Cade in tanto dolor, che si dispone
Allora allora di voler morire......
Ariosto—Orland.
fur. cant. V.
Maravilhou a todos o spectaculo
Inesperado...
Que será? disse emfim um rumor surdo
De vozes dos que tremulos pararam...
Garrett—D.
Branca—cant. I.
—Para longe o agouro! Ora esta! dizia, horas
depois do torneio, em Gaya, junto da fonte do rei
Ramiro, a mulher de um galeote.
—Pois que é, tia Dordia? interrogava outra.
—Que ha de ser? Vindo ás vozes do lado do
monte, ouvi fallar em affogado, e bem sabe que o
meu Manoel anda por esses mares!
—Para longe o agouro, repetiu a outra mulher.
Isto de agouros nem sempre são certos. Fé em
Deus,
que elle fará as cousas pelo melhor.
—Fé em Deus tenho eu; mas bem mau é que em
noite de S. João se ouçam cousas destas! A velha
Mafalda, o anno passado, ouviu, ao passar ao arco de
S. Domingos, fallar em um justiçado, e bem sabe o
que aconteceu ao filho.
—São signaes que cada um traz ao nascer.
Mas ainda não é meia-noite, proseguiu a mulher,
querendo
consolar a senhora Dordia da crença ainda hoje
existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera
de S. João, ao cahir da meia-noite, se procura
um prognostico, ou noticias da sorte de pessoa ausente,
as dão as primeiras palavras de qualquer conversa.
—Deus a ouça, visinha... Deus a ouça; mas
parece-me
que já será: o sete-estrello vai alto!
—Não é, não.
Ólá, João Canhoto, meia-noite
será?
—Não é, tia Luiza. Quer ir saltar as fogueiras?
—Eu não: forças para tal Deus as
déra. O meu
tempo já passou. Quando rapariga!...
—Então deitou ovo em escudella?
—Para que?
—A vêr se lhe sahe arco de egreja, respondeu
o homem, que dava pelo nome de João Canhoto,
rindo.
—A mim agora só se me sahir tumba. Isso é
bom para cachopas.
—Vamos, vamos, tia Luiza; ainda está féra,
rija como um virote, e um noivo agora era mel pelos
beiços.
—Seu bargante! exclamou a velha, mostrando
no rosto que a mofa do galeote não era inteiramente
recebida como tal.
—Então, ainda não é
meia-noite? tornou a perguntar
a senhora Dordia, bastante impressionada pelo
agouro tomado, para delle tirar o sentido, não obstante
os gracejos dirigidos pelo galeote á sua amiga.
—Qual meia-noite! Ao cantar do gallo toda
a chusma, que anda por ahi, ha de vir em descante.
É uma festa de estrondo cá da gente.
Verá se lá os
da cidade nos levam as lampas! Só violas é uma
meia
duzia, e os rapazes que as tangem são mestres acabados.
É de se abrir a bocca. E o Safio? Se ha por
ahi quem saiba deitar uma cantiga como elle, que
eu beba agua toda a minha vida! O Safio vem no
rancho.
—Então, temos grande descante? interrogou uma
outra mulher.
—É esperar para ver.
—O sitio não é lá dos melhores.
—Dizem que por aqui...
—O que?
—Que em noite de S. João apparece na fonte
uma moura encantada... Ora uma moura de não sei
que rei...
—Bôa, bôa! exclamou o galeote. As mouras
não se vem metter assim com um homem do mar,
por mais tresloucadas que andem. Se ella quizesse
bailar na festa...
—Credo! Não diga isso, que o póde ella ouvir!
exclamaram duas ou tres mulheres ao mesmo
tempo.
—Ai, senhor João, bem se vê que
não é da
terra, e não sabe que é certo o apparecer
ás vezes ahi
a maldicta. Minha avó, que Deus haja, quando era
rapariga, viu-a, disse a tia Luiza.
—E vi-a eu, vai em tres annos, com estes que
a terra ha de comer, accudiu a tia Dordia.
—E eu, disse outra.
—E eu, exclamaram em seguida mais cinco ou
seis.
—Então, como é a moura?
—Ora como ha de ser a moura? É uma figura
branca, toda branca, muito branca, com os cabelos,
nem fios de ouro, soltos pelas costas; e apparece
a bailar na agua de um para o outro lado...
—Hoje quebra-se-lhe o encanto, atalhou o galeote,
que era para o seu tempo um grande incredulo ouvindo
um desfinar de instrumentos do lado da povoação.
—Alli vem a festa! Lenha para ahi! exclamou
em seguida, dirigindo-se a um rancho de creanças de
ambos os sexos, que saltavam por cima do brazido
deixado pela fogueira.
A festa annunciada não tardou com effeito a apparecer.
Uma grande porção de galeotes, petintaes
e espadeleiros de Gaya e Villa Nova arranhavam em
violas, tocavam tamboril, ou cantavam, fazendo coro, a
canção entoada por um rapaz alto e de ar jovial,
que era nem mais nem menos o Safio apregoado por
João Canhoto. Para se dizer toda a verdade, deve-se
accrescentar que a desafinação dos instrumentos
não destoava das vozes, um pouco roucas, como as de
todos os embarcadiços, e demais ressentindo-se de
brodio feito em tasca.
Uma voz cantava:
Em noite de S. João
Até no mar traiçoeiro
Accendem anjos ou fadas
Em cada vaga um luzeiro.
E, velas de seda ao vento,
Passa a galé encantada;
Remos de ouro batem n'agua
Ao som de branda toada.
No ceo bailam as estrellas
Bailam as mouras nas fontes...
...........................................
—Jesus! exclamou uma mulher, pallida, com os
olhos espantados, lançando-se a tremer no meio da
festa.
As violas calaram-se, o cantor, que desta vez
dizia versos, que não eram de sua lavra; os coros,
que repetiam no fim de cada estrophe um estribilho
maritimo, calaram-se tambem; os rostos tornaram-se
de finados, como se tornara o da mulher. Esta,
com o braço estendido, designava a fonte de D. Ramiro.
Se vós, leitora, que talvez por mais de uma
vez apregoastes que não credes em muita cousa natural,
quanto mais nas que o não são, visseis o
que Safio e os festeiros de Gaya estavam vendo, a
côr do rosto vos fugira, como a elles lhes fugiu, e
talvez, como a vossa organisação não
é a de qualquer
petintal, um desmaio vos tirasse de sustos.
A lua no extremo da sua carreira, redonda, mergulhava
no mar, marcando nas aguas uma esteira
tremula, de um brilho duvidoso. O disco, meio embaciado
pelos vapores do occeano, podia servir para
uma imagem funebre: dir-se-hia que era o espectro
do sol. Na outra margem, para o lado da cidade, por
entre fogos vermelhos, appareciam e desappareciam
figuras negras, como possuidas de uma vertigem, de
frenesi, e a aragem trazia nas azas humidas pelo
orvalho, um concerto de rizadas em todas as notas
possiveis da escala, e uma discordancia de instrumentos,
como em ronda de feiticeiras. O rosto tornava-o
negro uma immensa fogueira feita na praia. Os reflexos
da luz davam ao rosto dos marinheiros de Gaya,
tomados de assombro, um todo phantastico, assustador.
Toda esta scena momentos antes era alegre.
Uma só cousa bastára para a transtornar. Entre o
fundo escuro em que se mergulhava a margem opposta,
em consequencia da fogueira que fizera avivar João
Canhoto, e o lanço do rio tocado pelos derradeiros
raios da lua, junto da fonte, á beira da agua, via-se
uma figura branca, indefinida em tudo que não era o
contorno, movel, conforme as oscillações e
intensidade
dos fogos, accesos que parecia, mais do que a pousar
na terra, suspensa do ar, baloiçada por fio invisivel.
Aquella apparição, como transtornára o
aspecto da
scena, como déra aos cantos e aos risos um tom sobrenatural,
tornára immoveis quasi os collegas de Safio.
Se não fosse o movimento que faziam para se
aconchegar uns aos outros, dir-se-hia que ella os havia
petrificado. O suor innundara-lhes a fronte, e o frio
corria-lhes pela espinha dorsal.
A campa do convento de Corpus-Christi dobrou
compassada marcando a meia-noite, e ao mesmo tempo
quasi uma nota plangente vibrou no ar. Marinheiros,
que tinham affrontado a tempestade com
o coração
sereno, que nas galés reaes ouviram
sibilar
os pelouros, sentiram perto do craneo o embate do machado
no machado tremeram como as folhas dos alamos.
Das mulheres nem fallamos. Todas as orações,
todas as fórmas de esconjuros se lhes embaralhavam
na memoria, e os lábios negavam-se a pronuncial-as.
—Meia-noite, tartamudeou João Canhoto, momentos
antes emprazador de phantasmas, e fazendo
ao soar a ultima badalada o signal da cruz ás avessas.
—Valham-me os santos e santas do céu!
—Jesus! bento nome de Jesus!
O silencio que estas exclamações interrompiam
era tal que se ouvia o respirar não muito
desembaraçado
daquella boa gente, e o terror tambem
era tamanho, que as passadas e mesmo a apparição
de um homem junto do rancho dos festeiros não foi
por elles notada. Daquelle pasmo pasmou o recem-chegado,
mas não por muito tempo.
—Ui, Canhoto, exclamou elle; que mau olhado
vos deu, e em toda essa gente, que tendes cara de
quem viu o trêpo em encruzilhada?!
—Jesus! bento nome de Jesus! repetiram as
mulheres, deitando a correr para o lado da
povoação,
como se a presença daquelle homem quebrára
o encanto de terror em que estavam.
—Ui! tornou elle, que demonio se lhes metteu
no corpo?! Nem bando de cotovias que farejaram
besta armada. Eh! Canhoto, que feio esgar que
estás a fazer! Estás mudo, homem? Aquelles
pergaminhos
velhos de saias que fugiram a grasnar eram
bruxas? Em noite de S. João...
João Bispo, pois era o nosso conhecido o recem-chegado
calou-se, e recuou espantado, fitando
um gesto dos galeotes de Gaya a apparição
phantastica
que os atemorisára, e quasi ao mesmo tempo
dous gritos se confundiram com o baque de um
corpo no rio. O phantasma branco, a moura encantada
durante a enfiada de perguntas de João Bispo,
approximara-se da margem do Douro, erguera os
braços ao céo, como em supplica, e precipitara-se
na
corrente. Durante este movimento o bésteiro reconhecera
naquelle vulto um ente querido, e ao grito,
soltado como em adeus extremo ao mundo, juntara-se
outro de angustia tambem. O pasmo produzido
pelo reconhecimento feito em taes circumstancias não
foi longo, porém; ao baque na agua do corpo da
moura seguiu-se outro, o do bésteiro.
—João! João! exclamaram alguns galeotes
perplexos;
sem saber como traduzir na sua intelligencia
o passo do condiscipulo de Fernando.
João não ouviu sequer aquelles gritos.
—A moura saltou ao rio! disse um espadeleiro,
que se attrevera a procurar com a vista a causa do
terror geral.
—Foi para casa de
Brazabu!
redarguiram dous
ou tres, tomando de um folego o ar necessario para
cem homens, e limpando com as costas da mão
o suor frio que lhe banhava o rosto.
—João! João! tornaram os que mais perto estavam
da praia.
—Arrastou-o a maldita. Não viram os olhos que
ella deitava. Eram dous luzeiros.
—Guay delle! Aquillo não era moura; era o
tinhoso, resmungou o espadeleiro, fazendo o signal
da cruz, o vigessimo talvez nessa noite.
—A modo que sim, tio Vasco. Cheira aqui a
não sei que.
—Olhem! olhem! disse com voz abafada outro
marinheiro, que se attrevera a approximar-se da margem,
e de novo recuára atterrado. Olhem! olhem!
Não veem na agua aquelle marulhar? A moura filou
o bésteiro.
—A Virgem santa seja com elle! murmuraram
tres ou quatro a um tempo, dando o nosso homem
como perdido de corpo e alma.
No rio, mesmo na esteira que prateava a lua,
com effeito apparecia e desapparecia, para de novo
surgir á flor d'agua, um vulto, a bracejar. De uma
das vezes não veio só. O vestido da moura
alvejou,
tocado por um raio de luz, e a crença, dos marinheiros,
de que João Bispo era arrastado por um espirito
ou pelo demonio, mais se confirmou, levando-os
a novos esconjuros. O bésteiro sobraçando o
corpo e segurando com os dentes as vestes da infeliz,
embaraçado nos movimentos, luctava com a corrente
afim de alcançar a margem.
—A mim! a mim! gritou elle de uma das vezes
em que veio ao lume d'agua; porém os marinheiros
olhando espantados uns para os outros não
se moveram em seu auxilio.
—S. Pedro seja com sua alma, murmurou o velho
Vasco, recuando ao passo que o bésteiro se approximava
da margem, um pouco escarpada naquelle
sitio e então mais do que hoje. Que se apegue com
a Virgem, não com a gente, que nada póde com
encantos.
—Oh de terra! soccorro, por Deus, que se me
fina esta desgraçada! tornou João Bispo com uma
inflexão
de voz, que denotava o desespero que ia naquelle
coração.
Safio e Canhoto, por um impulso sobre o qual
nem tempo tiveram de reflexionar, correram á
praia. Safio approximou-se da rocha junto da qual
o bésteiro se debatia, segurando sempre a mulher
de branco.
—Uma mão a esta pobre, que já mal respira.
—É uma rapariga! exclamaram os dous marinheiros,
estendendo os braços a segurar aquella que,
momentos antes, tomavam todos por um ente sobrenatural.
Os petintaes, galeotes e mais festeiros pouco a
pouco se tinham approximado, ouvida esta
exclamação,
e vendo que se não tratava de mais do que
de arrancar á morte uma creatura, o exemplo de Safio
e Canhoto foi seguido, e, instantes depois, João Bispo
a depositava em terra a sua preciosa carga.
