Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.

Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava.

As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam.

Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno.

Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.

A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.

Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára adoentada.

Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa.

Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda devia ser sepultada.

O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, que as nuvens não toldavam.

A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior intensidade.

A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina, recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os combatia e censurava.

Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa inclinação que lhe era habitual em vida.

As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia.

Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais formoso.

A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que morrem.

Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda da sepultura.

O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.

Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.

Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel.

As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.

Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já antevista.

Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.

Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos algares.

Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o factotum Cosme.

Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando em confusão:

—Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!

—Esperem! Isso não vae assim!

—Não façam a festa sem nós!

—Fóra com os do cemiterio!

—Morram os pedreiros-livres!

—Para a igreja!

—Enterre-se na igreja!

—Olá, sr. abbade, espere por nós!

—Aqui vamos para abençoar a cova!

E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.

O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.

A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.

O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.

—Que querem d'aqui?—perguntou elle, fitando-os—com que fins vieram perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?

—Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio—respondeu o sr. Joãozinho.

—É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!—confirmaram differentes vozes.

—Por quê?—continuou o padre—julgam que Deus não receberá as almas, cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?

—Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!

—Eu não lhes reconheço o direito de querer.

—Ora o padre mestre tem vagares!—disse o façanhudo Cosme—e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem d'ahi.

E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que jazia Ermelinda.

—A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!—exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.

Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do padre se cumprisse alli mesmo.

Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.

Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares, que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.

Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.

Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres.

A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.

Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.

—Viva o missionario!

—Viva o santo!

—Abaixo os pedreiros-livres!

E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:

—Abaixo os maçonicos!

—Morram os jacobinos!

—Viva a santa religião!

Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da christandade.

A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.

Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento popular.

Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.

—Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo estas pedras—bradou elle, apontando para o tumulo da familia do conselheiro.

—É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!

—São invenções dos pedreiros-livres!

—É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!

—Abaixo! Abaixo!

O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.

Magdalena collocou-se deante d'elle.

Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da indignação.

—Afaste-se, senhor!—bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!

A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis.

O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e ficou enleado.

Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca humana.

Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:

—Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!

Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.

—Ah! ah! Faz-se fidalga!—disse o sr. Joãozinho, despeitado.—Pois não anda bem.

O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de escutal-o, bradou:

—Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.

—Abaixo!...—repetiram muitas vozes.

—Pois vá abaixo!—repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o machado.

—Para traz!—exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.

O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.

O sr. Joãozinho sorriu.

—Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!—e soltou, ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.

—Abaixo, abaixo!—repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava. Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda que fôsse á custa da propria vida.

Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a palavra «piedade».

O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:

—Mau! se temos chôro, nada feito.

Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de profanação.

O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.

Imitaram-n'o muitos.

Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da violencia.

Antes de o abater haviam de a ferir a ella.

Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns baixaram-n'os, como arrependidos.

O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a scena.

Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:

—Tirem essa mulher d'ahi.

Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo popular.

Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos.

Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.

A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a elle, dominava toda aquella multidão.

Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação, como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no logar do motim.

Era tempo.

A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas luctas em que elle toma parte.

—Que é isto aqui?—disse o homem, rompendo com os braços potentes a onda que se lhe antolhava.

Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até ao meio do circulo.

Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.

—O Herodes... É o Herodes!...—diziam, afastando-se.

Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.

Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o atormentara.

O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.

Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.

Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as ultimas noticias recebidas.

Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.

Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a acudir-lhe.

Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.

Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.

Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.

Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos cruzadas da creança.

Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:

—Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?

A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda, como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido.

—Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr assim!

E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.

Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.

O Cancella continuava:

—Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me, despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?

Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.

O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.

—Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha filha não me perdoou?

Magdalena respondeu a custo:

—Que tinha ella a perdoar-lhe?

—Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!

E outra vez a estreitava nos braços.

Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com voz alterada:

—Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de minha filha morta?

—Queremos que elles a enterrem na igreja—responderam, já tibiamente, algumas vozes.

—Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...

E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.

—Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha pobre filha!

E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez aquella de que mal podia separar-se.

Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.

Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.

Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.

O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.

Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os.

Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella contra os excessos do fanatismo e do beaterio.

—A falar verdade—dizia um—este pobre homem tem alguma razão. Isto de metter scismas ás creanças!...

—E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.

—Tambem é de mais.

—Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.

N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.

Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro os convocára.

Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de joelhos, suffocado em pranto.

As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita aquella idade, choraram tambem.

Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.

Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.

O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais desafogado pranto do que nunca.

A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.

Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.

O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica. Responderam-lhe as creancas!

Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.

O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.

A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.


XXVI


Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa agitação.

Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem accôrdo, Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se encarregára de trazer da taberna, onde o Canada o recolhera, até o Mosteiro, sobre um carro de herva que vinha guiando.

Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, D. Victoria perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as providencias que o caso pedia, deu em ralhar, em fazer exclamações, em andar de sala em sala, de corredor em corredor, sem tenção formada, sem methodo, sem direcção. Levava as mãos á cabeça, ajuntava-as consternada; dava uma ordem ociosa; mandava logo suspender a execução d'ella; impacientava-se; chamava a toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para dizer-lhe; extranhava a tardança de outro que não mandára chamar, e sem dar a final expediente a coisa nenhuma, nem saber o que fizesse.

Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente direcção; paravam embaraçados, ou corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem adeantarem serviço.

As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque, cheias de susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria, que nem sequer dava por ellas.

Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de espirito n'aquella occasião.

Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que pudesse dizer-se ociosa; graças ao methodo com que procedia ás instrucções que ordenava, a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria o percebesse até.

Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado assustador, sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe era precisa toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem sómente poderia descançar, e logo achou na necessidade valor, e, com serenidade apparente, só trahida pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, tudo previu, tudo providenciou.

Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero ou de susto, sem nem ao menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel, que lhe era natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os aprestes que o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros com intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião, enviou a Alvapenha parte do succedido, e ordenou que procurassem Magdalena, occupando n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra toda como alimento á impaciencia de sua mãe.

A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e sympathicas. Não era para o salão que se formára e educára o ingenuo e meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um acanhamento, que já não conseguiria vencer, mas nas lides domesticas, na vida do lar era d'essas corajosas luctadoras, a quem a desventura não derruba, cuja intelligencia por tudo se reparte; d'estes genios providenciaes, que pairam sobre o estreito horisonte da familia, activos, laboriosos, achando nas fadigas um prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, nos sorrisos que provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que enxugam, premio bastante para compensar as penas que soffrem.

Mulheres são estas nascidas para serem esposas e mães, o que é quasi o mesmo que dizer: nascidas para serem mulheres.

A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que soube o que succedera ao sobrinho, não dispensou Christina d'estes cuidados, que voluntariamente tomára.

Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que D. Victoria, e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis effervescencias, em que esta se deixava arrebatar, não era tambem mulher para casos d'estes.

Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa perdera ou embotára a faculdade preciosa de acertar bom caminho em qualquer imprevista occorrencia.

Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos já a lançava em sérios embaraços. Ella propria confessava que inda havia pouco tempo principiára a afazer-se á estada de Henrique em Alvapenha, e a fazer o que era seu costume fazer antes de elle vir.

É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia fazer do que rezar, e para isso ninguem estava mais habilitado do que ella. Em relação á côrte celestial era a boa senhora como esses almanachs vivos, que nos sabem dizer todos os canaes por onde os differentes negocios poderão ser melhor conduzidos nas côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade de cada santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento particular.

Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de Henrique, onde, com as melhores intenções, mais embaraçava o serviço do que auxiliàva; usando de uma debil violencia foi-a levando para a sala do oratorio, onde ella encetou uma reza sem fim.

Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do cemiterio, e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para verificar a realidade do que lhe diziam.

Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido, uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. Victoria tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos.

Magdalena dirigiu-se para lá.

Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a fecunda verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres, seja dito antes em honra do que em censura do sexo, são oradoras de muito mais folego que os homens que blasonam de eloquentes. O assumpto mais simples, uma colhér que se perdeu, uma peça de louça que se quebrou, por exemplo, fornecem-lhes thema para uma prédica de duas horas.

Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil fórmas e estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo que a um homem a custo daria para uma magra oração.

—Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu estavas. Faça favor de me dizer onde é que estava?

Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara e postura de réo.

—Eu... senhora...—ia elle a dizer.

—Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que é. Um desafôro assim!... Eu só quero saber se vossemecê ganha soldada para andar lá por onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as vendas... Porque elle não ha mais... Como o dinheiro se vae roubar á estrada... O que tu merecias... Estou eu aqui a chamar ha mais de duas horas e vossemecê apparece-me lá quando é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é roubar?

—Mas...

—Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para responder. Ora toma-me cautela, senão vaes já, já pela porta fóra. Pouca vergonha! Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer mandar onde é preciso e não apparecer um criado n'esta casa! A pagar-se aqui umas soldadas por ahi além, e, quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa de o fazer por suas mãos!... Tu cuidas que isso não é peccado tambem? Deixa, meu amigo, que tens boas contas a dar de ti. Quem é que lhe deu licença para sair sem ordem de seus amos? Faz favor de me dizer?

—A sr.a Christininha...

—Eu não quero saber da sr.a Christininha, quero saber quem lhe deu licença para sair?

—Mas é o que eu estou dizendo á senhora.

—É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e veja como responde.

Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a urgencia do serviço de que falava D. Victoria, serviço que ella propria adiava com este importuno sermão.

A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria esqueceu-se do criado, o qual pôde retirar-se sem ser percebido e sem receber as ordens urgentes para que fôra chamado.

D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique.

—Andam desaforados—concluiu ella.—Já nem attendem a uma pessoa de respeito. É porque não ha justiça n'esta terra. Estão para ahi uns patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era preciso um exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse rei, não tinha pena nenhuma: havia de os esquartejar e era bem feito!

Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um gato.

A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio.

Então é que trasbordou a indignação da tia.

—Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar sério?... Pois elles?... Em nome do Padre... Que mais teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E esses malvados ainda estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda saber... Não, isso não fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se fizeram as forcas... Ora deixa que... Isto aqui anda trama.

—Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado do ferido.

—Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu não sei onde elles se metteram. Ha de ser preciso ir á botica, e muitas mais coisas, e não vejo nenhum!

Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha.

Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em direcção ao quarto de Henrique, com um copo de agua acidulada.

—Que ha, Christe?—perguntou-lhe Magdalena.

—Que ha de haver, Lena?—respondeu Christina com tristeza, mas com serenidade ao mesmo tempo—uma desgraça, mas que Deus ha de permittir que não seja sem remedio.

—Como está elle?

—Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou. Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas calmantes que lhe tenho dado, achou-se bem.

—E ainda não mandaram chamar o cirurgião?

—Já mandei, já veio, já o sangrou, já...

—Mas tua mãe não o sabe e ia mandar...

—Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados, que por ora não convem que venha. Elle precisa de socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia Dorothéa, que não adeantava serviço. Queres vir vêl-o?

Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique.

Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda commoção cerebral, que lhe produzira a quéda. A tendencia ao estado comatoso, que apresentava, tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso.

Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia aquella, e estes sem possibilidade de longa fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma indifferença morbida pelo seu estado e por tudo quanto o cercava.

Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que ella mesma preparára, com os movimentos quasi instinctivos do somnambulo.

No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causára lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a cabeça outra vez no travesseiro, fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual.

Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma dúvida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confusão.

Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi subjugada pelas muitas e violentas commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade da prima e extranhava-a.

Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.

Apreciára-lhe até então os dotes de creança, a bondade do coração, os extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto tomando assim tanto a sério a sua missão de mulher e desempenhando-se d'ella tão dignamente.

Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como que sob a protecção de uma timida e debil creança que, mais do que elle, parecia carecer de amparo, Magdalena não pôde reprimir um sorriso benigno e pensou:

—Sim; aquella cabeça estouvada pôde até hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas é preciso não ter coração para que, ao erguer-se d'aquelle leito, não seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella para a adorar. E Henrique não é falto de coração. Lida, lida, minha boa Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu á mulher. Confio em Deus que vencerás. Deixar-te-hei todas as fadigas, para te pertencer todo o prazer.

