ROMANCE
III
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
Vol. II
CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337
JULIO
DINIZ
A MORGADINHA
DOS
CANNAVIAES
(CHRONICA DA ALDEIA)
DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
LISBOA
J. RODRIGUES & C.a, EDITORES
186—Rua Aurea—188
1920
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
XVII
Não havia mentido a grande
scintillação das estrellas
na noite de Natal.
A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio
meteorologico, rompendo pura, desennevoada,
com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir
os gêlos dos montes e os gêlos da velhice.
O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã
aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas
e roupas domingueiras, atravessavam os campos,
saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas
e quelhas na direcção da igreja matriz, onde
se deviam celebrar as festas da Natividade.
Era dia santo entre os que mais o são; e os dias
santos na aldeia teem uma feição solemne e
festiva,
que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos
apertados horizontes das cidades, phantasiando o
campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente
nas cópas das enfezadas arvores das
nossas praças e jardins.
Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar
o domingo nem o dia santo, com um vestuario
mais asseiado, com um prato mais exquisito
na lista do jantar, com uma diversão excepcional,
que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar
n'esses dias, exactamente como em todos os da semana,
perderam nas cidades os dias do Senhor a
feição typica e interessante, que por muito tempo
tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem
de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer
no domingo ao som do sino, que chama para
a missa matinal.
Dirá então se não parece que
até o sol tem outra
luz e que as arvores e as plantas se toucaram de
flores novas, que guardam de reserva para os dias
de festa.
Este particular aspecto do domingo estava-o logo
pela manhã sentindo Henrique de Souzellas, encostado
á varanda do quarto em que pernoitára, e
emquanto esperava que o chamassem para o almoço.
De vez em quando a recordação das scenas
nocturnas
da vespera desviava-lhe para outra ordem
de reflexões o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles
incidentes á memoria, mas vagos e confusos,
como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a
duvidar da realidade d'elles.
Agora estava experimentando certa curiosidade e
tambem receio de saber como seria recebido pela
morgadinha, e que posição deveria tomar na
presença
d'ella.
Formava a este respeito varias conjecturas, sem
se fixar em nenhuma.
D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o
toque
da campainha annunciando o almoço.
—Vamos,—disse Henrique—preparemo-nos
para o primeiro embate. Apuremos a vista para
n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle
regular o meu plano de tactica.
E depois de uma rapida consulta ao toucador,
desceu para a sala do almoço.
Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro,
e a morgadinha presidindo á mesa e preparando
o chá.
Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram
da maneira por que elle tinha passado a
noite.
Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente;
e, falando, desviava o olhar para Magdalena,
que o encontrou do modo mais natural, sem
timidez nem audacia.
Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando
portanto a vez de cumprimentar Magdalena.
—Bons dias, prima Magdalena,—disse Henrique,
estendendo a mão e fixando-a com olhar investigador.
Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com
sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:
—Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer
horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma
indiscreção mandar tocar a campainha. Esqueci-me
de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã.
—Eu é que não consentia:—disse o
conselheiro—na
aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as
minhas alvoradas são mais tardias.
—Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não
esperei
que me acordasse o toque da sineta. Ha muito
que eu namorava a manhã da janella do meu quarto.
—Eu não pude dormir toda a santa noite—disse
D. Dorothéa.—Estranhei a cama e a casa. Eu cá
sou assim, quem me tira do meu ninho!...
—Ó prima, não vá sem resposta—disse
D. Victoria—que
tambem eu não puz olho, e mais sou
de casa. E por signal que sempre hei de querer saber
quem foi o criado que lhe deu para andar toda
a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda
ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o
primo
Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
—Não, minha senhora; eu não senti rumor.
E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da
morgadinha, que justamente n'aquella occasião lhe
servia uma chavena de chá, e que de novo o fixou
sem perturbação nem affectada
indifferença.
Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava
um pouco á sua vaidade este nenhum vestigio de
resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena.
No entretanto D. Victoria continuava a commentar
com D. Dorothéa o facto das passadas que ouvira
de noite.
—Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o
que vae. São coisas d'estes criados. Não faz
ideia!
