Aquelles cidadãos nobres praticavam
n'isto com mais deliberação,
como homens, que tinham mais
que perder, que os plebeus que seguiam
o Mestre...
chronica de d. joão
1.º
Uma cidade da peninsula, no seculo XIV, não era
um aggregado de individuos vivendo, como hoje,
debaixo da mesma lei—segundo reza a lei, entenda-se.
Afóra as distincções de classes e
senhorios diversos,
havia a distincção de crenças, e a
separação era
visivel nas grossas cadeias que tornavam ao cahir
das Ave-Marias incommunicaveis certos bairros. O
Porto tinha de tudo: subditos da coroa e subditos da
mitra, e no tempo em que succedia o que narramos,
moradores que nem reconheciam uma, nem outra;
havia christãos, mouros e judeus. Sobre um
monte alteavam-se as torres da Sé, e os paços
fortificados
do bispo; sobre o outro mais humilde levantava-se
a esnoga, ou synagoga, e na encosta, entre
um e outro, a pequena aljama appresentava-se,
como o symbolo da religião do propheta de Yatreb,
querendo approximar-se do Evangelho e da Biblia,
e lançando depois pela encosta um ou outro casebre,
como transição para alguma morada de heresiarcha
que se occultasse entre os foragidos do Oriente. A
aljama era a mais pobre: a esnoga era a mais rica;
a cruz, mais alta, dominando as duas, era a
mais forte.
Aljama, municipio, cathedral, esnoga, tudo fôra
cintado pela mesma muralha, como para viver em
boa fraternidade; mas esta aguara entre os dous filhos
de Adão, quanto mais entre tanta gente. O judeu
despresava o mouro; o mouro despresava o judeu;
o christão despresava a ambos, e, como fizera
a lei, talhára para si mais regalias e para os outros
mais tributos, reservando, para os que nada tivessem
de seu, o direito de se lamentarem em particular de
algum pescoção de burguez arrufado, gilvaz de
cavalleiro,
pedrada de garoto e praga de rascôa enraivecida,
ou velha rabujenta. Era uma sorte bem
agradavel, feliz, comtudo, aquella, em comparação
á que lhes prepararam, aos judeus especialmente, uns
beatos mettidos em politica, de que se serviam para
ganhar o céu, suppunham elles, e um bando de
togas, garnachas e roupetas que se serviam do céu
para apanhar dinheiro. Aquella animosidade era a
regra geral, mas toda a regra tem excepção, e na
mouraria era ás vezes recebido com os braços
abertos
o mesteiral; na judearia havia mão que se estendia
ao burguez em prova de amisade sincera, e um ou
outro filho de Israel achava agasalho não chorado na
casa do christão, mesmo quando aquelle não tinha
a
arca cheia de boas dobras; que em tal caso todas as
portas se abriam, desde a do paço régio ou
episcopal
e a do solar do nobre, até á da cella do
reverendo
abbade, e a do leigo, e sobre elles choviam
honras e mercês; como eram prova viva D.
Judas e D. David, duas creaturas, que, fazendo grande
arruido na côrte, jogaram com os destinos do
paiz, como bons ministros de finanças—o nome, o
titulo ainda não estava creado, mas a cousa já
existia—não
se esquecendo de tirar delle todo o succo
possivel. Gonçalo Domingues vivia em boa harmonia
com o arabi, ou arrabi menor, harmonia que o devia
lisongear, pois era até certo ponto uma notabilidade,
como chefe dos judeus da cidade e como
homem de teres, e por isso se resolvera a subir a
encosta, pelo lado do Olival, para fallar em certos
negocios em que desejava servir um seu compadre,
e tractar da compra de porção de gado. O velho
Gonçalo,
forçureiro nos seus principios, reunira o cabedal
bastante para alargar a área do seu commercio:
estendera-o ás carnes-verdes e ensacadas e a pellames
de todo o genero; tornara-se em fim um negociante
de consideração, como um seu collega de
Coimbra, que salvou a patria, emprestando a sua
senhoria, o Mestre de Aviz, alguns punhados de dobras,
serviço que lhe rendeu a doação de
alguns bens
nacionaes e a gloria de ser o tronco de uma nobre
familia. A nobreza de elmo cerrado atira-se aos fidalgos
do seculo XIX, lançando-lhe em rosto o não ser
com a espada que lavrassem os seus escudos; mas
é porque não teem paciencia ou vagar de revolver
os archivos da familia, senão deixaria de atirar
pedra ao telhado dos visinhos, vendo os seus
de vidro: se por tal de vidro os podem considerar.
Deixemos reflexões, porém, e retrogrademos ao bom
tempo, que assim se chama sempre ao tempo passado,
a apanhar o rico burguez e o sobrinho á porta
do Olival.
No campo, que, extra-muros, por aquelles lados
se estendia, ainda se viam alguns individuos,
que, com os olhos postos no rio, pareciam analysar
as galés chegadas; mas era visivel que, de todos os
portuenses, estes, que assim ainda pasmavam, eram os
menos curiosos, os mais indifferentes á lucta travada.
A boa parte, farrapos, que em bom tempo tinham
formado uma aljuba, denunciavam como decendentes de Tarik; a outros
distinguia-os um circulo de
lã amarella pregado nos grosseiros tabardos; o resto
não se distinguia por cousa alguma da roupa, porque
naquelle cerzido de trapos nada se podia distinguir.
Os curiosos, os verdadeiros curiosos tínham,
como vimos, descido á baixa da cidade, e mais crescera
o numero depois que se soubera que nada havia
que receiar das galés, e que Ruy Pereira e os outros
capitães desembarcaram e seguiram processionalmente
para os paços municipaes. Gonçalo Domingues,
intercalando as combinações de seu negocio
com reflexões sobre a descoberta feita dos amores
de seu sobrinho, reflexões que faziam com que
a este mostrasse gesto carregado, e interiormente se
sorrisse, avivando na memoria os seus verdes annos:
medindo de tempos a tempos a altura do
sol, que não eram depois de Ave-Marias seguras
certas paragens, passeava de um para o outro lado
do campo: Fernando acompanhava-o, voltando a todo
o instante a cabeça para Miragaya; procurando
aproximar-se de sitio d'onde podésse ao menos vêr
a casa do mercador; reprehendendo-se por não ter
aproveitado melhor o tempo que passára junto de
Irene, dizendo uma fineza daquellas do livro de cavallerias,
que frei Gumeado lhe deixára lêr;
descoroçoado
por aquelle final, que de certo o rebaixaria
no conceito da linda moça. O sobrinho andava
tão embebido, que nem sentia os pés tocar no
chão, e o campo não era jardim areado; o tio
cançava-se
já de aguardar seu compadre, que não
encontrára
em casa, quando a apparição de um personagem
veio pôr em movimento os frequentadores
do campo: uns deslisaram-se, o mais sorrateiramente
que lhes foi possivel, pela encosta e por entre o
arvoredo, outros perfilaram-se, e levaram as mãos
aos
barretes, os que os tinham, mostrando, comtudo, pelo
gesto, que não era a estima, mas o temor que os levava
a esta delicadesa.
O recem-chegado, personagem lhe chamamos,
e mostrava-o ser de conta entre aquella gente, era
uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha
de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote,
uma fronte um pouco crescida e saliente, complemento
de um rosto ossudo, moreno, em que dous
olhos desesperados com a proeminencia de um nariz,
que se mettia em tudo de permeio, tinham acabado
por enviar as pupillas, cada uma para o seu
lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lábio
superior era adornado por um bigode esfarrapado,
de côr duvidosa, ou de todas as côres
possiveis—preto,
branco, castanho, louro e ruivo—e de egual
mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da
cabeça não desdiziam o resto do corpo e o
vestuario:
trajava um gibão bipartido preto e vermelho, e uma
das longas pernas enfiava-se em uma calça e borzeguim
vermelho, a outra em calça e borzeguim preto;
do pescoço pendia-lhe uma medalha de metal
amarello, com as armas da cidade, da cinta
um grande punhal e uma enorme bolsa de couro,
e na mão sustinha um bastão, terminado por
uma cabeça de metal cinzelada, ao que parecia, por
artista que tomára a delle por modello. Medalha e
bastão apregoavam que Tello Rabaldo era o pae dos
velhacos, cargo que não tem hoje correspondente,
por não tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello
superintendia, governava tão sómente
cidadãos que
em noites serenas teem o docel do leito recamado
de estrellas, jejuam sem devoção, deixam crestar
o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo
frio de Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar
a significação das palavras, se não
era malicia de legislador,
que assim arrebanhava e baptisava alguns
centos de creaturas, para que se persuadissem as de
boa fé que na terra não havia mais, como os
hospitaes de doudos lisongeam muita gente que não
é forçada a não ter lá
moradia. Os velhacos, os verdadeiros,
então, como hoje, não se deixavam governar,
sempre governavam tambem, e havia-os
anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paços
soberbos.
—Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se
aos individuos que tractavam de lhe evitar a presença;
então assim querem fugir a seu pae! Vamos,
venham receber a benção, como bons filhos, e com
a benção uma boa nova. Olá, Pedro
Choca! accrescentou,
depois de honrar com um sorriso a facecia
que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que
se desbarretava; que nenhum dos teus falte depois
de ámanhã na Ribeira. Onde está o
João Bispo?
—João Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias
que desappareceu.
—O velhaco voltaria para o convento farto de
estar deitado de barriga ao sol, ou se metteu outra
vez com a filha do velho Humeia, e está a fazer penitencia
por ter peccado com moura?
—Ou se foi lançar com os scismaticos...
—Para que? Toma conta em ti! Chegou-me
aos ouvidos que te travaste com elle de razões por
umas nonadas, e se me déste cabo do rapaz, em
boa te metteste! Se não me trouxeres em breve novas
delle, a tua pelle m'as dará. A polé do aljube
está nova, e poderá bem comtigo.
Choca resmungou por entre dentes algumas palavras,
e o pae dos velhacos proseguiu:
—Avisa aos compadres para que ou vão comtigo
e mais a sua gente, ou a levem para as tercenas.
Que não falte ninguem! Quero duzentos homens,
bons pulsos...
—Duzentos homens, bem sabe sua mercê que
não podemos reunir. A melhoria da gente levou-a o
senhor conde Gonçalo; o senhor alcaide tem boa
porção,
e se creanças, mulheres e aleijados não servem...
—E esses perros de cabeça amarrada! exclamou
Tello, designando um mouro que a curiosidade
trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma
turma de vádios. Quanto aos aleijados, sei de uma
mésinha que os põe sãos como um pero,
ajuntou,
mostrando o seu bastão; o manco da porta da Sé
que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada)
appellidou os bons homens da sua boa cidade (outra
barretada) para que o ajudassem a dar cabo dos
perros de Castella, e os alvazires dão-vos honra
mettendo-vos
na conta dos bons homens... fazendo-vos
trabalhar. Que ninguem falte, e viva sua senhoria!
—Viva sua senhoria! repetiram os vádios e com
elles Gonçalo Domingues, que se approximára da
roda
formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a um
signal por este dado com a vara, deixando a importante,
incansavel e incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam
hoje, que todos os encargos teem um ou mais adjectivos
annexos, face a face com o burguez, que abria
a bocca para indagar quaes os serviços que o filho
de Thereza Lourenço reclamava dos portuenses.
A interrogação não foi formulada.
Tello Rabaldo,
cheio da sua importancia, fez uma leve saudação,
carregou o barrete sobre um dos olhos em
rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo
tempo que um outro individuo assentava nos hombros
do forçureiro uma grande palmada. Gonçalo
Domingues
voltou-se a vêr quem segundava a amabilidade do marinheiro,
e se não reconheceu logo o seu compadre,
foi porque um abraço de metter costellas dentro
o suffocou. O bom homem vinha lisongeado com a carta
de que Ruy Pereira fôra portador, lisongeado
em extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia
o seu contentamento daquella sorte e em
exclamações,
que fizeram suspeitar ao tio de Fernando,
que não estava em bom arranjo aquella cabeça. D.
João chamava aos portuenses o seu bom povo,
mimoseára-o
além disso com outros epythetos taes como—leal,
esforçado, etc., e o portador, resolvido, apesar
do seu enfado, a ser amavel e popular, pintára a
amisade e reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade
da sua acclamação na cidade da Virgem, com
taes côres, descera da sua dignidade prodigalisando
sorrisos
ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz
Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por
um triz a deixar cahir uma lagrima de commoção.
Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do involucro
grosseiro, o compadre do senhor Gonçalo
Domingos; tão candida que acreditava no desinteresse
do Mestre de Aviz, suppondo que defendia a coroa
para a entregar ao filho de Ignez de Castro; tão
enthusiastica e patriotica que, quando, á força
de lhe
perguntar o marchante se encontrára o arrabi, seccas
as goellas e já sem alento para descrever a
reunião nos
paços municipaes e mais epysodios da embaixada,
se recordou do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi
a mergulhar no oceano, e era provavel não só que,
na judearia estivessem fechadas as ruas, mas até que
se lá fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas
no regresso. Os dous burguezes separaram-se, pois: o
patriota, compadre de Gonçalo Domingues, seguiu pelos
campos em direcção ao povoado de Cedofeita;
est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em
que não entravam nem compras, nem vendas, nem
os direitos que os filhos de Henrique 2.º de Castella
e D. Pedro 1.º de Portugal, podiam ter á
terra que pisava, tomou com elle o caminho de
casa.
As nuvens, que o norte espalhára no ar, como
flocos de algodão, ornadas pelas tintas que formam
a gradação entre o rubro e o amarello vivo, davam
ao céu a apparencia de um marmore, um todo que
em pintura seria inverosimil; os edificios de Villa
Nova e de Gaya cortavam com o perfil o horisonte,
vestindo pouco a pouco uma côr uniforme, o cinzento-escuro.
De um destes edificios, o que mais se
avantajava, do castello de Gaya, as janellas esguias
voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos
de um incendio. De que não era, porém, este
chamejar
mais que um reflexo do sol no occaso, se poderia desenganar
quem, mesmo nunca tendo presenceado este phenomeno,
se nos anticipasse na residencia do tenente
do conde D. Gonçalo, onde uma hora depois lhe
provariamos que a reflexão, ao appresentar Tello
Rabaldo, não fôra de leve feita: velhacos
não eram
só os que não tinham nem leira nem beira.
Em uma das salas que no castello serviam de
apposento ao alcaide, revestida de apainelados de
carvalho, em que a luz do dia, coada pelos miudos
vidros de côr, formando losangos, embaçava, e
embaçava
egualmente a que davam as tochas sustentadas
por braços de ferro, passeava de um para outro
lado um homem de alguma edade já, magro e
de estatura mediana. No peito de uma especie de
camisola de panno de curtas fraldas, cujas mangas,
farpadas nas orlas, pendiam até ao joelho, viam-se
bordadas
a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira;
o mesmo distinctivo se reproduzia em uma
bolsa de couro, que, do lado contrário ao estoque,
acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros
das duas portas, que para a sala davam serventia,
e na manga da jornea de um pagem, creança
de dez annos, que cabeceava com somno a
um canto. O barrete adornava-se com duas pennas
de aguia, presas em fecho de ouro, e os borzeguins
apresentavam uns longos bicos, moda que
um epysodio da guerra travada deixou assignalada
na historia. Encostados, no vão de uma janella,
conversavam, em voz baixa, uma dama e um
individuo que se tornava notavel por usar crescido
o cabello, raro e de côr avermelhada, e por uma
longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto
havia seis individuos, um dos quaes vestia
hábito monastico, e outro se acobertava com uma
velha armadura de malha.
O homem que passeava era Ayres Gonçalves de
Figueiredo; a dama era a esposa deste, D. Catharina;
o individuo, que lhe fazia companhia, o irlandez
Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro
cavalleiros, homens de solar de Entre-Douro-e-Minho,
o capitão de besteiros, Pero Bedoido, e frei
Garcia.
As passadas do alcaide soavam mais alto do que
as poucas palavras que toda aquella gente trocava entre
si, e visivelmente preoccupava-o negocio, que não
era para os outros estranho, a não enganar o modo
porque de tempos a tempos se fitavam e a
meditação
que se seguia. Duas pessoas se subtrahiam á influencia
geral, a castellã e o irlandez: se se calavam
era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava
sobre um escabello, elle para com a vista
percorrer a laçaria e penduróes do tecto.
Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos
tinham um todo mysterioso, que houve por bem quebrar
Ayres Gonçalves.
—Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando
no meio do passeio, como a procurar alvitre que
viesse pôr termo á sua
irresolução, parecer que se
conformasse com o que tinha na mente.
Ninguem respondeu, porém, e o castellão,
lançando
á volta de si um olhar de quem queria lêr
nas physionomias dos hospedes as suas intenções,
proseguiu:
—Sua senhoria quer em volta de si todas as
lanças do reino, e não se lembra, ou
não se quer lembrar
de que fica desguarnecida uma terra tão importante
como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram
voz pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade
aos peões, aos peões, que tracta como a gente de
prol?!
—Em boa confusão vae pondo as cousas! Um
dia, veremos, senão lhes pozer cobro ás ousadias,
vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando
a cabeça com ar sentencioso, um velho fidalgo de
Riba-Tua. Bem altaneiros andam já burguezes e mesteiraes!
—Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamizadas
dos peões, que terão seu cabo. O Mestre precisa
de sustentar a guerra, e lisongea por isso quanto
mercador tem a arca bem provida de boas dobras,
tornezes, gentis, florins e pilartes. Aos do Porto pede
elle agora uma armada, mantimentos e dinheiro.
—Armada que nos levará a vêr o rosto
ás hostes
de Castella; tornou Ayres Gonçalves.
—Se se fizer.
—O povo do Messias de Lisboa a arranjará.
Não viram como os alvazires propozeram logo uma
derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes
de um mez a nado algumas naus e outras se armariam
dos melhores navios do commercio com Flandres?!
Estão inchados com o valimento que lhes dão.
—Por ahi se conhecem os vilões...
—É que dão elles ao Mestre? Grande cousa!
Em campo se verá de que servem, e no campo é que
a contenda tem de se decidir. Irão com béstas,
virotes e azevans fazer frente ás lanças de
Castella?
Lingua teem elles; mas brio é que nem toda
a algaravia desses mestres em leis e clerigos, que o
regedor tomou para seus conselhos, esses falladores
de Pisa e Bolonha, poderá metter nessa gente.
—Mas nella se estriba D. João, disse, meneando
a cabeça, um dos cavalleiros.
—Para elles appella com boas palavras; a nós
manda-nos, não recado, mas ordem! exclamou o
alcaide. É dessas garnachas sahidas do nada que vem
a desconsideração em que nos tem.
—Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick,
recordando-se talvez de quando as hostes
do duque de Lencastre faziam, entre os alliados portuguezes
e os inimigos de Castella, de tudo roupa
de francez.
—Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou
frei Garcia, fazendo uma momice de piedade.
—Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde
estava a força e grandesa do reino e sua.
—E melhor agasalho não nos fazem sempre no
campo do marido da rainha D. Beatriz. Aos de sua
casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre,
que ao menos não era soffrego.
—Com isso perdeu D. João: perdeu-o a altivez.
—E ao Mestre não approveitarão as
mercês rastejadas.
—Elle não precisa de nós, tornou o velho, o
mais desappontado dos hospedes do alcaide, ao que
perecia; faz cavalleiros a seu capricho do primeiro
peão que se lhe antolha.
—Bons cavalleiros! observou, rindo, o mais moço
da reunião. Por lá andam montados em mulas
fazendo rir com os seus ares de importancia. Não
será preciso, para os derribar, erguer clava ou montante:
andam tão mal a geito com arnez e grevas, tão
abafados pelos elmos, os que os teem, que ao primeiro
arranco das azes vão ao chão.
—Em se tractando de lançadas é comnosco que
se haverão, bem o vêdes, disse Ayres de
Sá.
—E ireis, senhor alcaide? interrogou Affonso
Darga.
—Eu, senhores, respondeu Ayres depois de
alguma hesitação, levantei voz pelo Mestre, mas
recebi
o castello do conde D. Gonçalo: obedecerei a
sua senhoria em tudo, mas só abandonarei o castello...
A phrase do alcaide não terminou. D. Catharina,
approximando-se de seu marido, e impondo-lhe
com um relance d'olhos a conveniencia de não proseguir,
atalhou:
—Largos dias tendes para tomar conselho, cavalleiros;
alegrae o sarau com outros contos. Cousas
de tanta importancia não se devem tractar de salto: o
tempo que se leva a pensar em casos taes não é
perdido. Tomai exemplo de D. Gonçalo Telles, ajuntou
mais baixo, dirigindo-se ao esposo.
D. Catharina de Figueiredo era, até certo ponto,
uma dona prudente, como chama um historiador,
por egual conselho fabiano, a Beatriz Gonçalves
de Moura, aia depois da excellente rainha D. Philippa.
O exemplo do conde era um grande exemplo,
pois era de homem que sabia, ou parecia ter de memoria
o
Sic vos non vobis de Virgilio, e
dar-lhe o valor
devido nas cousas do mundo. D. Gonçalo fechara-se
em Coimbra, jogára com sua irmã um
jogo pouco
leal e parecia aguardar que a sorte decidisse qual
dos pretendentes á corôa tinha razão e
direito, ou
força e geito para a segurar na cabeça. O alcaide
approveitou
o conselho e abandonou o thema em que o lançára
o mau humor causado pela mensagem de Ruy Pereira.
Palestra sobre outro assumpto era naquella occasião
difficil de sustentar. Os cavalheiros pouco a
pouco deixaram a sala, e quando só restavam o aventureiro,
Henrique Fafes, o mais moço dos da reunião,
e frei Garcia, indicou este ultimo com o olhar
o pagem quasi adormecido, tirando ao mesmo tempo
da manga uma tira de pergaminho dobrada. Ayres de
Figueiredo, sacudindo com violencia a creança de
quem o reverendo parecia recear a indiscripção, a
poz,
extremunhada, fóra da porta, ordenando-lhe que se
recolhesse, e em seguida percorreu com os olhos o
escripto, que lhe appresentaram.
—O alcaide de Monsaraz veio? disse elle terminando
a leitura e dirigindo-se ao frade.
—Senhor, sim, veio.
—E não desconfiaram de nada?
—Penso que de nada. As galés castelhanas
não
appareceram.
—E de boa fonte houvestes esta proposta?
—Do irmão do arrabi-mór, esse judeu a quem
sua real senhoria acaba de fazer mercê.
—Misser Guilherme, senhor Henrique, disse o alcaide
depois de fitar os dous por um momento, se pouco
caso se faz de nós em Lisboa, no campo dos que
a sitiam teem-nos em apreço. D. João
não é tão soffrego
como o pintavam, e a prova é este pergaminho.
Down-Patrick fez uma visagem e soltou um «oh»
guttural, que expressava a pouca admiração que
lhe
causava o apreço em que o poderiam ter, como certo
dos seus muitos merecimentos.
—Gonçalo Rodrigues vos fallará depois
d'ámanhã
em S. Domingos, disse frei Garcia, attrahindo o alcaide
para junto de uma das portas, a opposta áquella por
onde sahira o pagem. E depois, accrescentando algumas
palavras em voz baixa, sahiu pelo outro lado.
Ayres de Sá, chamando Henrique Fafes e o irlandez,
seguiu-o.
Quando a sala ficou deserta, o reposteiro, junto
do qual frei Garcia fallára com o alcaide de Gaya,
oscillou e appareceu entre elle e a hombreira da porta
um rosto, onde a curiosidade e a malicia se pintavam.
—A mulher tem razão, disse, referindo-se
ás
palavras de D. Catharina, o curioso, depois de ter
o ouvido á escuta por alguns segundos; o tempo que
se gasta em certas cousas não se perde, e eu não
perdi
o meu. Ah! Garifa, minha pobre Garifa! exclamou
em seguida, mudando de expressão e ajuntando
á exclamação um suspiro, de ti
é que não apanho
novas.
IV.
Dous namorados.
... Donde amor se atraviesa
No hay padres reverenciados.
(romances de gazul.)
Fernando, chegando a casa, o melhor predio da
rua dos Pellames, ao toque de Angelus, viu seu tio
devorar com todo o appetite uma grande posta de
carneiro e um tassalho de toucinho, capaz do pôr em
debandada um exercito mahometano, regado tudo com
o summo da uva. Gonçalo Domingues, se dava
descanço
aos dentes, não o dava á
lingua, pois incetou,
ao
benedicite, um sermão,
que, ao
gratias, ainda
não
estava concluido. O velho fallou na creação do
seu
tempo, na obediencia da gente moça á mais idosa
em geral, e em especial áquella de quem se recebe
o pão do corpo e o pão do espirito; discorreu
sobre
as passadas travessuras do sobrinho, e foi cahir na
ultima, terminando pela ameaça de um sevéro
castigo,
em caso de reincidencia. Fernando, ao inverso do
tio, não tocava sequer em uma mealha do pão alvo,
que a criada com um prato de figos passos servira por
mimo, e, com os olhos fixos na toalha, não soltava
uma palavra de desculpa. O bom velho, notando
aquelle extraordinario fastio e sizudez, tomou tudo por
effeito da sua eloquencia, conversão e
compunção do
rapaz, e por um triz esteve, no final, a addicionar
ao sermão um palliativo, tirando o exemplo de casa,
pois que o podia fazer; mas a necessidade da disciplina,
de conservar sempre perante o sobrinho um
todo de soberania, um sobrecenho, que julgava indispensavel,
embora não quadrasse com a affeição
que
lhe tinha, o detiveram. Fernando era, segundo elle,
um estouvado, um leviano como seu pae, do que déra
já provas exuberantes, abandonando, depois dos estudos,
o convento de S. Francisco, então extra-muros, para
onde um outro parente o chamára, a fim de o metter
na estrada do céu e do mundo pela clausura. O que nisto
amofinava mais o forçureiro era a boa
disposição
que mostrava o mancebo para as letras, a intelligencia
desenvolvida, que nos primeiros tempos fizera dizer
a frei Gumeado, grande sabedor para aquellas epochas,
que bem podia vir a aspirar a grandes dignidades
da egreja e do seculo, a ser geral, bispo, ou
chanceller. Todo o rigor, pois, que empregasse era
pouco, e despediu-se do mancebo com toda a solemnidade,
para dizer á cuvilheira que, como por seu
voto e lembrança, lhe levasse ao quarto alguma cousa
de comer.
Se Gonçalo Domingues soubera qual a
attenção
que lhe dava o sobrinho, de certo não fizera semelhante
recommendação. É bem certo que os
annos
trazem, ás vezes, experiencia e algum saber; mas
não é menos certo que á
proporção que vão passando
se esquece muita cousa egualmente: aos sessenta
perde-se a memoria dos vinte, senão das
acções
praticadas, dos pensamentos havidos; um mancebo
póde muito bem avaliar o que não
apreciará, não
conseguirá distinguir um homem a quem o inverno da
vida tenha gelado o coração. A prédica
entrava tanto
na absorpção de Fernando, como entrava a mensagem
do Defensor: as palavras do tio eccoavam-lhe
aos ouvidos como sons vagos, que se não reproduziam
no machinismo regulador chamado intelligencia
e outros nomes, segundo a face por onde é visto,
porque sons diversos o impressionavam. As fallas de
Irene, as inflexões, os mais leves gestos preoccupavam-no:
de uns e outros tirava esperanças agora,
logo motivos de amofinação; traduzia agora
uma phrase,
das poucas obtidas de Irene, por um modo que
o coração trasbordava de alegria, e logo
parecia-lhe
que o timbre de voz, um nada sonhado lhe dava
bem diverso valor; assignalava aquelle dia como
o mais feliz da vida, e recordando-se do desfecho do
colloquio, em seguida; entristecia-se e amaldiçoava o
tio, que o fizera descer do galho da arvore e dos
braços da felicidade. O puxão de orelhas,
sobretudo,
doia-lhe, quando o recordava, mais do que lhe doera
em Miragaya, julgando-se aos olhos da sua namorada
deshonrado... mais que deshonrado, ridiculo. Este
combate entre o desejo e o receio, durou, trazendo
a insomnia, até altas
horas da noite; mas, a final,
venceu
o desejo, e a alegria espelhou-se-lhe no rosto.
Fernando, nas azas da imaginação; voava do
passado
ao futuro, e deste áquelle, amontoando as pedras do
seu castello de felicidade. Deitando-se e apagando a
luz sorria a todos os sonhos creados; sentia como
nova vida a inflar-se no peito, e parecia querer affogar-se
em ar, tanto era o que respirava de momentos
a momentos. Junto com a imagem da linda filha de
João Ramalho toda a natureza era risonha naquella
miragem: as arvores reproduziam-se mais verdes, mais
cheias de perfumes e mais bellas as flores; as aves
nos cantos diziam todas—alegria; o céu transparente
deixava adivinhar além do manto azul uma segunda
vida toda amor. O mancebo vira, bem o podem
acreditar, bastantes vezes o céu, as arvores e as
flores, mas nunca se lhe tinham affigurado assim: como
á estatua de Pygmalião, faltava-lhe o fogo no
peito. A lavareda ateára-se naquelle dia, posto que
incubasse havia muito.
Fernando Vasques amava Irene desde que a vira,
e vira-a nessa edade em que se sente um vacuo
no coração; a si mesmo confessára
já esse amor;
mas definido, claro, só então
rebentára: o vácuo enchera-se,
e a trasbordar, e para o encher talvez o amaldiçoado
puxão de orelhas, a primeira grande contrariedade,
entrasse por muito: «talvez» dizemos, e podiamos
dizer «certamente.» O amor vive de contrariedades,
de luctas, diz um phisiologista; e como um malicioso
accrescentou que por isso só elle nas mulheres
se creava, saibam, acreditem as leitoras que
todo o homem tem no coração o seu tanto ou quanto
de mulher, na mocidade sobretudo, e por isso não
perde. As mulheres lucram menos com o que
recebem
do homem em geral: não as compensamos.
Como diziamos, porém, deixando reflexões, a
correcção
de Gonçalo Domingues, e ainda, se quizerem,
as poucas palavras trocadas entre os dous namorados,
tinham ateado a lavareda no peito do mancebo,
e um dos effeitos della fôra, de fazer acordar
homem quasi quem se deitára creança.
Fernando, no dia seguinte, não era o mesmo
rapaz; o tio notou aquella differença e attribuio-a ao
jejum da vespera, com a mesma prespicacia com que
attribuira a causa delle á sua predica; e para contentar
o rapaz, levou-o de manhã, depois de tractar dos seus
negocios e da politica do dia, a visitar frei Gumeado,
que o costumava regalar, apesar da sua deserção,
com gulodices, em que não tocou dessa vez, e de
tarde, a passeio até aos Carvalhos do monte, que
assim se chamava o local onde o cabeçudo parodiador
do marquez de Pombal no Porto, o corregedor
Almada, edificou um theatro. O effeito destas amabilidades
é facil de adivinhar. O namorado de Irene,
que, voltando com a luz da madrugada á lucta de
esperanças e receios, anceava por occasião de ir
buscar
um desengano nos olhos da donzella, preso assim
todo o dia, revoltou-se interiormente contra a
tutella do tio e desappontou-o com desabrimentos.
O velho pasmou, benzeu-se, e da compaixão, do arrependimento
da aspereza da vespera cahiu com um
mau humor verdadeiro, tomando aquelle procedimento
por
ingratidão,
protestou que a severidade, que
até ahi lhe ficava nos lábios, ia ser posta em
acção,
e como assim se revoltára pelo leve castigo de uma
travessura, elle trataria em primeiro logar de as impedir,
não lhe deixando uma hora para folias, nem
arredar pé da loja de pellames; em segundo, se se
furtasse á sua vigilancia, de passar além do
puxão de
orelhas, dando causa verdadeira a amuos.
No outro dia, um domingo, não se esqueceu do
seu protesto o velho forçureiro, e o desespero do sobrinho
augmentou, tanto quanto augmentava o receio
de perder o amor da linda moça; que, se até
ao dia em que conseguira trocar algumas palavras
com Irene, muitos se passaram em que não descera
a Miragaya, sem que tanto se amofinasse, aquella
meia declaração e o desfecho mudára as
circumstancias:
daquellas em que se encontrava bem
podem fazer ideia as leitoras e os leitores, aos quaes
a memoria ainda conserva vivas as paginas da mocidade.
Depois de jantar,
porém—refeição que se tomava
nessas epochas, mesmo entre aristocratas,
desde as onze ao meio dia, exactamente á hora em
que hoje almoça muita gente—quando Gonçalo
Domingues
executava, dormindo a sesta, uma musica
que se assemelhava a tempestade em chaminé na
combinação de assobios e notas de contrabasso,
appareceu
Luiz Geraldes, o mais respeitavel individuo
da burguezia, a procural-o para irem a S. Domingos,
onde se devia tractar do meio de corresponder
á confiança que o mestre de Aviz
depositára nos bons
cidadãos da terra, assumpto em que o alvitre do
forçureiro era valioso, por se poder traduzir na linguagem
sonora das boas dobras de el-rei D. Pedro;
appareceu Luiz Geraldes e com elle a occasião que
desde madrugada esperava e provocára á sombra de
todos os pretextos. Mestre Gonçalo, pois, a sahir, e
Fernando
a procurar na arca o seu melhor gibão e o
barrete, a alindar-se, e a bater com a porta da rua
na cara da velha creada, que lhe recordava as ordens
dadas pelo tio, avivadas segundos antes, e a trovoada
que sobre elle e sobre ella descarregaria se ou o
encontrasse na rua, ou o não achasse em casa, regressando.
O namorado moço deitou a correr; mas, como
em certo apologo, a pressa foi causa de vagares. Tal
era o estado daquella cabeça que tomou o caminho
seguido por seu tio e o grande amigo do Mestre, e
ao cabo da rua da Bainharia esbarrava com elles se
um encontrão de um homem d'armas o não obrigasse
a uma pausa, e na pausa a um espadeiro, que se
sentava em um desses balcões ou mostradores que
fechavam uma das portas das estreitas e escuras lojas,
conservando nas ruas mais estreitas e não menos
escuras os freguezes, não ouvisse dizer para um
visinho que deitava a cabeça por uma adufa:
—Lá vae em cata de mestre Gonçalo, que dobrou
agora mesmo para o terreiro, o sobrinho... o
filho de Vasco, que Deus haja.
Fernando, quiz retroceder; porém, como o bom
do espadeiro lhe gritasse que perto ia Gonçalo Domingues,
se o procurava, não teve remedio senão
responder que ia a recado para as Aldas, e enfiar
pelo arco de Sant'Anna, tomar caminho pelo lado da
judearia e descer aos Banhos, onde lhe tolheu o passo
o personagem que no capitulo antecedente vimos
no castello de Gaya, surdir por entre o reposteiro.
—Vindes de S. Domingos? interrogou elle, pondo-se
diante do mancebo.
—Oh! és tu João Bispo! exclamou Fernando,
depois de examinar o rosto do individuo, assombrado
por um farto capuz. Ha muitos dias que te não vejo.
—É verdade, redarguiu o recem-chegado, dando
pelo nome, que ouvimos já da bocca do pae dos velhacos.
É verdade, repetiu; e á palavra ajuntou um
profundo suspiro.
—Que tens, tu? Estás tão triste como quando
nos tinham no convento.
—D'onde nunca devêra ter sahido! tornou João,
soltando outro suspiro.
—Bem mudado estás, meu folião, ou é
isso momice
nova?
—Antes fôra, Fernando! antes fôra! mas finaram-se
as alegrias.
—Mas, ao que parece, a vida não te vae peor.
Gibão novo de barregana... boa adaga! disse o mancebo,
medindo-o de alto a baixo.
—Vesti isto; mas embrulhade em almafega
respirava
melhor: o saio e as calças riam-se por todas as
costuras, mas eu tambem ria, e agora bem vedes....
—Vejo que estás sizudo como eremitão, ou
mestre em leis, é verdade... Mas onde assim te
pozeram? d'onde vens?
—Do castello.
—Do castello? Tomaste lá moradia e serviço?
—Ou cousa parecida... que não se pode assim
dizer de praça...
—Segredo! Ora vejam João Bispo feito escrivão
da puridade do alcaide! exclamou o mancebo, sorrindo
e dando alguns passos para seguir seu caminho.
João segurou-o por um dos braços, e encolhendo
os hombros respondeu á zombaria:
—Mofai, que a vez a todos chega. Algum dia haveis
de querer bem a alguem....
—E por isso te amofinas, quando não tens quem
te empeça de a vêr a todo o momento! redarguiu
Fernando, que se não recordou naquelle instante de
outro contratempo em amores, senão do que com elle
se dava.
—Vêl-a!... vêl-a! exclamou, tornando a suspirar o
vadio. Oh! minha pobre Garifa!
—Garifa, repetiu Fernando; Garifa... ora espera...
Garifa não era aquella rapariga moura que
vinha ao terreiro vender fructa?
João Bispo fez com a cabeça um aceno affirmativo.
—Uma rapariga sempre alegre, que na
procissão
de
Corpus tangia pandeiro e
dançava com tanta
desenvoltura, trazendo o vestido cheio de cascaveis?
—Sim.
—Que tão bem cantava umas cantigas castelhanas?
—Sim.
—Pois bonita era... pena que fosse moura! E
tu, João...
—Eu quero-lhe, quero-lhe como se em noite de
S. João me fizessem feitiço...
—E feitiço foi de certo; porque uma moura...
—Não sei se é grande peccado o querer-lhe
bem; mas cá para mim tenho que não. Ella
é moura,
é; mas...
—É por isso que tão magoado te vejo? Querial-a
christã, e casavas.
—Não é, não; é porque m'a
roubaram!
—Roubaram-ta?
—Roubaram. Ha uma semana, no sabbado,
estava eu na encosta do Olival, ao pé do regato,
á espera
della, e eis que vejo o pae, o velho Humeia, vir
direito a mim. O pobre homem chorava como uma
creança; as lagrimas eram como punhos pela cara
abaixo e os soluços pareciam affogál-o; cortava o
coração!
disse João Bispo, limpando com a manga do
gibão os olhos, sensibilisado ou pela
recordação da
scena, que narrava, ou pela desapparição de
Garifa.
O velho proseguiu, quando pôde começar a fallar, a
pedir-me a filha, dizendo que lh'a entregasse; que bem
tinha visto andar-lhe no seguimento, e na vespera
a encontrára ainda alli mesmo a fallar commigo.
Olha, Fernando, fiquei como quando me vieram dizer
que meu pae—Deus o tenha—era finado, e jurei
áquelle pobre homem que não fôra eu que
lhe tirára
a filha... e commigo pela hostia consagrada jurei
tambem descobrir-lhe a rapariga. O velho acreditou-me,
e disse-me cousas, que não poderei repetir;
que não sei bem o que foram; mas que pelo modo
de as dizer me deram um nó na garganta: parecia
que tinha engolido uma maçã inteira. Procurei
Garifa.
Dous homens foram vistos a passar o rio nessa
noite com uma mulher, me disse um petintal, e corri
tudo em Gaya; alistei-me no troço de Pero Bedoido,
para ter occasião de esquadrinhar todos os cantos do
castello; mas vêl-a... vêl-a... ainda a
não vi! Desconfio,
porém, que lá esteja, e se lá estiver,
ai do
rausador! Olhai, elles deram-me esta adaga, e eu trago-a
bem afiada, os ouvidos attentos e os olhos abertos!
João Bispo, ao soltar estas ultimas palavras,
baixou a voz e um veo sinistro lhe assombrou a fronte;
por alguns instantes permaneceu calado, e proseguiu
depois, vendo que o sobrinho de Gonçalo Domingues
parecia atterrado com semelhante confidencia:
—A alegria não póde durar sempre. Desde que,
morto meu pae, que por força me queria vêr
tonsurado,
fiz uma reverencia ao guardião, dei um cascudo
no porteiro e me fiz velhaco, visto que no convento
não apprendi officio e de sujeição
estava farto,
bem vestido, mal vestido, mais trapo, menos trapo,
barriga mais cheia ou menos, tinha quasi todo o
santo dia os dentes á amostra; agora veio um revez...
—Não és só tu, João, que
os tens; eu...
—Que lhe fizeram, atalhou o vadio; diga, que
eu dou uma ensinadella, e...
—É negocio em que nada podes. Não sabes,
João, disse o mancebo, pondo a mão no hombro do
seu antigo companheiro, e chegando-lhe a bocca perto
do ouvido, como em segredo; não sabes... eu
tambem quero a uma rapariga como ás meninas dos
meus olhos. Oh! é mais bonita que a tua!
—É, disse João Bispo, com um meio sorriso.
—Muito mais; porém, meu tio, tenho eu para
mim...
—Não quer?
—Parece-me que não.
—É pobre?
—Pobre!... repetiu Fernando Vasques, encolhendo
os hombros.
—Mestre Gonçalo Domingues é rico, e...
O namorado de Irene, ouvindo o nome do tio,
lançou em torno de si os olhos, como se receiasse
que alli apparecesse; lembrou-se que passava o tempo
e elle podia, de volta a casa, não o encontrar,
se fosse grande a demora; recordou a causa do seu
passeio, e fazendo um gesto de despedida, deu alguns
passos em direcção á porta da cidade.
—Se fôr necessario o antigo companheiro das
folias, não o poupeis. Os meus trapos nunca vos fizeram
voltar o rosto, quando nos encontramos, e hei
de mostrar que não tendes feito mal, Fernando, disse o
ex-noviço, estendendo ao mancebo um pulso que não
era fraco. Ah! exclamou em seguida; não vindes
do lado de S. Domingos?
—Não.
—Nem pelo caminho vistes o alcaide de Gaya?
—Não.
—E que tens a vêr com o senhor alcaide, meu
velhaco? disse uma voz, que logo João Bispo reconheceu
por ser de Tello Rabaldo.
—Ah! sois vós! murmurou o interpellado, visivelmente
contrariado por aquella apparição, em
quanto Fernando deitava a correr pela rua abaixo.
—Vosso servo, tornou o pae dos velhacos, tirando
com ar zombeteiro o seu barrete e segurando
pelo capuz a João Bispo. O fidalgo de certo que
só
com fidalgos tem tracto e por elles procura; porém
como está em behetria, para não haver
desaguisado,
pondo-o fóra, dou-lhe companhia mais chã; mas que
lhe fará bom agasalho. Vamos! exclamou mudando
de tom; para as tercenas já!
—Senhor Tello, porém...
—Vais seccar a goella sem proveito.
—Senhor Tello, quizera fallar a Ruy Pereira.
—Agora é com Ruy Pereira! Grandes são os
negocios! Bravo! continuou o pae dos velhacos, medindo
João Bispo de cima abaixo, como minutos antes
fizera o sobrinho de Gonçalo Domingues, e como
elle admirando a mudança que na roupa havia; bravo!
Parece que vamos ter contas graves a ajustar!
Cortaste bolsa, ou arrombaste a porta a mercador ou
algibebe para vires assim garrido?
—Sou bésteiro do rei.
—Bésteiro do rei desde quando, velhaco? desde
que fugiste com a filha do velho Humeia?
—Está excommungado! crédo! gritou uma velha
do pequeno ajuntamento que se fizera á volta
dos dous interlocutores. Ter contractos com aquella
condemnada moura, aquella...!
A mulher disse nome que lhe valeu de João
Bispo um murro, que levava a força proporcional á
raiva que lhe causára a abelhuda comadre, insultando
Garifa.
—Olhem o maldito! gritaram duas companheiras
da aggredida. Onde está a justiça? Que faz o
senhor bispo que o não manda açoutar bem
açoutado?
E attreve-se em rosto do senhor Tello...
—Calem a bocca, serpentes! berrou o pae dos
velhacos, fazendo um gesto e meneando o seu bastão.
—Serpentes? grunhiu a velha, segurando com
a mão os dentes que o socco pozera em vesperas de
despedida.
—Serpentes? pipilou uma das novas,
esganiçando-se.
—Serpentes? resmungou a outra, ferrando os
pulsos nas ancas.
—Serpentes! gritaram, grunhiram e pipitaram
entre gargalhadas e em todos os tons os garotos que
já embaraçavam o transito.
Tello Rabaldo viu a sua dignidade compromettida,
o que não poucas vezes acontecia, e tractou de
a salvar pelos meios usados ainda hoje em embaraços—pela
força; e como á mão não
tivesse se não a
sua, foi dessa que se serviu. Segurando sempre o
namorado da moura pela extremidade do capirote,
fez rodizo com o seu bastão; tomando-o pela parte
superior, e uma escala salteada de «ais» e
«uis» sahiu
dentre a roda de curiosos e curiosas, que augmentava.
—O senhor alcaide! Ahi vem Ayres Gonçalves!
gritaram duas vozes quasi ao mesmo tempo.
—Tolhido sejas tu, maldito! resmungou João
Bispo, lançado em apuros com semelhante
apparição.
—Senhor Pero! senhor Pero Bedoido! berrou o
pae dos velhacos, para o capitão de bésteiros,
que, seguindo
o alcaide de Gaya, se dispunha a embarcar
para o castello, e desepparecia por um
dos postigos.
—Já nada faço, disse comsigo o
ex-noviço deitando
o olho a vêr se o capitão accudia ao chamamento.
A pelle corre-me agora grande risco, se
desconfiam de mim. Com a bocca no pixel não os
apanho já!
—Olé, senhor Pero! sua mercê não me
diz se
este velhaco tomou serviço? proseguiu Tello, querendo
arrastar comsigo João Bispo, mais talvez para á
sombra
do capitão dos bésteiros se fazer acatar, do que
pela curiosidade de saber se o namorado de Garifa
lhe mentira, ao que estava bastante affeito, para regular
a sua justiça pelo humor em que o apanhavam e
não por depoimentos e confissões. Em materia de
confissões
dava fé ás feitas em potro, ou de borzeguins,
quando estava de boa feição, e felizmente
não
era isto raro.
—Grande velhaco! continuou, dirigindo a palavra
ao seu prisioneiro; ainda ha pouco não tinhas
que dizer a todos os fidalgos? Mais depressa se pilha
um mentiroso do que um côxo.
Pero Bedoido, ouvindo a voz do pae dos velhacos,
parára junto do postigo, que dava sobre a
margem do rio, e retorcendo o bigode piscava os
olhos para concentrar os raios visuaes afim de melhor
reconhecer quem o chamava. Ayres de Figueiredo parára
igualmente.
Quem não deve não teme. João Bispo
sentia
os seus arripios pelos lombos, porque um pensamento,
que o leitor experto, e que de certo se
recorda do dialogo apanhado atraz do reposteiro, adivinhará,
o punha, na consciencia, em hostilidade com
o nobre alcaide, e se na presença delle Tello Rabaldo
de novo se referisse á entrevista que pretendia ter
com o tio de Nuno Alvares, a vida corria-lhe grave
risco. João não tinha, porém, cursado
em vão os estudos
em S. Francisco e a eschola pratica de velhacarias
dos terreiros, praças e bitesgas da cidade da Virgem, para
não achar um expediente bom ou mau com que se
sahisse de apuros, momentaneamente que fosse. Tello
segurava-o, tendo-o quasi esganado pela extremidade
do capirote, e o cabeção deste fechava no peito e
garganta por meio de quatro grossos botões. Desabotoado
estava livre.
—Senhor Tello, senhor D. Tello?! murmurou o
rapaz, levando as mãos já aos botões,
e esgotando
no submisso, no plangente da voz, e naquelle «dom»,
o ultimo recurso oratorio.
—Ah! perro, velhaco! Eu te...
O pae dos velhacos não concluiu a phrase: um
cascudo que preparava como paga da nobilitação
dada
ao seu nome, deu-o no ar, e com o costado no
mesmo momento apalpou o chão, depois de abalroar
com as canellas de alguns curiosos.
Um côro formado de um unisono de
gargalhadas
e de gritos ensurdeceu os visinhos que enchiam
as janellas e atulhavam as portas. As gargalhadas provocara-as
o desastre de Tello; os gritos soltaram-nos os
que abriam caminho a João Bispo. O amante de Garifa
deixando o capirote na mão do pae dos velhacos,
que perdera o equilibrio, mettera mãos á adaga
e corria na direcção da Ferraria.
Ao passar em frente do postigo um acontiado da
behetria tomou um virote para lhe embargar o passo.
Ayres Gonçalves, ao mesmo tempo que Pero Bedoido,
reconhecendo no fugitivo um dos seus homens,
lhe sustava o arremesso, gritou em voz bem alta para
chegar aos ouvidos de João:
—Perro, villão, se tocas n'um dos meus homens!...
E a mão do fidalgo pousou como complemento
de phrase no punho do estoque.
O acontiado fez uma careta de despeito, baixou
o virote, e quando o fidalgo voltou costas, deu com
elle com uma força tal d'encontro á parede, que o
fez voar em hastilhas, resmungando:
—Perros e villões... perros e villões! A nossa
vez ha de chegar, traidores, scismaticos!
V.
Irene.