[2] É este o titulo do manuscripto: Itinerario do ex.mo snr. bispo conde, restituido ao seu bispado, para o qual partiu de Lisboa no dia 11 de agosto de 1777.
Não conheci, em Lisboa, esta senhora D. Maria, bastantemente historica e benemerita de immorredoura escriptura.
Conheceu-a aquelle esclarecido arcebispo, cujos sonhos, na noite da demencia, o leitor ouviu no sublime desarranjo chamado A catastrophe.
Est'outro escripto, menos nevoento e cerrado das turvações do delirio, tem especies em que o riso se trava com o compadecimento, e outras em que a compaixão d'aquelle distincto homem nos redobra o pezar de se haver perdido no vigor da idade tamanho espirito.
D. MARIA CARACA BONAPARTE, OU A BURRINHA PROTESTANTE
D. Maria Caraca teve tres estados: foi orphã, casada e viuva: seu pai morreu na guerra da Italia combatendo contra os francezes pela independencia da peninsula italiana; era natural de Milão, cantor da opera e grande enthusiasta das novas idéas da republica, que haviam volcanisado o seu cerebro até o delirio.
Quando este maestro da opera viu que a França proclamava a liberdade para tyrannisar os povos, lançou-se no partido mais hostil aos francezes da republica sanguinaria, e morreu deixando a sua morte bem vingada.
As suas idéas eram falsas e exageradas em religião e em politica; porque seguia occultamente todos os erros e absurdos de Luthero e de Calvino: o odio, que tinha ao summo pontifice era tão profundo, que o obrigava a blasphemar e praguejar contra os cardeaes e contra a santa sé, contra os bispos e contra as mitras e cadeiras.
Bonaparte venceu muitos ou todos os partidos que estiveram em campo contra a França: o general da republica principiou a imperar, e a exercer a sua tyrannia nas provincias muito antes de exaltar na metropole o throno do seu fatal despotismo, como sempre acontece.
Verres na Sicilia era mais do que imperador; Cesar sempre imperou nas provincias. Se D. Affonso d'Albuquerque fosse susceptivel de ambição podia usurpar o titulo de imperador da Asia; porque o povo desejava conferir-lhe todas as attribuições do imperio.
Bonaparte no Egypto era saudado como rei do fogo; Mahomet e todos os impostores e usurpadores da sua escola recebem a mesma baixa e servil adulação que as almas mais vis sempre se empenham em prodigalisar ao vencedor. A sciencia, e a virtude de homem grande, consiste em desprezar estas frivolas demonstrações e em saber reprimir todos os excessos do enthusiasmo, que se esvaem e perdem como o fumo.
Bonaparte passou como um cometa; a sua descendencia extinguiu-se e toda a sua parentela: existe na throno de França um homem que não tem pai nem mãi, nem alliança, nem façanhas nem grandeza. É um homem que apenas aspira a fazer com auxilio alheio uma memoria que mereça ser approvada em uma academia.
Os protestantes urdem e tecem muitos generos de lisonja aos seus heroes; são arcos e pompas de triumpho, grinaldas, festins, e poemas, representações, e orchestras, lisonjas e desvanecimento.
Um deputado da convenção nacional disse a um seu amigo e collega, que ia para Lião em commissão sanguinaria: tu verás em Lião a minha esposa, abraça-a.
N'este tempo todos os revolucionarios levavam as suas mulheres aos horrorosos estupros do templo profanado: a mulher que servia de modelo, e o homem que a gozava, eram escolhidos entre todos os concorrentes sem attenção ao estado nem á condição dos que eram designados.
Na Italia tributavam em quasi toda as cidades a Bonaparte a honra de o desposar com a mulher mais formosa; Bonaparte aceitava este tributo da infamia protestante, gozava e passava para outra cidade, aonde era recebido com igual torpeza.
Em Milão cahiu a nefasta sorte em Maria Caraca Bonaparte; e como era filha d'um homem morto pelo exercito francez recusou sujeitar-se á estranha condição para que a designaram, apesar de ser tão protestante como seu pai.
Os influentes de Milão que andavam empenhados n'esta impia e baixa lisonja corromperam todos os parentes da burrinha; de sorte que cedeu de seu odio politico, e principiou a ser do conquistador.
Se Maria Caraca fosse verdadeira catholica, jámais consentiria em tão grande infamia e vileza, porque esta especie de tyrannia é mais impia e mais cruel de que era o tributo das cem virgens para o serralho e para o harem.
