principalmente quando, por sobre as cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas.

O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro.

Era caso desesperado.

Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a nossa narração.

Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre os quaes o Zé P'reira.

Com este deu-se um episodio comico, que merece menção.

O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que era contra a expressa determinação do artigo 61.º, § unico, da lei eleitoral.

Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé P'reira. Era uma nódoa de vinho.

Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.º.

A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a maior candura:

—Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que vocemecê me deu.

O proprio conselheiro desatou a rir.

O brazileiro resmungou:

—Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?

-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir—disse o Tapadas, e accrescentou:—ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé.

Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista caiu na urna.

Estava a findar a primeira chamada.

Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.

A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar.

Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do herbanario, cuja inicial era um V.

Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição inevitavelmente.

O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.

O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.

—Vicente Rodrigues da Fragosa—disse elle, preparando-se já para voltar o caderno.

—Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe—disseram alguns.

E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja uma voz trémula, mas sonora ainda, responder:

—Presente.

Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.

Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio.

Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.

Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido, segurando a lista que vinha lançar na urna.

Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor, perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito, senão com supersticioso terror.

Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja.

O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.

Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura.

Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.

O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao encontro, dizendo commovido:

—Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!...

O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.

—Arreda-te!—disse com severidade—deixa-me, serpente, que mordes a mão do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia, quando estiver a expirar!

O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas palavras.

—Ó tio Vicente!...—exclamou, ajuntando as mãos—pois eu que lhe fiz?

—Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso: eu não o quero para mim.

E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro, que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:

—Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.

O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.

Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.

—Manoel,—disse-lhe o velho em voz sumida—não me cegava tanto o resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo.

—E sel-o-has sempre, Vicente.

—Sempre que o seja... por pouco tempo será—respondeu o velho, sorrindo tristemente.

—Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?

—Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e outros mais.

A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na garganta.

—Já não posso...—murmurou elle.—Queria dizer-te...

E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:

—Era... d'este... Elle é... elle está...

Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.

Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras morto, quando o fôram a erguer.

O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o. Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.

Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis.

Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.

Os indifferentes voltaram a continuar a eleição.

Ia principiar a segunda chamada.

O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja.

O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo, acharam-se sós junto do cadaver.

A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em que o conselheiro esteve só com Augusto.

N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao resentimento.

—Augusto—disse elle a meia voz—a morte não deixou este infeliz completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo.

E, dizendo isto, estendia-lhe a mão.

Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:

—A mão que v. ex.a me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso. Desde que uma vez v. ex.a formulou a accusação e se fez juiz, prefiro, a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico mais em paz com o meu orgulho.

A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.

Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver.

Augusto acompanhou a casa o herbanario.

O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco disposto a permanecer alli.

—Fique se quizer—disse elle para Henrique.—Não estou em estado de receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande novidade. Adeus.

E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.

Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias circumstancias que a acompanharam.

Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára.

A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das suas previsões, infelizmente realisadas.

Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira, o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que se lhe preparava na urna.

Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir.

Assim, por exemplo, dizia elle á filha:

—Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer; a vida politica ia-me cançando já.

Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal simulada satisfação!

Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia já.

Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de votos.

Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.

Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas.

O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da certeza.

É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os ramos cortados?

O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos, passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.

Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando viesse, feril-o-ia como imprevista.

Sempre assim succede.

No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes.

O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.

Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo bateram precipitados.

A causa estava, emfim, decidida.

A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle?

O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um sorriso amargo, disse para a familia:

—Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!

—Quem sabe, mano? Ás vezes...

Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:

—Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!

—A correr?!—disse o conselheiro, em quem esta simples noticia infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella.

As senhoras seguiram-n'o alli.

O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro.

—Parece o Domingos, o criado do Tapadas...—disse o conselheiro, affirmando-se.

—Mas que pressa elle traz!—notou D. Victoria.

—Já nos viu—disse Angelo.

—Lá acenou com o chapéo—exclamaram todos.

—Que quer elle dizer com aquelles signaes?—tornou o conselheiro, nervoso.

—Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano.

—Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É boa!—disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer que lhe descubram uma esperança.

Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.

Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir alli. Mal se respirava.

—Eil-o—disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle appareceu.

—Viva! sr. conselheiro, viva!—bradou elle de lá, apesar de esfalfado.

O conselheiro teve quasi uma vertigem.

—Elle que diz?... Como pode...

Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com frenetico enthusiasmo.

Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a commoção que esta produz, se se realisa.

O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava:

—Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano...

Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez a sair d'ella.

Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto.

O conselheiro interrogou o.

—Então que dizes tu? Que vivas são esses?

—Digo que vencemos—respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na primeira pessoa do plural.

—Estás a sonhar?

-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.ê... tinha v. s.a mais cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola...

—Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser!

—Cento e cinco!

