[1] Este artigo, embora restricto a um facto particular da actual dynastia reinante em Hespanha, póde, todavia, ampliar-se á politica geral do paiz, e por elle ser criticada.

 

IX

MUSEUS

No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha—politica, commercio, industria—como que para contrastar, surgia, por outro lado, o primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.

E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos professores da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos francezes, e alguns sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de{76} lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o sr. Canovas del Castillo referiu que se chamasse Instituto livre de ensino.

Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da inspiração individual.

O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é ainda hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a rogo de sua esposa Maria Christina.

Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os principaes quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto alguns.

A escóla de pintura hespanhola resente-se extraordinariamente do catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem ver-se, entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a Annunciação de Nossa Senhora, outro, representando a Familia Sagrada, outro desenhando a Concepção, etc.; e os de Velasquez,{77} que tem um Nosso Senhor Crucificado maravilhosamente acabado, assim como um outro intitulado o Quadro dos bebedores; os de Rivera, que produziu o Martyrio de S. Bartholomeu, S. Jeronymo em oração, etc.; e os de Zurbaran sobre assumptos mysticos, e os de Goya, que realça principalmente por um retrato a cavallo de Carlos IV, etc.

A escóla florentina é, como a hespanhola, uma escola religiosa. Assim, temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a representação da Familia Sagrada, tendo S. João e o menino Jesus em attitude de se beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci, um retrato em busto de sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de Miguel Angel Buonarroti um Nosso Senhor atado á columna; e, como estes, outros de Bronsino, de Allori, de Carducei, de Vanni, etc.

Na escóla romana o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado Urbino, que possue, entre outros, A queda de Nosso{78} Senhor Jesus Christo com a cruz, conhecido pelo nome de Pasmo de Sicilia, e muitas allegorias á familia sagrada, umas conhecidas por Ecce Agnus Dei, outras pela Rosa, outras pela Perola, etc. Seguem-se-lhe Julio Romano, Sassaferrato, Barroci, etc.

Na escóla veneziana o mais importante é Piciano, que tem uns magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado ao povo, do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das Dôres e do Ecce Homo; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais alguns.

As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, bolonheza, lombarda, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda apresentam nomes como os de Corregio (lombardo), Dominiquino e Guido (bolonhezes) e Salvator Rosa (napolitano).

Nas escólas franceza, hollandeza e allemã ha cecebridades, como Pedro Paulo Rubens, que apresenta o Castello de Emaus, A serpente de metal, Orpheu e{79} Euridice, A dança dos paizanos, As tres Graças, Perseu libertando Andromeda, e outros, sendo 62 a somma total dos seus quadros, ali expostos, a 28 os da sua escóla.

Antonio Van Dyck dá-nos retratos admiraveis, taes como o do pintor David Rickart, o da duqueza de Oxford, o de Carlos I a cavallo, e o de D. Henrique, conde de Berga.

David Teniers é pintor quasi bucolico, e offerece-nos quadros d'um mimo inexcedivel—Um colloquio pastoril, Uma festa de paizanos, Um banquete campestre, etc.

Antonio Raphael Mengs (allemão) é auctor de Santa Maria Magdalena; Rembrandt (hollandez) tem A rainha Artemisa; e Moso Antonio (da mesma escóla) pintou a esposa de D. João III, rainha de Portugal.

A escóla franceza tambem ali se acha dignamente representada por Pousin, Claudio de Lorena, Antonio Watteau, Claudio Vernet e muitos mais.

Emfim, só a narração circumstanciada d'este museu daria para um grosso volume,{80} não incluindo já na conta a galeria de pinturas da Academia de S. Fernando, na rua de Alcalá, que possue mais de 300 quadros, e o Museu nacional de pintura, na rua da Atocha.

Se o leitor fôr curioso, com certeza não deixará de visitar os museus de Madrid, que evidentemente constituem os monumentos mais notaveis da civilisação hespanhola.

Só no museu de antiguidades e medalhas, na Bibliotheca nacional, se pódem ver mais de 98:000 medalhas de ouro, prata, ferro, bronze, cobre e barro, e muitissimas e numerosas antiguidades egipcias, etruscas, gregas, romanas, godas, arabes, etc.

Na rua de Alcalá encontra-se o Museu de historia natural, que foi fundado no tempo de Carlos III, e que possue ricas collecções de mineralogia, de paleontologia e de zoologia.