De novo reinou o silencio. Os marinheiros atordoados
com as sensações diversas experimentadas em
tão curto espaço de tempo, formaram roda ao corpo
da mulher, que inane, desmaiada haviam conduzido
para junto de uma fogueira, e deitado sobre um
monte de trevo, alfombra improvisada das moças da
terra, dispersas pouco havia. João Bispo com o olhar
fixo, espantado, as mãos pendentes, os lábios
entreabertos
contemplava o rosto da moura, pois moura era
a desfallecida. Parecia ter-se-lhe apagado completamente
da memoria o que acabava de se passar: o
corpo alli prostrado era uma surpresa. De repente
deu um grito; lançou-se de joelhos junto da moura,
tomou-lhe a cabeça no regaço, e palpou-lhe as
faces
e o seio, a vêr se encontrava o calor da vida, e,
curvando-se, entre carinhos, como se com elles a
quizesse acordar daquelle lethargo, exclamou:
—Garifa! Garifa!
Garifa não respondeu. Os lábios contrahidos,
lividos, perdido o fogo que animava aquelle rosto moreno,
quando, pelas grandes festas, nas danças e
folias, com que as da sua raça contribuiam, fazia
girar sobre a cabeça o adufe, ou agitava os cascaveis
que lhe adornavam o curto saio; os olhos cerrados;
as longas cilias cheias de gotas d'agua, como se a
morte a surprehendesse entre prantos, nem um suspiro
desprendia; nem um movimento, por leve que
fosse, se lhe notava.
—Morta! tornou a meia-voz, atterrado, o bésteiro,
tirando do cinto o punhal, e chegando-lhe a
folha aos lábios depois de a ter limpado.
Um raio de luz, um raio de alegria passou pelos
olhos do magoado amante, quando o fraco alento da
moça formou uma mancha na folha luzidia.
—Garifa! Garifa! tornou elle a exclamar.
—É viral-a de cabeça para baixo! resmungou
o velho Vasco; é a mésinha dos afogados.
—Garifa... minha pobre Garifa! murmurava o bésteiro.
—Safio, chega-lhe vinho; um trago não lhe fará
mal, gritou João Canhoto; e em seguida, tomando o
pichel que o seu companheiro trazia á cinta, derramou
algumas gotas sobre os lábios da desfallecida
moça, ao passo que este resmungava, vendo correr
o licôr a que não parecia
desaffeiçoado:
—Boa cera com ruins defuntos!
João Bispo lançou-lhe um olhar terrivel,
e fez
um movimento, como se tentasse desafogar em cólera
contra o imprudente marinheiro todo o peso do
coração, e estallar, quando Garifa moveu os
lábios
fazendo um gesto de repugnancia.
—Basta, Canhoto, basta! acudiu Safio, que não
reparara no bésteiro; vais fazer perder a alma á
rapariga.
No céu dos mouros... que é o inferno,
accrescentou por entre dentes... não entra quem prova
do sumo da uva, ouvi dizer.
O bésteiro arredára
Canhoto, e, com um braço
debruçando-se sobre o corpo da sua namorada, tomava-lhe
as mãos entre as suas, quando ella abriu
os olhos, murmurou algumas palavras inintelligiveis,
e tornou a fechál-os, soltando um suspiro.
—Garifa! Garifa! tornou a exclamar o amigo
de Fernando.
—Quem me chama? perguntou a moura, como se
acordára de um somno, com voz fraca, descerrando de
novo as palpebras, e fazendo um esforço para se erguer.
—Eu, eu, Garifa! acudiu João Bispo cheio da alegria.
—Porque me não deixaram morrer? murmurou a
filha de Humeia cobrindo o rosto com as
mãos.
—Morrer, Garifa?! E que querias depois que
eu fizesse no mundo! exclamou o mancebo affastando-lhe
com brandura as mãos do rosto. Que faria
eu? proseguio... Morrer... morrer tambem!
A moura meneou a cabeça; fixou a vista, como
admirada no besteiro; estremeceu toda, e dos olhos
rebentou-lhe o pranto ao mesmo tempo que os soluços
do peito. João Bispo, que, em alguns minutos
apenas experimentara os mais contrariados affectos,
a extrema dôr e a alegria, redobrou os seus carinhos,
as palavras affectuosas; mas as lagrimas continuavam
a correr em fio dos olhos de Garifa.
—Garifa, minha Garifa, porque choras? Deixa
esse pranto com que me amofinas. Eu estou aqui,
Garifa, e ninguem nos ha de agora separar. Tu cumpres
a tua promessa... e teu pae, que não espera já
vêr-te...
—Oh, meu pae, exclamou a moça interrompendo-o,
e de novo cobrindo as faces; com que rosto
lhe poderei eu apparecer?!...
—Elle perdoará tudo, Garifa; esquecerá tudo...
e que não perdôe, eu...
—Nem elle, nem tu; João... Oh! porque me não
deixaram morrer!
—Eu? Garifa? Eu não te entendo...
Que
mal
me fizestes? porque te hei de malquerer?...
João Bispo estacou, e de um salto ficou de pé.
O que se passara causara-lhe um violento abalo, para
dar logar a reflexões, e esquecera-se de que a mulher,
que assim tentava pôr termo á vida, tinha, duas
semanas havia, desapparecido; esquecera-se do que
lhe dissera o petintal e das suspeitas que o levaram ao castello de
Gaya. Tudo, porém, resumido em uma idea
unica acabára de lhe passar pela mente.
—Rausada?! exclamou, abaixando-se a arredar-lhe
de novo as mãos das faces, procurando vêr
se dos olhos mais depressa do que dos lábios obtinha
uma resposta.
A moça só redarguiu:
—Porque me trouxeram á vida... porque?
—Rausada! tornou João, passando uma das
mãos pela fronte, em quanto com a outra apertava
o cabo do punhal. O nome desse homem, e pela hostia
consagrada juro que dentro em dias o repetirão
em resa de finados. Falla, Garifa: o nome desse homem?
Vilão ou cavalleiro que seja, eu me pagarei em
sangue de quanto elle me roubou. Garifa, Garifa!
Soluços e lagrimas foi a resposta que obteve da
filha de Humeia.
—Garifa, não respondes? Dize... dize que não
te pozeram mão, dize, proseguiu o mancebo fóra de
si; livra-me desta idea que me faz perder a cabeça;
livra-me della ou aponta-me um homem em quem
desafogue todo o desespero que sinto. Tu não me
atraiçoaste, não; não era possivel...
Empregaram a
força; empregarei a força, e hei-de esmagar quem
quer que seja o rausador. Garifa, não respondes?
Uma palavra!
—Que queres que te diga, João? Esmagaram
o nosso amor, tornando-me indigna de ti: a filha de
Humeia não póde mais apparecer com a face
descoberta!
—E o refece, o maldito?! gritou o bésteiro
apertando com violencia os pulsos da moura.
—A aguia vôa tão alto que não a
alcança a garrocha,
murmurou meneando a cabeça, depois de alguns
instantes de silencio, a namorada de João Bispo.
—Quem foi, Garifa, quem foi?
—Deixa-me, João.
—O nome desse homem!... o nome desse homem!
—Não, não posso.
—Não pódes?...
—Não, não posso: dizer-te o nome era fazer-te
açoutar ámanhã no pelourinho... era
matar-te...
—Ayres Gonçalves... Henrique Fafes!... gritou
João Bispo.
—Não... não m'o perguntes...
—Qual delles, Garifa; qual delles? Affonso Darga?
