—Então?—exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abraço homicida.

—A baroneza?

—Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».

—A baroneza... cahiu miseravelmente.

—Cahiu?!

—Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!

—Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?!

—E em que lodaçal ella cahiu!...

—Creio...

—Esse creio é uma affronta...

—A ella...

—Querem ver o romancista com ciumes!...

—É compaixão d'ella, e de ti...

—De mim!—tornou elle soltando uma estridente risada—de mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel torpeza que ella praticou.

—Depressa... que fez ella?

—Cahiu nos braços asquerosos de...

—De quem!

—Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!{219}

—Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o extremo supplicio.

—Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias!

—Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...

—Qual? adivinha lá...

—A morte de D. Angelica.

—Justamente: morreu ha tres semanas.

—Atormentada de saudades... pobre mulher!

—Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria fica sem mancha, minha mãe!»

—Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?

—Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em paga.{220}

—Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.

—Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe. Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?

—E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como provocações á morte?

—Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.

 


 

Deixemos falar este homem sem alma, leitores!

Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem d'este desterro.

 

FIM

[1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.

[2] É ordinario este estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa, e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cahir, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.

[3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz...

[4] Veja Vies des dames galantes, por le Seigneur de Brantome—Discours premier.