—Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás
doente? Estas não são as tuas
feições... Os olhos pisados... as faces
abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu
que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda,
fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala!
A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
—Meu Deus! Isto que é, meu Deus?—exclamava, mais
assustado, o pae.—Choras ainda mais?
Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu
não tens pena de mim? não chores!... Ou chora,
chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me
por que choras, filha... Então?
E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto
no gesto, como no coração, o pobre homem quasi
ajoelhava a implorar da filha a explicação
d'aquelle doloroso mysterio.
Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae,
cada vez mais commovido:
—Ai os presentimentos do meu coração!
Não sei o que me dizia isto! Não sei! Meu Deus,
meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em
que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não
vês que me matas assim? Fala!
E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais
lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem
falar.
Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia
louco. Elle apertava as mãos da filha, levava-as aos labios,
abraçava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no chão;
ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse,
n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto.
Como para melhor examinar aquellas feições
queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da
fronte da creança, com as mãos
trémulas, o lenço que lhe envolvia a
cabeça; mas de repente retirou-as, soltando um grito
medonho, ergueu-se e recuou com terror.
Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma
palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no
corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril
o lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito,
mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos
soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o
desgraçado pae, desatou a chorar como uma
creança.
É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda,
que com tanto amor beijava, que com
tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu
coração de pae, aquelles cabellos
louros haviam caído aos golpes de uma tesoura desapiedada e
quasi irreverente.
Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora
afflicção em que esta descoberta
lançou o coração d'aquelle.
Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.
Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os
soluços de ambos.
A reacção não se fez,
porém, esperar muito no animo violento do Cancella.
Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a
cabeça, e, com os olhos inflammados de raiva e de
cólera, disse para a filha, tremendo e
gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe
amontoavam no coração:
—Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que
fez isto?... Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a
mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgraçada,
tu, consentiste! Má filha, filha desagradecida e sem
coração, que assim deixas que me roubem as minhas
riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor
com que te tenho creado?... a adoração com que de
pequenina te tratei? É assim? É com este
desamor?! e com esta ingratidão?!
—Meu pae! meu pae!—implorava Ermelinda, suffocada pelo
pranto.—Perdôe! Não se affiija
assim, meu pae, que me mata! Não vê?... Escute...
Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A
vaidade é um peccado grande.
—Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?
Fala!...
—Por alma de minha mãe, não me fale assim, que
me assusta!
—Vá! Pois já não falo... Eu estou
socegado...
Mas então? eu não hei de saber?... Bem
vês que eu precíso de saber!... Vá!...
Eu sou teu
pae. Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?
—O missionario...—ia a dizer Ermelinda.
O pae não a deixou proseguir.
—Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres...
as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a
entrega assim! Vendeu-m'a ás mãos d'esses
malvados sem
dó, sem consciencia, sem religião, sem Deus...
—Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que
é peccado.
—Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu
pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...
Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus
não é Deus, e eu não o
reconheço nem adoro!
Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a
irritação e o desespero estavam dictando ao pae.
A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases
audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava vêr
cair um raio fulminador a castigal-as.
—Por amor de Deus—murmurava ella, com a voz chorosa e quasi
sumida—por alma de minha mãe!...
—Cala-te! não fales em tua mãe, que
não mereces dizer esse nome! Tua mãe! Aquella
sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me
não causar penas, e que só com a sua morte me fez
chorar lagrimas, tão amargas e tantas, como eu choro agora!
E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e
valente, chorava, porque tinha um coração de pae.
Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de
afagos e beijos.
—Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!—dizia ella.—Se
soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que
sonhei... Não chore assim, meu
pae! Não culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha
madrinha!... Foi por a salvação da minha alma,
porque...
—E foi tua madrinha que t'os cortou?
—Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O
missionario é um santo!... Não olhe para mim
d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.
E cobria os olhos com as mãos, para não ver a
expressão do rosto do Cancella.
—Querem matar-me a filha—bradava elle.—Ó meu Deus! pois
não é isto um grande peccado? fazer da
creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta
desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem
alegria! Não é isto um crime, meu Deus?
Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com
lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem
elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e
maldicto seja quem traz assim o desespero ao
coração de um pae.
E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,
cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu
alguns passos no
corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella
seguiu-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se
não affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela
impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os
olhos no registo do Coração de Maria, que alli
fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira.
Estava adornado com jarras de flores e vélas de
cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia
oração, quasi extatica, quando o pae
entrou.
—Coração de Maria!—disse o Cancella, quasi
desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para
si.—Coração de mãe,
e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores.
Soube o que é querer a um filho, o que é
vêl-o padecer... o que é perdel-o... E
será ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte
d'esta
creança?... as
desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o
queres—continuou allucinado, voltando-se para a imagem—e se
não podes ser adorada senão assim, é
porque és falsa, falsa
como a mão que ahi te pintou, falsa como as bôcas
que te prégam os milagres. Vae-te!
E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o
caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio
fazer-se pedaços no pavimento.
Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr
aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as
faces quasi lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas
não pôde;
moviam-se-lhe os labios descórados, mas não lhe
saía
a voz da garganta.
Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a
attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso
de furia o vaso da agua benta, bradando:
—Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da
impostura.
Ermelinda lançou-se-lhe aos pés,
abraçou-o pelos joelhos para o reter, mas elle
não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi
a levou de rastos á outra sala.
Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra,
tudo despedaçava ou rasgava.
N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu
a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com
os braços estendidos, fazendo esforços para
falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver.
Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a
madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.
Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que
descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o
Cancella cortou-lhe a fala na garganta.
Era de facto um olhar selvagem e sinistro.
A sr.
a Catharina parou.
—Que vem fazer aqui, mulher?—dizia-lhe o Cancella com voz cavada.
—Eu...
—Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar
estes ares, onde metteu a tristeza?
E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava
outro.
Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras
do Herodes.
—Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe
faça como fiz a esses feitiços com que me
enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.
A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por
isso disse:
—Lá se vê quem a matou. Repare e diga se
não tem remorsos, carrasco!
Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.
Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como
morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um
cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a
chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus,
pedindo perdão a ella, soltando palavras sem nexo,
arrepellando-se, ferindo-se.
A velha, que já não o temia, ao vêl-o
assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino
da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgraçado, tudo
escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia.
—Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus
não pode consentir n'isto. Não deixará
que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o
coração!... vive!... senti-lhe o
coração bater... Olhe! venha
vêr... pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella,
aqui... Não sente? É o
coração, não é?
Não lhe
parece que
não morreu? Ar, ar, é do que ella
precisa.
E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio
da rua.
Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas
mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas
arguições da beata, que não
cessára de falar.
Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e
pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.
Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.
Ermelinda tinha aberto os olhos.
Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça,
como se o aspecto d'elle lhe causasse terror.
—Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com
maior consternação na voz e no olhar.
Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer
convulsivamente e n'uma anciedade extrema.
—Deixe a pequena!—disse a beata—não vê que lhe
faz mêdo? E com razão, pobre
creança! depois do que viu!
—Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?—repetiu
timidamente o pae.—Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...
Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.
Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e
sentou-se a
soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:
—Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que
desgraçado que eu sou!...
A scena era bastante commovente, para que se não sentissem
impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.
Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos
soluços do infeliz, em quem entrára o
desespero no coração.
Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,
que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes
femininas; cêdo a toada e depois da toada a lettra,
principiou a tornar-se distincta.
Ouviram-se perfeitamente estas palavras:
Vinde, vinde, ó missionarios,
Com a palavra de Deus
Libertar-nos do peccado,
Encaminhar-nos aos céos.
O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar.
As vozes continuaram:
Minha alma por vós
anceia,
Ó ministros do
Senhor!
E o meu peito em chammas arde,
Em chammas do vosso amor.
O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos
animaram-se-lhe de um fulgor extranho.
O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco
desembocou na rua, em que se passavam estas scenas, um singular
cortejo.
O missionario, que nós já conhecemos, por o
termos visto em pleno exercicio de suas funcções
predicatorias, vinha seguido por uma cohorte de mulheres de roupas
escuras e cabellos cortados, que cantavam em chorada cantilena estas e
analogas quadras, que os missionarios ou os agentes seus teem quasi
sempre o cuidado de vulgarisar como preparatorios dos animos
impressionaveis das mulheres e das creanças.
Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a
procissão da casa do Cancella.
Este já estava em pé no meio da rua, á
espera d'ella.
O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu
caminho, aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente,
se lhe
apresentava escuro como um
phantasma, e não conjecturou bem do que via. Por isso parou
tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se.
O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:
—Sabe quem sou?
O padre fez um signal negativo com a cabeça.
—Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve
Deus.
O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem
procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe
a razão que um homem que não ouve Deus
não estaria muito disposto a escutal-o, a elle, humilde
creatura.
—Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de
minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;
perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella
creança sem culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno
lhe envenenou o coração, e depois... depois
matal-o.
O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu
caminhar para elle o Cancella, viu no ar aquella mão
musculosa e larga, e, calculando a violencia do embate pelo volume do
braço, julgou-se de antemão
esmagado, e só pôde encolher os hombros, fechar os
olhos, contrahir comicamente as feições, e
suspender a respiração, aguardando n'esta postura
o golpe, que não podia evitar.
Este de facto não foi suave. A mão do Cancella
caíu em parte sobre o cabeção, em
parte sobre o pescoço do padre, e com tal
fôrça, que
este foi constrangido a ajoelhar.
—Anda, meu impostor do inferno!
E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo
á primeira posição.
O chapéo rolou a alguns passos de distancia.
—Anda, meu envenenador de almas!
Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o
caminho do chapéo.
—Anda, meu calumniador de Deus!
E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em
pé, e após, dando-lhe um forte impulso e
soltando-o das mãos, deixou-o ir á
mercê da fôrça transmittida.
O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar
na quéda provavel, e, pé aqui,
pé acolá, a passos descommunaes, escapou
miraculosamente de cair, porém não conseguiu
parar
senão a muitos metros de distancia.
Escusado é dizer que esta scena não correu entre
o silencio dos espectadores. Mal o Cancella levantou a mão
sobre a cabeça do padre, as beatas ergueram um alarido de
atroar céo e terra.
—Aqui d'El-rei!
—Aqui d'El-rei sobre o Herodes!
—Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José!
—Quem acode ao sr. fr. José?!
—Ai, que matam o santinho do missionario!
E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas
esganiçadas mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse,
porém, a intervir mais activamente.
A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que,
em cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com
respeito.
Este, porém, não oppoz resistencia.
Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento.
Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das
imprecações das beatas e dos gritos de
indignação dos homens.
As devotas mulheres correram para o missionario.
Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o
capote.
—Magoou-se, sr. fr. José?
—Doe-lhe alguma coisa?
Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a
abanar com a cabeça negativamente e deitou a correr, como se
visse atraz de si ainda a mão espalmada do Cancella, prompta
a cair-lhe outra vez sobre a cabeça.
Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a
multidão engrossára e em altos gritos pedia o
castigo do criminoso.
O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a
multidão. In continenti, redigiu um officio ao
administrador, no qual foi tão feliz que escreveu tres
palavras com boa orthographia; e, falando ás turbas, disse
que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de ser punido
com todo o rigor das leis.
XXI
O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi
assumpto das conversações geraes
de toda a aldeia. Era com indignação que se
commentava a façanha. Dizia-se que o Cancella fôra
apenas o
instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do
padre, pela occorrencia da tarde do sermão.
Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes
offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual
havia muito suspiravam.
O missionario e os seus ardentes sequazes fôram dos mais
acerbos propugnadores d'estas ideias, que reforçavam com
muitas accusações, de
hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do
conselheiro.
A politica viu n'isto uma arma favoravel para
combater o adversario, e não a
desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio,
manifestamente devida á iniciativa do pae de Magdalena, e
impopularissima na aldeia, augmentar a irritação
dos animos e servir de thema a uma violenta diatribe do missionario
contra a impiedade da época, que nem aos fieis concedia a
santa consolação de repousar á sombra
dos templos.
Tudo isto começou pois a fomentar uma
reacção contra o conselheiro, a qual
ameaçava o resultado da sua candidatura.
Não pequena parte n'esta guerra surda, que
principiára a lavrar, tomava o seu companheiro de infancia e
particular amigo o brazileiro Seabra.
Nunca elle sentira entranhada no coração metade
da bem-querença que apparentemente ostentava para com o
conselheiro: mas depois de uma conferencia que tivera com mestre
Pertunhas tornára-se mais manifesta a sua hostilidade e
menos observadora de etiquetas e rebuços.
Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do
conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o
missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos
bens da Igreja.
Foi tambem o brazileiro quem trouxe á flor de agua os
antigos excessos demagogicos, que caracterisaram o principio de
carreira politica do conselheiro, e referira, com modos de horrorisado,
a substancia dos exaltados discursos que elle proferira nas camaras,
advogando ideias cuja só
exposição ferira de pavor a
imaginação dos povos.
Finalmente, até o principio dos trabalhos para as estradas,
cujo protrahido adiamento fôra até
aquelle tempo um capitulo de accusação contra o
pae de Magdalena, servia agora de arma á
opposição.
O brazileiro, em attenção a quem se
adoptára o traçado que ia ser posto em
execução,
era o que provava á saciedade com grande
exhibição de cifras
e de razões economicas, ser
esse traçado,
sobre dispendioso, irracional.
E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio
conselheiro, quando este os allegava para vêr se conseguia
demovel-o do empenho que mostrava em que o traçado em
questão fôsse preferido aos outros. Tal era o
estado das coisas publicas na terra no dia em que principiaram os
primeiros trabalhos de campo.
Tinham-se passado alguns dias depois da prisão do Herodes.
A aldeia vira-se invadida por um bando de sêres
desconhecidos, que vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma
população habituada a considerar como
occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros ou das cancellas
de qualquer proprietario da localidade.
A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais
operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou
maiores mudanças na vida moral da aldeia do que nas
condições physicas d'ella as bandeirolas, os
niveladores, as enxadas, as pás, alviões,
picaretas, carros de mão e padiolas, de que era armada essa
cohorte.
Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior
actividade tinham começado os trabalhos. Era como
já dissemos, na casa do herbanario. Pela
demolição d'ella, e do
quintal que a rodeava, principiaram as obras.
O velho Vicente assignára dias antes o auto de
expropriação e recebera o preço da
venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro,
não lhe foi muito regateado.
Elle, porém, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por
as arvores nada quiz; não podia resignar-se a vendel-as.
Podia vêl-as cair, como amigos sacrificados no cadafalso, mas
mercadejar-lhes com os restos, isso não.
O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu á Fazenda
Nacional de compensação ao
excessivo preço por que fôram expropriados os bens
de que o brazileiro se apossára, com o patriotico intuito de
promover os seus melhoramentos particulares, preço que por
empenho do conselheiro não foi litigado.
Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram
resistir, mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido á
cohorte de operarios melhor armados do que elles, em parte cedendo
ás imperiosas ordens do herbanario, que, ao sair pela ultima
vez da casa, onde envelhecera, lhes disse, com voz irritada e severa:
—Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes
vós, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz!
Os instigadores das massas conheceram que não era aquella a
occasião nem aquelle o pretexto proprio para os seus
projectos, e adiaram, em vista d'isso, a empresa prudentemente.
Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em
que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.
Na baixa em que ficava a habitação do herbanario,
ia uma azafama extraordinaria.
O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de
destruição; desconjuntavam-se as
pedras dos muros, desfazia-se em pó a argamassa secular,
caíam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos
das arvores, alastrava-se de tijolo e caliça a verdura dos
taboleiros, e cêdo, de toda aquella vivenda tão
amena e virente, só restavam ruinas.
Numerosos grupos de já pacificados espectadores seguiam com
curiosidade as operações de
devastação; mas, longe d'alli, a maior distancia
do que os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que
elle orvalhava de lagrimas, o unico
coração que elle devéras apertava de
dor.
O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se
divisava toda a scena. Com a cabeça pousada na
mão e o braço
apoiado sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore,
que d'alli via vacillar e cair, como se fôsse um amigo que o
precedesse no tumulo. Parecia ter fugido para longe, para pelo menos
não lhes ouvir o estertor da agonia.
Ao lado do velho estava Augusto.
Não era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da
demolição.
Mais do que uma vez tentára arrancar o herbanario d'aquelle
sitio. O velho, porém, resistiu; queria estar alli
até vêr cair a ultima arvore.
Ao pinheiral d'onde assistia á scena, chegava em
confusão o alarido dos trabalhadores, o rumor do manobrar
dos instrumentos, e até o da quéda das arvores
cortadas.
O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore,
recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava
ligada.
—Lá vae aquella faia!—dizia elle, com intensa
melancolia—pobre velha! Era á tua sombra que meu pae me
ensinava a ler! Encostava-se áquelle tronco sobre a grossa
raiz que elle tem á flor da terra e pegando em mim ao collo,
guiava-me nas primeiras lições! E viver eu para
te
vêr cair!
E, ao perceber-lhe balançar as sumidades, o velho fechou os
olhos instinctivamente. Cêdo ouviu um estrondo... Quando os
abriu, estava por terra a faia.
—Agora é a tua vez, pobre carvalho!—dizia algum tempo
depois—muito queria minha mãe áquella arvore!