—Ninguem!
—Ninguem?! O nome desse homem, ou tu és
tão vil como elle!
—Serei, João... sou. A moura do Olival, que te
queria tanto como á luz dos olhos, morreu no dia
em que lhe pozeram uma mordaça na bocca e ataram
os pulsos: atiraram depois o corpo ao monturo...
como de moura que era. Garifa morreu, João:
o que aqui está é uma desgraçada
corrida por palafreneiros...
a quem a lançaram...
—Calai-vos, calai-vos! exclamou o moço bésteiro,
pondo a mão na bocca da sua namorada. Não
póde ser... é impossivel!
—Antes fôra!... murmurou Garifa.
—Em má hora vim ao mundo!
João Bispo calou-se e deixou pender a cabeça
sobre o peito. Quando de novo a ergueu, as palpebras
estavam vermelhas, mas seccas; os olhos vagavam-lhe
incertos; o rosto estava pállido, e uma
contracção
nervosa dos musculos parecia emagrecer-lhe,
avelhentar as feições. O amigo de Fernando
Vasques,
occultava sob as vestes grosseiras um grande
coração,
cheio de fogo, de energia, e toda essa energia empregára-a
no amor da filha de Humeia. A moura
do Olival era tambem a unica mulher que topára no
seu trilho capaz de não esfriar essa paixão.
Não prendia,
não captivava sómente com a bellesa do corpo;
captivava com os dotes do coração, da
intelligencia.
Garifa tivera na infancia faixas bem superiores ás
telas grosseiras dos vestidos que trajava no Porto.
Para corresponder á exaltação, que a
vida ociosa e
ao mesmo tempo cheia de sobresaltos e de incertesas
produzia na mente do escolar de S. Domingos,
era necessaria a exaltação do sangue arabe,
fervente
nas veias de Garifa. É facil de avaliar qual o abalo
que o mancebo recebeu no caes de Gaya. Aquella
desventura, receara-a, temera-a; mas não se afizera
á
idem de que se realisásse; achára sempre a
providencia
a estender a mão á sua namorada, a protegel-a.
Na maré mais negra seguindo-a com o pensamento,
depois que ella desapparecera do Olival vira-a morta;
mas se encontrasse no Douro o seu cadaver, a mágoa
não fôra tamanha como a que sentia.
Mesteiraes e marinheiros fitavam commovidos
os dous amantes, que se conservavam mudos affastando
as vistas um do outro: João de pé, sombrio,
pensativo; Garifa de joelhos, lacrimosa, tremulla, branca
como a roupa que vestia por baixo do roto gabão, que
um marinheiro lhe lançara aos hombros.
—Rausada! murmurou passados momentos o
mancebo, sacudindo a cabeça, como se assim podesse
repellir aquella ideia.
Depois, estendendo a mão á pobre moura, ajuntou:
—Vem, Garifa; já não sou tambem o mesmo que
era. Vem commigo.
A moça, levada pela solemnidade da voz e do
gesto do mancebo, e ajudada por elle, levantou-se
machinalmente, e com passos mal seguros, seguiu-o,
perdendo-se os dois na escuridão da estreita rua
que guiava ao povoado.
Os marinheiros ficaram olhando uns para os outros.
—Pobre rapaz! murmurou um delles.
—A rapariga era a que chegou a noite passada,
quasi nua e toda magoada á taberna do tio Pero,
e que elle abrigou por caridade, e livrou de dous
mal encarados que a seguiam.
—Deu-me os seus ares della.
—Era a mesma, sem tirar nem pôr.
—Mal a puzeram em terra, conheci-a: era a
moura do Olival.
—Coitado do Bispo, resmungou o velho Vasco.
Bem enfeitiçado o traz a tal moura. Estas condemnadas
teem taes artes, que, se vos lançam olhado,
fica-se perdido de todo. Teem feitiços para tudo.
Um rapaz conheci eu no meu tempo, que se myrrou
de todo, e morreu por causa de uma destas maldictas.
Em casa da rapariga, uma moura, e linda até
alli, encontraram uma figura de cera feita a imagem
d'elle com os olhos pregados, e um alfinete enterrado
no sitio do coração.
—Qual feitiço, nem meio feitiço! resmungou
João Canhoto.
—Não acreditas! accudiu outro mesteiral. As
mouras todas sabem de feitiçaria, e quando querem
querem que um
homem lhes queira,
a ellas ou
a quem isso lhe pede, apanham um sapo, e cozem-lhe
os olhos.
—Não digo que se não façam desses
maleficios;
mas a rapariga do Bispo...
—Homem, é moura e basta.
—Moura ou christã, se enfeitiçava, era com os
olhos. Não precisava de outra cousa, accudiu João
Canhoto. A bôa gente vi ficar de bocca aberta para
ella, este anno ainda na procissão de Corpus, e depois
não tem sido nem a um, nem a dous senhores
de alta linhagem que tenho visto seguil-a, todos requebrados.
A um dos que está no castello ainda
ha semanas encontrei em seu alcance pela aljama,
era já noite cahida. Não disse nada ao Bispo, por
que elle faria alguma!
—Feitiços, feitiços, para nos perder a alma,
resmungou o velho.
—Ora, mestre Vasco! Tambem enfeitiçou ella a
quem o poz naquelle estado? A pobre, que se queria
finar por se vêr assim, é porque não
foi por sua
vontade que a tiraram de casa. Christãs conheço
eu,
como as palmas das mãos, que não a valem. Se
mestre Vasco estivesse mais novo, e ella lhe dissesse
palavras de bem querer...
—Credo! era um peccado!
—Deus me perdôe; mas eu não o tenho por
peccado; se o é, muita gente pecca.
João Canhoto não deixava de dizer a verdade:
as mouras por aquelles tempos roubavam ás
christãs
bastantes corações, tanto de nobres, como de
peões,
o que as obrigava a crêr em poderes occultos, para
não se confessarem derrotadas nos encantos. Nos
paços
dos cavalheiros e ricos-homens, muita descendente
de Agar, forjava dos ferros que lhes lançára a
escravidão
cadeias para os seus senhores: nas cidades
as mais jovens e formosas eram como Garifa forçadas
quasi a mostrarem as suas graças em publico
nas grandes solemnidades: eram as bailarinas da epocha,
e as bailarinas teem feito dançar muita cabeça
desde Herodiade até aos nossos dias. Os escrupulos
do velho Vasco não eram partilhados senão pelos
que
se viam no seu estado. Os legisladores, entretendo-se
a impedir relações ou
ligações entre as duas raças com
penas mais ou menos sevéras, não quizeram, ao que
parece, mais do que deixar prova de que ellas eram
um pouco frequentes, e que já então se faziam
leis
para ficarem letra morta, salva uma ou outra
excepção
feita com algum pobre de Christo. Nos
principios
do
seculo XVI ainda apparecem trovadores, que,
apregoando o seu affecto por descendentes de Azharat
e de Shobeia, não nos deixam ficar por mentiroso.
Para crédito das nossas avós christãs,
attribuamos
a maior recato dellas, as conquistas das moças
do Islam. O leitor, comtudo, não fique pensando
que estas não tinham sobre a virtude, sobre o
pudor e sobre o amor ideas
identicas ás professadas
por aquellas. Garifa não era uma
excepção unica feita
para João Bispo: as ideas com que hoje são
creadas
as mulheres no Oriente, não eram as das mulheres
arabes de Hespanha. Com pequenas excepções, o
amor
no seculo XIV tinha em Granada as mesmas leis que
na côrte da condessa de Champagne.
O leitor poderá agora dizer-nos o mesmo que Safio
a Vasco e João Canhoto:
—Deixemo-nos dessas cousas.
O marinheiro accrescentou:
—Vamos: a noite de S. João é para descantes
e folias! Venham as moças para o terreiro. Eia!
mãos á obra: avivar as fogueiras e tanger as
violas, que
as cachopas acudirão! Ehuh! Mafalda! Joanna!
Pouco depois ninguem diria que na praia da velha
Cale se tinha passado uma scena de lagrimas; que uma
pobre rapariga tentára pôr termo aos seus dias;
que um
coração se despedaçára. Um
bando de raparigas, de marinheiros
e mesteiraes, dando as mãos uns aos outros,
dançavam, ou melhor, giravam, formando circulo,
em volta de uma grande fogueira, e entoavam todos
esta cantiga, que os musicos da festa faziam por
acompanhar:
«Todas as hervas são bentas
Em noite de S. João
Só o trevo, coitadinho!
Anda a rasto pelo chão.»
E o sol, nascendo, ainda os encontrava no mesmo
local.
X.
Uma idea.
Não falta com razões quem desconcerte
Da opinião de todos na vontade.
Em quem o esforço antigo se converte
Em desusada e má deslealdade.
Camões.
Lusiad. Cant. IV.
Os burguezes do Porto tinham desempenhado a
sua palavra: os navios promettidos estavam a nado
nos aguas do Douro, promptos para dar á véla. Os
cavalleiros e ricos-homens nem todos procediam do
mesmo modo; o fogo do amor da patria era em alguns,
tibio, em outros nullo. Ayres Gonçalves de Figueiredo
era deste numero. Approveitara os conselhos
de sua mulher, e fazia todo o possivel por aguardar
que a situação se definisse para entrar com
segurança
na contenda. Martim Gil, mandado pelos portuenses,
ao conde D. Gonçalo, delle recebera uma resposta favoravel,
depois de feita, entende-se, a concessão das
terras da rainha D. Leonor a sua mercê, e a das de
Lordello e Bouças seu filho D. Martinho, fóra
outras miudesas, taes como dinheiro e peças de panno;
porém o conde adiava, sob pretexto de aprestes, a
sua partida, quanto lhe era possivel. O Mestre lembrava
continuamente os apuros em que estava a sua boa
cidade de Lisboa; mas os nossos homens não se queriam
metter tambem nelles, sem a certesa de bom resultado.
Ayres Gonçalves tinha os olhos no conde de Neiva;
Affonso Darga e outros cavalleiros aguardavam a
resolução
do alcaide de Gaya. Ruy Pereira, no entanto,
enfastiara-se de tanta delonga, e tendo Alvaro
da Veiga, Luiz Giraldes e Domingos Pires lembrado
que se enviasse a armada receber o conde á
Figueira, o alvitre fôra acceite, com grande
amofinação
dos Fabios politicos, que trataram logo de procurar
embaraços á sua realisação.
Uma circumstancia os favoreceu.
Quando, pouco depois do S. João, a municipalidade
tratava não só de abastecer as galés,
mas até de enviar
alguns viveres para os sitiados, como fôra requerido,
alguns companheiros de Fernando Affonso de Zamora,
deslembrados da lição dada em Santo Thyrso, ou
outros aventureiros similhantes appareceram nas visinhanças
da cidade. Mal a noticia se espalhára, frei
Garcia fora ter com Pedro Choca, e causára
nas tercenas um alvoroço extraordinario, pintando
as cousas o mais feias possivel. Este alvoroço,
graças
a outros individuos, se tornou contagioso; o temor
calou nos animos fracos, e na tarde desse mesmo
dia nas ruas, terreiros e praças
lamentações
não faltavam.
—Eis de novo esses malditos gallegos! más
terçães
os colham! dizia um mercador. Não nos deixam tomar
folego os hereges, e em bem mau estado vão já os
negocios. O tempo vai bom para espadeiros; que os
outros não veem pogea. Tudo são guerras, agora, e
desordens. Dantes não era assim. No tempo do rei
D. Pedro!... suspirou o bom homem, e concluiu meneando
a cabeça, e fitando os olhos no tecto da loja.
Este gesto queria dizer que no tempo do pae do
Defensor a paz florescia na terra, e era, talvez, copiado
de outro identico, feito pelo senhor seu progenitor
quando o amante de Ignez de Castro talava o Douro e
o Minho, e mesmo de algum feito por seu avô, affectado
pelas desavenças de D. Diniz com o pae do rei
D. Pedro.
—Não foram bem sangrados, e veem por mais
esses castelhanos ou acastelhanados, redarguia um visinho;
pois terão o seu escote, como o teve o de Zamora
e o arcebispo.
—Mal haja quem mal faz!
—Ruy Pereira, Ayres Gonçalves, ou qualquer
os receberão como merecem.
—Assim creio; e por isso, como me dizia ha
pouco mestre Lourenço, é que não acho
muito acertado
mandarem para Lisboa quanta bôa lança ha por ahi.
É dever acudir ao proximo; mas em primeiro logar
estão os da casa.
Quasi todos os dialogos, travados em diversos
pontos appresentavam, espremidos, o mesmo succo
que o do bom mercador quando pelo lado das
Hortas entrava uma grande manada de bois, e rebanhos
de ovelhas e cabras, destinados ao abastecimento
das galés. Alguns ociosos, encontrando-se com
a manada fizera-lhe cortejo; alguns mesteiraes, vendo
os ociosos, pousaram a ferramenta e engrossaram-no;
os garotos, que possuem o faro dos grandes
ajuntamentos, conhecendo que se formava um,
surdiram de todos os bêcos, para o completar. Ao
chegar o gado a S. Domingos, caminho das tercenas,
onde deviam os carniceiros preparar as carnes,
a procissão era solemne pelo numero. A ideia
que presidia a todas as lamentações ia ser
formulada de
outra sorte: frei Garcia e alguns outros apaniguados
do alcaide, achavam-se entre as turbas; Pedro Choca,
desembocára do lado da Esnoga, sahido de uma taberna,
onde, junto com individuos que deviam estar
debaixo da jurisdição de Tello Rabaldo, tinha
enxugado
algumas medidas de vinho, e não era pelo menos
destituido da manha necessaria para certas empresas.
Se o concurso era grande, tambem era ruidoso.
Os conductores da manada gritavam, vendo que uma
ovelha tresmalhava, picada por algum rapaz travesso, ou
um boi estacava, atemorisado por negaças; os homens
d'armas da escolta praguejavam no meio de
tantos embaraços; aqui uma mulher queixava-se de
que a pizavam; além alguns homens altercavam com
os bésteiros, que os repelliam do transito; mais longe
chorava uma creança. Os garotos e os vádios
praguejavam,
gritavam, riam-se, assobiavam, cantavam e
imitavam o balido de ovelhas e cabras, e o mugido
dos bois, como se os animaes se recusassem a tomar
parte naquelle concerto.
Entrando no terreiro a multidão, crescera a algazarra.
Uma chusma de homens cobertos de andrajos,
bem similhante á que estacionava no Olival,
no dia da chegada da mensagem, correra para as boccas
das ruas que iam dar ao rio, obstruindo-as
completamente. Quando os guardas dos rebanhos quizeram
abrir caminho para as tercenas, os vadios
demonstraram
a sua má vontade com apodos a que responderam
os acontiados da behetria com os contos
das azevans, ou as béstas, manejadas em ar de clava.
Nesta destribuição de pancadas foram, como
succede muita vez em casos taes, contemplados bastantes
innocentes. Um bésteiro, querendo chegar a
um velhaco, feriu no rosto uma mulher, levada para
o centro do motim pelas ondas de povo. O sangue,
correndo pelas faces da
pobre creatura,
indignou alguns
circumstantes, que só a curiosidade alli trouxera.
—Fazei praça, exclamou d'entre elles um burguez,
fazei praça, mas com tento. Guardai os virotes para
castelhanos
escismaticos. Em recontro ou batalha talvez o
braço não ande tão destro.
O acontiado fez um gesto como de quem ia empregar
syllogismo contundente; mas a prudencia o aconselhou
melhor, e contentou-se com redarguir:
—Cuidai no vosso mester, bom homem, e deixae-me.
Onde pozeram a mira estes velhacos sei eu.
Não lhes passa ha mezes pelas goelas bocado de cabrito,
e querem fazer bôdo com algum que filem.
—Olha o outro! gritou um petintal. Se não
comemos cabrito todos os dias, comemos pão; mas
amassamol-o com o nosso suor: não o vamos roubar
pelas padeiras. Os tagantes do aljube ainda teem
a pelle de dous dos vossos! Nós não nos servimos
das adagas para cortar escarcellas de mercadores
encontrados fóra d'horas.
—Muito nos custa a viver! acudiu uma gôrda
cidadôa,
e mais custará agora que levam todo isso para
Lisboa.
—E não parará ahi, disse um dos companheiros
de Pedro Choca do meio da turba: vai quanto
mantimento se encontra pela redondesa e ha na
cidade.
—Se os de Lisboa estão cercados pelos de Castella,
que façam como fizemos em Leça: se por
lá
estão minguados de mantimentos, tambem não nos
sobejam.
—E os do arcebispo ainda não foram desta
tão malferidos, que não possam voltar, disse uma
voz.
Alguns corredores teem sahido de Braga.
—É verdade, é verdade! berraram ao mesmo
tempo dez ou doze mesteiraes. Os de Lisboa que se
avenham como poderem.
—Teem braços como nós.
—E não havemos de finar-nos á mingua. Os
mercadores mandam boas dobras.
—E a prata da Sé vai tambem!
—Já os alvazires carregaram uma galé de armas,
e de Coimbra e Montemór vieram outras.
—Que se contentem com isso, e com o biscouto
e farinha que embarcaram!
—Deixai que não faltará, louvado Deus,
mantimento
na cidade, embora levem tudo isso ao Mestre.
—Fallais assim redarguiu um dos queixosos,
voltando para o ordeiro, que proferira estas ultimas
palavras, porque se um pão de praça vos custar
dous reaes brancos, tendel-os na arca! Nem mealha
deixaremos embarcar.
—Nem mais tanto como uma unha negra!
Este dialogo, ou esta scena, que se passava ao
pé do arco, como nas tragedias antigas tinha o seu
côro n'uma gritaria descompassada de que seria difficil
dar uma ideia. O que sobresahia no meio de
tudo, eram os
vivas e os
morras.
Se se perguntasse
a cada um dos coristas em separado porque
davam essas vozes, nenhum talvez vol-o diria,
a não ser que confessassem que sentiam a necessidade
de gritar, e que na falta de melhor cousa,
aquellas palavras serviam perfeitamente para tudo:
enthusiasmavam, animavam o tumulto, e de mais
apregoavam que eram muitos bons patriotas. Os
vivas eram ao Mestre; os morras aos scismaticos:
levar a mal aquella berraria, ninguem podia levar.
Do lado opposto a algazarra era a mesma, com
pequenas variantes.
Os conductores de gado e os guardas embrulhados
pela chusma não tratavam já senão de
se deslimdarem
della, e de acudir aos rebanhos.
Alguns amotinados tinham, para desembaraçar
o terreiro, conduzido a maior parte do gado graúdo
para as azenhas: ovelhas e cabras, essas corriam
em todas as direcções. Para cumulo da
confusão,
quando Pedro Choca e os seus companheiros persuadiam
o povo a que se dirigissem ao paço episcopal
ou á casa do municipio, dous touros, enfurecidos ou
assustados pelo ruido e negaças d'alguns garotos, tinham
aberto caminho para o lado da Esnoga, derribando
e maltractando algumas creanças e mulheres.
A culpa do desastre era dos amotinados; mas
todos elles á uma tinham procurado origem mais remota,
e lançaram aos vereadores e bons homens que
tinham ordenado a remessa dos mantimentos. Um velhaco
lembrara-se de juntar aos «morras» da ordem
um aos «alvazires, que queriam matar o povo á
fome»
e entre multidão, mesteiraes, que horas antes teriam
dado a sua ultima pogea, se para sua senhoria
lh'a pedissem, repetiram aquelle grito.
Uma voz ampliou-o:
—Morram os traidores, que querem dar cabo da
arraia miuda para entregar a cidade aos de Castella!
—Morram os traidores! uivou a chusma.
E apparecia já o alvitre de se ir em procura de
alguns alvazires, e até mesmo de os tractarem como
ao arrabi-menor, quando dois daquelles appareceram
no terraço do arco de S. Domingos. Ruy Pereira, que
vira rebentar o alvoroço, mandara-os chamar e a alguns
bons homens para que socegassem os animos
como podessem. O tio de Nuno Alvares, a principio
tivera, ao ouvir o arruido, vontade de baixar ao terreiro
e cortar naquella villanagem, que de cabeça
tão levantada, insolente e turbulenta trazia o Deffensor;
mas, apenas mandara sellar o seu cavallo,
a reflexão lembrou-lhe a inconveniencia de um tal passo,
e a reminiscencia poz-lhe diante dos olhos os tumultos
de Lisboa e Evora e tantas outras terras do
reino. O mensageiro do mestre, contentou-se, pois,
em desabafar em pragas, em dar duas grandes punhadas
sobre a mesa, e desappareceu pelo lado da cerca
do convento onde pousava, para não se ver obrigado
a aturar o bom povo, deixando as authoridades
municipaes em apuros. Não eram fortes em rhetorica
os bons homens, e a pouca que lhes concedera
a natureza fugira assustada.
Os velhacos, dando por elles saudaram-nos
com uma ladainha de apôdos que faria pasmar
ao leitor pela quantidade e pelo desusado.
A arraia do terreiro tinha grande vantagem sobre
os burguezes do arco: para o attaque bastavam
palavras soltas, ou mesmo gritos inarticulados; para
a defesa, para satisfazer as exigencias de Ruy Pereira,
era necessario um discurso, pequeno ou grande,
mas um discurso.
Os alvazires e mais cidadãos que os acompanhavam,
depois de se empuxarem e acotovellarem uns
aos outros, por bom espaço de tempo, tinham resolvido,
ou antes forçado o mais bojudo e o mais
endinheirado d'entre elles a tomar a palavra, e o nosso
homem depois de um gesto bastante solemne feito
ao bom povo; depois de tossir e escarrar, como o
faria, ao encetar um sermão, o frade mais sabedor do
convento de a pár, balbuciára uma ou duas duzias
de
palavras. É de crêr que fossem boccados de ouro;
mas
asseverál-o ninguem, a não serem os collegas, o
poderia
fazer, pois, quasi nada perceberam no terreiro os que
lhe quizeram prestar attenção. Uma grande parte
não
lh'a dava, e continuava a formular as suas queixas
ou accusações.
—Querem dar cabo do povo, e entregar a cidade
aos de Castella!
—Morram os traidores!
—Morram os scismaticos.
—Amigos, tornou o alvazir levantando a voz,
logo que a tempestade popular serenou mais; o Mestre
nosso regedor e defensor se encomendou ás vossas
boas lealdades, e vos mandou dizer que, como este
reino andava todo revolto com desvairadas
tenções...
—E bem desvairadas são as que tendes! exclamou
cortando a palavra ao orador, um amotinado,
pouco reverente para com o plagio da mensagem de
Ruy Pereira, de que em apuros aquelle se valera.
O pobre homem, olhou em torno de si espantado;
limpou o suor, que lhe corria em bagas pela
fronte; tossiu de novo; poz a mão no peito para tomar
um ar mais solemne, e começou novo aranzel:
—Todos vós sabeis que esta cidade levantou
voz pelo Mestre...
—Viva o Mestre! Alcacere por sua senhoria!
gritou a chusma...
—Todos vós sabeis, repetiu o alvazir, que esta
cidade deu voz pelo Mestre, que jurou defender-nos
e amparar-nos, e tambem sabeis que el-rei de Castella
veio sobre Lisboa com toda a sua gente...
—Morram os castelhanos! gritaram do terreiro.
O illustre orador, como hoje lhe chamariam, se
ele vivesse, as gazetas, orgãos ou respiradouros do
partido em que se tivesse lançado; o illustre orador,
vendo que não havia com tal gente meio de atar
duas phrases sem uma interrupção, tratou,
já desesperado,
de resumir o seu discurso:
—O regedor mandou pedir a esta boa cidade
que lhe enviassem todas as galés e barcos que fosse
possivel armar e equipar, e bem assim mantimentos
e dinheiros, os quaes—ajuntou o bom do alvazir, como
se entre os amotinados houvesse alguem que com
tal se importasse—como filho de el-rei que é, por
toda a sua verdade jurou pagar muito bem...
—E ressuscita os que tiverem morrido á fome?
perguntou um velhaco, que subira acima de um
poial, arrimado ao arco, e de braços cruzados, com
gesto zombeteiro encarava o orador.
—Morram os traidores!
—O regedor não quer que matem o povo!
—Viva o Mestre!
—Fora os alvazires, gritou Pedro Choca.
—Fora, fora! vozearam d'entre a multidão.
O orador tornou a limpar o suor, que se tornava
copioso e frio cada vez mais, e ainda tentou proseguir;
mas a sua má estrella quiz que ao examinar o
seu auditorio désse de novo com os olhos no velhaco
do poial. O maldito riu-se, e fez-lhe um esgar;
e risada e esgar seccaram-lhe completamente a prosa
na garganta. O bojudo cidadão bateu com a lingua
nos dentes, soltou dous ou tres sons, estendeu os
braços, e meneou-os, como se pertencesse á seita
dos mestres pedreiros que, pouco havia, tinham concluido
os muros da cidade, ou quizesse nadar em
secco; mas nem uma palavra mais conseguiu formular,
nem com todos aquelles tregeitos exprimir uma
ideia.
A atrapalhação do orador deu incremento ao
alvoroço, e os bons-homens que tentaram substituir
aquelle na tribuna, não conseguiram um momento
de attenção. Era este o estado das cousas,
quando Gonçalo Domingues e Fernando, appareceram
no terreiro, vindos do lado do Palmeirim. Mestre Gonçalo
e o compadre, que já encontramos no campo do
Olival, tinham sido os encarregados de arranjar o gado,
e portanto a sua apparição trouxe
áquellas cabeças desorientadas a ideia de que uma
boa parte da culpa
dos males que receiavam, delles provinham. O acolhimento
foi pois o menos amavel possivel. As relações
de mestre Gonçalo com o judeu Moyses, em quem
o povo já fizera justiça a seu modo, foi a
primeira
pecha que lembrou a alguns dos amotinados, e mal
lhes lembrou, logo foi lançada em rosto. A chusma
fez côro, como fazia a todas as lembranças, e o
bom
burguez ficou perplexo: fez-se vermelho e fez-se amarello
quasi ao mesmo tempo, e o caso não era para
menos. Quem não respeitava nem bispos, nem abbadessas,
não era muito que desacatasse um
forçureiro,
por mais endinheirado que fosse. Não era mesmo
naquellas circumstancias o dinheiro carta de seguro;
bem pelo contrario: era mais uma razão para temores.
Gonçalo Domingues, impallidecendo, agarrou-se ao
braço do sobrinho e quiz retroceder; mas a rectaguarda
estava-lhe já cortada, e entre ameaças foi levado
pela
multidão até junto do paiol, onde se
empoleirára o vadio
que seccára a eloquencia ao orador do arco. Fernando
tomado de assombro seguiu o tio. O sangue
do mancebo, porém, não era o do velho, e a
vozearia,
os insultos bem depressa o fizeram ferver. O
primeiro impulso do namorado de Irene, recuperada
a exaltação que o dominava desde o recontro de
Leça, e levado por assomos de cholera foi o de se
lançar contra os amotinados.
Desembaraçando-se das
mãos de seu tio, atirou-se a um mesteiral, que junto
do rosto daquelle erguera o punho cerrado, e ia
ser victima talvez dos seus brios, quando dous braços
musculosos seguraram o seu antagonista, e uma
voz, que devia ser conhecida de alguns dos que se
mostravam mais enfurecidos contra mestre Gonçalo,
exclamou:
—Ter mão rapazes!
Pedro Choca vira Fernando Vasques ameaçado
e correra em seu auxilio. O velhaco, apesar de tudo,
não deixava de ser um bom patriota, de ter o seu
enthusiasmo pelos defensores da arraia meuda. Conhecia
Fernando do assalto ao bailiado, e o denodo
do mancebo fizera com que elle o tivesse na conta
de um heroe, contra o qual não levantára
mão, nem
consentira que se levantasse por todo o dinheiro que
lhe dessem.
As suggestões e os tornezes do capellão de
Ayres Gonçalves, e mesmo o prazer de fazer arruido
não eram as unicas causas que o tinham feito
estafar os pulmões; frei Garcia gastára tempo e
algumas
malgas de vinho para o convencer de que entre
os alvazires havia partidarios de Castella, que tinham
tido o negregado pensamento de se vingarem
do povo, por meio da fome, fingindo que serviam ao
mestre. Que Fernando pactuasse com traidores não acreditava
porém, o velhaco, e por isso repetiu com ar
ameaçador, vendo que alguns animos ainda se mostravam
hostis ao mancebo:
—Que ninguem lhe toque em um cabello da
cabeça, senão commigo tem de se haver!
—A traidor, como a traidores! gritou o mesteiral,
querendo desembaraçar-se da prisão em que
estava.
—Traidor, quem tomou uma bandeira aos gallegos,
quem eu vi atirar-se a esses perros como se
os virotes fossem palheiras?!
—Se não é traidor, é por elles, que
vale o mesmo.
Que tem elle com esse forçureiro de má morte!
—Que enriqueceu furtando ao peso.
—E mais sabe Deus se era cabrito ou cão o
que dantes vendia!
—E agora comprou o gado todo, para nos deixar
á fome!
—Mentis! exclamou Fernando, respondendo a
estes capitulos de accusação; mentis!
—Ahi o tendes! ponde a mão no fogo por
elle! resmungou um dos vadios, dirigindo-se a Pedro
Choca.
—Se tão bom é um como o outro! ajuntou uma
mulher. O rapazelho é filho, ou cousa que o valha do
forçureiro.
Pedro Choca coçou a cabeça, e olhou para Fernando
com ar indeciso, mas logo formulou este raciocinio:
—O mancebo era incapaz de pactuar com os inimigos
do Defensor, e protegia Gonçalo Domingues
logo a não quadrava tambem o appellido de traidor.
—Se é pae do meu homemsinho é outro caso,
exclamou em seguida, voltando-se para os circumstantes.
Deve ser dos nossos.
[**P1 texto reconstituído a partir do original do Google]
Gonçalo Domingues, vendo que alguem mais de
que o sobrinho vinham em seu auxilio, tartamudeou.
—Domingues Pires ou Affonso Eannes, se aqui
estivessem vol-o diriam!
—Que resmunga elle?
—Acoberta-se com o trato que tem com Domingues
Pires?
—Sim, sim; mas tambem era dos amigos do
perro Moyses! se ouviu dentre a multidão.
A arraia meuda, como se baptisára o povo naquella
quadra, tresvairada, estreitára o circulo formado
á volta do burguez e as suas intenções
pareciam
ser bem pouco pacificas, quando Fernando,
saltou acima do poial, abandonado pelo companheiro
de Pedro Choca. A vis oratoria, molestia que se
dá em quadras revoltas como sezões em terrenos
alagadiços, acommettera tambem o namorado de Irene.
O rapaz emprehendia tarefa espinhosa, como os
respeitaveis edis o podiam attestar, commettia, pode-se
avançar uma loucura; mas é sabido que neste
mundo por vezes as loucuras aproveitam mais do
que as cousas pensadas. Fernando tivera uma idea,
que vos fará rir talvez leitor, e que podia ter entre
os amotinados o mesmo, ou peior acolhimento;
porem que foi agua em fervura, como diz o povo.
Fora uma idea feliz, uma idea luminosa a do mancebo.
—Metteram-vos em cabeça que vos queriam
matar á fome... porque se embarca alguma carne
na esquadra! exclamou elle: mas não se lembrou ninguem
de que todos os miudos cá ficam.
—É verdade?! acudiu com outros Pedro Choca,
que desfazia agora, por causa do seu heroe, a obra
para que concorrera; é verdade!
—E depois? interrogou um mesteiral, embasbacado.
—E depois com tanta forçura, com tanta miudagem
de todo esse gado não se morre á fome.
—E a carne não é cousa que engasge a arraia
muita vez no anno! observou o vadio.
—Demais, proseguiu o mancebo, aos corredores
gallegos nós os ensinaremos, e haverá ahi
mantimentos
de sobra. Para dez scismaticos basta um portuguez.
A gente que foi a Leça e Santo Thyrso está ahi,
e antes da chegada das galés os do Porto esperaram
a pé quedo os do arcebispo, sem que elles se atrevessem
a vir ás mãos comnosco. Deixai ir as
galés...
—Quem as quita? exclamou um mesteiral, a
quem aquellas palavras tinham inflamado o orgulho
patrio. Se os de Lisboa carecem de nós, nós
não carecemos
delles. Não nos atraiçoem os de casa...
—De casa... aqui neste boa cidade não ha traidores,
atalhou o namorado de Irene; aqui, ninguem
põe o seu braço em almoeda: as lanças
e ascumas dos
populares não teem preço!
—Como certas espadas.
O mancebo apesar das interrupções, de
approvação
agora, não se calou. Surprehendendo, como
vimos, os amotinados com a primeira lembrança que
tivera, lançando por instincto mão dos argumentos
melhores em taes circumstancias, proseguiu appellando
para os brios do povo, appellando com a convicção
de ser attendido, e o rumor levantado pouco
a pouco em torno de si provar-lhe-hia, se a isso
désse attenção, se elle mesmo
não se enthusiasmasse
com as suas palavras, que senão havia enganado. Quando
terminou o descontentamento da arraia, estava convertido
em abnegação civica, em enthusiasmo patriotico.
O povo tem, como o oceano, destas mudanças
repentinas. Pedro Choca, cuja bossa decididamente
era a de vivorio, encarregou-se de dar expansão aos
sentimentos que o agitavam.
—Viva Fernando Vaz! que... gritou elle; mas não
pôde proseguir, porque o distrahiu e engasgou uma
pancada em um hombro e uma voz zombeteira, que
lhe dizia ao ouvido:
—Assim é que sua mercê trabalha nas tercenas?
O impulso estava porém dado, e Choca, desapparecendo,
pois bem reconhecera pela amabilidade da
pancada e da voz a presença do pae dos velhacos,
deixava de novo o rico forçureiro em suores nos
apertos da ovação do sobrinho. O nome de Fernando
Vasques era bastante popular desde o recontro de
Leça... pelo que demonstravam os successos, mais do
que a pessoa.
Quando Pedro se eclypsava com os seus companheiros,
os acontiados do municipio, ha pouco apupados,
arrebanhavam sem a menor opposição o gado
que se espalhára pelos campos das azenhas. Os planos
de Ayres Gonçalves goravam completamente, graças
sobretudo ao namorado de Irene. O rapaz, tivera,
repetimos, uma ideia feliz, e soubera tocar no fraco dos
amotinados melhor do que os alvazires, que no convento
ainda discutiam, embaraçados, a maneira de darem
conta da sua missão. Falho o expediente do alcaide
de Gaya, as indecisões dos seus nobres companheiros
tinham de ser cortadas pela emulação dos
caudilhos.
Os portuenses davam o primeiro passo para
obterem em chrisma uma alcunha que tinha de durar
seculos; mas a honra da cidade estava salva. O
pae dos velhacos capitaneava os vadios, que, juntos
com os besteiros, levavam o gado ás tercenas, e os
mesteiraes,
que momentos antes tão descontentes se mostravam
acompanhavam-nos, berrando:
—Viva o Mestre de Aviz! Viva a arraia meuda
do Porto!
FIM