Uma amante ou manceba podem nutrir uma esperança honesta, e chegam ás vezes a legitimar as suas uniões e prole; estas burrinhas são sempre a negação da moral, o escarneo do affecto, e o epigramma do amor e da sympathia. O protestantismo trata todas as mulheres como negras escravas. Despreza-as para as fazer bem vis; porque a mulher deve ser semelhante ao homem que a elege, e que a fórma e educa para sua companheira.
Os milanezes deram a um tio de Maria Caraca a espectativa de um canonicato, prometteram á sua victima dous mil cruzados de dote, e por esposo o primeiro cantor da opera de Milão.
Maria Caraca e a sua familia realisaram todas as condições; os protestantes de Milão cumpriram as suas fielmente: o casamento verificou-se, o dote sahiu da renda da cidade, que pagou para Bonaparte ter uma desgraçada por companheira dos seus vilissimos prazeres.
Os que dispunham tão impiamente dos beneficios ecclesiasticos não podiam ter duvida em defraudar o thesouro do municipio.
Maria Caraca e seu marido seguiram o partido de Bonaparte, e na restauração dos thronos viram-se na necessidade de emigrar para Portugal: perderam patria, emprego, e até o sobrenome de Bonaparte de que usaram por muito tempo.
O marido morreu e deixou um filho e uma filha em Lisboa; o filho exerceu n'esta cidade por algum tempo com seu pai a profissão de musico: tambem morreu: eu só conheci a viuva e a filha chamada D. Thereza, as quaes moraram na rua dos Poyaes de S. Bento.
Quantas vilezas, quantas degradações, e quantas tyrannias envolve o atroz procedimento de Milão! Não ha impiedade mais provocadora, não ha infamia mais torpe, nem injuria maior feita ao mesmo tempo á igreja e ao estado, á mulher e ao esposo, ao amor e ao estado e á santidade do matrimonio.
Estas estrangeiras eram da escola da infame Bisardeli: conviviam com a sua amante, que foi muito tempo em Lisboa uma mulher luxuriosa e depravada, que vendia todo o fumo da perfida nunciatura d'aquelle tempo.
Eu foi conduzido em mil oitocentos e quarenta como deputado para a casa das referidas Caracas: as lojas maçonicas dispunham do meu destino traiçoeiramente para dispor de minha vida, e vivi por mais de um anno na casa dos Poyaes de S. Bento com outros deputados, que serviam as lojas, e que me vendiam, e entregavam aos seus caprichos: por esta razão ouvi e aprendi o esboço d'esta negra historia; assim agora ouço e aprendo o seu complemento e torpissimo enredo.
A inspiração é a minha sabedoria; se em outro tempo soube alguma cousa agora declaro, que nada sei e que todas as minhas idéas são communicadas e inspiradas, do alto céo, e no seu piissimo docel.
Eu tinha trinta annos de idade, e julgava que todos os homens eram de boa fé, e amigos do seu semelhante. Bons e excellentes para a companhia e convivencia, os traidores são os mais lisonjeiros: eu tive seis companheiros de casa n'esta época: só um vive, cinco já falleceram.
Os meus inimigos, que são todos os vilissimos protestantes, fizeram as maiores diligencias para me matar: não houve astucia, nem enredo, nem traição que não empregassem para conseguir este malevolo fim: é bem de presumir que um d'estes fosse o veneno.
A infanta e todos os usurpadores da casa de Bragança, o governo e todos os seus clientes, a maçonaria e todos os seus agentes nacionaes e estrangeiros, ora armavam contra mim o braço do cruel Mattos Lobo, ora forjavam ou fingiam revoluções e acclamações nocturnas para me surprehender no conflicto, ora lançavam sortes para me seguir de noite e para me matar nos arroios da cidade ou nas encruzilhadas: ora engajavam estrangeiros e carniceiros por grandes sommas para que me procurassem e matassem na propria casa, aonde eram recebidos pelas infames Caracas.
Um d'estes era um lanceiro, e carniceiro, que esteve na guerra do Porto, a quem deram o preço do regicidio, e o bilhete de passagem em um brigue para sahir para França logo que consummasse o attentado.
Todas estas traições e maquinações eram cumulativas, horrorosas, e tão desleaes e insidiosas, como as que se urdem ao innocente que não sabe ou não póde defender-se. Eu estava no caso da mais perfeita ignorancia porque nem sabia o que era: infelizmente a minha vida era n'este tempo mui sujeita á fragilidade e a quedas que eu não procurava, antes tentava e não sabia evitar.
