Para o quintal, que a abundancia das arvores de
espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas
da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se
entregava ás suas leituras e
lucubrações scientificas.
Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em
parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em
parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de
virtudes mais ou menos problematicas, que o velho
n'elle cultivava.
Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me
assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas
suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes
curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem
a responsabilidade dos effeitos produzidos,
assim lhes queria e as amimava, quando salutares;
assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas.
A vida isolada e o genio do velho, que sempre
fôra dado a singularidades, augmentaram estas
disposicões, que tinham o que quer que era de
pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando
com ellas, como se convencido de que o
estavam comprehendendo.
A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre,
a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas,
as violetas, tão boa camaradagem lhe faziam,
que nem lhe deixavam sentir a solidão.
O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu
serviço. Elle proprio cozinhava e por suas mãos
fazia todos os mesteres domesticos.
É pois de imaginar que não seria muito complicado
o banquete das consoadas n'aquella casa, e que
devia formar em tudo contraste com o que á mesma
hora se celebrava no Mosteiro.
De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas
e mais espontaneos os risos, dois homens
apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena
mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta
sala o santo anniversario. Um era o proprietario
da casa, o outro Augusto, um dos poucos que
se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a
habitação
do velho.
Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia
composta de queijo, maçãs, nozes, castanhas, duas
sopeiras com escabeche, especialidade na
confecção
da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa
de vinho do Porto de promettedora côr de topazio,
consistia o resto da mobilia n'uma estante
de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas
encadernações e folhas vermelhas nos aparos,
em algumas cadeiras e bancos tambem occupados
com livros e com varios utensilios empregados nas
explorações scientificas do velho, taes como
caixas
de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes
ainda sobravam para alastrarem o chão.
Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro
de azeite, e a escassa luz, que dos tres lumes
que, em attenção á solemnidade da
noite, o velho
accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um
Christo de marfim pendente de um crucifixo negro,
que sobresaía n'aquellas paredes nuas e caiadas.
Havia bastante tempo que aquelles dois homens,
sentados defronte um do outro, guardavam silencio;
um d'esses silencios, durante os quaes os
espiritos, como se impacientes com as longuras da
palavra, tendo-se desembaraçado d'ella, voam a
par, para adeantarem caminho e voltarem mais
longe a associarem-se á sua mais lenta companheira.
Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava
a scena, parecia alheio a quanto o rodeava.
O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com
o braço estendido para o calice que tinha defronte
de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar, um por
um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles
os pensamentos que o preoccupavam. Emfim rompeu
o primeiro o silencio:
—Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens.
Para que te mettes a esconder de mim aquillo que
eu ha tanto te leio nos olhos, creança?
—O quê, tio Vicente?—perguntou Augusto, inquieto.
—O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho,
sem te esfriar o coração:
são dons do Céo,
que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. Bondade
de coração, com a cabeça... assim,
assim...
a dar esmolas aos pobres se satisfaz; cabeça de
fogo, mas coração de gêlo... todos os
meios de
levar ao fim ambições, tanto os bons como os
maus, todos lhe servem; mas coração como o teu,
com o espirito que tens!... ai, pobre Augusto, se
se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do
Senhor.
—Não o entendo, tio Vicente,—disse Augusto,
com manifesta confusão.
—Não! Olha para mim. E vê se te atreves a
repetil-o.
Augusto baixou a cabeça.
O velho sorriu com ar de commiseração e
sympathia.
—Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas
que me não havia de custar, se não tivesse
acertado?—E,
depois de breve pausa, continuou:—Mas
ainda quando penso em como tu, uma cabeça
forte, assim te deixaste enfeitiçar!...—E tomando
o calice, que tinha defronte de si, disse com
resolução—Quero
beber á tua saude, Augusto, e para
que em breve se te desfaça essa loucura.
Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão
de Augusto susteve-lhe o braço.
—Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e
morrer com ella. Sou feliz assim.
—Ah!—disse o velho herbanario, tomando um
ar mais grave; e pousou o copo, sem desviar de
Augusto o olhar penetrante e fixo.
Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu
com maior vehemencia e colorindo-lhe as faces um
não costumado rubor:
—Sim. Por que o não hei de confessar? Essa
loucura que diz, trago-a commigo, vivo com ella e
quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a desejaria
perder. Amor? não é; a tanto não
chega...
antes um culto, isso sim. É uma
adoração como
aquella, em que de pequenos nos educam para com
a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem
procuro alimental-as. Quer que lhe diga? Vêl-a;
respirar estes ares que ella respira; atravessar estas
devezas em que ella passeia; amimar as mesmas
crenças que ella amima; soccorrer, com o meu
óbulo
de pobre, a miseria sobre a qual ella espalha caridosa
as dadivas da sua abençoada opulencia... e,
ahi está; são as minhas
aspirações; é o futuro que
desejo, e com que me contento. Leu no meu
coração,
disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas
não viu claro de todo, confesse. Julgou talvez que
haveria em volta d'este sentimento um enxame de
esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por certo
foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais.
Enganou-se, porém, tio Vicente; vê agora que se
enganou, não é verdade? Essas
esperanças não
existem. Se existissem, bem vê que não estaria
aqui.
Não me teria impellido a ambição pelo
caminho de
realisal-as? Não se me teem offerecido os meios
para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto
me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não
arrisco um instante d'ella para tentar uma ventura
maior.
O herbanario escutava silencioso, porém meneando
a cabeça com ares de quem não punha demasiada
fé n'aquellas palavras.
—Aos vinte annos!...—disse elle por fim—sentir
o que dizes... ser feliz assim!... Deixa passar
mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e
verás...
verás depois...
—Tem dez annos—disse Augusto, sorrindo.
—Dez annos!
—É verdade. De creança a conheço, a
paixão
que diz; por isso confio n'ella. Tenho fé em que se
não transviará.
—Dez annos!—repetia o velho, admirado.—Porém...
ha dez annos...
—Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não
se lembra? Era então uma pobre creança da aldeia,
educada entre os braços de minha mãe, e
conhecendo,
uma por uma, as arvores d'estes sitios e
mais nada. Saí d'aqui e fui para Lisboa. Não
imagina
as fortes impressões que recebi na noite que
alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de
fadas e de encantamentos que ouvia, quando era
pequeno, nunca me feria a imaginação assim! Tudo
era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes,
os palacios, os edificios, os carros produziam-me
quasi uma vertigem; sentia-me vacillar. Achei-me,
nem sei bem como, de tão atordoado que ia, n'uma
casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia,
n'aquella noite, uma companhia numerosa de homens,
de senhoras e de creanças, muitas da mesma
idade que eu, e que formavam uma assembleia á
parte. A sala era magnifica; muitas luzes, muitos
espelhos, muitas flores, moveis dourados, tapetes,
quadros, crystaes, e para acabar de me confundir,
o piano, objecto novo para mim, e que eu me não
fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como
imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares de
estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto;
deu explicações ás pessoas presentes a
respeito da
minha vida, e deixou-me entregue ás creanças. Ahi
fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta
mal talhada, o meu olhar timido, os meus
modos acanhados, no meio de uma turba de creanças
elegantes, que se me figuravam de uma essencia
superior á minha. As creanças são
desapiedadas,
quando assim em companhia. Cêdo percebi que estava
sendo o alvo da zombaria d'ellas; riam ao
principio com disfarce e falavam-se ao ouvido,
olhando-me de relance; redobravam as risadas e
transmittiam reflexões a meu respeito, cujo sentido
julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas,
dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados;
formaram grupos em volta de mim; se
eu falava, respondiam-me rindo. Então apoderou-se
de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me
o coração de tristeza. Lembrei-me, com saudades,
das arvores da minha aldeia, do meu pobre quarto,
de minha mãe; e achei-me alli tão só,
tão sem conforto
nem amizades, que as lagrimas me vieram
ferventes aos olhos. Ainda hoje não hesito em dizel-o,
foi aquelle um dos mais amargos momentos
da minha vida. Nós, quando adultos, esquecemos
facilmente os martyrios da infancia, quando n'esta
idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos
os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha
piedosa superstição de rapaz aldeão,
quasi me
pareceu de intervenção divina. Abriu-se a porta e
entrou na sala uma creança, que eu não tinha
ainda
visto. Era uma menina pallida, de gesto affavel e
angelico. Vestia toda de branco. Entrou e approximou-se
do conselheiro, que jogava com uns amigos.
O conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe
disse ao ouvido. Ella correu então a sala com a
vista; viu-me e veio direita a mim.
—Não conhecias já da aldeia,
Magdalena?—perguntou
o herbanario.
