XX
Assalto à ilhota

Prolongaram-se as tréguas.

Os orientais recuaram a sua fogueira para o abrigo do matagal. Os cães estavam invisíveis, mas os seus uivos trovejavam na espessura.

Os comedores de vermes recaíam no sono, à parte alguns velhos mais resistentes.

Vamiré fortificava o retiro de Élem com grossas ramadas e preparava as suas armas. O fumo das fogueiras flutuava sobre a água, entre clarões purpúreos.

Não se ouviu mais uma palavra de paz. Parecia que de ambos os lados se faziam preparativos para uma luta próxima.

Vamiré trabalhava e velava.

De uma vez, pareceu-lhe avistar um oriental que, a pouca distância da água, se erguia, desaparecendo depois no mato. De outra vez, um bando de cães veio beber ao rio; mas nada anunciava uma investida. Julgou{152} portanto que o chefe oriental aguardaria a manhã, e recomeçaria as negociações.

Acabava de depor a seu lado a décima segunda frecha, untada de veneno, quando notou um rápido movimento e o formigar de muitos vultos na margem.

Eô! Eô!—gritou ele, enquanto os tardígrados arrancavam do sono os companheiros.

Lá adiante, impetuosos, os cães mergulhavam e nadavam, aos milhares, de olhos fosforescentes em suas cabeças húmidas e luzidias, fazendo, com a sua imersão, erguer o nível das águas nas costas da ilhota. Silenciosos e terríveis, nadavam intrepidamente, sob a saraivada de pedras, ossos e achas, com que eram acolhidos.

Vamiré, verificando que entre eles não havia nenhum homem, depôs o arco e empunhou a clava.

Élem, armada de uma lança, poderia defender o seu abrigo.

Os tardígrados, animados pelo Pzann, mostravam-se enérgicos, postados em pequenos grupos, de costas para o centro, com espaço livre para manejarem os seus bastões.

Antes que tocassem terra, os cães foram atacados tão vigorosamente, que recuaram para fora de alcance. Mas de pronto se dividiram em duas fortes colunas, uma das quais singrou para o ponto mal fortificado da ilha, defendido por Vamiré, enquanto a outra retomava directamente a ofensiva.

A precipitação dos tardígrados em auxiliar o seu salvador poderia tornar eficaz aquela táctica dos agressores.{153} Mas Vamiré repeliu energicamente o reforço, e obrigou cada um a reocupar o seu posto.

Apenas a coluna, contra ele dirigida, tocou em terra, a carnificina do Pzann espalhou nela o terror.

A sua alta corporatura, a sua clava enorme, a sua formidável destreza em despedaçar crânios, a agilidade dos seus movimentos, a sua voz autoritária, soberbamente humana, tudo isto pareceu produzir nos animais uma impressão como que supersticiosa.

Cheios de pânico, latindo desordenados, foram recuando.

Entrementes, a segunda coluna conseguira invadir a ilhota, sem desconcertar todavia a táctica dos comedores de vermes, sempre reunidos em grupos, e defendendo-se sem desanimo.

Do lado dos cães, as perdas eram consideráveis, e os tardígrados contavam uma vintena dos seus, postos fora de combate.

O animal sentia-se vencido, quando algumas frechas ervadas, partindo da margem, fizeram duas vítimas. Produziu isso um certo terror, e os grupos da costa aproximaram-se do centro. Os cães redobraram o seu furor, e, a pouco trecho, era terrível o número dos feridos humanos.

No entretanto Vamiré, depois da sua vitória, notara que os asiáticos despediam frechas, quase a descoberto, de trás dos arbustos. Por seu turno, tendido o arco, despediu algumas frechas.

Os orientais tiveram que se retirar para trás de grandes troncos, de onde os seus tiros eram muito incertos;{154} e contentavam-se em açular os seus aliados quadrúpedes, os quais, respondendo-lhes com latidos formidáveis, assaltaram com mais vigor os seus adversários. A situação agravava-se, tanto mais que a coluna, repelida por Vamiré, tinha entrado pela outra extremidade da ilhota, levando reforço.

O pobre tardígrado viu-se perdido, e o seu grito de guerra tornou-se plangente como um gemido de agonia.

Mas o grande nómada do Ocidente levava-lhe já o auxílio do seu braço, e a sua clava abria caminho por entre crânios e espinhaços despedaçados. De todos os lados, o animal, inquieto, aterrorizado, reconhecia naquela voz e naquela força a força e a voz das raças vitoriosas, por forma que os tardígrados retomavam coragem, e os cães, repelidos para a água, voltavam ao campo dos asiáticos.

Uma ebriedade de vitória inflamava os olhos dos comedores de vermes. Voltando-se para o homem loiro, cantaram a melopeia do triunfo, a que Vamiré correspondeu com um belicoso clamor.

Na outra margem, à beira das florestas seculares, resoava o latir furioso dos cães e as maldições dos homens do Oriente.

Decorreu a noite naquele tumultuar terrível, repercutido pelos ecos, e em que os dois bandos inimigos exaltavam o seu valor não vencido e prenuncio de novos combates.

Os tardígrados trataram acuradamente dos seus feridos, e, para maior segurança, foram colocá-los perto{155} do sitio, em que Vamiré acampava com Élem. Dos cães, postos fora de combate, desembaraçaram-se os tardígrados, lançando-os à água, em que alguns acabavam de morrer, ao passo que outros, ao grado da corrente, chegavam à outra margem.

Vamiré fora ter com a sua companheira. Cheia ainda do desgosto que lhe causavam os comedores de vermes, Élem permanecera no seu abrigo, sem necessidade de se defender.

Vamiré falava-lhe da vitória, do número das vitimas, da ferocidade dos assaltantes, da probabilidade de novos recontros; e ela escutava-o, pensativa e triste por aquele incidente, fazendo votos pelo advento de uma paz imediata.

Manifestava a esperança de que as negociações se retomariam de madrugada, e o nómada aprovava, mas esquivava-se a quaisquer concessões, relativamente aos tardígrados.

Fatigada, Élem adormeceu por fim. A maior parte dos vermívoros também dormia. Vamiré velava sempre.{156}{157}

 

XXI
A derrota

Foi decorrendo a noite. A ronda dos astros atravessava as calmas profundezas do rio; uivavam cães feridos; as fogueiras dos orientais ardiam por trás das ramadas, iluminando os braços negros e contorcidos do arvoredo e as densas e flexíveis cumeeiras da floresta.

Vamiré aproximou-se do rio, e ali se quedou alguns instantes, como para dar ensejo a palavras de conciliação. Mas teve de se furtar a uma frecha que vibrou.

Vibraram outras frechas, que, descrevendo vigorosas parábolas, iam quase todas cair inofensivas no meio da ilhota.

O Pzann guardou-as, satisfeito de ver que se iam esgotando as munições contrarias; mas os orientais, compreendendo logo a inutilidade daquele tiroteio, suspenderam-no, e, com gritos e açulamentos, fizeram reaparecer os cães, formigando na margem e latindo furiosamente.

Um vago perfil humano se desenhou entre os cães,{158} acocorando-se logo; outro perfil apareceu na ribanceira, em observação; e depois uma voz humana, irrompendo do rio, denunciou um nadador.

E daqui concluiu Vamiré que, desta feita, os asiáticos acompanhariam a expedição.

Em tais condições, o assalto era grave.

Sem perda de tempo, despertou toda a sua gente. Armou com arpões de pontas fixas e de zagaias seis velhos mais sagazes, anexou, para seu uso, uma lança à sua clava, e pôs-se de atalaia em bom lugar.

Os cães acabavam de se atirar à água. Seguidamente, a presença do homem revelou-se em nova táctica: formaram-se três colunas; uma seguiu para a frente; outra para o pontal, onde estava Élem; e a terceira, deixando-se ir ao grado da corrente, rodeou a ilha, para a assaltar por trás.

Então Vamiré, para concentrar a defesa, fez evacuar o pontal oposto àquele em que se achava, e fez guarnecer o outro lado da ilhota, organizando tudo de forma, que toda a gente se agrupasse com ele, sendo necessário.

Depois, enristando a lança, aguardou.

Os orientais não se viam. O seu plano devia ser o dirigir o ataque, intervindo nele apenas no momento decisivo, e, para isso, nada melhor do que estar na retaguarda. Tinham provavelmente mascarado os rostos, para melhor se confundirem entre as cabeças dos cães.

A dez metros da ilha, as colunas da frente estacaram contra a corrente, aguardando um sinal do bando{159} que fora por trás da ilha. Quando chegou o sinal, todas as forças atacaram a um tempo.

Parecia que aumentara a coragem dos cães. Luziam-lhes os dentes e o fósforo azulado dos seus olhos rasgava as trevas.

Antes de assentar o pé em terra, sofreram, como antes, consideráveis perdas; mas, desde que lá chegaram, muitos tardígrados das primeiras filas pereceram estrangulados; a heróica defesa dos outros, postos fora de combate centenares de cães, salvou-os do desbarato, e a luta seguiu curso regular, com fortuna vária.

Ao princípio, dando pela ausência do Pzann, dois orientais haviam-se adiantado e, primeiro a tiros de frecha, e depois com ligeiras lanças, sustentaram o ataque.

O contacto dos inimigos aterrorizara os comedores de vermes, que certamente se não salvariam da derrota, se os seis velhos, armados de arpões e zagaias não aguardassem corajosamente os asiáticos. Estes, envolvidos num círculo ameaçador, compreenderam a imprudência de arrostar armas ervadas, e debandaram em retirada, não intervindo na luta senão com brados e alguns tiros de frecha em momentos oportunos.

Do lado de Vamiré, os cães, açulados pelas vozes distantes, tinham efectuado a invasão.

Vamiré não os esperou; marchou contra eles com tal vigor, a sua clava e a sua lança fizeram tão numerosas vitimas, que os animais aguentaram apenas o primeiro embate e fugiram, deixando a descoberto um oriental, armado simplesmente de uma zagaia.{160}

Vamiré, com uma pancada, partiu a frágil haste da arma inimiga, e, segurando o homem pela nuca, lançou-o aturdido no chão, manietou-o, deu-o a guardar a Élem, e correu a socorrer os seus aliados.

Estes lutavam bizarramente. Mas as hordas caninas, sempre renovadas, estimuladas pela voz dos asiáticos, encarniçavam-se e era de recear que aos homens chegasse a hora fatal do cansaço.

Ao grito de guerra, soltado por Vamiré, os cães recuaram, mas retomaram o assalto, porque os orientais, da espessura da floresta, dirigiam mais activamente a batalha, e recebiam a aproximação de Vamiré com basto tiroteio de frechas.

Os seis velhos, armados de arpões e lanças delgadas, agruparam-se de novo, fazendo rosto ao inimigo, prontos em auxiliar a estratégia do nómada. Este, na frente, procurou aproximar-se dos asiáticos, mas não o conseguiu, porque os animais se opuseram firmes, não obstante os estragos que neles produzia a clava.

Demais, sobreveio um incidente, que poderia trazer desastrosas consequências: os comedores de vermes, que defendiam as traseiras da ilhota, refluíram para a frente, produzindo um princípio de pânico, que tornou indispensável a presença de Vamiré.

A peleja travava-se nas trevas. Os orientais, sempre que podiam; disseminavam as fogueiras, para estimular a coragem dos cães. Os tardígrados deixavam os lugares sombrios, e acercavam-se dos seus brasidos, que eles alimentavam cuidadosamente. Gemiam ali numerosos feridos, fechando com a mão ferimentos terríveis.{161} Geralmente, tinham mordidas as pantorrilhas e as coxas, ao passo que os mortos patenteavam gargantas rasgadas, ventres estripados.

A purpura de sangue avivava-se ao clarão vermelho das fogueiras, e os gritos de guerra mesclavam-se às agonias do estertor, ao clamor das vidas que se extinguiam, como os latidos do animal se mesclavam à enrouquecida respiração dos homens.

Do esconso das moitas, a horda dos cães emergia incessantemente para a luz. Encarniçados com os gritos agudos dos orientais, que reboavam naquela confusão, sacrificavam-se, aos centos, mas invadiam, mordiam, aterrorizavam.

Os comedores de vermes, já impressionados pelo contacto dos homens das grandes estepes, e cuja coragem era apenas mantida pela presença de Vamiré, viam, além de tudo, aproximar-se-lhes o cansaço, sentiam os seus braços menos lestos em erguer a clava, e tendiam a concentrar-se em grupos numerosos.

Vamiré compreendeu a situação. Num impulso terrível, arremessou-se de repente para a vanguarda, obrigando os cães a recuar. Depois, fez sinal aos velhos, armados de arpões e zagaias, para que se lhe juntassem.

Eles obedeceram, imitando-os os mais vigorosos de entre os demais.

Este pequeno grupo, desde então, sustentou firme todo o peso do assalto, enquanto os demais trucidavam os cães que mais se haviam internado, e conseguiam repelir os ataques de flanco.

Finalmente, o Pzann, durante uma trégua curta, fez{162} compreender que era mester alimentar as fogueiras extensamente, e, a pouco trecho, uma rampa de braseiros protegia o núcleo principal dos seus homens. As chamas elevaram-se, invadiram ervas secas, mato, macissos, e queimaram arbustos, de forma que, resguardados por tal barreira, Vamiré e a sua gente puderam tomar alento.

Os cães tomaram-se de assombro, e os orientais, conhecedores dos costumes do animal, resolveram ladear a barreira. Para isso, era preciso passar pelo pontal da ilhota, porque os flancos do inimigo eram protegidos por espessa vegetação, em que as forças disseminadas fraquejariam.

Vamiré, prevendo aquele movimento, destacou mais de trezentos tardígrados para os principais desfiladeiros, procurando estes por indicação dele, acender ali fogueiras, com brandões que levavam e que cobriam de ramos secos; mas não lograram esse intuito, antes da chegada dos cães.

Frouxo ao principio, o ataque do quadrúpede tornou-se formidável com a aproximação dos asiáticos. Muitos comedores de vermes, fatigadissimos, largavam o bastão, e defendiam-se com pés e mãos, com dentes e garras. Facto curioso, os cães, primeiro, inquietaram-se com aquele novo processo; mas, pouco a pouco, tiraram dele vantagem, devida principalmente ao número, que lhes permitia opor três ou quatro dos seus a cada um dos homens.

Neste ensejo, Élem veio ter com Vamiré, e as suas palavras pareciam mais eficazes que as armas. Reconhecendo{163} nela a raça amiga, os cães estavam evidentemente desbaratados; e foi necessária a intervenção dos orientais, para que o animal voltasse à carga.

Na refrega, duas frechas varreram a cabeça e o ombro de Vamiré; e depois vibrou uma zagaia que atravessou o peito de um tardígrado, ao lado do Pzann.

Percebendo que o alvejavam do recesso dos matagais, e que não poderia livrar-se dos cães, se não chegasse a pôr os orientais em debandada, Vamiré, depois de ter novamente agrupado os tardígrados e recomendado a Élem que se abrigasse, embrenhou-se no mato.

Orientou-se pela voz dos asiáticos, e, em poucos minutos, achou-se perto deles, rodeados de cães prestes a atirar-se. Eram forças folgadas, como de reserva para as eventualidades.

Estes animais farejaram Vamiré e denunciaram-no. Mas ele, de um salto, pô-los em desordem com a sua clava, e caiu sobre os orientais, um velho e um moço, que fugiram, disparando uma zagaia e largando as frechas. O Pzann alcançou-os, e levantou a clava, a qual caiu no vácuo, porque os outros, lestos como uma pantera, evitaram a morte. Com a pancada no solo, partiu-se a clava, e com uma só punhada, Vamiré prostrou o mais novo dos seus inimigos; o velho apontou-lhe a zagaia, e cruzaram-se os olhares de ambos.

—Bem,—disse Vamiré,—eu sei que és bom, e não desejo tirar-te a vida.—

O chefe não respondeu, e continuou a recuar, sempre de zagaia apontada, até que viu erguer-se o seu companheiro. Fugiu então. Mas o Pzann desatou a correr,{164} alcançou os orientais, obrigou-os a voltar à ribanceira, arremessou o mais novo ao rio, tirou a zagaia ao velho e obrigou-o também a deitar-se a nado.

Com o afastamento dos homens, os cães latiram amarguradamente. A desordem estendeu-se às matilhas distantes, Vamiré interveio, soltando clamores de vitória. Animados, os tardígrados tomaram a ofensiva; as matilhas recuaram desordenadas, e depois desbaratadas.

O Pzann e os seus aliados ficavam senhores da ilhota.

Morrera um milhar de cães, e os asiáticos eram apenas dois!{165}

 

XXII
O incêndio

Ardia a ilhota.

O vento impelia as labaredas, por forma que era perigoso acampar no pontal, onde se achava o abrigo de Élem.

Tinham-se apinhado ali os tardígrados, e ali curavam dos seus doentes.

A rapariga, comovida pela coragem daquela pobre gente e pelos serviços que tinham prestado a Vamiré, sopeara a sua repugnância, e ajudava a tratar os feridos.

Naquelas tristes fisionomias, acabrunhadas de fadiga, perpassava uma expressão de alegria, como o ondear de um tanque, ao verem passar Vamiré ou a sua companheira.

Muitos tinham adormecido, na sua posição habitual, e, através do pesado sono, faziam reviver o pesadelo da peleja; soltavam gritos, rosnavam, erguiam de entre os braços o rosto frenético, estendiam a grossa maxila.{166}

Vamiré encontrara o oriental cativo. Depois de perseverantes mas inúteis esforços para partir os seus liames, o desgraçado, rebolando, chegara à beira do rio, na intenção de se deitar à água, e chegar à outra margem. Fê-lo hesitar porém a violência da corrente e quis ao menos partir as correias que lhe ligavam as pernas, mas não pôde realizar esse intento, antes da chegada do Pzann.

As labaredas subiam, penetrando as trevas. O voo das aves, que se aninhavam nas elevadas cimas do arvoredo, cruzava os clarões; as estrelas desapareciam atrás das volutas da fumarada, claras na base, esbranquiçadas depois, sombreadas como nuvens, esburacadas de perspectivas, profundas como abismos.

Sob a acção do vento, aquilo seguia um rumo, alongava-se em grandes nós ondulados, abaixava-se, palpitava como coisas vivas, e, nas fases de extinção, produzia o terrível aspecto da queda de grandes rochedos, de uma espessa chuva de cinza, de uma sólida condensação das trevas.

Dardejantes, as línguas de fogo ressurgiam purpureadas, ufanas de vencer. Nas suas contorções, levavam a crepitação das fibras secas, as explosões das seivas aquecidas, e, da sua cumeada, deixavam cair centelhas abundantes, um tanto frouxas, como pequenas gotas de saliva, como orvalho de uma cólera que se esvai comprimida.

No espelho das águas, tudo se conjugava: as labaredas simétricas e ondeadas, as nuvens de fumo, e as faúlhas fictícias, associando-se à queda das faúlhas reais.{167}

Quando a rápida fúria dos gases em ignição abandonava um moitedo, levando consigo os finos estofos do vapor, a ramaria esboçava as folhas de um livro mágico, animadas de estranhos hálitos, franzindo-se a qualquer bafejo da viração, e como atravessadas por ondulações, ora luminosas, ora obscuras.

Nas espessuras mais densas, o incêndio alimentava-se, rasteiro, lento, carregado, por baixo de frocos de fumo húmido; depois, crepitava, rompia, arrojava-se, mordia as pequenas franças, as folhas correadas, flamejava sobre as ervas secas, lambia demoradamente as grandes árvores, e, inopinadamente, difundia-se em feixes desacordes, última expansão das suas forças.

Do seu acampamento, atrás das moitas, os asiáticos viam arder a ilhota.

A sua situação não era lisonjeira. Debalde procuraram levar os cães a terceiro assalto. Estavam sem armas, à excepção das do ferido, as quais cumpria reservar para defesa extrema.

Demais, inquietos quanto ao destino do companheiro desaparecido, e na perspectiva de se verem abandonados pelos cães, os mais novos julgavam próximo o seu aniquilamento, e lastimavam o não se haverem confiado à prudência do chefe. Este, fatalista, cheio de resignação, não dizia nada, inclinado para a fogueira, de semblante anuviado de tristezas.

Os outros falaram-lhe humildemente sobre o seu desbarato e sobre a necessidade de acordo com o inimigo.

O velho ouviu-os, guardou silêncio por muito tempo, e depois falou:{168}

—Rapazes, o bom conselho, transmitido de pais a filhos, manda que se proponha a paz no princípio da guerra, enquanto as hostes são vigorosas e os destinos incertos, não podendo a proposta significar humilhação; mas ensina que na hora da derrota, é preciso morrer, para que não caiam sobre o vencido os sarcasmos do vencedor. Na hora da paz, queríeis vós a guerra, na hora da guerra quereis a paz. Possível é que o nosso inimigo, em que tudo revela tino e coragem, prefira a certeza de uma conciliação aos acasos de um combate final. Talvez o incêndio o force a abandonar a ilha, e, se ele entender que deve falar, falará. Aliás, cumpre que nos preparemos para a vitória, para a morte ou para a fuga.—

A aurora tingia de lilás pálido o oriente. O incêndio, mais intenso e como receoso de que o dia lhe atenuasse os esplendores, saltava aos píncaros do arvoredo em labaredas mais altas, mugia como um rebanho de búfalos atacados por feras, ou crepitava, seco e cruel, em pequenos estalidos, em pequenos gritos, como bandos ruidosos de gafanhotos destruidores das gramíneas, como legiões ácidas de formigas em marcha contra os casais. Os seus claros hélices de réptil cingiam os grandes troncos, e atingiam as folhas, encarquilhadas desde logo, devoradas depois, e que se baloiçavam chamejantes à brisa matinal, como borboletas de luz, como enxames de vespas em desordem.

O calor era enorme. Inquietos e sonolentos, os tardígrados iam recuando sempre para a extrema ponta da ilha.{169}

Vamiré, pensativo, contemplava o incêndio. Tinha em lugar seguro a canoa e as armas. Élem dormia no seu abrigo. O saguim, despertando ao ruído e à claridade, agarrava-se às ramarias.

Entrementes, com o destroço dos grandes ramos, lambidos pelo incêndio, as labaredas avultavam mais, descrevendo estreitas curvas, que se avivavam caindo, e que, no ar, pareciam leves e vaporosas, mas que, ao tocar no solo, crepitavam asperamente, jorrando cóleras de centelhas.

O Pzann desligara os pés do oriental e interrompera o sono de Élem, para que esta lhe servisse de interprete:

—Pergunta a teu irmão,—disse-lhe ele,—se não julga que chegou a hora de se fazer paz.

—A morte,—disse o asiático,—não me assustaria.

—Sei que és valente,—disse Vamiré;—mas não é um fraco aquele que se salva, salvando seus irmãos.

—Os meus não foram vencidos!

—Não,—disse o Pzann,—mas são apenas dois, e os cães aprenderam a temer-nos.—

Seguiu-se longa pausa, durante a qual o asiático meditava.

A alvorada subira um grau.

A cor do lilás passara à da turquesa e uma semiclaridade aquosa se estendia por todo o horizonte do rio; e, nesse horizonte, as árvores, o céu, as ribanceiras acusavam uma frescura extrema, em confronto com a vibrante sequidão do incêndio.{170}

O Pzann sentiu desejos de prosseguir na sua viagem pela face verde das águas, de continuar a subir o grande rio, e a ver as suas florestas, as largas desembocaduras de ribeiras, as suas penedias, ouvir o rugido das cascatas, o leve rumor das pequenas quedas de água, observar a correnteza dos rápidos, a sombra dos pequenos canais povoados de mouchões, a claridade dos extensos álveos...

No entretanto, as chamas completavam o seu assamento feroz, palidejando com a luz nascente, agitadas em línguas monstruosas, ou disseminadas em delicados tecidos, aderentes às retículas dos pequenos ramos.

Ao longe, no esconso das florestas, ouvia-se o ladrido dos cães em caça, o que arrancou o oriental à sua meditação. Viu que Vamiré percebera a ausência dos cães e a facilidade de um acto de força no campo inimigo.

—Que queres tu de mim?—perguntou ele ao Pzann.

—Que fales a teus irmãos—respondeu este.

O oriental ergueu-se, e, acompanhado de Vamiré e Élem, caminhou até a beira da ilha, e soltou a voz de chamamento, conhecida das tribos:

—Ré-á, ré-á!—

O chefe braquicéfalo saiu então do mato, acompanhado pelo moço válido:

—O nosso irmão está cativo do homem das regiões desconhecidas?

—Está cativo.

—Vem pedir-nos auxilio ou vingança?{171}

—Não; o homem do montante do rio pede paz.

—Desligue ele pois as tuas mãos, porque é justo que fales dessas coisas como homem livre.—

O oriental transmitiu a Vamiré o desejo do velho.

O Pzann hesitou, por um instante, com o receio de uma traição. Depois, sem dizer uma palavra, desatou os laços.

O cativo não se mexeu, limitando-se gravemente a erguer os braços acima da cabeça.{172}{173}

 

XXIII
Regresso

Pelas gargantas das ilhotas e à sombra de árvores, por extensos e alumiados canais, a barca ia singrando contra a corrente, que as chuvadas entumeciam. E, enquanto Élem e o saguim brincavam ou dormiam na barca, Vamiré remava sempre.

Firmara-se a paz com os orientais. Os cães tinham regressado às áridas savanas da beira das florestas; e o misero tardígrado terminara o seu êxodo para o Grande Lago.

Os asiáticos abriram as veias dos braços, e o seu sangue mesclou-se com o de Vamiré. Em nome das sagradas tribos, o velho enjeitou todas as ideias de guerra, e Vamiré falou de paz, em nome dos grandes nómadas ocidentais.{174}

Na primavera do ano seguinte, na terceira lua depois do equinócio, os Pzanns enviarão trinta caçadores, escolhidos entre os mais intrépidos, tendo a Vamiré por chefe, e aqueles homens virão buscar outros tantos aliados, dirigidos pelo prudente velho.

Quer o vento encrespasse as águas, quer as crivasse a chuva, cobrindo-as de pequenas bolhas saltitantes, a canoa vogava sempre para o Norte, desde a alvorada ao lusco-fusco. O bramir dos cervos, o barrir do mamute, o rugir dos leões, saudavam a passagem da frágil barca e o homem adversário. E ela vogava, vogava, pelas gargantas das ilhotas, à sombra das árvores, e pelos grandes canais alumiados.

E Vamiré pensava nos comedores de vermes, na profunda tristeza deles à hora da separação, nos seus broncos semblantes, no vago latir das suas risadas, e dos seus queixumes, na gratidão infinita dos seus olhares e na dificuldade com que eles, demorando-se junto de Vamiré, se resolveram a partir.

Do alto de um pequeno outeiro, despediu-se deles com um grito de amizade, a que corresponderam com a humilde melopeia da marcha. Firmes na união fraternal, que era o que os mantinha de pé em face do antropóide e das grandes feras, transportavam consigo os seus feridos.

Pelas gargantas das ilhotas, pelos vastos canais alumiados, as semanas sucederam a semanas, algumas vezes o sol dardejava os seus ardentes afagos, ou soprava o nordeste, açoite invernal, ou caíam lufadas impiedosas. Era mester então procurar abrigo nas calhetas, em cavernas{175} propicias, e perder dias inteiros, até melhorar o tempo.

Mas Vamiré tinha o peito cheio de grande orgulho, porque vencera as ciladas da natureza, a agressão dos animais ferozes, e o ardiloso ataque dos homens. Parecia-lhe tornar a ouvir, nos lararios nocturnos, o velho Tá, de cento e vinte Invernos, narrando o esboroar das montanhas, o escancarar do solo, a absorção dos grandes lagos em fauces de abismos.

Sentia-se maior que Harme. A história da sua viagem, referida pelos anciãos, faria palpitar o coração dos moços: surpresas do rio, perversidade dos répteis, ferocidade das feras, homens das árvores, regiões novas, homens tardígrados, comedores de vermes, Élem... E os velhos acrescentariam que devia ter sido necessária uma vontade invencível, para dominar a nostalgia, o horror das imensas solidões!

Ainda os sorrisos do céu, e os rudes aguaceiros, o rio verde ou lodoso, a corrente mais impetuosa, rápidos e catadupas, e sempre a barca, empenhada no regresso, com Élem folgando ou dormindo e Vamiré manejando o remo...

Sentiam-se próximas as chuvas, as infinitas chuvas. A tribo, refugiada nas cavernas da alta região, não deixaria as savanas do Oriente meridional, antes de meado outono, e Vamiré tornaria a ver seus pais Zom e Namir, seus valentes irmãos, e sua irmãzinha, que saltava como cabra montesa. E apresentaria aos velhos, humildemente, a esposa que ele levava de longe.{176}

Pelas gargantas das ilhotas, à sombra de árvores, e pelos extensos canais desensombrados, no declinar do período madalenico, quando o pólo do Setentrião gravitava para o luzeiro do Cisne...{177}