É uma pouca vergonha! É preciso paciencia de
santa para os aturar.
—Angelo,—disse a morgadinha ao irmão—entretido
como estás a conversar com as creanças,
esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece
de se fazer lembrar. Que distracções por aqui
vão!
Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle
tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas
abstracções, a que ultimamente era sujeita.
—Eu não sei que tem hoje esta Christe—disse
Angelo.—Julgo que lhe fez mal o frio na noite de
hontem.
—É verdade, até está falta de
côr! Ora queira
Deus que não seja coisa de cuidado. Dóe-te alguma
coisa, menina?—perguntou D. Victoria, apprehensiva.
—Não, mamã—respondeu Christina.
—Ó meninas, vocês tambem são umas
desacauteladas.
Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses
mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é
não tem
dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.
Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas
mais n'este sentido. Estas reflexões fizeram Henrique
desviar os olhos para a pessoa que era objecto
d'ellas.
Christina estava effectivamnte pallida e pensativa;
e d'esta côr e d'esta expressão recebia uns ares
de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa.
Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta
creança, em que mal fixára a
attenção até alli, e pela
primeira vez se demorou a observal-a com alguma
insistencia.
—É interessante esta pequenita—pensava elle
comsigo.
Christina ia a levantar os olhos para responder a
D. Dorothéa, quando encontrou os de Henrique a
fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal
pronunciado
rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e
os olhos baixaram-se de novo.
—Ha de ser adoravel esta mulher—pensou
d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.
O conselheiro disse, sorrindo:
—Ora, que estão a dizer? A Christe até
está com
umas côres muito bonitas. Triste? Melancolias dos
dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente
está agora n'algum episodio sentimental no
romance da sua imaginação. Não
sondemos aquelles
mysterios, mana. Já não é para
nós comprehendel-os,
prima Dorothéa.
Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou
o enleio de Christina.
A morgadinha, a quem não passára despercebida
a impressão, que a prima d'está vez parecia ter
causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que
havia tanto procurava, e para isso propoz que se
désse uma volta pela aldeia antes da missa do dia.
Esperava ella que as attenções de Henrique,
durante
o passeio, seriam para Christina, se não decorresse
o tempo preciso para que se dissipasse no espirito
do voluvel rapaz a impressão que o dominava.
A manhã convidava á excursão
campestre. A
proposta da morgadinha foi acolhida com applauso.
O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa
do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã.
Levantaram-se todos da mesa, e á
excepção de
D. Victoria e D. Dorothéa, todos saíram.
A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se
ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique
de offerecer o braço a Christina, o que effectivamente
aconteceu.
—Bem,—disse Magdalena comsigo ao vêl-os—agora
que os anjos bons de um e de outro se convençam
da obra meritoria que fazem entendendo-se.
E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe
no braço.
Angelo ia com as creanças adeante.
Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina,
para vêr se os anjos bons d'elles ambos accederam
ao convite de Magdalena.
—Não ha prazer que se compare ao de um passeio
assim pelos campos, n'uma manhã como a de
hoje, e em companhia tão amavel—dizia Henrique,
procurando aquilatar o espirito da sua
partner,
n'um certame de galanteria, fóra do qual não
concebia
que se pudesse temperar uma paixão.
Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas
respostas lhe estava porventura ditando a alma!
mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, não
lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder:
—Está muito agradavel a manhã, está;
nem parece
de inverno!
—Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural
em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as
aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque prepara
a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as
leituras em commum, e traz-me á ideia as imagens
de um viver a que a phantasia de todos sorri; de
todos os que teem um resto de coração; refiro-me
ás imagens de uma familia.
Não ha quem sustente mais tremendas luctas do
que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda
a violencia dos seus instinctos, contra não sei que
mysterio de temperamento, que lhes reprime as
expansões. Na apparencia é fraqueza e serenidade,
mas no intimo ha esforços realisados, que os fortes
nem concebem sequer.
Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas.
Os labios só puderam responder:
—Na cidade o inverno é mais facil de passar,
julgo eu; porém na aldeia...
—Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a
felicidade que eu imagino. Não é fóra
das portas de
casa que devemos procurar os elementos para instituir
a nossa ventura, e por isso... Mas a prima
ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem
que completou os seus vinte e sete annos sem
familia. Não é verdade?
Christina só pôde sorrir:
—Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se
a morrer apaixonado do ideal e abraçado á peor
das realidades. É a consequencia legitima e triste
do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado
na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes;
porém nenhuma que satisfizesse ás necessidades do
meu coração, de quem me affirmasse a consciencia
poder esperar a realisação do meu sonho.
Perdôe-me
falar-lhe n'isto, priminha; é uma ousadia que
tomei, porque um instincto me disse que possue no
coração bastante bondade para m'a perdoar.
—Está a gracejar?—disse Christina, em quem
redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que
estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a sua
felicidade: contradicções proprias dos timidos.
—A prima é muito moça—continuou Henrique,
que não desesperava ainda de animar esta Galatheia—e
talvez por isso lhe causará estranheza este meu
modo de falar. Um dia virá, porém, em que o
comprehenderá
melhor. Se então encontrar um desconfortado
como eu, peço-lhe que tenha misericordia
d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem
a
conheceu n'uma época, em que só podia
vêr em si,
priminha, a aurora de uma esperança que já
não
tinha de luzir para elle.
—Mas... salval-o!... como salval-o!...
—Como as mulheres salvam; amando.
—Bem digo eu que está a gracejar—balbuciou
Christina, com voz trémula.
—Tem o defeito da innocencia—disse Henrique
para si.—Não se lhe tira uma resposta de geito.
N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena
tinha saído da quinta na noite passada.
—Agora deixo-os por aqui—disse o conselheiro—irei
encontral-os á igreja. Vou arrostar com a fera
silvestre ao proprio covil.
—Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei—disse
Magdalena.
—Socega, filha; serei de cera. Até logo.
—Até logo.
E o conselheiro tomou a direcção da casa do
herbanario.
—Era tempo!—disse Henrique comsigo.—A
minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este
gêlo.
A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando
as physionomias de Christina e de Henrique,
conheceu que se não haviam entendido.
—Ainda não!—murmurou ella.—Pobre Christe!
como se deve estar odiando a si mesma! Como ha
de esta creança vencer este obstinado? Mas não
perco ainda as esperanças.
Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se
da scena da vespera e tentou outra vez experimentar
Magdalena.
—Esta porta é da quinta do Mosteiro, não
é,
prima?
—É—respondeu Magdalena, imperturbavel; e
voltando-se para Angelo:—O que te faz lembrar
esta porta, Angelo?—perguntou ella.
—Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós
ambas já de noite, e sem a tia saber, para irmos
ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas.
—Fica perto a casa d'elle?—perguntou Henrique.
—É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina—respondeu
Angelo.
Henrique pensava:
—Seria para provocar uma explicação que ella
fez a pergunta? Esta mulher é admiravel! Não lhe
sei resistir.
E já lhe não restavam vestigios da
impressão
causada por Christina.
—Este herbanario—continuou elle em voz alta—deve,
pelos seus habitos excentricos e até pelo
solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa
famazinha de feiticeiro.
—E tem,—affirmou Magdalena—mas de feiticeiro
bem intencionado.
—Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle,
do seu viver.
—É certo que poucos se atrevem a passar aqui
de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia.
—Ah! Então temem-se de passar aqui de
noite!... Pobre homem!... O que lhe valerá é
algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia.
Que diz, prima Magdalena? haverá?
Antes que a morgadinha respondesse, Angelo
disse:
—Á excepção de Augusto, que ahi vem
quasi
todas as noites, ninguem mais o visita.
—Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas
as noites?!
Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
—Lá me parecia que havia de existir algum de
coragem. Para tanto não chegava o seu animo não,
prima?
—Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido
só, e a altas horas—respondeu Magdalena com a
maior firmeza.
—Sim?! E não tem mêdo?
—De quê? De almas do outro mundo? não tenho
crença para tanto. De malfeitores? não os ha
aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com
uma suspeita me offendem—disse a morgadinha,
accentuando com expressão as ultimas palavras.
