V
O homem das árvores

Quando a noite escureceu o rio, Vamiré percebeu que estava imensamente longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjão arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe à memória as lendas vagas dos Pzanns:

—«Tah, ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida, narrava o desmoronamento das montanhas. Três gerações antes de Tah, o Oriente meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos subterrâneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.

«O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e, desenvolveu-se uma geração inteira, sem que ninguém se atrevesse a devassar as novas regiões. Depois, Harm, o grande caçador, acompanhado pelo pai de Tah e por moços valentes, aventurou-se aos desfiladeiros cavados pelo cataclismo. E foi{38} assim que se descobriram as grandes planícies do Oriente meridional...»—

Sentado sob uma faia de franças trémulas, comovido por aquelas lendas, Vamiré desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras distantes.

Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros, que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios, e outros tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre árvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.

Mas nada disto desalentava o nómada. A sua curiosidade e a sua coragem crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas sombras.

Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o cansaço lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra surpresas muito rápidas. E, com a clava numa das mãos e a zagaia noutra, adormeceu.

Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros. Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa; mas é que nenhum tentou o assalto.

Vamiré acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da abundância de tudo, não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a força do homem.{39}

Mais de uma vez, diante da interminável floresta, de onde manavam grandes ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difícil que a ida; a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham regressado; e o coração enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e Namir, seus geradores, e de seus irmãos e irmãs, mais novos que ele.

É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante dois ou três quartos de lua, e se haviam acostumado às ausências dele; mas agora, que duração teria a viagem?

Os obstáculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamiré não podia transpor, senão levando a canoa pelas margens.

Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra, por cima da acidentada areia movediça, por entre répteis e feras alapadas, árdua era a passagem; mas estes próprios obstáculos, à proporção que ele os vencia em maior número, estimulavam-no à perseverança, pela ânsia de perigos sem recompensa.

Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o orvalho escorria das árvores como chuva ligeira. Um ruído de ramagens chamou a sua atenção. Viu avançar então um vulto cor de freixo, de andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mãos posteriores; a sua estatura excedia a da pantera. As suas quatro mãos, o seu rosto, os seus olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a Vamiré{40} palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara até mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser, de braços desmedidos e peito largo, reconheceu Vamiré o homem das árvores. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia, cada período o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da raça, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas algumas famílias solitárias.

Vamiré teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de chamar, próprio dos Pzanns. O homem das árvores parou, inquieto, espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.

Vamiré, desviando as frondes, descobriu-o de súbito.

—Hoi!... Venturoso sejas!

O homem das árvores pôs-se em pé. Coberto de pelos penugentos, de raros cabelos, de menor estatura que o nómada, mas mais largo de ombros, parecia dotado de uma força extraordinária.

Vamiré admirou-lhe a fisionomia feroz, as maxilas enormes, as sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas, a sua epiderme escura e granulosa, sem que diminuísse a simpatia, o prazer de encontrar um semelhante, depois de uma semana de solidão; e, acompanhando as palavras com o gesto, Vamiré tornou:

—Vamiré, amigo..., amigo!

O homem das árvores rosnou, entreabrindo os beiços, certamente hesitante sobre as intenções do outro.{41}

O nómada, vendo a inutilidade das palavras, recorreu aos gestos, mas sem outro resultado, senão aumentar a desconfiança do desconhecido.

Sem se importar disso, Vamiré deu alguns passos em frente; mas então, de punhos cerrados e pupilas trémulas, o homem das árvores bateu no peito e ameaçou o troglodita. Este irritou-se:

—Vamiré não teme o leão, nem o mamute, nem as ciladas dos homens...—

O homem das árvores rosnou outra vez, sem avançar todavia para o Pzann, mantendo-se na defensiva.

À vista do que, Vamiré calou-se, já sem ira, e com uma curiosidade crescente.

Os dois contemplaram-se por algum tempo.

Esta pausa pareceu inspirar alguma confiança ao homem das árvores. A sua fisionomia desvincou-se, manifestando uma paz de herbívoro. Embora menos analista que Vamiré, percebia também que estava na presença de um semelhante. Vagos instintos porém, talvez recordações directas, temores atávicos, não lhe tornavam agradável tal presença.

Sentiria ele que outrora, ao dissolver-se o período terciário, ele ocupava a mesma escala do grande dolicocéfalo que estava em pé diante dele? Que, por misérias e vivendas depressivas, a sua raça estava agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele, gravadas na sua carne, as dores, as revoltas, as nostalgias, os êxodos perpétuos, as campanhas perdidas, tudo que se transmite de geração a geração, de sangue a sangue, e cujo despertar indefinido, entressonho de vidas passadas, ressurgidas{42} subitamente nas fibras hereditárias, equivale à memória directa e precisa?...

E o homem das árvores, desajeitado, continuava, embora menos desconfiado, a espreitar Vamiré. O Pzann, deixando de gesticular, e convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender, retirou-se para a sua canoa, a fim de a pôr a flutuar.

Quando chegou ao rio, voltou-se e viu que o homem das árvores o tinha seguido e o olhava com curiosidade.

Embarcado Vamiré, uma certa benevolência se desenhou na boca cinzenta, sobreposta de nariz chato, do homem das árvores, que com os braços peludos esboçou um vago gesto de amigo. Vamiré correspondeu-lhe imediatamente, sorrindo, e desculpando ao selvagem a desconfiança.

