Ma son, mentre ella piange, i suoi lamenti
Rotti da un chiaro suon oh'a lei ne viene...

tasso. Ger. lib. cant. VII.


E a linda Irene, a filha de João Ramalho?

Irene, das primeiras fallas trocadas com Fernando, colheu um resultado quasi igual ao que este obtivera. A impressão primeira foi a da alegria. Deslembrada da apparição de mestre Gonçalo, quando foi ao encontro da cuvilheira, que a chamára, a physionomia illuminára-se, reproduzindo toda a felicidade que lá ia por dentro naquelle coração. Á pergunta que lhe fizeram, mas não ouviu, respondeu com um abraço na velha, que, mal affeita, pela sua rabuje, a taes carinhos, abriu grandes olhos, e o espanto desta subiu ainda, levando-a a benzer-se, quando viu que, sem lhe prestar attenção, a moça começou a entoar uma copla de amores, desses cavalheirescos amores da epocha. Aquella alma de virgem saudava o enfloramento da nobre paixão que no seio lhe germinára, e a velha, como Gonçalo Domingues a respeito de Fernando, nem se quer pensou que nessa exaltação entrasse por alguma cousa o mancebo, de quem já havia notado os passeios em frente da casa—o que a levára a fazer-lhe carrancas de sobrecenho capazes de affugentar qualquer outro que não fosse um namorado.

—A menina Irene namorar! a menina que depois da morte da nossa ama tenho creado com todos os cuidados?! pensava ella com os seus botões, quando lhe vinham desconfianças, ou as visinhas, pela sésta, no cavaco quotidiano que tinha depois de arranjados prateis, agomias, sartã, pucaros e mais aprestes de cosinha, notavam o volver d'olhos de um ou outro alindado da terra.

A tia Genoveva tinha de si para si que o coração de Irene se abriria só quando ella, ou o senhor João Ramalho muito bem quizessem.

As tias Genovevas ainda hoje não são raras.

A linda moça, quando a deixou a cuvilheira, insensivelmente começou a reflectir nas palavras de Fernando, e pouco a pouco no semblante e no coração começou a tristeza a vencer. A pobre não sabia que o amor se não traduz bem em palavras, e esmorecera pensando que podia não ser amada, ao passo que bem sentia definir-se-lhe no seio a paixão; e quando, noite cabida, a velha trouxe para o quarto de trabalho um velador do qual pendia um graúdo candil, não respondeu ás «boas noites» dadas, possuida de sentimento bem diverso do que horas antes a distrahira. Ainda mais: a tia Genoveva, ao espiar a roca e terminar a ultima ave-maria da coroa que todas as noites rezava á Senhora da Silva, para a ter por sua intercessora; a tia Genoveva notou uma lagrima a balouçar-se nas cilias da linda joven, como aljofre matutino nos estames de uma flor.

—Porque chora, menina? perguntou a velha criada tomando-lhe o rosto entre as mãos, para melhor se certificar de que não era illusão sua aquelle pranto.

—Chorar... eu? murmurou Irene, limpando os olhos.

—Sim, a menina. Então não veem o espanto que faz?

—É que eu não choro... Porque havia de chorar?

—Porque? Ora sei eu o porque?

—Nem eu...

—Credo! Anjo bento da minha guarda! Feitiço por certo lhe fizeram! De tarde a rir e a cantar como uma louquinha, e a fazer-me momices carendeiras; agora a choramingar sem que nem para que! É quebranto, menina... é feitiçaria; e bem fará em pôr esta noite debaixo da almadraquexa um ramo de arruda.

A velha atinava: que maior feitiçaria que a do amor não póde haver. Só elle tem o privilegio de dar a uma palavra ecco que, por vezes, dura até com elle se casar já bem fraco o das ultimas preces: de perpetuar uma imagem ante os olhos até que os cerre o frio osculo da morte.

Pranto e risos, succedendo-se rápidamente sem explicação para quem os vê, sem explicação mesmo para quem os sente humedecer as faces, ou descerrar os lábios, são em geral o resultado vulgar do toque da vara do grande feiticeiro: emquanto o feitiço conserva toda a força, o pranto é como os chuveiros de Maio, que veem como para fazer ressaltar o sol que lhes succede, ou como os orvalhos de Junho, que refrigeram as flores; quando o feiticeiro se ausenta, o riso é como o luar em noites de Fevereiro, quando tudo é silencio: contrista como elle,· traz melancholia. As lagrimas da linda filha de João Ramalho eram chuveiros de Maio. Correndo á vontade sobre o travesseiro, em que não pozera a arruda, não lhe imprimiam nas faces a aridez; regavam, permitta-se mais esta imagem entre tantas, o amor que, como no sobrinho de Gonçalo Domingues, repetimos, se definira naquella tarde.

O amor na juventude, no sexo que chamamos fragil, porque nós, que nos dobramos a todo o momento a seus pés, lhe esmigalhamos o coração em um circulo de ferro chamado positivismo, realidade e conveniencia, quasi sempre nasce entre lagrimas, lagrimas das que chorava Irene quando repetia baixinho, comsigo, o nome de Fernando; lagrimas que rebentam espaçadas, se demoram nas palpebras, e descem lentas pelo rosto.

No outro dia muitas vezes correu a moça namorada á janella da praia, muitas á que dava para o lado do monte, e impacientou-se e entristeceu-se quando viu cahir a tarde sem apparecer o sobrinho do forçureiro; no domingo, durante a missa do dia, na velha igreja de S. Pedro, fez cochichar umas poucas de comadres, que lhe ficavam na rectaguarda, tantas foram as vezes que voltou, durante o officio, a cabeça para o lado da porta, e ainda mais se impacientou e entristeceu quando, feitas ante todas as imagens as estações que eram da devoção da senhora Genoveva, regressou a casa sem vêr uma sombra rastejando ao lado della (que olhar face a face, de perto, para Fernando, nunca a gentil menina olhara) sem ouvir certas passadas, que distinguia de todas as outras e lhe causavam uma impressão nervosa agradavel.

Neste descontentamento, sentada na varanda, que tentamos já descrever, prestava attenção a todos os ruidos, quando a velha criada com quem João Ramalho havia conferenciado depois de jantar, arrastando um tamborete de pau e umas contas com que se entretinha todas as vezes que não trabalhava ou dava á lingua, lhe veio fazer companhia. Genoveva engorolou um pater e tossiu; engorolou outro pater e tossiu outra vez; terceiro pater a meio e mais prolongada foi a tosse, e, ao findar, a esta juntou um arrastar de tamborete e um suspiro. Era evidente que rebentava por fallar; porém a sua joven ama estava bastante distrahida para notar todos aquelles preparativos oratorios. A velha ainda se resignou a fazer passar mais algumas contas, a mudar o tamborete da direita para a esquerda e a passar na tosse do piano ao forte, do moderato ao vivace e até á furia; mas vendo que era trabalho perdido, pousou o rosario, puchou a touca, crusou os braços sobre a barriga e exclamou:

—A menina que tem?

—Nada, respondeu Irene, olhando pela abertura da zelozia para o céu, que mostrava um azul soberbo.

—Nada! Então eu estou cega; ha dias que não sei o que tem... anda triste!...

—Triste? atalhou Irene, com um desses sorrisos, que se denunciam como contrafeitos. Ainda esta manhã me disse que andava com a cabeça no ar, e achou que ria como louca... não sei quando...

—Sim, sim: veja se me engana com esses risinhos sêccos, menina. Por mais que faça não me faz acreditar que não está magoada. Eu desconfio que...

—De que? interrogou Irene, fazendo-se vermelha, julgando ser do sentimento dominante no seu coração que lhe iam fallar.

—Nada, nada. O senhor seu pae não lhe fallou... não lhe deu a entender...

—Meu pae, tornou a joven sobresaltada, não me disse cousa alguma...

—É que... pensei...

—O que, Genoveva? Que tinha meu pae a dizer-me?

—Nada, nada; respondeu a velha, recomeçando de novo o rozario.

—Não, alguma cousa era! Diga, diga, Genoveva; meu pae está de mal commigo?

—De mal! elle que não vê outra cousa, que a traz nas palminhas das mãos, apesar daquelle modo assim de poucas palavras?! Se se amofina é...

—Acabe! supplicou a joven.

—Triste já está a menina; para que a entristecer mais? disse a criada mastigando. —Não me quer entristecer mais? Pois que ha? exclamou a filha de João Ramalho, erguendo-se com a anciedade pintada no rosto.

—É... nada, nada, redarguiu a velha. E baixo accrescentou, tornando a carregar a roca:—Cala-te, bocca. Ora, não ia eu já dizer tudo?

O áparte da cuvilheira, por uma mania que tinha de sempre dar á lingua para que a ouvissem, pareceu-se com todos os ápartes do theatro, e mais anciosa ficou Irene.

—Jesus, Genoveva! Succedeu alguma cousa?

—Nada: é que...

—Acabe por uma vez.

—Como tem de ser... porém, olhe, triste já a menina está, e quanto mais tarde...

—Está a fazer-me mal, minha boa Genoveva! exclamou Irene, juntando e erguendo as mãos em acção de supplica.

—Ora vejam! mal é que eu lhe não queria fazer; mas visto que teima... sempre lhe digo: seu pae embarca por estes dias.

—Embarca... disse a joven tornando a sentar-se. Julguei que fosse outra cousa. Não estou já affeita a vêr partir meu pae, todos os annos, uma, duas e tres vezes para essas terras de Christo? Se podésse fazer com que não andasse sobre aguas do mar, exposto; porém...

—Ao mar, atalhou Genoveva, já o senhor João Ramalho está affeito. Parece que tem todos os santos e santas por elle... e merece-o, que não ha tempestade que mal lhe faça; e mais dizem que são bem más as da Inglaterra e Flandres! Mas não é agora só o mar...

—Então que mais é, Genoveva?

—É... que... que volta a Lisboa... e...

—Jesus! agora... que anda a guerra por lá!...

—Deus ha de querer que nenhum mal lhe venha, e eu hei-de recommendal-o muito á Senhora da Silva e á Senhora do Amparo, as duas santas de mais valimento que ha no céo... de maiores milagres pelo menos... ao Senhor S. Pedro, advogado da gente do mar, e ás almas milagrosas! redarguiu a senhora Genoveva, fazendo uma especie de mesura a cada nome dos beatos patronos que proferia.

—Bem me dizia o coração que destas náus e galés chegadas me viria mal, disse Irene recordando-se naquelle instante das palavras de Fernando.

—Mal... mal? Tenha fé em Deus, que é grande peccado descoroçoar assim. O senhor João Ramalho, seu pae, se anda cuidadoso é por si, menina Irene: como está já uma moça... eu cá me entendo... quer deixal-a bem amparada, em logar seguro; que nestes tempos revoltos, e nos que o não são, todo o cuidado é pouco. Como não vae lobo a redil nem raposa a gallinheiro senão quando acha a porta mal cerrada e não ha mastins para açular, queria deixal-a em abrigo seguro, e lembrou-se de um convento. Já dei recado para uma prima, que tenho, sergente em Entre-Rios, a vêr como poderei ir fazer companhia á menina...

—Então, Genoveva, vamos para tão longe! exclamou a linda moça com voz magoada.

—Ainda não é de certo. É precisa licença do senhor D. João Affonso, e não sei que outras requestas... e como não é para já o caso... por estes dias...

—Genoveva! Genoveva! gritou do andar terreo o senhor João Ramalho, fazendo estacar a falladora cuvilheira, que incetando um Padre-nosso em um tom de voz que, sem offensa da boa da beata, se podia comparar ao rosnar de um cão, desceu as escadas.

—Virgem santa, valei-me! murmurou a joven fechando uma na outra as mãos, brancas e delicadas, e deixando sobre o seio pender o rosto, que não desfeiavam os assomos de tristeza.

Irene assim permaneceu longo tempo, e quando ergueu os olhos orlava-lhe as palpebras uma côr mais rosada que de costume, e as lagrimas borbulhavam mais intensas do que as trazidas pela desconfiança de que Fernando Vasques não correspondesse ao affecto por ella consagrado. Eram mais intensas, porque junto com as arrancadas pelo amor filial—pois bemqueria a joven a seu pae, com um extremo inexplicavel, attenta a rudesa apparente do piloto, se é que uma força occulta a não fazia corresponder ao sentimento por elle votado ao unico ente que na terra lhe restava, á imagem de uma esposa adorada com o fogo que empregam essas almas reconcentradas, os homens que jogam a vida sobre o mais terrivel dos elementos, e passam dias e noites seguidas a soletrar no livro da natureza a pagina do infinito, em circulo fachado por céo e mar;—junto com as saudades e receios por seu pae, se ligavam penas avultadas pela sua imaginação, suppondo-se já separada, longe de Fernando, clausurada para a vida talvez; que no amor tudo é coado por um prisma que engrandece e multiplica os objectos.

Ás lagrimas do travesso moço succedera a resolução: Fernando fizera-se homem; ás lagrimas de Irene succedia o anniquilamento: póde-se dizer tambem que se fizera mulher a pobre menina porque: a coroa do seu sexo é formada por essas perolas nascidas no coração, perolas que resgatam a propria culpa e a alheia. Para o resgate da humanidade Deus, tornado homem, deu o seu sangue; para completar essa regeneração, para abrir ás mulheres as portas da vida, inflar-lhe no seio uma alma, verteu lagrimas uma virgem.

Irene chorava pela segunda vez, depois que se apoderára do seu coração a imagem de Fernando, quando lhe veio ferir os ouvidos um som distante e confuso; confuso porque era grande o arruido que petintaes, espadeleiros e galeotes faziam na praia, sanctificando o dia do descanço com libações frequentes de verde e maduro, cidra e outras bebidas. Era o som de um toque de caça, assobiado por um valente folego. A moça estremeceu, quando se lhe afigurou reconhecel-o; estremeceu e a alegria repelliu naquella fronte as nuvens de tristeza com tanta ou mais rapidez de que nos leva a dar uma ideia dessa mudança. Ergueu-se e correu ao extremo da varanda, encostou á adufa o ouvido attento a linda namorada; mas calára-se a marcha, e os berros da chusma iam em um rinforzando prodigioso. Alguns minutos de anciedade assim passou, com o seio a arfar, os lábios meio-abertos, deixando vêr uma enfiada de dentes alvos como o fructo das camarinhas, com os olhos brilhantes, fixos, até que com novo sibilo rompeu um grito da joven, um grito de alegria, e deixando a varanda subiu a assomar a cabeça por aquella historiada janella das flores, onde com ella travamos conhecimento.

A cabeça appareceu e desappareceu logo.

Irene soltou outro grito, porque os seus olhos encontraram os de seu pae, irados, em vez de outros que de certo procurava carinhosos.

Junto com o sibilo, com os gritos, com o bater das adufas da varanda e portadas da janella—junto, se póde dizer, tal foi a rapidez da successão—ouviu-se um grande fragor.

A arvore do cercado oscillára e o muro da quelha fôra a terra.

A filha de João Ramalho deixou-se cahir no estrado em que costumava costurar; o piloto soltou uma praga, e a cabeça da tia Genoveva, que da cosinha presenceára parte desta scena, appareceu de bocca aberta no quarto da donzella, persignando-se e abanando a cabeça como um manequim, pintando em toda esta gesticulação o seu pasmo, e terminando por entre dentes com esta phrase, que havia de ser, como já fôra, repetida milhares de vezes:

—Ora fiem-se lá nas innocencias deste tempo! O mundo vai perdido!



VI.

Causa publica e cousas particulares.



A nenhu era ouvida rezão, nem escuza, que por sua parte dar quizesse, mas como hum falava dizendo: que fohão he delles; não havia cousa que lhe desse vida, nem justiça que o livrasse das suas mãos: e isto era especialmente contra os melhores e mais honrados, que havia nos logares, dos quaes muitos foram postos em grande cajão de morte...

fernão lopes.—Chronic.


Em quanto Irene soluçava, Tello Rabaldo vociferava, sacudindo a poeira do gibão, e João Bispo evitava na rêde de bêccos e escadas do bairro a sanha do bésteiro e de alguns mesteiraes, que o suppunham réo de crime grave, ou queriam nelle desacatar o alcaide, que viam, como a grande parte dos nobres, com maus olhos, no terreiro de S. Domingos havia grande ajuntamento de povo, e na portaria do convento e claustro da igreja se reuniam os homens bons da cidade, burguezes e cavalleiros; que a ordenação de D. Diniz era desattendida durante aquelles transtornos, como o tinha sido por vezes, e depois havia de ser.

Ruy Pereira e a edilidade portuense combinavam os meios, já o sabemos por via de Luiz Giraldes, de corresponder ao appello do Mestre, e corriam as cousas ás mil maravilhas. Affonso Eannes Pateiro e Alvaro da Veiga, bastante compromettidos com a acclamação do novo governo, juntamente com o rico mercador que fôra despertar Gonçalo Domingues sopravam em pequenos conciliabulos o enthusiasmo de amigos e conhecidos, e não perdiam o tempo. Os periodos mais ou menos bombasticos, mais ou menos curtos, tinham, depois de um ou outro commento, como ponto, a deslocação de dous ou tres individuos, que se dirigiam a uma mesa cercada de tamboretes e cadeiras, onde dous homens vestidos de negro, um redondo, de nariz globuloso e vermelho, outro côr de pergaminho e de feições angulares, se viam ao par de alguns vereadores, afagando este com a rama da penna os lábios ressecidos, abanando-se aquelle com um caderno de papel. Um dos patriotas segredava tres palavras ou quatro ao ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras tantas; os homens negros traçavam algumas letras e algarismos, que liam em voz alta, e de tudo isto sahia, póde-se dizer, a Milheira, a Estrella e a Sangrenta, o levantamento do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e—quem sabe?—a salvação e civilisação da Europa. Se julgam paradoxal a ultima parte, provem como sem os donativos daquelles bons homens se accudiria ao Mestre; se este não se veria obrigado a tornar real o fingido embarque para Inglaterra; se, simples João Pires, casaria com a exemplar filha de João de Ghaunt; se haveria quem formasse um viveiro de navegantes tão destemidos, arrojados, para devassar a costa d'Africa e penetrar na Asia pelo Oceano, como o infante D. Henrique; como sem o córte dado naquellas paragens ao poder ottomano, se lhe sustaria a carreira victoriosa dos seus estandartes, que chegaram a tremular junto dos muros de Vienna, na costa da Italia, na Hungria e na Bohemia, que pendiam bafejados pelas tépidas aragens de Aldjesireh, da Arabia, e açoutavam os ares impellidos pelos ventos gelados na Polonia, se espalhavam nas aguas do Mediterraneo, no mar-Negro, no golfo Persico e no Oceano, e acobertavam os recebedores de pareas até ao Dekan.

Se algumas circumstancias concorreram tambem para este gigante resultado foram as narradas nos antecedentes capitulos, desde as dos namoros de Irene com Fernando e de Garifa com João Bispo, até á daquelle virote quebrado.

Não cuidem que um escriptor consciencioso escreva uma linha só com o fim de encher papel; que invente um episodio por seu alto recreio: tudo aqui vem a pello desde o mais somenos facto ao de mais vulto, e os leitores phylosophos, que esquadrinham os fins moraes, procuram o succo de todo o livro e folheto, farejam uma ideia em cada letra impressa, acharão neste romance demonstrações de que grandes successos, que pasmam do mundo, são como os nevões: um floco de neve, que rola do cimo dos Alpes, ao chegar ás fraldas destroe casas e plantios; uns bigodes cortados em 1152, ainda no seculo em que viviam estes nossos heroes, destruia cidades, assim como as bagatellas acima apontadas salvavam este canto da terra de ser hoje em dia... um pachalik ou cousa peior.

E João Bispo, Fernando Vasques, e até para muita gente João Ramalho, Affonso Eannes, Alvaro da Veiga, Domingos Pires das Eiras, Luiz Giraldes e outros com quem o leitor tomará ainda conhecimento, estavam no olvido?!

Lamentemos esta má sina de ingratidão pelos grandes homens... que em vida não tiverem condados d'Ourem, nem terras do Alfeite; lamentemos, e vamos de novo para S. Domingos.

Ao passo que os burguezes davam que fazer a Gonçalo Pires, escrivão de chancellaria e ao seu companheiro, na casa do capitulo, bocejavam os poucos cavalleiros que tinham adherido, como hoje se diz, ao pronunciamento do Porto, por vontade, ou circumstancias. Dissemos que bocejavam; pois movimento, acção em poucos se notava, a não ser um alguns dos recem-chegados de Lisboa, dos quaes o mestre soubera captar a benevolencia com aquella largueza de mãos, que o deixaria rei das estradas de Portugal, se não fossem depois as garnachas, de que já se queixavam então, e em alguns pobres infanções e simples cavalleiros. Ruy Pereira reunia em volta de si, os dous sobrinhos do rei de Castella, D. Pedro e Affonso Henriques de Transtamara, misser Manoel Pessanha, João Rodrigues Guaday, Ayres Pires de Camões, Affonso Furtado e os irmãos d'Alvalade, e em uma das extremidades da quadra segredavam, ou antes fallavam quasi por signaes o alcaide de Monsaraz, Affonso Darga, o irlandez Down-Patrick e o velho fidalgo de Riba-Tua. Do resto, faziam uns retinir pelo sobrado os acicates dos seus sapatos de ferro, que vinham em traje de guerra não poucos, outros descançavam nas grandes cadeiras de espaldar, que os reverendos para alli tinham feito conduzir. De tempos a tempos um pagem ou um leigo entravam com recado para o tio do condestavel, ou este fallava a alguns dos seus homens, que estanceavam á porta, e elles partiam ás carreiras para diversos pontos.

Ruy Pereira tractava de aproveitar o tempo o melhor possivel, como bom cabo de guerra e bom politico, depois de ter conferenciado com os influentes da cidade, conferencia que déra em resultado decidir-se que se chamasse ao partido do defensor o conde Gonçalo, combinação que não era mais do que uma lisonja aos bons burguezes: pois, soprada pelo mensageiro de sua senhoria a Domingos Pires, e por este appresentada, fôra já decidida nos paços de S. Martinho. D. João resolvera comprar o conde com os bens pertencentes á irmã desthronada, bens que já tinham servido de engodo a outros. O escolhido para o ajuste do balsão do nobre senhor, de quem tinham sido já indagadas as ambições—que se iam encontrar com as de Nuno Alvares, felizmente bastante patriota para ceder ás circumstancias;—o escolhido fôra o alcaide de Monsaraz, Gonçalo Rodrigues de Sousa, e devia seguir logo com alguns navios para a Figueira, emquanto outros iriam correr a costa da Galliza, inquietar em casa o inimigo, e nos seus barcos, pescarias e alfandegas procurar um reforço para as arcas exhaustas do thesouro.

O movimento dos pagens, dos sergentes do convento, dos bésteiros e homens d'armas tinha produzido o ajuntamento da pequena praça ou terreiro, que ficava em frente do convento, e das tortuosas ruas visinhas. Na praça, vistas do alto, as cabeças dos curiosos formavam uma massa, que ondeava como as espigas de trigo sazonado, impellidas pelo vento, e no meio de borborinho constante, especie de gemer de tempestade em praia cheia de recifes, surgiam ora estrepitosas gargalhadas, ora gritos, apodos e vivas. As gargalhadas eram provocadas pelo bôbo da cidade. O Porto não era uma terra de pouca monta para não ter um bôbo seu, como qualquer principe, mesmo no meio daquellas calamidades e sustos, e tinha-o até que não ficava nada a dever aosque se importavam de França, por aquellas epochas, com o mesmo cuidado com que se haviam de importar cabelleireiros—o que, entre parenthesis, não quer dizer que para escolha dos primeiros se expedissem tão gordas personagens como para o dos segundos—.Voltando ao nosso caso, ao bôbo da cidade: os leitores que comnosco fazem esta viagem ao seculo XIV e ao terreiro de S. Domingos, devem confessar que a verba votada no orçamento municipal, verba insignificantissima, não devia ser chorada. D. Golias era uma raridade; uma creatura de seis palmos de alto, se tanto, comprehendendo esta medida uma desmarcada cabeça, cortada de lado a lado no terço inferior por uma bocca, cousa unica que correspondia naquelle todo ao nome com que o tinham baptisado. D. Golias áquella bocca, mais do que ao infésado da estatura e uma mobilidade de feições extraordinaria, devia o seu emprego e a sua popularidade. Os mesteiraes e burguezes que o encontraram, vindo do acampamento, onde exercia as suas funcções, tinham-lhe feito um acolhimento brilhante, uma ovação, e elle, escarranchado sobre um vádio espadaúdo e meio idiota, com o seu vestido variegado e o seu capirote, notavel por duas immensas orelhas asininas, correspondia a tanto extremo disparando, entre esgares e tregeitos, epygrammas para a direita e esquerda, na portaria do convento.

Uns bons dous terços destes gracejos, dos mais pesados, eram dirigidos a nobres senhores ou a alguns ricos burguezes, o que os fazia ser acolhidos com prazer pela gente da praça.

—Olé, mossem Methusael, D. Methusael, tio Methusael! ginchou elle sacudindo os cascaveis do vestido e da palheta, dirigindo-se ao arrabi-menor, que por entre a multidão abria caminho; o vinho que á socapa comprastes a mestre Manoel do Arco, subiu-vos á cabeça, ou foi exconjuro que vos trouxe aqui?! Mossem Methusael, as vossas dobras vão tinir como a minha jornea, e o vinho vae desfazer-se em lagrimas! Não é verdade, manos, que vai haver juderega dobrada e tresdobrada. Mossem Methusael antes quer que elles roubem a pequena Lea do que um punhado das boas barbudas da arca!

O arrabi resmungou algumas pragas, que se perderam entre as risadas do povo, e appressou o passo, seguindo um cavalleiro, na direcção da portaria, a fim de em tal companhia ter mais facil accesso.

—Guarda! berrou o bôbo, attravessando a palheta; guarda! Se queres entrar pede a frei Roque que te lave em agua-benta!

—Tira a tua vara, truão, gritou o cavalleiro, ao pousar o pé no limiar da porta.

—Arreda, Portugal! tornou Golias; arreda, que ahi vem Castella em peso! Passe lá, don cavalleiro; eu levanto o meu sceptro e arredo-me, porque não quero tocar em scismaticos. Don cavalleiro, tornou, quando o fidalgo subia já a escadaria, tendes novas do mano Garcia Manrique? Quando lhe ides dar a mão?!

E voltando-se para o leigo porteiro, que, depois de fazer uma grande reverencia ao nobre recem-chegado, o fitava, espantado da ousadia, proseguiu:

—Eh! beguino de má morte, se cuidas que te estás a vêr a espelho de Veneza, enganas-te: estas orelhas são do capirote. As tuas são mais compridas e mais felpudas!

Estes e outros gracejos, que não é licito escrever, pois não curava o truão da polidez da linguagem, nem eram por esses tempos malsoantes palavras que o são hoje; estes e outros gracejos eram a pedra de toque da popularidade dos individuos a quem os dirigiam: a gargalhada e os assobios, as palmas, os grasnidos e murmurios que provocavam, diziam a conta em que eram tidos. Quando a vaia partia, e o povo se calava, não insistia o bôbo, certo de que era a personagem aggredida estimada por aquella boa gente, e não teria, por isso, defensor, se algum syllogismo contundente fosse servir de censura ás suas burlescas reflexões. Regulando por este thermometro, o piloto e mercador João Ramalho e Gonçalo Domingues eram bemquistos na cidade da Virgem. O forçureiro, sahindo açodado pela porta do convento, esbarrára em cheio com o piloto que entrava, e do choque resultou a oscillação dos dous corpos, que procuravam o equilibrio, e um regougo abafado do burguez. A risada foi inevitavel, pois as pequenas desgraças teem sempre o riso por caudatario; mas um olhar do pae de Irene engasgou nas fauces de Golias o motejo.

João Ramalho não vinha para graças.

Ao olhar sevéro dirigido ao bôbo seguiu-se outro lançado a mestre Gonçalo, que lhe estendia a mão com a costumada lhaneza, e o piloto começou, quasi sem tomar folego, uma lenga-lenga de recriminações, que fizeram abrir os olhos do burguez desmarcadamente. Porque se espantava um, adivinha-o o leitor, porque desabafava o outro a sua cólera, se o não sabe, aventa-o: Fernando sahira contra ordem expressa da rua dos Pellames e fôra colhido em flagrante delicto de namoro, acompanhado das aggravantes circumstancias de escalada e destruição de um muro. O piloto deduzira de tanto ruido peccado mais gordo do que sonhára o mancebo, e, como este se lhe tinha salvado da furia, valendo-se da sua agilidade na carreira, avinha-se com o tio. Mestre Gonçalo Domingues, se naquelle instante apanhasse a geito o travesso rapaz, de certo o punha em maus lençoes, tal era a indignação e raiva, traduzidas nas faces em uma côr arroixada, que lhe incitava a narração deste successo, feita pelo rude marinheiro. O sangue subia-lhe á cabeça e ameaçava-o com uma apoplexia. Sem o querer, applicou-lhe o pae de Irene o remedio; porém, continuou a aggressão tão viva contra o travesso rapaz; chegou a taes ameaças, que o forçureiro julgou dever fazer algumas observações a esse respeito, e as observações fizeram desviar o raio de uma cabeça para outra. A culpa daquelle attentado, tão grave para o cego piloto, era de Gonçalo Domingues, que não soubera morigerar o seu pupillo; que lhe déra largas illimitadas; que lhe deixára damnar alma e corpo com ruins paixões. Quem ouvisse aquella recapitulação de queixas e accusações tomaria o namorado de Irene por um D. Juan, se Tirso de Molina já tivesse modelado no Burlador o typo famoso, que, com um arrebique para aqui, uma limadella para acolá, um nariz de cartão, uma cabelleira empoada, ou os tezos e cortantes colarinhos de um mylord tem servido a tanta e tão boa gente. O bom do tio, posto que chofrado, e duvidando de tanto aggravo, julgou o caso de consciencia, comtudo, e mentalmente resolveu a questão por um dos lados; por onde a lei, se fossem veridicas as supposições do forçureiro, a resolveria, mesmo naquelle tempo, visto que não havia desigualdade de castas. O rico burguez não mettia em linha de conta a vaidade do piloto, não se recordava tambem de que o commercio e industria com que se locupletara eram marcados com despreso tradicional, despreso ecclipsado para as maiorias pelo brilho das dobras, é verdade; porém não de todo para os mais pechosos. João Ramalho, á primeira phrase em que o forçureiro dava a entender a sua resolução, feriu-o vivamente no fraco, e emcambulhando-se as palavras em dialogo alternado, a voz do tio de Fernando chegava ao diapasão da do pae da linda namorada deste, quando arruido maior lhes abafou as vozes, e uma onda de povo os separou, lançando um para um lado, outro para outro.

Para explicar esse alvoroço voltemos outra vez ás assoadas de D. Golias, o bôbo da cidade.

Como em baile de etiqueta annunciava o maninelo quanto individuo de seu conhecimento se approximava do mirante semovente, em que se empoleirara, quando um claro se fez do lado do arco, que dava serventia para as Cangostas, rua que não desmente ainda hoje o nome posto, para a Bainharia e almuinhas, e appareceu açodado o nosso conhecido João Bispo. Se a pressa, que mostrava trazer, e o conservar na mão a adaga não fizessem notada a pessoa do ex-subordinado de Tello, chamariam sobre elle a attenção os gritos de Golias.

—Upa! acima sineiros da maldição, berrava elle. Os sinos não tangem? Beguino, frei velhaco! campas e sino grande, tudo a chocalhar! Venha toda a monjaria de cruz alçada, que chega o senhor bispo, o bispo João! Sua mercê traz pressa; mas nem por isso deve ser recebido sem as honrarias de usança. Vá: deitem-lhe agua benta aos olhos, para que não veja por ahi moura perdida pelas celas!

E terminando a exclamação imitava com a bocca o repique de sinos, baloiçando-se sobre os hombros do espadaudo vadio, em quanto este, que não tinha a insensibilidade de campanario, grunhia incommodado pelo revolver dos pés do bôbo ante os olhos, e arrepelões dados na hirsuta cabelleira.

A cidade ficava de certo sem o importante Golias; pois que o vadio estava já disposto a sacudil-o no lagedo, como o besoiro, que lhe fizesse cocegas no cachaço, e de certo o estatelava, senão se ouvissem gritos no meio da praça, e o novo bésteiro de Gaya se não viesse embaraçar, tentando penetrar na portaria, nas pernas da victima do bôbo, ao mesmo tempo quasi que o acontiado do municipio.

—Castelhano! gritou este, deitando as mãos ao namorado de Garifa, castelhano, aqui não te valem os fidalgos traidores!

O homem do virote, que sentira subir-lhe o sangue á cabeça com a ameaça de Ayres Gonçalves, correra, mal este embarcára, a procurar desafogo em João Bispo, e mais desesperado pela velocidade da carreira deste e pelo emmaranhado dos beccos por onde seguira, quando o encontrou, ao dobrar o arco, sentiu o despeito renascer; o nosso bésteiro, porém, deitou-o no chão com um cambapé e seguiu caminho. A vontade de tirar desforço do novo desappontamento trouxe aos lábios do homem do virote aquella palavra «castelhano». João Bispo correra menos risco quando lhe chamaram ladrão, entre os bons burguezes, na baixa, do que baptisado com semelhante nome.

—Castelhano?! exclamaram alguns mesteiraes correndo para junto dos dous soldados, emquanto João se desembaraçava do seu aggressor.

E um sussurro indicador de que a tempestade, as iras populares estavam eminentes se levantava no terreiro, ao passo que a portaria era invadida.

—Mata, mata! gritaram em seguida alguns garotos do outro extremo da praça; mata o castelhano!

João Bispo sentiu um suor frio correr-lhe pelo corpo todo, e murmurou dando um salto, encostando-se a uma das hombreiras da porta, e cobrindo o peito com a adaga:

—Castelhano... castelhano? Quem falla aqui em castelhano? Affastar, proseguiu em voz mais forte, affastar! Em castelhanos vou eu pôr o dedo.

—Mata, mata! berraram com os garotos alguns dos homens mais esfarrapados da chusma; e uma pedra veio ferir fogo nos umbraes do convento.

O amante de Garifa, metteu a mão no seio e tirou uma pequena tira de pergaminho, ao passo que o bôbo, atterrado com o arremesso de projectis em semelhante direcção, julgava dever intervir:

—Sús, boa gente; quem chama castelhano a João Bispo? Frei João não foi sagrado pelo papa dos scismaticos... foi pelo papa dos velhacos.

—Oh! é João Bispo? perguntaram duas ou tres vozes d'entre a chusma.

—João Bispo, ou o bispo João, tornou o bôbo, fazendo mesuras ao publico, ao qual soubera modificar as iras com o seu gracejo.

O homem do virote via de novo escapar-se-lhe a victima.

—Vêde, vêde, gritou elle apontando para o pergaminho, que o bésteiro segurava na mão, e tentando apoderar-se delle: vêde como quer esconder aquillo.

João Bispo levantou o braço para furtar o escripto, que trazia a Ruy Pereira, á mão do bésteiro do municipio, ao mesmo tempo que Golias estendia o braço e o apanhava.

—Ui que esgaravunhos! pipitou elle desenrolando a tira. Isto é esconjuro de bruxa, ou pacto de venda de alma de judeu?

—Ou mensagem para os do arcebispo! resmungou um dos mesteiraes.

—Mensagem para os do arcebispo... disseste a verdade, mal-cuidando! accudiu o bésteiro de Gaya, soltando ao mesmo tempo uma praga, e com a raiva pintada no rosto dando um salto para rehaver o pergaminho.

O escripto voou das mãos do truão assustado para junto de João Ramalho, que, levantando-o, passou pelos olhos as primeiras linhas:

—Traidor, Gonçalo de Sousa?! exclamou elle.

—Traidor, sim, disse João Bispo; e ainda ha pouco aqui tramou não sei que outras villanias! Estes cães que trouxe ás pernas não me deixaram...

João não proseguiu. O alcaide de Monsaraz desembocava no pateo, acompanhado de Affonso Darga, vindo do lado da casa do capitulo. Entre os mesteiraes entrados na portaria reinava profundo silencio. O joven cavalleiro fallava com o commandante da flotilha enviada pelo Mestre de Aviz ás aguas do Douro:

—Senhor Gonçalo de Sousa...

Como João Bispo não acabára a phrase não a acabou tambem Affonso Darga. João Ramalho dirigira-se para o alcaide, e batendo-lhe com uma das mãos no hombro, appresentou-lhe o escripto. Aquelle pergaminho apanhara-o o ex-noviço ao capellão de Ayres Gonçalves. Scismando nas palavras ouvidas atraz do reposteiro, quando, ao regressar de uma visita á ucharia, se perdera nos lanços de escada e corredores dos paços de Gaya, pensou que no aposento do frade lhe acharia a explicação. A prova de que não pensou mal era o ter encontrado alguma cousa, e essa cousa—o pergaminho—fizera perder a côr ao alcaide de Monsaraz.

Á pallidez, seguiu-se o rubor, e depois de novo a pallidez. Gonçalo de Sousa sacudiu a mão do mercador, como se fosse um reptil, que lhe tivesse pousado nos hombros; quiz fallar e a voz prendeu-se-lhe na garganta; a espuma produzida por um accesso de bilis appareceu-lhe aos cantos da bocca. O nobre senhor, nesse instante, temia menos as iras das turbas, sentia menos a deshonra, se deshonra via na sua traição, do que a ousadia do homem do povo, que assim se arvorava em seu juiz.

—Arreda, villão! gritou, mal a voz se desembaraçou.

—Villão! repetiu João Ramalho, refece é quem assim atraiçoa a terra que o viu nascer; não é, senhor alcaide?

A voz do piloto tremia; mas não de susto. Gonçalo Rodrigues de Sousa arrancou-lhe das mãos o pergaminho, e rasgando-o, lançou-lhe os pedaços ao rosto.

—Quereis resposta? disse elle com um sorriso nervoso, symptoma de um excesso de raiva; quereis uma resposta? Eil-a... Outra só a darei quando o meu accusador não fôr da tua ralé.

O punhal de João Ramalho lampejou no ar. O alcaide de Monsaraz contára aquella hora como a ultima da vida, se uns poucos de mesteiraes e bésteiros do municipio não fizessem o mesmo, lançando-se sobre elle, embaraçando-se uns aos outros.

A onda popular, levantada pelas primeiras palavras do homem do virote, pela accusação feita ao namorado de Garifa, crescera furiosa, estuara no meio dos gritos de «morra o traidor, o castelhano». A portaria do convento fôra invadida, esmagado quasi o porteiro, apeiado e pisado o pobre D. Golias, e azevans, ascumas e agomias luziam ameaçadoras por cima daquellas cabeças inquietas, como na crista das vagas os flocos de espuma feridos pelos raios do sol. Quatro braços possantes seguraram o alcaide, mais já lembrado de que era homem do que fidalgo: Affonso Darga e uns dous monges, que o quizeram cobrir com o corpo, foram repellidos em um abrir e fechar d'olhos.

—Ao pelourinho, ao pelourinho! gritou um dos mesteiraes arvorados em justiceiros. Açoutado e enforcado!...

—Jesus! gritou o dominico, tentando salvar Gonçalo Rodrigues; Jesus! o que ides fazer é um homizio, e o sangue...

—Vamos fazer justiça. A traidor como a traidor! Peões, não temos cepo nem cutello; mas temos boas cordas de canave.

—Ao pelourinho, ao pelourinho!

—Morram os traidores!

—Bésteiros, a mim bésteiros! gritou o alcaide de Monsaraz, vendo apparecer do lado do claustro dous acontiados da esquadra.

—Quem é aqui por traidores?! exclamou um dos que empunhára o alcaide.

Os bésteiros não se moveram. A celeuma na praça crescia.

—Por Christo crucificado! tornou o dominico pacificador, erguendo a cima da cabeça a imagem do Redemptor. Quem com ferro matar, morrerá pelo ferro...

—Ide-vos, homem de Deus; ide-vos, senão quereis que vos tomem por traidor.

A voz de Ruy Pereira, avisado do risco em que estava Gonçalo de Sousa, trovejou por cima daquella celeuma:

—Quem falla aqui em traições? Traidores, se os ha, deixai-os á justiça do regedor. D. João vol-a fará boa e prompta, bons homens! Senhor meirinho, senhor meirinho!

—O povo do Porto sabe fazel-a tão bem e tão boa como o de Lisboa.

—Senhor meirinho, senhor meirinho, gritava o tio de Nuno Alvares, barafustando para se approximar do commandante das galés do Mestre, e procurando com o vista o meirinho da cidade, que abafava entre os mesteiraes.

—Ao pelourinho! vozeavam estes.

Um bésteiro neste momento atravessava o terreiro, soffreando o cavallo em que montava, para não pisar o povo, nessa occasião soberano em verdade. Conhecido de alguns dos amotinados, abaixara-se a fallar-lhes, e pouco e pouco, á proporção que se approximava da portaria do convento, ao berreiro de «morras» succedia um borborinho destas palavras trocadas em voz baixa:

—Os gallegos! os gallegos!

—Os gallegos! exclamou o mesteiral que segurava o alcaide e parecia ter grande influencia nos seus companheiros; os gallegos veem? Boa idéa: mandar-lhe-hemos este bom cavalleiro para o arraial. As machinas que estão do lado das Hortas podem com pesos maiores. É uma boa lança que enviamos aos do arcebispo. Não é para elles que se queria partir?

Uma gargalhada saudou a lembrança, apesar de não ser original.

Gonçalo Rodrigues de Sousa estava salvo com aquelle addiamento das vinganças populares.



VII.

Recontro de Leça.