—Não; minha mãe veio para aqui no anno em
que, por morte da sua, Magdalena voltou a Lisboa.
A affabilidade, a singeleza desaffectada com que me
falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje
sinto como que os reflexos d'aquella suave impressão.
Parecia-me ouvir a voz de minha mãe; tinha o
timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança
o coração. Com ella não senti mais
aquelle
acanhamento que me enleiava. Depois falava-me de
coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a respeito
dos campos, das arvores, das abelhas, dos
ninhos dos passaros, das flores, dos trabalhos do
linho... interrogando-me e escutando-me com tanta
deferencia e attenção, que me inspirava coragem,
e
julgo que me estava dando ares de mais importancia
junto d'aquelles pequenos senhores e senhoras
que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus
desdens e acabaram por me escutar e interrogar
tambem com curiosidade. Já uns me lançavam os
braços ao hombro, outros formavam circulo em
volta de mim, e cêdo fui eu a principal personagem
d'aquella noite. Essa creança...
—Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o
não soubesse. Não podia deixar de ser
ella—exclamou
o herbanario, com um fulgor de sympathia a
illuminar-lhe o olhar.—Era ella; sempre assim foi!
—Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia
no meu espirito. Hoje ainda, se penso n'ella,
acho-a de uma grande significação moral. Pois
não
é mais apreciavel n'uma creança esta prova de
superioridade
de caracter, do que nas idades em que
muitas vezes a razão e o calculo a impõem a uma
indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo
espontaneidade. Desde então a adoro.
O herbanario parecia não ter já animo para
sorrir.
—Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella
grande tristeza. Tão novo!
—É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi
sempre para mim affavel; inclinava-se sobre o livro
em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos
da minha educação aldeã, e, se
reconhecia
progressos no discipulo, manifestava uma alegria
que era para mim o maior incentivo e o maior premio.
Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena
com certo ar de gravidade, que aquella creança
já então tomava, perguntou-me, no meio de uma
conversa propria de creanças: «E sente-se com
genio
para ser padre, Augusto?» Já me não
lembro
do que lhe respondi. Trouxe porém commigo aquella
pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia.
Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde
então m'a repetia sempre, até junto da cabeceira
de
minha mãe, cuja maior aspiração era,
como sabe,
vêr-me padre. Mas em vão! foi desde
então uma
dúvida constante com que luctava. Com a morte de
minha mãe tudo mudou. Pela primeira vez respondi
á interrogação, que havia tanto tempo
dirigia a mim
proprio, e consegui por fim responder:
«Não». Eis
o segredo do meu passado.
—E por que disseste «Não»?
—Porque vi que toda a minha vida era para a
consagrar a um sonho; que o sonharia no altar, no
pulpito e no confessionario; que para toda a parte
me seguiria a imagem, a que eu já não podia
renunciar,
e a qual então já não contemplaria sem
remorsos,
como agora o faço. Foi por isto.
—Só? Não te illudirás a ti mesmo,
Augusto? Repara
bem, que n'isso pode ir a tua felicidade! Estás
bem certo de que não ha uma esperança dentro do
teu coração?
—Se a tivesse...
Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de
passos na rua. Cêdo batiam na porta duas leves
pancadas, e uma voz dizia de fóra:
—Está acordado ainda, tio Vicente?
O herbanario trocou um olhar com Augusto. A
voz era de Magdalena.
Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario
quiz retêl-o.
—Onde vaes?
—Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora.
Não
estou preparado com a minha indifferença.
—Pobre mascara!—N'esse caso sae pelo quintal.
—Tio Vicente!—repetiu Magdalena, de fóra.
—Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera—continuou
em voz baixa para Augusto:—dá-me
a tua palavra que não escutarás.
—Dou; mas... promette que nada lhe dirá?
—Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer,
quanto mais... Adeus!
Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo
lado do quintal, o herbanario foi abrir a porta da
rua á morgadinha.
XVI
—Ora com Deus venha a minha fada; esta querida
Lena, que se não esquece dos seus amigos velhos...
Boas festas me trazes pela noite, filha!
No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes
indicios de preoccupação.
—Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar;
eu venho...
O herbanario conduziu-a para junto da mesa,
onde estavam ainda os signaes de refeição, que
havia
pouco findára. Vendo os dois talheres, a morgadinha
olhou interrogadamente para Vicente:
—Estava alguem comsigo?
—Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porquê? Temos
por ahi mais alguns livros a comprar-lhe?—continuou,
sorrindo com benevola malicia.—Tenho
eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada
que, de vez em quando, me ensina em segredo quaes
os livros, que o rapaz mais deseja e de que eu mal
sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos,
que não mereço, e que elle mais de
coração
daria, a quem são de justiça devidos?
—Não, tio Vicente; não se trata agora d'isso.
—Ai, Lena, Lena, que não sei bem o que devo
pensar de todas estas coisas.
A morgadinha parecia um pouco perturbada com
as palavras do herbanario.
—Que ha de pensar? Ha nada mais natural?
Angelo foi que me deu o exemplo. Elle sabia o amor
que Augusto tem á leitura. Porém o cofre de
Angelo
é pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego
a nem saber em que hei de consumir o que me sobra.
Por isso foi que me lembrei... porém como
não conviria que eu propria fizesse o presente, nem
elle de mim o acceitaria, é que eu lhe pedi que o
fizesse em seu nome. Mas falemos de outra coisa,
porque me não posso demorar. Venho ás occultas
e emquanto a minha gente foi á missa do gallo. Tio
Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procural-o
a estas horas.
—Ah!—disse o velho, sentando-se em tom de
gracejo.—Adivinho a gravidade do caso. O filhito
do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum principio
de sarampo ou de garrotilho, e vens...
—Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor
a esta casa e a este quintal?
O velho tornou-se immediatamente sério.
—Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
—Tem?
—Nasci aqui, filha.
—Custar-lhe-ia a...
—A quê?
—A... a...
E Magdalena hesitava.
—Fala!—insistiu o velho, já inquieto.
—A separar-se d'ella?
O herbanario respondeu simplesmente:
—Ah! morreria.
Magdalena fez um gesto de afflicção.
Em Vicente crescia o desassocego.
—Mas... Dize, Magdalena; o que
significam
essas palavras?
—É que...
—Explica-te!—exclamou o herbanario, quasi
imperiosamente.
—Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas
não se
afflija. Eu vim de proposito para o prevenir. Mas,
por amor de Deus, socegue; senão tira-me o animo
de continuar.
—Que socegue, e tu a atormentares-me com essas
demoras!
—Perdôe... Fala-se em deitar abaixo estas arvores
e esta casa, para...
O herbanario de um impeto poz-se a pé. Fulgurou-lhe
nos olhos um relampago de ira terrivel!
Magdalena calou-se, assustada.
—Deitar abaixo estas arvores e esta casa?!
Quem?... Quem se atreve? Pois que venham! que
venham!
Mas reparando no terror que estava causando a
Magdalena, procurou reprimir-se, e com uma voz
que elle se esforçava por tornar tranquilla, continuou:
—Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala,
Lena, fala... Dize o que sabes. Quem é?... Para
que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala,
bem vês que eu estou socegado, filha.
—Ha um projecto de estrada...
—Ah!—disse Vicente, com um grito de raiva.—Não
digas mais. Já sei—continuou com renascente
exaltação.—Já sei. Adivinho o resto.
É teu pae que
o determina; é teu pae que o resolveu?
Magdalena abaixou a cabeça com dolorosa
expressão.
O furor do velho exaltou-se outra vez.
—Teu pae! Teu pae, Lena! Então esse homem
jurou matar-me?
—Tio Vicente!
—Elle não sabe o que são para mim estas arvores
e estas paredes? Elle não sabe que a minha
alma está n'ellas, presa a estas raizes? que com
ellas se despedaçará? Esse homem sem
coração
não vê que são estas as minhas
affeições, as unicas?
a minha unica familia? Elle, o companheiro
dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou,
á sombra d'essas mesmas arvores e sob os
olhares de meu pae, que tambem o abençoava, tão
duro de coração se fez que, sem respeito por
estas
memorias todas, assim me quer separar do que me
dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é
teu pae este homem, Lena?
—Por quem é, tio Vicente; ouça-me. Deixe-me
dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie
ainda.
—Sim, sim; tudo se remediará... com a minha
morte. Talvez que ella seja util a teu pae... Talvez
precise d'ella.
—Oh! não creia, não creia.
—É duas vezes doloroso o golpe; porque me
separa do que amo deveras e por vir da mão de
quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita
que o era... ainda. Conheci-o tão generoso e
tão innocente, como teu irmão Angelo. Muitas
vezes
me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus projectos.
E acreditei n'elle. Tinha então no olhar um
fogo, que não mentia. Vi-o seguir a carreira publica
e acompanhei-o com a minha fé. Não tardaram os
primeiros desenganos; não lhes quiz dar credito ao
principio. Vieram outros e outros. Fui vendo então
que os maus ares d'aquella terra tinham embaçado
o brilho do caracter, que eu julguei melhor do que
os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me
reservado ainda. Para teu pae hoje os homens são
medidos pelos votos, que podem lançar na urna
eleitoral!
—Por amor de Deus, tio Vicente, não fale assim!
Não duvide de meu pae!—exclamou Magdalena, a
quem cruelmente estavam affligindo as
recriminações
amargas do herbanario.—Meu pae estima-o
e respeita-o. Não tem o coração
endurecido que
diz. Elle mesmo ámanhã aqui ha de vir.
Verá
então...
—Elle? Ámanhã?...
—Para isso venho prevenil-o. Não o receba com
asperezas, tio Vicente; fale-lhe com brandura. Talvez
o commova, talvez seja ainda possivel valer a
tudo. Ainda não está decidido... Julgo... E que
estivesse...
—Ámanhã! Teu pae vem aqui
ámanhã? E ousa
vir elle proprio annunciar-me o que sabe que vae
ser uma sentença de morte?
—Não; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia.
Sabendo-o, verá como...
—Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me,
e ha muito. Não julgues que pode errar,
calculando o effeito d'este golpe. Mas que queres
tu? ensinaram-lhe já a avaliar em pouco as venetas
de um velho quasi tonto. Homens que trazem o
pensamento em interesses tão altos, não teem
vista
para estas pequenas desgraças.
Magdalena sentia-se possuir de uma profunda
tristeza, ao ouvir falar o herbanario. Era uma dolorosa
provação para o seu amor de filha vêr
assim
uma nuvem de desconfiança offuscar a ideal
concepção
que ella formára do pae, e não ter
fôrças
para a afugentar. Ás vezes uma dúvida cruel
fazia-lhe,
a seu pesar, suppôr que o herbanario tinha
razão. Agora só conseguia oppôr um
gesto supplicante
áquellas acerbas accusações, que por
muito
tempo ainda desattenderam esta supplica muda.
A final serenou a violencia da irritação do
velho;
succedeu-lhe, porém, uma commoção
profunda, dominado
por a qual disse a Magdalena:
—Socega, Lena; ámanhã eu receberei teu pae sem
a menor aspereza. Fizeste bem em vir primeiro, filha.
Se o não esperasse, talvez não soubesse
conter-me.
Agradecido. Uma noite é bastante para me preparar.
Agora vae, deixa-me só; deixa-me... chorar.
E cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair,
soluçando, sobre a mesa, junto da qual se achava.
Magdalena correu para elle, commovida.
—Então, tio Vicente, então! Socegue!
Ámanhã
meu pae virá. Fale-lhe, e eu espero que ainda
será
tempo de evitar... o mal.
—Pode ser, pode ser...—respondia o velho.—E
se não pudér, Deus me acudirá, para
não viver
por muito tempo fóra da casa em que nasci.
Magdalena já não tinha que lhe dizer.
—Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos,
como já pedimos. Tenho esperança.
—Não, filha, não peças tu. Deixa-me
só com teu
pae ámanhã. Disseste que tinhas vindo, sem
ninguem
saber?—continuou elle.—Olha que te não
dêem pela falta. Vae, que é tempo.
—Mas...
—Vae, filha. Eu estou já tranquillo. Bem vês.
Deus te recompense a bondade que tiveste. Vae.
Queres que te acompanhe?
—Não é preciso. Vim pela porta das prezas, que
deixei aberta. São dois passos e estou na quinta.
Mas, tio Vicente...
—Vae então; e Deus te abençoe.
E o velho pousou a mão sobre a cabeça de
Magdalena,
que saiu commovida.
E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o
pranto que lhe rebentava dos olhos.
É sombria a saudade n'aquellas idades, porque
as esperanças são já muito debeis para
lhe darem
luz.
Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda
pelos sentimentos que alli a tinham agitado, a morgadinha
dirigiu-se á pressa para a porta da quinta,
por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta
resistiu. Este facto surprehendeu e inquietou um
pouco Magdalena. Quem poderia ter fechado a porta?
E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe
necessario um longo rodeio pela aldeia para
chegar a outra, que pudesse encontrar aberta.
N'esta hesitação impelliu outra vez
instinctivamente
a porta, que lhe oppoz a mesma resistencia.
Cêdo, porém, sentiu o rodar da chave na fechadura
e viu mover-se lentamente a porta, e no vão,
que augmentava, desenhar-se uma figura de homem.
Antes que pudésse, através da obscuridade da
noite, reconhecer a pessoa, que assim tão a proposito
lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas palavras:
—Muito boas noites, prima Magdalena. Espero
que pelo menos me concederá licença para exercer,
junto de si, as humildes funcções de porteiro.
Era Henrique de Souzellas.
Magdalena não foi superior a um vago sentimento
de receio, ao encontrar-se ahi com o hospede de
Alvapenha; comtudo esforçou-se por dominar-se e
respondeu, com apparente presença de espirito:
—Ah! É o primo Henrique. Muito boas noites.
Ahi temos um requinte de galanteria, que eu estava
muito longe de esperar.
—E de desejar, não?
—E de desejar tambem; confesso-o. Por mais
diligente que seja um porteiro, nunca o é tanto
como uma porta aberta.
—Mas é mais discreto.
—Duvido. Em todo o caso, agradeço o incómmodo.
E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem
mais explicações.
—Uma palavra, prima Magdalena—disse Henrique,
retendo-a por o braço e com certa expressão
nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto
da morgadinha.—Não ha mais accommodado terreno
para um dialogo solemne do que o limiar de
uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o
homem muda de mascara; depõe a que apresenta
na sociedade e afivela a que traz na familia, e vice-versa.
Ora n'estas mudanças é facil surprehender o
verdadeiro rosto da pessoa.
—Será tudo o que quizer o limiar de uma porta,
primo; menos um logar muito confortavel para serões
n'uma noite de dezembro.
E Magdalena tentou de novo seguir para deante.
Henrique susteve-a outra vez.
—Um momento só, prima
Magdalena; tenho
necessidade de saber se me quer para alliado ou
para inimigo.
—Não vejo a necessidade da alliança que
propõe,
nem as razões para a lucta.
—Sejamos francos. A prima deve confessar que
a minha presença aqui foi um desagradavel contratempo.
Uma certa altivez e consciencia de invulnerabilidade,
de que tinha o incómmodo de se revestir,
sempre que tratava commigo, depois d'esta importuna
occorrencia terá de se modificar.
—Não havia dado por essa...
revestidura que
diz; mas, se ella existiu, far-me-ha o favor de dizer:
por que não pode continuar?
—Essa é boa! porque eu faço a justiça
á prima
de suppôr que não vae tão longe a sua
hypocrisia.
—Hypocrisia!—disse Magdalena, com accento
mais severo.
—Perdão; não tive tempo para inventar
outro
termo mais... brando.
Dissimulação talvez lhe
agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do
occorrido...
—Agora exijo eu que se explique, senhor.
—Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar
uma explicação...
edificante... d'esta sua
excursão nocturna?
—Obsta apenas a que eu lh'a dê, sr. Henrique de
Souzellas, a falta de uma pequena formalidade: a
de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.
—Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha
ideia. A prima é uma mulher admiravel, uma mulher
superior, educada na alta escola de uma sociedade
distincta, sobranceira por isso a pieguices
provincianas. Tanto mais me encanta! E creia que
me envergonho só ao lembrar-me do que terá
pensado
de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões
de fé, tão cheias de franqueza e de candura.
Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, não é
verdade?
—Agora é que me está parecendo bem enygmatico!
—Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima não
ignora que eu a amo.
—Pois ignorava!—atalhou Magdalena, com ironia.
—E sabe de certo, por experiencia do mundo,
que para homens como eu, a indifferenca, a frieza
e os desdens redobram o ardor da paixão.
—Sim; já li isso n'um romance.
—A prima tem sido para commigo de uma crueldade
revoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me
a soffrer, porque um resto de ingenuidade que
me ficou dos quinze annos, illudia-me na
interpretação
de taes resistencias. Tive a puerilidade de a
suppôr uma mulher de excepção; pouco me
faltou
para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel
noite de Natal o desengano.
—Ah! então parece-lhe...
—Que a prima representa admiravelmente o
seu papel. Pode gabar-se de ter illudido um homem
habituado ás scenas da comedia social.
Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio
de severidade e de nobreza:
—Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas,
sem que eu propria bem saiba o que me retem
aqui: se é a compaixão que me inspira a profunda
doença moral de que o vejo tomado, se a
curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados.
Vejo-o inclinado a imaginar que por um
facto, que a sua pouco delicada indiscreção
preparou,
eu ficarei de hoje em deante á mercê da sua
generosidade. Conhece-me muito pouco, sr. Henrique!
Ainda quando esse facto não pudésse ter uma
explicação natural, e que me não
repugnará declarar
quando quizer, saiba que tenho orgulho de mais
para arrostar com tudo, até com a calumnia, de
preferencia a resignar-me ao menor predominio que
me seja odioso.
—Bravo!
—Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se
eu não lhe fizesse a justiça de acreditar que
d'esses
seus actos e palavras não é absolutamente
irresponsavel
talvez a má influencia da ceia d'esta
noite, bastariam elles para me inspirarem por si e
pelo seu caracter o mais completo desprezo; e então
seria, como nunca, manifesta a minha independencia,
porque eu nunca temi os seres que desprezo.
Henrique principiava a ser de novo subjugado
pelo tom de severidade e de energia, com que a
morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de
scepticismo obrigou-o a replicar:
—Santo Deus! prima Magdalena; não dê um
colorido tão pavoroso ás minhas
supposições. Despojal-a
de uma crueza deshumana, para a dotar de
uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma
justiça feita ao seu coração. E o
facto que o acaso
me revelou a nada mais me auctorisa. O pequeno
e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se
já, creia; e agora só me resta invejar a
sorte de quem tem a felicidade...
—Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem
mais um instante o escutarei; poupar-lhe-hei assim
os remorsos, que ámanhã teria da sua infamia...
E animada por uma resolução
mais energica,
Magdalena caminhou soberanamente para a porta.
Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.
—Um momento mais.
—Deixe-me passar, senhor.
—Não, sem que me ouça antes.
—É uma violencia?
—É uma supplica.
N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira
um vulto que avançou para elles.
—sr.
a D. Magdalena, se fôr preciso
reter o insolente,
que se lhe atravessa no caminho, ponho um
braço á sua disposição.
E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio
collocar-se entre Henrique e Magdalena.
Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu
de cólera. O olhar que fixou no recem-chegado
trahiu a vehemencia da impressão recebida. Depois
succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias.
Olhou para Magdalena, em quem não era menor a
surpreza causada pela inesperada presença de Augusto,
olhou outra vez para este e soltou uma risada
cheia de malignidade e de ironia, que a ambos
fez estremecer.
—Ahi está uma apparição tanto a
tempo, prima
Magdalena, que aos mais incredulos infundiria fé na
intervenção da Providencia. Que foi sem
dúvida
providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas
horas mortas, um tão generoso e intrepido salvador.
Não é verdade, prima? O que vale estar de
bem com Deus!
Estas palavras mostraram a Augusto que a sua
intervenção, ainda que generosa e devida a um
espontaneo
impulso da alma, não fôra porventura das
mais convenientes.
—Senhor!—exclamou elle, indignado, dando um
passo para Henrique.
—Socegue—tornou este, com dobrado sarcasmo.—O
senhor é um perfeito heroe de romance; enthusiasta,
cavalheiresco, mas, em certas occasiões,
incómmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse
o transtorno que veio causar a um bello dialogo
que eu sustentava aqui com a sr.
a D. Magdalena!
Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu
com a sua vinda o fio da comedia, que desempenhava
com perfeita sciencia de actriz. As almas ingenuas
e generosas, como a sua, sr. Augusto, são
ás vezes de uma impertinencia! Vamos, sr.
a
D. Magdalena;
não descoroçôe. Assim exgotou todos os
recursos da sua imaginação? Vamos, introduza
mais este elemento de apparição de um heroe no
enredo, e organise a comedia com o superior talento
que tem! Eu por mim acceito todos os papeis
que me distribuir.
Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou,
dizendo com voz firme:
—Perdão; vejo n'esta noite em todos uma notavel
disposição para usurparem direitos, que
não
possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar; o
sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que
já ha pouco lhe disse; se algum dia tiver necessidade
de explicar as minhas acções, fal-o-hei deante
de outros juizes, em quem reconheça o direito de o
serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar
que,
se o titulo de hospede e de parente não fôsse
bastante
para me assegurar da parte do sr. Henrique
de Souzellas os respeitos que me são devidos, tinha
ainda na minha familia defensores legitimos e não
seria por isso obrigada a recorrer á
protecção de
um estranho. Meus senhores...
E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha
passou por entre elles e entrou para a quinta, sem
que nenhum a procurasse reter.
—Se esta senhora acceitasse a sua protecção e
eu teimasse n'aquillo que chamou a minha insolencia,
qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento?
Poder-se-ha saber?—perguntou Henrique,
logo que a morgadinha desappareceu.
Augusto, em quem a fria altivez da resposta
d'ella deixára o desespero no coração,
respondeu
acerbamente:
—Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem vê que
não me esqueço facilmente do meu programma de
mestre-escola.
—Vejo; é a segunda tentativa de
lição que lhe
mereço. Permitte-me que ámanhã o
procure para
dar principio a um curso de educação mais
regular?
Augusto respondeu, sorrindo:
—É um cartel em fórma?
Não sei se estarei ensaiado
para essa comedia.
—Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha
esse sabor.
—Bem ouviu que se me negou o direito de tomar
partido por esta causa. Qualquer scena d'essas
entre nós seria pouco delicada...
ámanhã.
—Pois bem, contemporisemos; e até lá
é de esperar
que algum motivo occorra que a explique
melhor... aos olhos dos outros.
—Como queira; a minha porta não se fecha a
quem me procura.
E separaram-se depois de se cortejarem.
—Se me não engano—dizia comsigo Henrique,
em caminho do quarto—é um verdadeiro desafio
o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me
parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando
um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas,
decide-se pela férula. Tem graça! Veremos o
que ámanhã, á luz do dia, eu penso
d'isto tudo. Eu
já não fico por mim esta noite. Estou a querer
convencer-me
de que tenho andado estouvadamente e
com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É
que esta mulher e este creancelho são irritantes.
Ella com a sua altivez, elle com os seus brios. Mas,
na verdade, será este o Endymião d'esta esquiva
Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo
e timido... A ociosidade da aldeia para alguma
coisa ha de dar. Mas da maneira por que ella
lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias...
O que é certo é que estou em lucta com
uma mulher superior... Pois luctemos, priminha,
mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo
que o acaso me revelou, se segredo existe...
Veremos como ella ámanhã me trata...
Esta scena deixou em Augusto uma perturbação
de espirito mais profunda.
As operações mentaes, que o preoccuparam toda
a noite, eram d'aquellas a que repugna chamar pensar.
É mais uma febre intellectual, um succeder
de imagens sem ordem nem filiação, que
não conduz
a nenhum resultado, que não aconselha nenhum
partido, que não esclarece, offusca.
Como se explica esta differença entre os dois?
Por um apparente parodoxo; porque Augusto tinha
mais habitos de reflectir. Quando n'uma vida de
episodios uniformes e apparentemente vulgares, o
espirito exerce demasiado a analyse, habitua-se a
estudar factos que para outros passam por insignificantes,
e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.
Costumado assim a ligar valor a tudo, quando
succede que no decurso da vida se lhe depara um
facto de maior vulto, a confusão do primeiro momento
é inevitavel. Assim como a balança de
precisão,
apropriada para oscillar com pesos tenuissimos,
não é a que pode servir para os grandes
pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar
subtis accidentes, de que se compõe o drama habitual
da vida, não é a que de subito pode avaliar algum
mais complexo e importante.
A resolução n'estes espiritos, depois de formada,
é mais tenaz; mas, emquanto se não
fórma, vae
n'elles um tumulto de ideias, que se não podem
analysar.
Não analysemos, pois, as de Augusto.
Magdalena não socegou emquanto não viu Henrique
voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por
que saíra.
—Que resultará d'isto?—pensava ella.—Que
fará elle ámanhã?... É
preciso não me acobardar,
ou estou vencida... Mas que se passaria depois
que os deixei?... Veremos ámanhã.
No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena
sorriu.
É que lhe occorrera então este pensamento:
—Dizem que nós, as mulheres, temos filtros
subtis para nos tornar amadas. Pois será mais difficil
fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
XXIII