Henrique acudiu immediatamente:
—Longe de mim duvidal-o.
E calaram-se por muito tempo.
Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho
para casa do herbanario. Cruzou-se com varios
homens, mulheres e creanças de aspecto doentio e
soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito
dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos,
creanças de aspecto rachitico e enfezado,
os mais melancolicos exemplares do infortunio
humano.
—São os peregrinos que veem de Meca—disse
comsigo o conselheiro.—Pelo que vejo a clientela
do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel,
como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo
censor não trata com muito respeito o codigo.
Entrou emfim a porta do quintal.
Poucos passos andados encontrou-se com o Zé
P'reira, que vinha virando e revirando nas mãos
um papel e monologando, segundo o costume:
—Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso
Senhor com esta mexerofada! Isso até era um peccado.
N'essa não caio eu!
O conselheiro interrogou-o sobre as causas
d'aquelle aranzel.
O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando
uma receita que lhe dera o herbanario no
virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho,
causa dos seus males. A receita era extrahida da
Polyantheia, e tinha por
ingredientes uma cabeça
e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado
de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe
a efficacia.
Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro
seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem
a quem era familiar a topographia do quintal. Cêdo
chegou á vista do herbanario, que dera audiencia
sub tegmine fagi.
Estava sentado á borda de um tanque, a que uma
d'essas arvores dava sombra.
O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros
e veio ter com elle.
Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e,
depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira
posição e ficou silencioso.
—Bons dias, Vicente—disse o conselheiro com
familiariedade e parando defronte d'elle.
—Bons dias, Manoel—respondeu o herbanario,
deixando-se ficar sentado.
—Saía agora d'aqui um homem, que julgo será
rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que
se não cura.
—Os vicios são enfermidades mais rebeldes do
que os achaques do corpo, são.
—Já que tu não appareces no Mosteiro, como
d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal,
vim eu vêr-te.
—Obrigado.
—A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente—continuou
o conselheiro, sentando-se á beira do
tanque.—Cada vez te estás a sequestrar mais dos
homens, cada vez mais os aborreces.
—Eu não aborreço os homens, enganas-te.
Não
os aborrece quem passa a vida a procurar os
meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes.
Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro
já no mundo pouca gente com quem me
entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por
isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
—És um homem singular; um verdadeiro philosopho.
Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando
assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse
banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados,
e os olhos no chão?
—No passado. Pois não t'o disse já? O domingo
reservo-o eu para me recordar. Ahi está que ha
pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques
na igreja, lembrei-me de que era, dia de
Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos
atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle,
Manoel?
—Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.
—Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e
dois annos que, mais cêdo do que estas horas,
vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais
ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo.
Meu pae saíra; julgámos nós ambos boa
a
occasião de levar a cabo um projecto que havia
muito tempo traziamos na cabeça. Crescia a um
canto do muro, além, á beira do poço,
uma pequena
faia que alli não podia durar muito tempo; meu
pae todos os dias a ameaçava com a enxada e a
custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a.
Deitámos mãos á obra essa
manhã, e, no fim
de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a
para onde a deixassem em paz os hortelões,
e para junto da agua que ella já tinha procurado.
Conheces a arvore hoje?
—Não—disse o conselheiro, olhando em roda,
como á procura de algum pequeno arbusto.
—Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje
arvore. É esta a que me encosto.
O conselheiro levantou então os olhos para os
ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse
impossivel ter sido removida para alli por suas
mãos.
—É singular como os annos correm, e as arvores
crescem depressa—disse elle, distrahidamente.
—Depois da nossa tarefa, sentámo-nos—proseguiu
o herbanario.—Tu ficaste, exactamente como
estás agora, á beira d'este tanque.
Então, lembra-me
bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto,
que ainda não sabiamos se viveria, tu disseste:
«Fizemos uma obra que durará mais do que
nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O
machado vem,
quando menos se espera.»
—Como te lembras bem d'essas coisas!—disse
o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque
não agourava bem do exordio que abrira a entrevista.
—Ai, eu tenho boa memoria!
Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu
subitamente, dizendo:
—Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
O conselheiro respondeu com resolução:
—Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te
de um objecto grave.
—Sim? E commigo é que vens tratar os objectos
graves?
—Por que não? sempre foste homem de bom
conselho.
—Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste
assim.
—Não poderás dizer que deixasse alguma vez de
te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos
diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar
diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi
procedem divergencias naturaes, que comtudo nos
não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.
—Bem, então dizias tu que vinhas?...
—Trata-se de um negocio de muita importancia,
Vicente.
—Dize.
—Responde-me primeiro: tens ainda animo para
sacrificios?
—Pouco tenho que sacrificar.
—Tens, e é um sacrificio doloroso.
—Acaba.
—Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este
quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.
O herbanario, contra a expectativa do conselheiro,
acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu,
com certa ironia:
—E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me
a isso? Avisas-me para eu me arredar a
tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do
que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem
decepadas? És generoso, Manoel, em teres ainda
em conta a vida de um homem inutil.
—Ahi estás já com as tuas
recriminações. Acredita
que eu...
—Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que
não tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem
e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares
o coração de um velho e pobre amigo e offenderes
os interesses de algum rico e poderoso
influente, tomaste o primeiro partido; e, como os
differentes habitos de vida te ensinaram em muitas
coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não
déste a isso o nome de ingratidão.
—Ouve.
—Sê franco, que eu te ouvirei.
—Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era
indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes.
Estava n'isso empenhada a minha palavra e a
minha honra. Ha muito que os meus adversarios
me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui,
apesar d'esta situação politica me ser contraria.
Tres traçados se offereciam. Um sacrificava
uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo
que não é muito rico, que está no
principio da
existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella
não teria occasião de maldizer a imprevidencia de
quem devera olhar por os seus interesses. Querias
que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos
hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo,
convenientemente trabalhados, podem ser de um
valor importante. Querias que o fizesse? ou não me
desculpas por o não ter feito?
—Fizeste bem—respondeu o herbanario.
—O outro traçado cortava os bens do brazileiro
Seabra. Conheces este homem? Um elemento que,
nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a
vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas
tambem uma cabeça que, entregue a si, não faz
coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente
a esse traçado; se o não attendesse,
declarava-se,
por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia
(e algumas armas tem para luctar), imagina a
calamidade que seria para este circulo o confiar
áquellas mãos os seus destinos; vencido, era
perder
a esperança de tirar dos bem fornecidos cofres,
que o homem possue, alguma coisa mais util do
que um sino para a igreja ou vestimentas novas
para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar
o homem, para vêr se consigo d'elle uma casa para
escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos,
e um estabecimento sericicola; se o desattendesse,
lá iam as esperanças d'estes melhoramentos
tão uteis, e que o mais que nos poderão custar
é um diploma de visconde ou uma commenda. Sei
que te não agradam estes meios, porém olha que
em politica são dos mais innocentes que podem
empregar-se. Já vês pois que o segundo
traçado tinha
desvantagens para o circulo, por cujo interesse
me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois o
terceiro traçado que, lealmente o confesso, não
era
o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado;
eu sabia de mais o que valia para o teu
coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu
mesmo
possuo memorias ligadas a estas arvores, e não ha
homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia
desapparecerem os vestigios dos seus tempos
de infancia e de juventude; mas sabia tambem
que tu eras uma alma generosa e heroica, e que não
duvidarias comprar, á custa das tuas dores e saudades,
um melhoramento para esta terra, que tanto
amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida
ainda agora de má vontade, corre risco de se
não fazer, se, quanto antes, não principiarem os
trabalhos;
a menor opposição dos proprietarios, o menor
embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura
indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente.
Enganei-me?
O herbanario estava cada vez mais
pensativo.
—Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais
importancia a dois annos de vida que me restam, do que á
vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem.
—Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que,
dissipa as apprehensões com que estás; em
toda a parte terás arvores...
O herbanario interrompeu-o:
—Se não entendes o amor que eu tenho a estas,
não faças por consolar-me, Manoel, porque me
affliges mais.
—Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em
qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago
á tua espera, tanto á mesa, como ao canto do
fogão, e amigos que te receberão
com prazer.
—Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de
pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem
que semeei.
—Eu farei com que o contracto da expropriação
seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias...
—Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero,
ninguem m'o pagaria; a não attender a isso, tudo
será pagal-o bem.
—Mas...
—Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores
me ouçam propôr o preço
por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então...
—Tudo. Dize em que te posso servir.
—Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre
rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um
homem, que tem vinte annos, um coração e uma
cabeça como tu sabes, e
que de ti e dos teus, da gente que dá e vende
graças, honras e empregos, só quer um favor...
mais uma justiça: lembra-te d'isso.
—Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa
facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse
rapaz perde por modesto. Acredita, ás vezes é
mais facil servir os
ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. É
certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas
não importa; conta com isso, como negocio concluido.
—Emquanto não vir...
—Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que
pedes? Vê lá.
—E que me deixes agora só.
—E não me ficas querendo mal, Vicente?
—Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou
pelo menos que suppões que a tens. Basta-me isso para te
perdoar.
—Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de
Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha
eleitoral.
—Não prometto.
—Adeus.
O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que
não retirou a sua, e partiu.
—Está feito!—ia pensando o conselheiro á
saída—não foi tão difficil como
julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o
vê! O que faz a idade! Bem! Agora é apressar os
trabalhos para antes das eleições, a
vêr se acalmam algum
fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que
pequeno será.
N'estas cogitações chegou á igreja.
Magdalena esperava-o no adro.
—Então?—perguntou ella, com anciedade.
—Tudo está remediado; entendemo-nos
perfeitamente—respondeu o conselheiro, com manifesta
satisfação.
—Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!—exclamou
Magdalena, com alegria.
—Como ceder?—tornou o pae.—Elle é que foi mais
condescendente do que eu esperava. Não oppôz a
menor resistencia, nem se queixou muito amargamente.
—Pois consentiu?!
—Sem grande custo, ao que parecia.
—Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo
devéras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu
pae!
—Ora vamos; a tua imaginação é que te
illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o
brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu
vou já ter comvosco.
E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que
estavam aquellas duas notabilidades.
—Dou-lhes uma boa nova, meus senhores—disse o conselheiro, depois de
cumprimental-os—dentro em pouco temos os alviões a
trabalhar cá na
terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do
homem, que nos obrigassem a
expropriações judiciaes, sempre demoradas. Mas
não, achei-o nas melhores disposições;
e assim, dentro em
poucos dias...
—Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios
não sejam tão doceis—lembrou o brazileiro.
—Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores
com pouco se contentam.
—Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco—disse o
brazileiro, sorrindo velhacamente—mas os modernos...
—Pois mudaram de senhorio?
—Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.
—E quem os comprou?
—Este seu criado.
O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém,
dizendo:
—Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e
independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos
publicos, do que...
—Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os
melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.
—De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma
empreza como esta.
—Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios
á parte.
O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o
espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.
—Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?—requereu do lado o sr.
Joãozinho das Perdizes.
—Mil que pretenda—acudiu o conselheiro; e tomando o braço
do morgado afastou-se do grupo.
—Eu tenho a pedir-lhe um favor—principiou o morgado.— Eu, como sabe,
interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro,
que quer vir ensinar para aqui. Este negocio está empatado,
como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este
respeito.
—Pois sim, mas...—fez-lhe notar o conselheiro—não sabe
que é Augusto o outro concorrente?
—Então que tem isso?
—Não lhe parece que seria uma injustiça? Um
rapaz de merecimento, como elle é, aqui da terra, que
já exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia?
e haviamos de...
—É verdade,—atalhou o outro—pois isso é
verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte.
—Mas se o rapaz quer isto?
—Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E
vamos, sr. conselheiro, a gente tambem
não ha de estar só a
fazer favores, sem os
receber quando os pede. Com este já são tres.
Pedi-lhe
para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas
caudelarias lá para a freguezia... estou á espera
d'ellas... Ora isto não se faz. O
senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições
com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora
não sei o que será. A
não se decidir este negocio depressa...
—Ora não será isso motivo para tanto.
—Com certeza que é—insistiu o sr.
Joãozinho.—Então digo-lhe mais: a mim
já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria
dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já
estão no
poleiro não sei se lhe diga que não é
peor.
O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:
—Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de
fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em
relação ao que me diz, eu verei.
—Mau! Não é «eu verei».
Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás
eleições
não estiver feito o despacho, não conte commigo.
—Mas quem lhe diz que não ha de estar?
—Pois lá isso...
—Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.
—Bem.
O sino tocava a chamar para a festa.
Terminou o dialogo.
—O peor—ia pensando o conselheiro—o peor é que prometti
ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem
dúvida; é
tão magra a posta, que não vale a pena
disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É
preciso ter
ambição por elle. Se elle quizesse ir para
Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se
maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o
que sabe.
Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado
o pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de
impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e,
á fôrça de cortezias e
cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção.
Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o
latinista com tanto ardor namorava.
O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau
humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:
—Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não
farta de chupar. Contente-se com o que tem; vá conjugando o
laudo,
laudas, que outros, com mais merecimentos, nem isso
conseguem; e deixe-me.
O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a
admoestação, e curvou-se para deixar passar o
conselheiro.
Mas lá comsigo dizia:
—Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te
não pica.
E entrou tambem para a igreja, com não muito
christãs disposições de espirito.
XVIII
Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em
visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo
eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que
tomava parte, com gôsto, n'estas excursões
politicas.
Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de
Pinchões, passaram elles um dia. Nos solares
do morgado tudo era desordem e
desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se
trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira
lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes
dóses de carne de porco e de vinho, com que elle,
á viva fôrça, o queria regalar.
No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do
chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos
pés dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles
não conseguiram desalojar, e que toda a noite os
incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fóra.
Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o
obrigava a esta noitada.
Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua
propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em
affectadas exclamações, deante dos prodigios de
mau gôsto reunidos alli.
As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos
feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras;
um pequeno modelo de fragata brazileira com
tripulação de altura dos cestos de
gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e
com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra,
eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas
vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas;
bordados, diplomas de socio de não sei quantas sociedades
brazileiras; tudo
encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus
de Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades
accrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio
que cantava o hymno brazileiro.
Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.
Com estas visitas politicas, passou, como dissemos,
todo o periodo das festas do
Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa
que mereça nota.
Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem
outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão
acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não
voltára ao Mosteiro desde então. Era tempo de
férias para as creanças, o que fazia natural esta
ausencia, contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena
nunca porém alludia a ella. Christina passava o tempo,
querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de
ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra.
Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo
do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram
para assistir á solemnidade popular.
Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia
ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia
mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia
dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipação
andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia
desempenhar.
Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam,
são como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a
varredura estrangeira deixou ficar pelo chão.
Não obstante as extravagancias e as
modelações toscas e risiveis de muitos,
é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado
mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada
musa das cidades, a cujo paladar já sabem mal as
popularissimas redondilhas, tão apreciadas ainda na
Hespanha.
Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou
pateo de quinta um tablado; veem adornal-o
as mais vistosas colchas de
chita, das quaes tambem se formam os bastidores; alugam-se
nos depositos mais modestos da cidade ou villa proxima vestidos de
reis, de principes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de
épocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma
plateia rustica, ao ar livre, como no theatro antigo, desfiam-se em
cantada choradeira as sentimentaes peripecias da vida de qualquer
santo, ou, entre gargalhadas, os episodios comicos do
algum enredo popular.
A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do
Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do
circulo, em parte por conveniencia dos emprezarios, pela
apropriação do
terreno a todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes
casos recebiam de s. ex.
a, essa circumstancia,
dizemos, augmentava o
numero de espectadores.
Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do
espectaculo popular.
O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem
pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava
pôr á
disposição dos seus representados.
Desde a vespera havia grande agitação e azafama
no pateo do Mosteiro. Os artifices levantavam o tablado scenico;
pregavam e despregavam taboas; serravam barrotes; os directores, e
á frente d'elles o infatigavel e imaginoso Pertunhas, davam
ordens contradictorias; e os curiosos estacionavam em magotes,
difficultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres
absurdos.
Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora
dos seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida
e de enthusiasmo.
Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir
a espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia
chorar
as creanças e estremecer as mães; ia
resuscitar Herodes, o déspota legendario.
Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e
insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos
scenicos futuros.
Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com
a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a
ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a
d'elle.
E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do
recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio
de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de
rusticidade continha abafado mineral de lei.
Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam
porventura arrebatar plateias inteiras com as
revelações do genio, que ás
vezes n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda
assim inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o
sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava
o gesto no calor do desempenho; não mentia aquella
embriaguez que lhe causavam os applausos da multidão.
Não ha verdadeiro genio artistico, que se não
namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O
homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será
poeta nem artista de verdadeira inspiração. O
amor vivo da
gloria adeantou a
meio caminho os emprehendedores d'esta
nova conquista de vellocino.
Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista
novel, á lembrança do espectaculo, em que pela
primeira vez ia entrar.
As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido
encarregar-se da
toilette da Fama.
Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o
Mosteiro, e passava das mãos de Magdalena para as de
Christina e das d'esta para as d'aquella, e
sempre com recato preciso para que ninguem
mais lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a
occasião a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo
é que mais tiveram que luctar.
Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo
de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado,
occulto por as colchas de chita aos olhares da multidão.
Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica,
dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de
batuta.
Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle,
uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das
torturas.
Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos,
deu o signal de principiar.
Um, dois, tres; um, dois—dizia ou fazia elle com os olhos e com os
movimentos da cabeça e pés, porque a
bôca, essa já estava applicada
á embocadura da trompa. O segundo «tres»
era o tempo fatal. Os musicos, porém, ou por distrahidos, ou
por a commoção propria dos actos solemnes,
não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da
trompa do mestre Pertunhas, achou-se só no
espaço, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade
dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue.
Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando
as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota
chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas
atraz d'ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de
indescriptivel effeito.
O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e
o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a
vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre
os da banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de
razão.
Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade!
Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia.
Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que
fôram de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de
um Cham ou Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que
ameaçava estalar todas as costuras da farda, primitivamente
feita para um individuo de metade das dimensões d'elle, com
as faces insufladas, a testa contrahida e os olhos injectados para
extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava com
arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um
flautim, de braços compridos e tibias
esquinadas, com meio braço fóra das mangas, com
meia perna de fóra das calças, figura em que
havia não sei o que de onomatopaico, tão bem se
casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exiguo
instrumento. O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz
adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em tufos no meio das
faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os
pulmões dentro de um figle; um corcovado e
semi-anão repicava os ferrinhos com uma prodigalidade
assustadora; as baquetas da caixa estavam confiadas ás
mãos callosas de um
moço de lavoura, de rêpas hirsutas a cobrir-lhe a
testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, no meio d'estas e
analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo
com o pé, suando, arregalando os olhos, piscando-os,
marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa,
que lhe dava então não sei que apparencias de
proboscidiano.
Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a
familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram
de dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista
que se conhece. Henrique foi quem mais
sublimes esforços fez para soffrer com paciencia aquellas
torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de S. Carlos
perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso
aquella banda pandemonica!
—Coragem! coragem!—murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como
perfeito politico.—Nas occasiões é que os homens
se conhecem! Coragem.
—É em extremo forte a
provação!—respondia-lhe, gemendo, Henrique.
—Firmeza; que a pallidez do susto nos não
atraiçoe—continuava aquelle.
Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a
seriedade.
A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido
tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o
estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares
de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que já
se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade,
como se fôra a resultante do palpitar de tantos
corações.
Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes.
A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros
largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas
negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as
juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho
selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na
multidão um quasi pavor, que nem o conhecimento intimo que
tinha do homem conseguia dissipar.
Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos,
corpete de velludilho azul, calções golpeados.
Pendia-lhe á cinta
um alfange e uma pistola; ao peito algumas
condecorações.
Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões.
O auto rompe com um monologo de Herodes.
O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz
considerações substanciosas sobre a
condição dos reis em geral e a sua em particular.
Principia elle assim: