Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim
de um corredor pareceu-lhe divisar luz.
Henrique parou indeciso.
—Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos
Cannaviaes. Sempre perguntarei.
E bateu as palmas.
Ninguem lhe respondeu.
Bateu outra vez; o mesmo resultado.
Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.
O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em
direcção á luz; chegou a uma sala
mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um
candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo
fóco brilhavam ainda uns carvões
candentes.
—Parece uma historia de fadas!—pensava Henrique.—Dar-se-ha que a
alma da morgada goste ainda das commodidades?
Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado
opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do
campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique
voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella
primeiro lhe disse:
—Procurava alguem, o senhor?
—Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito
tempo á porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a
entrar. Desejava saber onde é aqui a casa dos Cannaviaes.
—A casa dos Cannaviaes é esta mesma.
—Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não
morava aqui ninguem.
—E não o enganaram. Hoje por acaso é que
está cá a sr.
a morgada.
—A sr.
a morgada?—perguntou Henrique, sem bem
saber o que devia
pensar da resposta e de tudo que via.
—Sim, senhor; a sr.
a morgada, e não
tarda aqui. Ella
esperava-o.
—Ah! A sr.
a morgada esperava-me?
—É verdade—disse a mulher, sorrindo.—Adivinhou que o
senhor vinha aqui. E o que é que ella não
adivinha?
Henrique dava tratos á imaginação para
comprehender esta scena.
—Então é a sr.
a morgada
em pessoa que...
—Que o convida para tomar uma chavena de chá—disse uma voz
por traz d'elle.
Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.
Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos
labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de
maneiras, que de tantos encantos a revestia.
Henrique exclamou, admirado:
—A prima Magdalena!
—A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as
honras da minha propriedade, que pelos modos está para ser
muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu
muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do
rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida
é quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as
janellas d'esta casa, para que os ratos não a destruam de
todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.
—Mas como soube que eu?...
—Isso é um segredo. Não o esperava,
porém, tão cêdo, nem imaginei que nos
viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando
o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas
fez bem em recolher-se... Ouve?
E com o gesto indicava a chuva, que já batia com
fôrça nas vidraças.
—O peor é se isto não espalha e a Christina muda
de tenção.
—O vento é do mar, menina; isto são
aguaceiros—notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio.
—Pois sabe que Christina vem?
—Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito
frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento,
muito pouco hospitaleiro.—Brizida, olhe que se não percebam
lá fóra as luzes, que podem amedrontar Christina.
E feche a porta da sala. Abra o côro da capella e prepare
chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a
cozinha está pouco habitavel.
Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta,
chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de
Henrique de Souzellas.
—Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais
nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?
—Pois não diz que sabe tudo?
—Até certo ponto, entendamo-nos. Não
vão tão longe as minhas faculdades que cheguem a
devassar intenções, que por ventura á
propria
consciencia de quem as fórma, repugne acceitar.
—Não é esse o meu caso; as minhas
intenções são reconhecidas e
approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo
commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a
que ainda não assistira, prima. Admira-se da minha
curiosidade?
—Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está
que a sua convalescença esteja bastante segura
já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas
doenças.
—De duas?
—Sim; e a mais rebelde não foi a de que o
cirurgião o tratou.
—Então?
—A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar,
era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma
doença moral; revelava-se por uma maneira de vêr
as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia.
—Estou curado d'isso.
—Estará? eu sei!... É certo que já
é bom signal admittir que era doença.
—Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que
me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos
negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.
—Ah! e experimentou a receita?
—Experimentei e curei-me.
—Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o
falso vigor da convalescença? Convem não abusar;
ouço dizer aos medicos que são perigosas as
recaidas.
—Pois teme que eu recaia?
—Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas
mortas... comquanto motivada por louvaveis
intenções... tem ainda assim uma certa
feição romantica... que era bom vigiar... Sempre
vim para acudir a algum accidente.
—É um perfeito medico da época; não
tem fé na efficacia dos remedios que prescreve.
—Tenho; mas não desacompanho a acção
d'elles, isso não. Agora fale-me com franqueza: ao
recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa não se
lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?
—Confesso que algumas...
—E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do
coração que o minava,
tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os
pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não
vêr.
—Desde o primeiro dia? Pois Christina...
—Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.
—Querido anjo!
—Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é
ingenua, timida, supersticiosa até,
se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para
acalmar as paixões demasiado violentas de um caracter como o
seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais coragem
e mais fé no futuro.
Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para
Magdalena:
—Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem
as necessidades do coração dos outros,
não pensou ainda nas do seu?
—E quem lhe disse que as tinha?
—Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e
não se julgue tão impenetravel, que
não offereça leitura aos olhos que a
observam.
—Ah! Então leu?
—Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que
eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece;
pagina, porém, tão recatada, que julgo que ainda
a não leu bem o
principal interessado n'ella. Cego, como eu fui.
—Não leria?—perguntou Magdalena,
sorrindo.—Está certo d'isso?
—E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por
inspiração a adivinhasse. Ha casos d'esses.
Magdalena tornou, mudando de tom:
—É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me
resolver a isso, verá que sou um doente modelo.
Não hesitarei ante a violencia do remedio.
—E por que demora o tratamento?
—Pois parece-lhe que será urgente o caso?
—Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua
parte do que....
—Silencio!—disse a morgadinha, escutando.—Pareceu-me ouvir...
N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata,
voltou, dizendo em voz baixa:
—Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
—Então depressa—disse Magdalena.—Abra-nos o
côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz
lembrança em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo.
Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça
barulho.
Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um
corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada
costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento
inferior.
Quando alli chegaram, com as precisas precauções
para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia
já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no
pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do
côro.
Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu
serem Christina e Torquato.
Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato
subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas
vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de
madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se
no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras
dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
Christina fez signal então a Torquato, para que se
retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou
para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e
fechar-se com estrondo.
Tudo ficou depois em silencio.
Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a
de que a tradição popular contava
milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a
devoção promettida.
Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella
angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o
salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um
amor puro e candido, em que elle já nem acreditava. E
cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim!
Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
A oração de Christina prolongou-se por alguns
minutos.
Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
—Deus te recompense, anjo, a consolação que me
dás.
—Não peça a Deus o que está na sua
mão—respondeu-lhe em voz baixa Magdalena.
—Que diz?
—Está ou não sinceramente apaixonado?
—Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
—Crê na pureza d'aquelle coração?
—Como na dos anjos.
—Está convencido de que o pode salvar, ella?
—Não ha crédo que professe com mais
fé.
—Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e
jurar-lh'o?
—E consente?
A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas
escadas que pela espessura da parede iam do côro para a
capella-mór.
—Aqui tem o caminho—disse ella.—Siga-me. E, servindo-se da lanterna
de furta-fogo, foi descendo com precaução.
Henrique seguiu-a.
No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais
alguns passos, parou junto de um reposteiro.
—Agora faça o que lhe dictar o
coração—disse ella para Henrique.
Este correu o reposteiro com precaução, e
achou-se na capella.
Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique
entrára ficava por detraz d'ella, não o
viu chegar.
Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a
oração.
Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e
soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella
não lhe deixou perceber logo quem fôsse, o que
mais lhe augmentou o terror.
Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
—Não tenha receio, Christina. Sou eu.
Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a
presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de
imaginar
explicações. Henrique accrescentou:
—Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto
fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado,
Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os
castos e abençoados prazeres da familia; depois de me
dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas
orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com
todo o affecto, com toda a paixão que pode haver na minha
alma.
E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de
enleiada, nem ousára retirar das suas.
—Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez
antever as delicias do viver da familia, não me condemne
para sempre ao supplicio de não as vêr realisadas.
Lembre-se de que não conheci mãe, de que
não tenho irmãs, de que tenho vivido
só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e
gelada, que me será agora uma tortura.
Compadeça-se de mim. Quer vir occupar no meu
coração o logar vago que ha n'elle para as
affeições de
mãe, de irmã, e de...
—Henrique!...—murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada
creança.
—É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor,
é pousando a mão sobre os Evangelhos
d'esse altar, que eu lhe prometto
mais do que uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a
constante adoração, rodeada de respeito, do homem
que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina,
acceite o offerecimento do meu coração.
Christina tremia sem poder responder.
Magdalena entrou por sua vez na capella.
—Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo
Henrique—disse ella.
Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e
inesperadas apparições, correu para
a prima.
—Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
—Então não me competia receber em minha casa as
visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu
dê por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba
de te pedir, muito terminantemente, a tua mão.
Christina não respondeu, senão cingindo-a mais
intimamente ao seio.
—Não responderam os labios, primo,—continuou a
morgadinha—mas falou o coração ao meu na
linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
—E disse?...
—Que havia de dizer? Que sim.
E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a
a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve
correspondencia.
O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e
achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma
só, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado.
Suppôz que almas penadas andavam na capella.
O bom do homem não ousava approximar-se.
Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
—Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha
madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos,
como se receiasse estar dormindo, e não passava de olhar
para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na
explicação do que
via.
Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique
fôra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes
serviu o chá.
A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como
já percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e
Henrique, soltou algumas insinuações, que a
obrigaram a córar,
e a rir Magdalena.
Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita
intimidade.
—Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso
serão!—disse Henrique.—Decididamente é de
maravilhas esta casa; o povo tem razão. A morgada defuncta
foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
—É verdade, como foi que vieram aqui?—perguntou Christina,
já mais desenleiada.—Já sei, foi este Torquato
que me não guardou segredo. O que merecia!...
—Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
—N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a
indiscreção—disse Magdalena.
—Que é?—tornou a prima.
—É a discreção.
—Então por quê?
—Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem
mais do que a verdade.
—Eu...—ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o
interrompeu.
—Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
—N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
—Que hei de eu dizer?
—Explica a tua presença aqui. Então
não ouviste o primo Henrique?
—Ora, já o sabem.
—Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da
tua bôca.
—Não, não, a minha vinda, essa não
tem que explicar.
—Que diz, primo Henrique?
—Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido
já.
—Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida
por um sentimento de piedade e de...
—Lena!
—Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a
narração dos sustos que ella sentiu por o caminho
desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era
decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e
malfeitores.
Christina poz-se a rir.
—Mas vamos ás explicações da
presença dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato
avisou o primo Henrique...
—Eu?!
Christina olhou para o velho com um meigo gesto de
reprehensão.
—Se eu o soubesse!...
—Eu... eu não disse... eu... só disse...
Henrique tomou a palavra.
—Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que
não haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar?
Torquato atraiçoou-se involuntaria, inconscientemente. Mas
quanto á prima...
—Eu? Soube-o tambem do Torquato.
—Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
—Isso é que não. Eu não disse
á sr.
a D. Magdalena... Ella
é que...
—Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do
Torquato é que revelou o segredo.
—Como?
—O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
—Eu a esse não disse.
—Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o
mal.
—Ora, ora...
—O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á
porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como
ainda lhe não tinha merecido nunca. Estava o homem
convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se
verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E
tão irritado estava, que me não quiz ouvir,
quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma.
Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe
quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo.
—Eu não disse...
—E depois a prima...
—Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha
gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o
que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava
pêrro, mas a final falou.
—Mas sabia tambem que eu vinha?—perguntou Henrique.
—Pois não se lembra de que pela manhã me tinha
cançado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos
Cannaviaes? Eu já extranhava a insistencia; depois do que
soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe
falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua
hesitação e ambiguidade,
habilitou-me a concluir que teria o
gôsto de receber o primo em minha casa.
—E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
—Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite.
Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para
pôr a casa em arranjo.
—São mesmo coisas tuas—disse Christina, rindo.
—Mas eu não disse nada—insistiu Torquato.
—Porém, por que motivo se irritou tanto o
herbanario?—perguntou Henrique.—Que imaginava elle a final?
-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as
suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de
arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se
de que havia aqui um romance em que entrava eu... A
discreção do Torquato é das que
respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura
fôram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que
entrava tambem o primo Henrique...
—Ah! percebo agora—disse Henrique, rindo.—O velho é
ciumento por procuração.
Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
Christina, que já estava habilitada para entender a
allusão de Henrique, sorriu com elles.
O Torquato foi o unico que nada percebeu.
Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de
voltarem a casa.
—Choverá?—perguntou Brizida.
—Julgo que não—respondeu Magdalena, e como para
assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o
firmamento.
Henrique acompanhou-a.
—A noite está serena—disse ella.—São horas de
voltarmos.
—Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas
horas—disse Henrique, —Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda
parte da familia a estas
horas—disse Henrique, debruçando-se á janella, e
continuou:—Mas que
agradavel
noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
—Vamos, vamos,—respondeu Magdalena—o dia
d'ámanhã deve ser feliz ainda, porque...
N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe
attrahisse a attenção, calou-se,
mal podendo reter um leve grito.
—Que foi?—perguntou Henrique, que o percebeu.
—Nada—respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da
janella.
—Viu a alma da morgada?—perguntou jovialmente Henrique, vendo-a
preoccupada.
—Não—respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio
séria.—Pode porém haver
apparições peores.
—Que é, Lena? Que viste tu?—perguntou Christina,
assustada.
—Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli
animavam aquella habitação
solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua
quasi desolação.
XXIX
No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia
da chegada do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda
que a este ultimo causára a morte de Ermelinda, tinha
resolvido o pae a trazel-o comsigo para a aldeia a distrahir e
robustecer com ares livres do campo. D. Dorothéa
apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; Henrique
acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu
coração, e encarregou-a
de communicar isto mesmo a D.
Victoria e de fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da
mão de Christina.
D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se
não desacostumára de considerar Christina como
uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava ainda vestidos
curtos!
Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural,
vantajosa e agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que
fizera.
Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não
se fartou de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta
vez as habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram
enfastial-o. Estava devéras apaixonado!
Chegaram ao Mosteiro.
O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e
apparente tranquillidade de espirito; mas um exame attento conseguiria
descobrir-lhe no sorriso o que quer que era forçado a
revelar certa
preoccupação interior.
É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o
animo do publico da terra, ou dos influentes que o representavam, e
reconhecera que estava muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.
Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a
dois dias realisavam-se as eleições. Tudo
estava por fazer, emquanto que os seus adversarios havia muito que
tinham tudo feito. Algumas das personagens politicas, com que contava,
falharam-lhe, e até nem o visitaram. As auctoridades locaes
eram-lhe manifestamente hostis, desde o administrador até o
cabo de policia.
Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o
conselheiro para conversar em assumptos alheios á
questão que o interessava, para sorrir e prestar
attenção ao que se dizia.
De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
escrevia um bilhete, retirava-se
por momentos para receber algum agente eleitoral que o
procurava, despachava um emissario; finalmente não podia
socegar.
Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista
dos recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e
Magdalena faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos,
que entrou D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D.
Dorothéa, e em nome de Henrique, o pedido da mão
de Christina. D. Victoria trazia bem visivel na physionomia todo o
jubilo que a nova lhe causára. Era muito amiga de Magdalena,
mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais que tudo a
lisonjeára, fôra a preferencia
dada por Henrique a sua filha sobre a morgadinha.
—Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique—dizia ella.—Estou mesmo
muito arrenegada comsigo.
—Por quê, minha senhora?—perguntou Henrique, sorrindo.
—Pois então isso é coisa que se faça?
Já precisa de embaixadores para se dirigir a mim?
—Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa
liberdade a v. ex.
a para fazer todas as
reflexões que a
proposta lhe suggerisse e discutil-a á vontade, e, por
delicadeza, podia v. ex.
a ás vezes,
sendo eu mesmo quem a
fizesse, cohibir-se...
—Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade
um rapaz de tão má nota! Ora sempre tem coisas!
—Visto isso, posso esperar?
—Da minha parte uma guerra de morte—disse D. Victoria, não
resistindo a dar um abraço a
Henrique, já com familiaridade de mãe;
abraço
que Henrique retribuiu com affecto.
O conselheiro não dava attenção
á scena.
—Então, mano!—bradou-lhe
D. Victoria.—Deixe lá essas politicas
que temos negocios sérios em casa.
—Sim?—disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
ar de interesse, que realmente estava muito longe de
sentir.—Então de que se trata?
—De um negocio importante, em que é preciso que seja
ouvido.
—Ah! Então é um caso de consciencia?
—E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique
de Souzellas acaba de me fazer um pedido... Isto é, a prima
Dorothéa foi que m'o fez.
—Mas por ordem d'elle—acudiu esta.
—Pois sim, o que era escusado.
—Mas então que pede de nós este caro sr.
Henrique?
—Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.
O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por
mais de uma vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe
tinha passado pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique
tinha um bom nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro
na sociedade, e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.
Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
tiral-o quanto antes da illusão e disse:
—Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de
fazer-me falta a amizade de Christina.
—Ah!—disse o conselheiro, com um sorriso um tanto
contrafeito.—Então quer-nos roubar a nossa Christina, sr.
Henrique?
—É apenas uma restituição que
peço, sr. conselheiro, porque não me posso
resignar a viver sem coração.
—Faz madrigal? Está então apaixonado
devéras, já vejo—disse o conselheiro.—Pela
minha parte folgo de o vêr assim associado á minha
familia,
por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga,
que fez o milagre de converter este celibatario emerito,
que eu conheci em Lisboa a rir-se
do casamento?
—Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima
Magdalena, que é tão rigorosa nos
castigos!
—Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas.
—Mas o mano tem razão—disse D. Victoria.—Onde
está a Christe? Admira-me não a vêr
aqui!
—Admirar, não me admiro eu—tornou o
conselheiro.—É provavel que soubesse do que se
tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi decerto discutido
por as partes interessadas, antes de subir ao nosso tribunal.
Henrique e Magdalena sorriram.
—Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no
fogo ao ateares d'estes fachos.
—Eu vou buscar a Christe—disse a morgadinha, rindo das palavras do
pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a
direcção
que elle lhe deu.
O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa
tentava distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de
creanças, que
elle mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento
accommodado á intelligencia d'elle.
Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no
chão.
—Aqui está a accusada—disse a morgadinha ao entrar.
O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse
jovialmente
para a sobrinha:
—Ora venha cá, venha cá, que temos muito que
falar.
E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a
fital-o, continuou:
—Então assim se trama uma conspiração
ás caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal
ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e
já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora,
é energia. Nunca o esperei. Ora dê cá
um beijo, emquanto não tenho quem me
peça explicações por os que lhe
roubar.
E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
tingidas pelo pejo e pela alegria.
Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:
—São os penultimos.
—Os penultimos?—disse D. Victoria, rindo.—Ora essa! Então
para quando ficam os ultimos?
—Para quando a vir com a grinalda de noiva.
—O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa
Christe que désse o exemplo á prima.
Não tens vergonha, Lena—disse D. Dorothéa para a
morgadinha, em quem esta reflexão fez nascer um gesto de
contrariedade, que trouxe aos labios d'Angelo o primeiro sorriso
d'aquella manhã.
O conselheiro e Henrique sorriram tambem.
—Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia—disse
Henrique com
intenção.
—Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem
sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha
coisas no mundo que se devem decidir pelo coração
sómente.
—E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus
proprios actos.
—O
sómente é
que veio de mais, filha—disse o conselheiro.—Attende-se ao
coração, embora. Mas só ao
coração? Isso era bom se
vivessemos em um mundo de corações.
A chegada de novas personagens desviou a direcção
da conversa e modificou a scena.
Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
Henrique ficou, a pedido do
conselheiro. O mestre Bento Pertunhas entrava no numero dos
recemchegados. O papel que alli desempenhava o latinista era de
suspeitosa natureza.
Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
n'estas épocas não comia, não dormia,
não respirava, por assim dizer,
senão eleições, e desenvolvia uma
miraculosa
actividade, correndo a todos os pontos perigosos, conquistando votos,
um a um, e lidando por desenredar as meadas politicas dos adversarios e
enredar as suas.
—Então que novas temos da campanha, meus
senhores?—perguntou o conselheiro, puxando cadeiras para os seus
constituintes, e affectando um tom de confiança que
não sentia.
—Más, sr. conselheiro,—respondeu o Tapadas—muito
más. Vejo isto muito feio.
—Ora a coisa ainda não ha de ser tão
má como diz.
—Nada, nada; não me agrada. V. ex.
a
descuidou-se. Tenha
paciencia, mas eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas
são. É preciso não
as desacompanhar. V. ex.
a devia vir ha mais
tempo.
O Pertunhas acudiu:
—Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos
decididos, e os serviços que fez á
terra...
—Ora com o que vmc.
ê vem!—replicou o
Tapadas, com modo
azedo.—Então não sabe como é
esta gente? Então não os ouve ahi berrar
já contra as estradas, quando até agora berravam
por não as
terem?
—Meia duzia de garotos—tornou o Pertunhas.
—Não, senhor, não é assim;
não estejamos a enganar-nos. Os que não dizem mal
das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as devem, e
estamos na mesma. A coisa vae mal.
—Então decididamente o Seabra?...—perguntou o conselheiro.