Dos melhores do seu genero são tambem o Museu anatomico de S. Carlos, na rua da Atocha; o Museu de artilheria, no Buen Retiro, e o Museu naval no{81} ministerio da marinha, o qual contém uma rica collecção de armas, tropheus, e outros muitos vestigios de guerra e de combate.

Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os particulares que não possuam tambem o seu museu.

Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre outras raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke traçára a guerra franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha cingida á cinta na noite em que o assaltaram. Muitas reliquias portuguezas me foram tambem mostradas, e creio até que uma do fallecido visconde de Castilho.

Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto aceio e tanta maravilha.

Sobretudo—que maravilha!{82}
{83}

 

X

A MUSICA

Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico. A musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma necessidade impreterivel.

Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma banda musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas vezes se afastem da taberna muitos{84} centenares de operarios. É que a attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das proprias dôres e dos proprios soffrimentos.

Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.

Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre atraz da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se com a dôr, e recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne, austera, e pertence naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga como uma mulher portugueza, leviana como a natureza em que vivemos, doce como os costumes da Italia, e a sua vida está subordinada aos povos do meio dia.

Na Africana, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes, harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um maestro consciencioso, e, sobretudo, pensador.

Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á concentração{85} intima, ao seguimento de uma idéa, que é como que o desabroxar do espirito para um mundo novo.

Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e por isso as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de indefinido, que involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da consciencia.

Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e sorri; e tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem um sol, partem os raios animadores das suas obras monumentaes.

Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas obras, a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição notavelmente litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz, conta-as com a superioridade de uma grande potencia, a quem não escasseia nem o genio nem a phantasia.{86}

A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas vezes, com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras occasiões, com as meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no entretanto uma coisa distingue esta escóla: é a verve, o frescôr animadissimo, transparente, que se exhala de todas as notas; a harmonia que nos leva á meditação; a melodia que nos arrasta os sentidos, á selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de vapores e de perfumes.

A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla ecletica; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do Fausto, e o de Berlioz, auctor do Manfredo, que para muitos foi o predecessor de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.

A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola allemã, toda subjectiva, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de{87} esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, como o espirito da humanidade, e a escóla italiana, toda objectiva, obedecendo mais ás impressões dos sentidos, tendo por norma de vida o ideal da natureza, cercada de flôres, de primaveras e de aves, e cantando o paraizo ao som das intimas alegrias e dos intimos prazeres.

Os dilletanti do nosso theatro lyrico quasi que chegam a menosprezar hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.

Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não sabemos que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.

Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está longe ainda de poder attingir o classicismo allemão.

Depois, nós somos um povo peninsular. Vivemos com as impressões exteriores da natureza; o nosso espirito segue as oscillações da temperatura atmospherica; somos frouxos, levianos, sem o vigor que dá a consciencia nem a elevação que nos{88} traz a idéa: a nossa escóla ainda ha de ser por muitos annos a escola italiana.

A musica constitue, como a litterutura, a genuina expressão dos sentimentos de um povo. A França, que ri sempre e a proposito de tudo e de todos, não podia deixar de ser a patria da comedia moderna; por eguaes razões a Inglaterra, que se alimenta de fumo e de spleen, se não possuisse Shakespeare, o sublime tragico, possuiria de certo qualquer outro que lhe interpretasse os sentimentos e as paixões, com a mesma eloquencia com que o soube fazer aquelle divino artista; a Allemanha, á semelhança de quasi todos os paizes do norte, é mais inclinada ao drama symbolico, de que o Fausto é um exemplo maravilhoso, do que ao drama de paixão, que pertence naturalmente á raça latina.

O genero musical mais favorito, em Hespanha, é o tango, a habañera, a malagueña, a seguidilla, n'uma palavra a—zarzuella, com feição especial e caracteristica, podendo tomar-se como mais uma affirmação do genio bandoleiro hespanhol,{89} e do espirito aspero, violento e contradictorio d'aquelle esplendido paiz.

Que a musica entre os hespanhoes é originalissima, sabem-n'o todos. E por tal fórma é isto verdade que jámais povo algum do mundo foi capaz de assimilar-lhe a inspiração, o rythmo e o cadenciado da phrase.

A Hespanha ficaria incompleta se porventura lhe subtrahissem este genero de musica, de todos os generos o mais monotono, talvez, mas com certeza o mais espontaneo, porque é a expressão das suas tradições e da sua nacionalidade.