E em harmonia com esta resolução, a morgadinha absteve-se de intervir no tratamento de Henrique.


XXVII


Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este correra sérios riscos durante a primeira semana, por não sei que complicação que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou o prático, não nos compete a nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como de legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso intento.

Ao fim dos oito dias, porém, começaram a manifestar-se melhoras evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar ás senhoras, que sempre o vinham consultar á saida com anciosa curiosidade, que «o homem estava salvo».

De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, como já dissémos, n'um d'aquelles estados de indifferença para tudo e para todos, de que se não pode agourar nunca bem. Agora, porém, começava já a manifestar attenção para os cuidados de que era objecto, e a agradecer, com palavras de sincera gratidão, o tratamento affectuoso que recebia n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina.

Esta fôra effectivamente sempre incançavel, solícita e carinhosa enfermeira.

Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe todos os instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe allivio ás dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de cada momento, a preoccupacão permanente de todos os seus pensamentos.

Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto aquella meiga e delicada figura de mulher, creança de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar brando que o fitava com sympathia e meiguice; já se não sentia bem, longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas para a porta á espera de a vêr apparecer.

Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de Christina sobre o animo do rebelde, que até alli fôra insensivel, e exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que obriga os pintores a deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a attenção se fixe no objecto principal.

Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina devia ser a figura principal.

N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha fazer a Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem comprehendia os deveres da sua missão, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que tão irresistivel influencia exercem no coração do homem que experimenta a ventura de ser objecto d'elles.

De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e crescia á custa de Magdalena.

Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a descoberta. É necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um coração de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo contentamento que Magdalena sentia. É tão natural defeito a vaidade! Não se exprime o prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida domestica, que punha em relêvo o predominio de Christina.

Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado.

Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o chá. Não era, porém, a presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade embotada, emquanto o facto se não der com elle. Era que Christina, que em outra qualquer occasião cedia sempre a Magdalena a direcção dos trabalhos domesticos, alli dentro não resignava em ninguem essas funcções. Tomava naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a mãe, a prima e todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, visitas.

Não se imaginam os encantos que Henrique achava áquillo. A elle proprio parecia já que de facto o prendiam a Christina laços mais intimos, laços mais de familia, do que ás outras senhoras. Era assim que qualquer pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a uma irmã; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra qualquer pessoa, e não o fazia sem as desculpas e cumprimentos do estylo, que para ella não usava já.

Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir á risca as dietas e as prescripções do facultativo, recusando-se obstinadamente a deixal-o lêr, e até ralhando-lhe ás vezes com severidade quasi maternal: apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de affecto.

O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do seu leito de doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma mãe, de uma irmã ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o com essas entonações carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a mão que nos estende a taça do mais amargo remedio; elle, que não sabia ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo apoio de uma debil mão de mulher, a que o amor dá fôrças extraordinarias, commovia-se até ás lagrimas agora, e quasi não pensava sem tristeza na convalescença, que havia de o privar d'aquelles cuidados affectuosos.

O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer.

Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.

Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que se agitava no leito com a inquietação da febre, Christina, depois de lhe dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com a mais adoravel candura:

—Não sabe rezar?

Henrique sorriu, respondendo:

—Julgo que desapprendi já as orações que minha mãe me ensinou.

Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.

Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolação encontraria nas provações da vida um espirito que não soubesse recolher-se na oração.

Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:

—Quer-me ensinar a rezar, Christina?

Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a intenção d'aquellas palavras.

—Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz a minha alma, as orações que me ensinar.

Christina respondeu-lhe gravemente:

—Reze, reze e verá como n'isso acha consolação. Vou emprestar-lhe o meu livro de orações, quer?

—Por que me não ha de antes ensinar, como minha mãe o fazia?

Christina ouviu com seriedade a proposta.

