Não ha vida mais inquieta,
Nem mais cheia de cuidados,
Do
que a de um rei que pretende
Conservar os seus estados.
O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços
cruzados, medindo o palco a passos largos.
Continuavam varias proposições de physiologia do
throno, e, do caso generico baixando ao particular, da these
á hypothese, principia a falar de si. Cancella, conhecedor
dos segredos da arte, começava aqui a dar mais vida
á recitação, como
para mostrar o maior empenho que tomava a alma n'este capitulo da
especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda do Messias, e
inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz
traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de
desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos
paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a
fôrça á sua voz potente, soltava
berros, que participavam da natureza dos do tigre.
Começarei desde logo
A publicar leis tyrannas,
Que
aterrem os meus montes,
Os palacios e as choupanas.
Será tal o meu furor,
Tal a minha
indignação,
Que ninguem se atreverá
A
conquistar meu brazão.
O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam
a fixar-se. A excitação
de animos a que os transportes de Herodes, inquieto
pelo seu brazão, levára o publico,
foi serenada
por um chorado côro de anjos que cantavam atraz da cortina:
Não temas,
ó rei cruel,
Que te conquiste o
docel.
Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe
afiançarem a segurança do docel,
pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o mêdo no
coração, mêdo que procura afugentar
com bravatas, em que ameaçava pôr tudo por terra.
O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos.
Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do
Herodes. Para este final do monologo reservava todos os segredos da
arte; apoderava-se d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos
olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da
individualidade propria; suppunha-se Herodes; e até...
ó fôrça da
arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi
chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era
dominado por o artista, e n'um d'estes silencios que todos
prevêem se desencadeiará em brados de enthusiasmo
e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes:
Porém o furor me
incita!
Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o
alfange e abria os braços. Tinha o que quer que era de
Adamastor, visto assim.
O brio dá-me ousadia.
Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a
mão esquerda.
Para defender o sceptro
A favor da tyrannia!
Aqui agitava os braços como azas de moinhos.
Será cada
lança um raio!
E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago.
Cada espada um corisco,
E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do
simile.
Cada soldado um
trovão,
E trovejava-lhe a voz.
Cada golpe um basilisco!
E na posição e gesto em que ficava,
não era menos terrivel e pavoroso do que a fera da
comparação.
Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as
mulheres e as creanças ficaram
silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um peccado applaudirem
Herodes. E não sei se, o que fizera menos escrupulosa n'este
ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das janellas
do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no
palco são admirados, mas raras vezes applaudidos.
Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o
auto.
Dariamos de bom grado na integra tão importante
peça dramatica ou pelo menos circumstanciada noticia d'ella,
se não receiassemos o recheio excessivo para esta ordem de
alimentos litterarios, que se querem leves. Não podemos
comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente.
Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro
do dito—assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que dá
a entender que Herodes era homem de
escripturacão regular,—o capitão das tropas
reaes, os tres reis magos, o anjo, a Virgem, S. José e o
menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidadãos de
differentes cidades, o criado de um d'elles, a Fama e duas
creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho.
As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na
lapa de Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto.
A imaginação do espectador era a encarregada da
mudança do scenario.
O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas
as cordas do coração.
Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a
sympathia pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres
moços de lavoura, de manto, luvas de algodão e
turbante, os quaes, em lamuria nasal e com profusão de
xes, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma
das quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao
Deus nascido a protecção para Portugal.
Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como
carpinteiro que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina,
emquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem
principiava a despontar o buço da puberdade. O anjo
apparecia, como nas procissões, carregado de
cordões de ouro.
No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica
simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir,
chega a elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro
mocetão em trajes femininos, e da parte da ama offerece aos
foragidos algum dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por
não poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece
com as phrases da tarifa, recommendando-se muito a sua prima.
O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha
personagens, reflexões e scenas
sempre apreciadas e já
aguardadas pelo publico, que as saúda com sinceras
gargalhadas. D'estas a principal é evidentemente a que se
passa entre um cidadão, de quem a sacra familia recebe
gasalhado, e o criado do mesmo.
É uma scena de disputa domestica, cheia de
allusões satyricas á classe dos criados de
servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois de
mostrar ao criado, de relogio em punho—anachronismo shakspeareano—a
demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o
auditorio:
Não se pode ter criados
Hoje em dia, n'esta vida,
Ou quem
houver de os ter
Não lhes deve dar guarida.
N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso
episodio.
D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa
de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de
sentir, não pôde
conter-se, que não exclamasse:
—Aquillo é que é uma verdade!
A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro,
riso que teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo.
A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir
pelo caixeiro o rapé ao auditorio; outra liberdade que
produzia sempre o maior effeito.