Por suas mãos a plantou bem
tenra. Nunca me sentei áquella sombra, que me não
lembrasse da santa mulher! Parecia que eram vozes tuas, que m'a
recordavam, infeliz! Barbaros! Olha com que desamor a decepam!
Perdôa-me,
meu velho
amigo, mas bem vês que te não posso valer.
E o carvalho caíu.
—Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno
passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto
cubiçavam as creanças, que pela ultima vez o
fazias!... Adeus, pobre amiga, adeus.
E caía a cerdeira tambem.
E caíam, uma após outra, todas as arvores do
quintal, os limoeiros, as nogueiras, os salgueiros e toda a familia
vegetal do velho Vicente, que sentia ir-se-lhe com ella a alma.
Memorias de infancia, sonhos de juventude, e reminiscencias de velho,
como aves invisiveis, occultas nas copas d'aquellas arvores, surgiam
agora, espavoridas e desnorteadas, a procurar o refugio que
não encontravam fóra dalli.
Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram
dolorosamente feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena
casa, onde elle envelhecêra e contava morrer, e ao
patentear-se indiscretamente aos olhos irreverentes e curiosos do povo
aquelle recatado asylo.
A demolição proseguia com ardor e actividade. Em
pouco tempo, só restavam da casa os muros, meio derrocados;
e, no quintal, a serra e o machado principiavam a exercer no tronco da
ultima arvore a sua obra destruidora. Era o castanheiro da entrada,
gigante de outro seculo, que desafiára os raios de muitos
invernos successivos.
A exaltação do herbanario cresceu n'aquelle
momento. Ergueu-se, pallido e trémulo, apoiou-se no hombro
de Augusto, murmurando:
—Tambem o castanheiro! Já era arvore quando eu nasci! Como
elles se encarniçam contra elle! Mas não te
parece, Augusto, que não soffre muito o castanheiro?...
Sabes? É que elle já
não agradeceria a vida, porque tinha de viver assim
desamparado
dos seus outros
companheiros, que vê
caídos no chão... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao
lado d'elles... É como eu.
O castanheiro principiou a oscillar.
—Repara—disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o
braço de Augusto.—Elle já treme! Não
vês!... Lá lhe deitam a corda... Vae cair!...
Parece-me que estou a
sentir aquelle estalar de fibras...
E a arvore caíu com fragor no chão, que por tanto
tempo
cobrira de sombras.
Estava ultimada a obra.
O herbanario encostou a cabeça ao hombro de Augusto e rompeu
em soluços.
—Então, tio Vicente, tenha animo—dizia-lhe Augusto,
igualmente commovido.
—Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para
acolá e não ver em pé uma
só das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um sonho
isto, um sonho de afflicção! Sinto-me
tão só no mundo! Ai! se a morte me ferisse agora!
A dor, a saudade e o desalento davam uma
uncção de poesia
elegiaca á figura, ao gesto e ás
palavras do velho, que desvanecia tudo o que n'elle pudésse
haver, nas situações ordinarias da vida, capaz de
desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente.
Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos
materiaes, lagrima que não importa uma ironia á
civilisação.
Exalte-se embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como
meteoro, as povoações e os êrmos; mas
não seja isso motivo para condemnar a compaixão
pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada á
beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a
cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de
redempção, o vencido, desde que
cáe, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima
de saudade. Não tenteis
a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos áridos
que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida á vossa
alma sêcca e esteril. Quem devéras confia nos
destinos da humanidade não tem mêdo das lagrimas.
Pode-se triumphar com ellas nos olhos.
Passado algum tempo, e quando já as sombras da noite se
condensavam nos valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o
velho disse para Augusto:
—Agora que não tenho casa, dá-me por alguns dias
o abrigo da tua.
—Por alguns dias?—repetiu Augusto, admirado.—Pois quer deixar-me
depois!
—Quero. Vou com ellas.
E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas.
Atravessaram a aldeia á hora a que vibravam nos ares os sons
melancolicos das Avé-Marias.
Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois.
—Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!—disse o
herbanario, ao transpor o limiar.—Má companhia te
fará a minha velhice.
—Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua
presença podia desalentar quem na mocidade é mais
fraco e desalentado do que ninguem o pode ser na velhice.
—Custou-me muito este golpe de hoje! Não contava com elle!
Desde hontem envelheci muitos annos. Podes crêl-o.
Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de
fóra da porta:
—Dão licença?
E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes
sorrisos.
O herbanario e Augusto não reprimiram um gesto de
impaciencia.
O homem entrou.
—Ora Deus seja aqui! Tão grande é o dia como a
romaria, sr. Augusto! Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que
tinha ido de manhã para casa do tio Vicente; vou
lá... estava um mundo de gente no sitio... Mas qual sr.
Augusto, nem tio Vicente! Então com que
escorraçaram-n'o do seu ninho?... Pobre homem! A falar
verdade, n'essa idade! Já sei que vem para casa do nosso
Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda bem que o temos
por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que tambem fizeram-n'a
fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa assim!... Coisas
cá do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheirão
na tal estrada! E já por ahi se rosnam coisas! Emfim,
politicos! politicos! Todos são os mesmos... Vae por ahi uma
poeira dos meus peccados com a ordem a respeito do cemiterio; e com a
historia do Herodes! Sabem que elle esteve hontem para matar o
missionario?... E valha a verdade, dizem que por ordem de alguem do
Mosteiro... Que eu não acredito, mas emfim, aquella historia
no sermão do outro dia... E o tal sr. Henrique, que
é unha e carne com elles... Elle será muito boa
pessoa, mas não me calha... Lá feliz, isso como
não sei de outro, com dinheiro e sem cuidados! E sempre se
faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi dizer que sim.
O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente
impassibilidade d'este não illudiu o velho.
O Pertunhas não se exgotára ainda:
—Ora agora, quem anda fulo é o brazileiro, o Seabra. Pelos
modos, eu não sei o que ahi houve; o conselheiro
não o tratou muito bem, dizem, n'uma carta que escreveu ao
ministro, ou creatura do ministro. Umas historias muito complicadas,
que eu não entendo, mas que promettem dar de si... Veremos
em que ficam as eleições este anno... O
conselheiro bem pode trabalhar, senão... Elle cuidava
que era só
apresentar-se, e emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr.
Joãozinho das Perdizes? Será fiel esse?
Já me disseram tambem que...
—Ó sr. Pertunhas,—atalhou o herbanario, enfastiado—antes
queremos não saber. Importa-nos pouco a politica.
—Estão como eu... Isto tambem não é
politica, mas emfim... Pelo que vejo estão
cançados? Eu tambem não os maço
mais... E antes que me
esqueça, ha muitas horas que estou de posse de uma carta
para vossemecê, tio Vicente. É de Lisboa, veio por
o correio de hoje. Não lh'a mandei a casa, porque...
não sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como o
vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso...
O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando
para o sobrescripto, disse com indifferença:
—É do Manoel.
E abriu-a lentamente.
O mestre de latim deixou-se ficar, na esperança de ouvir
novidades.
A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio
de indignação e de
colera:
—Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem
sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos
amigos, com a justiça das causas e com a voz da propria
consciencia, do que com os caprichos e interesses dos poderosos com
quem vive!
—Mas que é?—perguntou Augusto, sem atinar com a
significação d'aquellas palavras.
—Lê.
E passou a carta para as mãos de Augusto.
O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira
obrigado a ceder, na questão do despacho de Augusto, a
fortes influencias que se
empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que mais tarde lhe
explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle, talvez
fôsse isto até uma vantagem; que o logar que pedia
era a sua
annullação perpetua, e que elle, conselheiro,
havia de luctar contra a grande modestia do rapaz, trazendo-lhe
á luz os merecimentos reaes, dando-lhe melhor
collocação, e que esperava ainda empregal-o na
capital.
Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia.
Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios:
—Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui.
—A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria
despachar, e breve; e quebrou-a como um pêrro! Oh! o que
fizeram d'aquelle homem!
—Quê?! Pois é possivel?—perguntou, exaggerando a
sua consternação e espanto, o officioso
Pertunhas.—É possível que o sr. Augusto
não fôsse despachado?!
E dizendo isto, passou a desfiar uma série de
consolações, qual d'ellas mais tôla e
sem cabimento.
Até que emfim, tendo já novidades para contar, e
almejando communical-as aos frequentadores da taberna do Canada, onde
devia estar reunida grande e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a
pretexto de não ser mais tempo incómmodo, e
deixou-os outra vez sós.
—Estão-me guardados para o fim da vida todos os desenganos!
todas as amarguras! todos os desesperos!...—disse o herbanario
momentos depois.—É para se odiar o mundo e os homens
vêr um, que conhecemos generoso e innocente, contaminado
tambem!... Pobre Augusto! Não basta que sejam modestos os
teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.
Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo:
—Por que te não fazes politico? Por que não vaes
tambem para a taberna do Canada dizer tolices sobre a
governança do paiz? Talvez levasses comtigo alguns
tôlos, e tinhas n'isso uma
recommendação poderosa. Olha para
aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um influente...
Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer?
—Ficar—respondeu Augusto, com firmeza.
O herbanario fixou-o com um olhar penetrante.
—Ainda?... Mas... não te vae ser suave agora a vida, rapaz.
Para se viver não basta uma... uma loucura. Repara bem. Se
quizeres... O Manoel é leviano, mas creio que ainda
não perverso; eu lhe escreverei... talvez que em Lisboa...
—Não lhe escreva. Sabe que não partiria para
Lisboa...
—Mas... repara!... Estás muito novo, Augusto... Tens um
longo futuro deante de ti. E, ficando, o que te espera?...
—A morte que fôsse, a morte de miseria e de fome, ficava.
Mas resta-me ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o.
O herbanario baixou a cabeça, pensativo.
Soaram n'isto á porta da sala duas pancadas lentas.
O herbanario fez um gesto de enfado.
—Não abras sem eu sair,—disse elle a Augusto, que se
erguera—não estou de animo para aturar importunos.
E passou para uma sala contigua.
Augusto foi abrir ao novo visitante.
Achou-se na presença do brazileiro Seabra.
A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer
valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro.
Augusto offereceu-lhe cadeira Augusto offereceu-lhe cadeira para se
sentar,
sem inquirir do motivo de tão
inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou:
—Acabo agora mesmo de saber da injustiça que lhe fizeram.
Senti-a como se fôra propria, e venho aqui declarar-lh'o.
Augusto curvou-se, em signal de agradecimento.
—Mas então que quer?—proseguiu o homem.—Hoje em dia
é tudo assim. Padrinhos e mais padrinhos, e o mais
são historias. Estamos n'uma época de
corrupção e de immoralidades, e ninguem sabe onde
isto irá parar.
Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu:
—Tôlo é quem não faz como os mais. O
mundo está para os velhacos.
Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de
Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo:
—Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias não pode
receber as offensas e ficar-se com ellas assim. O perdão
evangelico é muito
bonito, mas não é para homens. Não lhe
parece?
Eu por mim não gósto de genios de lama. Falemos
como amigos. Nós ambos somos victimas de um mesmo homem. O
sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se
apregoava seu protector. Ahi temos a protecção
que elle lhe
deu. Eu tambem lhe devo finezas.
—V. s.
a?—perguntou Augusto, que não
podia saber o que lhe
queria no fim de tudo o brazileiro.
—Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi.
E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu
principio á
exposição dos seus aggravos:
—O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a
causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me
visconde por fôrça. Coisas de que eu me estou
rindo... Mas... emfim, para me livrar d'aquelle importuno,
disse-lhe que... fizesse lá o que quizesse...
Pois, senhores, não teve o petulante o atrevimento de
escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da
opposição, mantem aturada
correspondencia; não teve a audacia de lhe dizer que eu
andava sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel,
pois promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao
Estado, visto que com tão pouco me contentava, e outras
coisas n'este gôsto? O petulante!...
Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam,
luctava para se conservar sério perante aquella
indignação do sr. Seabra.
—Mas tem a certeza d'isso?—perguntou elle.—Ás vezes
são calumnias...
—Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro
não, mas do secretario, que é o
mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse á
mão... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo;
mas era de parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo
quanto eu pudésse dar, porque... porque... por umas tolices
de que eu me lembrei a tempo... Ora ahi tem como elles
são!... Que venham para cá com os seus
melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se hão
de arrepender.
—Mas... talvez haja equivoco.
—Equivoco? Ora essa! Pois eu não li a carta? Ella ha de
apparecer em publico; oh! se ha de! Isto é, não a
parte que me diz respeito,
porque... porque emfim são negocios particulares, que
não interessam a terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella,
umas promessas do ministro, que põem a calva á
mostra a este Catão, que nos anda aqui a prégar
liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com
muita vontade.
—Acaso tenciona?...
—Se tenciono?! Pudéra não! Eu lhe
afianço que o homem ha de saber com quem se metteu. Deixe
vir as
eleições, deixe-as vir. Já ha
de achar o caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto
eu... A lição ha de leval-a breve.
—Vão guerrear a eleição do
conselheiro?
—Faço essa tenção.
—E quem lhe oppõem?
—O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa.
—Que nem o circulo conhece?
—Que importa? É uma lição. Aqui
não ha politica nem meia politica. Eu não morro
pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro. Mas
é preciso aproveitar tudo. E assim temos por nós
a auctoridade, além dos padres.
Augusto não se sentia com disposições
para discutir esta questão politica; por isso nada mais lhe
replicou.
O Seabra proseguiu:
—O que eu quero saber é se o amigo quer entrar na nossa
alliança e acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A
vingança é o prazer dos deuses, e
visto que foi tambem offendido...
—Não, senhor, não acceito—acudiu com vivacidade
Augusto.
—Escute. Deixe-me concluir. Não sabe do que falo. Pouco se
exige. A coisa é esta: na carta a que me referi, e que por
acaso me chegou ás mãos, fala-se n'uma outra, ou
em outras anteriores, em que se tratava, mais por miudo, de uma curiosa
transacção politica que n'esta se revela claro. O
conselheiro é pouco acautelado; haja vista ao extravio
d'esta, e por isso...
Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se não
pudésse comprehender onde elle queria
chegar.
O Seabra proseguiu:
—Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro...
sim, porque julgo que continúa a ensinar os pequenos, e,
já se sabe... como
mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais
como a D. Victoria é... um tanto descuidada, como todos
nós sabemos... Não sei se me percebe?... Dizia
eu... sim, que se ás vezes, por acaso,
encontrasse
coisa que
valesse...
Augusto levantou-se, indignado.
—Sr. Seabra!—exclamou, cheio de cólera.
—Valha-me Deus, eu não quero dizer... Não me
entendeu... Bem vê que se o senhor devesse
obrigações ao conselheiro, eu não
ousava... Mas...
—Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se não insistir...
—Entendamo-nos. O senhor está no principio da vida. Precisa
do auxilio de alguem. Offerece-se-lhe occasião para fazer
serviços ao governo, que
é finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para
isso? Quasi nada... O senhor sabe perfeitamente que se não
trata aqui de desgraçar ninguem, de levar ninguem
á forca.
—Visto que v. s.
a insiste, sou obrigado a
retirar-me.
—Espere, sr. Augusto—acudiu o brazileiro, segurando-o.—Repare no que
faz. Não seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns
sacrificios, se vir que nas suas circumstancias...
—Visto que v. s.
a não se cala, nem
quer que eu me retire,
ouça então o que tenho para lhe dizer.
A sua proposta seria para mim o maior dos insultos, se não
fôsse tal a baixeza d'ella, que
até despe de toda a imputação a pessoa
que a faz. Os
homens, faltos de sentimentos de honra, não offendem, quando
insultam; não se lhes pode pedir razão da
infamia, porque não a conhecem como tal; identificaram-se
com ella. Por isso, só me resta um partido, é
convidal-o a sair.
O brazileiro fôra erguendo-se á medida que Augusto
falava. Estava espantado por vêr que um rapaz, sem um vintem
de seu, ousasse falar com tal
irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crédito em
tantos bancos! A ordem do mundo estava perturbada!
—Ora esta!—disse elle no fim.—Então o senhor
ordena-me?...
—Que saia!—respondeu Augusto, indicando-lhe a porta.
O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do
que ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra
vez, e, no limiar, parou para dizer:
—Veja lá o que faz! Eu só lhe digo que me
não convem dar a minhas filhas um mestre de soberbas.
—Decerto que lhe não poderá convir a
educação que eu désse a suas filhas;
é natural
não querer educar consciencias que sejam juizes da sua
corrupção. Deixe-as ignorantes, para
não ser castigado pelo desprezo d'ellas.
—Quer então dizer...
—Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra.
O brazileiro saiu, bufando.
Augusto, que ficára só, sentiu-se apertar nos
braços de alguem que entrou, sem elle sentir.
Era o herbanario.
—É assim, é assim que te vingas de todos, rapaz!
Esmaga-m'os com a tua nobreza!
Augusto sorriu-se tristemente.
—O peor é, meu amigo—disse elle—que é a
segunda subtracção que hoje se opéra
no meu orçamento, e... a nobreza não nutre!
—Mas consola!—replicou o velho.
XXII
Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando
ouviu atraz de si correr o reposteiro da entrada.
Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.
—Retiro-me, se sou importuno—disse a pessoa que entrára, e
que ficára no limiar da porta.
Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de
Souzellas.
—Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.
—Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a
applicação de todas as nossas
faculdades, e a presença de um importuno...
—Mas não se dá agora esse caso; nem quanto
á delicadeza da correspondencia, nem quanto á
importunidade do visitante.
—Então utiliso-me da concessão.
—Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o
tranquillisar em relação á
filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter
fiança, apesar de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha
quem trabalhe contra elle. E como ha de ter padecido na cadeia na
incerteza em que está? Quem ha de dizer que n'aquelle corpo,
robusto e forte, se aloja uma alma de tão delicados
sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa
da madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo
para seguir.
—E como vae a pequena?
—Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber
áquelle pobre homem
esperanças, que eu mesma não tenho.
—Que disse o cirurgião?
—Nada animador.
—Como capitulou a molestia?
—Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca
pude comprehender a necessidade que tem certa gente de conhecer a
natureza da doença que lhes ameaça roubar uma
pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão
que me interessa. Tudo o
mais me é indifferente. N'uma pessoa doente vejo um espirito
que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos peço
que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não
quero saber o que é. Julgo natural ao sentimento o
considerar assim a molestia e a morte.
—Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na
litteratura, prima. Mas a proposito do Herodes;
deixe-me dizer-lhe
que está sendo muito commentada na
aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É voz
constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem
concedidas
inteiras. Imagine o clamor que por ahi vae!
—Deixe clamar—respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.
—Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia
não sou muito bem tratado.
—É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que
não era prudente.
—Não receie. Esta gente a final é cobarde.
—Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe.
Foi uma desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do
missionario.
—Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como
recompensa, o ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.
—Vamos, primo Henrique; confessemos que a
situação não foi das mais agradaveis.
—Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as
senhoras e talvez por esse episodio dar vigor á
opposição, que alguem por ahi
se interessa em organisar contra o sr. conselheiro.
—Ah! pois trata-se d'isso?
—Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do
cemiterio, a historia do sermão, e agora o episodio do
Cancella, teem feito um grande mal.
—Oh! se meu pae perdia!...
—Não entendo essa exclamação, prima
Magdalena. Ia jurar que era a expressão de um desejo.
—E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae
abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.
—Conhece pouco ainda o coração humano, prima.
Seu pae está votado á politica para toda a vida.
Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia, aqui mesmo faria a mais
deploravel, impertinente e inutil de todas as politicas, a politica
local.
A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
dizia.
Henrique proseguiu:
—Está organisado um club opposicionista na taberna de um
tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres
são os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente.
É preciso olhar por isto e sobretudo não perder
de vista o sr.
Joãozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande
conta, porque representa o de uma freguezia inteira. É de
suppor que o requestem muito e... o homem é fragil.
Já vê, prima,
que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me
deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou
a interessar-me pelas questões locaes, como se aqui
estivesse, ha annos.
—E é um bom indicio de cura, pode crer.
—E ainda tem empenho de me curar?
—Empenho, todo; esperança é que menos.
—Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão
cruel! Seja; escutarei a sentença com coragem. Diga-me o que
pensa de mim. Ha muito que não falamos n'isto. A ultima vez
que o fizemos, um tanto categoricamente, foi n'uma occasião
bem critica. Julgo que o meu procedimento de então
até hoje
lhe terá feito conceber do meu caracter um não
muito desfavoravel conceito. Bem vê que não
abusei...
—De quê?—perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um
gesto de altivez.—É certo que tem em todo esse tempo dado
provas de discreção, no que se mostrou mais
contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu
interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.
—Seja contricção, visto que assim o quer. Mas
não lhe merecerá ella alguma misericordia para
com o peccádor?
—Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella
só me obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem
sempre demasiado delicadas, com que me mortifica.
—Está sendo tão amavel!...
—Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.
—Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
Magdalena.
—Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
do mal, inda não desisti de cural-o.
—Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?
—Ha já agora uma unica maneira de o salvar.
—E é?...
—Apaixonal-o.
—Ah! n'esse caso estou salvo!—exclamou Henrique, n'um impeto, que
não pôde passar sem um sorriso da morgadinha.
—Ouça. É preciso andar com tento na escolha do
objecto d'essa paixão, sob pena de aggravar o mal em vez de
minoral-o.
—E como hei de escolher?
-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si
proprio.
—A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser
mais clara...
—De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma
missão heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de
uma vaidade de boa indole, que se lhe não pode levar a mal.
Repugna-lhe a ideia da inutilidade, da insignificancia da sua
existencia. Não se resigna ao papel de comparsa, ambiciona o
de protector. Se o acaso, ou uma inconsideração
de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter igualmente
forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe
que prescindia da sua protecção, grandes
desgostos e amarguras o esperavam no futuro. Uma indole branda, docil,
fraca, um d'estes seres nervosamente delicados, que tremem ao verem-se
sós, cheios de poeticas superstições,
que tenha a
dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se n'elle
encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo
tempo, domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem
consciencia do imperio que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter
d'estes é que deve procurar para salvar-se; só
d'elle pode esperar a realisação da vaga ideia de
felicidade, que
todos concebem na vida.
—E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe
que poderia encontrar á mão o tal anjo salvador,
que precisa do meu braço para se apoiar?
—Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse
sériamente nas necessidades do seu
coração.
Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
do correio.
—Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a
carta de meu pae—disse Magdalena, examinando a carta recebida.
—Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos
periodicos que chegaram.
E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as
folhas de Lisboa.
Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha
interrompeu a leitura, exclamando:
—Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?
Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.
Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a
carta do conselheiro.
—Ha alguma má nova?—perguntou Henrique, ferido por aquella
expressão.
Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com
ardor a leitura até o fim.
Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao
findar a leitura, passou a
mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.
—Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
perturbar?—perguntou Henrique, já assustado tambem.
—Não sei bem; não posso ainda dizer a que se
refere meu pae; mas sinto-me interiormente sobresaltada, como se o
adivinhasse.
—Mas a final o que se diz ahi?
—Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
certo doloroso.
Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as
mãos.
N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido
victima de um abuso de confiança commettido por alguem, que
elle ainda não sabia dizer
quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada
por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por
não menor personagem politica do que o secretario intimo do
ministro.
O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional
irritação que transparecia em todos os periodos,
da que escrevêra á filha. O periodico que, para
fins politicos, fizera a
publicação, havia occultado os nomes,
porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em
aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das
suas demoras na aldeia, recebêra o conselheiro essa carta;
alli, no seio da familia, a confiança que depositava em
quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por
hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro
dizia á filha que era preciso descobrir o traidor, para
evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da
carta não era para todos comprehendel-o, e portanto
não se limitasse a indagar entre os da baixa classe.
«A vingança, concluia o conselheiro,
de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo
tempo, fazer uma allusão—a vingança, bem ou mal
fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres a uma
acção baixa e vil; entre os que por mim se possam
julgar offendidos, é natural encontrar o
criminoso.»
—Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena,
consternada.—De que se trata aqui?
—Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem;
é necessario descobrir o traidor por cautela.
Além de que, para todos os que, como eu, teem entrada n'esta
casa, é isto um mysterio em que a nossa honra
está empenhada, porque v. ex.
as teem
direito a alimentar
suspeitas.
—Por amor de Deus!—acudiu, interrompendo-o, a
morgadinha.—Não pronuncie essa palavra! Suspeitas!
Esse envenenamento moral, que eu
até aqui não conheci, quer meu pae que
voluntariamente o contraia.
—Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento
salvador, prima, como o da vaccina; é um preservativo de
traição.
—Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos
uma
intenção egoista! Oh! isto é horrivel!
Mas... que carta é essa, meu Deus? Que correspondencia pode
ter meu pae, que não deva vêr a luz do dia? Meu
pae!... Ha por fôrça illusão n'isto!
Meu pae
não tem crimes; meu pae não tem
acções que o
envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem
receiar-se de indiscreções. Pois
não é assim?
—Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
criminosos...
—A politica! Sim, é isso! Eu devia
prevêr que essa palavra viria para explicar este mysterio!
Por politica é-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo,
por politica força-se a consciencia, e depois... ella
justifica tudo. Que obras são as obras politicas que
precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou
salvar uma nação, pois para
se tratar dos interesses de um povo, é sempre necessario o
disfarce, a dissimulação, o mysterio?
—Quando se não pode contar com a boa fé dos
outros, perde sempre quem fôr escrupulosamente fiel
á sua.
—Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira
cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa...
deixe-m'as vêr... quero saber que carta é esta.
Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que
não costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito
suspeitar que era esse o que publicava a carta em questão.
Não fazendo do conselheiro
tão
subido e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso
coração de filha, e para o seu
caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente nobre, generoso e
justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas frequentes na
vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o
conseguiu, porém.
Magdalena, com aquella firmeza de resolução que
energicamente se lhe revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a
mão para receber os periodicos:
—Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é
possivel que de meu pae se diga ahi alguma coisa que não
devam ler os olhos de uma filha.
E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente
aquella de que elle mais receiava.
E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.
Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
Magdalena.
Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos,
que até alli vagueavam por diversas
secções do periodico, fixaram-se n'um ponto;
contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios;
córou e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de
si a folha com um movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o
dominio de uma commoção profunda:
—Ó meu Deus! E não ter um
coração, como o d'elle, a
fôrça precisa para fugir d'estes
enredos! Isto é de enlouquecer!...
Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
examinou-a.
Tinha conjecturado bem.
O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida
de familia.
Para Henrique, em quem
havia muito se inoculára o scepticismo da época,
impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande
significação nem gravidade. O caso era o
seguinte:
Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante
questão politica; uma d'estas questões
que servem para estremar os campos e descriminar os programmas dos
partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os
principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais
avançadas ideias liberaes, tinha de antemão
traçado por
elle o caminho a seguir n'esta conjunctura, o circulo, fóra
do qual não poderia combater sem apostasia; mas, como
já atraz dissemos, o conselheiro não era
já o homem que fôra nos primeiros tempos da sua
carreira publica; perdera a fé nas utopias e nos principios
abstractos, e trocava-os de barato por qualquer pequena vantagem
positiva que pudésse obter, se não para si, para
a localidade de que era representante. A logica partidaria
sacrificára-a, sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em
linguagem não sei se parlamentar, se chama conveniencias
politicas.
Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios
no conselheiro.
Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua
eloquencia, variados conhecimentos e vigor de discussão,
não era elle de
tão espinhosa moral que não tivesse amigos no
seio da maioria, sendo até o proprio ministro um dos mais
intimos. No tempo da discussão, de que falamos, o ministro,
que desejava afastar das camaras todos os adversarios de importancia,
não duvidou entrar em ajustes com o conselheiro. Este, que
já não era
homem para repellir com indignação taes factos,
teve a astucia precisa para se aproveitar das contingencias.
Entenderam-se.
Chegada a época da discussão, o conselheiro, que
sempre se mostrou ardente adversario da medida ministerial, e de quem
se esperava uma opposicão vigorosa e efficaz, pretextou
subitos negocios a chamal-o á provincia, e partiu,
promettendo voltar a tempo ainda de discutir a questão.
Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a
questão foi apresentada nas camaras: oradores tibios e mal
escutados acharam-se sós a combatel-a; apagadores officiaes
e officiosos abafaram a tempo a discussão; e, quando o
conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar nos
circulos politicos contra o resultado da votação
e expender as
razões que deveriam fazer repellir a medida.
Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o
elegia; e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal
fôra o preço d'ella.
Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era
do secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava
vêr claramente as
condições do pacto.
Esta publicação causou profunda
sensação em Lisboa. A importancia politica do
conselheiro soffreu com isso.
Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.