—Esse é o chefe de todos elles—disse um
merceeiro.—Á porta da minha loja o ouvi eu estar a
dizer ao cunhado do
administrador que o traçado da estrada era o peor que podia
ser, que se gastava alli um dinheiro louco, sem utilidade para o povo.
O conselheiro olhou para Henrique, dizendo:
—Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar?
Admire agora o velhaco.
Henrique sorriu, encolhendo os hombros.
—Arremedos do que se faz em terras maiores—disse
elle.—Não extranho.
—E tem razão—respondeu o conselheiro.
—Mas, a final—continuou o conselheiro—o homem não tinha
na freguezia grande influencia. Como é que...?
—Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com
elle e de mal com v. ex.
a.
—Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra
mim? Deixámo-nos em janeiro nas melhores
disposições um para com outro...
—Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
ministro...—disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera
grande importancia ao objecto a que se referia.
O conselheiro mudou logo de assumpto.
—E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
commetti, para me terem esse odio?
—Dizem que v. ex.
a é
mação—respondeu um lavrador.
—O diacho da questão do cemiterio...—acudiu o Tapadas.
—Isso acalmou já.
—Não acalmou, não senhor. O povo não
está contente. É certo que lhe passou a furia do
principio, depois d'aquella historia com o Cancella, mas...
—Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
filha!
—É melhor não falar n'isso—aconselhou
prudentemente o Tapadas.—O que lá vae, lá vae.
Os homens estão meio arrependidos, e até o
missionario perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi
berrado que foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette
pena. Até me dizem que por causa d'isso o padre
já se retirou da aldeia. O que era bom era vêr
até se se falava
ao Herodes; porque talvez elle possa agora ainda arranjar
alguns votos—accrescentou o Tapadas, disposto a servir-se da
dôr de um pae como arma eleitoral.
E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
politicos. Discutiram-se os diversos processos de
angariar as potencias eleitoraes do circulo. Estudaram-se as
ambições de cada uma; ponderaram-se as exigencias
feitas por uns, os desejos adivinhados em outros, para este o emprego
de um afilhado, áquelle o bom exito de uma demanda, a outro
o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma hypotheca, e a alguns
até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta empresa de
subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o conciliabulo,
sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o que estava
fazendo alli.
Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos
principaes.
—Então sempre é certo que me roeu a corda esse
basbaque?—perguntou, ao falar-se n'elle, o conselheiro.
—É dos mais assanhados—responderam-lhe.
—Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem
tantas vezes tenho tirado de apuros!
—Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
cemiterios...—disse o Pertunhas.
—Deixe lá, alli andou tambem um presente que
lhe fez o brazileiro. O morgado
está muitas vezes com a corda na garganta—explicou
malignamente o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das
demandas e da politica, não achava
explicações tão plausiveis como a
corrupção.
—E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario—insistiu o
tendeiro.
—Ora adeus!—disse o Tapadas.—Bem me fio eu
n'essas compaixões. Quem não os
conhecer...
—E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?—insistiu o
conselheiro, de mau humor.
—Então? Deu-lhe para alli.
—Qual historia! Para mim é que vem com isso?!—teimava o
sceptico Tapadas.
—Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
taberna com este senhor—disse o Pertunhas, designando Henrique.
—Sinto, sr. conselheiro—disse este—se de alguma maneira concorri...
—De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram.
Á ultima hora é capaz de mudar de
tenção. E por causa d'elle é que
ficou despachado professor um pateta em vez de Augusto.
Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
despeito:
—Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito
do caracter de certos homens. Ha vinganças tão
torpes e mesquinhas, que nenhum aggravo as justifica.
Henrique procurou defender Augusto; achou porém o
conselheiro obstinado na sua crença.
Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor
da intriga.
—Embora o fôsse—respondeu o conselheiro—mas que tem isso?
O Seabra não veio a minha casa, não suspeitava da
existencia de tal carta. Alguem houve que a leu primeiro e que lh'a foi
entregar depois, e já é ser muito indulgente
suppôr que
fôram só cegueiras de vingança e
não a sordidez da cubiça quem o moveu a essa
infamia.
Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
pela innocencia d'elle.
O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma
altercação travada entre Pertunhas e o Tapadas.
Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente:
—Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor
parolar menos e fazer coisa que se veja; ou deixa só as
obras para o seu amigo Seabra?
D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a
altercação virulenta, que o conselheiro teve de
apaziguar.
A conferencia durou até ás horas do jantar.
XXX
Chegára o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a
batalha eleitoral.
A azáfama politica activára-se n'estes ultimos
dias consideravelmente. De parte a parte tinham-se posto em campo todos
os influentes e em exercicio todas as armas. Promessas,
alliciações,
pressão de auctoridades, exigencias a dependentes, subornos,
ameaças mais ou menos declaradas; de tudo se
lançava mão.
Ás vezes até o calor das discussões
degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que
figuram no catalogo das razões mais convincentes, haviam
já sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se
depois, de um lado contr
Ás vezes até o calor das discussões
degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que
figuram no catalogo das razões mais convincentes, haviam
já sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se
depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do governo, do
outro,
contra os manejos
sediciosos e anarchicos da opposição.
Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os
padres que arvorando a cruz e o estandarte, prégavam a
cruzada contra o conselheiro e instavam com o povo para que
não elegesse para representante um atheu e um
pedreiro-livre; em outras eram os agentes do brazileiro e os da
auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos populares, resgatando
penhores, levantando hypothecas, remindo dividas, empregando afilhados,
e conquistando assim para o seu partido.
