a
clara
(Trad.)
Paris, outubro.
Minha muito amada Clara.—Toda em
queixumes, quasi rabugenta, e mentalmente tarjada de luto, me appareceu
hoje a tua carta com os primeiros frios de outubro. E porquê,
minha dôce descontente?
Porque, mais féro de coração que um
Trastamara ou um Borgia, estive cinco dias (cinco curtos dias de
outomno) sem te mandar uma linha, affirmando essa verdade
tão patente e de ti conhecida como o disco do
sol—«que só em ti penso,
e só em ti
vivo!...» Mas não sabes tu,
oh super-amada, que a tua lembrança-me palpita na alma
tão natural e perennemente como o sangue no
coração? Que outro principio governa e mantem a
minha vida senão o teu amor? Realmente necessitas ainda,
cada manhã, um certificado, em letra bem firme, de que a
minha paixão está viva e
viçosa e te envia os
bons dias? Para
que?
Para socego da tua incerteza? Meu Deus! Não será
antes para regalo do teu orgulho? Sabes que és Deusa, e
reclamas incessantemente o incenso e os canticos do teu devoto. Mas
Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de
triumphal belleza, amiga de S. Francisco de Assis, confidenta de
Gregorio IX, fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e
milagres—e todavia só é festejada uma vez, cada
anno, a 27 de agosto!
Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha fé!
Não! não mandei essa
linha superflua, porque todos os males bruscamente se abateram sobre
mim:—um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros; um
confuso duello, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um
ramo secco d'olaia soffreu, cortado por uma bala; e, emfim, um amigo
que regressou da Abyssinia, cruelmente Abyssinisante, e a quem tive de
escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, as
façanhas e os leões!... E ahi está
como a minha pobre Clara, solitaria nas suas florestas, ficou sem essa
folha, cheia das minhas
letras, e tão
inutil para a segurança do
seu coração como as folhas que a cercam,
já murchas decerto e dançando no vento.
Porque não sei como se comportam os teus bosques;—mas aqui
as folhas do meu pobre jardim amarellaram e rolam na herva humida. Para
me consolar da verdura perdida, accendi o meu lume:—e toda a noite de
hontem mergulhei na muito velha chronica d'um Chronista medieval da
minha terra, que se chama Fernam Lopes. Ahi se conta d'um rei que
recebeu o debil nome de
Formoso, e que, por causa d'um grande amor,
desdenhou princezas de Castella e de Aragão, dissipou
thesouros, affrontou sedições, soffreu a
desaffeição dos povos, perdeu a vassallagem de
castellos e terras, e quasi estragou o reino! Eu já conhecia
a chronica—mas só agora comprehendo o rei. E grandemente o
invejo, minha linda Clara! Quando se ama como elle (ou como eu), deve
ser um contentamento esplendido o ter princezas da christandade, e
thesouros, e um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos,
finos e languidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que
promettem... Na verdade só se deve amar quando se
é rei—porque só então se
póde comprovar
a altura do sentimento com a magnificencia do sacrificio. Mas um
méro vassallo como eu (sem hoste ou castello), que possue
elle de rico, ou de nobre, ou de bello para sacrificar? Tempo, fortuna,
vida? Mesquinhos valores. É como offertar na mão
aberta
um pouco de
pó. E depois a bem amada nem sequer fica na historia.
E por historia—muito approvo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a
do divino Budha. Dizes, desconsoladamente, que elle te parece apenas
um
Jesus muito complicado. Mas, meu amor, é
necessario desentulhar esse pobre Budha da densa alluvião de
Lendas e Maravilhas que sobre elle tem acarretado, durante seculos, a
imaginação da Asia. Tal como ella foi,
deprendida da sua mythologia, e na sua nudez historica,—nunca alma
melhor visitou a terra, e nada iguala, como virtude heroica, a
Noite
do
Renunciamento. Jesus foi um proletario, um mendigo sem vinha
ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos
da Galiléa, aconselhando aos homens a que abandonassem como
elle os seus lares e bens, descessem á solidão e
á mendicidade,
para penetrarem um dia n'um Reino venturoso, abstracto, que
está nos Céos. Nada sacrificava em si e instigava
os outros ao sacrificio—chamando todas as grandezas ao nivel da sua
humildade. O Budha, pelo contrario, era um Principe, e como elles
costumam ser na Asia, de illimitado poder, de illimitada riqueza:
casára por um immenso amor, e d'ahi lhe viera um filho, em
quem esse amor mais se sublimára:—e este principe, este
esposo, este pae, um dia, por dedicação aos
homens, deixa o seu palacio, o seu reino, a esposada do seu
coração, o filhinho adormecido no
berço de nacar, e, sob a rude estamenha de um mendicante,
vai através do mundo esmolando e prégando a
renuncia aos deleites,
o aniquilamento de todo o desejo, o illimitado amor pelos
sêres, o incessante aperfeiçoamento na
caridade, o desdem forte do ascetismo que se tortura, a cultura perenne
da misericordia que resgata, e a confiança
na morte...
Incontestavelmente, a meu vêr (tanto quanto estas excelsas
coisas se podem discernir d'uma casa de Paris, no seculo XIX e com
defluxo) a
vida do Budha é mais meritoria. E depois considera a
differença do ensino dos dois divinos Mestres. Um, Jesus,
diz:—«Eu sou filho de Deus, e insto com cada um de
vós, homens mortaes, em que pratiqueis o bem durante os
poucos annos que passaes na terra, para que eu depois, em premio, vos
dê a cada um, individualmente, uma existencia superior,
infinita em annos e infinita em delicias, n'um palacio que
está para além das
nuvens e que é de meu Pae!» O Budha, esse, diz
simplesmente:—«Eu sou um pobre frade mendicante, e
peço-vos que sejaes bons darante a vida, porque de
vós, em recompensa, nascerão outros melhores, e
d'esses outros ainda mais perfeitos, e assim, pela pratica crescente da
virtude em cada geração, se
estabelecerá pouco
a pouco na terra a virtude universal!» A justiça
do justo,
portanto, segundo Jesus, só aproveita egoistamente ao justo.
E a justiça do justo, segundo o Budha, aproveita ao
sêr que o substituir na existencia, e depois ao outro, que
d'esse nascer, sempre durante a passagem na terra, para lucro eterno da
terra. Jesus cria uma aristocracia de santos, que arrebata para o
céo onde elle é Rei, e que constituem a
côrte do céo
para deleite
da sua
divindade;—e não vem d'ella proveito directo para o Mundo,
que continua a soffrer da sua
porção de Mal, sempre indiminuida. O Budha, esse,
cria, pela somma das virtudes individuaes, santamente accumuladas, uma
humanidade que em cada cyclo nasce progressivamente melhor, que por fim
se torna perfeita, e que se estende a toda a terra d'onde o Mal
desapparece, e onde o Budha é sempre, á beira do
caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha flor, sou pelo Budha.
Em todo o caso, esses dois Mestres possuiram, para bem dos homens, a
maior porção de
Divindade que até hoje tem sido dado á alma
humana conter. De resto, tudo isto é muito complicado; e tu
sabiamente procederias em deixar o Budha no seu Budhismo, e, uma vez
que esses teus bosques são tão admiraveis, em te
retemperar na sua força e nos seus aromas salutares. O Budha
pertence á cidade e ao collegio de França: no
campo a verdadeira Sciencia deve cahir das arvores, como nos
tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as
folhas dos livros. Sobretudo do que eu—que aqui estou
pontificando, e
fazendo pedantescamente, ante os teus lindos olhos, tão
finos e meigos, um curso escandaloso de Religiões
Comparadas.
Só me restam tres pollegadas de papel,—e ainda te
não contei, oh doce exilada, as novas de Paris,
acta Urbis. (Bom, agora latim!) São
raras, e
pallidas. Chove: continuamos em Republica; Madame de Jouarre, que
chegou da
Rocha com menos
cabellos brancos, mas mais cruel, convidou alguns desventurados (dos
quaes eu o maior)
para escutarem tres capitulos d'um novo attentado do barão
de Fernay sobre a
Grecia; os jornaes publicam outro prefacio do snr.
Renan, todo cheio do snr. Renan, e em que elle se mostra, como sempre,
o enternecido e erudito vigario de Nossa Senhora da Razão; e
temos, emfim, um casamento de paixão e luxo, o do nosso
esculptural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave, aquella
nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente, os
dois milhões do cervejeiro, e que tem tão
lindamente engordado e ri com dentes tão lindos. Eis tudo,
minha adorada... E é tempo que te mande, em
montão, n'esta linha, as saudades, os desejos e as coisas
ardentes e suaves e sem nome de que meu
coração está cheio, sem que se esgote
por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoraveis,
que beijo com submissão e com
fé.—
Fradique.
Notas:
[1] Estas
cartas constituem verdadeiros Ensaios
Historicos,
que, pelas suas proporções, não
poderiam entrar n'esta collecção. Reunidas as
notas e fragmentos dispersos, devem formar um volume a que o seu
compilador dará, penso eu, o titulo de
Versos e Prosas de Fradique Mendes.
[2] Muitas
das cartas de Fradique Mendes, aqui publicadas,
são naturalmente escriptas em francez. Todas essas
vão acompanhadas da indicação
abreviada
trad. (traduzida).
[3] O velho
creado de quarto de Fradique Mendes.