Todo oro que se afina
Es de mas fina valia,
Porque tiene mejoria
De cuando estaba en la mina,
Ansi se apura y retina
El hombre y cobra valor
En la fragoa del amor.
gil vicente.—fragoa
d'amor.
—Bofé, por aqui?!
—É verdade, João.
—Mas como? Se o não vira com estes olhos
que a terra ha de comer...
—Pois eu sou.
—Como S. Thomé, parece-me que será
preciso
tocar-vos para crêr. E como vindes armado! Nem
moço escudeiro vos leva as lampas! Mas ainda o
não
posso acreditar. E mestre Gonçalo?
—Meu tio...
—Sim! O bom do velho veio tambem na arrancada.
É o que faltava vêr... elle que não
é para
estas cousas, apesar de bom portuguez. Mas, em fim,
está ahi o Porto em peso; velhos e cachopos...
até
mouros. Por pouco vinham as mulheres! Ala fé,
mestre Gonçalo Domingues...
—Meu tio não veio...
—Então...
—Ai, João, se souberas?!
—O que?
—Estou como tu; sem leira nem beira.
—S. Jorge e todos os santos batalhadores sejam
commigo! Que foi o que vos succedeu, Fernando?
Morreu mestre Gonçalo?
—Não morreu, não... nem Deus queira
tal.
—Então, que foi?
—Ai, João, hontem foi um dia bem de mau
sestro!
—Para mim tambem: por um argueiro duas
vezes escapei á morte!... Pois não vi, ao sahir
de Gaya,
nem gato preto, nem chapim de sola para o ar, nem
velha varrendo lixo: nem ouvi piar a coruja, nem
uivar os cães! Valeu-me o anjo da Guarda...
—A mim não me quizeram matar; mas... parece-me
que me foi peior...
—Peior?!
—Sim, João: lembras-te de me encontrares nos
Banhos, e de te fallar em certos amores? ..... Fui
vêl-a.
—Ah! fostes vêr a tal menina, e estava arrufada...
—Não, João; Irene...
—Irene? chama-se Irene? é um nome que não
é feio.
—E ella é mais linda; mas, como te ia contando,
fui vel-a. Ia a subir a um muro do lado do
quintal para lhe fallar—queria tirar um peso que
tinha no coração; dizer-lhe que, apesar de meu
tio
ralhar, lhe havia de querer muito e... nem eu sei
o que mais; mas queria-lhe fallar, vel-a—ia a subir
ao muro, e o muro... zas... no meio do chão,
e cara a cara dou com o pae...
—Ora! E por tal é essa amofinação?
—Olhe, João, que não é o caso para
folgar!
Como não ralharia elle á minha pobre Irene, elle,
que não tem ar de palavras de mel, e ficou com
um senho... que descarregou nella... de certo...
—Isso de nada vale, Fernando.
—Ainda não ficou ahi o mal. Deitei a correr...
eu sei lá para onde! Quando me lembrei de voltar
para casa era tarde; pouco faltava para o sol
posto. Appressei o passo, lembrado de que se meu
tio me não encontrasse nos Pellames, elle, que me
guardava má tenção por me haver
encontrado já na
maldita arvore, faria de sorte que eu não tornaria a
pôr pés na rua. Ao chegar quasi a S. Domingos,
havia uns alaridos, um grande vozear, e parara ao
pé do arco, quando mestre Duarte, o nosso visinho,
veio aonde eu estava, e contou que vira o pae
de Irene fallar com meu tio, e que ambos esbravejavam,
por palavras que lhes ouvira, contra mim.
Voltei a Miragaya...
—Para que?
—Nem o sei dizer. Receiava de meu tio... e
não receiava. Quando de novo me dirigi á porta da
cidade estava fechada. Do lado da Esnoga via-se um
grande clarão, e continuava o alarido...
—Era a chamusca da casa de mossem Moysés,
o irmão de D. David Algaduxe; era o escote dos
judeus.
—Assim me disseram de manhã.
—Passastes a noite ao relento?!
—Passei, João, e se visse sequer uma luz á
janella, parece-me que ficava consolado. Ao alvorecer,
como depois daquella noite assim corrida maiores
razões tivesse para não voltar aos Pellames, subi
a encosta em cata de mestre Pedro, e, como o
não encontrei, fui pelas Hortas. No campo, a chusma
das galés, os acontiados da cidade, e a gente de
armas dos ricos homens vindos de fóra, estava tudo
em movimento; chegava povo a todos os momentos
e sahia no meio de vivas; ao pé da torre, junto á
porta, do lado de dentro, distribuiam armas. Um
anadel deu-me um encontrão, e disse-me que fosse
buscar tambem alguma cousa, e fui; pozeram-me a
caminho para aqui, e puz-me a caminho tambem...
—Amores! amores! E agora que ides fazer?
—Boa pergunta, disse, erguendo e cabeça com
certo enthusiasmo, o namorado de Irene, Fernando
Vasques, de certo já reconhecido, bem como João
Bispo desde as primeiras linhas deste dialogo; agora
é batalhar, e ou ficar para ahi, ou fazer
acção
de fama; e depois...
—E depois ides pôr a espada aos pés da vossa
dama, como naquelle conto da Tavola-Redonda ou
naquell'outro que tinha frei Gumado... Ama... Ama...
—Amadis, queres dizer?
—Isso é: um em que havia combates de gigantes
e uma princeza muito formosa: deixai vêr se
me lembra o nome... Oriana!...
—A dama de Amadis.
—Bonitos contos, Fernando, esses de cavallerias
e amores; pena é que hoje nada succeda assim
de geito.
—Pena que não haja quem tenha a vontade
de boas acções e famosas! O senhor Nun'Alvares,
tem-se, ainda assim, havido como alguns dos mais
pintados, e ouvi contar a meu tio, que o viu simples
pagem, acompanhando a rainha Leonor, pela
qual depois foi armado.
—Tomou o leão para o fazer lebreo de estrado;
mas elle, mal chegou a idade, mostrou-lhe os
dentes todos, e foi para o monte a monteal-a. Desde
nado trouxe boa sina Nuno Alvares. Mestre Thomaz,
grande astrologo, que andava em casa de seu pae,
leu nas estrellas, e viu que empresa em que se mettesse
seria boa, e elle sahiria vencedor, se fosse para
bem sua tenção.
—Por isso deixou elle a rainha Leonor; pois
em serviço della não andava bem, e podia-se
quebrar
o encanto com que foi fadado.