Por muito tempo, e enquanto a débil canoa se afastava, entre o raizame das margens deixou-se ver imóvel uma face atenta; e uma admiração pânica e uma impressão mista e selvática como as sarças marginais, vagueavam no cérebro do homem inferior, no crânio moroso do homem das árvores.{43}

 

VI
Contra-anúncio

Mais alguns dias, e sempre a floresta! Vamiré começou a duvidar de que ela terminasse. Porque não seria ela a fronteira do mundo?

E contudo as cachoeiras iam diminuindo. À excepção do assalto de uma pantera, que do alto de uma árvore o atacou, e cujas entranhas ele fez em pedaços, à excepção da tortura dos infinitamente pequenos que sem cessar lhe perseguiam o corpo, à excepção das ameaças dos répteis, Vamiré só tivera que vencer os obstáculos do inanimado, as ciladas da terra pantanosa e das plantas emaranhadas das angras. Cada vez mais hábil em adivinhar os perigos, ao simples aspecto da terra e das águas, acostumara-se a rir de tais obstáculos, e maior altivez palpitava no seu coração e nas suas carnes.

Ao sexagésimo dia, a vegetação começou a clarear-se. Por duas ou três vezes se avistaram clareiras, novos recantos silvestres em que as árvores eram mais acanhadas e mais raros os colossos seculares.{44}

Por outros indícios ainda, pela presença de animais que preferem a proximidade dos espaços livres, pela própria natureza do terreno, Vamiré pôde pressentir o bom êxito da sua empresa.

Dois dias depois, haviam desaparecido as suas últimas duvidas. A margem esquerda mostrou-lhe velhas estepes, ligeiramente arborizadas, e onde as árvores se disseminavam muito.

Ao meio do sexagésimo oitavo dia, amarrou a canoa numa calheta escolhida, armou-se com as zagaias e a clava, e empreendeu uma excursão a pé, para o lado do Ocidente.

O solo era firme; as gramíneas e as plântulas predominavam, cada vez mais, entre as árvores.

Depois de algumas horas, Vamiré chegou acima de um outeiro, de onde avistava um amplo horizonte. Ao Norte, uma perspectiva verde, violácea, atrigueirada, a floresta-oceano, por onde se escoavam os encantos da luz, onde a vida se alastrava em expansões inúmeras e subtis. Ao Sul, a inclinação das estepes, entrecortadas de oásis, a perspectiva de uma região de caça e transito livre, o novo pais que Vamiré desejava conhecer, e cuja aparição lhe encheu triunfalmente o peito.

Rindo consigo, pensava na surpresa dos Pzanns, na satisfação de Zom e de Namir, quando lhes contasse a sua viagem.

Ficou extático, por muito tempo, sobre a colina. Mas o firmamento, por cima dele, tornou-se ardente. Juntaram-se grossas nuvens, carbunculosas, orladas de fosforescências. Um sopro angustioso, giratório, ascensional,{45} comprimia as plantas; os raios caíram majestosamente sobre a floresta.

Vamiré gostou da tempestade; o seu organismo absorveu a força e o movimento dela, tão acordes com o estado da sua alma. Quando se despenhavam as águas do céu, Vamiré desnudou os ombros e recebeu com voluptuosidade a fresca inundação.

Calmou-se entretanto a tormenta, esfarrapados os nimbos, bebidos pela tepidez firmamental, desfeitos pelos choques eléctricos. Apenas as gramíneas guardavam a humidade fluvial: a terra ávida tudo absorvera.

Depois da chuva, Vamiré marchou deliciado para a paisagem. Os últimos vestígios silvestres tinham-se desvanecido. Nada havia já, se não estepes imensas, entrecortadas de verdes maciços.

As nuvens disseminadas desmanchavam-se em pedaços efémeros adiante do sol, e uma ligeira sombra, de instante a instante, refrescava as perspectivas.

Ia chegando a noite. À hora do crepúsculo, Vamiré, parou à beira de um oásis e passou ali a noite. No outro dia, prosseguiu na marcha, resolvido, se não sobreviesse alguma aventura, a regressar, visto como havia descoberto o que desejava: novas terras de caça.

Pegadas de uros, de aurocos, de veados, de cavalos, convenceram-no da fecundidade do terreno, e projectou uma grande expedição de moços Pzanns, para o ano seguinte. Mas, ao segundo terço daquele dia, ocorreu uma aventura importante.

Foi durante uma paragem, quando o nómada acabava de comer um par de codornizes, caçadas durante{46} a marcha. Abrigado sob umas figueiras silvestres, viu aproximar-se uma mulher.

Vinha vestida de fibras vegetais, entretecidas de gramíneas da planície.

Vamiré encobria-se; a onda que nele se agitava, do coração ao cérebro, traduzia ansiedade e satisfação.

A certeza de que ela era moça demonstrava-se não só ao simples aspecto, à proporção que ela se aproximava, mas também pela cadência do andar e pela flexível vacilação das ancas.

Quando ela chegou a trinta passos, viu-se que atingia apenas a puberdade, mimosa virgem de grandes olhos, surpreendendo Vamiré pela dissemelhança com a rapariga vulgar da Europa, de crânio alongado e compleição robusta.

O seu rosto, um pouco redondo, pálido como as nuvens primaverais, os seus cabelos iguais à melânia dos lagos em noites sem estrelas, a sua cintura breve, mais comparável à circunferência dos freixos que à dos choupos, e o porte da sua figura, e a forma dos seus lábios e da sua fronte, e o talho das suas pálpebras, tudo lembrava a raça longínqua, a humanidade que se engrandecera, após milhares de séculos sem contacto com as hordas nómadas do Ocidente.

Vamiré,—da mesma forma que o herbívoro, estranho desde séculos às regiões bravias, guarda o instinto atávico de reconhecer o grande tigre,—Vamiré percebia a distância entre o seu organismo e o da adolescente. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo, aonde o levara um capricho seu; e esta{47} presciência do desconhecido abalou-o. Hesitava o nómada em assaltar aquela presa de amor, e uma horripilação atravessava-lhe as fibras, como a aproximação de uma tempestade nos nervos de um pássaro. Mas na sua imaginação bárbara, agitada por um sangue eléctrico e por todo o amor de Maio, a estrangeira pareceu infinitamente apetitosa.

Filho da arte, propenso à voluptuosidade dos contrastes, sentiu-se atraído pelos longos cílios de frouxel negro, pelo andar oscilante, pela precisão dos contornos, pela encantadora viveza das pupilas, e resolveu-se.

Mas, enquanto hesitava, a viandante abeirou-se do oásis. Vamiré levantou-se de um salto, com a rapidez de um garanhão.

Sentindo rumor e voltando-se, a virgem viu chegar Vamiré. Assombrada e gritando plangentemente, tentou fugir. Pisava as grandes ervas, correndo ligeira, mas sem esperança de escapar ao formidável caçador, e por duas ou três vezes procurou ladear, encobrindo-se com as moitas, tomando por tangentes. Vamiré perseguia-a, cada vez de mais perto, retardado simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. A virgem sentiu-o enfim junto de si, e na cabeça o hálito do caçador.

Parou e voltou-se. Com o susto a reflectir-se nas pupilas, e o peito turgescente sob as fibras do vestuário, ergueu os braços suplicante, em meio de uma caudal de palavras confusas.

O nómada ficou imóvel diante dela, convencido{48} da impossibilidade de compreender aquela linguagem, mais rápida e mais sonora que a sua. Mas a linguagem da natureza, o terror impresso nos lábios e nas pálpebras da desconhecida, moveram-no à piedade. Menos vivas e mais profundas, percorreram-lhe o organismo novas impressões, esboço de poema selvagem e retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura.

Teria ela a compreensão, o instinto sequer, do seu triunfo sobre o grande ocidental de cabelos claros?

Menos tremula, continuou a murmurar silabas, mescladas de uma indecisa malícia. Vamiré tentou responder, significar-lhe que não queria fazer-lhe mal. Mas os seus gestos de estatuário eram novos para ela, que os observava atentamente. Filha de raças não plásticas, de raças cultuais, não compreendia senão movimentos amplos e monótonos, distantes da natureza. Mas ainda mais que pelos gestos, pareceu surpreendida quando Vamiré, desprendendo um dos seus enfeites de marfim, lho ofereceu: não sem desconfiança, a virgem contemplou as linhas gravadas na pequena lâmina,—a corrida de um uro, perseguido por uma fera,—e pegava no artefacto em sentido contrário sem o compreender. O nómada, sorrindo, pôs-se a indicar a direcção dos traços, a representar o desenho por gestos, perturbando-a ainda mais.

Entretanto, os olhos e as interjeições de Vamiré iam-na tranquilizando a pouco e pouco.

A desconhecida já sorria também. Então, cheio de alegria, Vamiré pôs-lhe a mão no ombro. Ela recuou, voltando à desconfiança.{49}

—Vamiré é bom!—murmurou ele.

De repente, a desconhecida, estendendo os olhos pelo horizonte, deu um salto e bateu as mãos. Vamiré, seguindo-lhe a direcção do olhar, viu, contrariado, aproximar-se, correndo, um grupo de homens, enquanto ela, com um gesto, um tanto travesso, fazia sinal ao nómada para que fugisse.

Vamiré, crispando as mãos, tacteava as suas armas e contava os sobrevindos, que eram doze, armados de grandes arcos e lanças.

Diante da impossibilidade da luta, deixou-se possuir de uma desesperação de idílio frustrado e de orgulho ferido.

—Vamiré não tem medo,—disse ele altivamente. E, como a estrangeira se ia afastando, seguiu-a e segurou-a por um braço. Ela debatia-se, gritando alto. Irritado, Vamiré apertou-a contra si e levantou-a.

Aterrada por ver que era leve como uma cabrinha sobre o peito do nómada, defendeu-se sem violência, timidamente.

Não obstante o fardo, Vamiré tomou caminho, e pôs-se a correr, com uma velocidade surpreendente, excitado pelo grito dos que o perseguiam, e, pelo menos nos primeiros minutos, foi ele o vitorioso.

Os que lhe iam na cola, membrudos, e de raça menos encorpada que a dele, não pareciam perseguidores de presas, homens de jarretes de fera, como os dolicocéfalos ocidentais.

Ágeis contudo, não cansariam tão depressa como Vamiré, a menos que este não abandonasse o fardo. Mas{50} ele não pensava nisso, dominado pelo seu temperamento de lutador.

Vamiré corria para leste, para a margem onde deixara a canoa. Supondo-se mesmo que mantivesse a sua velocidade, não poderia chegar lá antes de metade de um dia, muito depois do crepúsculo, depois que a lua estivesse no zénite.

Passados alguns minutos, a donzela deixou de se defender. Mulher afinal, levada por um homem que a não tratava severamente, começou a sentir uma vaga curiosidade, deixando descansar a cabeça e a parte superior do peito no ombro de Vamiré.