Rara é a mulher em Madrid que não sabe cantar. O proprio amor madrileno é um tango, em que a amada ou a amante ora quer, ora não quer, ora solluça e ora ri, ora finge e ora pensa.

D'este modo vê-se que a musica em Hespanha, producto natural d'aquelle paiz é como tudo o que alli existe—uma contradicção agradabillissima, e talvez mesmo que um sonho encantador.

Mais adeante, porém, voltaremos a este assumpto.{90}
{91}

 

XI

O CHOCOLATE E O CAFÉ

Eu havia realmente feito uma idéa da minha querida señorita; mas, por Deus, ella, a caprichosa, está muito acima da minha pobre imaginação.

Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da ventarola agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna chamma do amor e docemente embriagada pelo Xerez do sentimentalismo peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso—Madrid resume em si a altissima idéa industrial{92} do chocolate e o singularissimo pensamento politico do café.

Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso companheiro inseparavel, o nosso bâton da manha e a nossa badine da noite.

Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo vivido enthusiasmo d'este magasin pittoresco—a leitora será mansamente despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de abril, mas sim por um mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o que lhe indicará muito claramente que, não longe d'ali, a está esperando uma gentil creadinha com uma simples chavena de chocolate.

E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que, se estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um amigo, e na China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.

Ora, em caso de luta, eu prefiro o{93} chocolate, porque, emfim, nem nos torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá; que a fallar a verdade elle—que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida, a poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte—elle, o chocolate, é sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.

Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não canto as mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos infernaes—eu, em ti, formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto é, a revolução e o futuro.

Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de la Saragoza. Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo diariamente.

Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito, falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o mysterioso, que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto, orgulhosos de si mesmo.{94}

A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a olympica, faz duas ou tres corridas por anno por politicas differentes, e inventa revoluções, que, por causa do chocolate, apenas poderão durar poucos mezes.

As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto com azas, e portanto, com perigo.

Ora é por isso que eu ouso dar um conselho a s. s.as os srs. maridos de Hespanha—não dêem chocolate a suas esposas, se é que realmente amam mais o seu mènage do que o boulevard.

Agora o café.

É um pendant ao primeiro: ambos são negros, como suas reverendissimas os senhores jesuitas que por aqui caminham aos centos.

O café é o complemento do chocolate.{95} Vive-se n'elle, e n'elle se apura a linguagem, a toilette e o bem-senso.

As mulheres conciliam no seu coração o amor do profano e o amor do sagrado. Entram no templo catholico com o mesmo sans façon com que entram no templo social. Porque o café—talvez a leitora o ignorasse—o café é tambem um templo.

E que templo, minha querida marqueza! De tudo se encontra ali desde o fidalgo da regencia ci-devant até ao maratista sans-cullote.

Venha v. ex.ª a Madrid aprender a egualdade humana. Venha tomar aqui uma chavena de café, e verá como, embora desconheça a liberdade, v. ex.ª fallará na egualdade. Venha, minha senhora. Não se arreceie dos carlistas, que esses bandidos já hoje não vivem, e pertencem á historia.

Quando S. M., o sr. D. Affonso XII, houve por bem entrar em Madrid, depois de concluida a guerra carlista, a cidade embandeirou-se, illuminou-se, gritou, exclamou, abriu a bôcca. E sabem tudo porquê? Porque a cidade havia tomado{96} muito chocolate. Sem blague. Estavam todos fartos de chocolate, e a vingança foi digerir o patriotismo, abertamente, rasgadamente, como qualquer leão do deserto.

Só a tropa não havia tomado a sympathica droga, e, por isso, ella entrou na cidade esfarrapada, com as faces crestadas pelo sol das montanhas, que não pelo sol das batalhas, e olhos encovados e lobregos. Por isso o primeiro dever de sua magestade o sr. D. Affonso XII será mandar vestir os que estão nús e dar chocolate a quem tem fome.

Que sua magestade seja misericordioso. Que sua magestade se inspire no amor do proximo e no bem da humanidade!

Sua magestade é rapaz, que não prima pela formosura, mas que poderá, de certo, primar pelo espirito. Eu não tenho a honra de conhecer sua magestade. Sei que entrou em Madrid, e que a estas horas—tres da tarde—já terá tomado chocolate no seu palacio de la Plaza de Oriente.

Deve ser-lhe de bom proveito, porque,{97} emfim, sua magestade como primeiro cidadão do seu paiz, tem de andar sempre bem alimentado, porque muito tem que trabalhar.

Que sua magestade, portanto, haja por bem engordar e deitar fóra a magreza que o devora, e tornar-se rijo, como qualquer dos seus soldados.

Que sua magestade, como bom catholico, se digne implorar da providencia tão alta mercê.

Que sua magestade, reinando por graça de Deus, não seja frouxo nem anemico.

Que sua magestade, emfim, tome muito chocolate, para assim angariar a estima de seus subditos e o amor do proximo!

Que sua magestade não tenha pejo de entrar no café; que entre no café, que questione, que se torne hespanhol, tomando a sua capa, e passeiando pelas ruas da cidade, como qualquer humilde mortal.

Posto isto nós não temos mais que dizer a sua magestade.

E, portanto, que sua magestade passe muito bem, e me honre com as suas ordens sempre que assim lhe aprouver.{98}

 

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*     *

 

Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o Imperial, o Oriental, o das Columnas e o de Levante, na Puerta del Sol, o Suisso, na rua de Sevilla, o da Iberia, na Carrera de S. Jeronymo e o Fornos na rua de Alcalá.

O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles encontrará vida, apetite e enthusiasmo.

Portanto—à l'aventure!{99}

 

XII

O SALERO

Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a virgem pura dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a rainha—a sr.ª D. Cecilia Fernandes.

Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não deve a sua existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a Stellpflug, o sapateiro.{100}

Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande rei de Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica, da grande dama d'honor de todos os paços, do grande, do supremo Bobeche de todos os ministerios, do grande Pierrot de todos os tribunos; trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do salero.

O salero! Caramba! Sabe a marqueza o que é o salero? Nunca na sua vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se irritou contra as diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que ordinariamente nos trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou Mabille; nunca dançou um can-can simples, um d'estes can-cans que mesmo em familia se dançam com os pequenos da casa; nunca namorou, marquesa? e nesse culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos, não compunha o laço da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se assoava, não mudava um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não fingia, não brincava?{101}

Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha salero, e era hespanhola.

Mas, perdoe-me a leitora, para se ter salero não basta só conhecer o Terreiro do Paço e o Rocio, ir de quando em quando a S. Carlos ouvir mad. Sass, e frequentar aos domingos o Passeio publico, como qualquer simples burguez.

Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter salero saia de Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha de andaluza, frequente todos os dias o Prado e o Retiro, entre no café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo—emfim, minha querida senhora, se quizer ter salero seja hespanhola.

Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v. ex.ª que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso Henriques—nós, os portuguezes, nem temos a coquetterie franceza nem a seriedade britanica; de modo, que, imitando{102} a todos, ficamos sendo cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.

Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena lacuna deselegante, rotunda e burguesa—tal deve ser a missão da nossa mulher.

Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o pôr fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos entrem pela porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da arithmetica, nós é que somos a riqueza, o credito e a virilidade. Nos quoque gem sumus....»

E dito isto—que mylady, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar vir uma boa carroagem Daumont; que mylord, o sr. duque, mande preparar um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o demi-monde procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses, adquirindo assim, em virtude da thesoura, o chic e a pose de quem muito viajou.

Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma unica{103} condição se requer—pagar aquillo que se deve.

Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse salero—que o comprasse nos cafés, nas calles, na Puerta del Sol, que o adquirisse no Prado e no Retiro, onde diariamente apparecem de mil a duas mil carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto lhe é de todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem; arranje 60 libras, e appareça um dia no Bois de Boulogne; decore dois ou tres bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com verve, avec de l'esprit—numa palavra torne-se franceza; ou ainda, se a menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe, então tenha a bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de Southampton e de visitar a Inglaterra.

E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do que do coração.{104}

Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as faces coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de vivacidade e de ardor verdadeiramente meridional—alguma cousa do facetado do crystal e da delicadeza da porcellana; nem possue o coquettismo da franceza, porque lhe falta o apuro do espirito, a revelação da ironia, o pungente do sarcasmo, nem a mènagerie da mulher ingleza, porque ella é muito simplesmente a negação d'esse viver intimo e famillar.

Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter—ella tem o salero, isto é, o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o doce laisser-aller da arte, que é luz, e magnetismo—luz, que abrasa em sua chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que adormece em seus braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves, suas irmãs, sequiosas de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas folgança, perfeitamente real, selvagem como o matar de{105} um touro, o esfaquear de uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia—ella, a hespanhola, ella não é verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que isso:—ella é um rapaz de saias, um pequeno demonio alegre, juvial, attrahente, um doce mysterio de dois sexos, incomprehensivel, que ao mesmo tempo participa de um, pela virilidade, pela audacia, pelo arrojo, e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir suavemente acariciador, e pela ternura extraordinariamente singular que as reveste.

Oh! as hespanholas! as originaes!...

As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas ella—por Deus!—ella é o que é—só ella, sem mais ninguem, caprichosa, unica, originalissima.

Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á propôs e tão seu, aquelle salero, e, sobre tudo isto, fazem com que a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e extraordinarios—a energia e o salero, isto é, o chocolate na sua consequencia digestiva{106} e physiologica—o movimento e a graça.

Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas—tomemos o chocolate e tenhamos salero.

Caramba! que salero!...{107}

 

XIII

THEATROS

A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e da sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada por um raio de colera ou por uma faisca de trovoada—é o theatro.

Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na mise-en-scene de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...

Ao ouvir as doces malagueñas e as ternas seguidilhas, desferidas por labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se{108} são do ceu, quasi chegamos a julgar-nos transportados ao Oriente, com todo o seu cortejo de sensualidades que matam, de bailadeiras que seduzem, e de amores que fervem.

Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes, aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão, se, à la belle etoile, e a occultas da parentella, intentasse o rapto d'uma d'aquellas formosas sabinas, mais diabos que o proprio Diabo e ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...

Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol—é a zarzuella, especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas vezes com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre sempre, folgasã quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um estranho frescor de malicia e de surpreza, que chega a prender ainda os menos atreitos aos laços de Satanaz.

Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do demi-monde;{109} creação necessaria no meio das corrupções do imperio, em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao vivo todos os podres de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que representava o vicio dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até á ultima grisette, que, por causa de um estudante do bairro latino, tinha empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a zarzuella não succedeu o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.

Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica—o riso, a ironia, o sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas zarzuellas notaveis, possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o dulcifica.

A Grã-Duqueza é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia estonteada, um quadro fiel das cocottes, arvoradas em mandadeiras de exercitos,{110} uma photographia de costumes pervertidos pela immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um monarcha infame; o Jogar com fogo é um entre-acto agradavel ás acenas da vida, um delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.

E é o que tem a zarzuella: não cança nunca, porque foi um producto natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o salero; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a elevação do sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das civilisações.

A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que os ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da zarzuella nem a elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto, passageiro e ephemero.

Numa palavra, a zarzuella tem as suas raizes nas immutaveis oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a opera-buffa originou-se{111} numa sociedade de transição, e ha de, por isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas positivas e scientificamente organisadas.

Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a zarzuella, e em quasi todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que só os hespanhoes a sabem cantar.

Quando, pela primeira vez, entrei no Theatro Real, situado no largo de Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem, tamanho e socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que esteja na capital da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie e no centro de um vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.

E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral! Que a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico, impetuoso, açoutado pelo simuon e ennegrecido pelas areias, se julgue subitamente transportada{112} a um paraiso, onde adejam os cherubins com as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces louras.

Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de Alcalá, onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim de ouvir cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano, mui modestamente chamado—Romeu e Julietta.

Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A platêa do Theatro real não é só rica em alcatifas, em estofos, em casacas e gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na seriedade dos seus espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e generosa dos seus habitués.

Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da zarzuella. De zarzuella... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão harmonicamente produzidas!

Representava-se então uma velha zarzuella, muito velha e muito ouvida, mas{113} sempre fresca no rhythmo e no pensamento, que é nada menos do que a expressão do caracter hespanhol. Queremos fallar de Pan y toros.

Panem et circenses, gritavam os romanos; Pan y toros, exclamam os hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de facto, existe entre um e outro paiz. Mas—cousa singular! a França tambem é de origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da revolução e do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das suas muralhas de guerra e do topo das suas fortalezas, soluça altivamente—ou pão ou chumbo.

E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os marcos milliarios da humanidade trabalhadora.

Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a volupia. Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece{114} haver-se morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o caso nada era.

—«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um homem morto. Apenas um homem morto!»

E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.

Ora nesta zarzuella transparece perfeitamente o caracter hespanhol, irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as suas labyrinticas phantasias de occasião.

Além, porém, d'estes dois theatros, ainda poderiamos mencionar muitos outros, e entre elles o theatro da Comedia, theatro muito moderno, lindissimo na fórma e admiravel pelo seu reportorio; o theatro do Circo, na praça del Rey; o theatro de D. Affonso, proximo da Porta de Alcalá; o theatro das Variedades, o theatro das Novidades, etc., etc.

E tudo isto ainda por cima, rodeado de circos, de largos, de exposições, de musicas,{115} de alegrias ferozes e de mulheres encantadoras.

É verdade, e os patinadores?

Fallemos dos patinadores.{116}
{117}

 

XIV

OS PATINADORES

Princeza, o seu braço! Vossa alteza é morena, viva, alegre; tem uns bellos olhos rasgados, profundos, negros, como os abysmos do inferno. Pois bem: que a sua alma ardente e expansiva, como este bello sol da peninsula, que nos aquece e anima, se digne, por um pouco, acompanhar-me a aspirar o ar bom da natureza.

Quero tel-a ao meu lado, rainha. Bem vê—eu não sou fidalgo, nem conde, nem barão. Á fé que o não sou. Mas emfim, se é verdade que a um democrata nunca ficou mal beijar a mão de uma aristocrata,{118} conceda-me a indiscripção. Os meus labios tocarão delicadamente á superficie d'essa meiga flôr de liz, mais bella e mais transparente do que uma renda de Bruxellas. Depois, e só depois, o paraizo...

Antes de mais, porém, tomemos um fiacre, um commodo fiacre, ligeiro, com duas molas flexiveis, dois nobres cavallos, briosos, e um valoroso cocheiro de mão certa e pulso firme. É verdade que as rainhas hoje nem sempre estão prevenidas. No entretanto, tu, minha velha amiga, tu, que não tens nenhum reino a perder; tu, que nunca passaste do boulevard com todos os seus perigos e attracções; tu, com certeza, tens ainda os cem luizes que hontem á noite te deixou aquelle inglez excentrico de suissa loura e ar grave.

É para elles que eu appello, para esses cem luizes honestos, puros, serenos, capazes de encher a historia do mundo, e incapazes de concitar em redor de si odios republicanos ou raivas demagogicas. Não! os cem luizes são de todos—de todos os tempos e de todos os logares—reinando{119} sempre, e sempre bem: irresponsaveis, sem exercitos, sem côrte, sem apparato, mas valentes, com consciencia de si, e valendo pelo silencio, aquillo que os mais abalisados do mundo não podem conquistar pela palavra.

Que magnificos sujeitos!

E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a carruagem. Entremos para a carruagem.

Da Puerta del Sol ao Prado são dois passos. Olhe a princeza: vê aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular, pallido de rosto e expressivo no olhar?—é o general Pavia, o celebre assassino da republica em Hespanha.

Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel como uma fada, é Pepa—uma heroina de amores e uma actriz de corações humanos. Mas, que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por sangue descendente de Portugal, antigo possuidor da quinta das Laranjeiras, senador e conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro, secco e decidido nos seus gestos, o{120} que indica uma vontade firme e um caracter recto.

Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em Recoletos, entremos num d'estes circos.

Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso nós, que queremos patinar, recorreremos ao artificio.

A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.

O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não trema, que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia dos patinadores descripta por Alexandre Dumas no Colar da Rainha?

Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo, colloco debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres rodellas de ferro.

Dê-me o seu pé, e verá.

Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se escorregar, como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não cahir, imprima um{121} leve movimento aos joelhos, alternando-os, por causa da lei do equilibrio.

Depois, oh! depois, o infinito, o ideal, o amor, as azas, mais velozes do que as de uma ave, as pernas mais ligeiras que as de uma corça; uma estranha mão apertando-nos a nossa; é o paraiso a sorrir-nos num beijo que ninguem vê, e a gloria a mirar-nos num céo, que nos allucina, que nos embriaga, que nos absorve.

Correr, voar, amar!—tal é o triplice fim de um patinador.

Mas, antes que se chegue a ser um bom patinador, intrepido e valente—que trabalhos, que luta e que risota! Que risota, sobretudo!

Vai um portuguez a Madrid, e mesmo nisto começa por conhecer a sua inferioridade. Que poltrão! Aluga dois carrinhos, e vem para o circo: olha; vê, sorri-se, anedia as guias do bigode, dá um geito ao cabello, e toma ares de Bayard de papellão; deseja tomar a posição perpendicular, e vacilla. Dou-lhe um, dou-lhe dois, dou-lhe tres; por fim o heroe parte; horror! não parte, porque a inhabilidade o torna{122} pesado, refractario á gymnastica, e ao desenvolvimento de musculos. Risota geral—Ah! Ah! Ah... Hic jacet infelix patinator...

A victima levanta-se, desconfia d'aquelles comprimentos improvisados, e conclue por detestar os sabios de qualquer natureza que elles sejam.

Mais uma tentativa. Vejamos. Talvez fosse defeito das rodas, talvez dos pés, talvez da falta de agilidade... Experimentemos. Novo impulso. Ah! Ah! Ah! Nova queda.

E, entretanto, em quanto isto se dá, alguns milhares de cavalheiros vão seguindo o seu rumo, sem interrupção, olhando de soslaio os principiantes, e mostrando naquelle modo de correr que até a andar se póde ter consciencia de si e vaidade dos outros.

Duas senhoras inglezas vi eu, um tanto esquivas ás ironias do amor, que mais pareciam, patinando, sonhos aéreos, visões romanticas do que realidades terrenas.

Nós a tentarmos a approximação, e ellas a fugir, a fugir, como sombras longinquas,{123} que só por escarneo se approximam de nós, para novamente nos escapar, fazendo-nos umas tristes e desoladas figas.

Que horror! E Frutos Martinez, o patinador illustre, avisado naquelles assumptos, collocando, cheio de raiva os seus carrinhos, lá se ia, inconscientemente, atraz d'aquellas borboletas de olhos azues e cabellos louros.

Mas, certamente, meus caros concidadãos—a patinação não e simplesmente um espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por generosos impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o desenvolvimento physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e o interesse moral, que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes do que uma facada dada no Bairro Alto, em pleno dia.

Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem graça, sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas existencias modernas.

Honra soit qui mal y pense...{124}
{125}

 

XV

TOURADAS

A los toros! a los toros!...

 

E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no cimo das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria pelas ruas como um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus chapeus emplumados, cortejava a realeza que passava, dava vivas á Marselhesa, e fugia, fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda do mais barbaro de todos os espectaculos do mundo.

Ó Hespanha, minha querida amiga, doce{126} filha dos cafés e da volupia, tu, que possues museus que te são um legitimo patrimonio de orgulho e de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores oradores da Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo, Velasques, e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha perola, tu não devias ser torera.

Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito, acredita-me bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos, desejam agradar ás mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia com que nós aqui bebemos um copo de agua. Que valentões! O campo de batalha sorri-lhes, o inimigo revolta-lhes as iras concentradas, e são leões, atiram-se, atiram-se ferozmente sobre a metralha adversa. Nem sua magestade o canhão Krupp os intimida, nem os joelhos lhes tremem á vista do adversario.

Que valentões! que valentões...

Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu{127} filhas tão formosas?—para que? Não te bastava já o chocolate, para, á semelhança de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta? Ainda, por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e salero atrevido? Ora pois, nada mais te faltava...

Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua cosinha demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres sempre como uma braza—a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o proprio sr. Canovas del Castillo, quando falla no congresso, não é muito atreito aos gólos de agua; o teu rio é semsaborão, estreito, pouco abundante e superficial. Ao que parece, um poucochinho de agoa de mais, um poucochinho de lume de menos não deixaria de fazer-te bem. Numa palavra, minha querida amiga, se queres viver independente, feliz, alegre, satisfeita comtigo mesmo—purga-te, manda vir da botica duzentas grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia{128} calcinada;—fóra, fóra com essa bilis que te devora o organismo: estomago limpo e menos... chocolate aos srs. politicos.

Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a espectaculo mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias mulheres se tornam viris, musculosas, corpulentas—ellas, que uma hora antes tinham acceitado a côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que são um puro mysterio, uma alta excentricidade; ellas, emfim, que têm o dom mythologico de nos apparecer sob o duplo aspecto da força e da fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do energico.

Inundára-se de povo a Calle de Alcalá. Os char-á-bancs eram sem numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as vertigens, que referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em nuvens de enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a vida, a mulher, o fumo, o chocolate, os touros emfim.{129}

Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!

Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais irradiação; scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro audaz cahem as dezenas de charutos.

—A elle, meu valente, a elle...