Estes monstros da tyrannia do inferno pediam e repelliam a minha eleição; porque o seu fim unico exclusivo era a minha morte; só admittiam a meu favor algumas apparencias ou disfarces com que encobriam as suas tramas e horrores: eram seducções, tyrannias, convites para lugares de traição, venenos, e armas occultas. Se viam que eu vingava como advogado em Villa Real, pediam para eu ser eleito deputado só para me atraiçoarem em Lisboa; e logo se arrependiam, e punham todos os embaraços da sua infame escola e odiosa seita á minha eleição e elevação; se viam que eu não era morto em Lisboa desejavam que eu fosse para Coimbra aonde punham como ultima mira a cruz de meu martyrio e funeral.
Como podia livrar-me de tão infernal perseguição? Os monstros não consentiram mais na minha eleição e ainda me propozeram pelo circulo de Arganil, onde fui eleito deputado no anno de 1852, mas os infames logo se arrependeram, e cassaram ou annullaram a eleição na camara, sem me ouvir, e sem me mostrar o processo das suas infernaes tramoias.
Quem deixaria de eleger-me para todas as legislaturas depois de vêr e saber que o meu nome era singular e unico, e que a minha representação não tinha igual em todo o mundo e redondeza?
Quando concordaram na minha eleição para suffraganeo do patriarchado entregaram a minha vida ao maldito e infernal nuncio, e ao abjecto e tredo patriarcha e ás suas seitas e partidos para se desonerarem da tarefa que os infames julgaram e declararam superior ás suas forças.
Estes monstros esgotaram toda a traição, todas as maquinações e os seus enganos, e não conseguiram o que desejavam: o perfido e abominavel ministro do anti-papa chegou a convidar todas as seitas para o espectaculo do meu envenenamento, as quaes enviaram os seus deputados e representantes para assistir a esta scena de horror que se representou na presença da diplomacia cruenta das actuaes usurpações da vergonhosa Europa e da America por duas vezes.
Só Deus omnipotente podia isentar-me de tão imminentes catastrophes. O nosso fim actual é descrever a burrinha protestante e a sua bestial condescendencia e venalidade.
Um deputado que vivia na mesma casa da viuva Caraca mandou um seu criado ao meu quarto para me offerecer uma criada da casa em que ambos viviamos; eu não sabia desviar estes golpes, que o Senhor deixava ao meu alvedrio para o merecimento, e para que désse a devida preferencia á sua santa luz e mandamento.
O inimigo occulto era d'uma seita de usurpadores de Deus: a sua traição vingou por pouco tempo; quando me tentou com alguma pessoa da sua familia não conseguiu o que desejava; o criado fez-lhe a traição, que elle me urdiu a mim.
Os inimigos da nossa casa e dynastia recorreram a D. Thereza Caraca, e fizeram-lhe o mesmo partido, que os milanezes tinham feito á sua mãi para que me seduzisse e envenenasse.
Prometteram-lhe dinheiro, um marido, e um emprego para este, e realisaram todas estas promessas, mas eu só bebi meia taça de seu perfido veneno; na primeira occasião que tive de lucido intervallo repelli a seductora, e todas as suas seducções, e, como vi que se obstinava, sahi da casa.
O que é a verdade? esta mulher disse que estava gravida e tentou attribuir-me o seu ventre, ou isentar-se pelo aborto do seu nefando e odioso mister de calumniadora; disse-me que ia queixar-se de mim ao nuncio, ou agente occulto da junta apostolica que por este tempo estava em Lisboa, em quanto estiveram interrompidas as relações com a côrte de Roma. Eu zombei da perfidia e do sarcasmo d'esta mulher calumniadora e embusteira; e procurei livral-a de sua tentativa de aborto, o que felizmente consegui por dinheiro.
Esta odiosa creatura teve n'este tempo dous amantes: o primeiro era um deputado, que a seduziu para que me envenenasse, o qual morreu pouco tempo depois, e logo adoeceu tão gravemente que parecia um espectro, ou um cadaver ambulante: era um agente dos pedreiros livres.
Havia n'esta casa só duas pessoas da familia, a mãi e a filha; eu tive dous enlouquecimentos de falso amor; repelli duas tentativas da mesma perfida natureza e nojenta cavillação.
D. Thereza tocava dous instrumentos e cantava, tinha um amante para casar que a acompanhava no canto e com o violoncello: eu comprei em quanto alli estive dous pintasilgos ensinados a tirar agua com o bico, os quaes foram ambos mortos por um gato, que havia em casa.
