Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa,
saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam
alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela
curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava.
As murmurações, comquanto menos manifestas aqui
do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam.
Até da porta da igreja para dentro, até de
joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no
altar, os
murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a
justiça celeste sobre os impios do seculo, que
não queriam enterrar-se no chão sagrado da
igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre
a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa
mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam
dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno.
Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
entreolhavam de maneira
mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se
d'alli aguardassem alguma coisa.
A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se
achára adoentada.
Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada
á campa por creanças quasi da mesma idade,
vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a
irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das
vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas
proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
extraordinario apparato, não só em honra da
familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má
impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa.
Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas
campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e
risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo
onde Ermelinda devia ser sepultada.
O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
que as nuvens não toldavam.
A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
intensidade.
A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e
batina, recitando as orações da
occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado
pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e
respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos
do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os
combatia e censurava.
Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma
numerosa companhia de creanças,
Ermelinda, a quem a pallidez da morte não
dissipára a
formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a
tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no
auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa
de flores, conservava a graciosa inclinação que
lhe era habitual em vida.
As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por
Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia.
Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
formoso.
A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do
tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte
encostada á mão, seguindo melancolicamente com a
vista a vagarosa procissão que entrára no
cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por
mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a
saudade pelos que morrem.
Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera
já occupar a posição
que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da
campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas
e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda
da sepultura.
O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
Havia já alguns momentos que começára
a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos
pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel.
As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
activado ao ouvil-o. Pouco
a
pouco principiou a mover-se alguma
coisa por
entre os
troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas
figuras de homens, correndo em direcção ao
cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas
das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir
claramente.
Não era difficil adivinhar a
significação d'aquillo. A questão
vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo
descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e
a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião
da crise popular já antevista.
Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados,
de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus,
fouces, chuços, e todas as peças do extravagante
arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da
arruaça ou da sedição.
Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
estavamos prevenidos; agora, porém, já
engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos
algares.
Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao
seu lado o
factotum Cosme.
Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o
enterro, bradando em confusão:
—Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
—Esperem! Isso não vae assim!
—Não façam a festa sem nós!
—Fóra com os do cemiterio!
—Morram os pedreiros-livres!
—Para a igreja!
—Enterre-se na igreja!
—Olá, sr. abbade, espere por nós!
—Aqui vamos para abençoar a cova!
E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
O cruciferario e os padres, á excepção
do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças,
pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda,
correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.
A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando
com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no
meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos
lábios, como de anjo que já de longe estivesse
vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.
O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
—Que querem d'aqui?—perguntou elle, fitando-os—com que fins vieram
perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
—Não queremos que ninguem se enterre no
cemiterio—respondeu o sr. Joãozinho.
—É verdade! é verdade! ninguem se enterra
aqui!—confirmaram differentes vozes.
—Por quê?—continuou o padre—julgam que Deus não
receberá as almas, cujos corpos
não estejam lá dentro, a apodrecer sob os
telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
—Não queremos saber de contos. Não queremos.
Já disse!
—Eu não lhes reconheço o direito de querer.
—Ora o padre mestre tem vagares!—disse o façanhudo
Cosme—e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso
não foi que viemos.
Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus
reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós
fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem
d'ahi.
E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o
caixão em que jazia Ermelinda.
—A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as
mãos impuras tocar n'esse cadaver, que está
abençoado pela
Igreja!—exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e
terrivel.
Na aldeia os homens mais endurecidos não são
superiores á intimação religiosa. O
Cosme retirou a mão, como se receiasse que a
imprecação do padre se cumprisse alli mesmo.
Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
hesitação, que
tão fataes são ao exito das
revoluções
democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e
quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do
primeiro impeto.
Mas a primeira onda não é a mais temivel; os
primeiros bandos populares, que sáem
á rua,
soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua
quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo
espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas,
quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os
dirija, não são os precisos para ficarem
esmagados sob a
repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de
sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os
cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta
sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração
legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas,
vem então a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel,
porque não é a embriaguez do motim que a impelle,
é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de
antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra.
Vem então reforçar-a primeira,
insufflar-lhe o alento que esta não tem de si, e amparar-se
com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga,
retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas
se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
campo da victoria adeantam-se então a colher os
trophéos conquistados.
Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado
pelo morgado das Perdizes, ia
ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do
venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo
missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e
sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres.
A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este
refôrço.
Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a
procissão.
—Viva o missionario!
—Viva o santo!
—Abaixo os pedreiros-livres!
E os do bando do estandarte correspondiam a estas
saudações, dizendo:
—Abaixo os maçonicos!
—Morram os jacobinos!
—Viva a santa religião!
Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o
perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade
indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e
manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os
feitos de armas dos passados guerreiros da christandade.
A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do
morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora
o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande
fortaleza contra as paixões.
Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava
caudilho de um movimento popular.
Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
—Não se consentem aqui enterros, e principiemos
já por deitar abaixo estas pedras—bradou elle, apontando
para o tumulo da familia do conselheiro.
—É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
—São invenções dos pedreiros-livres!
—É isso, é isso... Pois não
vêem que são de pedra!
—Abaixo! Abaixo!
O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado
das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns
passos para o tumulo.
Magdalena collocou-se deante d'elle.
Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor,
nos olhos o lampejar da indignação.
—Afaste-se, senhor!—bradou ella, estendendo a mão para o
ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer
pouse os pés nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa
minha mãe. Atraz!
A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
resoluções energicas e potentes
d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher
sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis.
O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
ficou enleado.
Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe
murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que
ainda escancarou bôca humana.
Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira,
disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
—Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
—Ah! ah! Faz-se fidalga!—disse o sr. Joãozinho,
despeitado.—Pois não anda bem.
O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
escutal-o, bradou:
—Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
—Abaixo!...—repetiram muitas vozes.
—Pois vá abaixo!—repetiu tambem o sr.
Joãozinho, adeantando-se com o machado.
—Para traz!—exclamou outra vez Magdalena, já
trémula de exaltação.
O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
O sr. Joãozinho sorriu.
—Isso é que é mandar! Socegue que não
fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar
essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!—e soltou, ao dizer isto,
uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
—Abaixo, abaixo!—repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe
perturbava. Era-lhe preciso defender de uma
profanação as cinzas de sua mãe, ainda
que fôsse á custa da
propria vida.
Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens;
já as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios
principiavam a murmurar a palavra
«piedade».
O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
achavam caminho para chegar ao coração, hesitou,
resmungando:
—Mau! se temos chôro, nada feito.
Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os
gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado,
preparando-se para a obra de
profanação.
O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
Imitaram-n'o muitos.
Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da
mãe para o proteger da violencia.
Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se.
Alguns baixaram-n'os, como arrependidos.
O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava
causando a scena.
Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
—Tirem essa mulher d'ahi.
Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
facto não viesse desviar as attenções
e modificar diversamente o animo
popular.
Um homem, que parecia chegar de longa jornada,
approximára-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso
á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos.
Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo,
abraçada a elle, dominava toda aquella multidão.
Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma
exclamação, como de quem tinha comprehendido ou
adivinhado a significação
d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em
pouco, no logar do motim.
Era tempo.
A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas
irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa
do povo nas luctas em que elle toma parte.
—Que é isto aqui?—disse o homem, rompendo com os
braços potentes a onda que se lhe antolhava.
Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu
caminho até ao meio do circulo.
Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos
amotinados.
—O Herodes... É o Herodes!...—diziam, afastando-se.
Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
Obtendo fiança, graças á
intervenção do conselheiro, voltava á
terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a
unica dor que o atormentara.
O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já
não o encontrára na
prisão, para onde fôra dirigida.
Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para
animar as ultimas noticias recebidas.
Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos
sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos
enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da
terra.
Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se
logo a acudir-lhe.
Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper,
e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da
creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no
chão; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia,
ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil
claridade da hora, reconheceu a filha.
Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um
só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos
fitos n'aquella creança morta, com as mãos juntas
e com as faces extremamente pallidas.
Perante esta terrivel manifestação de dor, que
toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o
perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que
dominavam os corações.
Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e
trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou
a mêdo as mãos das mãos cruzadas da
creança.
Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de
gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:
—Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!...
Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha
está morta?
A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa;
mas havia no tom de voz, com que estas palavras fôram
pronunciadas, não sei
quê tão intimamente doloroso, que presentia-se
que, no curto espaço de tempo que as precedera, se tinha
operado n'aquelle peito uma revolução tremenda,
como se uma intima dilaceração o tivesse
destruido. Adivinhava-se lá dentro
já um desalento mortal, um mal de que se não
convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido.
—Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do
Céo! viver eu para te
vêr assim!
E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas
faces.
Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
fazia já renegar aos mais atrevidos os
seus
excessos passados.
O Cancella continuava:
—Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
despedaça-me o
coração!... Não me morras assim,
filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de
amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de
morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei
de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de
despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só!
só! Ficar só! Só n'este
mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me
castigardes assim!? Em quê?
Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de
lagrimas.
—Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale,
diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou
em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não
responde... Então não me perdoou? Pois minha
filha
não me perdoou?