—A mim tambem me leram a sina; porém a maldita
da moura que o fez disse uma tal embrulhada,
de que só percebi que havia de entrar em grandes
batalhas, e salvaria um rei...
—Não ouvis? atalhou Fernando, sobresaltado.
—Ouço.
—Além do rio...
—Um como tropear de gente, e quebrar de
ramos. Estas fogueiras não deixam vêr bem. As
vigias dormirão?
—Não... olha, não vês alli ao
pé daquelle fraguedo,
onde bate o luar, aquella que se move? está
bem desperta. Ainda ha pouco se recolheu uma rolda,
a que acompanhou frei Patinho.
—Escutai, tornou João Bispo, deitando-se no
chão para melhor distinguir a direcção
do rumor,
depois de retesada a corda da sua besta.
A noite descera havia muito; os galos de algumas
choças visinhas tinham já annunciado que ia
alta, a meio do seu curso, e a lua erguia-se redonda,
avermelhada, semelhando um escudo candente,
por entre as ramas dos pinheiros, que fechavam
ao nascente o horisonte, fazendo destacar a uns
por contornos negros, cobrindo de uma luz phantastica
os curutos de outros, e projectando sombras
immensas pelas clareiras. Á proporção
que
ella minguava no céu, tornavam-se mais vivos os
reflexos azulados com que tingia alguns objectos,
fazendo contraste com os fogos dos dous acampamentos
áquem e álem de Leça—fogos que em
pontos
ainda se mostravam vivos, fazendo ressaltar vultos
negros, tocados, sobretudo nos arnezes, braçaes e
grevas dos homens d'armas, de linhas ardentes, vermelhas
quasi; em outros quasi extinctos, mostrando, através
de uma luz vaga, fórmas indecisas, movendo-se,
tregeitando. Aqui o ferro de uma azevan, volteando,
espelhava um raio da lua, e imitava os fogos fátuos;
acolá o bacinete polido de um bésteiro de
polé lampejava,
ao cruzar rápido por pé dos fogos das vigias.
De vez em quando o relincho dos cavallos se reproduzia
nos eccos; as vozes das roldas se alteava;
erguia-se aqui uma risada, alli um clamor, e depois
recahia tudo em um silencio, que só interrompia,
alguma conversa a meia voz, como a que cortaram
os nossos dous namorados.
Pela bocca de um delles já todos sabem que os
combatentes de que podia dispôr a cidade da Virgem,
homens e rapazes se tinham nessa dia de madrugada
posto a caminho de Leça, e se estão lembrados
da noticia dada pelo bésteiro em S. Domingos,
noticia que tirou Gonçalo Rodrigues das mãos
dos populares e o entregou á justiça, que lhe fez
grande
favor em o reter preso em Gaya; se se lembram
de que D. João Manrique, arcebispo de Santiago,
abalára de Braga com setecentas lanças e dous mil
infantes, portuguezes, partidarios de D. Beatriz, e gallegos,
e quando chegára a mensagem do Mestre acampava
perto da cidade, atinarão qual o intento que ahi
os levava. Alguns corredores do bando inimigo tinham,
ao tempo que pecuniariamente se salvava a
patria, chegado a Paranhos, alarmando os poucos
camponezes não recolhidos á cidade, e os bons
burguezes,
que já os tinham esperado duas vezes sem
verem apparecer uma só lança, haviam resolvido
affugentar
estes hospedes importunos.
Seis a sete mil homens, pois, acampavam áquem
do Leça, occupando uma extensa linha.
Esta tropa, superior á do arcebispo em numero,
era, encarada por outro lado, talvez inferior. Dos nobres
que com os seus homens d'armas tinham seguido
as hostes populares, em alguns não eram firmes as
crenças de partido, como vimos; nos outros, em geral,
havia certa má vontade por vêrem ao seu lado
cavalleria
burgueza, para a qual olhavam pouco mais ou menos
com os mesmos olhos com que ainda hoje, no seculo
XIX, olha o militar para o miliciano que marcha
ao seu lado. Os bésteiros da behetria, trezentos ao
todo, era gente de animo resoluto, porém fracos atiradores,
e os quinhentos, tirados da esquadra e de Gaya,
tinham os outros quasi na mesma conta que ás
lanças
que rodeavam a bandeira onde entre torres a
Virgem apparecia mostrando Jesus inda menino, aquelles
que seguiam balsões historiados, e mesmo
ainda ao mais historiado labaro, museu de imagens santas
ideado pelo futuro condestavel.
Cinco mil homens, exceptuando a chusma da armada,
pertenciam a essa gente que parecia entregue
a uma mascarada, quando levamos o leitor aos adarves
que tinham vista para Miragaya. Eram porém estes,
era o povo e os acontiados do municipio que tinham
de fazer retirar os muito esforçados cavalleiros
Lopo de Lira, Fernão Gomes da Silva, Martim
Gonçalves de Athaide, Gonçalo Pires Coelho e
outros
nobres, que seguiam com elles o arcebispo de Santiago.
As ascumas e os mangoaes affaziam-se, a passar
aquellas entre o gorjal e a barbuda, a malhar
estes em cimeiras; amestravam-se para a grande tarefa
de Aljubarrota.
Como dissemos, os defensores do Mestre estendiam-se
na margem do Leça por bom espaço. João
Bispo e Fernando Vasques encontravam-se em uma
das extremidades da linha, ou acampamento, quando
extranho ruido vindo de uma mata visinha os
fez interromper o dialogo que ahi fica exarado. O
amante de Garifa, depois de se conservar por alguns
segundos deitado, com o ouvido attento, ergueu-se,
fez um signal ao seu companheiro, e, empregando
o maior cuidado possivel para não fazer rumor,
dirigiram-se ambos para o lado do poente, onde
de novo se pozeram a escutar.
—São os nossos, disse o bésteiro novel a
Fernando;
são os nossos, que estão abrindo caminho
no
bosque.
Palavras não eram ditas, um grito sahia da selva,
e um bésteiro levantava quasi debaixo da cara
do sobrinho de Gonçalo Domingues a sua besta armada,
mirando-o.
—Eh! Gil! abaixa lá isso, gritou João Bispo:
guarda os teus virotes para os
gallegos!
Que
desbravar
de matto é esse?
—Eramá! estás ahi, João? tomei-vos
por esculcas
desses condemnados! Abrimos caminho na mata,
e vamos passar o rio. João Ramalho está
lá em
baixo com trezentos dos da cidade.
—Começa o folguedo?
—Boa festa! Vamos fazer dançar os do arcebispo
ao som de assobiar de virotes, e ranger de
polés e garruchas. Os malditos deste lado dormem,
ao que parece, e não é mau despertal-os.
O amante de Garifa deu alguns passos para se
internar na mata. Fernando reteve-o.
—Espera, João, eu sei um sitio onde se póde
passar melhor do que ahi.
—Sabes?
—Além, abaixo daquelle casal que está a alvejar,
pelo açude.
—Bom discorrimento teve o cachopo! exclamou
o bésteiro, com um sorriso de escarneo. Vão
lá passar
pelo açude! É o mesmo que fazer caminho para o
outro mundo. Dous homens na outra margem tragam-vos
uma hoste, como a uma tigella de migas.
—E se de lá não houver ninguem?
O bésteiro, como unica resposta, voltou as costas,
encolhendo os hombros; João Bispo, depois de curta
reflexão, tomando a mão do seu companheiro,
exclamou:
—Vámos ao açude!
O desbaste do arvoredo continuou com affinco,
e uma hora passada, havia uma soffrivel clareira
aberta, onde tinham já penetrado alguns homens
d'armas. No campo inimigo, em frente, não se ouvia
senão o ciciar da aragem. Um troço de
bésteiros e
populares, armados estes com toda a sorte de armas,
desde o montante farpeado e o machado, a maça de
puas, até ao chuço e mangoal,
começaram a passar
o pequeno rio pouco abaixo do mosteiro dos Hospitaleiros.
Cem homens teriam tomado pé na outra margem,
quando um sibilo se ouviu, e um virote se veio
cravar em um velho roble, ao pé do qual João
Ramalho
dava ordens aos acontiados da cidade. Em seguida,
a outro sibilo juntou-se um grito, o som da
queda de um corpo na agua, e logo um alarido immenso.
Bésteiros de pé e a cavallo, burguezes e
mesteiraes,
que se tinham lançado ao Leça, recuaram.
Do campo do arcebispo haviam notado o movimento
da gente do Mestre, e o silencio guardado fôra
alliciente para os chamar além.
Cem homens estavam
na outra margem prisioneiros, se o grosso da força
não avançasse.
—Santiago! Santiago! gritaram os castelhanos;
e a margem appareceu como por encanto coberta de
frecheiros, e d'ahi a momentos o relinchar dos ginetes
e o som das trombetas eccoava pelos valles.
—S. Jorge e Portugal! gritou João Ramalho,
arrebatando a bandeira da cidade das mãos de um
cavalleiro do municipio, e lançando-se ao rio.
Ávante,
filhos, ávante!
Um troço de mesteiraes lançou-se em seguida
do caudilho popular; porém recuou de novo.
As folhas das arvores cahiam, como varejadas,
e os troncos lascavam aqui e alli, que os bésteiros
de Garcia Manrique faziam a sua obrigação.
—Assim deixaes os vossos nas mãos daquelles
perros?! exclamou Nicolau Domingues, apontando
para a outra margem onde havia um concerto de
pragas, vivas e morras. Bésteiros! bésteiros,
pela
Virgem de Vandoma, ávante!
—Ávante! responderam alguns mesteiraes e
acontiados, seguindo o exemplo de João Ramalho.
A lucta travada além do Leça era uma temeridade.
O luar alto já, allumiava o necessario para o
inimigo vêr o inimigo que tinha junto de si, para
uma lucta quasi corpo a corpo; e os homens d'armas do
arcebispo, avançando sobre o ponto invadido, iam dar
cabo dos attrevidos portuenses; demais, os fundibularios
e bésteiros d'aquem temiam ferir os seus,
ao passo que os gallegos, prolongando-se de lado opposto
pela margem, enviando tiros mesmo ao acaso,
difficultavam a passagem. Martim Correia, o escrivão
da chancellaria, Gonçalo Pires, e o filho do Mestre
de Santiago, D. Pedro de Transtamara, com alguns
escudeiros e um troço de cavalleria da cidade,
forcejavam em vão por enfiar mais além a estreita
ponte, ainda hoje existente naquellas paragens. O
grosso dos homens d'armas e cavalleiros embaraçavam-se
uns e outros, nos vallos, fraguedos e silvados,
pelos sitios onde tinham acampado, alarmados pelo
rebate extemporaneo.
No rio, se se ouvia o chapejar, era o de um ou outro
burguez fugitivo; no bosque o estallar dos ramos,
o rumorejar dos fetos não era só produzido pela
queda de virotes; era tambem pela queda de homens.
Nicolau Domingues gritava a bom gritar; mas a chusma
da esquadra, vinda de reforço, não se resolvia a
ir juntar-se aos acontiados do Porto, quando um sucesso
inesperado deu um fim brilhante ao que até
então não se podia dizer mais que uma imprudencia
do pae de Irene, e da sua gente.
O mosteiro dos Hospitaleiros appareceu illuminado
por uma luz avermelhada: nas ameias da egreja
e das torres veria quem dellas se approximasse
vultos negros correndo de um para outro lado açodados,
e um alarido immenso se casava ao fragor
do combate da margem.
Fernando Vasques e João Bispo tinham passado
o açude e approximado, fazendo um rodeio, do acastellado
mosteiro, pelo lado do norte, lado desguarnecido,
e bastante custára ao namorado da filha do
velho Humeia a suster o seu companheiro, que na
effervescencia do seu amor, cheio de enthusiasmo,
imbuido de mais na leitura dos livros de cavallerias,
para conquistar renome se dispunha a commetter
temeridades, que serviriam apenas para alarmar
os castelhanos e arriscar a vida. João persuadiu-o
a voltar á outra margem, a procurar reforço
para uma ideada surpresa, e não tinham do lado de
áquem dado muitos passos quando lhes chegou aos
ouvidos um vozear confuso, e toparam com uma mulher,
que, soluçando, com os olhos arrasados de lagrimas,
conduzia pela mão uma creança, chorosa tambem.
Guiados por essa mulher, a quem Fernando,
condoido, perguntára a causa daquelle pranto, foram
ter a um casal. As portas todas da casa estavam arrombadas:
por uma sahia um grande clarão. Uma velha
arca e outros trastes ardiam ao canto de uma
adega, e á volta das pipas tripudiava um troço de
bésteiros.
O vinho derramado em uma grande celha de
pau, e que, trasbordando, se esbanjava pelo chão, mostrava
em que estado tinham as cabeças, e mais ainda
o modo porque recebiam as admoestações de micer
Guilherme: dançavam, tregeitavam, grunhiam e berravam
em várias linguas e dialectos, chegando alguns
dos que se mostravam menos firmes nas pernas ao
nariz do nobre aventureiro uma escudella a trasbordar.
Para bem da verdade deve-se dizer que o irlandez,
pretendendo conter os seus patricios, os inglezes,
escocezes, gascões e normandos, que, recrutados
pelo chanceller em Londres, tinham vindo nas
galés, deitava á escudella um olhar
tão terno, que
não era para delle esperar grande sanha contra os
indisciplinados, nem grande vontade de se metter á
agua.
João Bispo via no meio de gargalhadas e motejos
desfazer-se o plano combinado com o sobrinho
de Gonçalo Domingues, quando este se lembrou de
notar aos nossos fieis alliados por palavras e gestos
que o vinho dos cavalleiros de S. João devia de ser
cousa muito superior ao de pobre lavrador. Um hurrah
saudou Fernando, e, cambaleando, a turma tomou
o caminho do açude, apesar dos protestos de
Down-Patrick.
Vinte homens, se tanto, seguiam aos dous namorados:
uma duzia de archeiros de Gilles de Montferrand
e alguns subordinados de Tello Rabaldo, encontrados
tambem na adega do casal: os demais, embriagados,
tinham ficado pelo caminho, e uns dous
ou tres afogados no Leça. Bésteiros e
vádios penetraram
na cerca com o maior silencio em quanto João e Fernando
rodeavam um páteo junto da igreja, onde os
do arcebispo tinham amontoada bagagem, carros e
grande porção de escadas, com que
ameaçavam um
assalto á cidade. A sentinella, posta desse lado, dormia,
cabeceando, encostada á lança, quando Fernando
deitou mão de uma das escadas para a encostar
ao muro. O pobre archeiro, extremunhado, abriu os
olhos, esgaziados logo pelo terror, e a bocca para
dar o signal de alarme; porém aquelles embaciaram,
e desta sahiu apenas uma golphada de sangue; deu
umas outras duas passadas, cambaleando, estendendo
as mãos como a procurar appoio, e cahiu no chão
soltando um som rouco e um assobio, como de homem
que desperta de pezadello. O castelhano, não
despertava; adormecia para sempre: aquelle estertor
sahia pela garganta e feridas abertas no peito por
João Bispo.
—S. Jorge e Portugal! exclamou o namorado de
Irene,
abraçando-se ás ameias do eirado, e arrancando
a bandeira dos partidarios de D. Beatriz, que tremulava
ao pé da vermelha dos cavalleiros. S. Jorge e
Portugal!
—Estamos perdidos! resmungou João, ouvindo o
grito do mancebo; e estropeando o nome do aventureiro
irlandez, gritou: Micer D. Patrico! micer D.
Patrico, por aqui! por aqui! A mim, bésteiros!
Nas torres ergueu-se um alarido immenso: alguns
penedos cahiram do eirado no páteo, e uma nuvem
de virotes sibilava nos ares. Ao chamamento
de João apenas tinham acudido Pedro Choca e tres
vádios. O sobrinho de Gonçalo Domingues, com a
haste
da bandeira defendia-se dos castelhanos, que, alarmados,
mais tratavam de lançar a escada a terra do que
de se desfazerem do temerario inimigo.
—Abaixo, Fernando, abaixo! gritou João; e no
alto das torres appareceram algumas luzes.
—Viva o Mestre de Aviz! gritou o mancebo quasi
ao mesmo tempo que lhe fugia a escada debaixo dos
pés, deixando-o suspenso das ameias e estribado
em uma enorme salamandra de granito, que servia de
goteira ao eirado.
—Ahi vem ginetes, disse Pedro Choca, fazendo
um esgar. Recommendemos a alma a Deus!
—Se elle t'a quizer! redarguiu um dos vádios
soprando a uns tições alli deixados em rescaldo,
que
embrulhára em uma pouca de palha.
—Fernando! exclamou João Bispo, encostando
outra escada ao muro, apesar dos arremessos; afferra-te,
Fernando, que eu sou comtigo.
—S. Jorge! S. Jorge! se ouviu do outro lado
do mosteiro em altas vozes.
—A mim, bésteiros, a mim! tornou João Bispo,
em quanto o seu amigo se defendia na goteira,
procurando saltar no eirado.
—Hurrah! S. Jorge!
—Malditos! aquelles odres onde estarão! Micer
D. Patrico!
—Arriba, João, arriba! accudiram os vádios,
marinhando
pela escada, que de novo tinham erguido.
Aquelle endemoninhado cachopo vai morrer!
Uma grande lavareda, de repente, illuminou a
lucta travada entre Fernando Vasques, os seus companheiros
e alguns homens d'armas do eirado. Pedro
Choca tinha lançado fogo a uns carros de palha,
e este ateava-se aos enormes pavezes de vime,
proprios para assalto, amontoados entre as escadas
e bagagens. Era uma fogueira soberba que
dentro em pouco faria estalar o travejamento dos aposentos
de D. Mafalda, ao mesmo tempo que os
castelhanos abandonavam o eirado da egreja.
—Os do Mestre! os do Mestre! se ouvia
por todos os lados; e nas torres, besteiros e fundibularios
perdiam os seus tiros.
—Hurrah! continuavam, já roucos, a berrar,
do outro lado da cerca, os inglezes.
—S. Jorge e Portugal! gritaram algumas vozes,
com boa clara, pronuncia portugueza, do lado
do rio, apparecendo por entre os castanheiros, retirando
os homens d'armas de Garcia Manrique.
—Ter! gritou um dos seus caudilhos, ameaçando
com o estoque os mais medrosos; ter, rapazes!
Não se diga que retiramos diante de meia duzia de
villões!
—Ter, ter! exclamou o guerreiro arcebispo, apparecendo
no meio dos fugitivos.
—Os do Mestre estão no bailiado! disse uma
voz d'entre a multidão. Vêde, o mosteiro
está a arder,
e foi derribada a bandeira!
—Por Sanctiago! tornou o arcebispo para os
seus companheiros, espantado da audacia dos portuenses,
embrulhados já com os gallegos, e suppondo-se
cortado por forças immensas; estes excommungados
estão decididos a morrer, e trazem comsigo
o poder do mundo. A caminho de Braga, senhores!
Temos tempo sobejo para desforra.
—Covarde! resmungou João Rodrigues Portocarreiro,
esporeando o seu ginete para se lançar
sobre os do Mestre. Covarde! repetiu; e o fogoso
animal, ferido nos peitos por um virotão, ergueu-se
com as mãos no ar, e cahiu, arrojando com
ruido o portuguez rebelde a alguns passos de distancia,
abollando-lhe a armadura e o capacete e fracturando-lhe
o craneo.
—Covarde! repetiu tambem o arcebispo com um
sorriso de mofa, voltando-se para um dos seus capitães,
e designando o fidalgo portuguez: temeridades
não aproveitam.
A ponte tinha sido forçada ao mesmo tempo
quasi, e a cavallaria de D. Pedro de Transtamara
cortava já pelo meio dos gallegos, atterrados.
—A caminho de Braga! tornou a gritar o arcebispo
D. João, que, lançando-se na estrada partiu, a
galope,
seguido de grande porção de cavalleiros, e pouco
depois de todo o exercito, deixando os apprestes
d'assalto, viveres e bagagens nas mãos dos burguezes
do Porto.
—Senhor conde, senhor conde, aqui está a bandeira
de Castella, exclamava momentos depois, attravessando
no meio de vivas por entre as hostes do
Mestre, o sobrinho de Gonçalo Domingues, com as
mãos cheias de sangue, de feridas do corpo e da
cabeça,
mas tão contente, que nada lhe doia naquelle
instante, e, em vez do perigo corrido, se recordava
tão sómente de Irene, alegrava-se por saber que o
seu nome lhe havia de chegar aos ouvidos na historia
daquelle recontro.
Era um heroe feito pelo
amor .............................................................
O mosteiro dos Hospitalarios tinha sido abandonado,
mal o incendio mostrou aos seus guardas as
hostes portuenses além já do Leça,
abatida a bandeira
e em fuga Garcia Manrique. No entanto, ainda
do lado da cerca, sol já nascido, as mesmas vozes
roucas gritavam:
—Hurrah! S. Jorge!
—Onde demonio estarão estes bargantes? perguntou
o namorado de Garifa, procurando o sitio
donde sahia aquelle vozear.
Uma gargalhada estrondosa se seguia, pouco depois,
á pergunta. Os besteiros encontrados no casal,
não se esqueceram, chegados ao mosteiro dos cavalleiros
de S. João, que vinham para humedecer a
garganta com bom vinho, e foi a adega a primeira
cousa que procuraram. Era de lá que tinham, com
os seus hurrahs, ajudado a alarmar os gallegos.
Desta vez micer Guilherme Down-Patrick não
resistira á tentação.
VIII.
Torneio.
E elles no Porto por ledice
de sua vinda ordenarão hum
torneo vespora de S. Iohão,
que era em que os moradores
daquella cidade costumavam
fazer gram festa.
(fernão
lopes. Chronic.)
Por uma tarde de mez de Junho, pouco mais
de uma hora seria, caminhavam em direcção
ás Hortas,
no meio de extraordinario concurso, mestre Gonçalo
Domingues e Fernando Vasques. O feito de Leça,
tornando um heroe, entre os patriotas da terra,
o moço namorado, os gabos por elle publicamente
recebidos de Martim Correa e do conde D. Pedro, a
ovação feita pelos populares, que em charola, o
conduziram,
quando perdidas as forças, pelo sangue derramado,
cahira ao voltar do recontro; tudo fizera passar
por alto ao bom tio a fuga da loja. O velho abraçou-o
enthusiasmado tambem, com o riso nos labios
e ao mesmo tempo umas duas lagrimas nos olhos
e só se lembrou de fazer algumas reflexões sobre
as imprudencias da mocidade, quando em casa
notou a necessidade de chamar um medico, ou physico,
como então se dizia.
Gonçalo Domingues tinha, como muita gente, na
cabeça uma boa dóse de ideas em
opposição com
as inspirações e sentimentos do
coração, sobretudo a
respeito de seu sobrinho. Se dissessemos que queria
ao mancebo tanto como ás suas dobras, diriamos
que lhe tinha affeição de pae; porém,
ia mais
longe o velho: queria-lhe mais; pois bom dinheiro
sem dó com elle tinha dispendido. E comtudo dava-se
de vez em quando a perros por causa de certas
travessuras e inclinações do filho de seu
irmão, sobre
as quaes fazia observações muito sisudas, cheias
de um positivismo tal, que obrigava a dizer aos que o
ouviam que elle era um homem de grande tino e prudencia.
Reflexões e ralhos, terminavam quasi sempre
por aquelle sorriso que lhe viram os leitores quando
elle voltava de Miragaya.
Fernando vinha ainda alguma cousa pállido, debilitado,
ao que no corpo mostrava; porém nos olhos
havia um fogo extraordinario, uma alegria pintada
em todo o semblante, e nos movimentos uma força,
uma rapidez, que não parecia de quem entrára
pouco
havia em convalescença. O tio bem lhe dizia que
moderasse o passo, pois lhe fazia mal aquella violencia,
e elle mesmo a custo o poderia seguir sem
correr; mas o mancebo, se o affrouxava, era por instantes.
O sol, ainda quasi a prumo, podendo, dardejar
os raios por entre as esguias e altas edificações
das
estreitas ruas, que percorriam, rarefazia o ar, appresentando
nos terreiros á vista a illusão de um como
doudejar de átomos no ambiente, um tremor que fere
os olhos; porém Fernando nada sentia. Ia vêr
Irene,
Irene que não vira desde o esboroamento fatal do
muro; Irene, que João Ramalho, em vesperas de se
fazer de véla para a Figueira, d'onde seguiria para
Lisboa, recolhera ao castello de Gaya, recommendando-a
a D. Catharina. A nobre senhora era
bastante astuciosa para não affagar em quanto fosse
conveniente um homem popular como o piloto
mercador, e fallando elle em metter a joven em um
convento, em quanto ia servir o Mestre, para a guardar
dos riscos a que a idade a expunha, se offerecera
para a tomar como donzella sua «e tel-a como filha»
palavras della. D. Catharina devia ir ao campo
das Hortas nessa tarde, e por João Bispo soubera o
mancebo que á sua namorada fôra concedida a honra
de formar parte do seu cortejo. Em logar do sol
que fazia, podia queimar o dos tropicos, que o mancebo
o sentiria tanto como a aragem fagueira por
sesta do outomno, ou a gellos de hinverno.
O recontro de Leça deixára desassombrada a
cidade,
e os bons burguezes entregaram-se todos aos
cuidados de aprestar as embarcações e mais
soccorros
pedidos pelo Mestre de Aviz, posto em apuros
pelo aperto do sitio e bloqueio. Em quanto o abbade
de Paço de Sousa se dirigia a Coimbra, transtornada,
como vimos, a embaixada do alcaide de Monsaraz,
as galés vindas de Lisboa e outras do Porto,
já prestes, para não perderem tempo
tinham-se feito
de véla pela costa da Galliza, capitaneadas pelo conde
D. Pedro, lançando contribuições aos
povos que
não queriam experimentar o nosso ferro. Destruido
completamente o Ferrol e queimadas algumas naus,
pelos fins de Junho de novo a frota appareceu nas
aguas do Douro, rebocando umas sete presas, e carregada
de despojos.
Os sinos de todas as torres da cidade balouçaram-se,
atroando os ares; berrou-se em todas as
escalas os vivas do costume, e os edis, no fogo do
enthusiasmo, decretaram uma festa esplendida, como
appensa á de S. João, santo sempre popular e mais
nessa quadra, por ser o do nome do Mestre, que o
povo tinha por um Messias, como diziam os partidarios
de D. Beatriz. A vespera da commemoração
do nascimento do Baptista, morto por ter desdenhado
da dança, devia ser celebrada com danças,
guinolas,
touras, momos e por um vistoso torneio, que
tinha de ser o assombro da terra, pouco affeita a tão
graúdos folguedos.
Desde o amanhecer do dia 23 o campo das
Hortas estava cheio de gente embasbacada para o tablado
levantado na vespera, que alguns operarios cobriam
com tapeçarias, em quanto outros davam a ultima
demão ao circo, ou estacada, adornando-a com
bandeiras, panoplias e festões de ramagem.
Aos gritos e cantigas dos trabalhadores, aos commentos
dos curiosos, ás risadas pouco e pouco se
juntavam os pregões das vendilhonas de fructa, dos
taberneiros, fritadeiras e padeiras, que assentavam
as suas mezas, as suas tendas, ou os carros enramados
por todos os lados, que o circo deixava devolutos,
e pouco antes do meio-dia era já difficil
mover-se
no campo, apinhando-se além disso um gentio
immenso nos adarves e torres da cidade, por aquelle
lado, e na encosta dos dous montes do Olival
e Batalha. Se até ahi os bons burguezes tinham
aberto a bocca para as tapeçarias onde a agulha ou
a lançadeira traçara os episodios dos contos de
cavallerias,
mostrando o rei Arthur, Amadis, Lisuarte,
Galaor, a duqueza Iguerna, Mabilia, Oriana, Urganda,
Brisena e outras muitas personagens, que para maior
illucidação dos seus feitos e ditos tinham a
sahir pela
bocca o texto da
«illustração»; se ficavam
embellesados
nos grandes pannos de ouro, trazidos da cathedral
para enfeitar o esperavel do estrado das
damas, nos estandartes, onde havia divisas de toda
a sorte, bordadas ou pintadas, mais pasmaram quando
começaram a apparecer os mantenedores das justas,
os improvisados arautos, mestres e juizes de campo,
passavantes, sergentes, menestreis e trovadores,
que para a festa tinham sido igualmente apenadas as
musas.
O Porto, behetria havia muito, entregue todo ao
commercio, quando não se divertia a jogar as cristas
com os seus bispos e a pugnar pelas suas liberdades,
o Porto tinha visto passar os cortejos de alguns
reis e principes; mas de fugida, meios envergonhados,
como o de D. Fernando, ou em som de guerra, e
em devota romagem e peregrinação: cortejo assim,
festa egual nunca se déra, pois nunca, como
então,
se reuniram de muros a dentro tantos e taes elementos:
tinha uma côrte de seu. Os mesteiraes e os
burguezes nesse dia, tão enlevados estavam nas
louçanias
que se desenrolavam, que abriam caminho com a
melhor vontade aos cavalleiros, e alguns mesmo suspiravam
por que fosse levantado o interdicto a quem
com tanto garbo soffreava um ginete, vestia tão airosamente,
e fazia tão acabadas mesuras.
Tinham as corporações apparecido com as suas
bandeiras, precedidas pelas figuras que davam para
abrilhantar o acto, como na procissão de Corpus:
tinham-se
reunido, amontoado os trajes mais variados, desde
as vestes negras, compridas dos juizes, alvazires e
meirinhos, as jorneas partidas, de panno bristol, de
seda e velludo, os briaes blasonados, as marlotas dos
mouros dançarinos, as olandilhas, as opas dos
foliões
e jograes, os arnezes polidos, espelhando o sol,
adamascados ou tingidos de vivas cores, os vestidos
de brocado, de panno de ouro e prata, os arminhos
e zibelinas das damas e donzellas, a almafega e o
burel de certos momos; casavam-se os preludios de
todos os instrumentos; o arrabil e o tiorba, a charamela
e o clarim, o tambor e o pandeiro, estrugiam,
chiavam, rangiam; mas tudo aquillo dava vida e
animação,
afinava, no meio da sua desafinação, permitta-se
dizer, com o ressalte das côres, que como
em brazão pareciam postas, com os alaridos, as risadas
e os vivas, quando Fernando penetrou no palanque,
onde seu tio, como notabilidade da terra,
conseguira bom logar.
O mancebo, mal entrou, estendeu a cabeça, a
procurar com a vista não os arautos improvisados,
que se pavoneavam de ambos os lados da liça, vistosamente
trajados de branco e azul, com as armas
da cidade bordadas no peito, nem os mestres de
campo, montados já em bem ajaesados corceis, e correndo
de um para o outro lado: foi para o estrado
ou cadafalso das damas. Estava porém cerrada a cortina,
e, que não estivesse, no palanque era tal o
reboliço,
tanta gente estava de pé, que
não seria facil
descobrir lá alguem, a não estar em logar
eminente.
Mestre Gonçalo Domingues, parte por natural
curiosidade,
parte por desejo de ostentar perante os visinhos,
como os paes costumam, quando se embellesam
nas prendas dos filhos, inquiria a significação
de todas aquellas tapeçarias, e amofinava-se por ver
que o sobrinho mal lhe prestava attenção,
respondendo
de tal sorte, que facil era ver que nem sequer
olhava para o sitio indicado.
De repente notou-se um marulhar de cabeças, e
á algazarra succedeu o silencio. Os alvazires appareceram
no estrado para elles preparado, e em outro,
contiguo ao das damas, os juizes do campo—Ruy
Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo.
As trombetas soaram; alvazires e juizes tomaram
assento, e depois de feitas as costumadas ceremonias,
um dos trovadores ergueu-se, desenrolou
um pergaminho cheio de illuminuras, e começou em
voz alta a recitar o seu poema, que era nada menos
que um elogio aos guerreiros da espedição
maritima.
A poesia nessa epocha era tida em grande conta, e
as attenções, por tanto, da assemblea voltaram-se
todas
para o bardo. Uma cabeça, uma só se volvia
attenta
para outro lado, e esta cabeça era a de Fernando.
A cortina de cadafalso das damas fora corrida
por dous pagens, e D. Catharina e mais umas
oito damas da nobresa das visinhanças da cidade
tinham apparecido rodeadas pelas suas donzellas.
Os trovadores podiam dizer bocados de ouro sobre
façanhas militares, que as palavras eccoavam como
sons vagos aos ouvidos do namorado moço; os
versos de amores, esses, como se affinados pelo sentimento
que o dominava, ligados por uma corrente
magnetica, faziam-no sorrir e córar, sem comtudo desviar
os olhos do estrado.
Depois que as palmas de todos os lados, e as
trombetas soaram, quando o vencedor proclamado, appresentando
o seu manuscripto a Gonçalo Pires, escrivão
da chancellaria, com uma corôa de louros, recebeu
em soberba bandeja um bonito sacco de argempel,
rico pelo bordado, e mais ainda pelas boas dobras
que o pejavam, premio votado pela municipalidade,
segundo antigas usanças, appareceu no meio
da liça o mantenedor das justas.
D. Pedro de Transtamara vinha, sobre garrido,
aprimorado, formoso.
Bem fraca figura fazem hoje nas nossas festas
e folguedos, com a esguia casaca preta e a gravata
branca de rigor, os alindados do seculo XIX á vista
da que faziam os nossos avós. Para o namorado de
hoje em dia no baile não ha meio de se distinguir,
de lisongear o amor da sua dama,
como então nos
torneios, nos jogos de cannas e argolas, nos bafurdios
e cavalgadas; não apparecem hoje os vistosos
trajes de seda, ouro e prata, as mangas bordadas,
de honra, as charpas ou bandas, nas quaes em cores
preferidas pela donzella querida se via a tenção
ou divisa, que recordava a ambos um protesto,
uma confidencia, ou descobria um pensamento. O
amor tinha, sobretudo no cavalheiresco seculo a que
transportamos o leitor, um culto, que hoje não tem,
hoje em que arrancaram a aljava a Eros, o facho ao
Hymeneo, e a ambos deram por distinctivo um saquitel
de lona, como a imagem globulosa de bemfeitor
de confraria. (Entre parenthesis, faço aqui
excepção
dos meus leitores: os que são casados, o são
por amor, e os solteiros e as solteiras ainda não deram
um sorriso, um olhar a dote algum de boa somma,
simplesmente pelo dote e nada mais. São a nata
das creaturas.)
O conde D. Pedro vestia sobre ricas armas de
Toledo cheias de relevos, esmaltes e
embutidos,
um
brial côr de cereja, onde, em vez do brasão
proprio,
havia bordadas chammas de ouro, e no escudo, esmaltado
da mesma côr rubra, e taxeado de ouro,
lia-se a palavra
«
Cuydado» entre
duas palmas, que
enramavam um sol feito de espadas. Um malicioso
notou que o desenho do escudo podia figurar a roda
de navalhas de Santa Catharina, e que a esposa de
Ayres Gonçalves trajava um corpete de tela, da côr
favorita do mantenedor do torneio, adornado com
um peitilho e fraldilhas de arminho; todos poderiam
notar egualmente que, quando, ao fazer caracolar o
seu ginete, o conde deu uma volta á roda do circo,
antes de tomar das mãos do escudeiro que o seguia
o elmo, a lança e o escudo, entre elle e a nobre
castellã se cruzára um olhar expressivo;
porém,
o governador de Gaya mostrava-lhe um sorriso de
agrado, e eram tão sabidos os recentes amores, que
o tinham feito abandonar a côrte de seu tio, que a
maledicencia achava-se um pouco embaraçada nos
vôos.
O mantenedor do campo foi saudado com tanto
enthusiasmo ou mais que o trovador, e da mesma
sorte foram acolhidos, em seguida, os contendedores,
que se appresentaram: Vasco Martins de Mello,
Gil Esteves, Affonso Darga, Henrique Fafes, um dos
irmãos Alvalade, micer Manoel Pessanha, Affonso Henriques
de Transtamara, e outros mancebos, todos tão
adornados e vistosos, que á multidão iam-se-lhe
os
olhos nelles, não sabendo a qual dar primazia. Depois
das ceremonias do costume e de um bafurdio,
jogo em que cada um mostrava a destreza no arremesso
das lanças, diversão tomada dos arabes,
começou
o combate. Vasco Martins, Henrique Fafes e
Alvalade perderam a sella, não supportando o embate
das lanças; micer Manoel, como mais affeito ao mar
que á terra, ao dar a volta em um dos extremos da
liça, para arremetter contra o seu antagonista, o fez
de sorte, que, roçando pela barreira com o cavallo, o
arremessou este para o outro lado, deixando-o menos
maltractado que a uns dous burguezes, que lhe amacearam
a queda com o corpo.
As damas debruçavam-se curiosas na balaustrada
do cadafalso, e mais curiosas do que as damas as
donzellas de honra e as burguesas, para quem tudo
aquillo era inteiramente novo e de fortes impressões,
como hoje se diria. D. Catharina de Figueiredo, entre
as do seu sexo, era a excepção, como Fernando
entre
os homens. Alguma cousa lhe prendia a attenção,
e essa cousa ficava perto da bancada onde estava
o mancebo. Seguindo a direcção dos olhares
frequentes da bella dama, encontrar-se-hiam as vistas
do sobrinho do forçureiro, e ao primeiro relance
dir-se-hia que se provocavam e comprehendiam.
D. Catharina notara Fernando; notara nos olhos
os reflexos do incendio ateado no coração, e
illudira-se,
como se poderia illudir muita gente. Extranhar
a audacia a principio, podia-a extranhar; porém,
mulher, havia de achar-lhe indulgencia, por virtuosa
que fosse. Não o era. De sangue ardente, fogosa
por temperamento pertencera, demais, á corte de
Leonor Telles; era uma das damas com que a astuta
rainha jogara, para formar partido, cativar a benevolencia
dos cavalleiros a principio um pouco do parecer
do povo que apedrejara os paços de apar S. Martinho,
e não desdissera depois da escóla em que se
criara. Nos seus galanteios não encontrara nunca um
olhar de adoração como o que interceptava;
Fernando
Vasques fizera-lhe mesmo uma impressão mais
que extraordinaria: fizera-lhe não só, alli,
esquecer
o conde; mas, depois, ainda mais, a distancia em que
estava ella, dama de alta linhagem, de um simples
burguez, um peão.
A illustre dama não contava com Irene, que se
occultava, córando, atraz da poltrona em que se sentava:
o filho do mestre de Santiago não contava tambem
com o sobrinho de Gonçalo Domingues; mas
via claramente que as côres e divisas que tomara
podiam ser taxadas de vaidade, presumpção e nada
mais.
Quando um novo contendor entrou na liça, estava
tão preoccupado o nobre mantenedor, a procurar
quem lhe podia roubar completamente as attenções,
que não reparou que era esse o mais destro de
todos, affeito aos jogos dos arabes de Granada, a
medir-se com os cavalleiros da Africa ao serviço dos
Alhamarides; que era seu proprio irmão, Affonso Henriques.
O moço castelhano, passando junto do conde
guiou tão destramente o cavallo, que lhe roçou
pelas
joelheiras, e dando um geito á lança, na
carreira,
desviou completamente a do seu antagonista
e tocou com a sua no escudo de tal sorte, que o
braço que o segurava, estendeu-se; a mão abriu-se
e aquella arma defensiva foi ao chão. D. Pedro, ao
ouvir os applausos levantados a seu irmão, e com a
cabeça perdida pela distracção da sua
dama, ergueu-se
furioso nos estribos e arremetteu contra elle.
A sua lança desfez-se desta vez em hastilhas no
arnez do mancebo; porém este não saltou da sella,
e em poucos instantes estava outra vez em frente
do conde. A lucta tornou-se então um verdadeiro
duello, e as regras do cartel apresentado no principio,
consentindo tudo que fosse destresa, e mandando
parar ao primeiro ferimento ou queda, pois
que não era justo que grande mágoa enlutasse
tão
grande festejo, foram despresadas. O conde tinha sido
desappontado nos seus galanteios como homem, e nos
seus brios como cavalleiro. Ás lanças succedeu a
espada; e as espadas como a lança quebraram, amolgando
os elmos, disjuntando e torcendo peças dos
braçaes. Tomaram um a maça, outro o machado, e
furiosos correram um para outro.
O tio de Nuno Alvares Pereira e Ayres Gonçalves
de Figueiredo, estavam tomados de assombro para
intervirem na lacta; os mestres de campo, que a
principio haviam tentado manter com os arautos as
condições do cartel, tinham-se,
embaraçados, por noviços,
retirado para junto das bancadas, e olhavam
uns para os outros e para os juizes, procurando
conselho, que não viam nos olhos de ninguem. Os
espectadores, homens e mulheres, esses applaudiam
os epysodios da lucta.
A massa ressoou na armadura de Affonso Henriques,
e a um rugido, um regougo seguiu-se um
fio de sangue a correr por entre as fendas do gorjal
sobre o arnez. Os contendores tinham-se esquecido
de que eram irmãos. D. Pedro, sobretudo,
estava cego. O brial do conde fez-se em farrapos,
enrodilhado pela machadinha; o ginete em que montava
D. Affonso, ferido na cabeça, apesar de acobertado
de ferro, cahiu na arena levando o cavalleiro.
Os gritos da multidão, como nos circos romanos,
eccoaram pelos montes visinhos.
—A pé, a pé! gritaram alguns cavalleiros
enthusiasmados,
exigindo a egualdade de combate.
Não foi preciso repetir a exigencia: ou melhor
fôra ella escusada: o conde de Transtamara
lançara-se
abaixo do cavallo, e corria direito para o irmão, que,
já erguido, com o machado no ar o esperava.
—Cavalleiros, cavalleiros! exclamou Ruy Pereira
ao mesmo tempo que Ayres Gonçalves, querendo
sustar o combate.
Os passavantes e o mestre de campo correram para
a arena, porém quando chegaram junto dos irmãos,
um delles, D. Pedro, soltáva um grito doloroso,
e cahia com todo o peso do corpo, fazendo
ranger e estallar todas as peças da armadura.
O guante de ferro que lhe guarnecia a mão direita
estava despedaçado, e despedaçado o pulso. O
sangue tingiu a areia da liça.
—Jesus! se ouviu do lado das damas e depois
uma borborinha correu pela assemblea; pois a queda
do sobrinho do rei de Castella, tomada como o baquear
extremo, produzira no povo uma impressão desagradavel.
Aquelle rumor e assombro fizeram cahir em si
Affonso Henriques.
Os momos que se seguiram ao torneio foram sem
interesse para os espectadores entretidos a commentar
o combate extraordinario dos dous nobres castelhanos.
Se recrearam alguem foi a Fernando Vasques
e a Irene, e pela duração; não por
outra cousa.
D. Catharina não havia tambem despregado os
olhos do mancebo. Ao cavalleiro que a invocára no
torneio, se concedera um olhar, fôra de curiosidade.
Quando este tornára a si do desmaio em que a dôr
e o sangue perdido o haviam feito cahir, passando
junto delle, ao entrar para as andas em que viera
de Gaya, teve algumas palavras; mas ainda, se não
dirigidas, allusivas ao sobrinho de Gonçalo Domingues,
que tratára de seguir Irene, apesar das
exclamações
do velho forçureiro, pouco amigo de se metter em
apertos, lembrado do desembarque de Ruy Pereira.
—Bello pagem se fizera daquelle mancebo... se
fôra de linhagem! Não é certo, micer
Guilherme? disse
ella.
—Bello pagem! disse o irlandez, que de certo
devia ter achado a festa menos divertida que o recontro
de Leça, e sem mesmo olhar para o joven que
D. Catharina designava com a vista.
Fernando, perto da linda filha de João Ramalho,
mais formosa agora e esbelta com as galas que lhe
consentira a castellã, embellecido o rosto pelo amor;
Fernando não ousára erguer os olhos, e
sustentára
assim a illusão para a antiga donzella de Leonor Telles,
que repetio:
—Bello pagem!
IX.
Garifa.