A criada tambem teve dous amantes, um era sapateiro coxo, que a procurava e requestava para casar: ambos realisaram os seus casamentos.
A filha da viuva Caraca tinha na mesma casa um estabelecimento de capella, e inculcava-se ao respeitavel publico como modista: a mãi tinha o seu estabelecimento de hospedaria.
Eram dous estabelecimentos: a casa tinha sahida para duas ruas e duas portas para a rua dos Poyaes de S. Bento: viveram alli commigo cinco deputados, dous delegados, dous juizes do districto, dous governadores civis, dous juizes da antiga magistratura, dous Domingos dos quaes um era o atraiçoado e o enganado por todos os outros: eramos ambos deputados pelo circulo de Villa Real: os outros eram deputados por outros circulos.
Os delegados foram Domingos Vieira, e José Manoel Botelho, os juizes foram o José Maria da Chamusca e o Quesado, os governadores civis foram o dr. José Maria e João Pedro Pessanha, os juizes antigos foram o mesmo José Maria e Domingos Vieira, e não preciso dizer quem eram os Domingos, senão que eu sou já tão diverso do que era, que não pareço o mesmo. Os cinco e seis deputados formavam as cinco e seis qualidades já referidas.
Quem poderá calcular as lagrimas que tenho chorado para carpir os peccados e os erros da minha mocidade, e para os emendar com divina graça e misericordia? está-me parecendo que reunidas faziam o maior lago dos nossos passeios e jardins.
Actualmente não como carne nem peixe não bebo vinho nem cerveja, passam-se quinze dias e tres semanas sem que prove doçura, nem chá, nem café, nem chocolate, como por medida e por peso, e não uso de carne nem de genero algum de tabaco, não passeio, nem vou aos espectaculos; prefiro andar a pé e só peço ao Senhor que se compadeça da minha alma.
A burra protestante é bem parecida com a vacca, e com o burro da seita: eu não conversava com estas em pontos ou artigos da santa fé, o seu veneno era a maior traição e os seus reconditos apenas me revelaram parte da sua historia de Milão.
Eu sempre assisti á missa mais catholica de que tinha noticia, e não suspeitava em ninguem cavillação ou perfidia tão negra e atroz, que chegasse a ostentar fé falsa da diabolica e tenebrosa consciencia: agora sei que ha muitas d'estas embrutecidas consciencias, e não duvido que as duas Caracas fossem d'este hediondo esconjuro.
Os maçons são em geral d'esta sanhuda seita do inferno; os usurpadores de Portugal pactuam com o demonio, e entregam as almas para poderem possuir as leis das santas casas do divino Salvador.
Mas estes venenosos monstros apenas gozam a presa: o direito santo e eterno foge d'elles como foge a cerração quando nasce a aurora que vem remir o mundo.
Os mesmos inimigos recebem outro engano ou desengano semelhante quando tentam usurpar o poder da santa igreja para legitimar a sua tyrannia.
A falsa communhão dos protestantes está no estado: não póde legitimar os actos do poder usurpador e dominador.
O estado catholico está na igreja, e por isso legítima os seus poderes todas as vezes que recorre para este fim ao poder espiritual do summo pontifice. A era actual é a perfeição da disciplina.
O snr. Joaquim Antonio de Sousa Telles de Mattos, critico erudito e menos conhecido que merece, publicou, em Evora, um opusculo intitulado: A imparcialidade critica do snr. Joaquim de Vasconcellos. Allude á Analyse critica da versão do Faust. A obra do critico do snr. visconde de Castilho é um livro crasso que morreu de tabardões, e jaz no carneiro das livrarias esperando que o dente roaz da carcôma o pulverise por modo que as letras portuguezas se desenfezem d'aquellas escamas de ignorancia e odio.
O snr. Telles de Mattos colligiu algumas necedades graudas que denominou vasconcellismos.
Abre a lista, com a novidade—declinar verbos. Eis a passagem onde se encontra o lerdo descôco do critico de Castilho: Nenhum doutorando dos ultimos cinco annos em Coimbra, estaria no caso de declinar os verbos auxiliares allemães, sem merecer palmatoada... (pag. 26). E acrescenta o snr. Mattos: «Quando eu vi o Sejai e Estejai julguei que era erro typographico dos germanismos annunciados; vendo porém declinar verbos, percebi que o snr. Vasconcellos saberá tanto de allemão como qualquer analphabeto nascido debaixo do paternal carinho de Bismarck.»
Observa que a pag. 57 o snr. Vasconcellos inclue a Suissa na Allemanha; e acrescenta: «A Suissa pertence á Allemanha na geographia do snr. Vasconcellos; ella deve ser equiparada á sua grammatica.»
Nota que o snr. Vasconcellos escrevendo: os manes do Olympo (pag. 128) désse a perceber que os deuses olympicos tem manes. Manes tanto significam almas dos mortos como deuses infernaes. A mythologia do snr. Vasconcellos é como a geographia, e não desdiz da grammatica.
Cita, na pag. 208, o imperativo do verbo ser, apud Vasconcellos: «Sejai pois corajoso e apparecei como modêlo.» E a pag. 507: «Sejai tão infames quanto quizerdes.» E a pag. 337: «Estejai dentro ao golpe da sineta.» Coup de clochette—golpe de sineta, segundo Vasconcellos. Em portuguez, traduz-se badalada, ou toque de sineta. Desculpem esta observação os alumnos de instrucção do 3.º anno dos lyceus.
«Desço eu (diz o snr. Vasconcellos a pag. 239) sem cessar de cima para baixo.» O snr. Telles de Mattos ajunta: «Leitor, agradece a fineza: sem o pleonasmo, ficavas percebendo com certeza que se desce de baixo para cima.»
Os cães, apud Vasconcellos, grunhem. A pag. 273: «Tu vês um cão... elle grunhe.» A pag. 277: «Não grunhes, cão!» E torna: «Quer o cão... grunhir.» Nunca se usurpou tantas vezes a linguagem ao cevado.
Se o snr. Vasconcellos estudasse portuguez pelo Methodo de Monteverde, teria aprendido nas Vozes dos animaes do snr. Pedro Diniz como vozêam cães e porcos.
Muge a vacca; berra o touro;
Grasna a rã; ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo;
Tambem uiva e ladra o cão.
..........................
Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o succo das flôres,
Costuma a abelha zumbir, etc.
Tambem Vasconcellos, traduzindo Gœthe, descobriu no cão um caroço (pag. 285). Diz-lhe o snr. Telles que Kern significa pevide ou caroço, quand se trata de fructos; mas n'outras conjuncturas, é amago, substancia, etc. O snr. Vasconcellos, quando tirava os significados de Kern, achou caroço, e pespegou-o logo no cão; por isso o cão encaroçado grunhiu tres vezes. Podéra...
A pag. 474, escreve Vasconcellos: ouvir por um oculo. Eu esta phrase não a estranho. Mais me espantára, se elle dissesse: vêr por uma corneta acustica.
Dá-nos Vasconcellos a pag. 503 Tantalo enterrado até ao queixo na agua. Póde uma pessoa estar enterrada na agua, e estar submergida na terra. Tambem não estranho isto; mais me assombra a coragem da ignorancia, se é que não ha um fado irresistivel e tolo que nasceu comnosco, ou com nós nasceu, como diz Joaquim de Vasconcellos a pag. 339.
Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido José de Sousa Bandeira, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874.—O berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do redactor do Azemel e do Artilheiro. Bandeira é o patriarcha da facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de consultar os Annaes da imprensa da liberdade restaurada, quando houver de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias, José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas, escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal. Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação.
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No Minho, por D. Antonio da Costa. Lisboa, 1874.—Apenas publicado, divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado em ramos de variada litteratura. Os Tres mundos foi obra que affirmou os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do Minho é o repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação, estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas—em que não ha vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia—passar uma noite em Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas hospedarias não fossem alfobres de insectos apteros com seis patas, e hemipteros com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga.
Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no Compendio de civilidade do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e proveito do homem.
O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou copiosamente no capitulo intitulado: Uma insomnia. Quem sabe se, n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas? Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um de cada lado, e os outros bichos no meio.
Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro, intitulados O Bom Jesus do Monte, Um castello feudal em 1873, A mulher do Minho, e a Ultima impressão. N'estas paginas que fecham o livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda caritativa. «Ah, senhora!—escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da instrucção—devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: É aquella!»
O livro No Minho está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e, todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro dos Tres mundos, relido com intelligente ardor e creio que já reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua indole peculiar ao genero escoteiro—digamol-o assim—d'estas cousas levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do amor dos Espronceda e Musset.
Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos, condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de porvindouros beneficios a filhos e netos—consolação unica, mas santa, que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente.
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Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo visconde de Benalcanfôr. Porto, 1874.—Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.
No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna, carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante, arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães—o estylo que é a dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em 1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a politica do Nacional, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga.
Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e... adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se convenceram que o visconde de Benalcanfôr era o epitaphio de Ricardo Guimarães.
Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua.
D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no boleio da phrase—ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a consciencia d'essa difficultosa amalgama.
Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo, n'este livro o teu capitulo, intitulado elogio mutuo. Tu, com certeza, antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento.
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Bernardino Pinheiro. Amores d'um visionario, romance historico original do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874.—Se a linguagem das civilisações adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de historico. A illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro, depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D. Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo, da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases intempestivas.
Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu livro. As paginas descriptivas de Uma academia feminina do seculo XVI quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III. Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras, se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as suas leis fataes—e, por vezes, posto que raras, felizes...» E acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós somos:—amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no mundo livres o pensamento e o amor?!»
A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de, colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças. Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza.
Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII (Illustrações em Coimbra) é labor bastante a graduar um espirito culto na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma negra de João III e não vingaram esclarecel-a.
O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil. Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz, dispensa-se dos realces da naturalidade.
Em summa, Os amores d'um visionario é um livro que merece graduar-se entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas desaffectas a demorados estudos.
O secretario da academia real das sciencias de Lisboa, José Bonifacio de Andrade e Silva, escreveu a monsenhor Ferreira Gordo, pedindo-lhe um donativo para ajuda de se pagar o busto do duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança, que a mesma academia desejava collocar em uma das suas salas. O sabio monsenhor respondeu com circumspecção e graça por meio da seguinte carta, que está inedita:
«Poderá v. s.ª certificar em meu nome á academia, que eu estou disposto a concorrer com o contingente, que me couber, guardada a proporção arithmetica, para o monumento, que pretende dedicar á memoria sempre saudosa do seu illustre fundador, e que aproveitarei de bom grado todas as occasiões, em que possa dar-lhe mostras do meu reconhecimento pelo muito, de que lhe fui devedor. Mas não se achando todos os socios n'este empenho, e fallecendo á maior parte d'elles meios, para fazer donativos d'esta natureza, parece-me que a academia teria resolvido com mais prudencia, e circumspecção decretando que a despeza do dito monumento sahisse inteiramente dos seus fundos. Que póde doar sem detrimento seu um religioso, não sendo commissario da Terra Santa, prior geral dos conegos regrantes de Santo Agostinho, abbade geral do mosteiro de Alcobaça, ou ministro provincial dos menores observantes de qualquer das duas provincias de Portugal e Algarves? Que rendimento tem um professor regio de humanidades, um lente da universidade, um ministro, e qualquer outro funccionario publico, que na fallencia de bens patrimoniaes, lhe não seja indispensavel para sua mantença? Dirá alguem que a academia roga, e não manda, e isto é verdade; mas como ninguem quer o fóro de pobre, nem ser marcado com a nota de pouco officioso, esta rogativa virá a ser para a maior parte dos socios, o effeito de um rigoroso mandamento. De mais se a academia é real, se todos os seus trabalhos se dirigem a fazer prosperar, e florecer os estados de quem lhe deu este titulo, e a subsistencia, e se até agora tem gozado a singular prerogativa de ser presidida por uma personagem de sangue real, acho muito improprio, que a despeito, de tudo isto, se lhe queiram dar os attributos de uma irmandade religiosa, fazendo dependente da caridade de seus irmãos, e não do seu patrimonio, qualquer despeza extraordinaria, que emprehender. Perdôe v. s.ª como secretario a liberdade, que tomei, que como meu amigo que é, tenho certeza me desculpará, se o que acabo de escrever se encontrar com o seu parecer, que muito respeito.»
Os academicos de hoje são outra casta de gente, quanto a pelintraria. Se não fazem bustos, é porque ainda estão vivos todos os sujeitos que hão de resuscitar no marmore e no alabastro. Aquelles salões desertos hão de ser povoados de estatuas, quando as cangas de sabios que hoje lavram os baldios da sciencia, se foram a pascer nos almargens da immortalidade. Medita a geração nova no modo de os entrajar, pois que a funeral casaca destôa das arrojadas manias e sabenças de cada sujeito. Creio que deveremos apparecer, nós, os academicos, cada qual com seu caranguejo symbolico na mão operosa. O mocho, a ave de Minerva, apenas cabe de direito ao snr. João Felix Pereira, o pervigil diurno e nocturno.
Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos bicos da penna e aos loros do látego.
Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei.
Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão. Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao curro das letras.