Magdalena respondeu a custo:
—Que tinha ella a perdoar-lhe?
—Não é verdade que eu lhe queria muito?
não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que
me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora,
assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
E outra vez a estreitava nos braços.
Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
voz alterada:
—Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao
pé de minha filha morta?
—Queremos que elles a enterrem na igreja—responderam, já
tibiamente, algumas vozes.
—Na igreja?... Isso é que não! Sabem
quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de
mêdos, que lhe roubaram
as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi
vêdes... Pois não a conheciam? Não a
tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a
nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem aquelles
cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles
cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar,
desgraçadinha! Não, não
te entregarei. Não, não irás
lá para
dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de
Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias
no berço, que ficará sempre vazio!
Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não
compadeces de mim, Senhor!...
E suffocado de pranto, que rompia agora abundante,
o desesperado pae ajoelhou junto do
esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
—Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um
logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d'aquella
santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha
pobre filha!
E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado,
cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos
braços para, por suas proprias mãos,
o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda
uma vez aquella de que mal podia separar-se.
Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
Nem um só movimento, nem uma só voz tentou
oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos
antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira
assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias
pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme
já não estavam presentes.
Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os.
Os circumstantes quasi faziam já côro com as
arguições do Cancella contra os excessos do
fanatismo e do beaterio.
—A falar verdade—dizia um—este pobre homem tem alguma
razão. Isto de metter scismas ás
creanças!...
—E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
—Tambem é de mais.
—Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que
faria.
N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles
mesmos braços e armas para organisar uma
sedição sobre uma divisa opposta á
que primeiro os convocára.
Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella
caiu de joelhos, suffocado em pranto.
As creancas presentes, por contagio da commoção,
a que é tão sujeita aquella idade, choraram
tambem.
Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a
deixou falar.
Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no
hombro.
O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
desafogado pranto do que nunca.
A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e
tristes.
O padre velho pronunciou em voz alta a saudação
angelica. Responderam-lhe as creancas!
Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso
de tristeza.
XXVI
Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa
agitação.
Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem
accôrdo, Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se
encarregára de trazer da taberna,
onde o Canada o recolhera, até
o Mosteiro, sobre um carro de herva que vinha guiando.
Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha,
D. Victoria perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as
providencias que o caso pedia, deu em ralhar, em fazer
exclamações, em andar de sala em sala, de
corredor em corredor, sem tenção formada, sem
methodo, sem
direcção. Levava as mãos á
cabeça, ajuntava-as
consternada; dava uma ordem ociosa; mandava logo suspender a
execução d'ella; impacientava-se; chamava a
toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para
dizer-lhe; extranhava a tardança de outro que não
mandára chamar, e sem dar a final expediente a coisa
nenhuma, nem saber o que fizesse.
Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente
direcção; paravam embaraçados, ou
corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem adeantarem
serviço.
As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque,
cheias de susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria,
que nem sequer dava por ellas.
Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de
espirito n'aquella occasião.
Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que
pudesse dizer-se ociosa; graças ao methodo com que procedia
ás instrucções que
ordenava, a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria
o percebesse até.
Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado
assustador, sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe
era precisa toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem
sómente poderia descançar, e logo achou na
necessidade valor, e, com serenidade apparente, só trahida
pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, tudo previu, tudo
providenciou.
Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero
ou de susto, sem nem ao
menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel,
que lhe era natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os
aprestes que o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros
com intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião,
enviou a Alvapenha parte do succedido, e ordenou que procurassem
Magdalena, occupando n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra
toda como alimento á impaciencia de sua mãe.
A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e
sympathicas. Não era para o salão que se
formára e educára o
ingenuo e meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um
acanhamento, que já não conseguiria vencer, mas
nas lides domesticas, na vida do lar era d'essas corajosas luctadoras,
a quem a desventura não derruba, cuja intelligencia por tudo
se reparte; d'estes genios providenciaes, que pairam sobre o estreito
horisonte da familia, activos, laboriosos, achando nas fadigas um
prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, nos sorrisos que
provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que enxugam, premio
bastante para compensar as penas que soffrem.
Mulheres são estas nascidas para serem esposas e
mães, o que é quasi o mesmo que dizer: nascidas
para serem mulheres.
A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que
soube o que succedera ao sobrinho, não dispensou Christina
d'estes cuidados, que voluntariamente tomára.
Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que
D. Victoria, e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis
effervescencias, em que esta se deixava arrebatar, não era
tambem mulher para casos d'estes.
Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa
perdera ou embotára a faculdade preciosa
de acertar bom caminho
em qualquer imprevista occorrencia.
Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos
já a lançava em
sérios embaraços. Ella propria confessava que
inda havia pouco tempo principiára a afazer-se á
estada de Henrique em Alvapenha, e a fazer o que era seu costume fazer
antes de elle vir.
É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia
fazer do que rezar, e para isso ninguem estava mais habilitado do que
ella. Em relação
á côrte celestial era a boa senhora como esses
almanachs vivos, que nos sabem dizer todos os canaes por onde os
differentes negocios poderão ser melhor conduzidos nas
côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade de cada
santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento
particular.
Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de
Henrique, onde, com as melhores
intenções, mais embaraçava o
serviço do que
auxiliàva; usando de uma debil violencia foi-a levando para
a sala do oratorio, onde ella encetou uma reza sem fim.
Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do
cemiterio, e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para
verificar a realidade do que lhe diziam.
Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido,
uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D.
Victoria tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos.
Magdalena dirigiu-se para lá.
Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas
interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a
fecunda verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres,
seja dito antes em honra do que em censura do sexo, são
oradoras de muito mais folego que os homens que blasonam de eloquentes.
O assumpto mais simples, uma colhér
que se perdeu, uma peça de louça que se
quebrou, por exemplo, fornecem-lhes thema para uma prédica
de duas horas.
Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil
fórmas e estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo
que a um homem a custo daria para uma magra
oração.
—Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu
estavas. Faça favor de me dizer onde é que
estava?
Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara
e postura de réo.
—Eu... senhora...—ia elle a dizer.
—Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que
é. Um desafôro assim!... Eu só
quero saber se vossemecê ganha soldada para andar
lá por onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as
vendas... Porque elle não ha mais... Como o dinheiro se vae
roubar á estrada... O que tu merecias... Estou eu aqui a
chamar ha mais de duas horas e vossemecê apparece-me
lá quando
é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem
quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é
roubar?
—Mas...
—Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para
responder. Ora toma-me cautela, senão vaes já,
já pela porta fóra. Pouca
vergonha! Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer
mandar onde é preciso e não apparecer um criado
n'esta casa! A pagar-se aqui umas soldadas por ahi além, e,
quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa de o fazer
por suas mãos!... Tu cuidas que isso não
é peccado tambem? Deixa, meu amigo, que tens boas contas a
dar de ti. Quem é que lhe deu licença para sair
sem ordem de seus
amos? Faz favor de me dizer?
—A sr.
a Christininha...
—Eu não quero saber da sr.
a
Christininha, quero saber quem
lhe deu licença para sair?
—Mas é o que eu estou dizendo á senhora.
—É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e
veja como responde.
Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a
urgencia do serviço de que falava D. Victoria,
serviço que ella propria adiava com este importuno
sermão.
A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria
esqueceu-se do criado, o qual pôde retirar-se sem ser
percebido e sem receber as ordens urgentes para que fôra
chamado.
D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella
propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique.
—Andam desaforados—concluiu ella.—Já nem attendem a uma
pessoa de respeito. É porque não ha
justiça n'esta terra. Estão para ahi uns
patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era
preciso um exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse
rei, não tinha pena nenhuma: havia de os esquartejar e era
bem feito!
Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um
gato.
A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio.
Então é que trasbordou a
indignação da tia.
—Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar
sério?... Pois elles?... Em nome do Padre... Que mais
teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E esses malvados ainda
estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda saber...
Não, isso não
fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no
pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se
fizeram as forcas... Ora deixa que... Isto aqui anda trama.
—Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado
do ferido.
—Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu
não sei onde elles se metteram. Ha de ser preciso
ir á botica, e muitas
mais coisas, e não
vejo nenhum!
Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha.
Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em
direcção ao quarto de Henrique, com um copo de
agua acidulada.
—Que ha, Christe?—perguntou-lhe Magdalena.
—Que ha de haver, Lena?—respondeu Christina com tristeza, mas com
serenidade ao mesmo tempo—uma desgraça, mas que Deus ha de
permittir que não seja sem remedio.
—Como está elle?
—Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou.
Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas
calmantes que lhe tenho dado, achou-se bem.
—E ainda não mandaram chamar o cirurgião?
—Já mandei, já veio, já o sangrou,
já...
—Mas tua mãe não o sabe e ia mandar...
—Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados,
que por ora não convem que venha. Elle precisa de
socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia
Dorothéa, que não adeantava serviço.
Queres vir
vêl-o?
Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique.
Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda
commoção cerebral, que lhe produzira a
quéda. A tendencia ao estado comatoso, que apresentava,
tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso.
Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia
aquella, e estes sem possibilidade de longa
fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que
n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma
indifferença morbida pelo seu estado e por tudo quanto o
cercava.
Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que
ella mesma preparára, com os movimentos quasi instinctivos
do somnambulo.
No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe
causára lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em
Christina um olhar de gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a
cabeça outra vez no travesseiro, fechou os olhos para
dormir. Esta somnolencia era habitual.
Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava
um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor
mandar calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma
dúvida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de
qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a
escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem
ruido, diligente e sem confusão.
Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi
subjugada pelas muitas e violentas
commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade
da prima e extranhava-a.
Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a
suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito
methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.
Apreciára-lhe até então os dotes de
creança, a bondade do coração, os
extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto
tomando assim tanto a sério a sua missão de
mulher e
desempenhando-se d'ella tão dignamente.
Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o
espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no
leito, e como que sob a protecção de uma timida e
debil
creança que, mais do que elle, parecia carecer de amparo,
Magdalena não pôde reprimir um sorriso benigno e
pensou:
—Sim; aquella cabeça estouvada pôde
até hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas
é preciso não ter coração
para que, ao erguer-se d'aquelle
leito, não
seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella para a
adorar. E Henrique não é falto de
coração. Lida, lida, minha boa
Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz
que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu
á mulher. Confio em Deus que vencerás.
Deixar-te-hei todas as fadigas, para te pertencer todo o prazer.
E em harmonia com esta resolução, a morgadinha
absteve-se de intervir no tratamento de Henrique.
XXVII
Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a
vida d'este correra sérios riscos durante a primeira semana,
por não sei que
complicação que se lhe manifestou no decurso da
molestia. Se se enganou o prático, não nos
compete a
nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como de
legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso
intento.
Ao fim dos oito dias, porém, começaram a
manifestar-se melhoras evidentes, e o proprio facultativo foi o
primeiro a assegurar ás senhoras, que sempre o vinham
consultar á saida com anciosa curiosidade, que «o
homem estava salvo».
De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira,
como já dissémos, n'um d'aquelles estados de
indifferença para tudo e para todos, de que se
não pode agourar nunca bem. Agora, porém,
começava já a manifestar
attenção para os cuidados de que era objecto, e a
agradecer, com palavras de sincera gratidão, o tratamento
affectuoso que recebia n'aquella casa e especialmente os desvelos de
Christina.
Esta fôra effectivamente sempre incançavel,
solícita e carinhosa enfermeira.
Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe
todos os instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as
penas, procurar-lhe allivio ás dores physicas ou moraes, era
agora para ella a tarefa de cada momento, a preoccupacão
permanente de todos os seus pensamentos.
Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto
aquella meiga e delicada figura de mulher, creança de
hontem, a ouvir-lhe o timbre suave e ainda um pouco infantil da voz, a
cruzar o olhar com aquelle olhar brando que o fitava com sympathia e
meiguice; já se não sentia bem, longe d'ella, e a
cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas para a porta
á espera de a vêr apparecer.
Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
Christina sobre o animo do rebelde, que até alli
fôra insensivel, e exultava.
Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que
obriga os pintores a deixar em meias tintas os accessorios de um
quadro, para que a
attenção se fixe no objecto principal.
Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
devia ser a figura principal.
N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha
fazer a Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os
impulsos da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem
comprehendia os deveres da sua missão, ao mesmo tempo
carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais extranha que lhe era
possivel a estes pequenos cuidados, que tão irresistivel
influencia exercem no coração do homem que
experimenta a ventura de ser objecto d'elles.
De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
crescia á custa de Magdalena.
Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a
descoberta. É necessario ser dotado de um grande fundo de
generosidade, para que um coração
de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo
contentamento que Magdalena sentia. É tão natural
defeito a vaidade! Não se exprime o prazer que Henrique
experimentava a cada pequeno incidente da vida domestica, que punha em
relêvo o predominio de Christina.
Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado.
Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para
tomarem o chá. Não era, porém, a
presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, que o
consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade
embotada, emquanto o facto se não der com elle. Era que
Christina, que em outra qualquer occasião cedia sempre a
Magdalena a
direcção dos trabalhos domesticos, alli dentro
não resignava em ninguem essas
funcções. Tomava naturalmente as maneiras de dona
de casa, e recebia a mãe, a prima e todas as outras como
visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, visitas.
Não se imaginam os encantos que Henrique achava
áquillo. A elle proprio parecia já que de facto o
prendiam a Christina laços mais intimos, laços
mais de familia, do que ás outras senhoras.
Era assim que qualquer pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar
a ella, como o faria a uma irmã; emtanto que naturalmente
custava-lhe a incommodar outra qualquer pessoa, e não o
fazia sem as desculpas e cumprimentos do estylo, que para ella
não usava já.
Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
despotica por que o governava Christina,
fazendo-o cumprir á
risca as dietas e as
prescripções do facultativo, recusando-se
obstinadamente a deixal-o lêr, e até ralhando-lhe
ás
vezes com severidade quasi maternal: apparencias de dureza, que
occultavam thesouros de sensibilidade e de affecto.
O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do
seu leito de doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto
suave e consolador de uma mãe, de uma irmã ou de
uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o com essas
entonações
carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a mão que
nos estende a taça do mais amargo
remedio; elle, que não sabia ainda o que era sentir-se
amparar a fronte, que escalda de febre, pelo apoio de uma debil
mão de mulher, a que o amor dá
fôrças extraordinarias, commovia-se
até ás lagrimas agora, e quasi não
pensava sem tristeza na convalescença, que havia de o privar
d'aquelles cuidados affectuosos.
O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que
todas as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia
dizer.
Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.
Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
se agitava no leito com a inquietação da febre,
Christina, depois de lhe dar a beber o calmante que lhe prescrevera o
medico, perguntou-lhe, com a mais adoravel candura:
—Não sabe rezar?
Henrique sorriu, respondendo:
—Julgo que desapprendi já as orações
que minha mãe me ensinou.
Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.
Aquella alma innocente perguntava a si mesma
que consolação encontraria nas
provações da vida um espirito que não
soubesse recolher-se na
oração.
Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:
—Quer-me ensinar a rezar, Christina?
Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
intenção d'aquellas palavras.
—Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz
a minha alma, as
orações que me ensinar.
Christina respondeu-lhe gravemente:
—Reze, reze e verá como n'isso acha
consolação. Vou emprestar-lhe o meu livro de
orações, quer?
—Por que me não ha de antes ensinar, como minha
mãe o fazia?
Christina ouviu com seriedade a proposta.
E o certo é que um dia, em que Henrique passára
peor, Magdalena ouviu, na sala proxima, Christina, recitando uma
singela prece á Virgem, e o doente repetindo-a com
docilidade de creança.
Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
modificações a que todos os caracteres
estão sujeitos, quando se dão a actual-os dois
elementos tão
poderosos, como se davam em Henrique: a doença, que quebra a
inteireza das indoles mais rijas, e abre o
coração ás doces influencias; e a
catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e irresistivel de todas.
Não direi que fôsse com inteira fé que
o doente orava; talvez que houvesse mescla de sentimento profano no
prazer suave que experimentava ao orar assim. É certo,
porém, que, desde
então, frequentes vezes se lhe desviavam os olhos para o
pequeno crucifixo, que Christina trouxera do seu quarto para a
cabeceira do leito de Henrique.
Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
Henrique, obedecendo aos impulsos
da sua gratidão, beijou-lhe, commovido, a
mão, que ella ia a retirar.
—Que faz?—disse Christina, córando e
afastando-a.
—Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á
vida, á vida que só agora comecei a
amar.
—Ora vamos—acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.
—Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer
anjo para me salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da
guarda?
—Repare que eu não tenho azas de anjo.
—Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a
velar por um pobre doente como eu, que nenhuns titulos possue
para lhe merecer essa
dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua
ha tantos dias?
—Nenhuns titulos! que diz?—tornou Christina, com um sorriso adoravel.
—Pois quaes?
—Então não somos primos? disse ella,
jovialmente.
E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
Henrique.
Estava já Henrique em convalescença, e o
facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda
não a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de
Henrique n'estes passeios era á sombra de umas laranjeiras,
que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D.
Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam
serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia
tenção de ler, e apoiando-se
ao braço de Christina, que levava a costura para junto
d'elle, para lhe fazer companhia.
D. Victoria seguia-os da janella com as suas
recommendações.
—Por ahi não, Christe!... Olha que é muito
humido... Dá antes a volta pela nora... Assim...
Cautela com essas hervas, que
hão de estar molhadas... Vê lá que
não esteja frio... Olha se
esses troncos estão molhados...
Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de
uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de
familiaridade affectuosa, que principiára a poder ter para
com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e
protecção.
—Que é isso! Por que está sempre triste, agora
que vae melhor?
—Estou triste, porque estou melhor—respondeu Henrique.
—Que está a dizer?!
—A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede
commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos
circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos
accumular-se em nós, que tantos gósos
dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que
estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei
prostrado no leito da doença, Christina.
—Não diga isso.
—E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida!
Não sabe que me eram desconhecidos inteiramente os
ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude
vão voltar para mim os dias da solidão, do
desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que
principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina!
Quando penso em voltar para Lisboa...
—E tenciona voltar?
A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma
intima commoção. Ha d'estes effeitos.
Ás vezes o olhar menos significativo, a palavra menos
pensada, é pelo coração
interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.
—E queria que eu ficasse, Christina?—perguntou Henrique, sob o
dominio d'essa impressão.
Christina não respondeu logo.
—Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso,
para não vêr partir sem saudade o homem a quem
salvou com os seus extremos de irmã. Esta ideia
será a minha
consolação; deixe-me partir com ella.
—Partir?... mas... para que ha de partir?
—Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia
Dorothéa, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos
cidadãos?
—Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir!
E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar
que está doente, que é quasi a mesma coisa.
—E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?
—Por que havia de lh'a negar?
—Tempo virá em que outros me disputarão a menor
porção de affecto que me conceder,
Christina... e então... então é que eu
ficarei mais
só do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o
estou.
—Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por
esse mundo?
—Então a menina não sabe que se está
só mesmo em companhia? Quem está só
é a alma.
Ai, a alma está só quasi sempre!
—Por que quer.
—Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que
não obteve a que desejava. Além de que, ha almas
tão tristes, que intimidam outras. E a minha é
d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia á
minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci,
não hesitaria? Confesse.
Depois de um momento de silencio e hesitação,
Christina respondeu:
—Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa
tristeza...
—Concedia-m'a?
—E por que havia de negar-lh'a?
Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado.
—Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras?
Se o meu coração é
tão ousado...
Christina, córando, retirou a mão de que Henrique
se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse:
—Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.
E fugiu, correndo em direcção de casa.
Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias
durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma
como perfumada atmosphera, que exercia profundas
revoluções no caracter de Henrique e de
Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades
artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em
vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo
uma d'essas metamorphoses analogas ás da vida de borboletas,
da infancia, estado de chrysalida para a
imaginação, passava á
verdadeira juventude, ao periodo em que a
imaginação ganha azas, em que o
coração se completa.
Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não
havia razão possivel para permanecer no Mosteiro; portanto
tornou-se inevitavel a mudança para Alvapenha.
Já se não fez sem lagrimas a despedida.
Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria
Magdalena se sentiu commovida; só Christina não
se achava na sala em que se passou a scena.
Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.
Seria casual esta circumstancia?
Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe
o coração que a encontraria alli.
—Volto á minha solidão, Christina—disse-lhe,
commovido.—Não lh'o tinha eu dicto?
A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez
só lhe resultaram lagrimas.
—Não diga mais nada—disse Henrique, levando aos labios a
mão que ella não retirou.—Essas
lagrimas bastam-me.
Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas
produziram.
E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.
Christina ficou a chorar na varanda.
A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo:
—Pago-te hoje o abraço que me déste no outro
dia; mas eu escuso de te perguntar... «Pois tu
amaval-o?»
—Ai, Lena!...—exclamou Christina, cada vez chorando mais.
—Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e
imaginaram uma separação de
duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e
chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!—dizia Magdalena, para
consolal-a.
Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia.
Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual
taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar
á ama a ideia de que a doença tinha transtornado
o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa levou
muito a mal.
Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a
indignação que lhe causou a carta de um
amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus
habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam
enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do
coração, contra aquelle tom frio e sarcastico da
epistola, e nem lhe respondeu.
Depois teve Henrique uma visão.
Não se assustem os leitores que antipathisam com o
maravilhoso. Nada ha aqui que se pareça com as
visões épicas; foi uma visão
como muitas, que nós todos, uma ou outra vez na vida,
experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em
quando a imaginação, esta fertil e poderosissima
creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem não
terá de facto
succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma perspectiva,
desvanecerem-se os effeitos da visão exterior, enfraquecerem
as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem
fórma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima,
espontanea e mysteriosa visão?
Estava Henrique á janella do quarto que habitava em
Alvapenha. Sabemos já que se gosava d'alli um panorama
extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com
prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as
suas noras e mêdas, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma
verdadeira quinta rural, resentindo-se, porém, um pouco de
ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade
para tratar da lavoura.
Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta
como ella era.
Principiava a visão interior.
As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos
campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se
de cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o
chão das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se
ás prêsas os diques, e uma verdadeira rede liquida
envolvia em suas malhas a vegetação dos campos;
alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos
as cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos
episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente
allucinados, do sobrinho de D. Dorothéa. Era
uma perfeita georgica! E elle a dirigir
todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro
patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte,
á sombra de uma arvore, á borda do tanque,
debruçada no muro, por entre os silvados das
sébes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura
de Christina!
Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem
elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as
qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de
ter uma visão como esta!
No quasi extase, em que a imaginação o
lançára permanecia ainda, quando soube que o
procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.
Apressou-se logo a receber a visita.
Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e
das meninas.
O pobre homem era um dos que ficára com
affeição a Henrique depois que estivera no
Mosteiro.
Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos
encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso
era o bastante para o velho lhe querer bem.
—Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo
incómmodo que estão tendo
commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes
passeios.
—Ai, não tem dúvida! Isto faz bem...
É exercicio a final... Pois é verdade. Eu d'antes
corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu já
tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu
era já homem feito... Inda me lembra...
Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem
transição sensivel:
—Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo
dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... Até a
Christininha!
—Sim? Tambem essa?
—Ora se tambem!... Pois a sr.
a D. Victoria?
—Mas... mas... Christina... a sr.
a D.
Christina, então...
—Isso é um coração de pomba. Inda ha
pouco, ao sair, já vinha no pateo, e ella veio ter commigo a
correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de
reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais
triste.»
—Ella disse-lhe isso?
—É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o
encontrei alegre como...
—Não, não; não lhe diga isso,
homem—atalhou Henrique.
—Então por quê?!
—Porque... porque... porque não é verdade...
Então eu estou assim tão alegre como isso?
—Não digo que esteja, mas para a socegar...
—Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse
ella mais nada?
—A sr.
a D. Victoria...
—Falo de Christina.
—Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo.
—Diga, diga.
—Não é nada; é uma promessa que...
—Uma promessa? Que promessa?
—Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve
muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a
Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as
estações da
meia noite...
—As estações da meia noite?
—Sim; as estações rezadas á meia
noite á Senhora que está na capella da casa dos
Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca
recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae...
E vinha um caso comprovativo da tradição popular.
—Sim, lembra-me que já me falaram n'isso—disse Henrique,
pensativo.
—É verdade. O peor é que é este seu
criado quem tem de a acompanhar até á quinta,
depois d'ámanhã á meia noite...
—Então depois de ámanhã á
meia noite?
—Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da
pequena.
—Esteja descançado.
E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que
Henrique não ligou
attenção, aquelle retirou-se.
Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda
abstracção. Elaborava-se-lhe na ideia um
projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de
fervorosa devoção de Christina, que
supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura
crença, com a effusão do mais generoso affecto.
N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que
conduziam á quinta, que elle ainda não
visitára, e sobre como penetrar
até á capella da casa, onde devia ser cumprida a
promessa.
D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os
esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das
intenções com que elle lh'os pedia.
XXVIII
A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha
morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada
n'um dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia.
O tempo, cuja acção não contrastada se
exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que
desde a origem apresentava esta casa,
ennegrecendo-lhe as paredes,
revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as
junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos
dos muros. Emfim a superstição popular
terminára a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por
aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta,
entregue á natureza.
A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia
senão depois de ter gosado na capital de todos os
esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e
elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde
passára o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que
em grande parte concorrera para generalisar a opinião de que
a sua alma andava ainda penando por cá.
Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em
relação aos annos da mocidade da morgada. A
imaginação popular fazia a biographia d'aquella
senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma
phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.
A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos
começaram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam
nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um
extremo a outro extremo, e da vida elegante ás
práticas de devoção.
Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as
semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente
os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade
natural. Trajava sempre com distincção e esmero,
e ao corrente das modas.
Tudo isto e as proprias devoções da morgada,
acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado
d'ella, as quaes procurava remir á
fôrça de missas. Dizia-se que a
morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua
alma voltava á terra penando.
Já se vê que o logar era para apavorar as
imaginações timidas, e de noite pouca gente da
aldeia gostava de passar por lá.
Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao
Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora
devida, e fazendo obra pelas informações da
morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher
posição d'onde
pudesse, sem ser visto, observar Christina, não tendo ainda
resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua
piedosa tarefa.
A noite fizera-se escura e ameaçava chuva.
Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um
pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo,
atravessou a aldeia, examinando com attenção
todos os objectos que lhe
deviam servir de indicadores da estrada.
Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que
por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.
Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a
um lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja
porta Henrique achou ainda fechada.
O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver
acertado.
Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a
escuridão a fazer receiar grandes aguaceiros.
Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se.
N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto
seu, achou-o aberto.
Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na
casa?... Estaria habitada a quinta?
Estas tres explicações do inesperado facto
debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar.
Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de
vida.
A chuva caía com mais fôrça. Para se
abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no tôpo dos
quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado.