O dinheiro paga tudo,
Não se fica a dever nada;
Toma, toma o limão verde,
Ó da fresca limonada.
E logo em seguida estalaram as taboas do soalho
no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e
no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura
agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da
Ermelinda. Cancella, ou o João Herodes, que assim
tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos
em que era actor applaudido e popular, o typo do
sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela
natureza
dotado de uma estatura e robustez, dignas
de Adamastor.
Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas
realisações
dos temperamentos sanguineos que, sem
ameaçarem de insultos apopleticos, dão riqueza ao
sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto
e colorido da saude e os reflexos da satisfação
interior.
A barba negra e espessa cercava-lhe as faces
córadas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado
sob o duplo arco de bastas sobrancelhas,
que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras
ameaçadoras, d'onde fuzilavam relampagos. Era formidavel
então!
O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na
presença de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras
de alvissimos e bem dispostos dentes, d'esses que
os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram.
Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes
lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume
na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais
que tudo trazia na memoria—a filha.—Esta, pela
sua parte, mal o reconheceu, correu a lançar-se-lhe
nos braços.
O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna,
levantou-a á altura dos labios e pousou-lhe nas faces
dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes
de todo aquelle intenso amor paternal.
—Ah!—exclamou, pousando-a no chão e respirando
como quem acabava de satisfazer uma intensa
necessidade do coração.—Isto consola que nem o
copo de agua que a gente, em dias de calma, pede
á borda da estrada, quando se leva a bôca secca
e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem
estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?...
Ó sr. Augusto! tambem por cá?
—Esperava-o, Cancella.
—A mim?—continuou o homem, pousando no
chão uma mala que trazia.—Pois aqui me tem. Mas,
dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa
no que lhe irá por casa, sente ás vezes uns
sustos,
que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgraças,
para succederem, não põem muito... De
um momento para outro... E depois a gente ouve
por lá conversas, vê coisas que parece que
são
agouros... e que nos fazem a noite no coração...
Umas vezes é um enterro... outras, um desastre...
um fogo... um... E as creanças sós, e os paes
fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o
coração de
uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia
me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante lá a
sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram já
hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem
de bem: a comadre é uma santa, que só tem o
defeito
de querer ser santa devéras... mas emfim...
tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber
o que lhe vae por casa, outra... Tremem-me as
pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma
de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando
me vem dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro
o coração, que ninguem faz uma ideia; eu bem
canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha
alma, quando me passa pelo pensamento que te
posso um dia vir achar doente!... Assim me succedeu
com tua mãe... Deixei-a uma vez tão satisfeita
e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa
que encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha,
sr. João, venha, que já não vem sem
tempo. Corra
a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como
se recebesse uma descarga em cheio no peito...
corri, e...
A commoção impediu-o de continuar;
disfarçou
como envergonhado d'aquella fraqueza, beijando a
filha outra vez.
Ermelinda percebeu a perturbação do pae e
disse-lhe
carinhosamente:
—Para que está agora a pensar n'essas coisas
que o affligem, meu pae?
—Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem
faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te
vejo, pequena, e te vejo com boas côres e alegre...
nem eu sei o que tem mão em mim, que não me
ponho a dançar. Ah!... ah!... Ninguem tem uma
filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto; mal fica
a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto
ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha
loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados?—e
passava com orgulho os dedos pelos bastos
cabellos de Ermelinda—mas uma pelle assim
delicada,—e afagava-lhe com as mãos a face, quasi
a mêdo—mas olhos assim a metterem-se mesmo
pelo coração á gente?—e beijava-lh'os
com paixão—isso
é que eu ainda não vi, nem tenho de
vêr.
Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um
selvagem como eu, é que não sei... É a
imagem
da mãe!... Ella tambem era poucochinho de si...
miudinha e... Mas não pensemos n'estas coisas.
Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal
com a minha vida por arranjar e eu posto á taramela.
Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e
muitos recados, muitos.
—Já sei; Angelo escreveu-me.
—Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle!
Aquillo é uma perola! Com tres milheiros de demonios
do inferno! d'alli ha de sair coisa grande. Eu
não queria morrer sem vêr o que saía
d'alli. Brinca
como uma creança, mas, quando quer, põe-se
sério,
e fala como homem. E nada de soberbas, nem de
ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da
cidade, quando conversam com uma pessoa rustica...
Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta...
isso é um nunca acabar, quando lá me
pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se
já
se fez aquella casa, e se já acabou aquella obra, e
se já casou este, e se inda vive aquelle, e mais para
aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado...
Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois
cá a respeito da rapariga?... Isso é uma
comedia!...
Não se farta de me ouvir falar d'ella... Ah,
sr. Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto
nascesse minha filha.
Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.
—Sim, filha,—proseguiu elle.—Deus não te devia
dar a um homem como eu, que emfim... Com
os diabos! lá alma e coração...
não quero que
haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um
amigo... e com mil demonios, até por um inimigo,
se não fôr soberbo, vamos lá, dou a
camisa do corpo...
Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo.
Vamos á minha tarefa. Mas que tem você
estado para ahi a prégar, compadre, desde que eu
entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou
a gloria, hoje, visto que já se está ao
sermão.
Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido
ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno
de mão, e voltára de novo ás suas
queixas amargas
contra a sorte e contra a esposa.
Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu
uma das suas lamentações; o compadre, emquanto
desenfardelava a mala, ia cortando com reflexões
proprias essa longa jeremiada.
—Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo,
hein? É mal feito, a falar a verdade. Lume apagado
em casa de familia é coisa triste... Aqui está um
livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre,
que a minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas
berças... Tambem eu estou em jejum desde
as cinco horas da manhã... mas estes missionarios!
Ah! com seiscentas mil duzias de demonios,
eu ainda queria um dia...
—Deus nosso Senhor seja n'esta casa—disse
uma voz gemida á porta da cozinha.
—E o demo na do abbade—resmungou Herodes.
Era a sr.
a Catharina do Nascimento de S.
João
Baptista, typo de beata, que dispensa descripção,
que regressava a casa depois de completar o cyclo
das suas devoções.
—Viva a comadre!—disse o João Cancella, continuando
a mexer na mala.
Ermelinda foi beijar a mão á madrinha.
Augusto saudou-a affavelmente.
O marido obrigou o corpo a uma meia rotação
sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe,
agitando os braços e as mãos, espalmadamente
abertas:
—Mulher dos meus peccados, mulher de não sei
que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher!