—Estás bem certo no que te disse teu amo?

—Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo.

O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel aquillo que lhe annunciavam.

Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do facto.

Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!

O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram estrondosas.

A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime.

O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação.

Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa.

—Que quer dizer isto?—perguntou o conselheiro, abraçando-os.

—Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem menos—respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas.

—Cento e trinta e cinco—repetiu o Pertunhas.

—Mas d'onde vieram!

—Ora essa é boa! De Pinchões.

—De Pinchões—repetiu o Pertunhas.

—Como?... Pois o morgado?...

—Votou comnosco como um homem. Ora pudéra!

—É verdade... votou... comnosco—dizia mestre Pertunhas.

—Mas não se viu ainda ha pouco...

—Que estavam com metralha inimiga?—concluiu o Tapadas.—Que tem lá isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um destrôço! Parece a loja de um farrapeiro.

—Mas explica-me isso, Tapadas.

—Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda. Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles, pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto!

E o Tapadas terminou com outra gargalhada.

O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo:

—Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se.

E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que estavam proximos:

—Este Tapadas tem cada graça!

Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario. Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito calculam.

As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as suas demonstrações de alegria.

O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e das festas populares que se faziam no pateo.


XXXI


A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, não só pela qualidade de homem que era aquelle, como pelas circumstancias, no meio das quaes o facto succedêra.

O resultado da eleição, comquanto momentoso, não distraía do assumpto as attenções; pois que, tendo sido successos simultaneos, associavam-se naturalmente nas conversas e discussões, e um chamava o outro.

O herbanario não fôra colhido desprevenidamente pela morte; havia muito tempo que fizera as suas disposições e por ellas legára a Augusto tudo quanto possuia, isto é, alguns livros, entre os quaes a Polyanthea, e o preço, quasi intacto, que recebêra pela casa expropriada.

Logo que estas disposições fôram sabidas, não faltou quem achasse n'ellas a explicação da amizade desvelada com que Augusto sempre tratára o velho, e do piedoso acatamento com que o recebêra em casa, assim que da sua o expelliram.

Nós que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos julgar a fundo do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos taes juizos.

É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no desinteresse dos outros!

Não ha explicação mais difficil de ser recebida do que a que se fundamenta n'um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade.

É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim desconfiarmos do proximo. Porque a final o que é verdade é que a mais exacta e infallivel sciencia do coração humano só se adquire pelo estudo do proprio coração: esse é o unico que nos está bem patente. É por isso que as melhores almas são de ordinario as mais crentes.

Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado o coração como suppõe o dos outros.

O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi muito concorrido.

Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinação do fallecido, em campa rasa, e não no tumulo da familia do Mosteiro, como o conselheiro desejára.

Tudo se passou sem o menor signal de opposição.

Não se explicam bem estas versatilidades da opinião publica. Uma medida que hoje ateia uma revolução, ámanhã executa-se no meio do indifferentismo geral, e sem apostolado prévio, sem providencias repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia das leis naturaes.

O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do herbanario, e receberam as visitas de pêsames, que em parte eram tambem de parabens pelo exito do suffragio popular.

Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam na igreja matriz as badaladas das Avé-Marias, Augusto entrou no cemiterio, já deserto, e approximou-se lentamente da sepultura, inda coberta de pouco, como o denunciava a terra revolvida.

Elle, cujo coração era decerto o que a morte do herbanario mais dolorosamente ferira, não recebêra pêsames de ninguem. Passára a tarde só com o seu pensamento, o qual, como o leitor prevê, lhe não devia ser muito jovial companheiro.

Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado pelo ar abatido, revelador de uma profunda prostração de animo, que lhe quebrára as fôrças.

Que era feito d'aquella energia, com que se revoltára contra as perseguições da sorte, e que lhe animára os primeiros passos para obter a justificação devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe perdão; vimol-o recusar o auxilio que este já lhe offerecia, e considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da sua innocencia.

Que é feito d'essa energia?

O que é feito d'ella? leitor, talvez o teu coração te possa responder por mim, se és uma d'essas victimas, para quem a sorte parece personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios lentos.

Quando, uns após outros, se repetem os golpes da adversidade, quando todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldição de Deus, é raro encontrar-se têmpera de alma tão rija que resista e não ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta com um poder superior.

A razão mais clara deixa-se tomar então da cegueira do fatalismo, e eivado d'esta grave doença dissipa-se a fortaleza do espirito, como se extinguem as fôrças do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador.

Então encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a que é tão sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gôso em succumbir sem lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema infelicidade.

Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provações da vida: a miseria em perspectiva, a ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade o insulto e a calumnia: sorrira á miseria e á ingratidão, e dera á amizade as consolações que a amizade lhe inspirára.

Mas não desfallecêra com tudo isto.

Maior provação lhe estava reservada, porque ha maiores provações para a alma humana, do que todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de subito a estrella que a guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia, dormindo no meio de uma desencantada realidade; privae-a da ideia querida, que havia muito concebêra, que comsigo vivia, que para si guardava, ciosa dos olhares extranhos, e vêl-a-heis desnorteada, perdida, louca, contorcer-se em desespero e succumbir.

Se resiste e sobrevive, se não desfallece, nem vacilla, é porque é de essencia mais elevada do que a humana.

Ás vezes aquella ideia era tão irrealisavel, aquelle sonho tão chimerico, que a pobre devia estar prevenida para o perder um dia, e julgou que o estava.

Mas illudira-se. Se nos dermos de coração a uma chimera, se ella, nas fórmas vagas e aereas que reveste, nos sorrir e namorar, em vão julgamos têl-a por o que verdadeiramente é; ha sempre um ou outro momento em que a acreditamos realisavel e até realisada.

E, ao convencermo-nos devéras da sua impossibilidade, sentimos a dor profunda que nos causa a perda de um objecto querido.

Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes vestiam a fórma humana, assim o impossivel, quando nos apaixonamos d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a feição da realidade aos nossos olhos namorados.

E ao revelar-se como impossivel, destróe o coração que o abraça, como Jupiter sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua gloria de deus.

Qual fôsse a ideia constante, o pensamento recatado de Augusto, sabem-n'o os leitores: era o amor de Magdalena. A natureza d'esta paixão dizia elle conhecel-a. Não tinha outra aspiração além de existir, era como o culto pela Virgem do Christianismo, era que se adora por adorar, em que na mesma adoração se acha o premio do culto, em que o deixar-se adorar é o mais que pode pedir-se ao objecto d'elle.

De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto.

Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique, sentiu quasi aversão para elle? por que foi que, amavel e bondoso para com todos, só para com um desconhecido se mostrou frio e irritante? por que foi emfim que, ao persuadir-se, por certos indicios, de que Magdalena e Henrique se amavam, caiu no desalento, em que tantas causas de infortunio o não tinham lançado ainda? Porque a verdade era que foi este o golpe que o venceu.

Por quê? porque amava Magdalena, porque este amor não tinha nada excepcional; era inconscientemente apprehensivo, ambicioso, devaneador e ciumento, como todos os amores verdadeiros; porque era aquelle o seu sonho mais querido, e desde que era obrigado a convencer-se de que não passára de um sonho, não se sentia de animo para fitar a realidade; porque era aquella a luz da sua alma, e ao vêl-a apagar, vacillou nas trevas e parou. Desde que não avistava um alvo, não havia para elle retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que não valia mais do que a quietação.

Esta fôra a causa do desalento de Augusto, que só então conheceu que se illudira com o estado do seu coração, que o que em si se passava era o verdadeiro amor.

Desde que teve de renunciar a elle, não fez mais um esforço para justificar-se da calumnia que pesava sobre si. Sentia-se indifferente á condemnação do mundo. Já nem lhe importava justificar-se para com Magdalena; era quasi uma vingança, que tirava d'aquella por quem soffria, obrigal-a a ser injusta.

E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto!

O herbanario fôra victima da mesma illusão de Augusto, e concorrêra involuntariamente para o levar a este estado moral.

Das explicações dadas por Magdalena na casa dos Cannaviaes, sabemos como das meias palavras e meias revelações de Torquato, o herbanario acreditára que a morgadinha combinára imprudentemente com Henrique uma visita nocturna á quinta dos Cannaviaes. O velho, que suspeitára sempre da natureza dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vêr n'aquillo a confirmação das suas suspeitas, e encontrando Magdalena, reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a quiz.

Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dúvida, se deveria ou não revelar tudo a Augusto.

A noite cerrou de todo e deslizou com a lentidão de uma noite de inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia seguinte passou-o na mesma indecisão. Mas a inquietação do herbanario crescia; desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha exposta Magdalena, cuja confiança em Henrique a podia perder.

O herbanario continuava a desconfiar de Henrique.

Chegára a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com uma das meninas de visitar á meia noite, por causa de Henrique, a casa dos Cannaviaes. O velho não pôde mais tempo conter-se e disse a Augusto, depois de muito luctar comsigo:

—Não devo calar-me. É preciso coragem, meu filho. Arranca do coração a loucura que lá tens ainda, embora o deixes em sangue, ou estás perdido.

Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto.

O velho proseguiu:

—Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que vires te não curar, se é sem remedio esse mal, ao menos sê generoso, e acode e salva, se fôr possivel, quem, perdendo-te, se perde tambem.

E após estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto tremeu de investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma noite, recommendando-lhe que fôsse preparado para receber uma grande dor.

Augusto seguiu as indicações do herbanario, e foi.

Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da piedosa devoção de Christina, a vimos chegar á janella dos Cannaviaes.

A morgadinha reconhecêra Augusto através das sombras nocturnas, e tivera um presentimento do que significava a presença d'elle n'aquelle logar e n'aquella occasião.

Por concentrada e discreta que fôsse a paixão de Augusto, não era um mysterio para Magdalena.

A extranhar alguem esta penetração de vista não será decerto nenhuma das minhas leitoras.

Magdalena adivinhára havia muito Augusto, e não lhe fôra difficil explicar até a instinctiva hostilidade com que elle sempre acolhêra Henrique.

Por isso, ao vêl-o alli, previu que pesava sôbre ella uma suspeita, que era victima de uma illusão, e que as apparencias a podiam condemnar.

De feito Augusto chegára tarde aos Cannaviaes, porque só tarde o herbanario vencêra a hesitação que experimentára ao dizer-lhe que fôsse. Por isso só pôde reconhecer a voz e a figura da morgadinha e de Henrique no curto dialogo, que entre os dois se trocára, quando vieram examinar á janella o estado da noite.

As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas de uma maneira cruel para o seu coração. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais querer vêr nem ouvir, retirou-se como um louco.

Foi n'essa occasião que Magdalena o viu.

Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava, viu-o pallido, e com uma expressão singular no rosto.

—Então?—interrogou-o anciosamente o velho.

—Tinha razão, tio Vicente. Tem sido uma longa e má loucura a minha. Verei se me curo d'ella.

E, sentando-se, encostou a cabeça ás mãos e permaneceu silencioso.

O velho não lhe perguntou o que se tinha passado.

D'ahi em deante foi em rapido progresso a prostração de animo em Augusto.

A doença do herbanario que se exacerbou consideravelmente tambem, era o unico motivo de uma fôrça ficticia que ainda o sustentava. Os seus desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes.

A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a do cirurgião que tratava do herbanario.

Falador por indole e por cálculo profissional, o facultativo contava á cabeceira do leito as novidades do dia. Entre essas trouxe uma das que mais vogavam, que era a de que Henrique casava no Mosteiro com a morgadinha.

Um equivoco dizer do Torquato, na presença dos criados do mosteiro, uma das meias discreções do velho, mais perigosas do que a propria indiscreção originára esta versão.

Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, que o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto impassivel.

No dia das eleições, o estado do velho Vicente era mais grave ainda. O cirurgião prolongou a sua visita e falou da campanha eleitoral. Assegurou que era certa a derrota do conselheiro, desde que contra elle se manifestára o sr. Joãozinho das Perdizes.

O herbanario escutou-o com admiração e sobresalto.

Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma predilecção que a tudo sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o affecto que alguns paes sentem pelos filhos, de quem só teem recebido desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais motivos ha para a esfriar.

Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.

Foi então que o herbanario, dominado por energia febril, quiz erguer-se do leito, e, apoiado no braço de Augusto, que em vão tentou dissuadil-o, se dirigiu á igreja para votar. O resultado sabem-n'o os leitores.

Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar o alento a Augusto. Facil é, pois, de conceber qual o estado do seu espirito ao entrar no cemiterio.

Oração ou meditação, por muito tempo durou aquelle tributo de saudade, que o aspecto sombrio da tarde e a melancolia do logar e da hora mais solemne faziam.

Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do tumulo da filha.

Não era o Cancella já o mesmo robusto e alegre aldeão que vimos, dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado rustico, representar com applauso o tyranno perseguidor do Messias. Desde a morte da filha parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, nem tinha fôrças para o trabalho, nem coração para alegrias.

Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o que se movia alli.

—Ah! logo vi que era o sr. Augusto—disse o pobre homem, estendendo a mão, que Augusto apertou com affecto.—Só nós temos amigos aqui.

—É verdade, Cancella. Ou só nós, fóra d'aqui, não temos outros, pelos quaes esqueçamos estes, que ahi dormem.

—Eu decerto que não! Está-me toda a alegria, está-me todo o coração debaixo d'aquella pedra—disse o Herodes, apontando para o tumulo da filha.—Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar?

—Ha quem aos vinte já não tenha coragem para principiar outra!

O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras.

—Fala de si, sr. Augusto?... Não tem razão. Que são as suas dores ao lado da minha? Se ainda não experimentou o amor e as alegrias de pae, como ha de imaginar a dor, que a morte de uma filha unica nos traz ao coração?... A minha pobre Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o têl-a perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com razão, que era seu amigo e quasi um pae para si... mas não é sem remedio a sua saudade, verá... A minha porém...

Augusto sorriu amargamente.

—Tu sabes lá, homem, o que eu tenho no coração?

N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de acclamações e applausos. Eram os clamores dos grupos populares, celebrando a victoria do conselheiro.

Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais.

—Uns riem, emquanto outros choram—disse o Cancella.—Ha alegria acolá.

E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli.

—Ha...—respondeu Augusto, pensativo.—Somos de mais n'esta terra, meu pobre Cancella; nós, os infelizes.

—Por isso parto ámanhã.

—Partes?

—Se eu não posso viver aqui! Se tudo isto me está falando na filha!... A cada passo estou á espera de vêl-a... É como se a todo o instante me morresse. Vou para a cidade; dizem que estão engajando por lá trabalhadores para o Brazil... Quero vêr se o trabalho me mata, antes que o desgôsto me não tente a morrer de outra sorte.

—E dizes que partes ámanhã?

—De madrugada. Já tenho tudo prompto.

Augusto reflectiu por algum tempo.

—Far-te-hei companhia.

O Herodes olhou-o, admirado.

—O sr. Augusto?! Pois quer?...

—Quero que me batas á porta, quando passares.

—Mas que tenções são as suas, sr. Augusto?

—As mesmas talvez que as tuas. Não dizes,que queres vêr se o trabalho te mata? Por que não hei de eu tentar o mesmo tambem?

—Mas... não lhe morreu uma filha.

—E cuidas tu que só um amor de filha nos pode prender á vida? que só a morte de uma creança nos pode ferir no coração?...

O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois disse, com hesitação ainda:

—Não é por certo a morte d'este santo velho que o faz falar assim, sr. Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez que lhe fizesse bem. Bem vê que eu sou infeliz e... havia de entendel-o...

Augusto apertou-lhe a mão, commovido.

—Pobre amigo! Não, não me entenderias; porque não basta ser infeliz para me entender. É necessario ter sido louco como eu fui.

—Louco?!...

—Sim, louco, meu bom Cancella, louco. Não te lembras d'aquelle desgraçado do Pé do Monte, que se suppunha rei? Como ria n'aquelle tempo! Um dia voltou-lhe o juizo, mas ficou tão triste até morrer, que parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe devesse os unicos instantes de felicidade que sentiu na vida.

O Herodes já não comprehendia Augusto, o que lhe fez crêr que o não entenderia se elle o tomasse por confidente.

Augusto mudou de tom, dizendo-lhe:

—Promettes passar por minha casa esta madrugada?

—Pois sempre quer?...

—Se não partir comtigo, partirei só.

—N'esse caso...

—Espero-te. Aonde vaes agora?

—Ao Mosteiro.

—Ah!... vaes ao Mosteiro?...

—Vou despedir-me d'aquella santa familia, que tão bem me tratou da filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se não consolou tambem da morte da minha pobre Linda.

—Angelo?... É um nobre coração... Espera... Não quero partir sem lhe dirigir algumas palavras... Devo-lh'as.

—Só a elle?

—Só elle m'as agradecerá.

E Augusto approximou-se do tumulo da mãe de Magdalena, e á frouxa claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em um quarto de papel estas palavras:


«Angelo.—Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que repousam sua mãe e Ermelinda, duas imagens que serão sempre para o seu coração rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ouça-me, que em nome d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as sombras de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem custo. Não o tornando talvez a vêr, Angelo, tinha um dever a cumprir para com a sua generosidade. Hão de ensinal-o a desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creança recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razão do adolescente talvez venha a ser mais docil. Não podendo justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a consciencia tranquilla. Não é por mim que faço este protesto, é para lhe evitar, se fôr possivel, a dúvida no caracter dos homens. Para um coração, como eu lhe conheço, deve ser um martyrio. Os mais que me condemnem; nem necessidade sinto já de me justificar. Parto com um desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo acceito com indifferença.—Seu amigo, Augusto.


Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a que deviam encontrar-se, separaram-se.

O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.

Não pôde, porém, chegar tão depressa ao Mosteiro como esperava; distrahiu-o no caminho o seu compadre Zé P'reira.

A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso Zé P'reira, estava cada vez mais transtornada.

A beatice azedára o animo da sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista.

A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro na terra depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle santo varão do prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoção pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia.

Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Zé P'reira, peor se tornou depois d'essa época.

A mulher passava todo o tempo em devoções na igreja. O marido, desconsolado, procurava lenitivo na taberna.

Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado habitual, e já menos inoffensiva e pacifica do que nos primeiros tempos.

A miseria ameaçava invadir aquelle lar, até alli remediado.

Tudo isto exacerbára a acrimonia das discussões conjugaes.

Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal.

De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais ameaçadora.

Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais além do que a sua timidez habitual o permittira até alli, e a sr.a Catharina soube, pela primeira vez, que o osso de que ella era osso não tinha a brandura que lhe suspeitava.

Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhança. D'ahi por deante fôram frequentes iguaes espectaculos.

Na noite em que o Herodes o encontrou, o Zé P'reira, em completa embriaguez, acabára de fazer sentir mais uma vez a sua mulher toda a fôrça da auctoridade marital. Ella revoltou-se e abandonou os penates, jurando que nunca mais voltaria a elles.

O pobre do homem andava agora perdido nas ruas á procura d'ella, arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia dó. O Cancella condoeu-se d'elle, e dando-lhe o braço, para lhe firmar os passos cambaleantes, conduziu-o a casa, promettendo restituir-lhe a mulher fugida.

E n'esta tarefa de reconciliação passou grande parte da noite, conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de que não seria muito duradoura a paz.

E tinha razão o Cancella em pensar assim. Ao lar domestico, onde uma vez se passa uma scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia.

O pobre do Zé P'reira estava condemnado a levar assim o resto da sua vida de familia.

Esta occorrencia demorou o Herodes, que só tarde entrou no Mosteiro a despedir-se da familia que tanto lhe estimára a filha.


XXXII


Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada á insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na aldeia, não porque os preparativos da jornada lhe impedissem o repouso, mas a lucta de tantos pensamentos e paixões encontradas, decerto lhe disputaria o espirito.

Partir é já uma palavra, que quasi nunca se pronuncia com indifferença; partir para não voltar é uma ideia afflictiva, que mais violenta commoção desafia; partir sem esperanças no futuro... poucas torturas de alma se podem comparar a esta!

Experimentava-a Augusto.

Era quasi uma resolução de suicida a sua. Nenhuma ambição tivera poder sobre elle para o arrancar d'alli; tivera-o o desespero.

A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os olhos fitos na chamma da véla, com a cabeça entre as mãos, sem saber em que pensava, sem consciencia de si.

A noite estava socegada, e apenas o som monótono de uma fonte proxima interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas.

Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se costuma ler em situações identicas.

Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os seus movimentos uma indecisão, uma falta de consciencia, que não deixava dúvidas sobre o estado do animo que os regia.

Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as suas acções; e no meio do cumprimento de uma tenção, perdia a consciencia d'ella.

Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria comsigo; mas cêdo afastava-o de si com enfado.

Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de passados devaneios, effusão de uma alma sensivel, fructos da juventude e da solidão, a que a primeira inspirára o enthusiasmo, e a segunda a melancolia, tudo consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a chamma, desapparecerem as lettras, reduzir-se tudo a cinzas.

Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em algumas de Magdalena. O sobresalto do seu coração, ao ler aquelle nome, era então mais violento que nunca.

N'estas pesquizas veio-lhe ás mãos um pequeno masso, que pertencêra ao herbanario.

Ia para as queimar tambem, quando a inscripção, que viu por fóra da cinta que as enfeixava, o fez hesitar.

Liam-se estas palavras:—Cartas de Magdalena.

Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma tentação.

Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que já tinha renunciado; era entrar em communhão de pensamentos com ella, e infeliz de quem não concebe a casta voluptuosidade d'este gôso.

Mas ao mesmo tempo hesitava.

Pertencia-lhe tambem aquelle legado? Não seria um abuso lel-as? Devia antes queimal-as, mas... eram cartas de Magdalena. E depois, que mal poderia vir da indiscreção? Não tinha elle um coração que não devia abrir-se mais a ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o quasi em um tumulo.

E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente?

De que se poderia tratar alli, a não ser de algum affectuoso cumprimento da morgadinha ao velho, que sempre tratára com intima familiaridade, ou algumas meigas reprehensões por a sua porfiada ausencia do Mosteiro?

Augusto recordava-se até do velho lhe ter falado na indole d'estas cartas.

Nas vesperas de renunciar para sempre á felicidade, devia-se perdoar a tentação.

Abriu-as.

Não ia muito adeantado na leitura, quando já todos os signaes de hesitação cediam o logar aos da mais irreprimivel avidez. E terminada a primeira, abriu, leu ou devorou outra, e após outra e outra, até a ultima; da ultima voltava de novo á primeira, e cada vez mais profunda commoção parecia dominal-o.

Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de todas.

Dizia uma:


«Meu bom amigo.—Hontem, depois que nos separámos, recebi de Lisboa a encommenda que esperava. O Angelo não se esqueceu. Mando-lh'a, para que mais uma vez faça de feiticeiro, adivinhando os gostos do seu amigo.

«Afianço-lhe que vae acertar com os desejos d'elle. Ha tempos que o vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, procurar de preferencia na estante os livros de historia franceza. Custa-me a perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a Revolução, mas emfim seja feita a sua vontade. Escuso de lhe recommendar discreção. E, quando nos virmos, peço-lhe que me não torne a falar nos laços em que diz que eu estou a prender o coração. Mette-me mêdo.—Sua amiga, Lena


Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam:


«Meu amigo.—Hontem separámo-nos de tão mau humor, que hoje acordei com remorsos, e não pude socegar emquanto lhe não escrevi para lhe pedir perdão. Espero que perdoará a este rebelde genio que tenho.

«Mas tambem para que me está sempre a ralhar? Não se assuste pelo meu coração; o maior perigo que o tio Vicente receia para elle, faz-me sorrir.—É o de me apaixonar?—Então que tinha? Não sonhe com nuvens, e vá representando o seu papel de adivinho, que é uma generosa acção que pratica.—Sua arrependida inimiga, Lena


«Meu bom tio.—Ahi vão uns livros, de que eu não entendo nada. Augusto falou d'elles ao filho do administrador, que veio de Coimbra. Conheci n'elle desejos de possuil-os. Tomei nota. O Angelo remetteu-m'os hontem. Para Augusto não desconfiar, finja atraiçoar um pouco o mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, já nada digo.»


A de mais recente data dizia apenas:


«Tio Vicente.—Pensei no que me disse do estado do coração do seu... do nosso amigo. Parece-me que exaggera. Mas, se fôsse verdade, podia tranquillisar-se. Eu lhe afianço que d'ahi nunca para elle virá a infelicidade. No entretanto, discreção por ora.—Sua affeiçoada sobrinha, Magdalena


Por a amostra, que lhe damos, o leitor não deve estranhar que estas cartas estivessem causando a Augusto o effeito que dissemos.

Cada uma era uma revelação.

Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha; d'ella lhe viera pois grande parte da instrucção que recebera, alli, na solidão d'aquella aldeia!

O mysterio dos presentes do herbanario, a que tão diversas explicações dera, esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; suspeitára, pelo menos, que era a elle que o herbanario se dirigia para escolher os livros.

Nunca, porém, se lembrára de Magdalena; agora, que sabia de que origem provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, venerava-os com expansões de verdadeira idolatria. Já não tinha coração para se separar d'elles.

Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella por Augusto, não havia para elle menor encanto. Pelo que tantas vezes lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza deviam ser as reflexões a que Magdalena alludia.

O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois corações, estudando-os a ambos, receiando por ambos, lidando por extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer e que ameaçava degenerar em paixão. Toda a sua intervenção consistia em fazer com que elles se não revelassem; era o meio isolador que impedia que se ateasse o incendio. Nas suas mãos paravam os dois fios da corrente, só elle a interrompia.

Esta situação do herbanario era para elle causa de grandes iuctas.

Amando Augusto com sentimento paterno, tinha ambições por o amigo; e, ás vezes, movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella paixão. Por outro lado, não estimava menos Magdalena, e prevendo as resistencias e repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos a soffrer, hesitava e desejava poder abafar no coração dos dois os germens de pesares futuros.

Tivemos occasião de o vêr sob estas diversos impressões. Umas vezes reprehendendo Augusto, outras quasi deixando-lhe entrever esperanças. A chegada de Henrique de Souzellas e os successos subsequentes despertaram no velho uma especie de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de Augusto.

Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto.

Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao coração, e tão enlevado estava pelo perfume do affecto que rescendia de todas, que nem se lembrava já da hora proxima da partida do motivo que a originára. Motivo que era o desmentido da sua illusão.

Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impressão que produziu foi dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as lagrimas aos olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os braços, e assim permaneceu por muito tempo.

Depois levantou a cabeça n'um impeto de desesperação, exclamando:

—Para que me haviam de vir á mão estas cartas? Que espirito diabolico se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um anjo me acompanhava com a sua vista protectora só quando elle me vae deixar para sempre! E dizia ella que me não podia vir o infortunio d'aqui!... Não contava com as mudanças do proprio coração.

Na vidraça da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram algumas leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer.

—O Cancella já?... É pois certo que vou partir?

Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe como os do condemnado ao caminhar para o supplicio.

Chegára o momento de romper com todas as esperanças.

—Estou prompto—disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, sem reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis que tinha dispersos na mesa.

—Cuidei que era mais cêdo—continuou elle.—Distrahi-me a ler umas cartas que estive a pôr em ordem, e o tempo correu. Vamos lá, meu pobre amigo, deixemos esta terra para os venturosos.

E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico sorriso.

Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito em Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda contemplação.

Magdalena foi a primeira que falou.

—Admira-se de nos vêr aqui?—disse ella.—Que ha de mais natural? Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o mesmo pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe deviamos... visto que vae partir.

E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de recriminação, que feriu Augusto.

—E é certo que quer partir?—perguntou Angelo.

—Sim... parto...—respondeu Augusto, perturbado.

—Mas por quê? Que significa essa resolução? Lena contou-me ha pouco tudo. Eu nada sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame, e em nossa casa! Mas, já resolvemos; ámanhã, eu e Lena, havemos de falar, havemos de conseguir...

—Não, Angelo. É inutil. Deixe-me com o meu destino. É a elle que eu obedeço.

—Não fala verdade,—acudiu a morgadinha—diga que obedece á sua phantasia, e commette uma ingratidão.

Á palavra «ingratidão», Augusto não pôde reprimir um sorriso de amargura.

—Uma ingratidão, sim—repetiu Magdalena, respondendo com firmeza e serenidade áquelle sorriso.—Ha dias, depois de uma scena dolorosa para todos nós, quando saía do Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel fatalidade, encontrou alguem no limiar da porta, que lhe pediu que não partisse sem se despedir... de quem através de tudo, o acreditaria innocente. E para esta pessoa não houve uma só palavra na carta de despedida que mandou a meu irmão! E escreveu-a sobre o tumulo de minha mãe!

Estas palavras fôram ditas com tão sentida commoção, que Augusto esteve quasi a lançar-se-lhe aos pés, para pedir perdão; reteve-se, porém, e respondeu turbamente:

—Porém, minha senhora, por essa occasião eu jurei tambem á pessoa de quem fala, e a quem serei sempre grato, que não procuraria tornar a vêl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de todos digno da sua generosa confiança.

—Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser visto?—perguntou Magdalena, sorrindo.—Veja qual d'esses juramentos será mais em harmonia com os seus actos.

A lembrança da excursão nocturna aos Cannaviaes, para espiar Magdalena, tirou a Augusto o animo de responder.

Magdalena comprehendeu aquelle embaraço, e não insistiu.

—Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as provas da sua justificação?

—Não, minha senhora, parto, porque desisto d'ella. Basta-me estar justificado para com a consciencia.

—Não tem direito para o fazer. Uma alma, que é nobre, deve homenagem a si propria. Resignar-se á suspeita, é como um suicidio moral.

—Justamente, minha senhora; e não concebe que haja casos em que o suicidio seja natural?

—Meu Deus, Augusto—exclamou Angelo—como eu o estranho! o que o levou a esse desespero?

A morgadinha sorria, ao responder ao irmão:

—É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale com franqueza, sr. Augusto? Tenho um secreto presentimento a dizer-me que, apesar d'essa descrença, apesar d'essa carta, e apesar de estar por minutos o momento da partida, não só não partirá, mas até ha de tomar parte na nossa primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina.

Estas ultimas palavras fizeram impressão em Augusto, que instinctivamente repetiu:

—Do proximo casamento de Christina?!

—Pois não sabia que Christina vae casar?-perguntou Magdalena com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto.—É verdade, o sr. Henrique de Souzellas teve pressa de legitimar o titulo de primos, com que arbitrariamente nos tratavamos.

Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expressão, dizendo:

—Quê?... pois é com Christina... pois Henrique vae casar com...

Só depois de lhe romperem dos labios estas palavras, é que, reconhecendo a indiscreção da sua surpresa, accrescentou com mal simulada indifferença:

—Ah! não sabia!

—Devéras? Pois não tinha ouvido falar d'este casamento? Oh... querem vêr que suppunha tambem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque o Cancella tambem estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n'elles!

E, mudando de inflexão, proseguiu:

—São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as circumstancias em que isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na capella-mór da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fôra rezar, pela saude de Henrique, as estações da meia noite; onde Henrique foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; intervenção algum tanto perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas intenções de que as de qualquer dos tres, e que, ao vêr-me em tão extraordinario sitio, a taes horas, não me concedesse a confiança precisa para acreditar, através de tudo, na minha innocencia.

A allusão era clara, e mais clara a fazia a inflexão com que foi pronunciada.

Augusto curvou a cabeça e murmurou:

—Tem razão, algum miseravel.

—Ou algum infeliz—corrigiu delicadamente Magdalena.—Os infelizes são tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mal isso?

Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse mais jovialmente:

—Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei?

Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha animo nem razão para dizer que partia. Calou-se.

Angelo, a cuja prompta intelligencia não tinha ficado latente o verdadeiro sentido d'este dialogo, graças tambem ao conhecimento que elle tinha, havia muito, do coração de sua irmã e do de Augusto, respondeu por elle:

—Não te enganaste, não, Lena. Tambem eu já digo que Augusto não partirá.

E Augusto sem protestar!

Magdalena tornou-se de subito mais séria e grave do que até alli, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmão, dizendo:

—Para vir aqui, pedi o auxilio do teu braço de creanca, Angelo, como se fôra o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da mesma maneira, emquanto não termino a minha missão. Ha pouco, depois que me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que tencionas fazer?» Não é assim?