Effectivamente o cume do telhado da ermida e as
franças despidas da alameda já se tingiam de luz.
Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o
uma esplendida faixa de purpura, que,
em insensivel graduação, desmaiava para as
extremidades
até se perder de todo no azul-celeste.
Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento
do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado
e vermelho, como um escudo de metal candente, e
logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir,
e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao
qual se rompessem as prisões que o retinham.
O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo,
estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.
Nisto appareceu do outro lado da capella um
dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que
o almoço estava prompto.
—Pois devéras temos um almoço?—exclamou
Henrique, sinceramente surprehendido.
—Graças á previdencia de minha tia, previdencia
de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada
a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares
do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter
aberto o appetite—respondeu Magdalena. E logo
após continuou para Henrique:—Agora é
occasião
mais accommodada de pôr em prática os recursos
do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a
intenção de lhe render a ella a fineza, que assim
declinou na prima, teve de condescender, limitando-se
a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar
que Magdalena fingiu não perceber.
E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar
onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre,
estava disposto o almoço.
D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de
emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia
da louça e o bem disposto e apurado das iguarias
convidavam.
Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto
de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria
um fastio mórbido, correspondente a lesão
organica
e como tal sem poesia.
Henrique e Augusto principalmente fizeram, como
era natural, justiça á cozinha do Mosteiro.
Henrique, que parecia haver esquecido as suas
mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente.
Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de
Henrique; este riu com vontade das que ouviu a
Augusto.
A morgadinha, por sua propria mão, preparou o
chá.
N'estas alturas do almoço encetou novamente
Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por
muito tempo não sabia prescindir.
Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a
santa harmonia do congresso. Parecia que todos os
outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.
Henrique ficára sentado junto da parede da capella.
Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a
saborear um charuto havano, descobriu umas letras
escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
—Bravo!—exclamou, depois de as ler para si—não
imaginava que havia poetas na aldeia! Querem
ouvir?
E leu:
Se estás mais perto do céo
N'estas alturas da serra,
Ai, porque tens, peito meu
Inda saudades de terra?
Em vez-de erguer os olhares
Á luz d'este firmamento,
Desço-os á sombra dos lares,
Onde tenho o pensamento.
—É pena que a chuva apagasse o resto. Quem
é o bardo, prima?
—Não sei; da aldeia de certo que não
é—respondeu
Magdalena, com indifferença.
Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a
alameda.
—Da aldeia, não, diz a prima; e por que não?
Com esta natureza é facil crearem-se os poetas. Eu
estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance.
Aqui a serra de algum Bernardim inedito,
tão capaz de escrever saudades, como de as sentir.
Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta
trocava os esplendores do céo... algumas d'essas
casas, que ahi se vêem em baixo. Quem sabe se
não será até o Mosteiro? Eu, por mim,
confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra
companhia—accrescentou,
olhando significativamente
para a morgadinha-não teria dúvida em subscrever
esta quadra, como a exacta expressão do meu
sentir, porque...
Em vez de erguer os olhares.
Á luz d'este firmamento
Eu tambem...
Os abaixaria aos lares
Onde tenho o pensamento.
Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter
com Augusto á alameda.
Magdalena, que a seguiu com a vista, não
disfarçou
um gesto de despeito ao ficar só com Henrique.
—Prima Magdalena,—disse em tom mais affectuoso
Henrique, passado tempo, e depois de mais
algumas palavras—deixe-me falar-lhe com franqueza,
agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha
dois dias; eu, porém, sinto-me tão seguro
já do que
lhe vou dizer, que não hesito. Não pode imaginar
a
indelevel recordação que me ficará
d'esta manhã.
—Perdão,—atalhou Magdalena—diga-me primeiro
o que é isso que me vae dizer. Prepara-se
para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis;
gosto de estar prevenida do sentido das
felicitações
que me dirigem, para ir preparando uma resposta
adequada.
-Que prazer tem em ser cruel!
-Deixemo-nos de loucuras—continuou Magdalena,
séria já.—Quem ouvisse o sr. Henrique de
Souzellas havia de suppôr que se preparava para
me fazer uma declaração.
-Uma declaração do mais puro affecto, do mais
sincero
sentimento, por que não?
-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas
intenções,
peço-lhe desista d'ellas.
—Por quê?
—Porque não posso escutal-o.
—Ou não quer.
—Ou não quero; seja.
—Teria eu a desventura de chegar tarde, prima?
Acaso o seu coração já...
—Que impertinente pergunta? Se
já, não tenho
ainda no sr. Henrique a necessaria confiança para
o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de
hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.—E
accrescentou logo depois:—Christina, anda
ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
Henrique.
—Que vae fazer?—perguntou-lhe Henrique, admirado.
Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique
não desviava os olhos da morgadinha que,
sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:
—O primo Henrique falava com certa exaltação
da doçura do teu caracter; o meu amor proprio
disse-me que—era pouco delicado estar assim a
lisonjear uma mulher na presença de outra—e redargui
por isso, pondo em dúvida a asserção e
affirmando que havia um fermentozinho de maldade
na tua doçura. Elle nega por impossivel, eu
insisto e estamos n'isto. Agora dize tu.
Christina córou intensamente e não teve que
responder.
Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou
ouvir algumas que, pelo sentido e inflexão, com que
foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente
a posição, em que Magdalena o
collocára,
e respondeu:
—Venci eu! O facto de querer a priminha poupar
uma réplica amarga á
accusação que lhe fazem,
é a mais eloquente prova, já não digo
só da doçura,
mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê,
prima Magdalena, que «quando uma das mulheres
que diz, fôr como a nossa boa Christina, não se
podem
admittir essas revoltas de amor proprio, a que
alludiu.»
A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido
d'estas ultimas palavras; mas fingiu não comprehender.
Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou
os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso
lhe dissipava um pouco dos labios a grave expressão
que lhe era habitual, temperando-a com não
sei que de ironico, que não escapou tambem a Henrique.
Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por
momentos, sem que nenhum parecesse disposto a
baixar-se deante do outro.
Desviou-os porém uma dupla exclamação
de Magdalena
e de Christina, dizendo:
—Olhem o tio Vicente por aqui!
Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina
da ermida, e approximava-se da mesa do almoço,
o velho herbanario, em que já temos falado
no decurso dos passados capitulos.
X
Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.
A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos
ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia,
permanentes indicios de habituaes meditações
e por ventura de passados infortunios, elevavam
aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os
annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares
haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
os habitos de solidão, que adquirira, a pouco
e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem do
velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam
o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam,
a ninguem permittindo sondar os mysterios
que guardam comsigo e para si, e creando para
uso proprio regras de viver, sem attenção
ás convenções
sociaes.
Era um enigma vivo.
Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de
nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas
com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava
as maiores attenções e canceiras.
Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera
nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder
do sol, ir procural-o á isolada casa em que vivia,
escondida n'um quintal, que era cultivado com todo
o amor pelo velho.
Em todos os casos intrincados vinham consultar
o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia,
em caso algum recusava o alvitre.
Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha
nem methodo, de uns alfarrabios herdados de
um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal
digeridas noções de sciencia, de que se mostrava
orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de
jurisprudencia, outros de logica e de astronomia,
constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os
livros mais predilectos e consultados contava um
exemplar da
Polyantheia de Curvo
Semedo.
O herbanario principiára em creança uma
educação
tal ou qual, que revézes de familia haviam interrompido.
Os meios conhecimentos, que das suas habituaes
leituras extrahira, e os erros, que de taes livros
assimilára, eram os elementos, com que chegou a
architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava
por maravilhosa.
E o caso era que a fama do homem voára de
freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e
de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
Os costumes do velho, que errava por valles e
montes á procura dos simplices, cujas occultas virtudes
conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade
da physionomia, a franqueza, sem contemplações,
com que dizia quanto pensava, tinham gravado
fundo na imaginação popular aquelle typo,
para ella quasi lendario.
Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu
familiarmente a mão a Augusto, que lh'a apertou
com affecto.
—Bons dias, rapaz,—disse o velho; e, dirigindo-se
a Magdalena e Christina, accrescentou com
maneiras paternaes:—Adeus, pequenas; grandes
madrugadas hoje!
Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com
olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando
por lhe dizer simplesmente:
—Guarde-o Deus!
Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
Sem mais o attender, Vicente voltou-se para
Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para
Henrique, e referindo-se a elle:
—Quem é?
Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
—O homem que, melhor que ninguem, está habilitado
a responder a essa pergunta.
O velho nem sequer o olhou.
—Este senhor—respondeu Magdalena—é sobrinho
de D. Dorothéa; está hospede em Alvapenha.
Veio para aqui restabelecer-se da saude.
Vicente tornou a examinar Henrique.
—Então é doente?... Não parece...
Olhar vivo...
Côres boas... voz sã... Umh!...
Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes
do velho estavam desagradando a Henrique;
por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:
—A doença d'este senhor é um pouco de
imaginação.
—E grandes effeitos nascem d'ahi—acudiu sentenciosamente
o velho.—Lá veem na
Polyantheia
muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de
que morreu. Pois tanto scismou que das amoras
lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo
uma pedra do feitio de uma amora.
—Com effeito!—disse Henrique, com ironica
expressão de pasmo—ahi estava um cerebro de
concepções rijas!
—É divertido!—disse Vicente, com ligeiro sarcasmo
e olhando para Magdalena.
—Pelo contrario—acudiu a morgadinha—o seu
mal é a melancolia. Não é verdade?
—Eu já não sei qual é o meu mal.
Estou quasi
a dar razão á tia Dorothéa, que lhe
chamou mania.
—Mania e melancolia não são a mesma
coisa—emendou
o velho.—Tambem lá na
Polyantheia se
diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem furia,
porque procede de humor frio, e a mania de
sangue quente ou cólera requeimada.
—De cólera requeimada? Deve ser uma coisa
terrivel!—continuou Henrique, no mesmo tom.
Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios
de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou
a este:
—Parece-lhe que terá cura a doença?
—Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam.
Este é divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas
e manias não ha como as folhas de ouro em
caldo de frangão com flores de borragem e de herva
cidreira.
—Este é como os calvos, que vendem aos outros
pomadas para fazer nascer o cabello; é um
argumento vivo contra a efficacia da beberagem
que receita para as manias—disse Henrique a meia
voz para Augusto, que lhe ficava proximo.
O velho, que não tinha ainda dado mostras de
offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique,
córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago
de irritação.
Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso
da sua dignidade.
—Está bom, menino,—replicou elle
amargamente.—Não
diga mais, para se não envergonhar
depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
costumado a vêr pobres e ricos virem a minha
casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim
ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não pedir.
Seja attencioso com a velhice que não é baixeza
nenhuma. Mas que é isto?—exclamou, mudando
de tom e olhando para um redemoinho de
folhas sêccas que o vento trouxera até perto
d'elle.—As
folhas veem d'este lado! Então virou o vento?
É verdade. Ah! sim?... Percebo.
E, depois de olhar para o ar, continuou:
—Mudanças tão repentinas!... Umh!...
Já
me não agrada aquelle azul e aquellas nuvens.
E levantou-se.
—Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto
e quem sabe o mais que virá! Aconselho-os a que
vão descendo o monte, que não é seguro
descel-o
quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim,
já me não demoro, que não tenho
confiança na firmeza
das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata,
em que archivava as hervas medicinaes e outras
substancias, que andava colhendo, e partiu, depois
de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
Logo que o herbanario desappareceu, Henrique
soltou uma risada, em que parecia haver o que
quer que era de forçado.
—É realmente curiosa esta antigualha—disse
elle, que interiormente sentia já remorsos pela maneira
por que tratára o velho.
—Ai, primo Henrique; que ainda está muito
pouco preparado para viver na aldeia!—disse a
morgadinha.—Tem uns melindres e uma maneira
de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de
attenções,
propositos de offender! depois ha um sarcasmo
cruel nas suas palavras, a que os espiritos não
estão aqui habituados e de que
se
sentem
por
isso feridos. Isso não é bom! Se vae assim, ou
terá
de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças
suscitará
por ahi. Não repara que estes modos são proprios
do campo?
—Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso
que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos.
Deve confessar que este homem...
—É um homem de bem—atalhou Augusto com
voz firme e com uma severidade de expressão, que
até alli não mostrára ainda.
Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio.
Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.
—Não o nego—respondeu Henrique, pouco depois—mas
infelizmente os homens de bem envelhecem,
como os outros, e a extrema velhice traz
a imbecilidade.
—Engana-se; esse homem, apesar de algumas
phantasias, tem ainda um juizo são e uma razão
clara.
—Acha?—tornou Henrique, já algum tanto azedado.—Ha
de dar-me licença de não fazer obra
por as suas apreciações... se me é
permittido.
—Procede mal—redarguiu Augusto.—Porque
eu conheço aquelle homem ha muito e o senhor
acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o
senhor quem primeiro deu ás suas palavras um
tom irritante, que desafiou uma digna correcção.
Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso.
A consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor
do que eu.
—Lê fundo nas consciencias dos outros!
—Não é difficil. Em todos os homens a
consciencia
tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o
mal, aponta sempre a culpa.
—Estou admirando a subita loquacidade que se
lhe manifestou! Até aqui suppunha-o taciturno. Vejo
que lhe mereço a fineza de abrir uma
excepção aos
seus habitos de laconismo em meu favor. Muito
agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos
moraes? Não reparei.
Augusto córou, mas respondeu com firmeza:
—Nem uma nem outra coisa; é um genero muito
mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente
um preceito de civilidade.
Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e
tornou com dobrada ironia:
—É verdade, é verdade... esquecia-me que a
civilidade entra no seu programma... de mestre-escola.
—Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam
o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos
e descalços, mas n'esse ponto podem dar
lições a
elegantes filhos das cidades.
—Pois estimarei, nas minhas longas horas de
ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas lições
tambem.
Comtudo, como, felizmente, as circumstancias
em que estou me permittem prescindir do beneficio
do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que
pague as lições que receber.
—Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa
do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a...
sem sacrificio.
—E acceita-a em toda a especie de moeda, não
é verdade?—perguntou Henrique, cada vez mais
petulantemente.
Augusto respondeu com a mesma serenidade:
—Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto
que me fique o direito salvo de pagar na mesma
especie de trócos, quando julgar que os devo.
O dialogo ia, como vamos vendo, de momento
para momento adquirindo mais acerbo caracter.
Christina, que já tremia de assustada, cingiu o
braço de Magdalena, como para convidal-a a intervir.
Esta não o tinha ainda feito por uma simples
razão.
Desconhecia Augusto. A audacia com que o
via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso,
que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram
tão novos para a morgadinha, que a surpreza, que
d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
de uma intervenção. O aviso de Christina
chamou-a, porém, á realidade.
—Tem-me querido parecer, ainda que me custa
a acreditar, que isso entre os senhores é uma
altercação—disse
ella por fim.—Vejam que só teem
por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem
servir de padrinhos, se a contenda tomar outra
feição. Por isso não é
muito para louvar a escolha
que fizeram da occasião, para uma justa tão
pouco... amavel.
—Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha
culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o
sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o
seu pensamento, quiz estender até mim este despotismo
de...
magister... Ora o meu
pensamento
pugnou pela sua independencia...
—Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de
pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse
modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que
levianamente formou de quem lh'a não merecia.
Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que
quizer. Mas o que eu não soffro é que se diga
deante de mim uma palavra contra um homem
que respeito e de quem sou amigo, sem que erga
a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo
por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade
de o fazer, lastimo-o; é porque não os
tem.
—Com mais paz de espirito se discutirá tudo
isso depois—disse Magdalena.—É de crêr que,
como sempre, haja de parte a parte razão e aggravos.
Agora convido-os, antes de descermos, a visitar
a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite,
aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal é
o prestigio que a defende, que não consta de um
só roubo sacrilego, que se fizesse n'ella.
Entraram na ermida. Era um pequeno santuario,
todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas
pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando
episodios da Paixão; os altares, adornados
de columnas e florões de talha dourada, attestavam
nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e
nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de
vista a dos desenhos chinezes e que representavam
milagres de todo o genero, a fé ardente com que era
adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade
manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua
mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em
torno, da altura a que se erguia, do isolamento em
que estava.
Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes,
Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros
dos milagres; Christina, que prolongára mais
do que a prima a oração que fizera, contemplando
a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos
nas columnas do altar, porém, não sei se pensando
n'ellas.
Esperava-os uma surpreza á saida.
Realisára-se o prognostico do herbanario.
O vento sul que, segundo elle notára, soprava já
havia algum tempo, viera condensar os vapores,
que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar
com elles a limpidez do firmamento. O azul do
céo semeiára-se, pouco a pouco, de pequenos
flocos
brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados
veios que lhe davam uma apparencia
quasi marmorea. Cêdo estas massas de nuvens
cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando
por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento.
Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas
e mais escuras, começaram a erguer-se do
sul e caminharam impetuosas no espaço, como
montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira,
de encontro ás serras, que as aguardavam
firmes.
Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem,
quando sairam da ermida.
—Depressa!—exclamou Augusto—já não ha
tempo a perder! Desçamos antes que a tormenta
nos colha.
—Tem medo?—disse Henrique em tom de mofa.—Um
montanhez!
—Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que
não é de inimigo pouco digno de o inspirar. Por
agora peço-lhe tréguas ás zombarias e,
por amor
d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por
apressar a descida. Felizmente que o criado já partiu.
É um embaraço de menos. Vamos.—Detendo-se,
porém, disse para Magdalena:—Se descessemos
por o outro lado, minha senhora?
—Para quê?—respondeu esta.—É um momento,
emquanto chegamos abaixo.
A tempestade caracterisava-se cada vez mais;
crescia a cerração do ar; os álamos
gemiam, vergados
pela impetuosidade das lufadas do sul; a
chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou
assustadoramente; havia na atmosphera
surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
nuvens tomavam uma côr terrea, outras um
carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras.
Christina, pallida de susto, murmurava em voz
baixa orações fervorosas; Magdalena sorria para a
animar, mas ella propria estava inquieta.
Não era de facto uma empreza de todo facil o
descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho,
já de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel
quando as correntes se despenhavam por
elle, como em catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se
furiosos de encontro ás arestas salientes
da rocha.—Era necessario estar muito amestrado
para o descer sem perigo.
Augusto era de todos o que melhor o conseguiria;
assim não tivesse de repartir os seus cuidados
por tantos. De pequeno se costumára áquellas
aventuras;
e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita
borda dos despenhadeiros do monte.
A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma
actividade e pericia, que inspirava alento e confiança
aos mais. Agil, como um animal montez, girava
em volta da pequena caravana, de que tacitamente
fôra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir
os passos pelos logares de mais facil transito, ora
á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira
em embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita
vez chegou a levantar nos braços, para a fazer franquear
um ponto do caminho, em que ella parára,
sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na
humidade do chão. O proprio Henrique, que não
era o menos embaraçado do rancho, e nem isso
admira, só a custo podia prescindir, em certos lances,
do auxilio de Augusto.
O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha
iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria.
Nenhum dos seus muitos talentos e aptidões,
de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das
salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a
sua inferioridade n'este momento; ora Henrique não
era homem que, tendo consciencia disto, ficasse
indifferente; mas que remedio? Procuraria mais
tarde uma compensação.
Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa
descida, alguns dos quaes sómente a
preoccupação,
em que iam os animos, impedia achar risiveis;
porém que mais tarde deviam, como é costume,
vir a ser alimento de animadas e joviaes
recordações.
Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em
que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente
desciam, uma ribanceira quasi a pique e
erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em
cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as
giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido
vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo
a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear
no espaço arremeçou-a ao abysmo.
Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém
em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer
lado que se tentasse.
Magdalena, no momento, não pôde reter um grito,
que fez parar com terror Henrique e Augusto
que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças
ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas,
sorria já do seu exaggerado susto.
A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo
sobresalto que involuntariamente causára.
—Descança em paz!—disse ella, olhando para a
mantilha; e accrescentou:—Sigamos.
—Mas não será possivel tiral-a
d'alli?—perguntou
Augusto, examinando o sitio.
—Para quê? Não podemos demorar-nos agora
com isso—respondeu Magdalena.
—Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos
Moinhos e volto n'um momento—insistiu Augusto,
dispondo-se a executar o que dizia.
Henrique notou, sorrindo:
—O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os
montanhezes não eram de tão bom aviso.
E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por
quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo
á influencia que sobre elle exercia a fascinadora
figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a
uma desnecessaria imprudencia.
Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem
qualquer reflexão, deixou-se escorregar no despenhadeiro,
segurando-se com as mãos á borda do
caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades
da rocha, até conseguir firmal-os; segurou-se
ora a uma raiz saliente, ora a um ramo
mais tenaz; á fôrça de vontade dominou
a sua impericia
em exercicios d'esta ordem, e finalmente
conseguiu, estendendo o braço, segurar a mantilha,
que o vento arrojára ao precipicio.
Depois, com dobradas difficuldades e por ventura
redobrados perigos, pôde, roçando-se como reptil,
e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e nos
espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar
outra vez os pés em terra, sem acceitar a mão que
Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou
a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto
um olhar de triumpho.
Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado
sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento,
quasi gelados de susto e de espanto.
Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto
meneou a cabeça murmurando:
—Que imprudencia!
—Na verdade!—disse Magdalena, ainda nervosa
com a impressão que este incidente lhe
causára—foi
uma loucura; uma loucura imperdoavel.
E a perturbação era tal, que nem acertou com
uma phrase de agradecimento, com que pagasse a
imprudente galanteria, que mais desejava reprehender,
do que recompensar.
Esta reserva offendeu Henrique; serviços
a
seu
vêr de menor importancia, tinham
merecido a
Augusto mais calorosas palavras.
Revoltou-o esta ingratidão.
Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato,
não concedendo sequer um olhar ás faces
desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e aos
olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava
Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto
e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella
que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desespêro
de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas
loucuras!
Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer.
Com a fôrça das enxurradas, que se precipitavam
clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel
que a levada que corria na raiz do monte tivesse
engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte
rustica, que á vinda já tinham encontrado quasi
submersa.
Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras,
dizendo:
—Eu vou adeante assegurar-me do estado da
ponte, para no caso de estar já coberta, como é
provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do moinho,
a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar,
que eu volto.
—Então deixa-nos
sós?—exclamou Christina,
assustada.
—É um instante.
—Não sei se nos atreveremos a dar um passo
sem a sua indicação—disse Magdalena.
—O peor está passado. Além d'aquella pedra
já
vêem o ribeiro e a
ponte; o caminho indica-se
por si.
E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie
de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa
o devia conduzir ao logar que demandava.
Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena.
Christina fechava o cortejo.
O mau humor de Henrique augmentára de ponto,
em consequencia dos receios com que as duas raparigas
tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
a direcção do rancho.
Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma
confiança que lhes estava merecendo o auxilio de
Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia,
em vez do papel de protector, o de protegido,
que o humilhava.
Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo
descontentamento,
Henrique perdera com isso aquella
volubilidade de conversação que mantivera todo o
dia.
Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar
tanto tempo sem formular um d'esses galanteios
que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
nem sempre demasiado affavel.
Magdalena, por seu lado, não se sentia com
disposição
para falar. Christina menos.
Este silencio acabou por exasperar Henrique.
Haviam já percorrido grande parte do caminho,
que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas
turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que
nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.
—Estou devéras arrependido, prima Magdalena,—disse
elle com leve ironia—do meu espontaneo
movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos
os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas
como d'aquella vez se me figurou que era demasiado
cauteloso para heroe...
Uma simultanea exclamação de Magdalena e de
Christina não o deixou proseguir.
Voltando-se para saber a causa, que a motivára,
viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade
para a base do monte.
Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique
reconheceu a causa d'aquelle duplo grito.
Refiramol-o em poucas palavras.
Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar
se a ponte estava ou não transitavel, surprehendeu-o
um espectaculo inesperado.
O herbanario que, prevendo tempestade e receioso
dos perigos de que em taes condições a descida
era acompanhada, se apressára a partir, não
conseguira
chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento
da borrasca. O andar vagaroso e precavido
do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para
descançar ou para colher a rara planta montezinha,
o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de
occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia,
foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o
a meio caminho, e mais difficil de descer
lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, não
obstante haver partido antes dos outros, não lhes
levava muitos passos de avanço.
Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do
tosco passadiço, a que se dava o nome de ponte,
cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer
para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada,
agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento
para momento; cêdo já não se viam
signaes
de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima
ficavam-lhe os açudes, transformados em impetuosas
cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes
rodas espumava a corrente com espantoso
fragor.
O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens
o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam
de todo a vista das pedras.
Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz.
Encontrou a primeira, pousou um pé n'esse
ponto; firmou-se como pôde, para resistir á
fôrça
da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra
pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro,
até que de repente, ou por esvaímento de sentidos
ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o
equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.
Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o
pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade
das aguas; reconheceu a urgente necessidade,
para evitar uma horrivel desgraça, de acudir,
sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente
arrastava para os lados do moinho.
Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou,
quasi de um salto, o espaço, que o separava ainda
do ribeiro, e lançou-se á agua.
Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique
tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade
malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se
revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se
sempre n'um palco, deante de espectadores que o
viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel
de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias,
arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria
vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso
generoso, que não pudésse harmonisar-se
com a convenção, que se chama elegancia.
Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára
n'elle.
Augusto era differente.
As suas grandes qualidades guardava-as com
modestia dos olhos estranhos, para sómente as revelar,
quando pudéssem ser uteis.
Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou
temerariamente a vida para a buscar. Procurava
com placidez os meios de o fazer, com mais segurança,
embora com menos romanticismo; mas, para
salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente
nobre e generoso, nada o fazia recuar.
Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o
herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando
emfim com desafogo, respondeu ás anteriores
palavras de Henrique, dizendo em suave tom
de censura:
—Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso
guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida,
quando uma razão de humanidade lh'o pede. A
sua imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a,
mas... não posso approval-a. Confesse que não
foi tão justificada como esta.
Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia
justa para vêr que, apesar da sua façanha
cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda, inferior ao
seu companheiro.
Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta
lhe produzisse, é certo que teve sobre a
rebellião
dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar
a ir apertar a mão a Augusto.
O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo
esforço da lucta com a corrente; ainda assim
abraçou
tambem Augusto, dizendo:
—Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião
de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que
desejava levar da terra, quando a deixasse.
Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro,
os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas
e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
o moleiro, a quem mandaram chamar para
dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a
ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem
ahi dentro mudar de fato.
Augusto seguiu o herbanario a casa.
Passada meia hora saíam tambem do moinho
os outros todos, depois de haverem renovado a
roupa, que a chuva repassára.
No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha
com muitas exclamações e ralhos por
não
terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella
lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram
sobre os criados, a quem, entre outros delictos,
attribuia o de a não haverem avisado de que na
vespera passára por alli o caldeireiro ambulante,
repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico
infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o,
se oppuzesse a tal passeio.
Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não
levantaram menor celeuma, ao vêrem chegar Henrique.
Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
cobertores, emborcaram-o de
punch e
taes mêdos
lhe insinuaram, que as apprehensões pathologicas
de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se
da sua antiga victima.
XI
Censuravel descuido tem sido o nosso em não
conduzir o leitor a um dos logares mais importantes
da aldeia, onde se passam os singelos episodios
d'esta narração.
Que se diria de um
cicerone que, por
esquecimento
ou proposito, deixasse de apresentar um viajante,
recem-chegado a uma cidade, na assembleia,
club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem
as principaes personagens d'ella, onde se compendiam
as grandes questões e interesses locaes,
as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras,
os voluveis caprichos que agitam os espiritos,
onde se commenta o boato de hontem, se dão ao
de hoje mil versões diversas e se adivinha já o
de
ámanhã?
Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando
a este undecimo capitulo, sem ter guiado os leitores
á venda de Damião Canada, a qual podia dizer-se
o verdadeiro coração d'aquelle organismo social.
Tudo quanto na terra havia de certa representação
alli ia falar da coisa publica e tambem da particular;—da
particular dos outros mais do que da
propria, entenda-se.
Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza
após horas continuadas de chuva e de temporal,
como que procurou respirar e permittiu que o
sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto
de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios
amortecidos ás cristas das serras fronteiras; aproveitemos
este intervallo de socego para entrarmos
na taberna.
Tinham passado dois dias depois do passeio ao
monte, que descrevemos.
Henrique de Souzellas teve de condescender com
uma leve angina, que lhe legaram os rigores
d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha, entretendo-se
a escrever cartas aos amigos e a scismar
n'uma imminente desorganisação da larynge, a
que imaginava conduzirem-o os seus incómmodos
actuaes.
No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça
narrar-se ao leitor.
Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos,
e vejamos o que dizem os frequentadores do
estabelecimento de Damião Canada.
Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do
proprietario, barriguda e rubicunda figura, que, assim
posta ao pé das pipas, podia servir de typo para a
representação de um Sileno, havia varias
individualidades
de peso nos destinos de toda a comarca.
Dê-se primeiro menção ao nosso
já conhecido
Bento Pertunhas, a quem as humanidades não faziam
soberbo a ponto de recusar-se a entrar em
communicação social com os seus conterraneos.
Observada esta deferencia, mencionemos os mais.
Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho
das Perdizes, em quem já temos ouvido falar
por mais do que uma vez.
Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario
em uma das freguezias proximas, chamada de Pinchões;
mas propriedades e morgadia andavam-lhe
tão embaraçadas em redes de demandas e de
hypothecas,
que Deus nos acuda.
Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes,
enchiam um cartorio. Graças, porém, ao seu
genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho
deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os
cuidados agricolas aos rendeiros e feitores; os do
futuro, a Deus ou ao diabo; e para si não reservava
nenhuns.
Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era
necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar
e fazer trocas de cavallos com os ciganos, e ás
vezes para dar e levar sovas monumentaes.—Nos
mezes de caça, a vida do morgado era perfeitamente
nómada: estendia por leguas e leguas as suas
excursões
venatorias, contentando-se com qualquer
cama e comida, de que, de ordinario, participavam
os cães, que o acompanhavam; distrahia-se tambem
a conquistar os corações femininos da freguezia,
calando com dinheiro algumas queixas mais
acerbas e insoffridas de um ou outro pae, marido
ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas
tinha contas em aberto, o que não obstava a
que entrasse em todas com ares de conquistador e
expendesse alli as suas opiniões absolutas, com
grande exhibição de berros e de punhadas.
Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das
Perdizes um homem verdadeiramente popular entre
os da sua freguezia; movia-os no sentido que quizesse.
Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não
havia funcção,
rixa, solemnidade official, para que elle não
fôsse
consultado. É que a superioridade do morgado das
Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham
o povo; ninguem hesitava em falar-lhe e em
procural-o em casa, porque, falando e vivendo com
elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem.
Os
seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas
eram outras tantas causas a popularisal-o; justo é
porém que se diga que algumas boas qualidades
tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não
era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com
dinheiro no bolso, não consentia que pessoa alguma,
desde o mais rico proprietario até o jornaleiro
mais miseravel, recusasse tomar assento a seu lado.
Não eram poucos os filhos-familias que resgatára
de soldado, sem a menor caução ou interesse,
chegando
a ficar empenhado para os livrar; e se algum
desgraçado se via perseguido pela justiça,
encontrava,
fôsse qual fôsse a enormidade do crime,
asylo seguro na herdade das Perdizes, que em certas
épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.
Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era
o sr. Joãozinho uma verdadeira potencia eleitoral.
Eis ahi o homem moralmente.
Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta
e cinco annos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas
melenas em desordem, bigode aparado e
a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na
maneira de vestir inculcava os habitos da vida e
um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar.
Trazia o collete quasi sempre desapertado e
com alguns botões de menos de modo que os peitos
da camisa formavam hernia pela abertura; entre
as calças descaídas e o collete avistava-se o
cóz
das ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar
a mão; ao pescoço trazia um lenço de
seda escarlate,
negligentemente atado e com longas pontas fluctuantes;
uma jaqueta de pelles com alamares, calças
de fazenda chamada pelle do diabo, botas de
montar e esporas constituiam o resto do vestuario.
O cigarro, que quasi sempre fumava até ás
ultimas,
crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e
o canto dos labios. O palito andava-lhe sempre atraz
da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para
qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa
matilha de galgos, podengos e perdigueiros.
Segunda e não menos importante personalidade
era a do sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomasia—o
Brazileiro.
Era um homem de cincoenta annos; bem figurado
e sisudo, de falar compassado e com seus
quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de
protecção
a todo o mundo.
Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao
Brazil. Por lá esteve quarenta annos, e voltou o homem
grave que vemos e rico. Como enriqueceu não
sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma
casa no sitio em que nascera, uma casa grande de
cantaria e azulejo, com tres andares e varandas,
jardim com estatuas de louça e alegretes pintados
de verde e amarello, o qual jardim tinha mais fama
n'aquellas aldeias vizinhas do que os jardins suspensos
da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma
arara, igualmente famosos, e uma botica homoepatica,
que elle proprio manipulava.
As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a
vir a ser a primeira personagem de influencia na
aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos
na igreja parochial, presenteou com vestidos
novos todos os santos dos altares, e mandou renovar
um sino, que havia doze annos tocava a rachado.
Fez á sua custa a festa do orago, chegando a
mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato,
que ardeu a pouca altura do chão. Apesar, porém,
de todos estes beneficios á localidade, o conselheiro
Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto
vivesse quasi sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe
sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas.
Por isso, apesar da apparente amizade com
que Seabra o acolhia e lisonjeava até, conservava
por elle no fundo uma má vontade, um ciume, de
que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões.
Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho
das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre
de suissa irreprehensivelmente talhada em volta
do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres
grandes botões de brilhantes; no trajo combinavam-se
as variegadas côres de uma ave da America;
e o ouro, distribuido com profusão por todos
os accessorios da sua pessoa, attestava os bons resultados
dos seus quarenta annos do Brazil. Passeiava
pela aldeia de chinelos de marroquim verde
ou sapato de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do
andar, que voltava a casa sem que uma mancha
ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino.
Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos
caminhos, calcando-a com bota de polimento.
Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé
P'reira,
que bebia, em silencio, ao pé do taberneiro, havia
um padre, coadjuctor da freguezia, dois lavradores
abastados e já de avançada idade, e outros
que deixaremos confundidos na massa indistincta
dos comparsas.
No momento, em que entramos, usava da palavra
o brazileiro, que estava sentado á porta da taberna,
na mais limpa cadeira do estabelecimento.
—Pois é verdade—disse elle—fômos todos da
mesma creação. O conselheiro
Manoel Bernardo
saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu ir
para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola,
que era a do padre Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura.
Vossemecê ha de estar lembrado, sr. Luiz—accrescentou,
dirigindo-se com a affabilidade protectora,
que o caracterisava, a um dos lavradores.
—Ora se estou! muito bem. Era na casa em que
hoje mora o Chico da Luciana.
—É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro
e aquelle ratão do Vicente, herbanario, que
era já rapaz taludo. Lembra-me, como se fôsse
hoje,
de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro
da Corredoura.
—Olha lá, hein!—diziam dois lavradores com
um sorriso cortezão nos labios—então com que o
sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...
—Ora, como um homem. Eu fui levadinho da
bréca. Boa sóva levei de minha mãe,
por causa de
umas calças novas que rompi.
—Ora vêdes?—diziam os outros.
—Ai tempos, tempos!—disse, suspirando, o brazileiro.
—Quem havia de dizer então ao que v. s.
a
e o
conselheiro tinham de chegar!—notou lisonjeiramente o sr. Bento
Pertunhas.
—Eu sim—respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.—A que
cheguei
eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um
boccado de pão para o resto da vida; com isso me contento.
O mais, sou um pobre diabo que ninguem conhece, um homem ignorante, sem
principios. Elle é outra coisa.
—Não é tanto assim—insistiu
Pertunhas—todos sabem que v. s.
a se quizesse...
—Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesseo juizo de
muitos, que por ahi vejo figurando, então havia de me
vêr na brecha; porque, não é por me
gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles.
—Ora pois, não, não—disseram os
lavradores, Pertunhas e o padre.
—Alguns que até ministros teem sido...
—Por essa estou eu...
—O conselheiro mesmo...—resmungou o padre, fungando uma pitada
jesuitica—sim, aqui para nós...
—Tanto não digo—continuou o brazileiro, mais
jesuiticamente
ainda.—O conselheiro... vamos... Faça-se-lhe
justiça. Eu não quero dizer que elle seja uma
coisa
por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a final?...
Mas... Não é dos peores, não
é dos peores. Faça-se-lhe justiça.
Não é homem de grandes talentos... isso
não; nem mesmo de grande fundo. Sim... Devemos confessar
que esta é a verdade... Mas... emfim, vamos andando...Cada
um
faz o que pode—concluiu o brazileiro, depois de ter feito
justiça ao conselheiro.
—No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode
fazer. Ha quantos annos nos anda a falar na estrada, e até
hoje ainda nem palmo d'ella?—opinou Pertunhas.
—Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o
dictado—ponderou o brazileiro.
—A falar
verdade!...—disse um dos lavradores—com a influencia que elle tem,
podia...
—Ora adeus! palanfrorio—atalhou o padre—bem me fio eu na influencia
do conselheiro.
—Eh! eh! eh!—respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do
padre,
e accrescentou com um sorriso velhaco:—Não, elle diz que
fala com os ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido.
Emfim... Elle lá o sabe.
—Para mim é que elle vem de carrinho...
—Eu não sei—concluiu com requinte de velhaquez o
brazileiro.
—Pois eu cá—disse o sr. Joãozinho, que
estivera bebendo em silencio, e descarregou um murro na banca, que fez
tilintar os copos.—Eu cá já disse; se os taes
homens das bandeirolas me tornam a passar por as terras, sempre lhes
meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e
que já me serviu para varrer a feira de Santo
Estevão. Uns mariolas!...
E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um
pontapé a um podengo, que lhe viera roçar por as
pernas, e fel-o sair ganindo.
—Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das
estradas—informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr.
Joãozinho.
—Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!—resmungou
este.—Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente
queimámos toda a papelada da camara e do escrivão
da fazenda.
—Agora no inverno é que elles hão de
principiar com os trabalhos. Sempre se fia em boa!—disse, encolhendo
os
hombros, mestre Pertunhas.
—Vossemecê é que está a
ler—veio-lhe á mão
obrazileiro.—Então
não sabe que as eleições
são
em fevereiro?
—Ai, é verdade! não me tinha
lembrado d'isso!—exclamou o padre.
—Tambem não sei como será d'esta vez essa
historia das
eleições—acudiu o
sr. Joãozinho.—Cáeu e a minha gente ainda
estamos
a vêr no que param as coisas. Eu já não
estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao conselheiro
a
freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo
que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos
de
entrar n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá
por umas contas, não anda o filho de meu pae.
—Ora adeus!—disse o padre cura.—O conselheiro tem artes para o levar.
—A mim? Está enganado. Não
querendo eu?Então você não me
conhece. Em euembirrando, sou como um borrego teimoso.
—Quando se fala em estradas, já estou a tremer—disseum dos
lavradores.—O que elles veem cá fazer é
cortar-nos os campos, e a final não sei para que servem.
—Isso não é assim—atalhou o brazileiro,
tomando uns ares cathedraticos, cheios de
gravidade.—Vossemecê é ignorante e por isso
é que fala d'esse modo.
—Eu digo...—tartamudeou, intimidado, o lavrador.
—Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que
não entende. As estradas não servem para nada! As
estradas são meios de communicação
e...
facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por conseguinte a
riqueza das nações... Porque o trabalho
representa
um capital..., sim, senhores, mas... mas um capital...sim... um capital
morto... quero dizer um capital que não vive... Quero
dizer... sim... supponhamos: o credito por exemplo... O credito...,
sim... ahi está o credito... Pois que é o
credito?... O credito é... é o credito... depende
de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós
não tivessemos estradas... Uma
supposição... Partamos de um principio. A
producção excede o
consumo...
Quero mesmo que o consumo exceda a producção...
Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta?
Está
claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites...
Não havendo estradas... Ahi está que se diz por
ahi que a livre exportação, que tal, que
sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não
é assim. É preciso que se attenda tambem
ás condições economicas dos povos.
Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em termos
já se sabe...Mas... o commercio livre... a livre troca...
entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu
digo
que... Ora supponhamos... supponhamos que não havia
estradas... Os transportes eram mais difficeis e portanto mais caros...
E se além d'isso os generos fôssem escassos e...
Diz
vossemecê, para que servem as estradas? Ora diga-me uma
coisa,
sr. Manoel, supponhamos que... os impostos indirectos... não
precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria
que me dissesse o que havia de fazer.
—Impostos, Deus me livre d'elles!—murmurouo lavrador, cujos
instinctos trepidaram á
palavra «impostos».
—Isso tambem não é assim... Deus me
livre! Não se diz Deus me livre, porque a riqueza...
a riqueza... sim, a riqueza não está na
terra... isto é, a riqueza está na terra... mas
é preciso o capital para a
exploração...
Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não... vamos
cá por outro lado... Ha um
deficit
n'um orçamento... desce o preço das
inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que
ha
boas estradas,
etcoetera... A riqueza tende a
augmentar... e... e... Emfim lá que as estradas
são uteis, isso é que não tem
questão.
Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com
profunda
attenção.
O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios
periodicos politicos,
conseguira, á fôrça de leitura, fixar
na
memoria certas phrases de artigo defundo, e acabára por
convencer-se de que possuia grandes noções de
sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma
sacudidela
ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do
interior de um kaleidoscopo, tomavam uma
disposição tal ou qual, mais ou menos regular, e
assim lhe saia uma dissertação, como essa que
viram. Em permanente indigestão economica vivia este
portento. A doença não é das mais
raras
entre politicos.
O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e
ruidosamente
a bôca, depois do discurso do brazileiro, e disse:
—Eu cá por mim não sei d'essas
coisas. Não se me dava das estradas para poder ir
á
feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que
me não venham mexer na quinta; porque então
teem que vêr.
—Pois está arriscado a isso—disse o brazileiro.
—Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da
papelada outra vez.
—Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra,
depois de tomar á esquerda pelo Castro e vir direito
á Palhoça. Não tinha cruzes nem
cunhos.
Ia-me parte da propriedade.
—Ah! ah! ah! Tambem não gosta?
Diga-me d'isso!—berrou o sr. Joãozinho.
—Não é não gostar, é que
o traçado era pessimo.
—Não sei por quê.
—Só a expropriação da minha quinta
por
que preço não lhes ficava?
—Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu
modo—notou o padre cura.
—E por onde ha de ir então a estrada?
—O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da
herdade do capitão-mór, faz um
viaducto nos lameiros,
atravessa o pinhal do Conego, passa o rio n'uma ponte e...
—Oh com os diabos; o que ahi vae!
—Não é tanto como parece; sendo as obras
bem dirigidas... Até aos lameiros só tem a
deita rabaixoa casa e o quintal do herbanario.
—Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de
paixão, se tal fazem—disse, com certa
commiseração, o sr. Joãozinhodas
Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera
affeição e respeito, n'elle excepcional, desde
que
lhe attribuia a cura de um typho que o tivera ás portas da
morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com
uns cozimentos sómente d'elle sabidos.
—Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está
maluco de todo—redarguiu o brazileiro.
—Tambem está um bom magico, está—notou o padre.
—Quer não, que sabe mais do que todos os medicos—acudiu o
sr. Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna.
Oh que excommungada!
E principiou a fazer a historia da sua doença.
Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas
attribuiam-lhe
mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.
—Pois a final por onde devia ir a estrada—continuou o
brazileiro;—tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso
não se fala, já se sabe.
—Ora! pois está de vêr—concordou o padre.
—E o conselheiro não se ha de oppôr
á expropriação da casa do herbanario,
porque pelos modos elles não andam muito correntes—lembrou
um lavrador.
—É verdade; por que seria aquillo?—perguntou outro.
—Elles em tempo eram muito um do outro; e são
até
aparentados;—explicou o brazileiro—e o
velho
ainda hoje é tratado com familiaridade pela gente do
Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle genio exquisito que tem,
disse algumas verdades ao conselheiro, por occasião de
umas eleições, quando elle pôz as
auctoridades a trabalhar por si, e o velho entendia que as coisas
não iam bem assim.
—Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte
conselheiros e toda a familia,—exclamou o sr. Joãozinho,
batendo outra punhada—e queira elle, que o tal senhor não
põe mais o pé nas camaras, mandado cá
pela terra.
—Eu gósto de os ouvir,—disse o padre—falam assim, mas em
chegando a occasião, vão todos votar n'elle como
carneiros.
O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.
—Pois havemos de vêr o que será!—berrou o sr.
Joãozinho.—Isso é consoante cá umas
coisas.
—A falar a verdade—disse o Pertunhas—não tem pago muito
bem ao circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só
essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!
—Essa a falar a verdade!—disse um lavrador.
—Quero vêr se me hão de enterrar a
mim!—disse ameaçadoramente o sr. Joãosinho, como
se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas vontades
á fôrça de murros e de pragas.
—Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas.
É moda e acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda
a
gente e não havia mais doenças do que agora—isto
dizia o padre.
—Os romanos tinham as suas catacumbas—ponderou o mestre de
latinidade,
forçando as suas reminiscencias romanas.
—Vamos—ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo
discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade
scientifica.—O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque
os chimicos sabem que...
o
ar que não é puro... é mau para a
saude
publica. Ora os cadaveres... em putrefacção
produzem uns vapores que corrompem o ar... Ha uns insectozinhos
invisiveis que a gente respira... e vão para a massa do
sangue
e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a febre
são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se
sáem, muito que bem; e se não sáem,
ficam retidos e azedam o corpo todo.
A theoria physiologica pathologica foi recebida com
attenção igual á que merecera
a economica.
—Tudo isso será assim,—disse o padre—mas o conselheiro
faz
aquillo por instigações
das lojas maçonicas e dos pedreiros livres.
—Pois elle será tambem?...—disse um dos
lavradores, arregalando os olhos assustados.
—Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da
sucia.
—Corja!—resmungou o sr. Joãozinho.
O brazileiro, que se filiára no Brazil
na maçonaria, fez um discurso sobre os fins da sociedade,
que ninguem entendeu; vendo, porém, que não
calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.
—Elle não será
mação—disse
d'ahi a momentoso padre—mas é vêr o que elle tem
defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e
ás freiras os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o
exemplo do cunhado, que se encheu com a compra do Mosteiro; queria
acabar
com o santo sacramento do matrimonio; queria que cada qual seguisse
a religião que muito bem lhe parecesse. Vejam
que christão aquelle!
Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras
de censura.
—E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.
—A falar a verdade, os vinculos...—murmurou
o
sr. Joãozinho, que por vezes tropeçára
nas disposições da antiga lei vincular, ao
caminhar na estrada da dissipação;
porém, recordando-se de um irmão que tinha,
casado
e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa
de muito trabalho, a ideia da abolição dos
morgados não lhe sorriu e exclamou com nova punhada:—Acabem
lá com os morgados quando quizerem, que o que eu lhes
digo é, que tem de se haver commigo quem quizer tirar-me um
palmo de terra!
O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o
conselheiro.
O pae de Magdalena militára sempre, como
já dissémos, nas fileiras do partido mais
liberal,
e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a maioria
do clero, que, entre nós, não
espósa ardentemente aquellas ideias.
No principio da sua carreira parlamentar, cedendoao impulso do
enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára
desassombradamente a bandeira do partido progressista e
pronunciára os mais absolutos artigos d'aquelle credo
politico; liberdade era então o seu mote favorito; a
liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as
reformas
consequentes nos codigos, a desamortisação
e desvinculação da propriedade, tudo
advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas palavras
soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra
de
outro catecismo.
Com o tempo arrefeceu, porém, esse
enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o fogo da mocidade. Com quanto liberal
ainda de convicção, ensinou-lhe a politica
pratica
a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios
doutrinarios, a contemporisar, e até quando as
conveniencias,
infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos
de retrocesso e a transigir com o partido opposto.
Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformarem
projecto de lei nenhuma d'aquellas medidas
por
que pugnára nos seus primeiros discursos, e que tantas
malquerenças lhe acarretaram então.
Já atraz dissémos, que o conselheiro
era actualmente um espirito pouco apaixonado do ideal, respirava a
atmosphera de desillusão e de scepticismo, em que nas
grandes
cidades se vive. Era um perfeito homem de côrte; tratava
cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo d'elles
mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás
vezes da tribuna e depois apertava-lhes a mão nos
corredores das camaras e nas praças. Se o julgava
vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases sonoras, uma
d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no
principio da sua carreira adoptára comsinceridade; mas
não tinha já aos principios o amor preciso para
cair, abraçado n'elles, dos degraus do poder, se algum dia
os
chegasse a subir.
Por isso os soldados rasos do seu partido, os politico sem abstracto,
unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o
taxavam de frouxo e tibio; e de gazeta na mão havia muito
que
lhe dictavam, do obscuro canto do paiz em que viviam, a estrada
direita,
de que elle, porém, a cada passo se desviava.
Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por
os
seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má
fé, a acoimal-o de impio, de republicano e de pedreiro livre.
O brazileiro entrou em dissertação a respeito
de todas as medidas politicas a que alludira.
Segundo o costume, ninguem o entendeu.
Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um
tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra
espreitar á porta, voltou-se, exclamando:
—Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!
Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que
mais de má vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.
Dentro em pouco
todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que
montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um
pequeno baio de fórmas elegantes e olhar vivo.
O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e
patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi
todo o effeito da conversa que descrevemos.
Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa,
dispoz-se
para entrar na venda.
XII
O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se
sentar nos bancos de pinho do estabelecimento de Damião
Canada, envernizados já pelo uso de muitos annos.
Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com
attenções e o flagellava com obsequios.