Isto não pode continuar assim, mulher! Eu
não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias
na igreja, mulher!... Isto são preparos,
mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo
por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir
nove missas por dia e uma duzia de novenas!
—Cala-te, cala-te,—retorquiu azedamente a devota
metade do Zé P'reira—cala-te para ahi, desalmado.
Excommungado seja o mafarrico, que assim
me quer attentar logo que entro em casa! Olha
lá que não morresses de fome! Estás
mal acostumado.
Louvado seja Deus! Já não ha quem queira
soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que
não
tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira
dar só o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno.
Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia!
Ora que não ha de uma pessoa poder
ter as suas devoções, que não venha
encontrar lamurias
em casa! Ó minha rica Mãe do
céo, seja
para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo
mau! E eu que deixei de rezar oito estações,
que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora
digam como ha de esta gente cumprir os jejuns
que manda a santa madre igreja, se, por duas horas
de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado
seja o sacratissimo coração de Maria!
Ó homem
de Deus, e então aquelles santos eremitas,
que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...
—Que lhes prestasse. Haviam de andar muito
gordos. Eu queria-os vêr com uma enxada a trabalhar
todo o dia no campo, e que lhes dessem depois
raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores,
que é forte desgraça a minha! Mulher, a
religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É
má christã a mulher que deixa o seu marido na
penuria. Isto é que os padres deviam ensinar. Vae-lhes
lá perguntar se, quando chegam a casa, não
teem a sôpa e o toucinho á espera d'elles?
—Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te,
tem vergonha n'essa cara. Olha agora! Eu queria
vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos.
Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até
agora a confessar!
—Confessar é parolar; ora adeus!
—Tu estás doido, alma perdida?!
—E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?
—Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda
mais terei de ouvir?!
—Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns
ninguem engorda. Só os santos... de pau.
—Vamos, vamos—disse o Herodes, intervindo.—Não
vale zangarem-se por causa d'isso. A minha
pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em
santa paz e deixem-se de testilhas, que não é
bonito;
e muito menos entre marido e mulher. Você,
compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos
lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa
tambem bastante tempo em devoção; emquanto
á
comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus
não é tão difficil, que uma pessoa
precise de estar
tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu cá penso que,
fazendo a gente aquillo que lhe diz o coração, e
que
não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho
direito. E mais vale fazer o que Deus manda,
do que levar a vida a pedir perdão por o não
ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as
mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario,
como lapas nos rochedos, nem...
—Compadre!—atalhou escandalisada a sr.
a
Catharina—compadre!
É essa a educação que dá
á
sua filha? São coisas que se digam deante de uma
creança de doze annos? Ande lá, ande
lá... Ora
Deus queira que lhe não encontre ainda o pago.
Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse
ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o
pouco que sabe d'ella.
—Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda
não deixa passar pobre á porta, a quem
não dê esmola; creança que
não afague; velho ou
velha, que não corteje; reza todas as manhãs a
oração,
que a mãe lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria,
onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus;
de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher
de casa que ha de ser... O Senhor me perdôe,
se mais é preciso ainda, que mais não sei eu
ensinar-lhe.
—Não tenha soberbas, compadre, não tenha
soberbas!
E cautela com o mimo que dá á pequena,
que é o que perde muitas almas.
—Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio
de repentes é que hei de dar mimo a esta pobre
creança, que nem o da mãe conheceu!
—Ora diga, compadre, acha que é muito bem
feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses
cabellos soltos? Não sabe que o demonio...
cruzes! arma com elles laços ás almas das
creaturas?
—Fracas prisões são as do diabo, se as forja
só
de cabellos!... Então, por causa das
tentações é
que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas!
É teima velha! Eu já lhe disse, comadre:
Deus, que deu á pequena esses cabellos tão
bonitos,
é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que lh'os tire,
eu é que não.
—Deus cerca-nos de tentações, para que
nós as
vençamos.
—Forte tentação venceu a comadre! aposto que
os não cortaria assim, se os tivesse como os da
minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha
filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma
d'essas cabeças tosquiadas, que por ahi andam!
—Talvez ainda se arrependa!
—Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto
de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha
pequena, e não figuras... respeitaveis, como a
da comadre; ora então...
A beata, apesar de trazer sempre na memoria o
Vanitas vanitatum do
Ecclesiastes, não foi
inteiramente
insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe
o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe
como para descarregar sobre ella a má vontade
com que estava ao pae:
—Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha
muita pressa de jantar! Deixar assim uma creança
fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um
boi! É preciso não ter consciencia.
E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar
o dicto.
Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava
examinando o livro recebido.
Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo
d'aquella creança, que era de uma
organisação nervosa,
excepcional na aldeia, exercia a beata uma
especie de fascinação, um mixto de respeito e de
terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus
labios infantis. Era outra na presença da madrinha,
fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os
bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o
movimento dos labios austeramente contrahidos;
tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando
nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão
que d'ella recebia, e comtudo amava-a,
amava-a, porque Ermelinda na sua candura de
creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe,
como virtudes beatificantes, os defeitos da
devota velha; a innocente julgava-se uma grande
peccadora quando, depois de ter na mente aquelle
perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo
da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados
lá encontrava! Uma pequena mentira que
dissera; um domingo em que faltou á missa; um
juramento que, sem o sentir, lhe saira da bôca;
um jejum que não guardára, e outros crimes da
mesma fôrça. A amedrontada creança
chegava a
receiar pela salvação da alma.
É sempre funesta a influencia que exercem sobre
a infancia os caracteres como os da beata.
O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava
a filha e acudiu-lhe.
—Toma lá, Ermelinda—disse elle, tirando da
mala uma pequena medalha com um retrato.—É
um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou
antes, para ti...
Ermelinda pegou no retrato com não reprimido
alvoroço. Era outra vez a creança.
A madrinha lançou para a medalha um olhar
obliquo e reconheceu o retrato.
—Em nome do Padre e do Filho e do Espirito
Santo!—rompeu ella, com um espanto exaggerado.—Este
homem não tem a cabeça no seu logar, por
mais que me digam! Elle quer perder a filha de
certo! A fazer a cabeça doida a uma creança!
O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com
impeto a mala no chão, e com os olhos chammejantes
e as faces injectadas, vociferou, cedendo o
campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:
—Com seiscentos milhões de diabos! Você que
está ahi a dizer, mulher? São os
sermões dos missionarios,
que lhe teem assim afiado a lingua e deitado
peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou
mais pela creança, de quem é aquelle retrato, do
que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados
todas as semanas e por quantas beatas andam
comsigo a dar marradas no lagêdo da igreja. Fazer
a cabeça doida á minha filha! Tenha
mão na lingua,
comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a
trazem a vossemecê os missionarios e os sermões.
Seu marido fôra eu, que a mania lhe tirava.
O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos,
zelava a dignidade do casal; e não levava á
paciencia que outro, além d'elle, dissesse d'aquellas
verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através
dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se,
e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando
sempre, bradou:
—Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres!
Compadre, prudencia!... Compadre, eu não
consinto... Ora, senhores, que é forte coisa! Compadre!...
veja que eu é que sou aqui o chefe da
familia e esta é minha mulher! Pschiu... Basta...
Compadre... basta. Então? Ora, senhores.
Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais
lhe crescia a vermelhidão nas faces; a
irritação rompera
os diques da cordura e ameaçava engrossar
cada vez mais. Ás exclamações de
Zé P'reira respondia
já azedamente.
—Ora adeus, temos conversado... Seja homem,
que bem precisa... Não basta dar á lingua... Na
taberna não é que se governa a casa...
A sr.
a Catharina abstinha-se agora
prudentemente.
Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi
chorando.
Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda,
conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe
difficil a empreza.
Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um
o sangue, a outro o vinho.
Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os.
Deram-se mutuas satisfações, e separaram-se
apertando as mãos.
Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.
O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre
elles a interminavel contenda em que viviam.
VIII
Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de
escutar, ainda por muito tempo, as vociferações e
pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
do compadre, que assim deixára a mulher tomar
sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil.
Augusto ouviu tudo com resignado silencio e
attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim
a custo soltar-se das mãos do seu interlocutor, que,
no fogo da exposição de tão justos
aggravos, lhe
segurava os braços com pouco affavel vivacidade;
a final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.
Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto
quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras
e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
Era alli o seu logar de descanço; a escola era
em outra casa vizinha. N'esta não havia, a amargurar-lhe
as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem
as do supplicio.
Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor
da humanidade, só entrevês delicias na tarefa do
ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito
infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez
no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro
de phantasia, perdôa-me a palavra, supplicio,
de que me servi, e perdôa ainda mais ao caracter
de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te
feriu os humanitarios instinctos.
Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre:
e que é uma graciosa e amoravel idade a da
infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
presente o ideal de uma e amenisavam á outra com
branduras os amargores do penoso tirocinio;—mas
que importa? nem por isso é menos real o
supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura
das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer,
vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco,
os rebentos do grão que o calor fez germinar, e volverem-se
as folhas, estenderem-se e enflorarem-se
os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das
tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto
de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o
terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados,
muita vez lhe fallece o alento, e se olha de
quando em quando para o céo, não é
para lhe agradecer,
com risos os gôsos que elle lhe dá; mas para
lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que lhe
mingúa.
De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias
o vêl-as desenvolver, florir, fructificar; ardua,
improba, desesperadora é muita vez a tarefa
da sua primeira educação. É mister
possuir um
grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho
typo, que da infancia concebemos, não se transtorne,
na phantasia d'estas victimas d'ella, em não
sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena
todos os momentos de alegria.
Além d'isso, o pobre professor de
instrucção primaria,
sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos
da instrucção, não pode ser
comparado
absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes
o jornaleiro contractado por magro salario, para,
á fôrça de braço, lavrar o
solo, d'onde, mais tarde,
romperá a vegetação, que elle
não terá de vêr e que
a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu
tambem o humilde professor, e por o mesmo preço
que o jornaleiro, que não vão mais longe com elle
as liberalidades dos nossos governos, venceu as
maiores cruezas do magisterio; mas não verá
tambem
o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias,
que educou, justamente quando com
mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva
a qualquer d'essas intelligencias um futuro
de glorias, raro é que volvam um olhar agradecido
para as humildes mãos, que as sustentaram, quando
ainda não tinham azas para voar.
Quasi todos os grandes homens commettem esta
ingratidão. Falam nos seus mestres de philosophia,
de mathematica, de litteratura, e não salvam do
esquecimento,
pronunciando-o, o nome do primeiro
mestre, do que os ensinou a ler.
Considerações da ordem das que acabamos de
fazer, quero acreditar, não são as que mais
preoccupam
o pensamento da maioria d'esses pobres
diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram
ligar á atafona do ensino primario da aldeia;
porém devem ser, além das miserias de
tão mesquinha
sorte, causas de grandes torturas moraes
para alguma alma de instinctos e aspirações mais
elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo,
a este poste de expiação. N'esse caso estava
por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que
os livros abrem ás imaginações, que na
vida real
não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas
em que as suas obrigações lhe permittiam
respirar.
D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado
saborear esse prazer.
Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas
e chamou-o de fóra uma voz bem conhecida d'elle.
Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
—Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto.
Amice! Pode falar a um amigo e
colega?—dizia
elle.
Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um
gesto de enfado.
O latinista entrou esfregando as mãos.
—A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado
aos livros!—dizia elle, batendo no hombro a Augusto.—Invejo-lhe
mais a pachorra do que o proveito.
Olhe que não medra com isso; nem ninguem
lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por
dois dias que um homem passa cá n'este mundo,
tolo é o que se mata. E então n'este paiz!...
Faça
como eu.
E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu
instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros
que via sobre a mesa.
—Então que estava lendo? que estava lendo?...
Poh! poh! poh!... Versos... Ora que nunca pude
gostar de versos!... Poh! poh!... E não é agora
porque se diga que não tinha quéda;
não, senhores;
em tempos fiz até algumas quadras... Poh!
poh!... já se sabe, até certa idade, mas nunca
fui
muito para ahi... Poh!... A minha vocação
é para
a musica... Poh! poh!... Lá para a musica,
sim... Poh! poh! poh!... Herman e Dorothéa—continuava
elle, examinando os livros.—Novellas...
Poh!... E isto que é?
Confessions de Rousseau—n'este
nome deixou aos diphtongos o valor portuguez—Poh!
poh! As Metamorphoses... Latim!
Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!...—E o
Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi
arremessado
como se estivesse em braza.
Augusto não pôde conservar-se sério,
ante o instinctivo
movimento de repulsão do mestre.
—Então que boa fortuna o traz por aqui, sr.
Pertunhas?—perguntou elle.
—Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É
para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu
bem sei que é abusar da sua bondade...
Quousque
tandem, Catilina... Mas, é por esta vez...
—Já sei; quer que lhe vá dar
lição aos rapazes.
—Ah! grande maganão, que adivinhou—exclamou
o mestre, abraçando Augusto com
effusão.—É
isso mesmo, se lhe não custasse...
—Irei.
—É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao
ensaio da philarmonica... Percebe o senhor? Os
Reis estão ahi á porta e as outras festas do
Natal, e
não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho
ainda umas peças do
Trovador para ensinar á
minha
gente. São muito bonitas... Poh! poh! poh! E
então este anno, que pelos modos temos cá o
conselheiro
e mais o pequeno... Não contando com
esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se
Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da
D. Dorothéa, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro.
Lá chamam-lhe primo. Esteve lá esta
manhã
um par de horas, logo que saiu da minha
repartição.
Dizem-me que é filhote de Lisboa, solteiro, rico
e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida!
Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente
muito feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira
a visita d'este senhor? Aquillo é mosca que vem
ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
d'isto. Pois não lhe parece, hein?
—Não sei bem o que quer dizer com a imagem—respondeu
Augusto, levemente enfadado.—Além
de que não posso adivinhar as
intenções de um homem
que pela primeira vez encontrei esta manhã.
—Pois está claro que não; nem eu; mas emfim
uma pessoa logo tira pelo que vê... Ora pois diga,
um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa
musica,
et coetera, andar leguas e
leguas para se
metter n'este desterro... Porque isto é um
desterro. Sim, deve concordar que não é natural.
Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha,
et coetera...
O senhor
bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao
dinheiro, meu amigo.
A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
Augusto, que não redarguia.
—Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já
depois de ámanhã vae o rapaz
acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas agora
me lembro! o senhor é tambem da sucia.
—Eu?!
—Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das
pequenas para o convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha
de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e verá se eu tenho
razão.
—Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me
chamou a criada—disse Augusto, erguendo-se como para fugir
áquella conversa.—Em seguida irei aos seus rapazes.
—Então vá, vá. Deus lhe pague o favor
que me faz e permitta que eu lhe não peça muitos
d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com ideias
de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o
outro, a encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o
conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que
não tenha influencia em eleições. O
sr. Joãozinho das
Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por outro
lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se
consigo pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas
vá, vá jantar, que eu espero.
—Se quizer fazer-me companhia...
—Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a
minha hora. Jante á sua vontade.
Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só,
deu algumas voltas cantarolando, sentou-se
depois, e pegando na pasta de Augusto,
poz-se a examinar os papeis que ella continha.
Ao mesmo tempo simulava umas variações de
trompa, á fôrça de
contracções e esgares dos labios.
A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a
mesma que Augusto trazia, quando o vimos no
Mosteiro.
Entre os documentos contidos n'ella algum achou
o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas
e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o, desenhou-se-lhe
no semblante a mais intensa curiosidade
e cessou de todo a exhibição acustica, que
com tanto ardor encetára.
Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois,
olhando em volta de si, para verificar que não era
observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu
no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no
sitio d'onde a tirára, continuou a ler ou a fingir que
lia com toda a attenção um livro e encetou novas
variações de trompa.
—Então já! Apre! Isso é jantar a
vapor—disse
o latinista, pondo-se a pé, logo que Augusto voltou.
E momentos depois sairam juntos.
Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir
a uma lição de latim e a um ensaio da
philarmonica,
deixal-os-hemos ambos, para voltarmos
ao Mosteiro.
Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as
duas primas sentadas ao parapeito do muro da
quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos,
a vista se espraiava em amplissimo horizonte
até umas nuvens, que pareciam limital-o.
D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias
da sesta habitual. As creanças brincavam a alguma
distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham
como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas
raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam
em meditativo silencio.
A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se
estreitos e longos traços nebulosos, a
que o sol dava um colorido tão ardente, que se o
pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria,
ao passal-o á tela, com receio de que o acoimassem
de exaggerado. O verde dos campos apresentava a
gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de
inverno costuma dar-lhe.
Christina interrompeu o silencio por fim.
—O que eu não sei—principiou ella—é como
o primo Henrique de Souzellas...
—Onze!—atalhou a morgadinha, sem desviar
os olhos do ponto da perspectiva, que fitava.
—Onze quê?—perguntou Christina, erguendo os
d'ella.
—Com esta são onze as vezes que, esta tarde,
depois de um longo silencio, abres a bôca para
me falares no primo Henrique de Souzellas, uma
vez que está decidido que seja primo.
Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.
—E então que queres dizer com isso?
—Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.
—Não sabia que era prohibido falar-te no primo
Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa.
Está um tempo muito bonito: nem parece dezembro.
—Não; vae magnifico para os nabaes—replicou
Magdalena zombeteiramente.
—Se não mudar com a nova lua—continuou
Christina, ainda formalisada.
—É excellente para seccar os milhos, que bem
precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras
baixas.
E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha
desatou a rir.
—Não sei de que te ris!—acudiu Christina, cada
vez mais séria.—Pois não é esta a
conversa de
que tu gostas?
—Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de
lavoura; bem sabes.—E, mudando repentinamente
de tom, accrescentou:—Ora vamos, Christe; não
te zangues commigo.
—Não, mas é que ás vezes
não te entendo, a falar
verdade. Vens com umas coisas que mettem
raiva—respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
—Já estou arrependida; peço perdão.
Fala lá á
tua vontade no primo Henrique, fala; que eu não
contarei as vezes que o fizeres.
Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
—Agradeço a tua generosidade, mas já
não tenho
mais que dizer d'elle agora; por isso...
—Pelo menos completa a duzia.
—Lena! Então! Olha que se continuas com isso,
fazes-me sair d'aqui.
—Sempre queria que te vissem agora, Christe,
esses que andam por ahi a gabar a docilidade do
teu genio, as branduras da tua indole; queria que
te vissem essa cara arrenegada, para saberem que
tambem ha um acidozinho na tal doçura... Mas
fazes-me a graça de só para mim teres d'essas
franquezas.
Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada,
ao ouvir esta reflexão da prima.
—E não sabes a razão d'isso?—respondeu-lhe
ella—a razão é o genio que tens, Lena. O teu
gôsto
é mortificares uma pessoa. Não ha santo que
não
perdesse a paciencia comtigo.
—Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a
victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo
te junta no coração a todo o instante! Se
alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas
para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar
as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E
pagas-me
assim!
—És muito infeliz commigo. Pobre Lena!
—Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu
disse ha pouco. Não te posso vêr assim.—E tomando
um tom natural, mas sob o qual transparecia
ainda certa malicia, Magdalena continuou:—Pois
é verdade, dizias tu que não sabias por que o
primo Henrique de Souzellas...
Christina fez um movimento impaciente, como
para levantar-se.
—Então que é isso? Não me acceitas a
expiação?—perguntou
Magdalena, sorrindo.
—Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique
de Souzellas. Vejo que te não é agradavel que
as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
razões que tens para isso...
—Bravo! Foi admiravel de maldade o entono
com que disseste esse: «Sejam quaes forem as
razões.»
E venham-me falar na candura d'esta creança!
—Eu não quero dizer...
—O que queres dizer, não sei; mas vejo que não
és senhora tua quando se fala n'este assumpto.
—Que lembrança!—tornou Christina, cada vez
mais embaraçada—pois imaginas devéras que eu?...
—E por que não?
—Lena!
—Não ha nada mais natural.
—Se queres, juro-te...
—Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão
nos labios.—Isso não, que é mais
sério. Jurar não
te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua consciencia,
e não quero obrigar-te a remorsos.
«Juro!» E
com que ousadia ias pronunciar um juramento
falso!
—Falso!
—Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha
pobre Christe, queres então que te fale com
toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
proposito para confirmar umas suspeitas, que se
me formaram e que vejo agora que eram fundadas.
—Suspeitas! que suspeitas?...
—O primo Henrique de Souzellas deixou em ti
uma tal ou qual impressão.
—Lena!
—Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o
depois e agora. Então! tem juizo. Commigo
sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito
do privilegio de conversar á vontade comtigo e de
te vêr sem aquella timidez que tens deante dos outros.
Com o teu genio, precisas de uma pessoa,
como eu, com quem não tenhas acanhamento e em
quem possas até descarregar algumas maldadezitas;
e acredita que me lisonjeio com me dares a
preferencia.
—Mas como imaginaste?...
—Continuas? Não tens de que te envergonhar
pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz.
Henrique de Souzellas é elegante, é espirituoso,
affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito
trato do mundo...
—Mas...
—Faça favor de me ouvir—atalhou Magdalena,
pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas
essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero
por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te
já. E nem receio que isso aconteça,
para te falar sinceramente, porque te conheço o genio
timido e porque... porque te conheço o genio
timido e mais nada.
Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa
que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique
não saíra d'aquella primeira visita demasiado
impressionado
por a imagem de Christina; sabia talvez,
suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que
lisonjeada algum tanto, que no coração do hospede
de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente.
Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu
pensamento, ella o poderia formular? O remedio
pois era completar a phrase como a completou.
Christina já não tinha ousadia para negar, nem
ainda coragem para confessar. Encostando a face
á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.
A morgadinha proseguiu:
—É preciso que saibas, Christe, que é mais facil
conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas
boas qualidades. Os defeitos são imprudentes e linguareiros,
denunciam-se, dão signal de si, basta
meia hora para se descobrirem em qualquer logar
que habitem. As boas qualidades, não; essas são
modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se.
São precisos annos para as descobrir todas. Mas
com que olhos de espanto me estás fitando! Parece
que te causa estranheza o meu sermão? Eu te digo
a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo...
e quem sabe se o futuro virá confirmar, em
relação a mim, esse titulo, que por phantasia lhe
dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...;
mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me
aos olhos muitos dos seus defeitos.
—Quaes são?—perguntou Christina com viveza.
—Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me
que os poderá ainda perder; sobretudo se continuar
a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
que no fundo havia uma mina de bons sentimentos
por explorar. Nasceu logo em mim a vontade
de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que
n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres?
para a aldeia era um passatempo como outro
qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi
a impressão que este sobrinho da tia Dorothéa te
causára.
—Lena! Como te deu para suppôr que eu me
apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me
imaginas apaixonada?
—Não, ainda não; inclinada, agradada,
attrahida...
ou outro qualquer termo d'esta fôrça, que
deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não
é
preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei
isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem.
Suppõe que foi por um tacto especial, por uma
qualidade occulta, como a do tino que dizem que
teem certos medicos para reconhecerem o mal sem
estudarem muito o doente.
—Pois o tino enganou-te.
—Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este
senhor primo intruso fôr realmente o que eu imagino
que é, resta-me preparal-o para o tornar mais
digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso
favorecerei; se não fôr, declaro-lhe já
guerra e guerra
de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a
mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade
e boa fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que
o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente
o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso,
certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e
em muitos individuos differentes, para se ter na
conta devida. Illude, agrada a quem não está
costumado,
e pode causar graves enganos e desenganos
mais graves ainda. Por emquanto o que elle
nos mostra é mais da sociedade em que vive, do
que d'elle proprio. É necessario deixar cair a primeira
capa, para que o natural appareça.
—Não sabia que era assim facil enganar-se uma
pessoa a respeito de outra—notou Christina, sorrindo.
—Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta
tua mãe? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou
lá por bom preço um cofrezinho que ella suppunha
preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação,
desde que o verniz brilhante, que elle tinha,
caiu e ficou á vista a realidade? pois o mesmo
acontece muitas vezes em contractos de outra ordem
e bem mais sérios do que este. Ha vernizes
maravilhosos, que illudem os inexperientes.
Houve um instante de silencio, no fim do qual
Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita
para Magdalena:
—Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual
eu não devo acreditar que esses pensamentos te
occorreram, porque era o teu destino, e não o meu,
que vias dependente do estudo que fazias?
A morgadinha fixou na prima um olhar triste e
cheio de amargas recriminações.
—Por uma razão muito poderosa, Christe, porque
ias abrir o coração a um sentimento mau, que
macularia o teu caracter generoso e candido—a
desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da
lealdade, com que te falo, quando te falo séria; e
porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente,
pois que a consciencia me diz que t'o
não merecia. Satisfaz-te esta razão?
A voz de Magdalena perdera o tom de ironia,
que ás vezes tinha, e tomára quasi o da
commoção.
Christina arrependeu-se logo do que dissera, e,
tambem commovida, apertou as mãos da amiga.
—Não faças caso do que eu disse, Lena;
perdôa-me.
Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus
que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para
sempre, envenenado o coração.
A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom
humor.
—Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela!
Saldemos antes as nossas contas, como mulheres
de juizo. Em compensação da pequena offensa
que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão
formal, a qual até agora tens evitado. Ora confessa,
adivinhei o estado do teu coração? Dize.
Christina hesitou.
—Vamos,—insistiu a morgadinha—acredita que
preciso de uma declaração para me guiar... E
crê
que é para bem teu.
—Que queres que te diga? Eu não me sinto
apaixonada.
—Mas já te disse que me bastava um termo
menos violento... um «agradada», por exemplo.
—Confesso que...
—Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse
«confesso que...» já diz muito. Agora
deixa-te
guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não
corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que
ha alli um excellente coração, mas que queres?
Não é o typo que me agrada... o meu ideal como
se costuma dizer.
—E então qual é o teu ideal?
—Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o
encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo
S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
e não sei onde o procure.
N'este sentido se prolongou o dialogo entre as
duas primas, até que D. Victoria, findando a sua
sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o costume,
ralhava contra os criados, a quem, não sei
por que processo, attribuia umas dôres de cabeça
com que acordára.
No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao
Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena,
a qual redobrou de ironia. Christina já mal podia
disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era
attendida, mas a sua timidez não a deixava luctar.
De tarde, Henrique teve de condescender com o
padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou
a mostrar-lhe as raridades e monumentos da
terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado
a renunciar á nova visita ás senhoras do
Mosteiro,
para gastar as expressões da sua
admiração deante
das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
de não sei que imagem de santo, a qual passava
por um primor; de uma sala nua, com uma
mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras
á volta, que era a sala das sessões do corpo
municipal;
e de umas pyramides de ripa, que tinham
servido, havia oito annos, em festejos officiaes.
Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde
deliciosa.
IX
Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle
que se destinára para o passeio á ermida,
Christina foi mais madrugadora do que as aves.
Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear,
já a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa
de se fazer esperar pelos companheiros da
projectada excursão matinal. Quasi não dormira
toda a noite aquella rapariga, com tal
preoccupação.
As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito
tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem
discretas ante o apparecimento do dia.
Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto
de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de
passeio á ermida não a
alvoroçára tanto. Christina
foi acordal-a ao leito.
A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada
na prima.
—Que queres tu, Christina? Que lembrança foi
essa hoje de andares estremunhando a casa esta
noite?
—Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia
eu hontem? Então são estas as madrugadas em
que falavas?
—De certo que não são madrugadas; isto
é
noite é o que é.
—Dentro em pouco é dia. Queres vêr?
E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas
das janellas e correu as cortinas.
A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e
ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes
assiste no crepusculo ás melancolias da natureza,
outras vezes na aurora ao renascimento dos seus
jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
—Vês?—disse Christina.
—Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae
alto! É pena que não alumie melhor do que esta
lamparina.
Christina sentia redobrar com estas delongas a
sua impaciencia, quasi de creança.
—Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr
do alto da ermida o romper do sol.
—Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade!
Em uma manhã de dezembro!
—Está tão bonita, que parece de primavera.
—Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos
este passeio. Isto é lá coisa que se
faça?
Vale por uma viagem aos pólos.
Christina não fazia senão ir do leito de
Magdalena
para a janella e voltar da janella para o leito,
em virtude d'aquella irresistivel necessidade de
movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
quando nos deixamos apossar da impaciencia.
—Não fazes ideia como está bonito cá
fóra; n'alguns
pontos ainda se vê neve.
—Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda
se vê neve!... Parece-me que já estou gelada...
Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando.
Vês?
—Mas não está frio; até parece que
aqueceu o
tempo. Então, Lena!... Elles... não tardam por
ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um engano;
aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.
—Ora, mas tu estás em condições muito
particulares.
Quem tem uma fogueira no coração, não
precisa...
—Ahi principias com as tuas coisas!
—Eu não sei; o que é certo é que esse
teu enthusiasmo
pelos passeios matutinos não é natural.
Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando
eu t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu
explico
isso.
—Não quero saber de explicações;
veste-te, anda.
—Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi
d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz
acompanhar. Não, que já tem juizo; dorme a estas
horas o somno da madrugada, que é uma
consolação.
Que sorte de invejar!
E a morgadinha, continuando assim a exaggerar
o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos
secretos a que attribuia o ardor e heroicidade
da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto
de proposito para a vêr impaciente, principiou a
vestir-se.
Christina ficára á janella, espiando os
progressos
do amanhecer e transmittindo á prima as
observações
que fazia.
—Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir
o portão... Não ouves os pardaes?... É
dia claro
já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que
não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has
de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae já o
Luiz com o almoço. É que não chegamos
lá senão
ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
—Elle! Quem é esse elle que vem ahi?
—Pois quem ha de ser? Então não é o
primo
Henrique que nos acompanha?
—É o primo Henrique, é o sr. Augusto e
é o
Luiz, que tua mãe teimou em mandar com o almoço.
Não sabia qual dos tres te merecia as honras
de um «elle».
—Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no
pateo—disse Christina, que n'esta occasião correspondia
ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
fazia de baixo.
—Então, com effeito já chegou?—perguntou a
morgadinha, admirada.—Bravo! Nunca o esperei.
Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem
alguma coisa no coração!
—Tambem o julgo—respondeu Christina, despeitada;—é
vêr como hontem te falou.
—Socega. Quando o coração tem alguma coisa,
não se fala assim com a pessoa que causou esse mal.
—Não sei o que elle me está a dizer—disse
Christina, olhando para o pateo.—Posso abrir a janella,
Lena?
—Eu já estou preparada para soffrer todas as
crueldades esta manhã. Abre lá a janella, abre.
Fala-lhe.
Christina correu a vidraça.
A voz de Henrique chegou distinctamente aos
ouvidos de Magdalena.
—Então aquella grande madrugadora da nossa
prima, onde está?—perguntou elle a Christina.
Christina respondeu, sorrindo:
—Está a fazer a diligencia que pode para ficar
prompta antes do meio dia.
—Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou
da minha indolencia!—disse Henrique jovialmente,
e continuou falando sempre de Magdalena,
e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente
a ella, mas sempre sem receber resposta.
Esta insistencia impacientou Christina, para quem
elle nem um galanteio tivera ainda.
—De maneira que nós, priminha—continuou
Henrique—damos uma lição de mestre
áquella
arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella
nos appareça; quero vêr a coragem, com que ousa
apresentar-se.
—Eu vou chamal-a—disse sêccamente Christina,
e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que
não podia escapar a esta:—Olha se appareces alli
ao sr. Henrique de Souzellas, que não descança
emquanto
te não vê.
A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho
as tranças, dando ao penteado a mais singela e
graciosa disposição, voltou-se para a priminha e
disse-lhe sorrindo:
—Isso são já ciumes? Mal sabes quanto
gósto
de te vêr assim! Ao menos ha já vida n'esse teu
coração, minha pobre pequena. O que te
peço é que
não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de
perguntar por quem não via.
—Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
—Amores? justo; e com a mesma felicidade em
acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me
que ahi está mais alguem no pateo. Ouço falar.
Vae
vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se
só por
mim para completar a caravana. E eu estou prompta.
Marchemos.
Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
Henrique trocára com elle alguns cumprimentos,
e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado
do outro, á espera das que deviam ser-lhes companheiras
na romagem.
A conversa manteve-se pouco animada. Augusto
não era expansivo com as pessoas, a quem o não
prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
talvez por não conhecer a extensão e natureza dos
conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos
assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram
pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi
frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no verão,
nos prós e contras da vida do campo e de varios
outros assumptos sêccos de si e já além
d'isso muito
esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios
constrangidos e insupportaveis, que o leitor
ha de conhecer por experiencia.
Digamos nós a verdade; estes dois homens não
sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel
sympathia, que abre os corações e dá
margens a
confidencias.
Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se
entre elles certa frieza mais que ceremoniatica,
uma quasi desconfiança instinctiva.
Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com
prazer por ambos. Ainda quando não fôssem senhoras
o seriam; a chegada de um terceiro, quando
dois indifferentes estão na presença um do outro,
em entrevista forçada e fatigadora, é sempre
saudada
interiormente como uma redempção.
Magdalena e Christina vinham ambas formosas,
com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam,
adequados aos rigores de uma manhã de dezembro.
Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando
proximo do quarto de D. Victoria, pé ante
pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e
mesmo
do leito perguntou-lhes:
—Então já vão, meninas?
—Vamos, tia; vamos, mamã—responderam as
duas a um tempo.
—O Luiz já partiu com o almoço?
—Já partiu, já, minha senhora.
—E ides agasalhadas?
—Como se fôssemos para a Siberia—respondeu
Magdalena.
—Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por
cautela. E ide com Nossa Senhora.
—Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.
—Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae
lá, não vos estafeis.
Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para
quê? Com uma manhã d'aquellas, que nem de inverno
parecia, pois que até o frio abrandára com o
vento! Por isso é que vinham ainda a rir.
Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois
companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio
a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente
o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
porque se lembrou de Christina.
—Muito obrigada, primo,—disse ella com
vivacidade.—Mas
é preciso que o advirta de que não
vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
trepar montes, atravessar ribeiras, costear
precipicios,
e para tudo isso é necessaria a
completa
liberdade de movimentos. Ha occasiões, em que
melhor nos servem os nossos dois braços, do que
o braço de outro, embora seja o de um heroe.
—Mas de certo que não é á borda dos
precipicios
que esse auxilio se escusa—replicou Henrique.
—É, muitas vezes é. Ha bordas tão
estreitas,
que mal cabe n'ellas uma pessoa só; felizmente que
a natureza nos dá um braço então... um
braço
de giestas, por exemplo.
—Vê lá, Lena,—disse Christina ao ouvido da
prima.—Talvez seja melhor que acceites. Resta-me,
a mim, o braço de Augusto.
—Se continuas com essas loucuras, Christina,
obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto—continuou voltando-se
para este—espero que tome a direcção do
nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais
bellos pontos de vista; leve-nos por lá, embora tenhamos
de comprar as bellezas á custa de perigos
e de fadigas. Partamos!
O monte onde se erigira a capella da Senhora da
Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria
n'um circulo de muitas leguas de raio, era
uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias
ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe
aos pés as alcatifas da mais rica
vegetação;
banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas
e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas
e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem,
recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro
aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza,
em vez de cobrir os hombros com o manto
real, que lhe estendiam aos pés, permanecia aspero,
severo e nú, como nas épocas primitivas, em que
uma convulsão tremenda o evocára do seio da
terra,
para o consolidar em colosso.
Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a
fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo,
a piedade christã plantára em volta da
ermida,
para refrigerio e conforto dos devotos christãos
que alli iam. Era custosa a ascenção por o lado,
por onde os nossos romeiros, contra os conselhos
de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair
de uma longa rua, apertada entre muros de quintas,
Henrique achou de subito deante de si a mole
immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia
além do Rocio os seus passeios, com medo das
ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um
absurdo.
Parou a contemplar o monte, como hesitando em
atravessar o riacho, que d'elle o separava.
O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos
dias anteriores, levantava um bramido atordoador
ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido
pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja
enorme roda movia.
Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada,
este sitio da raiz do monte tinha não sei que aspecto
selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor.
Os altos choupos, em que se enroscavam, como
serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos
das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente
ao perpassar através d'elle a briza da madrugada,
e, aqui e além, um d'esses degenerados
aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como
se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria,
eram accessorios que concorriam para o effeito geral
do quadro.
A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique,
deu-lhe alento com lançar-lhe em rosto a sua
pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou,
com não menor denodo do que os outros,
o riacho, por o passadiço de altas pedras, collocadas
a pequena distancia umas das outras, e que as
aguas a cada momento ameaçavam cobrir.
Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte;
para isso tornava-se indispensavel caminhar em
continuados zigue-zagues, aproveitando os córtes
que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella
massa granitica e os toscos degraus, com que uma
arte rudimentar procurára facilitar, por aquelle lado,
o accesso da ermida á piedade dos devotos.
As difficuldades para Henrique eram continuas.
A cada momento os embaraços d'este forneciam
motivo para risos da parte de Magdalena. Christina
não lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo.
Para compensar as fadigas de tão trabalhosa
ascensão,
havia porém, a paizagem, que, a cada passo
andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia
mais surprehendente e maravilhosa.
Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um
brado de admiração.
As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram
bastantes para velarem a belleza do quadro.
Á medida que os nossos quatro peregrinos iam
subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte;
avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se
os outeiros vizinhos, e os campos tomavam
a apparencia dos canteiros de um jardim.
Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle
espectaculo lhe causava.
—É magnifico! é admiravel! é
soberbo!—dizia
elle, a cada momento e quando não era inquietadoramente
preoccupado com os perigos do caminho.
O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo!
Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a
melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie,
se ia dissipando á medida que subia a encosta.
Magdalena e Christina tambem não estavam menos
impressionadas por o que viam. Esta, porém,
tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos
de pela manhã.
Henrique continuava a ser todo attenções e
galanteios
com Magdalena; parava a cada momento
n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a
ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as
reflexões que o aspecto da paizagem lhe suscitava e
nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos,
quasi achava a manhã desagradavel e o sitio feio e
sombrio.
A morgadinha respondia sempre em curtas phrases
a Henrique e recusava insistentemente o auxilio,
que elle lhe offerecia.
—Estou a suspeitar que esses offerecimentos do
primo são mais devidos á necessidade, que sente,
de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar—disse
ella sorrindo.—A falar verdade, para
quem tem passado a vida a trilhar os passeios do
Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um
pouco de alpestre. Adeante.
E de uma occasião, em que estava perto d'elle,
disse-lhe a meia voz:
—Pode ser que Christina careça mais do seu
braço, primo. Ainda não teve a
lembrança de lh'o
offerecer.
Henrique só então deu por esse esquecimento;
apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina
tambem o braço, que esta recusou, córando.
—Então por que recusas?—perguntou-lhe a
morgadinha, em voz baixa.
—Porque não quero abusar da delicadeza d'elle,
nem da tua.
A morgadinha abanou a cabeça em ar de
reprehensão,
fitando-a, mas não lhe disse nada.
Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio
em torno d'elles. Já tinham passado acima dos rumores
do valle, que não subiam a mais de meia
encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo
annunciava o proximo apparecimento do sol.
—Chegamos a tempo!—exclamou Magdalena
que, deitando a correr, fôra a primeira que attingira
a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.
Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao
pé d'ella.
Houve um longo espaço de silencio, concedido
espontaneamente á contemplação
d'aquella perspectiva
solemne.
As primeiras palavras, que se disseram, foram
ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente
lhes damos, quando na presença de um espectaculo
grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco:
não se formulam longos periodos de aprimorado
estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples
phrases, como estas:
—É bello!
—É magnifico!
—É sublime!
E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na
occasião de que falamos. E eu, por analogas
razões,
os imitarei, desistindo de descrever o que só bem
se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto
de todo o panorama. O leitor, que nunca visse
alguma scena similhante, não a imaginaria pela
descripção,
forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse
d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá
bem a lacuna.
Desvanecida a primeira impressão, que não deixa
ao espirito a serenidade precisa para os processos
da analyse, principiaram, como é costume, a fazerem
notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada
familiaridade entre os quatro.
Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos;
Magdalena dos seus projectos e desconfianças;
Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua
frieza.
—Lá está o Mosteiro—disse Magdalena, apontando
para o logar indicado.—Como parece pequeno,
visto d'aqui!
—É verdade—respondia Christina—e olha, Lena,
como se vêem bem as janellas do teu quarto.
—Lá está aquella que tu abriste esta
manhã para
cumprimentares...
Sentindo a mão de Christina
comprimir-lhe o
braço, concluiu:
—Para cumprimentares a estrella d'alva.
—As janellas do quarto da mamã julgo que ainda
estão fechadas.
—Tanto não posso eu distinguir; comtudo
afianço-te
que sim. A tia Victoria não é muito matinal.
—Aquella casa acolá não é a de
Alvapenha?—perguntou
Henrique, apontando n'outra direcção.
—É—respondeu Augusto—e, mais adeante, alli
tem a deveza, em que passou ante-hontem. Não é
verdade?
—É justamente. Com effeito! Foi um soberbo
passeio, o que eu dei! D'aqui é que se vê.
Lá vejo
umas prêsas, por onde me lembro de ter passado
tambem.
—Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella
ao lado?—perguntou Magdalena, apontando para
um ponto distante.
—Perfeitamente.
—É a minha quinta dos Cannaviaes.
—Ah! É verdade, lá estão
uns cannaviaes, se
me não engana a vista.
—Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella
capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.
—Sim? hei de visital-a.
—Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da
meia noite, é concedido—disse Christina, fitando
d'esta vez Henrique, com a expressão da mais insinuante
sinceridade.
—Que quer dizer o voto da meia noite?
—Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e
sósinha,
sete estações no altar da Senhora—continuou
Christina.
—Só isso? Boa é de cumprir a promessa.
Já vejo
que não ha aqui na terra desejo que se não
satisfaça.
—Mais devagar,—acudiu Magdalena, sorrindo—pouca
gente se atreve até a ir lá á meia
noite,
porque a alma de minha madrinha passeia a horas
mortas por a sua antiga casa, dizem.
—Cada vez sinto mais desejos de lá ir—accrescentou
Henrique, depois de ouvil-a.
—Além, entre aquellas arvores, sr.
a
D. Magdalena,
vive um philosopho—disse Augusto, indicando
outro ponto de perspectiva.
—É verdade; o bom do tio Vicente.
—Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos
mais algum tio, com que eu possa augmentar o
meu parentesco na aldeia?
—O tio Vicente é um santo velho, que se occupa
a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios,
que dizem milagrosos. Ainda é nosso parente,
mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe
tio, assim como quasi toda a gente por
aqui.
—Que sombras negras são aquellas que se vêem
no adro da igreja?—perguntou Christina.
—Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um
cordão de formigas—disse Henrique de Souzellas.
—São as mulheres que vão ouvir o
missionario—respondeu
a morgadinha.—Escutem, lá está a
tocar o sino.
Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis
mas sonoras badaladas do campanario da aldeia.
—A estas horas
principiam as
lamentações
d'aquelle pobre Zé P'reira, que tão mal olhado
anda
por a mulher, desde que ella deu n'essas
devoções—notou
Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena
domestica a que na vespera assistira.
—Degenerou aquella mulher!—disse Magdalena—e,
se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto,
custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue
assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena
é tão apprehensiva!
—Visto isso, já chegou aqui á aldeia a
influencia
dos missionarios?—perguntou Henrique.
—E não tem lavrado pouco!—tornou Magdalena.
Christina, que era um poucochinho devota, censurou
timidamente as palavras da morgadinha.
—Primo Henrique—disse ella—julgo que ainda
será preciso o seu auxilio para livrar do contagio
esta innocente Christina.
—Prompto, prima Magdalena; para as boas causas
tenho sempre armada a minha vontade.
—Olha, Lena, não vês?—exclamou
Christina—são
os pequenos que nos estão a dizer adeus das
janellas do mirante.
De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se
uns lenços brancos.
Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem,
de longe, a irmã e a prima. Estas tiraram
tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.
Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
—Annuncio a v. ex.
as, que chega o rei da
creação.