No impresso assignado por Anselmo de Moraes encontrei duas aleivosias que me doeram por estar conspurcado n'ellas o nome serio do snr. José Gomes Monteiro, invocado como authoridade no meu descredito. São as seguintes:
«Da cadêa começou Camillo a abrir brecha para a rapina na casa Moré, mandando ahi mostrar um romance de descompostura ao dignissimo procurador regio, que não lhe tolerou certas obscenidades no carcere; o amigo do procurador regio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance para poupar um desgosto ao magistrado respeitavel. Ainda não ha muito tempo que o snr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso escriptorio para evitar o encontro de Camillo na loja Moré, que ia alli armar uma escroquerie, com o fim, dizia elle, de pagar uma decima...
«Ultimamente comprometteu a sorte de Vieira de Castro com a sua defeza; explorou a desgraça do amigo com o drama o Condemnado, que vendeu a dous individuos.»
Pedi ao snr. José Gomes Monteiro, antigo gerente da casa Moré, e editor do Condemnado, que se dignasse ajudar-me a interpretar estas deshonrosas referencias a um romance que s. exc.ª me pagára para não ser publicado, a uma fuga de s. exc.ª no escriptorio de Anselmo para se furtar a uma escroquerie; e finalmente á dupla venda do drama O Condemnado a s. exc.ª e a outro simultaneamente.
O snr. José Gomes Monteiro, na volta do correio, respondeu d'esta fórma:
Snr. Camillo Castello Branco.
Meu amigo.
Acabo de receber a carta de v. datada de hontem, incluindo o impresso que Anselmo de Moraes fez aqui circular. Apresso-me em responder-lhe.
O primeiro periodo marcado por v. allude ás Memorias do Carcere cuja editação v. me veio propor em seguida á do Amor de Perdição. Ajustamos a publicação d'essa obra antes de eu ter lido o original, que só no dia seguinte me foi entregue. Li então o manuscripto aonde encontrei algumas expressões que me pareceram offensivas da reconhecida probidade do conselheiro Camillo Aureliano da Silva e Sousa, então procurador regio junto á Relação do Porto. Por este motivo tive de devolver o original a v. rogando-lhe houvesse por nulla a nossa convenção, por isso que eu não podia ser editor de um livro em que de certo por erradas informações, era maltratado um amigo meu, que eu tinha na conta de magistrado integerrimo e de honradissimo cavalheiro. V. veio immediatamente procurar-me e aceitando o meu testemunho como a expressão da pura verdade, confessou ter sido mal informado ácerca da immaculada probidade do meu amigo. Voltou o manuscripto devidamente reformado e v. não se limitando a expungir as phrases que eu havia condemnado, fez generosamente justiça ao honrado magistrado. Publicou-se o livro e elle mesmo dará testemunho da inexactidão do que se affirma no citado impresso, de que eu me vira obrigado a pagar um romance escripto por v. contra o meu amigo para lhe poupar um desgosto.
Confesso não ter guardado rigorosa reserva sobre este incidente, do que sinceramente me peza, visto que a minha indiscrição deu lugar a que os factos fossem desfigurados em desabono de v.
V. não precisa de certo que eu o justifique, nem me justifique a mim de me haver um dia refugiado no escriptorio do signatario do impresso para me subtrahir a um pedido de v. Declaro com toda a ingenuidade não me recordar d'esse grave capitulo de accusação dirigido não sei se a mim se a v. O que afoutamente posso asseverar é que nas muitas transacções commerciaes que temos tido encontrei sempre em v. a maior franqueza e inexcedivel probidade. Não é por isso verdade que v. depois de me haver vendido a propriedade do drama O Condemnado o tivesse subrepticiamente vendido tambem a outra casa editora. É verdade que d'este drama se veio a fazer no Rio de Janeiro uma contrafacção, mas tenho completa certeza de que v. fôra inteiramente alheio a esta fraude, que a falta de um tratado com o Brazil infelizmente authorisa.
V. fica authorisado a fazer d'esta minha carta o uso que lhe convier.
Sou como sempre
De v. etc.
Porto, 25 de julho de 1874.
José Gomes Monteiro.
Apraz-me grandemente o publico testemunho d'esta carta, no momento em que as minhas relações sociaes e commerciaes com o snr. José Gomes Monteiro se desatam. Eu não poderia, sem impostôra inutilidade, fingir-me amigo de s. exc.ª desde que do contexto da sua carta se deprehende que o snr. Gomes Monteiro não se recorda bem se fugiu de mim para o escriptorio de Anselmo. Figura-se-me mais consentaneo ao honesto caracter do snr. Gomes Monteiro negar-se pela palavra a um favor pedido, e não pelo escondrijo no escriptorio de Anselmo a quem, pelos modos, s. exc.ª não disse que nas muitas transacções commerciaes que tivera commigo encontrára sempre a maior franqueza e inexcedivel probidade.
Tirante esta feição mais attendivel do impresso, o remanescente é indiscutivel nos prelos e nos tribunaes. Tenho vergonha das infamias alheias, e respeito os nomes das pessoas que ahi se ultrajam.
No entanto, não me esquivo a tocar dous episodios da minha biographia, que lá vem contados:
Que eu guardara cabras em Villa Real.
Quer o leitor saber onde Theophilo foi esquadrinhar este indecoroso lance da minha vida? Em um livro meu, chamado duas horas de leitura, escripto ha 20 annos. Sou eu que, em uma carta ao meu fallecido amigo José Barbosa e Silva, conto assim o caso das cabras:
«Aos meus dez annos, levantou-se uma tempestade no seio da minha familia. Uma vaga levou meu pai á sepultura; outra atirou commigo de Lisboa, minha patria, para um torrão agro e triste do norte; e a outra... Não merece chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso patrimonio. Foi bem pregada a peça, para que eu não tivesse a impudencia de nascer, a despeito da moral juridica, filho natural de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da snr.ª D. Maria I me desherdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do peccado; Denominava-se a piedosa, pela mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus, se chamou o piedoso... Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã casada com um medico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractario á luz da gorda sciencia do meu padre. Fugia de casa para a serra, dava muitos tiros ás gallinholas e perdizes... O meu gosto era (hic, cabras) pascer o rebanho de casa por aquelles saudosos valles. Todavia, minha irmã oppunha-se a este humilde serviço. Dizia-me cousas que eu não percebia ácerca da minha dignidade, reprehendia os meus baixos instinctos, attrahia ao seu voto o marido e o padre, e cortava-me o rasteiro vôo, escondendo de mim a clavina, o polvorinho, os salpicões, a brôa, e a cabacinha da aguardente. Não obstante, eu pedia tudo de emprestimo, e ia com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro, sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fragosos, sempre sósinho, scismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos despenhadeiros.»
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A respeito de cabras, não ha mais nada nos archivos impressos, que eu deva transmittir á posteridade.
Ai! meu saudoso rebanho! Provavelmente, d'este lidar com cabras é que me ficou o sestro e coragem de aparar as marradas de cabrões, como Anselmo.
N'essa mesma carta a Barbosa e Silva, conto eu que ajudava diariamente á missa a cinco sacerdotes. O sarrafaçal deixou escapar o ensejo de dizer ao publico que eu tambem fui sacristão.
E a historia da filha do taberneiro, que me deu um fato novo e uma moeda para eu lhe casar com a filha; e vai eu pego a fugir com o fato e a moeda e deixo a rapariguinha perdida!
Desbragada porcaria!
Ó meus amigos de Villa Real, ou lá d'onde se passou o caso infando! Procurai a miseranda menina; e, se a topardes n'alguma gafaria—derradeira paragem da espiral das perdidas—trazei-a a casa d'este Anselmo para lhe agradecer o pregão que a vinga, e para lá se rehabilitar, vendo-se honesta em contacto com certo exemplo femeal de podridão d'alma e corpo.
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Despedi-me, ha dias, de assignante da Actualidade. Estou arrependido. Devemos todos contribuir com alguns cobres para que Anselmo de Moraes não seja forçado pela necessidade a picar-nos (giria d'elle) o paletó no cunhal da viella da Neta. Em quanto aquelle archi-pulha tiver gazeta, o seu pão, embora deshonrado, garante-nos do assalto nocturno. Não lhe leio mais o jornal; mas dou-lhe a esmola dos 240 reis mensaes. Mande-os receber em quanto a espinha em via de amollecimento me consentir subscrever com seis patacos, a fim de que elle me não liquide a cadêa do relogio.
É verdade: affirma o impudentissimo caloteiro que tem lá uns titulos do saldo de nossas contas.
A fim de que esses documentos appareçam, offereço o seguinte e perpetuo supplemento a todos os numeros da Actualidade:
ANSELMO DE MORAES É RADICALMENTE LADRÃO, COM UM CORTEJO DE TORPEZAS ESPECIAES E RARAS NOS LADRÕES MAIS DESPEJADOS.