ha de novo, e, se a revolução estiver em bom caminho, mande-me prevenir.

Quando o automovel ia a parar á porta do n.º 155, a attenção do almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espião da policia?... Alfredo Leal ficou com a impressão de que se tratava realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que succedeu depois, conta-o elle d'este modo:

 

«Como achasse imprudente voltar no automovel á casa de banhos, resolvi dirigir-me a casa de meu irmão, em Santos, e ali ordenei ao chauffeur que seguisse para o local onde se combinára estacionar. Mal ouvi a fuzilaria, parti, a pé, para uma casa da travessa da Palha em que se reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de encontrar o automovel do irmão de Innocencio Camacho, que ia para o mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a João Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura já o tiroteio fôsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular de confiança, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito fui procurar um republicano de confiança e encarreguei-o de levar o recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e meia da manhã.

«Pode calcular-se a anciedade com que ficámos esperando o regresso do emissario. Mais de duas horas passaram e o homem não chegava. Por fim, já muito inquieto, resolvi descer á rua e tive a felicidade de esbarrar com o emissario, que regressava todo afflicto. Não tive tempo de lhe perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim como se desempenhára da sua missão:

«—Quando cheguei á rua de D. Estephania, disseram-me ali que o almirante tinha sahido ás 5 horas da manhã. Tratei então de saber onde era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para lá. Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui encontrar no mais completo desolamento. Já lá tinha chegado a noticia de que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fôra removido para a Morgue».

 

O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a entrada do almirante no n.º 153 da rua de D. Estephania e a apparição do seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao comprido e com os pés na direcção da estrada de Sacavem. Tinha o braço direito afastado do corpo e proximo do antebraço uma pistola automatica. No fato: uma bolsa de cabedal com 500 réis em prata, quatro nikeis de 100 réis e uma moeda de cinco réis nova em folha, e uma carteira com uma nota de 5$000 réis e varios papeis...

A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do almirante foi o trabalhador João Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo na reconstrucção d'um muro proximo e passou no local ás 6 e um quarto da manhã. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi á arrecadação do material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma pá e voltou para o amassadouro da cal, que era mesmo á esquerda. Candido dos Reis já estava estendido no chão e agonizava. O trabalhador João Augusto da Silva chamou então outros operarios, um servente requisitou a comparencia de dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o almirante succumbira ao ferimento recebido na cabeça, transportaram o cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.

Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um reporter sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente: 1.º que ás 6 horas e um quarto da manhã a Azinhaga das Freiras estava deserta; 2.º que não ouvira nenhuma detonação durante o espaço de tempo que medeiou entre a sua passagem á primeira vez no local e o encontro do cadaver. Em contrario d'esta affirmação depôz a esposa d'um enfermeiro residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:

—No dia 4 de outubro, cheguei á janella ás 6 da manhã, esperando a leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro, n'uma extensão de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que, de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente á janella, vi esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar vasilha para o leite, e quando assomei á porta senti um estalido secco, a que não liguei importancia, tanto mais que só vi fugir alvoroçadas algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei novamente á janella, e o sr. Leitão, fiscal do hospital d'Arroyos, disse-me:

«—Está ali um homem morto. Parece-me que é tio d'uma empregada. Vou chamal-a.

«No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci á rua, e, ao vêr o corpo estendido no chão, exclamei:

«—É o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...»

 

Mas ou seja o que contou o trabalhador João Augusto da Silva, que o almirante surgiu na Azinhaga das Freiras ás 6 e 30 da manhã e, mal ali surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto é, que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a verdade é que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, só estava o almirante. Mais ninguem. E sendo assim, é forçoso arredar da narrativa do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de pé, a do suicidio. E será admissivel essa hypothese? É. O almirante, depois de ter entrado na casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal, recolheu ao quarto de dormir, mas não enfiou logo na cama. Esteve um pedaço a reflectir na situação, a ponderar no insuccesso do movimento—que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se. Mas a idéa de que tudo liquidára n'uma desastrada aventura não o deixava pregar olho. Ás quatro da manhã, ouvindo o estrondear do canhão, ergueu-se e vestiu-se. E é natural que, n'esse instante, tendo recebido a impressão de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito acudiu tambem a idéa de que os bravos assim lançados em declarada rebellião já o tinham talvez considerado, por o não verem a seu lado, um medroso, um covarde.

E então, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e decisão n'uma longa preparação revolucionaria, como trabalharam Sá Cardoso, o capitão Palla, Machado Santos e outros, sacudido por essa idéa, magoado porque o pudessem suppôr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que já era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e 30 da madrugada, elle, que estivera inactivo até esse momento, julgou que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto é uma hypothese que formulamos. Para nós, como para muita gente que seguiu de perto a discussão jornalistica que apoz a revolução se estabeleceu sobre o assumpto, a hypothese do suicidio é perfeitamente acceitavel. Para outros não: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria, desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparação revolucionaria,—uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra, o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.

CAPITULO XX

O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades

Deixámos os revolucionarios de posse do quartel de marinheiros na altura em que, tendo destroçado as forças monarchicas em Alcantara, haviam recolhido ao edificio e ali organisado uma defeza. Pouco depois, amanheceu. «E então, relata o 1.º tenente Parreira, verificou-se que pelo lado sul infantaria 1 estava occulta com as casas do caminho de ferro e tapumes, desenvolvendo-se até á rua da Costa, acompanhada tambem da guarda fiscal e d'alguma cavallaria 4. Ás 6 horas os navios, ainda a leste, deram algumas salvas, içando nós no mastro da parada a bandeira encarnada, para poder ser vista pelos navios. Ao mesmo tempo na rua estabeleciam-se vedetas, que fizeram a apprehensão de varios artigos, taes como uma carroça de pão da padaria militar e outra de carne que foi levada para as cozinhas do quartel, bem como uma carroça de refrescos que passava na occasião.

«Pelas 7 horas da manhã veiu um dos chefes de um dos grupos civis informar que o S. Raphael e Adamastor tinham bandeira revolucionaria içada, mas que a bordo do Adamastor lhe haviam dito ser preciso um official para commandar o S. Raphael, visto lá não haver official algum, e o Adamastor estar apenas commandado pelo tenente Cabeçadas esperando ordens. Esta informação levou o tenente Parreira a ordenar ao tenente Tito de Moraes que fosse tomar o commando do S. Raphael e indagasse o que succedera, o que elle fez, seguindo com 4 civis para o Aterro, na intenção de tomar qualquer embarcação que lhe apparecesse ou mesmo utilisar-se d'uma falua do Arsenal que ali estava ao serviço do carvão e cujo encarregado se pôz á disposição dos revoltosos.

«Proximo das 9 horas veiu um sargento, que recolhia de licença, communicar que tinha recebido ordem do commandante das forças fieis ao regimen monarchico e que defendiam as Necessidades para da sua parte intimar o commandante das forças de marinha a render-se no praso de 15 minutos, sob pena de mandar metralhar o corpo de marinheiros, ao que o tenente Parreira respondeu, mandando armar o sargento e fazendo-o entrar na linha de fogo.

«Algum tempo depois vimos o S. Raphael seguir rio abaixo vindo fundear em Alcantara em frente do quartel de marinheiros, e desembarcar uma força com uma metralhadora e as munições precisas para guarnecer a gente do quartel, e tambem os officiaes que faziam parte da guarnição do navio, e que vieram presos para terra, sendo mettidos nos calabouços do quartel.»

 

Mas, não prosigamos no desenrolar d'esta documentação sem uma referencia demorada ás peripecias que precederam o desembarque dos marinheiros no quartel de Alcantara e o bombardeamento do Paço das Necessidades. Como já dissémos, ás 7 horas da manhã do dia 4, o tenente Parreira recebeu as primeiras informações do que occorria a bordo dos navios revoltados: o Adamastor e o S. Raphael. Essas informações foram-lhe prestadas, além de outros civis, por Estevão Pimentel, que já tinha estado a bordo do Adamastor e falara com o tenente Cabeçadas. Era forçoso ir tomar o S. Raphael, não só porque o comando do barco devia ser exercido por um official, mas porque os officiaes prisioneiros dos revoltosos se esforçavam por convencer os seus aprisionadores a desistirem da insurreição.

O tenente Parreira consultou os officiaes que o acompanhavam. O tenente Tito de Moraes offereceu-se logo para ir desempenhar essa missão de confiança e foi ao Adamastor, d'onde seguiu mais tarde para o S. Raphael. Tomou conta do barco e quando os seus camaradas monarchicos lhe manifestaram o receio de qualquer complicação, se o movimento, porventura, não triumphasse, o distincto official pegou n'um papel e n'uma penna e redigiu uma declaração honrada e firme que concentrava na sua pessoa toda a responsabilidade do que de futuro succedesse.

Depois, ordenou aos officiaes do S. Raphael—que os marinheiros revoltados tinham aprisionado—que se conservassem detidos até o momento de irem para terra, e, assumindo o commando do cruzador, trouxe-o para Alcantara. O Adamastor preparava-se, no emtanto, para largar da boia e ir occupar uma posição identica ao lado do S. Raphael. Á passagem do S. Raphael junto do D. Carlos, que ainda ostentava a bandeira azul e branca, as poucas praças então a bordo do segundo d'esses cruzadores proromperam em vivas á Republica. Um popular ainda lembrou ao tenente Tito de Moraes:

—E se nós fossemos agora tomar o D. Carlos?

O denodado official hesitou uns segundos, mas depois replicou:

—Logo... fica para logo... Agora temos outro serviço a fazer.

Proclamação da Republica Portugueza
Proclamação da Republica Portugueza pelas Camaras Constituintes

Em Alcantara, no momento em que o tenente Tito de Moraes fazia desembarcar do S. Raphael os officiaes presos, cincoenta marinheiros revoltados, uma metralhadora e alguns cunhetes de polvora, appareceu-lhe n'um bote, em mangas de camisa, o commissario naval Marianno Martins, que, sendo conspirador e não tendo recebido a tempo o aviso de comparencia, resolvera no dia 4 de manhã dirigir-se a bordo d'aquelle vaso de guerra, despindo a sobrecasaca do uniforme para que da majoria general o não reconhecessem.

—Ás suas ordens, meu commandante!—disse Marianno Martins ao tenente Tito de Moraes. Este agradeceu-lhe a collaboração n'um aperto de mão cordealissimo e confiou-lhe, entretanto, o comando do cruzador. Marianno Martins subiu a escada e quando se dispunha a entrar no barco olhou para a fragata que transportava os seus camaradas prisioneiros e perguntou-lhes, sem perceber no momento a situação em que todos elles se encontravam:

—Então... vocês não ficam?

Um silencio doloroso acolheu a pergunta. Cortou-o um viva enthusiastico á Republica soltado por um revolucionario e a fragata largou immediatamente do S. Rafael.

 

No quartel dos marinheiros, porém, não havia a menor informação do que se passara durante todo esse tempo na Rotunda ou em qualquer outra parte da cidade. Só proximo do meio dia é que ali chegaram um dos membros do Directorio, o sr. Malva do Valle, e Celestino Steffanina, expondo a verdadeira situação das forças revolucionarias, que conheciam pormenorizadamente por terem estado pouco antes no Alto da Avenida.

 

«Logo—conta o tenente Parreira—se impoz a juncção com as forças da Rotunda, e julgando-se necessario inutilisar ou pelo menos enfraquecer, desmoralisando-a, a brigada que defendia as Necessidades, foi ordenado o bombardeamento do paço, que demorou algum tempo, e depois do corpo de marinheiros estar debaixo de um intenso fogo das metralhadoras de caçadores 2 e das restantes forças fieis á monarchia.

«O effeito d'este bombardeamento foi surprehendente, porque, levantando o moral das nossas forças, provocou grande desanimo nas forças contrarias. Ainda debaixo do fogo das metralhadoras tivemos a alegria de ver entrar no quartel o medico Vasconcellos e Sá, cujo papel distribuido não era ir para o corpo de marinheiros á 1 hora da noite, mas sim esperar com automoveis o desembarque da gente dos navios na Rocha do Conde de Obidos, ás 2 horas da manhã, desembarque que não se fez. Este official, a quem não mandaram automoveis ao hospital da Marinha e que já tinha feito seguir antes da 1 hora da noite os 4 enfermeiros com ambulancias portateis para o Aterro e que se apresentaram depois no corpo—apenas ouviu, no hospital, os tiros de peça, tentou seguir por sua vez com um enfermeiro, deixando as ambulancias no Hospital da Marinha e enfermeiros com ordem de as levarem para onde fosse preciso, caso ainda apparecessem os automoveis promettidos. Não conseguindo passar, em virtude de descargas das forças que a essa hora guarneciam o Museu de Artilharia, voltou ao Hospital da Marinha, onde começou a fazer operações e os curativos precisos nos feridos que vinham chegando, até que finalmente, já cheio de impaciencia, conseguiu arranjar um automovel que conduziu ambulancias, 4 enfermeiros e elle, medico, e, seguindo pelo Aterro, atravessou as forças da municipal que estavam no Terreiro do Paço, e, chegando ao quartel de marinheiros, entrou logo no exercicio das suas funcções.

«Entretanto, ainda vieram emissarios de Machado Santos insistindo pela juncção e informando que a passagem por terra para as bandas de Leste seria de pouca segurança, pois as ruas a atravessar estavam guarnecidas pela municipal e interceptavam a passagem. Ficou então assente em principio que seguiriamos por mar, embarcando nos cruzadores, varrendo as ruas da baixa com bombardeamento do mar e procurando desembarcar a leste do Terreiro do Paço, no caso que fosse mais accessivel.»

 

O primeiro projectil dos navios revoltados que cahiu no paço das Necessidades lançou um panico medonho nas creaturas que então velavam pela integridade do sr. D. Manuel. O paço estava guarnecido de tropas que se suppunha fieis ao antigo regimen. O quartel general entendera que, antes de mais nada, devia proteger a residencia do soberano e accumulara ali todos os elementos militares que não tinham tido cabimento no Rocio. Estes defendiam o quartel general; o restante guardava o palacio do rei. E durante horas esta situação de pura defensiva manteve-se inalteravel, apenas fracamente entrecortada por um esboço de ataque ao quartel dos marinheiros delineado como que a medo pelas tropas acantonadas nas Necessidades.

O panico que o bombardeamento produziu no paço foi enorme. O rei correu ao oratorio a implorar a intervenção divina, e emquanto uma meia duzia de servidores—dedicados não ha duvida—se conservava álerta, disposta a acompanhar o monarcha nas suas glorias ou nas suas vicissitudes, os outros servos—a grande maioria—abandonavam precipitadamente o edificio, possuidos do mais extraordinario pavor. Até as cozinhas do paço se resentiram da fuga... Como os tiros da artilharia naval continuassem a incidir sobre as paredes que ainda abrigavam essa côrte em perfeita dissolução, o rei teve um impulso de decisão. Chamou o official da guarda e disse-lhe:

—Telephona ao presidente do conselho...

Mas o apparelho não funccionava convenientemente e o sr. D. Manuel, decerto obcecado pelo que alguns aulicos lhe tinham dito em tempos sobre um provavel apoio da Gran-Bretanha á dynastia de Bragança, exclamou para um cortezão:

—Se estiver no Tejo algum destroyer inglez, que metta no fundo os navios revoltados!...

 

D'ahi a pouco, os dedicados servidores do palacio tomavam resoluções importantes sobre a situação. Convidaram o soberano a sahir do edificio, onde já corria grave risco, e acompanharam-no ao extremo da Tapada. Ahi deviam tomar logar em dois automoveis e partir para Mafra—o unico ponto de confiança para o antigo regimen e que podia proporcionar-lhe um reducto de certa consistencia.

Assim se fez. O rei enfiou para o automovel d'uma garage particular, que haviam chamado á pressa, e no mesmo vehiculo metteram-se tambem os srs. conde de Sabugosa e marquez do Fayal, o primeiro vestindo ainda a casaca com que na vespera assistira ao banquete offerecido no paço de Belem ao marechal Hermes da Fonseca. No outro automovel seguiram os dois unicos creados que não tinham fugido do paço com os primeiros effeitos do bombardeamento. Até certa altura, os dois vehiculos foram escoltados por uma força de cavallaria da municipal. Contou mais tarde o commandante d'essa força que por um triz uma granada da artilharia naval não desfez o automovel que conduzia o sr. D. Manuel. Foi n'um momento em que esse vehiculo soffreu uma panne. Instantes depois da avaria ser remediada e do automovel ter proseguido de novo a sua marcha, a explosão do projectil juncou de estilhaços mortiferos precisamente o ponto onde o rei aguardara, triste e silencioso, o concerto do carro.

 

Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade
Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade

As duas rainhas, entretanto, esperavam anciosamente noticias de Lisboa: a sr.ª D. Amelia no Castello da Pena e a sr.ª D. Maria Pia no palacio da villa de Cintra. No dia 4, ás duas horas da madrugada, o telephone havia annunciado á criadagem da mãe do monarcha que a Revolução estalara em Lisboa. Como ella dormia, ninguem a quiz despertar para tão sensacional noticia. Só ás oito da manhã é que lhe disseram francamente a verdade. A sr.ª D. Amelia mandou ligar para o paço da villa e a sr.ª D. Maria Pia decidiu logo ir á Pena com a s.ª marqueza de Unhão e o sr. conde de Mesquitella. Junto da nóra, a viuva do sr. D. Luiz procurou mostrar-se serena, resignada, possuida ainda d'uma energia fóra do commum. Mas a sr.ª D. Amelia não se conteve e como o telephone para o paço das Necessidades continuava a funccionar pessimamente, lançou-se n'um desespero indescriptivel. Deu ordens e contra-ordens, tentou communicar o mais rapidamente possivel com o chefe do governo e, ao cabo de inauditos esforços, lá conseguiu que de Lisboa lhe dissesem que o rei tinha sahido de casa, a caminho d'um refugio seguro.

No dia 5 de manhã, as duas rainhas partiam de Cintra para Mafra. O sr. D. Manuel esperava-as no convento, rodeado pelos servidores fieis: condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, tenente coronel Waddington, Vellez Caldeira e dr. Mello Breyner. Depois do almoço, que ainda foi servido em Mafra, uns emmissarios que surgiram offegantes vindos de Cascaes, noticiaram que a Republica já havia triumphado. Logo a seguir, outro emmissario notificou que o yacht Amelia se encontrava na Ericeira tendo a bordo o sr. D. Affonso e que a familia real devia embarcar sem perda de tempo, para evitar que os revoltosos ainda a surprehendessem em territorio portuguez. Como o yacht tinha poucos mantimentos, o monarcha, a mãe e a avó arranjaram farneis e puzeram-se a caminho d'aquella praia.

 

Antes da partida, a sr.ª D. Maria Pia mostrou alguma relutancia em abandonar o paiz sem ter sido primeiro intimada a fazel-o pelo governo republicano. Mas quando lhe mostraram a inconveniencia d'esse procedimento, ella mergulhou n'um silencio perturbador, que manteve até á entrada no yacht. No primeiro automovel seguiram para a Ericeira a sr.ª D. Amelia, a condessa de Figueiró, D. Maria de Menezes e Vasco Belmonte; no segundo a sr.ª D. Maria Pia, a marqueza de Unhão e o conde de Mesquitella; no terceiro, o sr. D. Manuel, os condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, Waddington e Mello Breyner. Atraz uma escolta de cavallaria. Na Ericeira juntaram-se aos fugitivos os srs. Serrão Franco e dr. Eduardo Burnay. O mar estava agitado e o embarque tornava-se difficil.

 

Ainda assim, com a promessa d'uma forte recompensa, o sr. Serrão Franco obteve que os tripulantes de dois barcos de pesca se decidissem a transportar a familia real para bordo do yacht. No primeiro embarcaram as duas rainhas; no segundo o monarcha. A bagagem da sr.a D. Amelia consistia apenas n'uma mala de folha com alguma roupa branca; a do sr. D. Manuel n'uma caixa com meia duzia de lenços. A mãe do monarcha, ao attentar na pobreza dos dois barcos de pesca que iam servir de galeotas á familia desthronada, ainda exclamou:

—Não esperava isto dos portuguezes!... C'est une infamie.

O rei, esse, contentou-se em affirmar a sua abnegação pelo povo que até aquelle momento suppozera governar e, chamando de parte o sr. Serrão Franco, pediu-lhe que entregasse ao presidente do conselho uma carta, em que asseverava não abdicar mas apenas eximir-se por algum tempo ao tumultuar da nação. Essa carta, diz-se, nunca chegou ao seu destino. No emtanto, os telegrammas de Gibraltar para os jornaes de Paris reproduziram dois dias depois o seu texto quasi na integra. É um documento sem valor politico e que demonstra simplesmente quanto o rei andava illudido sobre a situação da monarchia e... dos monarchicos.

Feito o embarque, o yacht poz-se logo em andamento, indo dar a volta ás Berlengas para tomar o rumo. Eram 4 da tarde do dia 5 de outubro de 1910.

CAPITULO XXI

A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz

Entretanto, na Rotunda, dava-se esta circumstancia feliz, que muito contribuiu para o exito do movimento: o elemento popular, longe de desanimar com a falta de noticias seguras sobre os episodios da Revolução occorridos n'outros pontos de Lisboa, mostrava-se de instante para instante mais corajoso, mais decidido a combater até á ultima pela causa republicana. Ás 7 da manhã do dia 4, Pinto de Lima, que estivera no quartel de marinheiros e fôra testemunha do combate de Alcantara, entrou na Rotunda resolvido a dar noticias d'essa acção triumphante dos revolucionarios commandados pelo tenente Parreira.

A Bandeira Nacional
A Bandeira Nacional

No meio do acampamento, Sá Cardoso, que de madrugada repellira com energia o primeiro ataque da municipal, dava do alto do cavallo que montava umas instrucções aos outros officiaes que até ali o tinham acompanhado. Perto andava o capitão Palla. Mas como este vestia o uniforme de serviço interno e Sá Cardoso ostentava o dolman azul-ferrete com os galões do seu posto, todas as attenções derivavam naturalmente para o arrojado conspirador, que de resto, como já tivemos ensejo de o dizer, era, n'aquella occasião, o commandante em chefe da columna revoltada. Machado Santos dirigia n'outro ponto do acampamento uma força mixta de populares e soldados de infantaria 16. A confusão era enorme. Pairava no ambiente a duvida, a duvida terrivel de que a sahida dos dois quarteis, o d'aquelle regimento e o de artilharia 1, não fôra secundada. Pinto de Lima abeirou-se de Sá Cardoso e disse-lhe pormenorisadamente o que sabia do quartel dos marinheiros, solicitando-lhe ao mesmo tempo uma nota sobre a situação exacta das forças da Rotunda para a levar ao tenente Parreira. Sá Cardoso acquiesceu, pediu um lapis ao capitão Palla e escreveu n'um pedaço de papel:

 

Estou na Rotunda com os regimentos de infantaria 16 e artilharia 1, completos.

Sá Cardoso.

 

Pinto de Lima desceu a Avenida e lá foi a Alcantara communicar ao tenente Parreira essa informação. Pouco depois, Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes que os tinham acompanhado á Rotunda, decidiam não prolongar a resistencia, considerando-a absolutamente inutil. Essa resolução, comprehende-se, tem sido apreciada de diverso modo. Uns vêem n'esse acto uma fraqueza moral, resultante da deficiencia de communicações entre o acampamento e os diversos focos revolucionarios. Outros, filiam-n'o no reconhecimento technico por parte d'esses officiaes de que a posição da Rotunda era insustentavel. Pelo que ouvimos a creaturas que seguiram bem de perto esses acontecimentos, o abandono do acampamento foi simplesmente provocado pela falta de cohesão, de unidade de todos os elementos compromettidos na Revolta. O programma previamente combinado não foi executado nos seus pontos essenciaes. Querem um exemplo? Ahi vae.

Tres grupos de revolucionarios civis deviam pouco antes de se iniciar a insurreição cortar em trez pontos differentes os fios telephonicos que punham em contacto o quartel general da 1.ª divisão e outros quarteis, nomeadamente os da guarda municipal. O primeiro grupo, que devia operar em determinado local da rua de Santo Antão não levou a cabo a sua missão perigosissima porque esbarrou com uma porta fechada... quando contava, afinal, vêl-a aberta a um signal de convenção. O segundo grupo, operando no Rocio proximo da rua do Amparo, tambem não poude cumprir o encargo que espontaneamente assumira, pela falta de meios de accesso a uma certa dependencia de certo edificio. Faltou-lhe uma chave, em summa. O terceiro, com posto marcado na rua Augusta, viu-se egualmente impossibilitado de executar o plano, por um incidente imprevisto, um d'esses incidentes que, parecendo insignificantes, ás vezes mudam por completo a face das coisas.

Resultado pratico de tudo isto: o quartel-general da 1.ª divisão que, pela previsão dos revolucionarios, não devia, no momento opportuno, poder communicar com os outros quarteis e nomeadamente com os da guarda municipal, teve tempo e tempo de sobejo para dar varias ordens e fazer sahir á rua os elementos indispensaveis a uma defeza efficaz das instituições monarchicas. E d'aqui já se deprehende o seguinte: Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes que ás 9 horas da manhã do dia 4 abandonaram a Rotunda não cederam n'esse instante d'uma psychologia extremamente complicada ao receio de combater, de entrar em fogo. Quem, como o capitão Palla—sem contar o seu infatigavel trabalho de preparação revolucionaria—se resolve a um acto grave da vida arrastando para a revolta dezenas de homens confiados ao seu commando; quem, como Sá Cardoso se decide a montar a cavallo e sahir para a rua á frente d'uma massa indomita e sedenta de liberdade; quem faz isso apoz longos mezes de agitação mal reprimida, d'um balanço demorado aos prós e contras da aventura—não pode succumbir a um arrepio de medo, muito embora o medo seja uma impressão contagiosa que se propaga com rapidez e com rapidez se extingue.

Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes abalaram na madrugada de 4 para a insurreição com a convicção profunda de que serviam uma causa justa. Do quartel de artilharia 1 até á Rotunda, essa abalada foi vertiginosa, febril, apenas entrecortada por tres escaramuças que os revolucionarios liquidaram n'um prompto, n'um elan de energia, de coragem, de decisão. Não lhes fez mossa a attitude de muitas mulhersinhas que, despertadas na tranquilidade domestica pelo fragor d'essa correria desenfreada, appareceram então ás janellas lamentando em ais doridos a sorte futura dos revoltosos... Foram para a Rotunda com a certeza do triumpho e que não tardariam a ser secundados pelos marinheiros ou pelas forças de outros regimentos affectos á Ideia. Ainda, mais: com a quasi certeza de que a municipal se veria impossibilitada nas primeiras horas do movimento de exercer a sua acção offensiva em favor da monarchia. Mas d'ahi a pouco essa certeza e quasi certeza eram chocadas pela realidade. A municipal manobrava á vontade pelas ruas de Lisboa, os marinheiros não tinham desembarcado e os outros regimentos, se se moviam, mostravam antes hostilidade aos republicanos do que auxilio á sua iniciativa. Alvorecia a manhã de 4 e com os primeiros raios do sol nascente arrefecia o enthusiasmo dos conspiradores. Estes, que tinham entrado na Rotunda sob o impulso de uma fé intensa, d'uma confiança cega na victoria, que ali tinham cahido como uma avalanche imponente, destruidora, começavam agora a encarar a situação com a frieza e a calma que se succedem a uma phase, mais ou menos curta, de excitação e de loucura patrioticas. O mar tempestuoso da revolta principiava a sentir os effeitos calmantes da reflexão technica, da apreciação profissional...

O resto d'esta historia é conhecidissimo do publico. Os officiaes, reunidos em conselho—e custou reunil-os, porque os incidentes que então occorriam na Rotunda attrahiam a attenção ora d'um ora d'outro—os officiaes, repetimos, foram unanimes em concordar que a aventura só por milagre deixaria de liquidar n'uma verdadeira hecatombe. Decidiram o abandono do acampamento. N'essa hora de desanimo nenhum d'elles se recordou que momentos antes praticára actos de bravura e que a logica lhes aconselhava manter até final a attitude delineada no começo da insurreição. Viram apenas isto: a responsabilidade que assumiam, contribuindo com a sua presença na Rotunda para que os homens, que até ali haviam arrastado, continuassem a sacrificar-se pelo ideal republicano. Pensaram que a sua sahida do acampamento corresponderia a um dispersar immediato do povo fardado e não fardado.

E afinal não succedeu assim. Apoz essa sahida, alguns dos elementos revolucionarios, que até então se tinham limitado a executar as ordens dos chefes, tomaram a iniciativa de preencher a vaga do commandante supremo da columna da Rotunda e manifestaram a Machado Santos o desejo de combater á outrance. Diziam elles: no acampamento encontram-se ainda sargentos de artilharia 1 que conhecem o manejo das peças, que são poderosos instrumentos de guerra; temos, portanto, o necessario para resistir com vantagem a um ataque serio do inimigo. Machado Santos concordou e, tendo entrado na Revolução com o proposito firme de lhe dedicar a pelle, decidiu queimar o ultimo cartucho na defeza da posição que o acaso lhe confiára.

D'ahi a pouco, algumas das peças de artilharia foram transportadas da Rotunda para o Parque Eduardo VII, em volta do acampamento levantaram-se uns modestos obstaculos a fingir de barricadas e os revoltosos dispozeram-se a morrer dentro d'esse fraco reducto com uma coragem e um desprendimento da vida dignos do maior elogio. Pode mesmo dizer-se que n'essa occasião poucos, muito poucos, dos elementos revolucionarios tinham a noção exacta do valor da posição onde combatiam e parallelamente do heroismo que a defeza d'essa posição representava.

Poucos, muito poucos, reflectiram que, se a artilharia de Queluz os atacasse a coberto de qualquer elevação de terreno, a Rotunda soffreria fatalmente uma razzia sangrenta, difficil de impedir.

 

Cêrca do meio dia, alguns populares, que, pelo seu armamento insignificante, diminuto auxilio podiam prestar aos defensores da Rotunda, desceram a Avenida, com o intuito de conquistar a adhesão das forças acampadas no Rocio. Machado Santos sabia perfeitamente que n'essas forças existiam elementos revolucionarios e pretendia attrahil-os ao seu acampamento. Os populares executaram a manobra ao abrigo das arvores das ruas lateraes, mas, uma vez chegados á praça dos Restauradores, as metralhadoras romperam fogo e obrigaram-nos a retroceder com perdas sensiveis. Desde então, nunca mais se fez reconhecimento tão arriscado das forças inimigas e todos os elementos de utilidade á causa revolucionaria julgaram mais prudente conservar-se dentro da Rotunda, aguardando um corps-á-corps que, se se produzisse, provocaria um desastre irreparavel.

