Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo, avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos, esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de outra eramos capazes. O Cavador do Millet, no seu campo safaro, só com a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.
Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus trágicos horrores.
Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e seguro nas conquistas.
Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração, por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um profundo peccavi cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria. Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.
O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo, para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se conhece história, um assassino cruel e sordido.
Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem, pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima, acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos, fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada honestidade.
Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que gloriosa para a dignidade.
Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a apontar, e êsse de incalculável magnitude—a amizade em que no dia de Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais, por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para outros combates.
Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade. Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada; foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das raças e das nações—não porque a suprime, mas exactamente porque, reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos separar e tornar inimigos.
Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das mulheres e das crianças até à ruina das catedrais—que jámais poderão ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!—os menos desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes, indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma obra de extermínio.
O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes, e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos, corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas, podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais; o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio». «O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado. Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver, que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da pobreza, da embriaguez e vicio».4
Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista—miséria e orgulho dos govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou, perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações, isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou menos consciente e nunca escrupuloso—agora, ao dar conta pública das suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas anteriores.
Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus beneficios e seus males e agravos.
Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, O Camelo e o Fundo da Agulha, severo estudo da degradação que a posse da riqueza importa, e a Decadência da Aristocracia, onde pôs a claro a fraqueza da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros. Aí procurava acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios próprios para se exprimir no governo da nação».
Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um redactor de The Christian Commonwealth, pôde renovar o seu pensamento com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado por factos de uma trágica evidência.
Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a moralidade internacional e que é realmente a moralidade intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado, que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular, são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»
Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia. Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres. Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba, mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à voracidade insondável das oligarquias mercantes.
Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver nobremente, em paz e dando a paz.
Um artigo do Daily Chronicle, procurando as razões por que a Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava explicação insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco que unem os povos dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para essa extraordinaria fortuna, é certo que a identidade da raça dos Estados Unidos e da Inglaterra está profundamente limitada e prejudicada pela insinuação de sangue estranho, e não póde dar razão bastante de tão sólida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poderá encontrar-se «nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obediência à lei e confiança nos métodos judiciários, que são a herança comum do passado do povo americano e do povo britânico. Ambos êsses países realisaram os processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e estão por conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos. Ambos êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do militarismo que escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem anos.
«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de facto, a Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade governados pela opinião pública.»
E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica, conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu direito de assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter que brilhantemente revelou onde tem podido dominar.
Na verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o internacionalismo nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da constituição social das nações e as suas afirmações. O internacionalismo dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e processos, aparentemente; no fundo não são senhores dos seus destinos, jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que os autorisa ou condena e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos os seus aspectos muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não desperte e não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu invencível poder e a sua indomável expansão. E esta guerra mais evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou.
«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da nossa religião. Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que, se as nações são cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo de Constantino até agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua protecção a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento conhecido como a conversão de Constantino, muitos dos princípios do Evangelho se obscureceram. Durante séculos, a igreja estava pronta a abençoar exércitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado para abençoar as armas, respondera:—«Dou a minha benção à paz.» E um arcebispo—alterius orbis papa—solenemente declarava toda a guerra «obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente que toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro efectivo. Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o cristianismo nunca foi aplicado às relações internacionais. O que faliu foi uma civilisação que não era cristã»5.
Romain-Rolland, nos artigos que publicou no Journal de Genève e correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um pregão profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes apóstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de repente nos mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães, e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o campeão da união franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à disposição dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios «tendo a coragem de morrer pela fé alheia, os que não tiveram animo de morrer pela sua própria fé.» «Os representantes do Principe de Paz, sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:—Não matarás e amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemães ou de russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada um tem o seu Deus e cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte mil sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem qualquer expressão de pasmo, a scena paradoxal na estação do caminho de ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a marselheza.» Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte, segundo se crê, que «não poupou os seus anatemas aos sacerdotes inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra do modernismo, que fez êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes cuja ambição desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»
Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo, porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta de resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se associou, atiçando-o em vez de o apagar.
Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência da organização das igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do império de um princípio cuja expansão e penetração teem sido constantes desde a hora da sua revelação, cujo poder mais do que nunca nos domina e fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a solução unica e a unica redenção dos males e angústias que afligem a humanidade.
Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão de ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas cristãs veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo, abençoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito dos fiéis, de ordinário prontas em promover o culto da riqueza e do podêr; quási invariavelmente afastadas, senão inimigas, do desenvolvimento da democracia que, sendo a tradução política dos seus princípios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em último extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, subversão, opressão e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dúvidas, temores e embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, e amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da autoridade civil, subsistente durante longos séculos e por diversos modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostólicas, mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre erários e espadas, do que confiadas em cativar pela pobreza, pela isenção de toda a violência, pela verdade e pelo amor; de uma scéptica complacência com o fariseismo e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em corrigir as superstições dos seus rebanhos; afeiçoadas a uma caridade realmente abundante de deligências, desinteresses e esmolas, mas intimamente e logicamente inseparável de todas as aristocracias e hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e de quanto possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a intervenção; não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de expressão da alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em respeitar, defender e propagar a pureza dos princípios; desatentas ao inimigo que lhes invadia os domínios, não percebendo ou tomando em pouco o que o desenvolvimento da imprensa diária lhes importava, pois, trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que cada um escolhe ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurávamos, nos dias de descanso das fadigas profissionais:—as igrejas, no geral, decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, por desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira de aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da adoração dos homens, que para as servirem as tinham edificado e cimentado com o seu sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e teem. Faltaram-lhes crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma conjuntura como a presente, porque crentes não tinham, quedaram-se impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de acção.
«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretação dêsse princípio veio que, devidido o mundo e a consciência em duas metades, uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noção da dependência em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a observância das obrigações correlativas; não mais se cuidou de subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus para os seus negócios e invocam-no como quem está seguro da honestidade e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, próprio e para todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o desregramento, a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de que, se Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação do mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa, excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle adaptada, sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua sumidade, por vezes propensa a indulgências com a cobardia religiosa, sem mesmo hesitar em abençoar exércitos que, sendo portadores do ódio e da morte, são a negação de Cristo, e até mesmo pondo sob a protecção da cruz as máquinas dos caminhos de ferro que são levitas e servidores horrendos de desapiedadas cobiças.
Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas e domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por isso cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez mais inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos primeiros dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos, manter. «Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e esta espécie de cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da natureza da impostura. Mas, por muito más que as cousas sejam, não há necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura surgem—o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa religião, não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam o logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora presente.
De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência do cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde durante prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos os altares e espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer na solução dos problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso tempo resulta é a vitória da religião e do cristianismo em toda a latitude, como promessa unica de salvação. Cresceram fóra das suas igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas invocações, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente, imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e defendiam; cresceram, porêm, continuamente e, sendo divinos, nunca como agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remédio mais seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior altura, erguidos não só pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre foi todo o seu ser e substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da logica, pela meditação e pela reflexão, pelas conclusões da inteligência e pela investigação das leis da vida, pelas demonstrações da experiência, pelas lições da história desapaixonada e isenta de toda a obsecação de sectarismo.
A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e discordia em auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no reconhecimento da mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação do mesmo mistério, na justificação do mesmo amor e no respeito da mesma regra que dêsse princípio deriva. Religião, sciência e filosofia que fôram atrozmente irreconciliáveis, resolvendo nas fogueiras, nas masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas divergências e conflictos, caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma jornada. Já a ninguem surpreende que um publicista de superior reputação se detenha a proclamar o «valor religioso do livre pensamento», significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade do espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade. Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma igreja infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O pensamento não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda menos, por modo algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava que essa fé podesse definir-se como um estudante a definiu—«aquela qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente destituídas de verdade.» Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo, acolhe bem o pensamento porque com êle está mais segura de si. Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, considera o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr que voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade foi auxiliada por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal da realidade da nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para o campo largo da razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e a sciência, levadas para qualquer cousa como um terreno comum.
«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos dogmas, vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida; mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na sabedoria e no amor de Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em o nosso dever com os nossos irmãos, são, pensa ele, mais profundamente sentidos e mais sinceramente possuídos do que nunca. A sciência abdicou da sua velha arrogancia e está preparada para se apresentar de cabeça curvada, como um humilde investigador nos palácios do Oculto.»
São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e no govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião e o seu valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma torrente, no meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida de apostolado político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se, confessa publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a política e se consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas suas palavras, não o desengano de um profeta mas a desilusão de uma época que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos martírios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvação que êles não continham. São a condemnação final de toda a idolatria materialista dos valores económicos e a certeza de que só a inspiração religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de fundar.
Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado O Sermão da Montanha e a Política prática. Pretendia que «não podemos realizar imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da sua realização, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as leis da natureza humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas pelos que adoram Mamon e Belial».
Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da terra, e em particular na política, examinando a possibilidade de aplicação das bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à simplicidade, à misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por engenhosos sistemas e subtis abstrações mas pelos exemplos históricos mais vulgares, vinha por fim a afirmar que é possivel governar uma nação pelos princípios estabelecidos no Sermão da Montanha e que é sómente em quanto assim procedemos que a sociedade póde elevar-se dos tipos mais baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no espírito do cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião é que vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e dos demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens públicos podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma legislação humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste o facto de que essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará lembrar o que a legislação social e política tem sido desde o comêço do século desenove—o que ela fez protegendo as crianças, de que infernos vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a dignidade, que lutas titânicas sustentou para isso, que barreiras formidáveis de prejuízos e vis interêsses lhe foi necessário transpôr e vencer. E que princípio, que fôrça realizava êsses milagres senão o cristianismo que dos livros sagrados se derramára nos códices das doutrinas e das instituições políticas?
Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores, seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância daquele valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem, sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a consciência dos homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomínio maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princípios do Evangelho considerados na sua influência prática, na sua ilimitada aplicação à disciplina e conduta da vida.
Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra, Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as fôrças unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado a catástrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se por tal forma que as fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas não tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as fúrias da guerra. Sempre acreditára e confessára que, se as nações da Europa continuassem na política internacional dos ultimos quinze anos, provocando hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de armamentos, o resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a causa da guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais, deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os militaristas e os diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas aspirações democráticas e levados por interesses económicos e outros opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores apossado do govêrno das relações internacionais, e debalde se teria provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os trabalhadores não podiam livrar-se.
Sem dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar no podêr da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está longe de se conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as nações. Mas para os estranhos às artes da actividade política prática, medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que só no vigor das tendências do espírito encontram, o mais provável será que não fôsse a deficiência de direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a guerra; antes teria acontecido que a insuficiência do espírito anti-militarista entre os trabalhadores não permitiu que êles se acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificável monstruosidade. Para os que mais esperam da inspiração interior que do engenho prático, a responsabilidade dos trabalhadores está amplamente atenuada pela sua miséria material e indigência moral correlativa. A civilização moderna, fazendo-os escravos de uma escravidão de que a custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes podia ensinar menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas revoltadas.
Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos sórdidos das chancelarias, dos palácios e das casernas. Teria sido a debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um simples erro de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição perante poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a guiar e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja suficiente para a substituir.
Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor, quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr termo a esta peste da guerra, não há senão um remédio, e é «o geral abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos, ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam.
Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros, negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo; apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho destas avidas e deshumanas ambições:—tais são os fins das guerras de hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós, porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que nós espoliamos.
«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros, sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra6.»
Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre—uma derrogação do princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola. Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de resurreição nos anunciam.
Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas, tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu.
Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na Grande Ilusão, largamente comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e renovado no Prussianismo e a sua Destilação, isso bastava para que a paz e a guerra fôssem um pleito findo.
Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos, o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida, aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia, tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião; debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade, quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático, socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty, citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo, do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade, como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a associação atravessa os limites dos estados, que são puramente convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em respeitar um mujik russo porque pertence a uma grande nação, ou em desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da vida».
Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os desenvolvimentos de uma geração?».
Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos, devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater, cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e decaíndo, continuamente se sustenta.
De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca, promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso».
A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão económica—usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar, consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália, eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos portais. Era uma sociedade de escravos—escravos para combate, escravos para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade, quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais. Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia, esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que, por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça universal em todo o sentido.
Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar êsse prodigioso renascimento.
Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!... Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra?
Ferrero, o historiador da Grandeza e Decadência de Roma, diz-nos no último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta; interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única».
Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra. Dedicado à Workers' Educational Association, e por isso posto em termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos, colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem.
Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois processos.
Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem, onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações dos retalhos de papel e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel? Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes, e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo.
Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e em bem das suas nações».
Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem, nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário, merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos povos. Pressupõem um status quo que se mantem, não simplesmente, como o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem, finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido».