[2] Diogo José da Serra, um escandaloso vadio d'esta cidade, tão ignorante como devasso. Este homem foi quem induziu á factura da Satyra o doutor Botija.

[3] Calumnia que os herdeiros de Francisco Dias estimariam que não o fosse. O poeta arguido de avarento morreu pobrissimo.

[4] Francisco Dias Gomes era de geração judaica.

[5] Documento inedito de que tambem possue traslado o snr. Innocencio Francisco da Silva.


PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO

O correspondente lisbonense do Jornal da Manhã, indigitando o rastilho de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas, malsina, sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos accusados com injusta malquerença são as Noites de insomnia, e os manuscriptos arguidos de fraude são os dous innocentes dislates de um illustremente desgraçado talento, cujos autographos offereço a quem, na duvida, quizer examinal-os.

Em nenhum dos dous artigos (a Catastrophe, e D. Maria Caraca) é atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que assiste á testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as Noites de insomnia, desde ora avante, desfraldam.

As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de Bragança, publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do esclarecido arcebispo;—são todas de minha lavra, e de minha responsabilidade perante os doutos. Todavia, se alguem me rastreia, n'esse lavor meramente historico, o insidioso plano de aluir o throno, sou obrigado a declarar que não se acham ainda bastantemente decisivas as minhas intenções a respeito de sua magestade, nem me parece que cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. Luiz I. E, dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a casa de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo, por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de Coriolanos, Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos Pachecos. Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor referido, quando me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao mesmo tempo incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes alarmas, temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se occupa, braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se conhecem a pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até heroe no cairel da voragem, não lhe mettam espantos na alma com phantasmas; robusteçam-no para a provação, quando a hora troar, a hora maldita em que o povo açacala as garras, e golfa das tabernas com bramidos de leão. Se não querem prevenir as catastrophes, porque não ha prevenções contra a fatalidade, não se finjam previstos, pondo estas innocentes Noites a espreitar Cesar pelo olho esquerdo de Bruto.

Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando petroleo para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre jurisconsulto, depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus direitos ao ducado brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria contra a familia real, que era, pouco mais ou menos, a d'elle.

Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr. D. Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes da povoação d'aquella villa.

Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de Nerval pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario de vêr o invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem descamba da linha recta que vai desde o almoço até á cêa através do jantar, a razão humana desconfia d'elle. Se este homem suspeito, unicamente, lesa os seus interesses, chamam-lhe, com piedosa indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, damnifica os interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a denominação ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu modo de escrever historia, philosophia e moral, se revela muito mais acerto, critica e sciencia que nos livros de uns homens que não se acham bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um rapto de luz que elle denominou:

SONHO

(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO PERIODO DA ALIENAÇÃO)

No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao pensamento de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica a todos pelo modo mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura e heroica do santo e actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se revelou tão benefica e misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida para com a pobre e triste humanidade, que escurece o beneficio e parece desprezar o seu author divino, só pela torpe e abominavel gloria do seu desprezado egoismo e da sua indomita soberba. Estava já endurecido o coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil injuria que o infinito poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do mar e do justo castigo das aguas.

O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e não quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e desprezadas em poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz a historia que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e que a estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas são sete seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das costas, magros, definhados e proscriptos, que terminaram pela mais negra, medonha e absoluta penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o pai comem a carne do filho, os mortos jazem sem sepultura, a impiedade triumpha, a verdadeira fé anda foragida, a injuria do Senhor substitue o culto, e sobre as cadeiras de Moysés já não se assentam os escribas e os phariseus; os mais depravados inimigos perseguem em nome do Senhor todos os seus santos ministros, e predizem pelas suas obras o fim do mundo, e a necessidade do ultimo e geral escarmento.

Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se pode levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como Anti-Christo; o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do Divino Amor, o mais horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o delirio do sonho chama e reclama a necessidade do mais santo esconjuro, e da mais afouta e intrepida penitencia. Felizes as mulheres estereis, e mil vezes mais acordado, ou menos infeliz e desprezivel será o aborto, que não recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não soffrer a injuria da maldita geração do peccado, e do seu enorme e horroroso castigo.

Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a gloria, e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras tantas victorias, riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia monumentos eternos para escrever o geroglifico da maior vileza que nega as façanhas aos heroes, e depõe a estatua do seu pedestal para a substituirem pela mais desprezivel do seculo, e pelo que tiver deixado nome mais injurioso, conspurcado e escravo.

Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior colonia do mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos emigrados religiosos e politicos; e os que tiveram esta gloria são desprezados, e os seus herdeiros perseguidos. O usurpador que se fez possuidor para proclamar o falso principio de independente, e que entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra foi levantado e exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou o seu vil commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado, que pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para commetter esta grande aleivosia e diabolico mandato. D. Affonso Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos serviços ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e sobre a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a mais hedionda e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta o impio e exacerba o catholico, vende a terra da patria; e, para ter sepultura em paiz protestante, pactua com o demonio a quem entregou a alma a traição e o aleive; o seu desdouro é o mais abominavel tramite e caminho do inferno.

Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D. Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e os reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a vileza do seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os mosteiros e a maior grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram nem renegaram de Deus nem da patria, nem abandonaram a justiça nem venderam as suas consciencias.

Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão relevantes serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos presumir que a nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos mas estrenuos, e tão briosos e fieis que conquistaram do mundo a maior fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor e auxilio. São poucos os heroes? quantos monarchas illustraram o throno? quantos fieis e valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos missionarios do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas? que é feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?

São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de fazer-vos até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o Senhor me concede, como propheta, para vingar a injuria de sete seculos, o sonho e o pesadelo do mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco, de S. Domingos, de S. Theotonio, e de Santo Antonio que dormem nos claustros dos extinctos e abominados conventos; os monges negros de S. Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a familia de Santo Agostinho, os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela nossa bocca, e dirigem o nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que fizeste, ó impio, de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e publica utilidade?

No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes levantar o eterno monumento do actual desdouro e da sua fatal cegueira? Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva e defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio. Está por terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e contemplam os anjos a nossa actual miseria e compadecem-se d'este ruinoso estado: só não se move o povo, só o interdicto dorme o maldito somno da morte, e não delira nem appetece a eterna felicidade de sua salvação e liberdade!

Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique, e cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e Desejado; e d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela vaidade do sonho ser digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas não basta que o Senhor defenda uma causa para que se considere heroica: convém que o homem e o povo eleito e escolhido para a façanha se mostrem dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior perigo e intrepidos e confiados na justiça do commettimento, e na gloria da Divina Protecção. O sonho, que desdoura o homem, cerca de terror o timido e fugitivo escravo do demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na justiça da causa nem na certeza do seu delicto.

Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do seu desaggravo, não posso resistir ao desejo de o exarar. O amor de Deus é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o que tem a felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o triste e mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro espirito assenhorêa a alma do possesso, e pode dizer-se que impera n'ella o demonio. Quem não é por mim é contra mim. A manifestação mais perfeita de amor é o desaggravo da offensa; o que não desaggrava não ama: porque ao summo bem corresponde o amor mais perfeito: não amando, aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo do desacato, toma sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e faz-se digno do mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do delicto.

Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e Pilatos. No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao mundo para nos regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só lamentam a dureza do povo e a sua affectada cegueira. É um sonho, que sempre se repete, e que manifesta bem palpavel n'este mundo das illusões o irresistivel poder do maleficio, que actua sobre os escravos do peccado e filhos da ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de commetter o peccado imperdoavel; porque em sua fatal herança não só deturpa e cega, senão que domina e arrasta a alma para a maior perdição, e para o fundo do abysmo.

A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha que ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da santa penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os violente; e tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da perseguição, e d'um para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da furia do dragão. Fallamos ao povo que conserva o direito de propria consciencia e algum vislumbre de boa fé para que procure e abrace a salvação da indulgencia e do martyrio, que tem diante.

Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo, são felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria os impelle e ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos diaphanos. Que bella monção para tão feliz viagem! que bello sonho para os sete seculos venturosos que se hão de completar na eternidade!

Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para o eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio, e podia nascer em um monte, que era dado a sua santidade, e fóra do redil aonde nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em um presepio para nascer entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que procuravam o innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino foi ao Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para o Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde finalmente sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no calvario. S. Thiago e S. João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o grande apostolo, e veio tambem S. João, mas nenhum teve o seu martyrio na Peninsula. S. Thiago foi receber á Judêa a sua promessa. S. João foi ao imperio dos Cesares, e á terra do paganismo e do amor depravado da louca e desnudada Venus. Voltaram os seus corpos? que recondito conserva o virginal de S. João? Este sonho póde condizer com a Rodhoma por ter S. João recebido no calvario a santa maternidade da Virgem minha Senhora.

Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de dezeseis gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita heresia para nos matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais decidido milagre me podia salvar da furia; eu presagío que o meio heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico sonho da ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam, como as ondas que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam pela inutil furia do seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua insania ao cabo, e veio o maior castigo do povo e sobre a terra com a justa ira do Senhor: o ultimo propheta foi morto entre o templo e o altar, e a prophecia foi negada para sempre ao judeu, que só tem actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em missão de Ninive e de Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora inaugurou no Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião o docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em fel d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix da maldição dos judeus—deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo flagello, e que a falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do escarmento ao detestavel povo e aos seus perfidos ministros e traidores.

O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo do docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes se conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta, e comprometteram as suas almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu pensamento era só um, e a nossa morte o unico desenlace de todos os estratagemas. O ministro executor do barbaro decreto trepidou, e desde que chegamos a esta villa até o presente as suas combinações e ardis tem-se resentido da mesma canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a tyrannia converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de executar-se pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos authores, porque todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade de juramento, de crueis perseguidores de fieis, e de profanadores dos templos e de sua maxima santidade.

O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida pela heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por outros sete seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de briosas chronicas, que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta historia dos povos, e o precinto da catholica santidade e igualdade de todos os filhos e do mesmo Pai santo e commum no céo e na terra. As casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram perseguidas pelos nobres e falsos fidalgos: todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas de familia no fervor do nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo devaneio e pelo assombro do milagre, por ficarem em esquecimento e sem galardão do mundo e só com o grande e extraordinariamente mais real e verdadeiro do proprio som e merecimento: por esta razão faltam as estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as obscenas dos mais tredos e falsos pyrilampos.

Os seculos, que estão para succeder invocam a audaz cooperação do povo, e exigem que o novo heroe seja o mesmo comicio, e a centuria, que defender o templo e desvanecer o seu culto. É necessario que a Terra Santa reuna o povo mais digno, e que a authoridade e o poder divino unam o capitel e a cimalha do novo edifficio, e commandem a pureza da fé e a sua excellente doutrina com o mais sonoro e metallico alarido de desaggravo e de arguição. Todas as nossas instituições tendem ao valente ensejo d'esta restauração do povo para o fazer nobre e para o exaltar pelo martyrio e por meio da virgindade e da santidade da crença; a corrupção corre em veias e carcome o amago do tronco que apodrece e cahe: a nova arvore estende as suas raizes por todo o mundo e ha de cobrir com os seus copados ramos todas as plagas, e zonas da esphera: o castello que era do procere o do conde ou do rei e senhor, será de Deus e do padre santo, do fiel e do mais devoto e digno de seu sublime culto. Todos os heroes rivalisarão com os filhos de Javão, e dar-se-ha o premio ao que desvanecer maior virtude e sacrificio com mais encarecidas provas, e com mais heroico desinteresse.

O snr. D. Affonso Henriques vestia o talar ecclesiastico para fallar do pulpito, e para narrar as maravilhas de todas as suas victorias, se vinha ao reino algum rei ou principe estrangeiro convidado pelo desejo de estudar as nossas proezas e façanhas e para se informar do seu alarido: o grande monarcha não desejava fallar de assento sem subir ao pulpito, porque n'esta cadeira de verdade recebia as suas inspirações e mais fortes commoções e graças. Todos os estrangeiros estranhavam o monarcha, e o seu habito de paz, que era o talar, senão a batina de estudante: quando o viam subir ao pulpito alguns riam; depois que sentiam as commoções de sua eloquencia e persuasão louvavam o orador e choravam quando o orador chorava, commoviam-se e aplaudiam segundo o costume do tempo com tão fortes demonstrações e signaes, que chegavam a interromper o discurso. N'este emphase de sua justa admiração pediam ao rei que repetisse, e como nada levava estudado progredia ao acaso e sempre com o maior espanto e alarido deixava o auditorio, e corriam a tomar o seu supplicio e disciplina pelo desacato que os mouros commetteram em Ourique na occasião da batalha contra o Santissimo Sacramento, que estava na ermida de Nossa Senhora do Monte.

Qual é o povo perdido? é o gentio de todos os seculos; que corre com os que correm, que dorme com os que dormem, que se deixa corromper pelos corruptos e se faz perverso por falta de sal e de doutrina que o preserve e conserve. A sociedade de homens notaveis e dos falsos proceres correu atraz da illusão, e levou comsigo e arrastou o maior numero; vive no meio do fôro a parte sã e sensata. Quem acordará os dormintes e levantará do pó os que jazem feridos pela scentelha do maior erro e catastrophe? Só o Senhor nos póde acudir e soccorrer: levantai as vossas vistas, exaltai o vosso pensamento, fazei-vos fortes no reducto das vossas consciencias do desaggravo e esperai do santo alfageme o milagroso remedio e toda a sua recompensa.

Estes são os nossos sonhos. Pensava no sonho de Pharaó o santo José filho de Jacob, e só o Senhor alevantou o véo do mysterio, e deu ao mysterioso numero a sua santa e verdadeira significação. Ha sete peccados mortaes, e contra estes outras sete virtudes, mas vem primeiro os peccados ao mundo antes que venha o remedio da virtude que supprime o peccado correspondente: a sabedoria consiste em desvanecer a virtude para que não tenha lugar o peccado, que a escurece e affronta. Este terá sido o sonho e o constante pensamento da casa de Bragança no decurso de dezeseis gerações? é certo que só o Senhor nos concede o mysterio d'este desvanecimento e a sua gloria futura; venha o povo, e furte a virtude ao merito, e deixe a torpeza dos bens aos vis forasteiros, que surgem do inferno por tão negro e absurdo estipendio, e usurpação.

No meio dos seus sonhos e prophecias o santo rei d'Ourique previa e affirmava, que o seu successor da 16.ª geração havia de ser rei e papa, e era tão firme n'esta sincera e antecipada previsão, que algumas vezes via a propria figura, e se compadecia das tramas e desgraças que o haviam de perseguir, e dos males que haviam de sobrevir ao reino, e das heresias em que já o via e considerava submerso e como amortecido pelo diuturno interdicto e geral perdição. S. Affonso devia aos estrangeiros e ás cruzadas extraordinarios favores; o seu pensamento de grande estadista e o grande desejo que teve de ser util á santa causa da fé, fez com que pedisse e solicitasse de sua santidade um decreto para que o nosso reino fosse considerado reino da cruzada com todas as suas indulgencias que obteve a grande contentamento de todos os cavalleiros da cruz, e com grande desgosto e tristeza de todos os falsos monstros do culto, e membros podres da nobreza. Este decreto causou grande alarma, o povo defendeu a medida, que até os ecclesiasticos combatiam com muito alarido de fingido zelo pelo bem da Igreja. Este conflicto ameaçou o reino nascente, veio o nuncio de Roma, lançou interdicto, e triumphou o rei com o povo, porque seu coração era real e tão recto e justo, que não soffria a menor injuria do templo, e desaggravava os desacatos dos mouros com o mais cruel supplicio de seu corpo e quasi á vista do povo e para o edifficar como exemplo. A este tempo já muitos ecclesiasticos seguiam o ocio da paz e principiavam a gozar e appetecer as delicias de Capua: os simoniacos engordavam capões e perús para as festas do anno e deixavam nús os pobres, e desamparados os orphãos e as viuvas; que faria o rei? mendigar o soccorro do padre santo e a virtude de sua santa indulgencia e receber do Divino Salvador a inauferivel do futuro remedio e prophecia, e de Roma a anachronica certeza dos males que principiavam a devorar a santidade da curia e a corcomer o corpo d'aquella santa e bemfazeja arvore.

A prophecia é dada ao rei; foi David propheta e Salomão, Pharaó sonhava, e o rei até quando sonha deve prophetisar para que o povo descance e confie na sua sabedoria e providencia. Todos os prophetas tiveram honras reaes e de santos, recebiam corôa de martyres e eram mandados ao povo, ou por causa do povo aos seus reis e ministros do governo.

Se o rei for santo certamente ha de ser propheta; porque todos os reis legitimos são constituidos por causa do povo; e por isso bem decidiu a santa sé pontificia quando deixou o complemento da santidade de S. Affonso reservada para o computo da 16.ª geração: mas pareceu-nos que a ultima prova se devia presumir e dar por existente ou por verificada e cumprida como promessa divina, ou desnecessaria e superabundante.

Assim aconteceu sempre em Roma com o milagre d'Ourique; mas nem sempre o povo recebeu a fé viva d'este santo milagre: os que vivem da falsa opinião e exploram as más disposições erram e perdem as suas almas, e não cessam de condemnar as alheias; estes iracundos da propria alma tramam e conspiram com todos os aventureiros, para levantar o idolo de suas paixões e sensuaes appetites: não vos pareça menor o numero dos defensores da boa e santa causa, nem deis por perdida a mais arriscada e perigosa do juizo humano em quanto se conservar pura da fé, isenta de contagio, estrenua e airosa pela virtude do desaggravo, e pela mais sublime e divina da sua penitencia e martyrio: se fôr desvanecido por virgens, se não tolerar o desacato, nem a vil affronta do impio, nem o sarcasmo do judeu e do protestante, nem a simonia do falso e perfido, nem a atrophia das almas sem as marcar com o ferrete, e sem as entregar ao indefectivel juizo da santidade e da fé.

O nosso sonho foi uma visão ou previsão de S. Affonso, que se verificou em Villa Real, n'esta antiga villa ou cidade: nós vimos em sonho o que S. Affonso no seu tempo previu como propheta: o sonho tem uma historia necessaria para a sua explicação; e como vem os factos traçados e encaminhados para este mesmo fim, temos unicamente a acrescentar o seguinte.

S. Affonso foi rei d'Ourique por justa e divina acclamação, as côrtes e os poderes do estado applaudiram a eleição, juraram seus preitos, e deram todos os documentos de boa fé e de cordial testemunho, do sincero empenho e da resolução em que estavam de todos os sacrificios para sustentar a acclamação e para continuar a guerra aos infieis. S. Affonso pretendeu o voto universal por ser causa de milagre e de grande sacrificio e do maior testemunho, e muitos ecclesiasticos que viviam nos prazeres do ocio, e que sentiam vêr retaliados pela guerra os campos das suas prebendas e passaes, e muitos ignobeis e falsos nobres, que seguiam a lei de seu egoismo, e d'estes em o maior numero commentavam a acclamação desfavoravelmente e persuadindo o povo a que não aceitasse o rei porque esta acclamação havia de causar grande descontentamento em Hespanha e traria comsigo algum maior dissabor da parte do supremo pontifice.

Havia com effeito da côrte de Roma duas exigencias muito fortes e constantes perante a côrte de Portugal: a primeira por causa do fôro de S. Pedro que é de morgadio do Divino Salvador, e a segunda por causa das cruzadas; por se dizer, que não irão do reino as cruzadas á Terra Santa, como eram obrigados todos os fieis. Sempre o conde-rei se tinha desembaraçado d'estas interpellações com muito favor, e não cessava a intriga de urdir novos ardis; por virem de fonte conhecida e poderosa, que era a côrte de Hespanha: mas obteve S. Affonso a bulla, que declarava o nosso reino Terra Santa e reino de cruzada, o seu rei como benemerito filho da santa Igreja e como antigo cruzado da Terra Santa de Palestina, e applicasse o fôro do Divino Salvador para as despezas da guerra. E logo a invicta monarchia obteve o suffragio e principiou a julgar-se invencivel: mas os seus inimigos não dormiam, e agora veremos o que urdiram em Roma mais calumnioso e atroz.

Formaram em Hespanha um processo secreto contra o rei com muitas testemunhas de Portugal, gente vil, desconhecida e de negra e atroz calumnia: os seus depoimentos recheados de torpezas e de peccados phantasticos que attribuiam ao rei, e com o principal artigo d'esta infame accusação que o monarcha a quem davam titulo de ambicioso seguia a falsa lei da polygamia, e que era no seu modo de viver semelhante aos reis mouros, e que tinha uma e duas mulheres em cada terra e que obrigava os meninos a beijar-lhe a mão como pai de todos, ou como papa; e que não havia mulher casada que não tivesse algum filho parecido com o rei, e que estava o reino cheio de malhados, e que por este signal se conheciam em melhor sombra do que os filhos dos negros. E mais diziam, que o rei só era generoso e de real doação para as mulheres, e que os homens andavam diante do soberbo califa como escravos d'harem. Levavam este recado os malignos tão bem encadeado, como se fosse verdadeiro: o demonio os ensinava a mentir a Deus e a jurar falso; verdadeira mentira é todo o engano, que se faz ao padre santo, que é vigario do Senhor.

E com o mesmo intuito e abominavel pensamento de homens de consciencia perdida, por terem paz occulta com os mouros e longas tregoas, e por não quererem renunciar aos commodos e seu egoismo, acrescentava a calumnia, dizendo que S. Affonso era hereje, e pretendia provar a accusação com tres factos: primeiro, por subir ao pulpito de habito talar e de cota, para prégar como prégava a favor do divino apparecimento, que os calumniadores impugnavam e davam por fabuloso, dizendo que nenhum bispo portuguez se jactava do milagre, nem prégava a favor da sua existencia, e que os seus padres tambem não prégavam tal façanha, e por isso subia o rei ao pulpito para o seu falso ministerio. O segundo facto que ligava ao primeiro consistia em dizer que distrahia das cruzadas os seus cavalleiros, e que os convidava para ficar no reino, e angariava para a deserção das suas bandeiras nacionaes com grandes promessas e doações de terras, que tirava á santa Igreja, e que n'este numero admittia sem escolha muitos e grandes herejes da mesma falsa escola dos homens mais ambiciosos, e que este D. Affonso era tão sofrego de ambição que tinha guerreado com sua mãi, e que a tivera presa até que morreu no castello de Lanhoso.

E ligavam a estes factos outro de maior atrocidade; porque directa e indirectamente offendia a santidade do summo pontifice, mas a nada d'isto attende a calumnia, quando vem proferida pelo maligno espirito contra a maxima verdade divina; e diziam os calumniadores e verdadeiros herejes que S. Affonso obtivera a bulla do privilegio pontificio do reino por meio de grande e manifesta obcecação e por falsa causa que allegou, e que era o maior inimigo das santas cruzadas, e que no seu lidar e batalhar era semelhante ao demonio, e que jámais deixava de ferir o seu adversario, e que ás vezes o feria pela malha com a sua espada quatro e cinco vezes superior á abertura da malha ou rede de ferro, e que este milagre era do demonio; e que elle tinham vencido em Ourique contra a opinião dos seus generaes por ingerencia do demonio e por ser grande hereje.

O processo era secreto, e D. Affonso não pôde prevenir o exito da injuriosa e negra calumnia; andava lidando com mouros ao pé de Cintra, aonde tinha castello fronteiro, e tinham os mouros o seu sustentado pelos seus navios, e gente de mar e chegavam com as suas correrias até Lisboa e talavam os campos, matavam e roubavam; e alli vivia ao pé S. Affonso solicito do modo porque havia de extinguir o covil, e já tinha certa a sua presa, quando o surprehendeu a noticia que vinha de Traz-os-Montes vencendo leguas e horas, de que andava um nuncio de Roma pelas igrejas principaes das villas e terras do reino a publicar um interdicto contra o rei e contra os seus soldados, se não abandonassem o rei no mesmo momento.

Apenas recebeu a tristissima noticia com todas as certezas do que se publicava e ordenava, o rei chorou por tres causas: pela futura sorte do reino; pelo erro d'aquelles perfidos calumniadores; e pela fraqueza humana que sujeitava o vigario do Divino Salvador a tão capciosa e calumniosa illusão. Fallou aos seus, e nenhum o deixou só n'aquella altura; e contra a opinião dos que julgaram que devia aceitar uma tregoa proposta pelos mouros pela causa principal do perigo em que viu aquelle castello de Cintra, resolveu tomar o castello na mesma noite, e o mesmo foi que ser o rei o primeiro a saltar dentro—ainda havia luz—e tomou o castello em duas horas. Deu immediatamente as suas providencias, e partiu para Traz-os-Montes e correu na distancia de mais de sessenta leguas a outro maior perigo, por vir de Hespanha o nuncio, e de Roma, d'onde menos se devia esperar, o flagello. O providente monarcha deixou a tregoa com o castello tomado; os mouros já não lucravam o armisticio, mas tinham proposto a suspensão, e não podiam recusar o arbitrio.

Chegou D. Affonso em menos de tres dias e de tres noites sempre armado de ferro, com a morte de alguns cavallos que deixou estafados para tomar outros, e já ninguem o acompanhava quando entrou em Villa Real, aonde o nuncio tinha publicado o abominavel interdicto, e já ia no caminho de Lamego em direcção a Coimbra. O rei manda prevenir o legado de que estava em Villa Real para fallar com elle e de que o esperava n'aquella capital para o receber com todas as honras devidas á sua alta categoria e jerarchia. O nuncio era o principe real d'Hespanha.

Com esta providencia mandou tocar os sinos de alarma. A tropa que estava na terra reuniu para um lado, para o outro reuniu todo o collegio das humanidades com os seus balandraus e opas, mas sem cruz e sem nenhum ecclesiastico, porque estes se reuniram e assentaram por votos da maioria, que não deviam apparecer ao monarcha nem concorrer ao templo. O rei só com o seu talar á porta da igreja que estava n'esse tempo no sitio aonde está actualmente o templo incompleto da Senhora do Carmo esperava o concurso no meio de maior anciedade, e nenhum se resolveu a entrar. A irmandade e a tropa ouviam grandes vivas ao rei, e cada um sonhava que eram os vivas do outro bando, e não se moviam: o rei já não podia esperar, porque recebeu a certeza de que o nuncio não voltava a Villa Real, antes havia de acclamar a sua desgraçada e infausta commissão até Lisboa.

Que faria? Chorava aquella desgraça e tendo resolvido correr atraz do nuncio para o informar e para pedir recurso do interdicto por não ter sido ouvido nem convencido de tão graves causas, via-se só á porta da igreja; olhou e viu a distancia o successor de dezeseis gerações, que caminhava para o templo com o poder do summo pontifice e do provigario do divino Salvador, entrou, despiu o habito talar e partiu.

Nós vimos a scena que S. Affonso viu e previu, mas de que modo? Ouvimos os vivas, reconhecemos os dous bandos, vimos a porta meia aberta do templo, a estatua do homem ou do heroe, e sentiamos que se recolhia por nos vêr; marchamos só para o ministerio do templo, e os bandos receosos, desconfiados, mas desejosos de nos acompanhar não se moviam: perguntei de quem era o busto? que motivo tinha o povo e o exercito para se conservar em tão grande espectação, e recolhi a historia, que fica narrada, por muito santa e por muito verdadeira.

Antes de me dirigir ao convenio, estava eu no meio de muitos individuos contemporaneos, que ora me convidavam para o fumo de tabaco, ora para assistir a algum funeral; ora me assustavam com o perigo de grandes traições que se armavam contra nós, e como as desprezei? deixando-os e ficando só.

E como levamos a narração de interdicto a esta altura devemos acrescentar em poucas palavras o que mais occorreu. D. Affonso devia estar cançado da lida e da jornada, o que mais tinha mortificado aquella indomita vontade com o receio do perigo que ameaçava o estado; apenas se confirmou no seu nobre intento com a previsão de santo remedio, cahiu cançado. Tinha em Villa Real um filho semelhante aos que trazia em outras terras, só este o acompanhava e seguia: com um afilhado que trazia nos estudos para adiantar o pobre mais esperançoso, porque d'isto tinha elrei cuidado e geral intendencia; e o encarregou de lhe trazer alguma comida, e apenas comeu logo partiu para Lamego, e o acompanhou aquelle mancebo, que veio a ser conde de muito e grande merecimento no reino da Galliza.

Em Lamego tinha o nuncio repetido o enganoso interdicto, e partiu logo para Vizeu, seguiu o rei aquella falsa e perfida colera de mal avisado vaticinio até Vizeu, aonde viu a mesma parodia de Villa Real e a scena de Lamego, e preparou-se de prevenir o nuncio em Coimbra: o que conseguiu matando-se com trabalho, d'indomito e de invencivel lidador.

Em toda a parte o rei encontrava ciladas de traição e de morte que o povo logo descobria; e como julgava estes odios vindos d'Hespanha, matava immediatamente os traidores; e dizia: «Assim como o nosso rei está interdicto, nós faremos justiça.»

Em Coimbra preveniu o nuncio, e convenceu-o facilmente da injustiça que commettia pelos principios do direito, e até á vista dos poderes que trazia de sua santidade; e reuniu um conselho de sabios, que accordou no meio que se devia seguir; o nuncio pareceu accordar, mas trahiu a sua missão; de madrugada affixou interdicto e fugiu. Então foi apanhado pelo rei com tres matadores d'Hespanha, e d'estes não ficou um.


O ULTIMO CARRASCO

Luiz Negro é o nome, terrivelmente adjectivado, do ultimo carrasco legal, que morreu no Limoeiro, ha poucos mezes.

Na provincia transmontana contam-se ainda, nos saraus aldeãos, as lendas sinistras do facinoroso soldado de dragões de Chaves.

O Ultimo carrasco é o bosquejo d'esse personagem, tão decahido da sua antiga importancia, mas tão considerado ainda no funccionalismo, que lhe concederam as honras, quando o desbalizaram do ordenado.

O snr. visconde de Ouguella possue, do proprio pulso de Luiz Negro, o escorço dos factos que o constituiram homicida legal, com estipendio; todavia, não podemos favorecer a memoria d'este executor da justiça, asseverando que elle cumpriu os seus deveres; por quanto, do contexto da obra vêr-se-ha que Luiz Negro, quando tinha de enforcar, pagava a quem o substituisse.

No prologo do Ultimo carrasco, no recamado estylo com que todos os seus escriptos se opulentam, o snr. visconde de Ouguella detem-se na antiga idéa de abolição da pena de morte. Entre os mais energicos apostolos d'essa humanissima missão, está Carlos Ramires Coutinho, desde que passou dos bancos da universidade para a tribuna forense.

Os primeiros brados, que resoaram na imprensa, nos tribunaes e na consciencia publica, sahiram da alma liberrimamente generosa d'aquelle moço. Os annos volveram-se, os attritos do desengano desbotaram-lhe o verniz de muitas e queridas illusões; mas o sentir profundamente humanitario lá se lhe insurge, apesar dos dissabores, em pró das classes cuja emancipação os preconceitos retardam. Nem as insignias titulares, nem o egoismo tão irmanado com os bens da fortuna enervaram a alliança que travou o visconde de Ouguella com as aspirações da democracia. Para elle o titulo não é a inerte e absurda indifferença de fidalgo, nem da superabundancia de meios surtiu a atrophia dos fidalgos sentimentos que a pobreza, talvez, obrigasse a transigir com a fatalidade das circumstancias.

Queremos dizer que dos escriptos do visconde de Ouguella reveem, principalmente, os impulsos liberaes de um animo que não enfraquece nem descança na lucta. No prefacio, que vai lêr-se, do Ultimo carrasco resaltam um altissimo condoimento da ignorancia, que sob-põem o collo ao jugo, e uma vehemente invectiva aos que, se podessem, apagariam a immensa luz que lhes abriu caminho por onde se passaram dos tamboretes de couro para os flaccidos sophás.

O ULTIMO CARRASCO

INTRODUCÇÃO

É dolorosa a tarefa.

São pungentes, tambem, as recordações.

Todavia a feição singular d'este nosso seculo exige imperiosamente estas luctas, e obriga-nos a estas pugnas, as mais das vezes, inglorias.

Seja assim.

Tão rapidamente se photographam, hoje, as metamorphoses dos apostolos, allucinam-se com tanta promptidão os espiritos, e desvairam-se as consciencias em tão loucas vertigens, que temos nós—nós, os exploradores obscuros, e audazes obreiros—de lidar e mourejar constantemente, para affirmar, a cada hora, estes principios sacrosantos, que consubstanciam, e determinam a religião do dever.

Ainda ha pouco, uma das mais esplendidas intelligencias da peninsula, rica de todas as opulencias d'este nosso sólo do occidente, marcada com o sello divino, precursora da boa nova, sentinella e espia vigilante das mais puras crenças em que se basêa a democracia, esqueceu, nos delirios que dá o mando e o poder, todas as inspirações, e toda a religião do povo—religião das massas, que, elevando-o, o engrandeceram e divinisaram—e, acommettido pelas vaidades pueris dos Nabuchos de todos os tempos, exilou, deportou, e fusilou como se fôra elle—elle, o tribuno das escolas e dos congressos—um duque d'Alva nas ferocidades das conquistas do imperio de Carlos V, ou um deploravel Telles Jordão, nascido para sicario de todas as reacções.

É triste, é lamentavel, é afflictivo, que o Demosthenes da peninsula hispanica, berço na actualidade da familia mais heroica da raça latina, deslembre e olvide, nas allucinações, que ensombram o fastigio do poder, principios inconcussos e sagrados, e venha dar senão razão, pelo menos pretexto a essas hordas barbaras de hunos, vandalos ou não sabemos se de bandoleiros, que atravessam e devastam as Vascongadas, a Navarra, e a Catalunha, missionando crenças, que seriam ridiculas e apenas abjectas, n'este seculo, se um rasto de sangue, de fogo, e de metralha não enchesse de terror e de luto as povoações por onde caminham e perpassam.

Não ha razão d'estado, não ha lei de salvação popular, não ha causa nenhuma, por mais ardilosa, machiavelica ou especiosa que seja, que consagre nunca, e em caso nenhum, uma offensa feita ás leis geraes por que se rege a humanidade.

A vida humana é inviolavel sempre, e para todo o sempre.

Errem os homens—embora!—Succumbam momentaneamente as idéas grandiosas de emancipação dos povos—resignemo-nos, e esperemos. Mas salvemos todos esta arca santa, este sacrario das mais nobres aspirações da democracia.

Dêmos ao sacer esto das doze taboas a unica e verdadeira interpretação das sociedades modernas.

Não votemos o criminoso, qualquer que seja o seu delicto ou a penalidade em que incorreu, aos deuses infernaes. Rehabilitando-o, votemol-o á sociedade, ás verdadeiras crenças, á familia, e á patria.

A Vida do homem é sagrada.

Como são sagrados todos os direitos absolutos, como é sagrado e mysterioso o fim do homem, como é sagrada, indescortinavel, desconhecida e insondavel a causa da existencia humana, a razão da vida harmoniosa do universo, o pensamento supremo, que presidiu a todos estes esplendores, que se formulam e desenrolam nas magnificencias da creação.

E é o homem, na pequenez da mais miserrima e limitada existencia, na ignorancia fatal das suas transformações futuras, nas trevas densissimas do seu porvir, que diz a outro homem—a um irmão seu, ao Abel da sua raça: «Eu mato-te, assassino-te, á face d'este sol esplendido, em presença de toda a creação, com a consciencia segura e tranquilla de que Deus me ouve, me vê, e me escuta, em nome d'umas leis que eu inventei, e escrevi,—por que eu, homem, pelo facto de ser legislador e juiz arvoro-me em carrasco, e rasgo e devasso consciencias, analyso e preso intenções, forjo e imagino crenças, e condemno em nome de Deus vivo, e da justiça absoluta de que me faço interprete, magistrado e saião!»

Crêmos firmemente que a misericordia divina alcança ainda estas sinistras e ferozes aberrações dos verdugos e dos algozes.

Perdoai a todos, Senhor, e quando o perdão da vossa infinita bondade, n'esses effluvios repassados de sentimento, como pai e creador, descer sobre nós, que a vaidade pharisaica, o orgulho ignobil de todos os sacerdocios, e de todas as theocracias, scepticismo inconsciente de todas as ignorancias, e a blasphemia perdoavel, nascida do desespero, e da miseria, achem, nas pregas do vosso manto d'esquecimento, lugar onde se abriguem, pela omnipotencia do vosso poder, e pela misericordia infinita dos vossos designios.

Que a religião do futuro seja um hymno de gloria, um hossana de perpetuo louvor, onde só a myrrha e o incenso subam aos vossos altares—e que as carnificinas humanas desde os homicidios nos dolmens dos deicidas até ás fogueiras do fanatismo catholico desappareçam e se extingam em presença do verdadeiro culto, que o ente humilde, e inconsciente da sua missão, na terra, presta á sublime causa, ao Ente que regula e dirige o universo.

VISCONDE DE OUGUELLA.