Ao longe, na planície, via os homens da sua tribo, distinguia-lhes os gestos. Armados de grandes arcos e lanças velozes, cobertos de mantos tecidos com fibras de plantas e lã de animais, eram por ela confusamente cotejados com Vamiré, vestido com a pele do espeleu e armado de clava e zagaia; desejaria sem duvida que eles triunfassem, e contudo desejaria também salvar a vida do seu raptador. Uns longes de vaidade, a impressão feminina de que a violência do homem não era uma injuria, a força de Vamiré, a atracção do desconhecido, todas estas coisas vagueavam no seu espírito semibárbaro, não permitindo a fixidez de um desejo.

Decorreu uma hora de terrível correria, em que Vamiré aumentou sempre a dianteira que tomara.

Mais suave, mais inclinada, a luz cobria de âmbar a planície, e a sombra do caçador e da sua presa galopava, projectando-se imensa para leste.

Voltando-se subitamente, Vamiré não viu os perseguidores.{51} Subiu a um montículo e avistou-os a mais de quinhentos cúbitos. Abriu os lábios num sorriso triunfal e gritou:

—Eô! Eô!

E, voltando-se para a virgem:

—Vamiré é o mais forte!—

Ela voltava a cabeça, ofendida por aquele sorriso e por aquele grito. O caçador sentou-a, e ficaram em silêncio por minutos.

A respiração de Vamiré, rouca e desagradável pouco antes, foi-se regularizando; o peito arquejava-lhe mais rítmico.

O nómada murmurou então algumas palavras. Ela abriu os olhos, e o seu olhar encontrou o dele. O olhar de Vamiré era sereno e terno. Ela encrespou as pálpebras, deixando ler no rosto uma temeridade feminina, maliciosa, desdenhosa.

Vamiré inquietava-se e encantava-se com isso: achava-a assim mais amável, e repetia, com menor convicção:

—Vamiré é o mais forte!—

Os perseguidores aproximavam-se: era necessário recomeçar a fuga.

Vamiré retomou a dianteira que levara, e pareceu então evidente que os outros, e não ele, cansariam primeiro. Demais, os perseguidores, que até então corriam juntos, começaram a desunir-se, e três ou quatro apresentavam-se muito fatigados para prosseguir. Os outros conservavam-se quase em grupo, sem que nenhum curasse de se adiantar aos companheiros, dominado pelo{52} misterioso da aventura e pela estatura elevada e agilidade extraordinária do dolicocéfalo.

Ia-se entretanto extinguindo o dia. Era a hora da cor de jalde. Na planície, um silêncio sem vibrações, uma atmosfera melancólica e fresca, um estádio de repoiso.

Os oásis esparsos difundiam vida em torno de si; os nemóceros voavam em altas colunas por cima das superfícies húmidas; por toda a parte despertava um frémito eufónico, balbuciações de pássaros. Hora de segurança e bem-estar, em que os animais diurnos não tinham que recear o vaguear das feras, hora em que os grandes ruminantes se deitavam na planície com uma segurança encantadora, e em que alguma coisa do viço matinal voltava, ao cair do dia.

A corrida de Vamiré tornava-se frouxa e difícil; mas, atrás dele, a perseguição parecia abandonada.

Na extrema do horizonte, o vulto dos archeiros fora-se esvaindo; e debalde o caçador procurou avistá-los, subindo a um montijo. Descansou pela segunda vez, poisando a desconhecida.

Esta, melancólica, quedou-se de pé, ao lado dele, compreendendo a inutilidade de qualquer tentativa de fuga.

Quanto a ele, sentia-se agora muito fatigado para exprimir o seu triunfo, e inquietava-se por ver que não poderia recomeçar a corrida. Consolava-o contudo a ideia de que os seus perseguidores deviam estar também extenuados.

E ficaram ambos silenciosos.{53}

Chegava o crepúsculo. Com uma lentidão majestosa, os mundos do colorido iam-se apagando sobre o Poente, e Vamiré estremeceu, vendo a sua companheira inclinar-se, estender os braços para o horizonte e falar ao disco do sol. Filho dos ocidentais não hieráticos, vagamente supersticioso mas sem culto, não compreendia o acto da oriental e olhava-a com curiosidade, com inquietação talvez.

Quando ela terminou, demoraram-se ainda algum tempo, até que a lua se ergueu.

—Vem,—significou Vamiré.

Ela compreendeu o gesto e, sem resistência, marchou ao lado dele. Depois, na solidão da noite, enquanto o lobo e o chacal começavam a uivar sobre as estepes, ele era um apoio. A estrangeira admirava profundamente a grande clava do caçador, lançada ao ombro e fixada por ligaduras. Era já um principio de intimidade, de confiança, de resignação mais calma. Mas Vamiré, cheio de cansaço, não tinha o ardor de pouco antes, esgotado nas suas artérias o sangue de Maio, cheio de poderosas moléculas.

Marcharam por muito tempo os dois vultos, enquanto subia a lua pré-histórica. Começava a estepe a cobrir-se de mais numerosos oásis; as árvores, multiplicando-se em moitedos, anunciavam a proximidade da floresta; os raios do luar incidiam mais prateados sobre as ervas, e Vamiré entendeu que a sua companheira devia ter fome e sono. Ele tinha sobretudo sede.

—Descansa!—disse ele; Vamiré vai caçar.

Ela assentou-se, submissa. Era debaixo de três figueiras{54} silvestres, robustas e cheias do perfume da primavera. O sonho infiltrava-se por entre as ramarias, o eterno sonho da lua e das constelações; e a filha dos orientais entregou-lhe a sua alma confusa. Sonhando, percebia a fragilidade do seu ser; a sua família e a sua tribo, o larário da noite, os sacerdotes, os rebanhos de bois asiáticos, povoavam-lhe a mente e torturavam-na até as lágrimas; mas, ali sozinha, não chegava a odiar o homem que a roubara, antes o considerava como barreira única diante da noite formidável.

Vamiré, na planície observava atento o horizonte. Perfis de felinos apareciam a espaços. Muito ao longe, um cervídeo ia fugindo. Mas eis que um lobo, de focinho erguido, se aproxima das três figueiras; quase ao mesmo tempo, saltou assustado um animalzito, uma lebre.

Postado em linha obliqua, Vamiré esperou o ponto em que lhe ficasse mais próxima a carreira dela; depois, a sua zagaia ergueu-se, sibilou, e o pequeno animal rolou entre as ervas. Ao salto do caçador, o lobo fugiu e Vamiré foi apanhar a lebre.

Esfolou-a rapidamente e suspendeu-a de uma frança. Depois, ajuntando ramos e ervas secas, tirou de um saquete o sílex com que os dolicocéfalos faziam lume, estendeu as fibras mais secas e fez saltar centelhas.

Depois de algumas tentativas, a chama levantou-se, pequena ao principio, mas avivada depois por mancheias de combustível, acertadamente dispostas, e a lebre começou a assar-se.

A asiática, à vista do lume, inclinou-se, como fizera{55} diante do sol poente, e com igual melopeia de palavras.

Vamiré, impassível, acabou de assar a lebre. Depois, convidou a sua companheira, e ambos comeram em silêncio.

A refeição foi breve. O cansaço de um e a comoção de outra não lhes permitiam comer muito; mas atormentava-os uma viva sede: era mister prosseguir na marcha até se achar água.

Puseram-se em marcha, e, antes de mil passos, Vamiré começou a ouvir o murmúrio de águas e, logo após, avistou um regato, onde se dessedentaram.

—Dormir!—deu a entender o homem.

Ela compreendeu o gesto. Perturbou-se, perscrutou Vamiré, que, à palidez do luar, tinha um aspecto triste, abatido, nada feroz. Sentou-se então contra um vidoeiro e, um tanto receosa ainda, entrecerrou as pálpebras, em luta com o cansaço. A natureza dominou-a, e ela cedeu à semi-morte quotidiana.

Sentado à beira do regato, Vamiré contemplava as facetas da água, as retículas da vegetação, as ombreiras dos salgueiros interpostos diante da lua.

Pelo seu cérebro vagueava um devaneio vasto e tranquilo como a noite. Amortecido pela fadiga, toda aquela aventura se lhe esboçava em notas lentas, profundas, eternas. A ascensão da lua, o uivo dos animais, o murmúrio dos fluidos, os fantasmas arborescentes erguidos na planície, pareciam conceder-lhe o tempo e o espaço. Por ter trazido consigo a donzela, parecia-lhe sua, como a pele do espeleu, que lhe pendia dos ombros.{56}

Mas o firmamento começou-lhe a vacilar, as árvores iam-se transmudando em fisionomias movediças. Por sua vez, Vamiré sentiu o ambiente pesado, o seu ser retraído e as suas carnes cedendo ao repoiso. Deu vagamente alguns passos por baixo do vidoeiro, segurou com a mão a veste da adormecida e estendeu-se sobre as ervas.

Correu tempo. A lua começou a declinar e estava a menos de trinta graus do horizonte, quando Vamiré despertou.

Com um lance de olhos, assegurou-se da presença da sua companheira e pôs-se de pé, observando a planície. Mas nada viu de duvidoso, e concluiu que os perseguidores tinham desistido do intento ou que a sua fadiga, maior que a dele, os condenara ao repoiso.

Como se sentia bem disposto e com as forças restabelecidas, resolveu aumentar ainda aquela boa disposição e pôr-se a caminho.

Restava um pedaço de lebre; partiu-o em dois e comeu um. Depois, tendo refrescado a cabeça no regato, ficou, por alguns minutos, contemplando a adormecida.

Estava estendida agora sobre o solo. A delicada cabeça apoiava-se no cotovelo. O seu corpo, dobrado em ziguezague, tinha um estranho encanto, que alvoraçava Vamiré.

Uma onda de sangue rugiu nas fontes do caçador; reaparecia nele o instinto selvagem.

O homem abaixou-se. Mas que instinto ou que doçura poética o fez erguer, cheio de piedade?

Incapaz de a analisar, sem que ela por isso o impressionasse menos, acordou a sua companheira, tocando-lhe{57} levemente. Ela ergueu-se lentamente, assustada, estremunhada. Depois, readquirida a percepção das coisas, ficou triste e estendeu um olhar sombrio às estepes lunares, à queda avermelhada do astro nos abismos ocidentais. Entretanto, foi-a invadindo uma vaga satisfação, pois que o dia se aproximava, e as suas carnes viçosas eram uma invocação à felicidade.

De maneira que não recusou a ligeira refeição, oferecida por Vamiré, e até, renascendo-lhe o apetite, sentiu prazer em mordiscar a coxa assada da lebre. O caçador, encantado, admirava-lhe os dentes de lobo, a cabeladura desprendida ao longo do pescoço; e não sei que sentimento de maternidade se mesclava ao amor crescente do moço pré-histórico.

Furtivamente, de olhos baixos, ia-se ela acostumando à presença do caçador, achava-o mais belo e mais robusto ainda do que na véspera, mas; a sagrada recordação da tribo interpunha-se aos dois e enchia-a de saudades.{58}{59}

 

VII
A perseguição

Pouco depois do alvorecer, Vamiré e a sua companheira chegaram enfim ao rio.

A abandonada canoa lá estava ainda na moita onde ele a escondeu: teve só que tomá-la aos ombros e pô-la a nado. Mas quando nela quis meter a estrangeira, esta manifestou violenta repugnância. Foi quase preciso empregar a força. Entretanto, desde que ela se viu embaraçada, voltou-lhe a resignação, o seu fatalismo de oriental.

Vamiré, acompanhando a margem, por onde a corrente era mais branda, pôs-se a navegar rio acima, lentamente.

Era deliciosa a hora, os raios do sol oblíquos, e toda a natureza rejuvenescia nas estepes. Árvores mais numerosas anunciavam a proximidade da floresta, e Vamiré esperava chegar lá, antes que o sol estivesse a meio caminho do zénite.

Mas haveria apenas meia hora que ele pangaiava,{60} quando teve um rebate. O seu olhar perspicaz descobria além, na planície, uma multidão confusa de homens ou animais. Minutos depois, não restava duvida: eram homens parecidos aos perseguidores da véspera e provavelmente os mesmos. Graças ao cortinado das árvores, Vamiré tinha a vantagem de que eles não descobririam prontamente a canoa, ao passo que ele, próximo dessas árvores, cujos intervalos lhe serviam de observatório, estava em posição de lhes seguir os movimentos pela planície inclinada que levava ao rio.

Demais, não traziam pressa; paravam amiúde, e desde logo percebeu o nómada que eles lhes seguiam a pista, com todas as paragens inerentes a este modo de perseguir.

Vamiré não descobriu a impressão à sua companheira, e começou a pangaiar com mais ardor, no intuito de atingir a floresta e desembarcar na outra margem. Mas, após alguns minutos, a rapariga avistou por sua vez os que a procuravam, e a sua fisionomia animou-se. Soltou uma exclamação, e, voltando-se para o seu raptador, dirigiu-lhe um olhar suplicante e humilde.

Vamiré baixou os olhos, comovido. Mas depois veio-lhe o despeito, uma resolução rude, que lhe fez dizer, como na véspera:

—Vamiré é o mais forte!—

Ela conservou-se firme, indiferente na aparência, observando obliquamente a vinda dos outros.

Vamiré calculou que, não sendo visto no momento em que eles chegassem à margem para conhecer as condições do rio entre a vegetação que o ladeava, hesitariam{61} necessariamente entre três ideias: que ele teria descido a corrente; que a teria subido; ou que teria atravessado o rio e continuado o seu caminho para leste.

Mantendo-se a velocidade actual da canoa, seria possível chegar à ilhota longa e estreita, coberta de arvoredo, que ele avistava mais acima, a dois mil cúbitos. Chegando lá e voltando à direita, nada poderia ser observado pelos perseguidores. Calculando bem as velocidades respectivas, a sua salvação dependia de uma dezena de cúbitos.

Empenhou todas as suas forças num impulso supremo, e abeirou-se rapidamente da ilha. Mas ao mesmo tempo chegavam os outros ao rio.

Naquele momento, foi enorme a inquietação de Vamiré: um dos asiáticos, pondo a mão em pala sobre a testa, parecia olhar na direcção dos fugitivos. Pela maneira como deixou cair a mão, pareceu a Vamiré que ele nada tinha visto; mas não era menos certo que o cortinado das árvores se tornava menos opaco para os outros e podia ser sondado por algum deles.

Felizmente a ilha estava próxima: mais algumas remadas, e Vamiré estaria no pontal.

Mas, de repente, a sua companheira, percebendo-lhe a estratégia desesperada, ergueu-se em pé e soltou um grito. Sem reagir, Vamiré deu as últimas remadas, dobrou o pontal, e, à sombra, invisível, tomou terra numa pequena calheta, e levantou-se furioso:

—Cala-te!—

A sua mão rude levantou a rapariga, sacudindo-a. Ela assustou-se, calou-se, dominada, entregue ao seu fatalismo.{62}

Vamiré conservou-se irritado dois minutos, com os temporais latejantes. Depois, serenou, convencido de que o grito não chegara à margem, e pôs-se a perscrutar a estepe.

Devidamente, ele estava de melhor partido. Os outros, lá em baixo, mais vagarosos, mais hesitantes, chegados a uma zona, em que as pegadas de uros se confundiam com os vestígios de Vamiré, certamente não podiam ainda explorar o rio. Vamiré apontou-os, triunfantemente com o dedo à oriental:

—Nunca mais te haverão..., nunca mais!—

E, obrigando-a a sentar-se de novo na canoa, retomou o remo e continuou a costear a ilhota.

A pequena embarcação singrou silenciosamente por algum tempo. A ilha ia-se alargando, recoberta de áspera vegetação, de árvores devoradas por cipós. De espaço a espaço, descobriam-se sapos colossais, aves pernaltas, palmípedes.

Através do incenso primaveral, da alegria perfumada das corolas, emanava das sombras um bafio de humo, de madeira bolorenta, de organismos sáurios. Aqui e ali, pontais a dobrar e plantas fluviais sobrenadando, atravancavam a canoa. As ogivas dos ameeiros e dos freixos roçavam Vamiré e a sua companheira; e a imagem trémula das coisas ressaltava das águas, revestida, ao mesmo tempo, de uma graça mais discreta e de uns revérberos vertiginosos.

E assim foi chegando Vamiré até meio da costa; depois, a ilha começou a estreitar-se, a afilar-se, à feição de proa.{63}

As águas azulejaram. Avistou-se enfim a ponta da ilha; o rio mostrou-se largo e límpido; a floresta ostentou-se a três mil cúbitos.

O nómada entendeu que, ficando à esquerda, a interposição da ilhota-navio o tornaria seguramente invisível, enquanto os seus inimigos não chegassem ao ponto marginal correspondente ao centro, dado que eles continuassem a persegui-lo. Ainda mesmo que eles passassem para a outra margem,—caso em que o perigo seria mais próximo,—ele chegaria provavelmente à região florestal antes de ser avistado, e ali a dificuldade da marcha para eles dava toda a vantagem à canoa, vogando livremente sobre as águas...{64}{65}

 

VIII
Noite na floresta

Ainda a noite! A vida imensa e minúscula; o mistério das forças; léguas de floresta; o choque das moléculas e dos seres; o contacto interminável da terra; o eriçar-se dos organismos imóveis, de veias frias, estremecendo ao roçar da aragem; o divagar da fome, das angustias, dos amores; e um astro de âmbar pálido rolando nas solidões do firmamento.

Entre musgosos montijos, Vamiré construiu provisório abrigo, coberto e fechado por grossos ramos, entrelaçados de enrediças. Fortaleza sólida. Se uma fera tentasse violá-la, Vamiré teria tempo de a ferir mortalmente, pelos interstícios, com a ponta da zagaia, embebida num veneno subtil e encabada numa haste de freixo.

Ao meio da noite, Vamiré, despertado por certo rumor, abriu os olhos e observou. Em torno do abrigo, vagueavam lobos; uma pantera ia passando na dúbia claridade do mato. Soaram entretanto uns gemidos roucos: Vamiré avistou o vulto de um grande tigre, que devorava um antílope, ainda vivo.{66}

—Élem!—murmurou ele.

A doçura penetrou-lhe na alma, diante da braveza da noite. O nome, que pronunciou, era o da sua companheira, nome que ele obtivera na paragem do meio dia, quando a apertava com perguntas gesticuladas.

É a terceira noite que passam na floresta, sem que o nómada saiba se são perseguidos ou não. A fuga fora penosa, o rio cheio de sinuosidades, a floresta abundante de ciladas, mas tudo vencera o caçador. Àquela, hora, as peripécias da travessia vinham-lhe à mente, de envolta com o nome da sua companheira.

—Élem!... Vamiré é o senhor de Élem!—Contempla-a, adormecida. Débeis ondas de luz, entremeadas de sombras, escoavam-se dos orifícios do abrigo sobre o rosto da virgem. Vamiré palpitava diante daquele perfil indefinido, e recompunha-lhe mentalmente os traços pálidos.

À proporção que ele vinha fugindo, à proporção que lutara por ela e contra ela, que acumulara fadigas para a raptar, mais preciosa se lhe tornara ainda.

O desenvolvimento da sua ternura coincidia com afectuosidades subtis, delicadezas de sentimento, até ali desconhecidas. Se se sente rudemente impelido a levar a aventura até ao desenlace, se deseja Élem apesar dela, e apesar de todos os perigos, sente-se, em compensação, cheio de piedade e de paciência.

Só a iminência de um perigo, o medo de a perder ou de morrer poderiam devolvê-lo à brutalidade de troglodita... Demais, ela incute-lhe um religioso temor; perturba-o com o seu silêncio, com os seus grandes olhos,{67} imóveis durante horas, com a sua misteriosa prosternação perante o sol poente e o sol nascente, com as palavras que ela então profere, lentas, monótonas, rítmicas...

Estalam ramos. Ouvem-se na clareira passos pesados; os lobos afastam-se. Por baixo das ramarias, apoiado nas colunas redondas das suas pernas, com as suas defesas brancas cintilando à frouxa claridade, eis o colosso quaternário, o grande mamute da decadência. Agita-o uma certa inquietação ou febre primaveral, um desejo de refrescar-se nas águas do rio. Adianta-se majestosamente, e o próprio tigre recua, levando a sua presa.

Vamiré, estremecendo, admira o enorme animal. Conserva por ele o respeito que os velhos transmitiram, sabe que é valente e pacifico e conhece a história melancólica da sua decadência.

—Lô! Lô!—

O mamute continua a andar; o perfil da sua larga cabeça torna-se mais nítido na penumbra, e Vamiré distingue-lhe a crina e a pelagem, a tromba escura que se baloiça sincronicamente, e os flancos enormes.

O animal roça o abrigo do caçador, afasta-se na direcção do rio, e Vamiré, deitando-se, julga que pode ter uma hora de sono, e fecha as pálpebras. As ideias chocam-se confusamente; afastam-se depois, e a respiração igual atesta o sono, o descanso.

Abrem-se então os olhos negros da sua companheira, que se põe à escuta, suspirando. Assalta-a uma ideia de libertação; se ela ousasse, enquanto ele dorme,{68} desmanchar o entrelaçamento dos ramos do abrigo e fugir para o Ocidente, para as regiões da sua tribo?

Mas Vamiré ouviria certamente o ruído, acordaria, e ela estremece, só à ideia do seu grito de cólera. Entretanto assoma-lhe aos lábios um sorriso, um desvanecimento feminil e não se supõe simplesmente uma vencida. Porque ela viu-o embaraçado e tímido, e fez recuar os apetites do bárbaro. Tudo isto ela compreende tão bem como as filhas do homem que hão de viver em longínquo futuro, e das quais ela possui a ciência confusa e, ao mesmo tempo, subtil.

Por isso os seus receios são mesclados de indulgência, sem todavia poder esquecer-se daqueles entre quem passou a infância; dos seres da sua raça, da sua família, dos moços que falam a sua língua.

Se ela ousasse... Mas, acima da cólera de Vamiré, apavora-a a floresta que a rodeia, abundante de meandros e carnívoros; e reconhece quanto é fraca, sem a clava e a zagaia do raptador.{69}

 

IX
O idílio nascente

Nos dias daquela fuga febril, em que o gigante loiro a arrancava ao sono; nas paragens nocturnas, e durante a comoção das caçadas, começara a formar-se o idílio na alma de Élem.

Em todos os seus sonhos, e através das pálpebras, surgia o cenário da floresta e o vulto de Vamiré em movimento, enquanto as estepes natais e as tribos pastorís se confundiam e se desvaneciam nos confusos horizontes da memória.

Mas, quando recrescia o instinto de resistência extrema, o receio da maternidade, o desejo de sorte menos inquieta, e quando surgia a ideia da união dos dois, na convivência, no contacto dos corpos, mais distantes pareciam um do outro, esquivos, concentrados.

Algumas vezes porém, as horas que ao meio do dia dominam a carne e ao crepúsculo o pensamento, quebravam aquela indiferença.

Então, a virgem morena, amortecida ao calor da{70} atmosfera, ou embalada nos vagos rumores do sonho, distendia a vontade rude, poisava os olhos nos olhos do homem, permitia um pouco de intimidade. Indispunha-a porém contra ele uma fera que rugia, um relampaguear de tormenta, um súbito receio dos lobos nocturnos.

Vamiré conseguiu algumas vezes que ela cantasse as melopeias, com que a sua tribo acompanhava o trabalho. Escutava-a, encantado pela sua candura de selvagem, seguia a cadência, embebia-se na musica de uma língua desconhecida. Como uma criança balbuciante, repetia o canto, inclinando-se às articulações misteriosas.

Porque ele ia aprendendo o dialecto estrangeiro, já sabia designar objectos e vocalizar movimentos.

Por seu lado, ela interessava-se pelas armas, pelas zagaias, de que Vamiré empregava muitas espécies;—as de bases abertas para receberem a haste; as de pontas que se embebiam num buraco da haste; as de arpões chatos ou de varetas; as de lâminas como punhais; as de raspadeira; mas o que ela admirava sobretudo era a fina agulha de fundo aberto, e o fio para coser, tirado dos tendões da rena,—coisas desconhecidas da tribo dela, a qual, se bem que já sabia a arte de entrelaçar as folhas vegetais, ainda empregava unicamente o furador.

E não admirava menos a escultura e a gravura, espantada da paciência, da segurança dos entalhes, da verdade das análises. Escutava com curiosidade Vamiré, que procurava explicar o modo de vida dos Pzanns; e{71} seguia a gesticulação do homem, que indicava dimensões, figurava cerimónias, descrevia habitações.

De uma vez, quis ela informar-se da sorte das mulheres e, depois de alguns esforços, compreendeu a repartição em famílias, sob a direcção dos anciãos. Admirou-se muito, porque provinha das tribos monógamas em que havia uniões periódicas com as tribos amigas, sendo os filhos criados pelas mães, e os pais reciprocamente guarda-costas das esposas e protectores vigilantes da prole.

Os raptos de donzelas eram habituais; pelo quê, a cólera dos orientais não procedia do rapto de Élem, mas de que Vamiré tivesse cometido esse rapto sem aliança prévia, e, mais ainda, essa cólera procedia da viva aversão a uma raça longínqua.

Entretanto, Vamiré e Élem compreendiam-se mal, pela impossibilidade das minúcias.

Na marcha, na caça, na cozinha, iam decorrendo longas horas. Viviam em comum, tocavam-se ingenuamente, como duas crianças perdidas na floresta imensa. Ela obedecia a todas as necessidades estratégicas, deixava-se quase guiar, mas, a cada paragem, assumia uma atitude mesclada de temor e galantaria.

Vamiré mantinha não sei que nobre doçura; entristecia às vezes; era rude com as coisas, pisando os ramos de árvores, correndo contra os lobos e as panteras; mas, para ela, não tinha a menor violência.

Quando havia uma passagem perigosa, e ele tomava nos braços a companheira, submergia-se-lhe o coração numa onda de fogo, mas ele conservava a humildade{72} do leão diante da sua fêmea, uma nobreza de bárbaro distinto. Além de que, ele sabia que nas cavernas da sua tribo os esponsais eram precedidos de preparações e provas, que eram já uma delicada compreensão dos transes fecundos do amor—alegrias e penas, febres sufocadas, lutas intimas, destinadas a converter-se em grandes batalhas da futura humanidade.

Vamiré aceitava as provas que deviam engrandecer a espécie,—a sedução lenta, a ventura recebida aos poucos, sem triunfos grosseiros; e é por isso principalmente que as gerações, dele procedentes, seriam gloriosas através dos tempos.{73}