O conselheiro e os seus parciaes não desprezavam tambem
nenhum d'estes mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater
as do brazileiro Seabra.
Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha.
Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores
dos dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas,
assignando-se: o
Amigo da
verdade; o
Epaminondas; o
Vígilante; a
Sentinella; o
Alerta, etc., e pondo ao soalheiro as
máculas da vida privada uns dos outros, e todas as
bisbilhotices da terra, correspondencias que, felizmente para
crédito da humanidade, por ninguem mais, além dos
interessados e dos que já os conheciam, eram lidas.
O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta
secção periodistica. Os
seus communicados eram estirados, compactos, obscuros e enrevezados
tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se em minuciosos
incidentes; em labyrinthos de orações
secundarias, d'onde a
grammatica da principal saía frequentemente maltratada,
deixando ficar por lá o sujeito, o verbo ou qualquer
complemento necessario. Mas o brazileiro imaginava que o paiz inteiro
aguardava com ancia os seus escriptos. Era frequente abrir uma resposta
a alguma zargunchada de um seu adversario, por estas
palavras: «Os leitores
hão de ter notado o
meu silencio, depois das calumniosas
asserções...» Os leitores
não tinham notado nada.
Finalmente a aldeia achava-se em plena
fermentação politica.
Eu tenho a fraqueza de a não amar debaixo d'aquelle aspecto.
A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado
é o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e
conhecidos são os que vivem d'ella, tanto mais acanhada,
mexeriqueira e antipathica se torna. Se a politica do nosso paiz
é já pequena, como elle, e degenera em
desavença de senhoras vizinhas, que fará das
terras pequenas d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos
partidos estão os mexericos e as vaidadesinhas que brotam
como tortulhos á sombra das arvores do campanario?!
Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos!
Henrique de Souzellas não ficára indifferente ao
movimento politico da aldeia. Pegára-se-lhe a febre
eleitoral. Impedido de votar, auxiliava, porém, os parciaes
do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um dia lembrou um
meeting.
O
conselheiro poz-se a rir.
—Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que está
tratando? Um
meeting, para quê? Não se
esqueça de ir domingo á igreja
e lá se desenganará por os seus olhos. O
espectaculo não é muito para alegrar, porque
mostra como em geral o nosso paiz está ainda pouco educado
no regimen constitucional. Mas em todo o caso é instructivo.
Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel
Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em
relação ao tempo em que
principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com
que já se podia contar.
A eleição, porém, estava muito
arriscada ainda.
O sr.
Joãozinho das Perdizes devia decidir a contenda. Para onde
se inclinasse o morgado, com todo o peso dos seus comparochianos,
desceria o prato da balança.
Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o
menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e
aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte
nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, não se
descuidava de o manter nas disposições hostis
contra o conselheiro. A
todo o momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a
necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma
lição ao conselheiro, com quem Henrique estava
ligado. Depois disse-lhe que o conselheiro se gabava de ter dinheiro
para comprar o morgado e toda a freguezia.
O morgado, sob estas e analogas instigações,
praguejava e jurava despejar na urna ministerial o suffragio da sua
freguezia.
Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do
governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido
para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que
era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser
representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o
custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa
feição.
Logo pela manhã do domingo, marcado para a grande
solemnidade civil, o adro da igreja parochial apresentava uma
animação fóra do
costume. Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se
com desconfiança, ou correspondendo-se por signaes de
intelligencia, conforme pertenciam á mesma ou a opposta
parcialidade. Os agentes eleitoraes, os influentes dos dois campos
acercavam-se d'este, apertavam a mão áquelle,
segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam
com um terceiro, e, sempre que era
possivel, distribuiam listas ao maior numero.
O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava
a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as
mãos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por
entre os grupos, recommendava ordem e respeito ás
auctoridades, e dava de olho aos cabos, seus subordinados, para que se
não esquecessem de cumprir as
instrucções recebidas, votando no candidato
ministerial.
Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a
constituição da mesa. O parocho, o administrador
e o regedor foram occupar o seu logar. Ficou presidente o brazileiro, e
o resto da mesa formou-se d'entre as duas parcialidades.
Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as
probabilidades da victoria.
N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios
do brazileiro, dizia-se:
—Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; verão!
—Só a freguezia de Pinchões enche-nos ahi a
urna.
—E estará bem seguro o morgado?
—O sr. Joãozinho!? Ora! Está de ferro e fogo
contra o conselheiro.
—Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram
na taberna, e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!...
—Não é só por isso. Elle
já estava do nosso lado, desde que soube tinham deitado
abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava succumbido de
todo.
—É verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro
d'esta vez.
—Quem? O Vicente? Esse sim. Então não sabes que
o pobre velho já se não levanta da cama?
—Ai, não?
—Andava já muito fraco e doente; mas ha tres dias,
sobretudo, tem ido de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi
dizer, aquillo está por pouco tempo: nem deita a semana
fóra.
—Coitado!
—Ahi vem quem ainda hoje o viu. Não é verdade,
sr. Pertunhas?
—O quê, meus amigos, o quê? o que é que
é verdade? o que é que dizem?—perguntou o mestre
de latim, esfregando sempre as mãos.
—Não é verdade que o Vicente herbanario
está a ajustar contas?
—Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o
coração! Sempre eu digo que uma crueldade assim,
como a do conselheiro!
—Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, só
por causa do mal que fez áquelle santo velho.
—E com razão.
—E então para quê? senhores, para
quê?—continuava Pertunhas.—Para fazer uma estrada em que se
gastam rios de dinheiro, e que a final não presta! Pois eu
passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer, por a casa do
Augusto, que é onde vive agora o Vicente. O rapaz estava
á porta. Então, sr. Augusto, disse-lhe eu,
á urna! vamos
á urna! Elle encolheu os hombros como quem diz:
«bem me importa a mim com isso.»
—Ahi está outro, que tambem não
é pelo conselheiro.
—Por que não? Pois não é elle todo do
Mosteiro?
—Foi, foi—replicou o Pertunhas.—Então vmc.
ê
não sabe que o conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de
lhe arranjar a demissão, inda por cima o poz fóra
de casa, porque pelos modos o rapaz... fez publicar umas certas
cartas... que compromettiam o homem? A falar verdade, tambem
não foi bonito.
—Fez elle muito bem.
—Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o
povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar
a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o
Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi
então que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem
vossês, outro tanto de magro e outro tanto de velho... Mettia
dó! Poz-se a perguntar-me muitas coisas, o que havia, o que
não havia, por quem estava este, por quem estava aquelle...
Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que fizesse,
já não podia
vencer; que não arranjaria os votos precisos para cobrir a
freguezia de Pinchões. O velho ficou admirado quando eu lhe
disse que o sr. Joãozinho era dos nossos. E lá o
deixei a remoer a noticia. Ao menos resta-me a
consolação de lhe ter
adoçado com ella os ultimos momentos.
N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter
com um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer
não sei que eleitor recalcitrante.
—Ahi anda este—disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.—Era
bem feito que lhe dessem outra lição, como a da
taberna do Canada.
—Ordem, ordem e prudencia!—disse o Pertunhas.—É preciso
manter a liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes!
—Mas que tem este senhor com as nossas eleições?
—Quem o manda metter-se cá n'estas coisas?
—Ora é boa! Então não sabem que elle
casa no Mosteiro?—disse o Pertunhas, que andava sempre informado das
vidas alheias.
—Sim?!
—É verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o
Augusto, veio a nós o José Barbeiro, que nos deu
essa novidade, que lh'a dissera o Manoel
da Quinta, que a ouvira á
Gertrudes, criada do Mosteiro.
—Casa com a morgadinha, já se sabe?
—Pois vêdes! não que a bolada convida! A mim logo
me farejou isso, quando vi chegar esse figurão cá
á terra. Mas querem vossês saber uma
coisa engraçada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor
não gostou da novidade.
—Não? Então por quê?!
—Vi-o fazer-se de mil côres quando a ouviu... Pois
ter-se-lhe-ha mettido na cabeça... Hein?!
—Tinha graça. Mas olha o milagre!...
—Ah! ah!... Este mundo é muito divertido!
N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a
olhar para todos os lados, como procurando alguem.
—Que temos nós lá, ó sr.
Luiz?—perguntou-lhe o Pertunhas.
—Onde diabo estão os de Pinchões?—perguntou o
interpellado.
-Inda não vieram.
—Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles não
apparecem. O morgado é homem para se esquecer a catar os
cães.
—Mas vamos nós principiando, e no emtanto elles
virão—disse o Pertunhas, que fôra nomeado para
revezador do secretario da mesa.
—Mas a primeira freguezia que vota é justamente a d'elle. O
sr. Seabra está como uma bicha!
E, dizendo isto, o homem voltou para dentro.
A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do
beaterio, que pela voz dos padres chamava áquillo artes do
demonio, ia principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais
tarde, de proposito para não formar parte da mesa, requereu,
com o relogio na mão, que se abrisse a urna aos eleitores,
visto ser a hora marcada no edital.
Este requerimento, simples e justo como era, suscitou
discussão.
O brazileiro allegou que, sendo os de Pinchões os primeiros
a votar, em virtude do artigo 62.º do decreto eleitoral, que
manda
votar primeiro a freguezia mais distante, e não estando na
assembléa ninguem d'aquella freguezia, convinha esperar.
O conselheiro insistiu, dizendo que a lei não mandava
esperar por os eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que
portanto votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas
horas de espera, votariam os ausentes que depois viessem.
Esta questão não se resolveu de prompto. Trocados
alguns alvitres, lida a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados
os recenseamentos e mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao
administrador, e ao parocho, é que se approvou a proposta do
conselheiro e principiou a chamada.
A freguezia de Pinchões faltou em pêso.
O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a
lista dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os
adversarios, e sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em
principiar a votação julgou descobrir
cavillação. Na urna não tinha entrado
uma só lista. Pregoou-se o
ultimo nome dos eleitores de Pinchões. Ninguem ainda!
Passou-se a outra freguezia.
O brazileiro já não estava em si.
Os primeiros votos recolhidos mal os pôde introduzir na urna,
de trémulo e sobresaltado que estava.
O homem suppunha que lhe tinha sido roubada á ultima hora
uma freguezia inteira. Não estava muito longe de acreditar
que os agentes do conselheiro a haviam arrasado completamente.
A freguezia que se seguia na votação era uma das
que se conservavam fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a
indisposição do Seabra.
A votação ia, porém, correndo,
interrompida apenas
por
algumas questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e
sobre a regularidade d'esta ou d'aquella lista, graças aos
futeis pretextos de que os contendores lançavam
mão para
disputarem, voto a voto, o suffragio popular.
Ia adeantada a votação, quando correu na igreja
uma voz, que veio infundir alento no animo desfallecido do brazileiro.
-Veem ahi os de Pinchões!... Ahi estão os de
Pinchões... Ahi vem o sr. Joãozinho e toda a sua
gente!—dizia-se de toda a parte.
Esta nova passou de bôca em bôca, a ponto de
produzir um sussurro na assembléa.
Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados.
Chegára de facto alli o sr. Joãozinho das
Perdizes, á frente da sua
freguezia.
Leitor, se tens, como eu, esperança e sincera fé
no systema representativo, perdôa-me o obrigar-te a assistir
a uma scena que faz subir a côr ao rosto de quem, como
nós, abençôa os
sacrificios por cujo preço nossos paes nos compraram a nobre
regalia de intervir, como povo, na governação do
Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa tutela de um
homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos, contra os
quaes o instincto e a razão igualmente se revoltam. A scena,
porém, humilhante como é, não envolve
a minima censura á excellencia do systema; mas apenas aos
que nos quarenta annos que elle quasi tem de vida entre nós,
não souberam ou não
quizeram ainda fazer comprehender ao povo toda a grandeza da augusta
missão que lhe cabe executar.
Depois das nossas luctas civis, já muitas
creanças se fizeram homens; se a escola fôsse
entre nós o que devia ser, já haveria sobra de
eleitores com perfeita consciencia dos seus direitos civis.
O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, sómente devem
impellir os homens de intenções sinceras
e puras a applicar os
esforços de intelligencia e de acção
para ministrar com a
educação a moralidade, e para acordar a
consciencia d'esta entidade social.
Era o sr. Joãozinho das Perdizes á frente da sua
freguezia, disse eu.
E é justamente este o espectaculo humilhante de que falava.
Tendes visto um guardador de cabras á frente do seu rebanho,
conduzindo com acenos e assobios todas as barbudas cabeças
d'aquelle regimento quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da
scena que se presenciava agora no adro da igreja matriz.
O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mãos o
sceptro da sua soberania, não era
menos docil do que os irracionaes que recordamos.
O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava;
quando podia dispôr dos destinos dos seus senhores, era
quando mais vergava a cabeça sob o pêso que estes
lhe
assentavam.
Não é similhante esta fôrça
inconsciente do povo á do boi robusto e válido,
que uma
creança dirige e subjuga? Forte como elle, como elle docil,
como elle laborioso, como elle util, não vê que a
mesma
fôrça que emprega no trabalho lhe poderia servir
para repellir o jugo. Ou quando o vê, é quando o
desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas tremendas.
Mas o povo de Pinchões, o povo do sr. Joãozinho,
estava muito longe d'esses excessos.
O morgado vinha, como já disse, á frente.
A barba por fazer, as melenas despenteadas, o lenço do
pescoço sôlto, sem
botões o collarinho da camisa, com as mãos
mettidas no cós das ceroulas,
o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas
até o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bôca,
o palito atraz da orelha, o chapéo sobre o occiput, dois
galgos adeante de si, e o inseparavel
Cosme quasi
à
latere. Entrou no adro com ares triumphantes, sorrindo e
piscando os olhos para os seus amigos e partidarios, como para lhes
fazer notar a numerosa procissão que o seguia e a docilidade
dos membros d'ella.
Atraz vinham os eleitores de Pinchões, velhos e
moços, ricos e pobres, mas todos com o olhar timido e
estupido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no
caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle parava a cumprimentar
um amigo, paravam todos com elle; a direcção que
tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo,
segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se
praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou á
porta da
igreja.
O morgado passou revista á sua tropa, á qual deu
instrucções.
Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braços
estendidos e a cabeça baixa,
não ousavam fazer um movimento, e conservaram-se
enfileirados até nova ordem do sr. Joãozinho.
Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem.
No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel
almaço dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de
um homem que elles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido,
cada um d'elles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral,
responderia: «presente»;
approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle
papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um
pêso que o opprimia.
Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto
que acabavam de executar, não saberiam dizel-o; se lhes
perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e
defensor das suas liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a
resignação do direito de
votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem
que n'aquelle dia estavam nas suas
mãos e dos seus pares os destinos do paiz, abririam os olhos
de espantados, ou sorririam com a desconfiança propria dos
ignorantes.
Innocente povo!
Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómmodo
degrau.
Quando disseram ao sr. Joãozinho que já tinha
passado a sua vez de votar, o homem rompeu pela igreja dentro,
berrando, bracejando, ameaçando céos e terra, sem
attender a quantos lhe clamavam que tinha de se proceder a nova
chamada, e que portanto socegasse.
O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justiças.
Custou a serenar o morgado, e não o fez senão
depois de duas pragas contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas
que razões politicas fizeram engulir ao brazileiro, sem nem
sequer lhe tirarem dos labios o sorriso com que saudára a
vinda do morgado.
Caindo em si, o sr. Joãozinho deu ordem á sua
gente para que entrasse para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos
lados d'ella, promptos á primeira voz.
A chamada proseguia, e a votação não
ia já muito favoravel ao conselheiro, a julgar pelos
indicios, que não escapam aos olhos amestrados dos mirones.
O brazileiro exultava comsigo mesmo,