O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia
pitadas ao publico, dizendo:
O meu amo, com ser rico,
Gosta d'estas patuscadas.
Nunca os senhores
tiveram
As pitadas tão baratas.
Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo
a regularidade do espectaculo.
Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam,
todos fingiam espirrar e não se ouvia senão:
«Dominus tecum» e «Deus
te salve» no meio de toda aquella confusão.
Porém a um signal de mestre Pertunhas, que deixou por um
pouco folgar o espirito das massas, tudo entrou na ordem.
Preparava-se nova transição dramatica. O criado,
que vae a saír, volta, dizendo com gesto espantado e tom
exclamatorio:
Jesus, Jesus, que é
isto?
Jesus do meu
coração!
O signal da cruz me livre
De
tão terrivel visão.
Era a Fama que apparecia.
Ermelinda entrava em scena.
No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que
entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia
tão completo contraste, que um murmurio significativo de
profunda sensação correu o auditorio.
Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao
que era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina,
para lhe darem a apparencia superior.
O proprio Henrique, que até alli estivera commentando
maliciosamente o espectaculo, não pôde reter uma
exclamação de surpreza, que foi secundada por
o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo occupava
agora a scena.
A simplicidade do vestir concorria para esse effeito.
Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe
descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos
contornos e esbeltas proporções d'aquella
creança, que promettia ser uma mulher esculptural. Os
cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara,
caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando
como fios de ouro, na
alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das faces
sobresaía n'aquella moldura natural. Com os
braços descaídos, os dedos encruzados, e a
cabeça ligeiramente pendida, em expressão de
melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de
Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem
o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no
gesto o encanto da innocencia, tendo nos passos a
hesitação da timidez. Havia tanto de sobrenatural
no vulto candido, franzino e melancolicamente suave d'aquella
creança, que o actor que estava em scena não teve
de simular espanto, porque o sentia real, e não podia
desviar os olhos d'aquella apparição.
O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a
fôrça de um encantamento.
Como na antiga tragedia, o facto principal da
acção, a carnificina dos innocentes, passava-se
fóra de scena. Á Fama competia narral-o.
Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor
de commoção, principiou lentamente e no meio de
um religioso silencio a recitar os versos da
narração, os quaes, como o leitor já
sabe, não eram os do auto, que mestre
Pertunhas se estafára a ensaiar.
Os versos que Ermelinda recitou diziam assim:
Desci dos celestes
córos,
Por Deus mandada a escutar
Da
infancia as queixas e os choros,
Para lh'os ir confiar.
Desci. Na terra, nos mares
Tanta miseria encontrei.
Que os meus
magoados olhares
Da terra e mar desviei.
Desci. E tantos gemidos,
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados
os sentidos,
Quiz recuar... mas desci.
N'esta colheita de
dôres
Pelo mundo todo andei,
No pranto dos peccadores
As minhas vestes
molhei.
Vagueando dias e dias,
Chegára á Judéa
emfim,
Quando um clamor de agonias
Veio de longe até mim.
O sol, o sol inflammado
D'estas terras orientaes,
Tinha no disco
afogueado
Não sei que estranhos signaes.
Soavam menos distantes
Sinistros brados de dôr,
Choros de
mães e de infantes,
Cantos de morte e terror.
Vi anjos de azas nevadas
Em bandos subir ao céo,
Quaes
pombas amedrontadas
Fugindo á voz de escarcéo.
«Onde ídes? Quem vos persegue?
A que tormentas
fugis?»
Um, que triste o bando segue,
Estas palavras me diz:
«Somos as almas de infantes
Mortos em guerra feroz;
Inda das
mães delirantes
Nos chama a sentida voz.
«Só a materna saudade
Nossa carreira detem,
Embora
no céo, quem ha de
Esquecer, o amor de
mãe?»
Disse e o semblante formoso
Com as azas encobriu,
E ao bando silencioso
Silencioso se uniu.
Eu segui. Na impia cidade
Aterrada penetrei...
Ai, da fera humanidade
Os meus olhos desviei!
Que scena! Corre nas
praças
Sanguinaria
multidão,
Como nuvem de desgraças
Semeando a
desolação.
Cáem por terra sem vida
Tenras creanças
ás mil,
E uma turba enfurecida
Corre á
matança febril,
As mães pallidas, chorosas,
Supplicam, pedem em
vão!
N'essas feras sanguinosas
Não palpita um
coração.
Outras tentam em delirio,
Os seus filhos disputar,
E com elles no
martyrio
Gostosas se vão juntar.
Sobre a terra ensanguentada
Eu soluçando, ajoelhei,
E de
intensa dôr magoada,
A Deus piedade implorei.
Findava a prece, e uma estrella
No horisonte despontou,
Pura,
scintillante, bella
O caminho me traçou.
Á humilde e escondida estancia
Da venturosa Belem
Cheguei;
vi um Deus na infancia
Nos ternos braços da mãe.
Minha colheita de dôres
N'aquelle berço depuz,
Da
humanidade aos rigores
Pedi remedio a Jesus.
No olhar do divino infante
Raiou a luz e fulgor,
Foi a aurora radiante
Que annuncia um redemptor.
Não se descreve a impressão causada por estes
versos, que assim transformavam a Fama do auto
no Anjo da guarda da infancia. Muitas
causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto
de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e
depois aquellas palavras inesperadas, aquella
exposição
desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram
recitados, parecia augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da
impressão d'aquella voz sonora e infantil, ninguem procurava
explicar o mysterio. Milagre lhes parecia e quasi como milagre o
acceitavam, e de ouvidos attentos, collos estendidos e bôcas
semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, aquellas palavras, como se
de um verdadeiro emissario celeste as escutassem. O tablado enchera-se
pouco a pouco de gente, e ninguem dera por isso. Os actores que estavam
atraz da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos,
differentes dos que elles esperavam; isto obrigou-os a espreitar.
Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz e d'aquelle gesto,
vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram circulo
á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O
espanto, os affectos, o orgulho de pae, a
exaltação de artista combinavam-se para dar-lhe
ao rosto uma expressão quasi de extase. Olhava para a filha
como se a visse animada de inspiração divina.
Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo
trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de
bôca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro
só Angelo sorria, elle só interpretava o milagre.
Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de
creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos
espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse
alguma coisa de sobrehumana.
Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que
os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem
de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro
rompeu este quasi encantamento.
Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um
«bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o
signal.
O silencio degenerou na mais altisona ovação.
O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a
sustentar, a logica da
situação, e tomando nos braços
musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para
a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo
estendiam-se centenas de braços para a receberem; das
janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os lenços
das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia
devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de
paixão; e Ermelinda foi de braços em
braços, entre beijos e afagos, transportada do tablado para
a sala do Mosteiro, onde não foi menos calorosa a
recepção.
Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do
mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de
vêr as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que
entravam n'ellas.
O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do
Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não
fôsse bastante pathetico para commover.
—Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai
que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os
dizia!—exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena
que vira.
Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:
—Foi Augusto que fez aquelles versos?
Angelo sorriu.
—Por que me perguntas isso a mim?
—Porque o deves saber.
—Então não crês no milagre?
—Responde.
Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o
conselheiro:
—Se eu digo a v. ex.
a que o Bernardim existe.
—Mas quem é?—perguntou o conselheiro.
—Não sei; porém posso afiançar a v.
ex.
a que não são estes os
primeiros vestigios
que encontro
d'elle. As paredes das capellas dos montes são as suas
confidentes. Não está certa, prima
Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora
da Saude?
—Sim; recordo-me.
—Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que
a levem a attribuil-as á mesma pessoa?
—Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.
—Mas talvez este lhe seja habitual.
Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a
accrescentar:
—Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes
de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores.
Ermelinda foi de uma discreção impenetravel.
Quando lhe perguntavam quem lhe ensinára os versos, sorria,
respondendo que não sabia, ou que não podia
dizel-o.
—Apostemos que n'isto entra Angelo?—disse o conselheiro.
O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura
inspiração.
Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da
morgadinha, disse-lhe ao ouvido:
—Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que
tão bem canta sem se mostrar.
—Sim?
—Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas
immediações. Estas aves melancolicas amam as
inspirações nocturnas.
—Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo.
É a hora favoravel á espionagem e
ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o.
Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem
recebida a verdade. Não ha quem se tema d'ella.
E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.
—D'esta vez foi de uma severidade!!—pensou Henrique.—Cada vez me
convenço mais de que o idyllio existe e que vae
já muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com
o Romeu, que nunca mais vi? Não foi má tolice
aquella
minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso
não vale a pena.
O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra
d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da
tenção que alimentava
ainda, pois disse a Christina:
—Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que
a elle.
—Que dizes?!
—Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.
Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se
conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos
proprietarios, fôram dispersando pouco a pouco.
A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para
as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a
quem era devido o cantar os Reis.
Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de
sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe
dizer adeus.
Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as
sombras á fronte e ao
coração do pobre rapaz.
Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias;
na manhã seguinte devia
partir com o pae para Lisboa.
Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades
não se amontoam no
coração das creanças ao expirar o
termo d'esse feliz
espaço de tempo, que viveram para os carinhos da familia e
para os folguedos despreoccupados!
Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que
á menor palavra rebentam.
Quem não terá recordações
de infancia a falar-lhe d'isto?
O pateo despovoára-se de gente; através das
vidraças da casa viam-se já brilhar as luzes
interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça
inclinada,
Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres,
sem que elle désse por isso.
De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos.
Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a
pôr em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto.
—Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus—disse Angelo.
—Então vae-se embora?
—Vou ámanhã—respondeu Angelo, com a voz presa
de commoção.
—Muito cêdo?
—De madrugada.
Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.
—E agora quando volta?
—Eu sei lá? agora... só para agosto.
Novo silencio.
—Então... adeus...
—Adeus, Ermelinda.
E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo
estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como
irmã, e que
chorava ainda mais do que elle.
Que melancolico fim de dia tão alegre!
A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.
—Ermelinda—disse logo a voz esganiçada e colerica, que
saiu d'aquelle vulto.
Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.
Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas
devoções e ficára surprehendida com o
espectaculo
que vira. A assustadiça castidade d'aquella matrona toda se
alvoroçou com a tocante despedida das duas
creanças.
Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou
pelo braço e a levou comsigo.
Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella
harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.
A sr.
a Catharina do Nascimento de S.
João Baptista ia
dizendo, ao levar comsigo a afilhada:
—Que terão ainda de vêr
meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo este de
abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem
das Dores, isto é para se vêr e não se
crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e
já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus
crucificado!...
—Minha madrinha—dizia Ermelinda, chorando.
—Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e
riem de contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto
são lá modos? trazer-te por
entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da
igreja, que é a casa do Senhor! É a missa dos
domingos, e acabou-se. Os resultados são estes!... Ai,
filha, que muita penitencia te é já precisa
para salvares a alma!
—Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga
isso—exclamava Ermelinda, aterrada.
—Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura,
assanhados como cães raivosos... Eu previa isto...
É o lucro de andar por essas casas de Satanaz,
onde não ha
religião nem temor de Deus...
Ó meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por
nós! E nós tão pouco caso fazemos dos
vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois
queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos
nos fogos do inferno...!
A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.
A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas
exclamações, bramando contra o peccado, contra a
familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda
e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do
peccado dissertações não em demasia
apropriadas aos ouvidos de uma creança.
O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das
palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma
horrivel
convicção de que tinha a alma perdida, e com
lagrimas ardentes pagava a pobre creança bem caro as
alegrias d'aquella tarde, de que já tinha remorsos. Este
desalento e pavor quasi a fizeram doente.
Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os
triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao
abraçal-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde
saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se
instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois.
Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de
madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em
recovagem.
Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na
fronte desmaiada, abençoou-a e saiu.
—Comadre,—disse ao passar por casa do Zé P'reira—ahi lhe
deixo a pequena. Olhe-me por ella, que não está
lá muito boa.
—Vá com Deus—disse uma voz de dentro.
Era a sr.
a Catharina.
O recoveiro partiu, silencioso e triste.
XIX
No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por
occasião das eleições geraes que
estavam proximas.
Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro,
estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando
sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas
conferencias de coisas de pouco interesse e ás quaes elle
ligava a minima
attenção.
Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da
cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de pôr em arranjo a
cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na
conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta
emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes
inexactidões em que a via cair.
Henrique habituára-se já a estes placidissimos
habitos; e apesar de não ligar
attenção
á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não
ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam
agradavel.
Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as
occorrencias do auto dos Reis.
—Eu ainda estou para saber como aquillo foi!—dizia D.
Dorothéa.—Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!
—Ó senhora; olhe que já me disseram que a
pequena tinha espirito—disse
Maria de Jesus, com ar de mysterio.
—Olhem o milagre!—respondeu D. Dorothéa.—Por essa estou
eu.
—Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
mesma.
—Então é mais do que certo.
—Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!—disse Henrique,
rindo.—Então parece-lhe que traz espirito aquella
creança?
—Pois, menino, aquillo a falar a verdade!
—E não é mais natural suppôr que
alguem lhe ensinou os taes versos?
—Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e
até que aquelles não calhavam bem nas
lôas?
—O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo
á pequena e até suspeito com que fim.
—Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim.
Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas
tão bonitas, que nem um livro. A senhora não se
lembra?
—Ora se lembra!
—Digam-me—insistiu Henrique.—Quem ha aqui na aldeia que
faça versos?
—Versos!—repetiu a D. Dorothéa, admirada.—Ninguem, que eu
saiba.
—Ó senhora! Então o João do Trolha?
Não deita tão bonitos versos nos desafios?
—Sem ser o João do Trolha—tornou Henrique, sorrindo.
—Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito
bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se
lembra, senhora, dos versos que elle botou?
Viva a senhora D.
Dorothéa,
Raminho de bem-me-queres,
Quando põe a sua touca
É a rainha das mulheres.
—E depois a mim:
Viva a senhora Maria,
A perola das criadas,
Quando se chega
á janella
Ficam as estrellas pasmadas.
—Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as
estrellas mais que fazer do que pasmarem—disse D. Dorothéa.
—Isso é por dizer, senhora; já se sabe que...
sim... como o outro que diz...
—E além do João do Trolha, quem ha mais que
faça versos?—perguntou Henrique.
—Que eu saiba...—disseram as duas.
—E aquelle Augusto?
—O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.
—Isso não tira. Então a tia julga que
só os tolos fazem versos?
—Tolos não digo, mas...
—Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?
—Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem
sério... sim... um homem de respeito, faz versos?
—Por que não?
—Versos?!
—Versos, sim, senhora.
D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade.
Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da
entrada e após algumas pancadas á porta da sala.
—Abra, tia Dorothéa—disseram de fóra as vozes
de Magdalena e de Christina, que fôram logo reconhecidas.
E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de
D. Victoria, que vinha mais retardada.
D. Dorothéa levantou-se para recebel-as.
—Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece
que já jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a
tia Victoria, que não nos quer acompanhar a ouvir a palavra
eloquente do missionario—disse a morgadinha.
—Eu não; para apertos e barafundas é que
não estou.
—E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.
—Então? Não quero passar por impenitente. Ainda
o não ouvi. Pode crer? Além de que percebi na
Christe um fervor, com o qual quiz condescender.
—Dizem que préga tão bem—atalhou Christina.
—Pois prégará, mas eu
é que já não estou para
sermões—ponderou D. Victoria.
—Vou eu tambem ouvir o missionario—disse Henrique,
levantando-se.—Já m'o mostraram ha dias. Se os dotes
oratorios do homem corresponderem á figura...
—Então?—interrogou D. Dorothéa.
—É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral,
typo da grossura do pulso.
—Pois bom é que vás, menino—disse D.
Dorothéa—para acompanhares as pequenas.
—Como quizer, primo,—acudiu Magdalena—mas não se
constranja. O Torquato tambem vae.
—Que quer dizer? Que me dispensa?
—Não; mas que se é só por
condescendencia que...
—É por prazer. É por
devoção.
—N'esse caso...
E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas
primas á igreja.
O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da
sua invocação. Vesperas, missa
cantada, duplo sermão, e procissão á
volta da
igreja, nada faltára para solemnisar a festa.
O sermão da manhã fôra
prégado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao
missionario, que o aproveitára para uma das suas
catechéses.
A procissão já tinha recolhido, quando chegaram
á igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique
e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e
de café, como n'um arraial.
Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como
em bôca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio,
se precipitam as aguas impetuosas.
A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.
As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram,
por deferencia excepcional
dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-mór.
Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella
occasião. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e
lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia,
na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só
alvejava o lenço branco que usavam á
cabeça.
Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.
Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
orações e ladainhas,
contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá
fóra, e requintava a triste
impressão que se recebia ao entrar. Alli um grupo de
mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias
orações, que
uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com
Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces
rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando
exclamações, para
commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de
braços abertos deante da imagem da Virgem; outras
amortalhadas, em cumprimento de
promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia
uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás
portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as
lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para
dentro a circumstanciada exposição dos peccados
da semana, e recebendo de lá regras de bem viver, preceitos
de
devoção, ás vezes exaggerada e
inspirada de certa moral de convenção, com que a
ignorancia ou a
má fé porfiam em falsificar os simples e
luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o
Evangelho apregôa.
Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das
confessadas; e exhausta de fôrças, abatida
de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos
degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, senão
hypocrita, lhe pintára
inexoravel verdugo. Quando outra se não succedia a esta,
via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de
lá um padre de batina, sócos
e capote de cabeção, satisfeito de si, e
revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos,
n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios
de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos
que dirigia pela intimidação cruel.
De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que
nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com
tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.
Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.
Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que
nutria contra o clero, cuja influencia moral, aliás justa e
vantajosa, é cada
vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam
augmental-a por meios improprios
da sublimidade da sua missão e até dos preceitos
da religião, de que se dizem ministros.
Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a
Magdalena, que não pôde deixar de apoial-as, tanto
mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, não de
todo superior a este apparato terrorifico.
A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se
já evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada
vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para
fóra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a
porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a
multidão.
Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a
cabeça coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo
do confessionario.
Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle
vulto.
Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez
sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar.
Qual, porém, não foi a sua surpreza e a de
Magdalena, quando, ao terminar a confissão, reconheceram as
feições
da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e
amoravel creança, que, dias antes, tanto enthusiasmo
causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
labios, que tanta graça lhe davam!
E era esta creança que tão longos peccados tinha
a narrar, para assim ficar tanto tempo aos pés do confessor?
Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de
lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os
grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado
da madrinha e cêdo rojava com ella a fronte no
chão, que regava de lagrimas ferventes.
Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas?
Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor?
O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e
ás vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre
gordo, córado, de olhos e fronte pequenos, cabellos
grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum
tempo a fitar o auditorio.
Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum
animou aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.
Era o missionario.
A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas,
beijando-lhe a mão ou as
borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que
elle
distribuia com profusão.
Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
do chão um estorvo.
Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle,
gesticulando e realisando um triplice e admiravel esforço
para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para
desembaraçar a lingua.
Dizia o homem:
—Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario,
ou lá o que é... eu quero-lhe perguntar uma
coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religião manda...
Quando um homem se casa...
O missionario não esperou pelo fim da inesperada
interpellação; com modos rudes e pulso vigoroso
arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de cólera:
—Então que desafôro é este? Deixam um
homem n'este estado vir ter commigo?!
E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo,
que rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram
logo para afastarem o Zé P'reira d'alli para
fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente:
—Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!
Então uma pessoa não pode dizer o que sente?
Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a
voz repetir:
—Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!
Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:
—Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas
não
é mais de magarefe do que de pastor?
O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio
pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora.
O padre entrou para a sacristia.
No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão,
o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.
No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
pouco attrahente do famigerado educador dos povos.
Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
firmeza.
Esta tacita provocação durou alguns minutos, no
fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos
labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de
cabeça quasi ameaçador:
Emfim soltou o texto latino do sermão.
Seguiu-se nova pausa, e principiou.
Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas
paginas humoristicas da
Vida e opiniões de
Tristam Shandy, um
sermão sobre a consciencia, eu não ouso
transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo
missionario n'aquelle dia.
Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o
tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o
decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a
recitação dos descosidos periodos d'aquella
indigesta prática, talvez me animasse á empreza,
para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda
atrazando a
civilisação do povo e prejudicando a verdadeira
religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz
é abafada por aquella gritaria.
As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma
involuntaria falta á missa, uma penitencia esquecida, uma
oração supprimida, arriscava as almas por toda a
eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem
fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde
os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam
os delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da
oração. A fatal e desesperadora
sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do
inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do
Eterno.
Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e
não o do Redemptor
sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de
mistura com imprecações contra as modernas
instituições sociaes, contra a obra do seculo,
contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se
descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os
costumes e as ideias em sentido menos favoravel á propaganda
reaccionaria.
Á medida que a oração progredia,
animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava
a selvageria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os
ais do auditorio, e principalmente da parte
feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos.
Cêdo era já um angustioso clamor em toda a igreja.
Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este
espectaculo de desolação, voltou os olhos para
Christina. Viu-a
trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo
no gesto todos os signaes de um intenso pavor.
Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.
Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia
que se estava exercendo no animo timido de Christina.
Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
com commentarios satyricos ás palavras do sermão
e á figura do
orador, que ambas offereciam farto alimento para elles.
D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se
calasse.
Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles
commentarios improprios do logar.
Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os
commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de
Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava
mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase.
Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e
por vezes a cólera, estrangulando-lhe quasi a larynge,
interrompera-lhe o discurso.
Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles
olhares faiscantes, haviam attingido já a causa d'elles.
D'ahi algumas murmurações que principiaram a
sussurrar pela igreja.
No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas
mais acerbas do que nenhumas. A sr.
a
Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a
impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no
coração da filha do Cancella,
dominado pelo terror que o sermão levára ao
cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
fôssem já prezas do inferno, para
Magdalena e Christina, a irmã e a prima de Angelo, do seu
amigo de infancia, em quem já não se atrevia a
pensar.
N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais
vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do
demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e
ás vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das
duas primas, fez não sei que reflexão tanto a
proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria
Christina sorriu tambem.
Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as
faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os
braços hirtos e estendidos na direcção
de Henrique, rompeu
n'estes violentos termos:
—Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui
escarnecer da palavra do Senhor! Fóra do templo, impios
libertinos, que não respeitaes os ministros de Deus, nem o
seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas
na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, se
não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus
arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São
esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; são
estas as pragas que nos veem com as estradas e com a
civilisação. Fugi
d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religião,
mulheres sem temor de Deus,
mações, pedreiros livres, vindes para aqui
tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade
retró!...
E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o
missionario estendia o braço na
direcção de Henrique.
Este, desde que viu que a imprecação lhe era
dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente.
Preparava-se para lhe responder alli mesmo.
Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que
se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As
ameaças soavam já distinctas, os varapaus
mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára
proporções assustadoras.
Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o
braço de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
Henrique resistia e procurava falar.
O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle
como podia.
O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre
tinha perdido a cabeça, e do pulpito animava a anarchia,
berrando e bracejando.
Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
havia na freguezia, obrigaram, quasi á
fôrça, Henrique a sair da
igreja por a porta da sacristia.
Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo
precipitou-se em confusão para a porta principal, para os
vir esperar á saída da sacristia, e correu
clamando atordoadoramente.
E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma
impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam
furiosos, de braços que os ameaçavam, e de
bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos pedreiros
livres, aos libertinos e aos herejes.»
Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante
d'aquella gente furiosa e ameaçadora.
—Que querem de mim e d'estas senhoras?—perguntou elle, com voz firme.
Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:
—Morra o pedreiro livre!
—Ensinem esses senhores da cidade!
—Pouca vergonha!
—Isto não fica assim! Isto é de mais!
—Mação!
—Hereje!
—Quero passar!—repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.
—Havemos de ensinar estes fidalgos.
—Excommungados!
—Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.
Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do
genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na
mão.
Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.
E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e
herejes!» levantaram-se mais ameaçadores do que
antes. Magdalena susteve, a tremer, o braço de Henrique.
E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.
Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
sacristia, e na quéda ameaçava ferir a
cabeça de uma creança
que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se
junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo
tudo com infantil curiosidade, emquanto a mãe afflicta a
chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo
as mãos para proteger a cabeça da
creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto
sereno, e em tom desaffectadamente
reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente:
—Não vêem que iam matando esta
creança?
Esta simples acção, e estas palavras da
morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas
as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa,
e a generosidade foi e será sempre um dos mais poderosos
elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores
politicos, que tanto se esforçam por simulal-a, quando
precisam do povo.
—Quem foi que atirou a pedra?—perguntou um.
—Temos tolice!
—Nada de pedra, olá!
—Então isto é coisa de garotos!
Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
«morra» achavam já
reprehensivel a primeira tentativa de lapidação.
E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a
sentença. Era evidente que o maior perigo
passára e que um pouco de prudencia resolveria a crise.
O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o
reprimirem.
Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio
d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade.
Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o
Zé-P'reira, que,
pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais
depois do mallogro da
interpellação ao missionario, não
olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no
adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular
tambor, instrumento das
suas
glorias, e que ainda n'aquelle dia servira á frente da
procissão.
Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista
deitára-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o
que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e
febris que o outro executava na caixa—pancadas que eram, por assim
dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos.
Em posição de cansaço e desalento o
Zé P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha
o cerebro repassado do espirito familiar.
Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da
sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das
familias, e sobre tudo a indifferença que principiava a
perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que
elle conhecia a preceito.
Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do
hortelão.
Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e
desassocegado.
N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um
ceci tuera cela,
como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de
Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e
gôsto publico entravam em nova phase, preparava-se uma
revolução na arte. O reformador era o mestre
Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia
romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos
portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou
um commetimento digno de menção na historia da
arte.
Pobre Zé P'reira!
Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o,
havia perto de uma hora, em uma posição
contemplativa deante do tombado
instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se
n'aquelles olhares fixos uma melancolia
quasi poetica.
N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e
subita saída do povo pela porta da igreja, e as scenas de
motim que se lhe seguiram. A intelligencia pêrra de
Zé P'reira não achou logo a
explicação do que via. Pouco a pouco
porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão,
principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.
Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram,
e o homem ergueu-se.
Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
tiracollo a alça do tambor.
Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite,
que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do
acompanhamento.
Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena.
Então o Zé P'reira não
esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um
signal ao rapaz, e...
Pom—fez a baqueta d'este, caindo
com toda a fôrça sobre a retesada superficie do
bombo.
Taplão, taplão,
rataplão,
rataplão...—responderam as baquetas movidas
pelas amestradas mãos do Zé P'reira.
Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na
direcção do som.
O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o
jogo das baquetas; começava a ganhal-o o vapor do
enthusiasmo.
Principiou a acudir o povo para junto do artista.
Este tomára-se já do
raptus, do phrenesi musical. Já
não eram só as mãos,
eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que
rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas
offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do
pescoço, a vergal-o para traz, Zé P'reira
parecia endemoninhado.
Não via, não ouvia,
não sentia, não tinha consciencia de si, nem dos
seus actos; todo elle era fogo, delirio, convulsão, febre,
loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do
tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles
movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens
extravagantes, aquellas contracções geraes, que o
torciam, desconjunctavam e desfiguravam.
Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro,
tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou,
rufou com desespero, rufou até as baquetas se não
avistarem, de rapidas que se moviam; rufou até o ouvido
quasi não perceber a descontinuidade dos sons; rufou
finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que
succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser
aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam
tão esplendido crepusculo.
O povo inteiro applaudiu o artista.
E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam
já fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da
familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente.
XX
Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da
aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.
O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe
é impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma
terra, mal pode fazer ideia da sensação que
produz no habitante de
uma aldeia, villa ou cidade
pequena, a presença de uma cara estranha.
Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta
curiosidade instiga-o a decifrar a significação
d'aquelle apparecimento.
Isto aconteceu com o Cancella.
Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou
mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e
largos chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas
escuras.
—Passaros de arribação...—pensava o Herodes
comsigo—que vento traria isto para aqui?
E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.
Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:
—Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa
habitavel, em que nos alojemos?
—Por pouco ou por muito tempo, meu amo?
—Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.
—Ah! então v. sr.
as são
engenheiros?
—Julgo que sim.
—Então, visto isso, as estradas sempre vão
principiar?
—Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que
não.
—Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que
saber; os meus amos vão por ahi sempre a direito, e
lá adeante, chegando ao
pé de uma oliveira, tomam á sua mão
esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois,
logo que virem uma nora, carregam á
direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até
chegarem á eira; ahi tomam por um outro
atalho, que está ao lado e vão dar a um
larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em
frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.
Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a
explicação.
Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma
rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os
engenheiros.
—Se v. s.
as querem, esta pequena vae
ensinar-lhes o caminho.
Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a
pequena cicerone.
—Grande novidade!—ficou dizendo o Cancella comsigo—sim, senhor; com
que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que
fôsse nos meus dias. Então... querem vêr
que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o
quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O
pobre homem estala de paixão, se isso assim é;
isso
é com certeza... Pois, senhores... isto de estradas...
é bom, é; pois não é?
Sempre
é outro arranjo para quem tem de ir á cidade...
Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe
ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra
circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a
cabeça, porém que nas aldeias toma as
proporções de um grande successo.
—Ui! Temos novidade—disse o Herodes ao vêl-o.—Edital
á porta da igreja!—e approximou-se
para ler.
Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens
terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente
prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da
igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já
construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e
murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de
opposição e motim.
—Bom, mais outra!—dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.—Grandes
coisas se passaram cá
na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é
que não sei se a coisa irá assim ás
mãos
lavadas; ao que já ouço por ahi rosnar!...
É o
diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que
uma pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica
assim á chuva e ao sol... Mas é do costume,
é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois de
morta.
E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.
Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um
pinheiral, sob a invocação da Virgem da
Esperança, e reteve-se a fazer oração.
Áquella imagem costumava encommendar a filha, sempre que
saía da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas
orações a protecção obtida,
e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez,
porém, ficou triste e sobresaltado. Porquê?
É que se lembrára de que tinha, ao partir,
deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a
iria achar.
Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,
tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros
da casa parou irresoluto.
Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós
um mesmo aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores,
os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e
quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o
coração; outras em que umas apparencias de
sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.
Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao
avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.
Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o
sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe
estavam confrangendo o coração? Mas como lhe
acudiram tão de subito
esses presentimentos, a
elle, ainda pouco tempo havia tão despreoccupado! Como lhe
occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de
fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava
ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte
obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu
devassar as sombras.
Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos
primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre,
não tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.
Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que
encontrou aberta.
Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma
exclamação de surpreza.
Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.
Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que
cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que
não deixára alli ao partir. E ninguem a
recebel-o.
—Crédo!—disse o Cancella, desgostoso.—Para longe o
agouro! Cruzes negras á chegada! São
coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na
cabeça da rapariga, e se não lhe
acudo...—Ermelinda!—exclamou, chamando por a filha.
Como não recebesse resposta, passou para os aposentos
interiores.
Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de
louça cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de
alecrim.
—Mau!—disse o Herodes, cada vez mais descontente.—Vou vendo que a
minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...
Ermelinda!
E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e
explorou o quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou
a um quarto mais retirado, o
unico
que ainda não revistára. A porta estava
fechada por dentro, porém a péquena cravelha
fraca resistencia oppoz á pressão que na porta
exerceu o Herodes.
Franqueando assim a passagem, parou no limiar.
Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um
canto escuro do quarto.
—És tu, Linda? Estás ahi?—perguntou o Cancella,
affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,
—Meu pae... respondeu com voz fraca.
—Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este
quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa?
Chega-te cá, rapariga, quero-te abraçar e
beijar... Então que é
isso?... Tens hoje tão pouca pressa de abraçar
teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas esperar... Vem
cá, minha
filha, vem cá... Se soubesses como me consola...
E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao
encontro. Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se
subitamente e principiou a
examinal-a
com inquieta anciedade. Depois, como se lhe
não bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer
não sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe,
silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a
com os olhos eloquentes de paixão e de espanto, bradando
emfim, com voz consternada: