XIV
Reconquista

Ora, enquanto o bando dormia, de noite, o velho chefe lia na fogueira o evolar desordenado da vida dos ramos; fogueira que se desatava em numerosos seres subtis e coloridos, impulsiva e crepitante, matizada de fino azul, de amarelo claro, de purpura; rasteira sobre as cinzas, de vibrações rápidas, alta e ondulante sobre os ramos, esparsa na extrema do fumo, que, a revezes, se iluminava e se rasgava; fogueira, de onde surgiam mil quimeras, grutas, florestas, grandes lagos rutilantes, um mundo transitório, ateado ou apagado por sopros desconhecidos, mundo que se exaltava e se acalmava e se tornava mais furioso, dominado e terrível, devorador de florestas, subjugado pela mão de uma criança.

E o oriental dizia:

—Salve, fogo, mais belo que a água, tua inimiga, suave para a terra, que tu fecundas, suave para o homem, que tuas caricias aquentam.—

E pareceu meditar profundamente. Talvez ele pressentisse{110} então a grande maravilha do futuro, a era da metalurgia. Já o calor fundia partículas de terra ou de pedra, e na cinza se deparavam pequenas barras solidificadas. E guardavam-se com desvelo estas lágrimas de metal. Havia-as de diversas cores: amarelas, pardas, brancas. Batendo-as com uma pedra, davam-lhes formas diversas, ou as partiam em lâminas; mas estas lâminas eram frágeis, flexíveis ou quebradiças, e ninguém supunha ainda que estivesse ali o competidor da pedra, do osso, do chifre.

—O fogo corre em nossas veias,—murmurou o velho, voltando ao seu misticismo;—e por isso é que a nossa boca expele fumo, como um brasido em que se deita água.—

Respirou voluptuosamente, ufano daquela ideia, e, ao contemplar a noite, dilatava-se-lhe o coração.

O clarão da fogueira amortecia as estrelas zenitais; mas tremeluziam numerosas e pequeninas no horizonte do rio.

—O fogo da lua, o das estrelas, é um fogo frio como o olhar dos homens...—

Calou-se. O ruído nocturno dos sarçais parecia mais frouxo. Muito ao longe, bramia um leão, e a sua bela voz guerreira parecia emergir das cavidades abissais, ou ser eco de montanha, desmedidamente poderosa e grave.

Não corria uma aragem. Sobre a claridade do rio, espalmavam-se aqui e além as manchas de vegetação, e as sombras coavam angustias na alma.

O velho sentiu a impressão de tudo isto. Ergueu-se. A fogueira iluminou toda a sua forte corporatura.{111}

Pareceu inquietar-se de ver que Élem tinha os olhos abertos, e aplicou o ouvido.

Um ligeiro ruído, como de animal que rasteja, vinha da escuridão da selva; logo após, agitou-se o mato, e ouviu-se um pequeno choque, como de uma pedra contra outra.

—A pé!—bradou ele, de arco tenso na direcção do ponto suspeito.

Uma frecha rompeu do matagal, roçando a cabeça do chefe; e ainda os orientais estavam meio estendidos, e já Vamiré, de um salto, se achava junto da fogueira.

Por seu turno, o velho despediu uma frecha, mas esta perdeu-se, passando à esquerda do Pzann.

Vamiré, de clava erguida, ia esmagar o seu único adversário, quando Élem interveio, suplicante. Imediatamente, o grande nómada dirigiu-se aos homens estendidos e, num gesto, significou-lhes claramente que mataria o primeiro agressor.

Reconhecendo-se vencidos, os orientais aguardavam as ordens de Vamiré. O velho olhava sem receio para o intruso, e fez sinal aos seus, para que sossegassem.

—Fala, e não prefiras a violência à justiça.—Vamiré compreendeu que podia ditar as suas condições, e, com a sua mímica, indicou que desejava Élem.

—Vai!—disse o velho a Élem.—Mas porque levas, à força, uma rapariga das nossas tribos? Funda-se o teu sangue com o nosso, e reúna a paz os filhos da Luz com os homens das regiões desconhecidas.—

Élem pegou na mão de Vamiré e conduziu-o, com{112} palavras doces, para junto do chefe. O Pzann deixou-se conduzir, cativado pela voz austera e nobre do oriental; mas, atrás de si, os orientais levantaram-se inopinadamente, com um clamor entusiástico.

Vamiré acreditou numa perfídia, segurou Élem e começou a fugir. A alguma distância, nas trevas, parou.

—Velho burlador,—clamou ele,—a tua voz canta a paz, mas o teu espírito quer a guerra. Vamiré despreza-te.—

Entrementes, armava o arco e apontava. Élem interpôs-se novamente. A frecha, desviada, internou-se nas trevas. Os outros armavam-se então; mas Vamiré desapareceu, enquanto o chefe, consternado, impedia a perseguição:

—Não marcheis para a morte... Ele não compreendeu as minhas palavras, e os vossos gritos assustaram-no!

A fogueira recebeu novo combustível; e, enquanto ela se ateava clara, os orientais tornaram a deitar-se, desgostosos daquela cena, em que a ingenuidade de se julgarem compreendidos inutilizava a prudência do chefe.{113}

 

XV
Reforços

A alvorada difundia-se por cima da floresta, e o velho permanecia ainda indeciso. Além de tudo, era impossível lutar com segurança contra o homem fulvo; a sua força, consideravelmente superior, dificultaria um combate franco; e a sua prudência inutilizaria qualquer cilada. Pedir auxilio a tribos, que demoravam longe, a algumas semanas de caminho, impossível. Reconhecer primeiro o território inimigo, e levar lá depois um exército? Mas não surgiriam obstáculos invencíveis? E a floresta teria limites?

As orações e os ritos cantavam-lhe longamente na alma. O seu olhar buscou a chave do enigma nos pálidos lampejos das achas, nos arabescos da ramaria. Mas não disse uma palavra: a sabedoria das tribos exige que o chefe prudente opere, sem fazer hesitar a caprichosa inexperiência da gente moça.

Tomou as suas armas; estudou a direcção da sombra; observou o voar de certas aves, e levou consigo os companheiros.{114}

Todos reconheceram, logo, que marchavam para o Sul. Desse lado, estendiam-se, até o sopé de altas colinas, grandes planícies estéreis, a que se aventuravam raros exploradores; era o território dos cães. Um pouco mais para o Levante, com seis paradas de um dia, poderiam chegar às tribos amigas.

Os moços admiravam-se, mas nada diziam.

Decorreu o dia, interrompido de breves paragens, e manteve-se a orientação até à noite.

A noitada foi áspera. Uma chuva torrencial caiu sobre a floresta, quatro horas antes de amanhecer. Apagou-se o lume, e os corpos tiritavam encharcados.

Foi mester construir um abrigo e, quando prosseguiram na marcha, era manhã clara.

Os quatro homens marchavam em silêncio. Uma espécie de ferocidade emanava das coisas: a chuva fustigava as ramadas; a terra prendia os pés na lamacenta argila; o vaguear das feras nos moitedos era ameaça terrível; os lobos, em alcateia distante, começavam de seguir os orientais, na previsão de carnagem; as serpentes multiplicavam-se, sinistramente estendidas nos braços das árvores.

O receio do Inverno estimulava o apetite: foi preciso disputar aos lobos uma presa já morta.

A nostalgia das cabanas e das grutas insinuou-se no peito dos orientais, que se sentiram invadidos pelo devaneio e pelos encantos do lar. Só o velho, impenetrável, curvava a cabeça às contrariedades, aceitando a sorte adversa.

Principalmente a segunda noite foi frigidissima. Felizmente,{115} descobriram uma larga clareira, à borda da qual chegaram a acender uma fogueira de folhas secas.

De manhã cedo, puseram-se a caminho; e o musgo das árvores, e o voo de certas aves na direcção das planícies, foram-lhes orientação bastante. Mas esta era já menos segura, e impunha-lhes numerosas paragens. Os novos entreolhavam-se furtivamente, sombriamente, e voltavam-se amiúde para Leste. Pelas oito horas, começaram a trocar palavras em voz baixa, e parecia que os animava um fermento de revolta.

O velho todavia continuava a marchar, altivo e robusto. Sucedia-lhe pensar alto, gravemente, e rir, até, com uma espécie de entusiasmo. Sagaz, como podia sê-lo um primitivo, dir-se-ia que tinha vista longa e dupla, e uma voz reveladora no seu intimo.

O sol, ao meio dia, rasgou as nuvens. Da terra ergueu-se uma névoa, com um cheiro morno, suavíssimo. O velho estendeu as mãos, dirigiu orações ao astro, e depois voltou-se para os seus companheiros:

—Quem há que tenha o direito de se esquivar à obediência? Se o Conselho quer a tua cabana, deves-lhe a tua cabana; se quer o teu braço, deves-lhe o teu braço; se quer a tua vida, deves-lhe a tua vida. Não sou eu, entre nós, apesar da idade, o mais forte e o mais discreto? Os vossos cabelos ainda não branquejam, e os Espíritos não vos falam ainda. Abatei o vosso orgulho, ou grandes males vos advirão!—

O arrependimento e o terror encheram então a alma dos novos; e estes, prosternados, reconheceram, mais uma vez, a autoridade da experiência.{116}

O chefe anunciou-lhes que depois do crepúsculo chegariam às raias; o que foi confirmado pela presença dos grandes quadrúpedes migradores, amigos das planícies.

Reapareceu a confiança e a esperança, não obstante a chuva, e o negrume da floresta, em que vagueavam mais numerosas as feras nocturnas. Seis lobos pereceram sob as frechas ervadas; os outros dispersaram-se; o homem pareceu retomar o seu ceptro.

Mas as cataratas jorravam mais copiosamente; um vento impetuoso sacudiu as árvores; as feras, inquietas, irromperam da sombra; a situação dos homens tornou-se lamentável.

Os lobos tornaram a agrupar-se; no esconso da mata, tornou-se mais vivo o rir das grandes hienas. A aproximação da noite duplicou os ruídos de hostilidade, o odioso clamor das feras.

Os orientais largaram a passo forçado. Atrás deles, ofegava a respiração dos lobos, e a rajada do vento atirava-lhes aos olhos folhas mortas.

As pálpebras da noite fecharam-se rápidas em meio do temporal. O chefe parou então.

O lobo, de pupilas fosforescentes, fechava adiante o seu círculo, e uivava, de beiços erguidos sobre os agudos caninos.

Havia poucas frechas, e o lume era impossível. Era forçoso resignarem-se os orientais a marchar de noite, com infinitas precauções. Demais, a raia era a salvação.

Lentamente, mantendo os lobos em respeito com tiros de zagaia, os asiáticos prosseguiram na marcha...{117}

À terceira hora de trevas, a nona depois do meio-dia, avistaram a aberta que dava para a planície.

O chefe ia na retaguarda, cheio de resistência nas suas fibras ressequidas, espantando sempre a desordenada horda dos lobos, mas prestes a sucumbir.

Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distância. Os lobos uivaram angustiosamente; depois, ouviu-se um agitar de mato, e passarem por ele centenares de corpos invisíveis, ladridos raivosos e a debandada dos lobos, a sua fuga, em meio de murmúrios de raiva e gritos de matança e de agonia.

Tranquilos então, os orientais chegaram à orla da floresta, onde os cães aliados, e dirigidos por um chefe, aguardavam os seus amigos.{118}{119}

 

XVI
A chuva

Aproximava-se o período diluviano do Estio, que todos os anos vinha ensombrar o céu quaternário. O vento arrefecia então, o frio matava, muitas vezes, a flor ou o fruto no ramo, e grandes fomes sucessivas exterminavam os frugívoros. Transbordavam rios e ribeiros; e o homem, encerrado na gruta da região alta, aprovisionado, hibernava, passando as horas a fabricar utensílios e armas.

Vamiré, prevendo aqueles dias nefastos, remava todo o dia. Élem, submissa, dominada, ajudava-o. A carne de élafo assado servia para a alimentação; e acresciam frutos silvestres, raízes tenras, ovos tirados dos ninhos serôdios.

Vamiré velava ternamente por Élem; e as noites, que eles passavam nas margens do rio, trescalavam a poesia imensa das infâncias.

Abrigavam-se perfeitamente contra o ímpeto da chuva; a barca, sustentada por quatro espeques, servia{120} de tecto; a pele do espeleu tapava o lado do vento; e grandes ramos pendiam da barca, de todos os lados.

Foi naqueles dias que o grande nómada do Ocidente se tornou esposo da filha dos países desconhecidos...

O ruído da chuva, o fragor da floresta açoitada pelo vendaval, isto, de per si, já falava de invernia e do prazer do refugio.

As primeiras friagens confirmaram o prognóstico. Vamiré, desagasalhado em favor de Élem, tiritava ao sopro do nordeste prematuro. Teve de gastar a manhã inteira do dia seguinte, em descobrir algum animal felpudo; e, de emboscada, surpreendeu um urso, atravessando-lhe o coração com a zagaia.

O cérebro do animal, misturado com o cerebelo e a medula de uma rena, serviu para untar a pele, previamente esfregada e desembaraçada da gordura e dos tendões.

Desde então, puderam ambos estar quentes, durante o sono. Élem, encantada do conforto, ria docemente, com uma confiança infinita. Mas Vamiré mantinha a preocupação das grandes chuvas próximas, durante as quais a floresta era inabitável. As feras, mais agressivas então, as hordas de lobos perigosamente esfomeados, iam amplificar a luta nos bosques. Em combates contínuos, as armas partir-se-iam. Era preciso estacionar, durante semanas, em alguma gruta, para renovar arpões e zagaias, para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e as torrenciais chuvadas ao ar livre.

Por menos suave que fosse o inicio do período diluviano,{121} Vamiré poderá chegar às grutas em fins de Julho, sob a condição de se apressar e de não perder tempo. Não se desprecatou; e, desde a aurora ao crepúsculo, a sua mão vigorosa fazia andar a piroga. Infelizmente, à barca sobrevieram avarias, e foi preciso despender três dias em reparos.

Por fim, a barca foi de novo lançada à água. O rio, com a enchente, tomava a cor do barro, e transbordava já para as margens mais baixas. A corrente, além disso, opunha-se; era preciso ir junto da terra; grandes troncos flutuavam ameaçadores, e algas terríveis emaranhavam as suas meadas.

Élem passava grande parte do dia, envolta na pele felpuda, e amodorrada pela monotonia da água corrente. O repasto era a sua principal ocupação. Amarrava-se então a barca em qualquer calheta. Graças à provisão de folhas secas em lugar coberto, o lume era suficiente para acabar de assar uma posta de élafo, um palmípede, um peixe arpoado em viagem.

O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa, posto que moderado no Oriente meridional, comportava todavia o súbito regresso do frio antes do equinócio do Outono. Este facto ocasionava emigrações parciais de símios, de gamos, de chacais, de roedores, de aves palmípedes e pernaltas. O antropóide recuava então para o trópico, enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas, e os pais do elefante indiano, os filhos do grande Anticus de Chelles desciam das montanhas.

Vamiré fazia parar, às vezes, a piroga, se um bando{122} de gamos ou de chacais chegava, em marcha, à beira do rio; mas o que verdadeiramente o apaixonava era o êxodo dos macacos, que, desfilando, e saltando de ilhota para ilhota, passavam à outra margem. Cabriolavam, clamorosos, aos centos, baloiçando-se, saltando a vinte côvados, apanhando de novo um ramo de árvore, suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. A face deles tinha trejeitos, que pareciam determinados por ideias. Tinham gestos inteiramente humanos, coçando a cabeça, catando-se, assentados, descascando frutos com os dedos e com os dentes. As suas orelhas bem caireladas, os seus olhos de visão recta, a finura, a inteligência dos seus movimentos, encantavam extremamente Vamiré.

Sucedeu que uma fêmea, furiosa, atirou um filhito para o caniçal. Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram não cuidar em não avolumar a sua coluna com um inválido. Comovido, o grande nómada correu a apanhar o pequerrucho. Encontrou-o gemendo, de mãos estendidas no peito. Agasalhado, alimentado de frutos, o animalzito tornou-se estimável: gostava de dormir no colo de Élem, de se encarrapitar no ombro de Vamiré, beber água na mão dele, de se arrufar com a sua própria imagem na face do rio; e nada satisfazia o coração de Vamiré, como o ver o macaquito, inquieto, caprichoso, brincão.

Seria aquilo uma raça de homens anões?

Consultou Élem a este respeito, e soube que a linguagem deles era desconhecida, e que viviam como animais. Entretanto, Élem falou-lhe do homem das árvores, construtor de cabanas, e Vamiré recordou-se do{123} ente de olhos de âmbar, cabelos raros e corpo peludo, que encontrara outrora.

Um dia, à hora em que o vermelho indeciso, tremulando em fundo claro, anuncia o desaparecimento do astro soberano, Élem soltou um grito, e o Pzann suspendeu o remo. Na margem direita, apareciam homens. Eram de baixa estatura, curvados, e em seu rosto estereotipava-se uma fealdade triste e humilde. Armados apenas da antiga clava; e os seus cabelos, dispostos em pequenos anéis, desciam-lhes até o queixo.

—São os comedores de vermes,—murmurou Élem, contrariada.—No Estio, entram nas florestas e sustentam-se de bichos moles, contidos nas conchas; no tempo das chuvas, descem para a beira-mar, e nenhuma tribo sagrada tolera a sua vizinhança.

Vamiré, com interesse febril, observava os vermívoros. Tinham proeminente a maxila; a testa descia levemente até os enormes sobrecenhos arqueados; o cerebelo, desmedido, parecia pesar-lhes; não tinham os rins arqueados, e, marchando, apoiavam-se na clava.

Durante algum tempo, procuraram raízes e frutos de pevide entre as plantas aquáticas, e todos depunham a sua colheita, num monte, diante do chefe. O montão era já considerável, porque eles, pelo caminho, haviam já empilhado moluscos univalves, tubérculos, folhas hortenses.

Ao cair da tarde, agruparam-se em volta do chefe, que equitativamente distribuiu por eles os mantimentos.

—Conhecem a justiça!—murmurou Vamiré, satisfeito.{124}

Depois, vendo que eles acendiam lume, cedeu ao impulso do seu coração, e dirigiu para eles a piroga, com gestos de fraternidade.

Impressionaram-se, ao principio; mas o pequeno número dos adventícios tranquilizou-os.

Silenciosos e graves, contemplavam o grande nómada e a sua companheira. A estatura do homem, desconhecida no Oriente, assombrou-os; mas via-se que simpatizavam com ele, ao passo que visivelmente desconfiavam de Élem, em quem reconheciam o tipo dos mais ferozes perseguidores dos vermívoros.

Entre estes não havia mulheres: as mulheres, em hordas confusas, seguiam-nos de muito longe. A primavera reunia os sexos em paragens tradicionais; depois, o bando masculino abandonava o bando das fêmeas durante o Estio, o Outono e o Inverno.

Eram como vencidos, os vermívoros. Saídos cedo da matriz antropomorfa do período terciário, lançados nas vias externas do humano pela adopção de armas, de métodos de sociabilidade, já muito distanciados do processo animal, para que nele reentrassem sem fraquejar, tinham perdido, em frente do vigoroso quaternário, a esperança orgânica, esta força singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o Árico.

Demais, relegados nas estepes áridas ou na profundeza das florestas, fracos, mal armados para a caça da ligeira fauna silvestre, descambavam progressivamente na fitofagia, adestrados em descobrir os tubérculos que há debaixo da terra, em conhecer as hastes e raízes comestíveis, fazendo provisões de pevides de melancias,{125} de grãos de helianto, gulosos de moluscos, passando o Inverno nas costas do Cáspio ou do Mar-Negro, onde se alimentavam de pesca rudimentar.

Uma bondade, um instinto adorável, tornava a vida do individuo preciosa para a comunidade. As partilhas eram reguladas pela mais estrita igualdade, e cada qual tinha a maior dedicação em salvar o companheiro da garra das feras. Por isso, eram ainda senhores do leão, do urso, do leopardo e até do antropóide; mas tinham medo enorme dos braquicéfalos, caçadores das estepes fecundas: é que tinham visto perecer milhares dos seus, sob os golpes das frechas e zagaias.

Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos, a menos de seis dias de marcha, e até evitavam os grupos insulados.

Vamiré cativou-os pelo seu riso ingénuo, e pela generosidade com que lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de élafo e de esturjão, ovos de adem. Também estas provisões foram repartidas, com gáudio do Pzann. Este, brindando o chefe com uma pele de raposa, todo se tomou de surpresa, quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribuído um pedaço a cada um do bando.

O seu riso franco, e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo daquela prática, sugeriram alguma desconfiança aos vermívoros; e manifesto ainda era o terror que Élem lhes inspirava, e o desgosto dela; a ponto que Vamiré, mau grado seu, decidiu separar-se deles.{126}

Reembarcou pois. Já a distância, escondido pelos caniçais, fixou longamente a vista, com exclamações em voz baixa; os comedores de vermes, activando as suas fogueiras, agrupavam-se à roda delas; e, depois de construírem com ramos uma ligeira choupana, em que o chefe se recolheu, acocoraram-se sobre os calcanhares, ao ar livre, com a cara entre os joelhos, as mãos na cabeça, e assim adormeceram.

O Pzann sentiu então grande piedade para com a sorte dos seus irmãos inferiores. Ao amarrar a barca, passava em seus lábios um murmúrio de tristeza. Mostrou-se sombrio, à refeição da noite, e adormeceu tarde.

Acordou antes da aurora, e observou a partida dos vermívoros. Viu-os atravessarem o rio a nado, e desaparecerem ao nascente. Quando já os não via, suspirou melancolicamente, acordou a sua companheira, e desamarrou a piroga.

Quatro dias decorreram no labor da viagem. Em a noite do quarto, desencadeou-se uma furiosa tempestade, que derrubou árvores ruidosamente, levantou no rio enormes vagas e fez tremer toda a floresta.

Abrigado numa lapa, Vamiré dormiu, resignado e tranquilo. Élem passou a noite em suplicas, orando ao Desconhecido.

O furacão sibilava, insinuando-se nos sarçais, e curvava as altas ramarias, onde se perdiam clamores em som confuso.

A tempestade declinou de madrugada. O dia amanheceu suave, as nuvens deixaram passar réstias de sol, e a floresta ressurgiu para uma vida húmida e tépida.{127}

O rio, barrento, largo, engrossado e tranquilo, carreava os despojos da batalha da véspera.

Começava a descida para o mar dos peixes que sobem aos rios, e que iam passando em chusmas, adelgaçados, extenuados pelo trabalho da fecundação.

Élem, fatigada, dormia; Vamiré, de bom humor, remava para a pátria longínqua.

Em horas monótonas, a ideia do espaço a transpor, a vertigem da andadura, adormentava o cérebro do Pzann. Vamiré já não era senão uma vontade tensa, um organismo mergulhado no sono dos fluidos, a água, o ar; o marulho daquela e o infinito afago deste entorpeciam as suas carnes, imobilizavam a sua memória sobre algumas palavras, sobre a imagem de seu pai, de sua mãe, do seu valente irmão Guni ou da sua irmãzita, que saltava como uma cabra montesa; mas não chegava a realizar o esforço que relaciona as coisas e as faz falar.

Mas à sexta hora depois do meio-dia, deu-se um incidente inquietador, que atraiu toda a atenção do grande nómada.{128}{129}

 

XVII
Os aliados

Animais corredores, ligeiros,—élafos, gamos, elãos,—chegavam espavoridos ao rio e atravessavam-no. Formavam bandos consideráveis, dominados do pânico herbívoro. O seu número ia crescendo com o declinar do dia, e com eles se misturavam cavalos e alguns uros.

Vamiré, espantado, baldadamente procurava uma causa simples daquela extraordinária fuga: incêndio, emigração...

Interrompia o remar, e Élem murmurava esconjurações.

E o galope dos animais ia-se acelerando. Aos cervídeos, aos bovídeos, aos cavalos, juntaram-se lobos, chacais, raposas. O ruído do mato patenteou a corrida de animais menores,—lebres, doninhas, fuinhas e lontras. Apareceram enfim carnívoros,—ágeis panteras e{130} ursos de marcha pesada. Ao longe, os macacos clamavam alarma, como sentinelas escrupulosas, e o seu clamor atravessava, como um furacão, as altas ramadas, transpunha o rio e difundia-se nas regiões desconhecidas.

Anunciava-se formosa a noite: nenhum sinal de tempestade, nenhum sintoma de perturbação atmosférica. Mas, como um prodígio misterioso, a fuga das feras despertava no intimo do homem e da mulher os mais sinistros presságios.

Todas as vozes, na serenidade do crepúsculo, vibravam de um medo enorme, e espalhavam o contágio do terror... Vamiré entrevia, não o receio do animal perante a natureza, mas o receio dos seres perante outros seres, o êxodo das raças vencidas, o desalento de uma espécie perante a espécie dominadora.

Era mister entretanto precaução contra a extraordinária ameaça, e segurança contra o perigo de ser esmagado pela cega corrida de herbívoros, que prosseguia nas trevas.

Vamiré avistou, a meio do rio, uma ilhota, em que cresciam freixos. Dirigiu para lá a embarcação, e acendeu pequenas fogueiras, pondo-se assim a salvo de ataque directo e em posição excelente para observar tudo.

Depois da refeição, nem ele nem a companheira pensaram em dormir.

Rio abaixo e rio acima, findara a corrida dos animais. Uns aventuravam-se contra a corrente, outros seguiam-na; e este curioso movimento tinha a singularidade{131} curiosa de se efectuar nas duas direcções, em sentido inverso, como se os animais que seguiam para cima e os que seguiam para baixo procurassem fugir da zona florestal, que terminava quase em frente da ilhota.{132}{133}

 

XVIII
Os vermívoros

Os comedores de vermes marchavam na direcção do grande-lago. Ainda que tristes em geral, à sua exploração não era estranha uma certa satisfação no inicio das paragens. Espalhavam-se então, e, como a colheita da manhã era individual, tinham exclamações a cada bom achado, e mostravam puerilmente o que colhiam, túbaras, caracóis, raízes doces de umbelíferas, frutos agridoces...

Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposição daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer cão do que a um antropóide. Os seus braços curtos, o seu peito em quilha, o indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhança.

Demais, entre as tribos braquicéfalas corria a lenda, de que tinha existido ou devia existir no extremo Oriente uma raça de homem-cão, aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do animal,{134} das águas, únicos e legítimos possuidores da Estepe e da Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos.

E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se através dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo, marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva orientação que guia os animais emigradores.

A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome, a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mímica animal, e ainda da comunicação oculta, da transmissão simpática do terror ou da ira.

Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo, reuniam a coorte; e, então de clava pronta, não se pode imaginar que solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou o leopardo.

Depois do meio-dia, reuniam as provisões comuns, as que serviam para o repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita individual, sem lhe tocar com os dentes.

Feita a divisão, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho diário, com sonhos tão vagos, como os do leão ou do lobo, que rosnam dormindo.

Marchavam. A floresta húmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e pueris, a sua atenção desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pântanos; e{135} a sua vida expandia-se em ligeiras comoções, em esboços de ideias, em artifícios de quem amamenta um aborto, em lineamentos de memória e previsão. Lavasse-lhes a chuva os crânios duros, açoitasse-lhes o vento as nucas com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os pés, perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam. Acumulava-se-lhes no cérebro uma herança inteira de resignação.

Depois que o homem de braços longos chegou através dos tempos, tinham deixado de progredir: conservavam-se. Nada mais havia para eles. A terra imensa desprezava-os; e, entrementes, a vida esgotava-lhes os meios, endurecendo-lhes a epiderme, erguendo-lhes velos no peito, e estendendo-lhes refegos de gordura à volta dos quadris.

Mas o circulo das raças rivais ia-se-lhes sempre fechando adiante, e o pobre homem antigo tinha de durar menos que as feras carniceiras, porque estava desarmado pela longa crise de transição, em que as forças musculares se reduzem e se transformam, na luta contra as adaptações que o cérebro realiza no mundo exterior.

Na penumbra dos arvoredos, tinham companheiros de êxodo, aos quais se haviam desacostumado de fazer mal: numerosos bandos de gamos e chacais, dirigindo-se para o Sul, ou o tugir dos roedores, que se encaminhavam para o Poente. Saudavam com um longo clamor o pacifico barrito do elefante oriental, o buzinar dos pequenos cavalos de boca papuda, cujas hordas militares cruzavam as suas.{136}

Na noite do segundo dia da sua viagem, o chefe dormia na sua choupana de ramos, a fogueira nocturna ia-se apagando, e os tardígrados, acocorados, encolhiam-se com o frio, quando o grito do vigia pôs todos a pé.

A palavra, que significava o leão, trocou-se entre eles, e um grande terror lhes fez bater os queixos. O chefe agrupou os mais corajosos, e todos se reuniram, de clava erguida.

O pavoroso vulto do leão entrou no âmbito, frouxamente iluminado pela fogueira que se extinguia, e estacou, por um minuto, diante dos clamores belicosos dos homens.

Mas, ou porque tivesse escasseado a caça, ou porque preferisse a carne dos primatas à dos outros animais, abaixou-se, arremessou-se com um salto prodigioso, e caiu sobre a horda. Esta havia recuado, abrindo espaço, segundo uma táctica milenária, e mais de cinquenta clavas desceram sobre o crânio, sobre o focinho, sobre os olhos, sobre o espinhaço da fera.

O leão defendeu-se, levantou-se, e com três lances de garras prostrou quatro adversários. Os outros, estimulados à luta, tornaram-se mais audaciosos, atacaram o focinho ensanguentado; e o hércules do grupo, com uma pancada, partiu uma das pernas dianteiras do animal, ao passo que mais dez pancadas paralisavam as pernas traseiras.

Vencido, o leão procurou fugir, mas os vermívoros, tornando-se ferozes, não lho consentiram. Arrojaram-se todos contra ele; e, enquanto uns o seguravam, procuravam{137} outros estrangulá-lo. Não o conseguiram logo, e receberam golpes terríveis; mas, afinal, tendo o chefe enterrado a clava na goela aberta, o leão entrou de estertorar; e então, ferozes e vingativos, todos acabaram com ele.

Viu-se que dois companheiros expiravam e cinco estavam gravemente feridos. Os mortos, longamente pranteados, foram depositados no fetal, e os feridos foram desveladamente tratados. De manhã, quando prosseguiram na marcha, os mais feridos foram levados em braços.

Os tardígrados, não obstante as suas perdas, ufanavam-se de, mais uma vez, haver dado lição severa ao seu temível antagonista, e erguiam galhardamente a clava, mutuando gestos de triunfo e confiança.

A floresta agora parecia-lhes melhor. Os seus pés descalços pulavam ligeiros pelo caminho, a sua estatura aprumava-se quase, e os seus pobres olhos de deserdados pareciam brilhar.

É certo que, perante a simples possibilidade da vitória, uma expansão de seiva lhes teria dilatado o crânio; mas as vitórias restringiam-se ao animal: como uma pressão material, como uma ligadura das artérias, como uma degenerescência dos pulmões, o medo dos braquicéfalos acanhava-os, imobilizava-os; aniquilava-os, até de longe. E, assim, o circulo das suas ideias era tão limitado como o da sua vivenda, ou porque não ousavam pensar no que não podiam realizar, ou porque não podiam pensar no que não tinham realizado.

Desde a fresca alvorada até um terço da manhã,{138} não houve incidente na marcha. No agradável arvoredo, só havia animais inocentes. O sol tornava tépido o humo das clareiras, e os seus raios penetravam na espessura. A tal ponto a vida se expandia, que eles se puseram a cantar.

Por volta do meio-dia, a vanguarda de quinze homens recuou vivamente.

Achavam-se num azinhal interminável. Todos se alimentavam de trufas. Abundavam os javalis, fugindo adiante dos emigradores; e, por cima das trufeiras, esvoaçavam legiões de moscas gulosas.

Marchando, parando para escavar, a vanguarda avistara uma fêmea de antropóides.

Era raro que os antropóides atacassem os vermívoros, sobretudo quando estes não levavam mulheres no seu bando; pelo contrário, uma espécie de confraternidade animava o grande macaco, e os tardígrados já nele tinham tido um precioso auxiliar contra o urso e os felinos.

Formou-se conselho, e resolveu-se destacar um pequeno grupo, que fosse assegurar as suas pacificas intenções ao homem das árvores.

Aquele grupo, devidamente vigiado, atraiu a atenção dos antropóides, com gritos de alegria e sinais de benevolência.

Surpreendidos a principio, os antropóides pareceram logo reconhecer aliados, e assim o mostraram, gesticulando com gravidade, e avançando lentamente.

Minutos depois, estavam reunidas as duas hordas. Os vermívoros ofereceram aos antropóides uma refeição{139} de túbaras, pevides e folhas tenras. Os homens das árvores aceitaram estas coisas com prazer, porque o seu regime alimentício era idêntico ao dos tardígrados.

As duas raças deserdadas ficaram depois em silencio, por muito tempo. A sua natureza parecia comportar um fundo comum de melancolia; e a melancolia do grande macaco parecia mais pesada que a do tardígrado, como se fosse proporcional ao vigor dos músculos e à largura do peito. De maneira que o homem foi o primeiro a rir, a brincar, enquanto o macaco permanecia grave e meditabundo. Mas um deles pareceu impressionar-se com uma recordação longínqua, despertada pela analogia das circunstâncias. Entrou em laboriosas explicações. Os tardígrados, inclinados, escutavam-no, sem chegar a compreendê-lo; mas a recordação pareceu germinar noutros antropóides, que se juntaram ao primeiro; a confusão porém era cada vez maior, até que um deles se lembrou de apanhar uns ramos secos e indicar o movimento de uma chama.

Os vermívoros viram então que os antropóides se referiam ao lume; e, cheio de orgulho, o chefe tirou de dois pedaços de pau seco o fogo necessário.

Quando se fez a chama e se difundiram as línguas amarelas, entre volutas azuladas, os homens das árvores ficaram, por um momento, receosos e assombrados, enquanto os tardígrados riam de boa vontade.

Era a comunhão dulcíssima de parias nas fronteiras da animalidade; um prazer reciproco em se compreenderem; e como que uma curiosidade do Espírito das{140} coisas em conhecer os progressos por ele realizados na disposição da matéria.

Separaram-se como amigos,—os tardígrados avançando para o Oriente, os antropóides dirigindo-se para o Sul,—depois da troca de presentes: o homem deu clavas ao macaco; e o macaco deu ao homem ovos tirados dos mais altos ninhos.

E havia apenas três horas que a separação se dera, quando os vermívoros viram os primeiros sintomas da fuga dos animais, que ao depois tanto inquietou Vamiré. Primeiro, viam-se os hóspedes vulgares daquela região, élafos, javalis, e por isso não se impressionaram muito os tardígrados; mas horas depois, avistavam-se, como companheiros de êxodo, os gamos, refluindo em bandos consideráveis.

E então os vermívoros, tomados igualmente de pânico, retrocederam também.{141}

 

XIX
Na ilhota

Na expectativa de extraordinário acontecimento, Élem e Vamiré conversavam.

Agora, já o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da linguagem dos braquicéfalos. Julgava oportuno interrogar a filha do Oriente; mas, nas suas reminiscências, nada ela encontrava, que esclarecesse a situação. No seu crânio supersticioso perpassavam apenas as antigas lendas do Animal das águas, expulsando das florestas todos os seres animados, a fim de investir o homem na posse delas. Os animais foram salvos pelo Elefante cornígero, que reina em as montanhas; e a Serpente, rival do Animal das águas e inimiga do homem, opôs-lhe o ser imundo que se alimenta de vermes, e a quem as tribos sagradas aniquilarão...

Estas coisas falavam pouco ao espírito do nómada e até o indignavam. Acaso o homem não vive de carne? e que seria das florestas e planícies, sem animais?{142}

Depois, Vamiré não podia imaginar um animal invisível. As suas duvidas abalavam as crenças de Élem, a qual, todavia, continuava a murmurar as suas orações, e a resguardar-se a si e ao seu amante, com práticas religiosas; e o mesmo faria até a hora da morte, e porventura até depois, se o destino lhe concedesse filhos, porque as coisas místicas, embora nasçam lentamente, são como o pigmento da carne ou a forma dos crânios, que só o tempo transforma e aniquila.

Inclinados sobre o rio, aguardavam a noite, que vinha chegando. O clarão do Crepúsculo era vívido e roxo a um tempo, duplicado pelo reflexo. Sob aquele clarão, a margem parecia muito distante, semelhando, sobre a floresta, uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas; na margem, moviam-se animais fugitivos, os seus corpos escuros limitados por traços de luz, os espinhaços roliços ou sinuosos, lisos ou eriçados, as cabeças delicadas e longas, ou largas e volumosas, as armas pontiagudas do élafo, a vasta fronte do gamo, a crina ondeante do cavalo, o tronco flexível e serpentiforme da lontra, o dorso corcovado do urso...

Quando a noite se ia cerrar enfim, e as árvores e o rio se engolfavam lentamente na sombra, houve uma suspensão. Cada vez mais raros, já se não viam senão animais vagarosos, insectívoros ou carnívoros vermiformes que fugiam de uma vivenda próxima. Vamiré e Élem redobraram a atenção, e perceberam um rumor muito distante, semelhante ao uivo dos lobos ou ao lamento dos chacais.

Quase ao mesmo tempo, avistou-se na margem um{143} bando considerável de comedores de vermes. Mostravam-se fatigados, recurvados, cobertos de lama e de sangue. Transportavam em braços grande número de feridos, e, diante da impossibilidade de transpor com estes últimos o rio, quedavam-se amargurados. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a cada instante, com gestos de alarma, mas ninguém tugia, ninguém pensava em atravessar o rio sem os feridos, e muitos dispunham estoicamente as suas clavas para uma luta extrema, quando Vamiré saltou para a sua piroga, dirigindo-se para eles.

O bando, que ele encontrara quatro dias antes, reconheceu o gigante loiro e manifestou alegria. Os outros, prostrados de fadiga, estupefactos, viram chegar aquele homem.

Vamiré chegou à margem, e fez sinal para que transportassem dois inválidos para a canoa. Os que se recordavam dele obedeceram; os demais confiaram-se passivamente à ventura.

Vamiré fez uma quinzena de travessias, e todos os feridos se acharam na ilhota; os outros alcançaram-na a nado.

Vamiré facultou-lhes as suas provisões. A tiros de frecha, matou três gamos fugitivos e um pequeno cavalo de focinho papudo. Os comedores de vermes, tranquilizados, iam buscar as presas e esfolavam-nos rapidamente, sob as indicações do grande nómada.

Vamiré desvelou-se por eles, consternado pelo desgosto de Élem; tratou dos feridos zelosamente, indicou a cada um lugar de dormida, porque os vermívoros,{144} depois da refeição, caíram logo no sono; e foi juntar-se à sua companheira, que estava em observação na outra extremidade da ilhota.

Conversaram em voz baixa. Élem propôs que subissem o rio, naquela mesma noite; mas Vamiré opôs à proposta que o temporal da véspera avolumara o rio, que arrastava troncos de árvores, perigosos para a canoa; e também ponderou que os comedores de vermes estavam debaixo de sua protecção.

Élem resignou-se, e tomou lugar no barco, comodamente abrigada por uma pele de urso. Quanto a ele, ficou de vela, alimentando o lume, acabando de esfolar as presas e de as partir em quartos, que ele punha logo a assar, para os conservar bem.

As trevas envolviam tudo, e mal se distinguiam as margens.

De quando em quando, Vamiré aplicava o ouvido. O vago rumor de pouco antes tornava-se agora mais distinto, já da esquerda, já da direita. Às vezes parecia extinguir-se, mas depois ouvia-se, sempre mais próximo.

A viração dava linguagem às folhas, a chama das fogueiras reflectia-se na água; a intervalos, o mergulho de um corpo e o ofegar do nadador: depois, o silêncio e a solidão, debaixo de um formoso céu constelado, sem luar.

Finalmente, à orla da floresta, assomou um perfil humano, movendo-se indistintamente na sombra; e quase ao mesmo tempo viu-se uma ondulação rasteira, como formada de centenares de corpos em bando; e ouviu-se um estrépito de tempestade, o reboar de latidos{145} multiplicados pelos ecos, um transbordar de vida e de alvoroto, quebrando o silêncio das trevas.

Élem, desvairada, correu para junto de Vamiré, e segredou-lhe uma palavra desconhecida do Pzann, tendo distinguido a voz do cão das grandes planícies estéreis.

Os comedores de vermes despertaram também, e, ao clarão da fogueira, procuravam o nómada. Este, com gravidade e altivez, procurava devassar a sombra e conhecer a ameaça que fazia tremer Élem e os tardígrados.

Durante a sua marcha lentíssima, os comedores de vermes tinham sido atacados pelos cães. O animal, todavia, respeitava ordinariamente o homem antigo, cujos bandos emigrantes atravessavam as vivendas caninas. Mas, por muitas vezes, os asiáticos tinham-se servido dos seus aliados quadrúpedes para atacar as tribos errantes; e, com receio de um ataque deste género, os comedores de vermes tinham retrocedido de pronto.

Retrocedendo, encontraram outros bandos de irmãos, de maneira que o seu número se elevava a muitos centenares.

Defendiam-se entretanto com energia, e chegavam quase sempre a repelir o seu terrível inimigo, quando, a meio dia do rio, depois de uma longa paragem, foram novamente assaltados.

O número dos seus adversários ia crescendo sempre, e por isso sofreram, neste último encontro, perdas consideráveis. Demais, convencidos, pela marcha lenta do quadrúpede, que os asiáticos o guiavam, precipitaram a sua retirada.{146}

Chegando à beira do rio, carregados de feridos, e horrorosamente fatigados, já não esperavam senão a morte, quando Vamiré os salvou...

Surpreendidos no sono pelo grito do cão, reuniram-se ao grande nómada, como ao seu protector único. Este convocou os chefes, e designou-lhes lugar de combate nas ribanceiras da ilhota, encarregando-os de formar os seus grupos. Como instruções, apenas levantou acima da cabeça uma das antigas clavas, baixando-a sobre um inimigo imaginário. Este movimento foi perfeitamente compreendido, e todos se encheram de coragem, animados pelo belicoso aspecto do Pzann, pelos seus belos olhos que chispavam altivez, pelo seu arcaboiço, dilatado nas previsões da luta.

Vamiré fez reavivar as fogueiras, e foi pôr-se de atalaia.

A margem oposta pouco tempo se conservou escura, pois a iluminou rapidamente uma grande fogueira.

Nesse momento, a alguma distância da fogueira, quase na estrema do espaço iluminado, Vamiré avistou o cão.

Élem apontava-lho com insistência, pronunciava-lhe o nome, referia-lhe a ferocidade quando conduzido pelo homem, a sua organização em vivendas, a sua aliança com os braquicéfalos.

O Pzann escutava-a atentamente.

O clarão da fogueira, menos enfumarado, banhava de claridade o quadrúpede; e, ao vê-lo mais semelhante à hiena do que ao lobo, com a sua larga mandíbula, a sua alta corpulência, a sua flexibilidade, Vamiré{147} compreendeu que ele devia ser um perigoso adversário.

Desviou-se porém a sua atenção, porque, adiante da fogueira, se interpôs um vulto humano, e uma voz ressoava em meio do grande silêncio e sobre as águas do rio.

Vamiré e Élem reconheceram a voz do chefe oriental. Élem dizia:

—Homem das regiões desconhecidas, escuta a voz daquele, cujos cabelos são brancos, e a quem fala, na solidão, o espírito do saber. As minhas palavras significam paz. Aliados com o cão, poderíamos encarar a guerra sem receio. Que poderias tu, homem das nascentes do rio, contra as inumeráveis legiões do animal, auxiliado de frechas e braços humanos? Aceita a paz. Mutuemos o sangue de nossas veias.—

Com a ajuda de Élem, Vamiré compreendeu-lhe as palavras. Voltando para a sua clareira, aceitou-as, gritando:

—Velho, o Pzann te saúda. Ouviu a filha da tua tribo, e está pronto a mutuar o próprio sangue com o teu. Afasta o animal, e salvem-se os comedores de vermes!—

Na margem oposta, os três moços haviam-se reunido, e o grupo dos braquicéfalos animou-se.

Não podiam fraternizar com os filhos da Serpente. O velho tendia para a clemência; mas um dos moços, fanático exaltado, pregou a vontade implacável do Animal das águas, a lei das tribos sagradas; e todos, repassados de desgosto e ódio, pareciam convencidos.

O chefe voltou-se de novo e clamou:{148}

—Porque é que o homem irmão toma o partido do ser imundo? É melhor deixar essa presa ao cão.—

Mas Vamiré indignou-se:

—O Pzann não ousaria aparecer entre os outros Pzanns, se abandonasse os seus aliados; o Pzann quer a paz, mas quere-a para todos que estão com ele.—

Formaram os orientais novo conciliábulo, e todos os moços, mais desejosos de uma vitória do que de uma solução pacífica, tendiam para a guerra.

O chefe não se atreveu a opor-se abertamente, mas referiu-se à coragem de Vamiré, à glória de uma expedição para as bandas do Norte depois do Inverno, à necessidade de estar em paz com os povos longínquos.

Dois dos moços pareciam convencidos, ao passo que o fanático baixava os olhos, obstinado. Aproximou-se, até, da margem, e, apontando a frecha ervada a um dos vermívoros:

—O Conselho diz: nunca a tua frecha hesite em ferir o imundo!—

E a frecha descrevia a sua parábola mortal, ferindo o tardígrado num ombro.

O doloroso grito do homem foi acompanhado de um grito colérico do homem loiro, e de um rumor de censura, entre os orientais.

—Homem,—clamou o velho,—perdoa a exaltação de um sangue muito novo!—

Mas Vamiré, cheio de indignação, replicou:

—O meu sangue também é novo, e não perdoaria a perfídia!—{149}

Armou o arco, e a sua frecha atravessou o peito do agressor.

Depois, correu para junto do tardígrado ferido. Os companheiros chupavam o sangue da ferida, extraindo assim o veneno. Vamiré buscou um antídoto, folhas alcalinas, cuja seiva ele espremeu na ferida aberta, em que depois as estendeu.

No campo dos orientais, o velho tratava do ferido. Este persistia em soltar injurias contra os comedores de vermes; e todos estavam indignados, porque o nómada ferira um homem, para vingar uma criatura ignóbil.{150}{151}