E o certo é que um dia, em que Henrique passára peor, Magdalena ouviu, na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece á Virgem, e o doente repetindo-a com docilidade de creança.

Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas modificações a que todos os caracteres estão sujeitos, quando se dão a actual-os dois elementos tão poderosos, como se davam em Henrique: a doença, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o coração ás doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e irresistivel de todas.

Não direi que fôsse com inteira fé que o doente orava; talvez que houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava ao orar assim. É certo, porém, que, desde então, frequentes vezes se lhe desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique.

Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio, Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratidão, beijou-lhe, commovido, a mão, que ella ia a retirar.

—Que faz?—disse Christina, córando e afastando-a.

—Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só agora comecei a amar.

—Ora vamos—acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.

—Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda?

—Repare que eu não tenho azas de anjo.

—Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?

—Nenhuns titulos! que diz?—tornou Christina, com um sorriso adoravel.

—Pois quaes?

—Então não somos primos? disse ella, jovialmente.

E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava Henrique.

Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para junto d'elle, para lhe fazer companhia.

D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações.

—Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que hão de estar molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão molhados...

Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção.

—Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor?

—Estou triste, porque estou melhor—respondeu Henrique.

—Que está a dizer?!

—A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós, que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei prostrado no leito da doença, Christina.

—Não diga isso.

—E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! Não sabe que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da solidão, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...

—E tenciona voltar?

A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma intima commoção. Ha d'estes effeitos. Ás vezes o olhar menos significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.

—E queria que eu ficasse, Christina?—perguntou Henrique, sob o dominio d'essa impressão.

Christina não respondeu logo.

—Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, para não vêr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de irmã. Esta ideia será a minha consolação; deixe-me partir com ella.

—Partir?... mas... para que ha de partir?

—Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorothéa, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidadãos?

—Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que está doente, que é quasi a mesma coisa.

—E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?

—Por que havia de lh'a negar?

—Tempo virá em que outros me disputarão a menor porção de affecto que me conceder, Christina... e então... então é que eu ficarei mais só do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou.

—Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por esse mundo?

—Então a menina não sabe que se está só mesmo em companhia? Quem está só é a alma. Ai, a alma está só quasi sempre!

—Por que quer.

—Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que não obteve a que desejava. Além de que, ha almas tão tristes, que intimidam outras. E a minha é d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia á minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci, não hesitaria? Confesse.

Depois de um momento de silencio e hesitação, Christina respondeu:

—Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa tristeza...

—Concedia-m'a?

—E por que havia de negar-lh'a?

Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado.

—Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras? Se o meu coração é tão ousado...

Christina, córando, retirou a mão de que Henrique se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse:

—Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.

E fugiu, correndo em direcção de casa.

Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma como perfumada atmosphera, que exercia profundas revoluções no caracter de Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, da infancia, estado de chrysalida para a imaginação, passava á verdadeira juventude, ao periodo em que a imaginação ganha azas, em que o coração se completa.

Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não havia razão possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a mudança para Alvapenha.

Já se não fez sem lagrimas a despedida.

Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu commovida; só Christina não se achava na sala em que se passou a scena.

Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.

Seria casual esta circumstancia?

Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe o coração que a encontraria alli.

—Volto á minha solidão, Christina—disse-lhe, commovido.—Não lh'o tinha eu dicto?

A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez só lhe resultaram lagrimas.

—Não diga mais nada—disse Henrique, levando aos labios a mão que ella não retirou.—Essas lagrimas bastam-me.

Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas produziram.

E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.

Christina ficou a chorar na varanda.

A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo:

—Pago-te hoje o abraço que me déste no outro dia; mas eu escuso de te perguntar... «Pois tu amaval-o?»

—Ai, Lena!...—exclamou Christina, cada vez chorando mais.

—Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e imaginaram uma separação de duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!—dizia Magdalena, para consolal-a.

Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia. Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar á ama a ideia de que a doença tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa levou muito a mal.

Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignação que lhe causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do coração, contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu.

Depois teve Henrique uma visão.

Não se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha aqui que se pareça com as visões épicas; foi uma visão como muitas, que nós todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginação, esta fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem não terá de facto succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da visão exterior, enfraquecerem as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem fórma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa visão?

Estava Henrique á janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos já que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mêdas, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural, resentindo-se, porém, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura.

Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta como ella era.

Principiava a visão interior.

As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o chão das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se ás prêsas os diques, e uma verdadeira rede liquida envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados, do sobrinho de D. Dorothéa. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, á sombra de uma arvore, á borda do tanque, debruçada no muro, por entre os silvados das sébes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina!

Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de ter uma visão como esta!

No quasi extase, em que a imaginação o lançára permanecia ainda, quando soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.

Apressou-se logo a receber a visita.

Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e das meninas.

O pobre homem era um dos que ficára com affeição a Henrique depois que estivera no Mosteiro.

Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o bastante para o velho lhe querer bem.

—Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incómmodo que estão tendo commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes passeios.

—Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... É exercicio a final... Pois é verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu já tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu era já homem feito... Inda me lembra...

Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem transição sensivel:

—Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... Até a Christininha!

—Sim? Tambem essa?

—Ora se tambem!... Pois a sr.a D. Victoria?

—Mas... mas... Christina... a sr.a D. Christina, então...

—Isso é um coração de pomba. Inda ha pouco, ao sair, já vinha no pateo, e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais triste.»

—Ella disse-lhe isso?

—É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o encontrei alegre como...

—Não, não; não lhe diga isso, homem—atalhou Henrique.

—Então por quê?!

—Porque... porque... porque não é verdade... Então eu estou assim tão alegre como isso?

—Não digo que esteja, mas para a socegar...

—Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse ella mais nada?

—A sr.a D. Victoria...

—Falo de Christina.

—Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo.

—Diga, diga.

—Não é nada; é uma promessa que...

—Uma promessa? Que promessa?

—Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as estações da meia noite...

—As estações da meia noite?

—Sim; as estações rezadas á meia noite á Senhora que está na capella da casa dos Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae...

E vinha um caso comprovativo da tradição popular.

—Sim, lembra-me que já me falaram n'isso—disse Henrique, pensativo.

—É verdade. O peor é que é este seu criado quem tem de a acompanhar até á quinta, depois d'ámanhã á meia noite...

—Então depois de ámanhã á meia noite?

—Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da pequena.

—Esteja descançado.

E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que Henrique não ligou attenção, aquelle retirou-se.

Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda abstracção. Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de fervorosa devoção de Christina, que supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crença, com a effusão do mais generoso affecto.

N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que conduziam á quinta, que elle ainda não visitára, e sobre como penetrar até á capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa.

D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das intenções com que elle lh'os pedia.


XXVIII


A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia.

O tempo, cuja acção não contrastada se exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstição popular terminára a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue á natureza.

A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia senão depois de ter gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde passára o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a opinião de que a sua alma andava ainda penando por cá.

Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relação aos annos da mocidade da morgada. A imaginação popular fazia a biographia d'aquella senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.

A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos começaram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da vida elegante ás práticas de devoção.

Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade natural. Trajava sempre com distincção e esmero, e ao corrente das modas.

Tudo isto e as proprias devoções da morgada, acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava remir á fôrça de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava á terra penando.

Já se vê que o logar era para apavorar as imaginações timidas, e de noite pouca gente da aldeia gostava de passar por lá.

Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora devida, e fazendo obra pelas informações da morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher posição d'onde pudesse, sem ser visto, observar Christina, não tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua piedosa tarefa.

A noite fizera-se escura e ameaçava chuva.

Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a aldeia, examinando com attenção todos os objectos que lhe deviam servir de indicadores da estrada.

Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.

Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique achou ainda fechada.

O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver acertado.

Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escuridão a fazer receiar grandes aguaceiros.

Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se. N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto seu, achou-o aberto.

Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria habitada a quinta?

Estas tres explicações do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar.

Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida.

A chuva caía com mais fôrça. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no tôpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado.