OS
TRIPEIROS.
ROMANCE-CHRONICA DO SECULO XIV.
POR
A. C. LOUSADA.
PORTO:
TYPOGRAPHIA DE J. J. GONÇALVES BASTO,
LARGO DO CORPO DA GUARDA N. 106.
1857.
I.
A mensagem do Mestre.
Alteradas estão do
reino as gentes
Co' o odío que occupado os peitos tinha.
camões, lus.
cant. iv.
Era uma estranha romaria, para quem não tivesse
noticia dos alvoroços a que a morte de Fernando 1.º
e o casamento de Beatriz em Castella tinham dado
causa, a que pelos meados de Maio de mil trezentos
e oitenta e quatro sahia pelas portas da cidade do
Porto que davam sobre o rio, e mais pela chamada
Porta Nova. Se fosse facil conduzir o leitor a vêr
do alto das torres que a defendiam aquelle gentio,
acreditaria que elle tinha invadido algum arsenal a procurar
disfarce entre o guerreiro e o burlesco. Um
popular cobria a cabeça com um elmo adamascado,
e, mostrando os joelhos através do grosso estofo das
calças, com pés descalços pisava a
areia onde o
montante que arrastava deixava um sulco;
um outro,
parecendo ter em menos conta a cabeça do que
o peito, abrigava este em uma couraça mais que farta,
e deixava aquella ao sol e ao vento; este, vestindo
apenas umas calças, se assim se podia chamar um
cirzido
de trapos, trazia suspenso de funda um escudo
de couro, onde em tempos estivera pintada ou
divisa ou brasão, pois não era já
facil adivinhar
o que fôra; de um cinto leonado pendia de um lado
um estoque, do outro um punhal, e, como se
não bastassem estas armas offensivas, empunhava
um chuço enorme; aquelle levava um bacinete
amassado
e um gorjal ferrujento, e tinha por cinto de grosseira
jornea uma funda, o provimento da qual, como
se não fôra uma arma facil de encontrar a cada
passo, pesava em um sacco lançado aos hombros.
De tempos a tempos o bom povo, como lhe chamava
o mestre de Aviz, abria aqui logar a um cavalleiro
acobertado de ferro desde os pés á
cabeça, seguido dos
seus pagens, ou escudeiros, alem a outros mais exquisitamente
vestidos pelo antiquado das armas, ou
pelo incompleto. Havia capacete que, se Cervantes o
visse, não o deixaria ser original descrevendo o que deu
ao seu heroe no principio das perigrinações;
peitos de
aço polido, espelhando o sol, que disparatavam com
umas grevas desconjuntadas, enegrecidas, remendo
visivel; feixes de armas que desdiziam umas das outras
pelo valor, casando-se a facha grosseira com um
estoque cuja bainha acobertavam ornatos de prata,
montantes de Toledo e adagas grosseiras. Os cavallos
iam uns cobertos de ferro, outros apenas com
os arreios necessarios para se poder cavalgar, e não
poucos dos cavalleiros, e aos pares até, montavam
em mulas. Os cidadãos que assim sobrecarregavam
os pobres animaes, costume vulgar por esses tempos
e por muitos outros, vestiam em geral a garnacha
negra, distinctivo dos doutores e physicos. Com este
mesmo traje, porém arregaçado pela ponteira da
espada,
deixando vêr a calça de duas cores e o borzeguim
ponteagudo via-se tres ou quatro aspirantes áquella
distincta classe de medicos e letrados, e com
elles alguns monges, que tambem se mostravam affeitos
ás armas pelo modo como seguravam o punho
da espada e cobriam a tonsura com o bacinete. Um
dos cavalleiros mais bizarros da romaria era tambem
um ecclesiastico; pelo menos assim o demonstrava
um roquete, que sobre armas soberbas vestia
em vez de brial.
De burlesco para a gente que guarnecia as muralhas,
as torres, os eirados e soteas nada havia
nesta procissão; de marcial havia muito, tudo, a avaliar
pelo enthusiasmo com que a saudavam, e pelos vivas
que se juntavam ás saudações. Tinha
decorrido
uma boa hora desde que correra na cidade que umas
galés demandavam a barra, e, posto que houvesse
quem affirmasse logo que eram portuguezas, como
dos de casa havia tanto a recear como dos extranhos,
todos se tinham prevenido para as receber. Um pagem
levara já a Ayres Gonçalves e ao bispo D.
João
a nova de que eram expedidas pelo mestre de Aviz;
porém estes senhores eram então authoridades
quasi
nominaes, e deixavam por tanto, para não perderem
o tempo, fazer a sua demonstração aos bons
populares e aos cavalleiros que não eram de suas casas,
creação, ou serviço.
Ideia de que no seculo decimo quarto era uma
guerra civil, acompanhada de uma invasão estrangeira,
nem todos os que passam os olhos por este capitulo
farão. Hoje hasteam-se duas ou tres bandeiras,
ou mais, se quizerem, mas, o primeiro impeto passado,
a machina civil lá vae funccionando peor ou melhor
por conta dos governos provisorios; naquelles
tempos, porém, ninguem se entendia por vezes. Cada
fidalgo levantava o seu troço de gente e vendia e revendia
a espada; hoje era ao serviço de um,
ámanhã ao
de outro; os alcaides dos castellos, a maior parte
dominando as povoações principaes, juravam preito
e
perjuravam todos os dias, e as municipalidades lançavam,
bom ou mau grado, pela manhã um bando
em favor de um monarcha e á tarde acclamavam outro.
No meio desta bella ordem havia caudilho que
dava em ambos os partidos belligerantes, e sobretudo
nos pacificos, aventureiros que se batiam por si e para
seu proveito. Na menoridade do pae do regedor,
como modesta e arteiramente se appellidara o irmão
bastardo de D. Fernando, e em quasi todos os reinados
antecedentes, a provincia de Entre Douro e Minho
tinha tido a sua amostra destas amabilidades;
mas o que a gente da
ordem chama
revolução e revolução
politica não estalara em tempo algum como
agora. Até ahi o povo contentara-se, salvo um ou
outro caso, com evitar a ponta da lança dos nobres
senhores e o virote dos seus homens d'armas, e ainda
mais de lhe franquear as arcas e de correr os cordões
da bolsa, o que raras vezes conseguia. Os
burguezes do Porto, o mais desenquieto povo de
toda a provincia e do reino, tinham já dado mostras
da sua força aos bispos Martinho Rodrigues e Vasco
Martins, porém, nestas revoltas se entrava politica era
acobertada: elles não davam por tal. Desta vez o exemplo
da capital fôra-lhes contagioso, e mesmo sem
tão
bons motores como Alvares Paes, desempenháram a sua
tarefa por tal arte, que se póde dizer, que a lei por
que se governavam era a sua. Ayres Gonçalves de
Figueiredo, o governador de Gaya admirára da outra
margem a valentia dos pulmões dos partidarios do
novo governo, e, posto que não estivesse bem seguro
das suas ideias quanto á legalidade da regedoria, e
preferencia de direitos do mestre de Aviz sobre os
do infante, dos deste sobre a irmã, ou vice-versa,
para não lhes avaliar as iras tambem, contemporisara,
soltando as mesmas acclamações. Na cidade havia
um cahos. Os vereadores, governavam; governavam
os juizes do povo e o juiz real; governavam os chefes
das corporações; governava, porém
menos, o bispo
e os seus meirinhos; governavam até, ou mandavam,
os prisioneiros, ou tidos por taes, como era o
conde D. Pedro de Transtamara, que no campo de
Coimbra tivera as suas aspirações á
coroa de Portugal,
e a ser o terceiro marido legitimado de Leonor
Telles; finalmente, mandavam todos, se a mais ninguem
fosse, cada um a si.
Do pequeno povoado que ficava extra-muros,
composto de uma mescla de armenios, que nove annos
antes tinham deixado cahir o throno de Livonio,
o seu ultimo rei, aos golpes de espada do sultão
do Egypto; de gregos da Asia, escapados á furia
dos soldados de Amurath; de flamengos e genovezes
aventureiros, de mouros, os cultivadores da encosta
em que o bairro se abrigava; da pequena
povoação,
do bairro Armenio, augmentado ainda depois da
tomada de Constantinopla com os piedosos guardas
de S. Pantaleão, ajuntava-se á
procissão sahida da
Porta Nova uma chusma de curiosos, que pela variedade
de vestuarios, lhe vinha dar realce. Como
em taes casos succede, toda esta gente se embaraçava
na marcha, peões a cavalleiros, cavalleiros a
peões;
todos fallavam, todos tomavam e davam concelho, e
perguntavam por novas de que iam dar ao primeiro
encontrado uma versão correcta e augmentada com
reflexões de lavra propria e extranha. O espaço
que se
estendia desde os muros até onde a Arrabida deixava
apenas um caminho de cabras, aberto na rocha
para quem se quizesse dirigir á Foz do Douro, não
foi pois transposto em menos de uma hora, pela vanguarda:
uma grande parte do exercito popular nem lá
chegou. Os primeiros que encontraram uma das
galés subindo o rio, gritaram para os tripolantes que
lhes dissessem por quem vinham, e como estes respondessem
que pelo Mestre, sem mais attenderem, voltaram
atraz, dando vivas, como se fosse aquillo reforço
inesperado, que os viesse tirar de apuros.
Nas galés não vinha reforço algum para
os do
Porto, unica terra de importancia ao norte do reino,
que não acceitára como rei o marido de Beatriz,
e tinha a braços setecentas lanças e dous mil
infantes do arcebispo de Santiago e de outros senhores
castelhanos e portuguezes, sem contar os aventureiros
de Fernando Affonso, que não eram nem
uma cousa nem outra.
D. João de Castella, feita em Santarem a cessão
dos direitos á coroa por D. Leonor, a troco de
vinganças
promettidas no povo de Lisboa, que a respeito
della e em rosto esgotára um vocabulario immenso
de nomes, de que Fernão Lopes dá uma amostra,
e a mimoseára com pedradas; D. João, resolveu-se,
senão a cumprir o ajuste, pois se malquistára com
a ambiciosa sogra por causa de dous judeus, a destruir
a rebellião, como elle lhe chamava, no fóco,
e avançára até o Bombarral, ao passo
que aprestava
uma armada que, fechado o assedio por terra, cerrasse
tambem as communicações por mar.
Os arredores de Lisboa talados, as povoações
saqueadas não podiam abastecer de viveres os sitiados;
entre elles e Coimbra estavam os arraiaes inimigos,
portanto recorria-se ao Porto, pedindo tambem
um reforço de navios para impedir que o Tejo
fosse bloqueado. D. Lourenço, arcebispo de Braga,
azafamára-se para armar as galés que deviam levar
estes soccorros, e o mestre de Aviz encarregára Ruy
Pereira de uma missiva, em que aos bons burguezes
se promettia mil regalias; pois D. João acceitára
o conselho de dar tudo o que lhe fosse possivel
dar, e prometter até o impossivel.
Os vivas e o appendice a todo o enthusiasmo politico
de morras, naquella quadra aos castelhanos,
aos traidores e aos scismaticos, prolongaram-se até que
as galés em que vinham Ruy Pereira e Gonçalo
Rodrigues
vararam perto dos muros da cidade e principiou
o desembarque destes e outros illustres
personagens,
e ainda maior foi a algazarra quando o
estandarte real appareceu. O conde de Transtamara,
como primo do rei de Castella, não era dos coristas
mais fracos deste grande côro desafinado, e fôra
dos
primeiros cavalleiros que se apearam para receber
os reaes mensageiros, com toda a cortezania. O povo
sem fé naquella conversão e pouco acatador nesse
momento das esporas de ouro, das cotas bordadas e
cimeiras historiadas; o povo, deixando escapar desses
epygrammas de que elle possue o molde particular,
em vez de lhe abrir caminho, cerrava-se na
sua passagem, fazendo perder ao fidalgo o aranzel lisongeiro
que tencionava prégar a Ruy Pereira. Ruy
era uma notabilidade, como hoje se diz; porque então
ainda se não tinha inventado as notabilidades,
nem muitas outras cousas. Desde que explicára ao
mestre de Aviz a opinião do povo a respeito da rainha
Leonor, notando que quando andava para casar
com sua mulher, fallavam todos em que se queria
casar com Violante Lopes, e depois de casado ninguem
mais de tal fallára; depois, sobretudo, que déra
o golpe de mercê ao conde valido, abaixo de seu
sobrinho, dos homens de espada com valimento na
côrte, era o primeiro, e para quem estava nas circumstancias
de D. Pedro, portanto, pessoa que era prudente
lisongear.
Já então, como se verá no decurso
desta narração,
se attendia a conveniencias.
Em quanto os mesteiraes e burguezes embaraçavam
o conde, Martim Gil, abbade de Paço de Sousa,
substituia-o dignamente com duas rajadas de latim,
a substancia do todo, que o mensageiro perdeu por
não entender a lingua de Cicero, e uma enfiada de
periodos em portuguez garrafal, que entenderia perfeitamente,
se a algazarra tivesse cessado. Ruy Pereira
satisfez-se com vêr abrir e fechar a bocca ao
reverendo, e respondeu a toda esta eloquencia, fazendo-lhe
um ponto no meio do recado, perguntando
onde havia de pousar. Martim Gil indicou-lhe todas
as boas casas da cidade desde os paços da Sé e o
convento de S. Domingos, até algumas das vivendas
particulares, e o tio de Nuno Alvares escolheu S. Domingos,
mostrando mais pressa de descançar dos encommodos
do mar, que de dar conta da sua missão. O abbade
tentou então dar á entrada na cidade dos
passageiros
e tripolantes da galé de Gonçalo Rodrigues, e
das outras que iam aproando ao longo da praia, um
todo processional, porém luctava em vão; que era
até
difficultoso fazer desembaraçar os sitios de desembarque,
onde o povo se apinhava, se acotovallava
sem
dar descanço ao pulmão. O Douro não
tinha ainda,
nas suas soberbas, arrojando as terras roubadas nas
campinas d'encontro á praia; tornado esta tão
larga
como hoje; nem os homens haviam com parapeitos
avançado sobre o leito daquelle. O espaço
existente
logo além de portas, onde havia povoado, era
tão limitado, que, a distancia, parecia que as
edificações
tinham para a agua serventia, como os da cidade
das lagunas, a rainha do Adriatico; o estado de
exaltação,
e animo revoltoso ou independente dos burguezes
e vilões, porém, até em logares mais
espaçosos
tornava difficil a empresa do abbade.
Ruy Pereira, apesar de ter presenceado em Lisboa
a revolta popular, fazendo-se popular elle mesmo,
não o era tanto que levasse a bem aquella sem-ceremonia
dos portuenses, e lançando sobre os mais
proximos um olhar pouco amavel, reprimindo a custo
a vontade que tinha de mandar abrir caminho a
prancha de espada e conto de lança, lamentava
in
mente os bons velhos tempos—que já
então havia
bons velhos tempos—em que a cousa
«peão» descortinando
a vontade no gesto de um rico homem,
logo obedecia sem mais tugir ou mugir.
Graças á intervenção dos
juizes do povo e real,
que, avisados da chegada dos navios e de quem eram
as pessoas que elles conduziam, vinham para as
accommodar em pousada decente e fazer todas as
honrarias, que em tal caso competia, o embaraço terminou.
As tres authoridades, duas municipaes, uma
real, duas de muros a dentro, outra ribeirinha, foram
felizes, deve-se confessar, naquella occasião,
por não haver conflicto de poderes, nem
recalcitração
dos governados, o que era raro, e deveram esta
felicidade a estar satisfeita a curiosidade dos burguezes,
e não ser preciso empregar barqueiro ou
pescador algum na amarração dos navios. A
procissão
começou pois a mover-se pelas estreitas ruas da
cidade, e, em vez de parar em S. Domingos, seguiu
até á casa da camara no meio sempre de grandes
acclamações
ao mestre de Aviz, defensor e regedor do
reino, e morras aos castelhanos herejes, scismaticos
e traidores, o que fazia tragar sem réplica a Ruy Pereira
o ceremonial amofinador a que o submettiam
os edis portuenses, e a pressa que tinham de saber
em que podiam servir a sua senhoria, o futuro
rei.
II.
Um rapaz travesso.
He elle um par bem 'scolhido.
gil vicente.—v. da horta
Quando o mensageiro do Mestre era processionalmente
levado pela porta, que tempos depois deu
a um poeta com o nome um trocadilho para um requerimento
em verso, no marulhar de curiosos e patriotas
que se empuxavam, forcejando por abrir caminho
para aquelle gargalo, um burguez que tornava
respeitavel o sizudo do traje, uma barriga proeminente,
onde batia uma gorda bolsa de couro e um
esguio punhal, cabello branco, patrioticamente cortado,
luctava para não ser levado na corrente, dando
mostras pelo inquieto do olhar que procurava alguem.
A força da corrente era grande, porém, e
arrastou-o
pouco a pouco até junto de uma das torres
de defesa, onde a ressaca o fazia tomar todas as
direcções e posições
possiveis no meio dos gritos
das mulheres abafadas, das crianças trilhadas, do estalar
das armaduras, que, permitta-se a imagem, eram
os crustaceos que as ondas daquelle mar lançavam
d'encontro ás rochas. Mestre Gonçalo Domingues
suava
por todos os póros e formava com os cotovellos
um amparo ao abdomen e quebra-mar á maré,
receando
ser lythographado no muro, resmungando
ao passo uma ladainha contra o causador daquelle
desastre, segundo se lhe affigurava, um sobrinho
que o acompanhára momentos antes, e que perdera
de vista. Resolvido já a deixal-o por sua conta,
pois não estava já em edade de se perder, e a
escapar-se
daquelle aperto, começava a recuar, servindo-se
dos cotovellos como de uma alavanca, quando
sentiu umas mãos callosas pousarem-lhe no hombro,
sustendo-o na marcha. Sentindo aquella resistencia,
sem vêr quem a oppunha, pois lhe era impossivel
voltar o rosto, e receando de novo ser levado
para o muro, empregou contra o individuo que
assim lhe cortava a retirada um cotovellão, que estava
na razão directa da força que o impellia: tudo
isto acompanhado por uma praga:
—Más terçãs te colham,
cabeça de bogalho!
A praga a meio, e uma das mãos a erguer-se
a descer fechada em murro, estourando no costado
de mestre Gonçalo Domingues, que soltou um regougo,
cambaleou e perderia de certo o equilibrio,
se um mesteiral, que estava na frente, o não amparasse
na queda. O burguez, incommodando com o peso
o seu primeiro ponto de appoio, este o saccudiu para
um dos visinhos, que o recambiou sobre o homem
do murro, appresentando-lh'o de cara.
—Se te apanhára aqui, maldito! tornou a exclamar
mestre Gonçalo, soltando outro gemido: punha-te
as orelhas a fumegar. Tu m'as pagarás!
Esta exclamação a meia voz, dirigida ao ausente
sobrinho, foi interceptada a meio pelo homem de
murro, um marinheiro, que, vendo o rosto afflicto
do bojudo cidadão, se contentou com dar-lhe um
grande encontrão, resmungando, como goso que vê
em perigo o osso que esburga:
—Pois junte lá mais isso á conta, meu baleote.
Mestre Gonçalo estava affeito a ser mais bem
tractado intra-muros: doeu-se da chufa dirigida ao
seu physico pelo maritimo, e fez-se mais vermelho
do que estava; fez-se roixo, se póde dizer, desde
a raiz do cabello até aos queixos, mas não
reagiu.
A sua indole era pacifica, apesar do punhal que o
acompanhava; e demais, não via perto de si senão
caras desconhecidas e rostos queimados pelo ar do
mar, que podiam ser de vassallos da coroa, e estes,
posto nessa occasião estivessem em harmonia com
os vassallos da mitra, e já um pouco apagadas as
divisões antigas, era de crêr que por elle
não tomassem
partido. Comtudo, não se ficou, sem responder:
—Se não está bom, deite-se, ou vá
travar razões
com petintaes, espadeleiros ou outra gente da
sua egualha; não se metta com quem não se mette
comsigo.
—Olhem o outro! resmungou o marinheiro;
abalroou-me com os cotovellos pelos peitos, e diz
que se não mette com a gente; traz aquella cara
que parece mesmo um odre a rever, e grita que um
homem cá está toldado!
Gonçalo Domingues, doendo-se da nova zombaria,
tornou mais apropriada a imagem do marinheiro,
e cerrando os punhos exclamou:
—Veja como falla!
—Graças a S. Pedro; meu advogado, redarguiu
o homem do mar, levando a mão ao barrete—não
é facil de dizer se em attenção ao
santo-apostolo,
se em cortezia zombeteira, pelo esgar que fez,
ao senhor Gonçalo—graças a S. Pedro, fallo sem
trave.
E não me faça biocos nem arremessos, accrescentou
com ar mais carregado: que, se me sobe a
maré aos cascos?!...
—Que é lá isso, mestre Gonçalo?
perguntou
quasi ao mesmo tempo um cidadão de pouco
menos edade que o interrogado.
—É este excommungado, que se metteu onde
não era chamado, e me poz a paciencia em maior
apuro do que já a trazia.
—Excommungado é elle! resmungou o marinheiro,
recambiando o apódo que lhe fôra dirigido,
e fitando ora o novo, ora o antigo interlocutor.
—Olhe, mestre Gil, tornou o burguez rubicundo,
dirigindo-se ao recem-chegado; ia eu amofinado
por causa daquella cabeça de vento de meu
sobrinho...
—E que tenho lá eu com seu sobrinho? tornou
o marinheiro.
—Isso mesmo queria eu que me dissesse!
acudiu o senhor Gonçalo.
E, voltando-se para o seu collega, continuou:
—Ia eu, como lhe dizia, amofinado, porque o
maldito do rapaz se me escapou—ora sei eu lá para
onde!—e não sei que digo de mim para mim, quando
essa creaturinha, como se não tivesse da sua egualha
mais com quem desenferrujar a lingua, travou-se
de razões...
—Isso nada vale, mestre Gonçalo! atalhou o
homem a quem vimos dar o nome de Gil, dirigindo-se
para o galeote, que lhe voltou as costas, fazendo
uma careta muito expressiva para um companheiro,
que, com uma mão pousada no hombro
delle, parecia, na posição que tomava, querer
dizer
que alli estava para ir em seu auxilio, se preciso fosse,
que não era.
O gordo burguez, vendo o antagonista voltar-lhe
as costas, desafogou contra elle, com o seu amigo,
a cholera, que o ameaçava com uma apoplexia;
e em seguida desafogou tambem a respeito do causador,
o estouvado sobrinho, que desapparecera. Apesar
de ter escoado a multidão pela porta da cidade,
de estar já desembaraçado o transito,
á volta dos
altercadores havia uma reunião de curiosos, como de
costume, cujo nucleo era uma boa duzia de garotos
pertencentes, pelo que dos trapos vestidos se divisava,
a tres religiões; pelo typo, a tres raças, e ao
qual se juntavam por um segundo, que mais não fosse,
os arrastados daquella procissão e todos os que
por alli o acaso conduzia. Uma velha que regressava
aos lares com os aviamentos para a ceia, comprados
na tenda d'ao pé da porta, soalheiro do bairro,
não
escapou, apesar de carregada, á força attrahente
das
lamentações de mestre Gonçalo; e,
sabida a causa destas,
se appressou em dar-lhe remedio.
—Quer saber do seu sobrinho que esteve no
convento, mestre Gonçalo? Bem se vê que o rapaz
não tinha queda para os latins e o hábito;
aquillo
é um levantado! Tome sentido com elle, mestre!
Agora o vi eu a correr pela bitesga que vai por pé
da casa de João Ramalho. A modos que elle...
A reflexão da velha, se na phrase ficou incompleta,
não o ficou no gesto. A traducção
deste era
que o rapaz começava a inclinar-se ás
saias. (Como
demos a traducção, ajuntaremos, em nota
intercalada
no texto, que a boa santinha parecia, no ar malicioso
que tomou, recordando-se dos seus tempos, ter delles
saudade.)
Gonçalo Domingues, sem mais attender á mulher
da alcofa, tomou a direcção do sitio indicado
como o
seguido pelo sobrinho, resolvido a descarregar nelle
o mau humor excitado pelo seu desapparecimento,
pelos apertões que levára, o cortejo que perdera,
e,
sobretudo, os apodos e murros do galeote. Em quanto
para lá se dirige, ruminando aquellas passadas
attribulações, saibamos o que fazia o travesso
rapaz.
Como já viu o leitor, no antecedente capitulo,
no tempo em que estas cousas succediam, as
habitações,
em Miragaya, estavam mais perto do rio, ou
melhor, o rio corria mais perto das habitações.
Entre
S. Pedro e os muros, havia, no espaço que abre
a montanha, algumas bitesgas, de que ainda se conserva
uma amostra, povoadas umas, outras correndo
entre cercados e muros; em outros sitios, um fraguedo
deixava apenas o logar preciso para algum carreiro
não muito viavel. A povoação
cerrava-se, apinhava-se
mais para o pé da velha egreja de S. Pedro,
e rareava progressivamente para o oriente e poente.
Perto dos muros, havia tão sómente uma fieira
de casas á beira d'agua; depois o declive rude do
monte onde se edificou o convento dos Agostinhos,
coberto de silvados e matto, que vinha angustiar
mais o passo para a cidade. Onde se tornava mais
suave a encosta, subia um carreiro, que, depois de
serpear por detraz de algumas das moradas do bairro
do rei, se bifurcava, levando um braço a uma daquellas
ruas, lançando outro pelo monte, serventia
a casaes que se communicavam egualmente com a
cidade pelo lado do Olival. Por este carreiro é que
tomára Fernando, ou Fernão Vasques, o sobrinho do
senhor Gonçalo Domingues, mal viu absorvida a
atenção
deste nas galés reaes e seus passageiros. O
rapaz correu por algum tempo sem tropeçar, para o
que preciso era estar bem affeito a trilhar similhante
caminho, e só affrouxou o passo quando se approximava
de uma casa de boa apparencia, cuja frente
dava para a praia, habitação de uma das
notabilidades
do bairro, e que o foi depois, na historia, do piloto
e mercador João Ramalho.
A casa para o lado do rio nada appresentava
de notavel na fachada: era um edificio de madeira
como muitos dessa epocha; para o lado do monte,
porém, era bastante pictoresca. A parte inferior
escondia-se
em uma moita de arbustos de um pequeno
cercado, onde tambem se levantavam algumas arvores
de fructo, uma das quaes, rompendo, com um
braço lançado á flor da terra o muro
de pedra insossa,
saccudia sobre o caminho a folha, a flor e
mesmo o fructo, se a gula dos garotos esperava pelos
effeitos do tempo. Acima do verde dos arbustos
descortinava-se uma varanda de pau, onde, no parapeito,
davam passagem ao ar e á luz aberturas symetricas,
figurando folhas de trevo, e na parte superior,
zelozias em xadrez, tudo pintado de encarnado
vivo e verde esmeralda, com que realçava o branco
que tingia o tabique. De ambos os lados da varanda
descia uma escada, cujos maineis se perdiam
entre os arbustos, depois de se ligarem em um patamar,
ao centro, para de novo se separarem, formando
da sorte um corpo saliente na fachada. Por
cima da varanda abriam-se duas janellas, todas lavradas,
ornadas de zelozias tambem, e tendo por baixo,
sobre traves salientes, em cada uma das quaes
artista rude esculpira um animal sonhado, dous caixões
com terra. Em um, apar do qual duas longas canas
formavam um estendal, onde se via roupa a seccar,
a providencia domestica semeára salsa e a
precaução
contra feitiços dispozera um pé de arruda; no
outro, havia um pé de amores perfeitos e outro de
madresilva marinhando por cordões passados para o
guarda-chuva de madeira que os abrigava.
Quando Fernando Vasques se aproximou da casa,
depois de alguns assobios, entre a trepadeira e por
cima dos amores, appareceu, aberta a zelozia, uma
cabeça bem propria para encaixilhar entre aquellas
flores. Imaginae um rosto oval, de uma carnação
que
se não podia dizer branca, mas a que se não podia
chamar trigueira, porque o não era; uma pallidez, sem
ser dessas que denunciam uma natureza enfesada,
doentia; uma pallidez que lhe dava um todo de brandura,
de carinho, que fazia por vezes realçar um carmim
vivissimo e trahia um olhar travesso, de travessura
infantil, innocente; imaginae uma bocca de um
lindo desenho, formando em cada extremo uma covinha
engraçada; uma bocca que parecia sorrir sempre,
mesmo quando a fronte scismava ou as lagrimas
desciam pelas faces; imaginae que o nariz fôra modelado
pelo de uma estatua antiga, e imaginae, sobretudo,
uns olhos castanhos rasgados, assombrados por
uma franja de cilias tão cerrada, que pareciam negros
como a baga do loureiro; uns olhos, emfim, expressivos,
verdadeiros espelhos d'alma, como lhes chamam os
poetas, e tereis uma ideia das feições de Irene.
Esta
encantadora cabeça enfeitava-se com o mais soberbo
cabello que se póde ter aos quinze annos; negro, longo,
serico, ligeiramente ondeado. Para maior realce
da côr, parecia feita á moda que vogava. As
tranças,
que vinham pousar no collo, alvo como marfim, eram
intermeiadas por fitas de lã de um vermelho vivo, que
se cruzavam depois na cabeça e vinham cahir soltas,
dos lados, terminando em pingentes de metal dourado.
As leis que faziam distinguir, pela cabeça, as solteiras
das casadas e estas das viuvas cahiam em desuso.
A filha de João Ramalho, apesar da curta edade,
era uma bellesa. O sangue de sua mãe, uma dessas
bellas moças da Asia, em que se confundiam dous
typos, o grego e o armenio, predominando, desenvolvera
aquelle corpo garboso; dera-lhe na adolescencia
o acabado, a morbidez que só mais tarde,
em geral, em outra edade se alcança. Com o corpo
desenvolvera-se o espirito: desenvolvera-o a esmerada
educação materna, que distava bem da vulgar
entre a nossa burguezia naquelles tempos, e os
carinhos da boa mulher, que o senhor João não
comprehendia bem, entretido sempre nas suas viagens
e rude, voltados todos para aquella filha unica,
em que se embellezava cultivando-lhe o coração,
aformosearam-lhe a alma. Uma bella alma faz
um rosto, senão formoso, amavel; a intelligencia reproduz-se
nas feições como aureola que lhes dá
realce; a natureza, já o dissemos, fôra madrinha e
não madrasta para com Irene: a bella menina, reunindo,
pois, todas as formosuras, despertava a admiração
e o amor ao mesmo tempo. A impressão produzida
no sobrinho de Gonçalo Domingues fôra esta,
e que o amor naquelle peito tinha boas raizes, dizia-o
a confusão em que elle ficou, mal á janella
appareceu
a gentil cabeça. Fernando, um rapaz jovial e resoluto,
como o diziam uns olhos castanhos cheios de
fogo, um nariz ligeiramente curvo, os lábios delgados,
accentuados na extremidade por um ligeiro buço;
Fernando baixou os olhos, fez-se vermelho,
sentiu que os joelhos se dobravam, enfraquecidos,
e, sem se attrever a fitar de novo aquella
apparição,
bom tempo gastou em puxar o barrete de um para o
outro lado da cabeça e amarrotal-o nas mãos, nem
creança bisonha que se dispõe a abrir brecha na
bolsa
paterna, ou tem de responder por avaria feita, acabando
por desafivelar o cinto da jornea, como se carecesse
de tomar largo folego para levar a cabo a sua
empresa.
Não era esta a vez primeira em que alli se encontrava
em taes embaraços, porém nunca tão
graves
tinham sido as circumstancias. A gravidade não
provinha da escapula feita a seu tio, que já nem de
tal se lembrava, mas da resolução que
tomára de realisar
as suas ambições e sonhos, as
combinações de
tantas horas; de passar além de alguns gestos e sorrisos
e umas saudações feitas do cimo da encosta,
não fallando em uma enfiada de sons, que palavras
se não podiam dizer, pois nem elle lhes soubera o
sentido, soltados á porta de S. Pedro entre uns como
arrepios, que attribuiu ao modo porque o encarou
a cultivadora da arruda, a creada a quem o senhor
João Ramalho, por morte de sua esposa, confiára
o governo da casa e a guarda da filha.
Quasi egual á força da
resolução fôra o abalo, como
nestas cousas é de costume, mas Fernando não
estava
resolvido a deixar perder mais uma occasião: puxando
o barrete sobre a nuca, subiu a um comoro,
ao lado da quelha, ergueu os olhos e abriu a bocca,
porém a palavra engasgou-se-lhe a um gesto de
Irene.
O pobre não prevera que prégar a sua confidencia
daquelle sitio fôra, querendo que ella a ouvisse,
mettel-a tambem nos ouvidos dos visinhos, ou pelo
menos das pessoas de casa, e a moça, levando um
dedo aos lábios e indicando-lhe com um gesto que
descia á varanda para encurtar a distancia, se no
enleio, no rubor se mostrava mal affeita áquellas
artimanhas,
professadas pelo amor, ou quem suas vezes
faz, como do sexo a que pertencia, se mostrava mais
prudente. Irene desceu, mas vencido a meio
o inconveniente da distancia, furtava-se, encoberta pelo
cercado da horta, ás vistas de Fernando. Este eclypse,
como diria um poeta, foi que deu ao namorado
um animo de que elle proprio se espantou por muitos
dias depois: atreveu-se a subir ao muro e marinhar pela
arvore que se debruçava sobre a estrada, a esconder-se
entre a ramagem.
Os discursos naquelle dia tinham má sorte: como
o que fôra destinado a Ruy Pereira, o pensado
e repensado do sobrinho de Gonçalo Domingues não
vingou. A erudicção do abbade de Paço
de Sousa
achatara-se de encontro á paciencia do fidalgo; as
flores escolhidas para ornar a declaração feita a
Irene
(tão rico dellas é o
coração em que rebenta
o amor!) as flores de estylo queimou-as um olhar
lançado ao mancebo, traduzindo tanta cousa, que
só
um desses olhares podia dar bons tres capitulos como
este em que se conta e commenta tanto successo.
O olhar de uma donzella, como a filha do piloto,
nestas confidencias de um primeiro amor—deixem
dizer que o amor, o verdadeiro amor só vem muito
mais tarde, deixem; que elles treleem, e julgam que
o egoismo aquilata a paixão—; o olhar de uma donzella
assim, encerra um mixto de affecto carinhoso,
de volupia indefinivel, de pudor e innocencia, de receio
e ousadia, que, para delle dar uma ideia, a poesia
mesmo é uma linguagem descolorida.
Fernando, mal se viu frente a frente com a moça
namorada, sentiu um formigueiro nos pés, turbara-se-lhe
a vista, e teve de se agarrar aos ramos da
arvore, para não cahir; quiz procurar o cabeçalho
da sua declaração, porém nem uma
só ideia lhe vinha
á mente; por mais de uma vez abriu a bocca,
e teve de a fechar sem formular um unico monosyllabo.
Irene, na varanda, com a approximação
tambem se acanhára, e occultava o seu embaraço,
ou,
antes descobria-o, passando a mão pela fronte,
levantando
uma trança para logo a abaixar, enrolando
e desenrolando uma das fitas, afogando e desafogando
o pescoço com o singelo colleirinho do corpete.
Os minutos que assim passaram não foram poucos.
Recuar depois de ter chegado até alli era desairoso
e difficil.
O sobrinho de Gonçalo Domingues fez o supremo
esforço para não perder tudo.
—Irene, Irenesinha! disse elle, amarrotando o
barrete com a mão que tinha desembaraçada.
A moça fitou-o, sorriu-se, e ainda alguns minutos
foram desperdiçados, se desperdiçado se
póde dizer
aquelle tempo passado em enleio, rápido na
passagem, mas que depois enche com a recordação
tantas horas de vida.
—Irenesinha! tornou Fernando, continuando a
procurar a musa no barrete.
A moça continuou a fitar o embaraçado rapaz,
aguardando que alguma palavra mais seguisse á
invocação.
O barrete não absorvera, ao que parecia,
os galanteios estudados, amimados por tanto tempo,
pelo que, depois de larga pausa, Fernando desceu das
regiões do amor a cousas mais terrestres, na linguagem;
procurou, se, o que é mais provavel, se
não agarrou á primeira idea visada, um ponto de
partida nos successos do dia, e titubeou:
—Não sabe que chegaram ahi umas galés de
Lisboa?
—Sei; respondeu a joven, baixinho, depois de
olhar para todos os lados a vêr se alguem poderia
ouvir aquella conversação
amorosa. Meu pae para
lá foi.
—Foi? interrogou machinalmente o mancebo.
—Foi, repetiu Irene, debruçando-se pela varanda
e fazendo com uma das mãos junto do ouvido
uma concha para não perder uma só palavra.
—Pois veem nellas muitos fidalgos de Lisboa.
Não os viu desembarcar?
—Vi.
—Disseram-me que iam em procissão á cidade,
e que traziam um recado do senhor D. João!
—E não foi vêr?...
—Olhe, Irene, atalhou Fernando em voz mais
baixa e intercortada, por muito que tenham que vêr,
eu antes quero estar aqui. A menina é que não sei
como não vai para o lado da praia.
—Para que? Tão longe fica o lugar onde vararam
as galés, e está um gentio...
—Então, se podésse vêr, não
estava ahi.
—Porque não? disse Irene, córando.
—Porque... porque, titubiou Fernando, baixando
os olhos; porque aquelles fidalgos com as jorneas
bordadas, aquellas armas a espelhar são mais
para se verem...
—Da janella, tornou a moça, encolhendo os
hombros; da janella não se podem admirar esses
alindes.
Fernando baixou a cabeça, desconcertado o seu
intento. A moça não vinha para o campo para que
elle a queria trazer: não o entendia, pensava elle,
e se o não entendia é porque o não
amava. Se soubesse
avaliar a entonação de certas palavras
não
pensaria daquella sorte; porém todos os namorados
assim são: não reparam nas rosas e colhem os
espinhos.
—Oh! Irenesinha, e se esses fidalgos viessem
fazer uma leva para a guerra contra os scismaticos de
Castella? tornou o mancebo, procurando levar a
conversação
ao fim desejado.
—Para que pensar nessas cousas!
—E se me levassem? insistiu elle.
—Mas elles não veem para isso; não, senhor
Fernando? disse a donzella com uma inflexão de voz,
que pintava o receio de que uma affirmativa fosse a
resposta.
O sobrinho de Gonçalo Domingues não notou
esta expressão e proseguiu:
—Não se lhe dava que eu fosse?
—Eu?
—Sim; parece que não teria pena alguma.
—Não diga essas cousas!
—Pois devéras magoava-a a minha partida?
—Devéras; disse Irene, passando a mão pelo
rosto, para occultar as tintas do pejo, que a elle assomavam
com esta confissão.
—Não diz o que pensa, acudiu o mancebo, imprimindo,
cheio de alegria, um tal abalo á arvore, que
esta, oscilando o roçando de encontro ao muro, fez
desprender algumas pedras.
—Jesus! vai cahir! exclamou a donzella, tornando-se
pállida.
—Ai! Irenezinha, só para vêr se o que diz
é
certo, de boa vontade quebrava a cabeça.
A moça, em vez de responder, com um gesto
impoz silencio ao seu conversado. Do lado de baixo
ouvia-se os passos de quem para alli se dirigia, e
pouco depois appareceu Gonçalo Domingues.
—É meu tio, disse Fernando, com voz tão sumida,
que para si tão só parecia fallar, e no momento
em que o rotundo burguez passava distrahido
junto do muro, querendo esconder as pernas que deixava
pender de um e outro lado do galho em que
cavalgava, de novo oscilou a arvore violentamente,
mais arruinando o muro a que se encostava.
—Oh velhaco, que fazes ahi empoleirado?
—Eu, senhor tio? accudiu o pobre rapaz, coçando
na cabeça com toda a furia.
—Sim, tu, Belzebuth! Salta cá para baixo, que
te ensino a andar a roubar fructa pelos cerrados.
—Oh meu tio, a arvore não tem fructo; olhe
bem.
—Então que fazes ahi?
—Eu estava a vêr...
—O que, rapaz de má morte, cabeça
ôcca?
—A vêr se o via por algures, proseguiu o desconcertado
mancebo.
—Levadigas te colham! Procuraste atalaya bem
longe do caminho. Ora, desce, que eu te vou ensinar
chanças melhores.
—Cuidei que ia pela Aljama.
—Algemia é isso que tu estás a
prégar. Desce,
velhaco!
—Lá vou, tio; disse Fernando, descavalgando,
porém deixando-se suspenso pelas mãos do seu
poleiro.
Mas...
—Mas o que? Por tua causa em boas me vi, e
tu m'as pagarás juntas. Eu farei de modo que não
tenhas mais vontade de ir devassar hortas e cercados.
Se vais por esse caminho, acabas nas mãos da
justiça! exclamou o senhor Gonçalo Domingues, com
sobrecenho provocado pela recordação de
desaguisado
da praia.
Fernando deitou á donzella, que toda trémula
se conservava encostada á varanda, um olhar a furto,
não se attrevendo, por envergonhado de ser assim,
alli na presença della, tractado como uma
creança,
a uma despedida; com outro relance d'olhos avaliou
se as ameaças do tio não teriam, na
execução, algum
desconto, e lentamente, soltando um suspiro, desceu
da arvore em que, ao modo das aves, tinha soltado
as primeiras confidencias do amor. Tão depressa sentiu
nos pés o contacto do pedregulho da bitesga, como
sentiu nas orelhas o da mão de mestre Gonçalo,
que acompanhava cada puxão com um epitheto
pouco amavel, terminando pelo de
«ladrão».
—Ladrão não! exclamou o rapaz dando um salto,
ferido pela insistencia do tio naquelle ruim conceito.
—Então que fazias alli, rapaz dos meus peccados?
Alguem, não o interrogado, se encarregou de
responder. Á janella onde vecejava a arruda assomou
um rosto encarquilhado, meio occulto em uma enorme
touca de linho a feição das que usam as freiras,
e gritou com uma voz de canna rachada, debruçando-se:
—Menina Irene! menina Irene!
Gonçalo Domingues suspendeu as suas iras, e estendeu
o lábio inferior com um gesto que queria dizer
muita cousa, e, entre outras, que atinava com o motivo
de ter o sobrinho trocado a procissão dos fidalgos
por uma ascensão ás arvores do senhor
João Ramalho.
Lembraram-lhe as palavras e os momos da
velha da praia.
—Já agora vamos pela Aljama, e de passo fallarei
com meu compadre; disse em seguida, dando um
encontrão ao mancebo e indicando o carreiro que subia
a montanha.
Mettendo-se a caminho, voltou a cabeça, como a
voltára Fernando, para a casa do mercador, e viu na
janella do andar superior, por entre a zelozia meia
aberta, o rosto da gentil menina.
—Á fé, disse elle por entre dentes, que o rapaz
não tem ruim gosto; e ella...
A palavra foi terminada por um sorriso, olhando
para Fernando, como desvanecido do seu sangue.
Gonçalo Domingues era um excellente homem,
apesar de toda a sua aspereza apparente.
III.
Os Velhacos.