Á 1 e 30 da tarde, um vigia empoleirado n'uma figueira do parque Eduardo VII surprehendeu dois officiaes que, de espada desembainhada, se escoavam proximo dos muros da Penitenciaria. O vigia desceu da arvore e communicou as suas suspeitas a um sargento de artilharia 1, commandante d'uma das peças. O sargento visou o local e dentro de poucos instantes a columna do commando do coronel Albuquerque, que comprehendia lanceiros 2, cavallaria 4, a bateria de Queluz e infantaria 2, soffria o primeiro revez.

Paiva Couceiro, que veraneava ao tempo em Cascaes, tinha apparecido em Sete Rios, onde estacionava a columna de ataque, pouco antes do meio dia. O coronel Albuquerque, logo que elle se lhe apresentou, explicou-lhe que o quartel general o incumbira de investir contra a Rotunda e o quartel de artilharia 1. Paiva Couceiro extranhou que, dispondo ainda o quartel general de cinco regimentos de infantaria, de toda a guarda municipal, da engenharia e da guarda fiscal, destinasse para o ataque aos revoltosos apenas uma fracção minima dos effectivos e constituida na sua maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa menos apropriada ao assalto de muros ou barricadas. Mas não expressou alto e bom som o seu reparo e limitou-se a dizer ao coronel Albuquerque:

—Bem, n'esse caso, temos de escolher primeiro a posição da artilharia.

Lembrou-lhe a Penitenciaria, mas, logo a seguir, outro official informou que d'uma propriedade á esquerda, entre a Penitenciaria e o chalet do sr. Henrique de Mendonça, se podia fazer fogo, com exito, sobre a Rotunda. Paiva Couceiro, acompanhado por um official de cavallaria, reconheceu a posição indicada e, achando-a excellente, para lá conduziu a bateria, apoiada n'uma columna de infantaria 2. Mas quando ia precisamente iniciar o ataque da artilharia contra o quartel de Entre-Muros, rebentaram sobre as tropas monarchicas tres granadas despedidas do Parque Eduardo VII, ficando logo feridos um capitão, um cabo e varios soldados. Cahiram mortas algumas muares, tresmalharam-se os cavallos e as parelhas dos armões que ainda não tinham descoberto abrigo e mais de metade da força de infantaria 2, com umas tantas praças da bateria, poz-se em fuga desordenada.

O duello de artilharia prolongou-se durante uns tres quartos de hora, findos os quaes, Paiva Couceiro, suppondo que os revoltosos haviam desamparado as peças collocadas nas immediações do quartel de Entre-Muros, mandou sahir uma força de infantaria que se estendeu em atiradores no terreiro livre do lado opposto. Não tardou, porém, que essa força experimentasse baixas sensiveis. Infantaria 2 já estava então reduzida a umas cincoenta praças, que Paiva Couceiro, cêrca das 3 da tarde, tentou novamente conduzir ao assalto de artilharia 1. Baldado empenho. O tiroteio dos revoltosos não abrandava e o commandante do grupo a cavallo, reconhecendo que com tão poucos soldados não lograva o seu objectivo, mandou pedir ao quartel general que lhe facultasse duas companhias de infantaria de linha e uma da municipal para produzir novo ataque á posição de Entre-muros. A resposta do quartel general, levada a Paiva Couceiro pelo capitão Martins de Lima e tenentes Wanzeller e Ramos, foi que a bateria cessasse immediatamente o fogo e descesse outra vez á estrada de Sete Rios. Paiva Couceiro obedeceu e mandou seguir as forças do seu commando pela azinhaga da Fonte, Luz, Campo Grande, Arroyos, rua Nova da Palma até o Rocio, onde chegou noite fechada. Depois, indo apresentar-se ao quartel general, Paiva Couceiro recebeu ordem de collocar duas peças na embocadura da rua Augusta e as outras duas na embocadura da rua do Ouro para obstar a um possivel ataque da marinha.

 

Ao cahir da tarde, resolveu-se que todos os insurrectos que se encontravam no quartel de Alcantara entrassem no Adamastor. Este barco de guerra, para o embarque se fazer mais rapidamente, atracou ao vapor Guiné, da Empreza Nacional, que estava encostado á muralha, utilisando-se tambem uma falua do Arsenal e o rebocador Cabinda. Apesar d'isso, a operação decorreu com alguma morosidade, pois a columna comprehendia cêrca de 1.500 homens e levava outra vez para bordo grande quantidade de munições e uma metralhadora. Emquanto se effectuava o embarque, a face da frente do quartel era defendida por umas tantas praças e civis sob o commando do commissario Costa Gomes; o lado sul era protegido pelas baterias de bordo.

Ás 5 horas, o S. Raphael largou pelo rio acima, ficando o Adamastor para defender qualquer invasão do quartel de Alcantara pelas forças contrarias, mas com ordem de seguir mais tarde para o Terreiro do Paço, depois de receber a bordo o resto dos combatentes que ainda se encontravam n'aquelle edificio. O S. Rafael navegou sem ser hostilisado e até com applauso dos barcos mercantes fundeados entre Alcantara e a Alfandega. Ao passar no quadro dos navios de guerra, viu que o D. Carlos e a fragata D. Fernando continuavam a ostentar a bandeira azul e branca. Os seus tripulantes deram vivas á Republica, esperando despertar assim a inacção dos tripulantes de aquelles dois navios, mas essas acclamações não encontraram echo. E descreve então o tenente Parreira:

 

«Sabendo-se que os correios e telegraphos estavam defendidos por forças da guarda municipal e que o Rocio e quartel general estavam occupados por um grande nucleo de forças de infantaria 5 e caçadores 5, pelo menos, e que seria necessario desfazer essa barreira para a nossa futura juncção ás forças da Rotunda, resolveu-se, embora já proximo da noite, desalojar primeiro as forças dos correios e telegraphos, o que se fez com os tiros de artilharia de pequeno calibre e metralhadoras, seguindo-se-lhe uns tiros sobre o Rocio pela rua do Ouro com pontarias baixas.

«Como já era noite, fundeámos em frente da Alfandega para continuarmos o nosso intuito na manhã seguinte, ou n'essa noite, conforme as circumstancias aconselhassem. Apenas fundeámos, foram a terra, no nosso escaler, um dos chefes dos grupos civis acompanhado do commissario Marianno Martins, a fim de colher informações seguras sobre o estado das forças contrarias, e enviar um emissario ao acampamento da Rotunda, avisando da nossa posição e do desembarque na madrugada seguinte. Tendo colhido algumas informações favoraveis á ida do emissario para a Rotunda, voltaram para bordo n'um vapor da alfandega, cuja guarnição se poz á nossa disposição, rebocador este que foi d'um grande auxilio nas acções que se seguiram».

Manoel de Arriaga
Manoel de Arriaga antigo Deputado Republicano e 1.º Presidente eleito da Republica Portugueza


 

Pouco depois, o Adamastor, sahindo de Alcantara, ia fundear proximo do S. Rafael, isto é, em frente do Terreiro do Paço. N'esse vapor da Alfandega a que o tenente Parreira se refere, o commandante do Adamastor, tenente Cabeçadas, mandou para bordo do S. Rafael parte dos marinheiros e populares armados que o pejavam. Quasi a seguir, quinze tripulantes do D. Carlos, que tinham conseguido fugir d'esse barco n'um escaler, apresentaram-se ao commandante do Adamastor e pediram-lhe armas para luctar contra os officiaes que ainda se encontravam a bordo. O tenente Cabeçadas armou-os convenientemente e embarcou os no vapor da Alfandega, acompanhados d'um sargento, d'outras praças e paisanos, e aconselhou-os a irem no S. Rafael, antes de tentarem o assalto do D. Carlos. Assim se fez. O tenente Carlos da Maia tomou o commando superior de toda a força e, utilisando-se de novo o vapor da Alfandega, decidiu-se a entrada violenta no cruzador ainda não adherente. Como a guarnição do vapor mostrasse n'essa altura receio de collaborar no assalto, o tenente Maia substituiu-a por praças de marinha e, cêrca das 7 e 30 da noite, o barco largou do S. Rafael em direcção ao D. Carlos. Os projectores dos dois cruzadores revoltados evolucionavam, no emtanto, de modo a favorecer a arriscada tentativa.


 

«A atracação—diz o documento official que descreve o assalto—fez-se a primeira vez mal, e, repetindo-a, logo se avaliou da attitude como os officiaes receberiam os invasores, porquanto, tendo-se respondido que era um official que ia atracar, logo o commandante intimou a afastar-se sob pena de se desfechar, o que bem se notou ser seu proposito por virem muitos officiaes á borda do cruzador. É claro que se insistiu na abordagem, subindo tumultuariamente as escadas do portaló, e sendo logo recebidos a tiro, o que foi causa de tiroteio ainda de bordo do rebocador; e, uma vez a bordo, continuou este, de parte a parte, terminando rapidamente pela rendição dos officiaes e verificando-se em seguida que da guarnição do D. Carlos haviam ficado 4 officiaes feridos, e dos atacantes apenas 2, sendo um civil e uma praça de marinhagem. Immediatamente se mandaram desembarcar todos os officiaes, á excepção do tenente Silva Araujo, com quem havia entendimento para a revolução. Mandou-se tocar a postos de combate, preparando-se o navio para a vigilancia da noite, tanto mais necessaria quanto era a bordo do D. Carlos conhecida a ordem do ataque dos torpedeiros, e sahida do Berrio para o canal do Barreiro.

 

Uma vez tomado o D. Carlos, de bordo do Adamastor seguiram para ali mais praças e populares armados e os tres barcos de guerra insurrecionados não cessaram durante a noite de prescrutar as immediações com os seus projectores, sempre com o receio d'um ataque dos torpedeiros. (Falhara a arrojada tentativa do tenente Stockler para revolucionar os officiaes e praças destacadas em Valle do Zebro.)