E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada, applaude o sangue; mais uma investida e o misero cavallo lazarento succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este pandemonio infernal!

Agora Lagartijo que se approxime; elle traz uma pequena espada na mão direita; para elle está reservada a mais garbosa moña, que nunca mão de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: Lagartijo investe; mais uma volta, e o touro cahirá.

As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os lenços{130} de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi irrequieto, nervoso, indomavel: Lagartijo venceu, Lagartijo é o heroe da festa; triumpho a Lagartijo...

Otro toro! otro toro!...

Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada entre um homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem podia ser a felicidade da agricultura e o alimento da miseria.

Touro, cavallo, farpas, lanças,—tudo á uma é arrastado em padiolas para fóra do amphitheatro.

Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja melhor do que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos espectadores fosse pouco todo o sangue derramado.

É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e larga. Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão é que o enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de ser uma terna e doce{131} folgança, onde os risos e as lagrimas, as alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.

E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a Hespanha, onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas como as suas provincias e os seus concelhos.

Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e desenvolve-se toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens, se bem que aridas na Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um aspecto deliciosissimo na Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se disputam a palma e o amor.

Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as revoltas populares poderam ainda prostral-o.

Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar de ser guerreira e sanguinosa.

Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que é—lutadora, torera e ruidosa.

A los toros! a los toros!{132}
{133}

 

XVI

O PRADO E O RETIRO

Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que os cafés, assim como as soirées, assim como os clubs, assim como os boulevards se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel necessidade social.

Que o homem nasceu para a sociedade—escrevem-o philosophos abalisados e tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico da nossa universidade.

Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao contrario{134} de Rousseau—que na natureza fundava todo o pacto entre os homens—se elevaram, como por encanto, o Bois de Boulogne, em Paris, o Hyde Park, em Londres, e o Central Park, em New-York.

A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha agora na Europa, que não tenham o seu pequeno boulevard, especie de rendez-vous do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.

E necessario é que isto assim seja. O boulevard não é simplesmente uma ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação de um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e social.

Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que nós nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia a frequentar os differentes jardins—botanico, zoologico, etc.—quando chegam a uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma vasta e profunda educação.

Praticamente aprendem os nomes aos{135} animaes; ouvem-lhes a historia; assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os movimentos e os instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os boulevards, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de ganhar a vida no futuro.

Mas o boulevard tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira, pelos exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para profundos estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua origem, além de muitas mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e a sua riqueza.

O Prado é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios da sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de lagos, de arvores, de estatuas, de restaurantes, de praças, o seu espaço é enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta até encontrar{136} o passeio de Atocha, formado pela prolongação da rua do mesmo nome.

É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens, vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados de bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos hespanhoes.

Com dois ou tres passeios ao Prado quasi se fica conhecendo toda a sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas virtudes e nos seus erros.

E depois—que mulheres!

A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente curiosa.

Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali costumava expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.

Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.

O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se tristemente na{137} desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da mulher, fez-lhe a seguinte declaração:

—Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem dos meus respeitos e do meu amor...

Ao que a deusa respondeu:

—Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a pensar?!...

O galã aproximando-se mais:

—Em que estava a pensar?!...

—Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.

—Certamente que não.

—Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...

Ó illusões! ó facadas!

No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa num bilhete de visita as seguintes e doces palavras:

«Pepa (era o nome da heroina)—«Pepa—aborreço-me, e adoro-te».

A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:{138}

«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»

Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.

«Cavalheiro—Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi ao primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o acho de um arrojo extraordinario e nunca visto».

Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.

Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros. Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo umas alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle. Reparei-lhe nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e vi-lh'as extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou o estado de duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da certeza. A conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime actriz, depois de{139} varias piruetas, de varios zig-zagues, de varias fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel. Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua condição lhe impunha.

E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa, alegre e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras de menos na algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até que por fim se saciou.

Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do boulevard!

Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos póde revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.

«Minha menina—Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de janella por dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á minha pessoa. Sem mais. O seu...»{140}

E assim é, de facto, o boulevard:—a vida, o amor, a formosura—e tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.

 

*
*     *

 

Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o Retiro.

Dizem que o sol é o pae da vida—approveitemos o sol. Bras-dessus, bras-dessous, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!—sabe a marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe conto. Conhecia a Dolores, a formosissima cocotte da rua de Alcalá? Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas do céo. Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu cabello com a côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o dinheiro, e, o que é peior ainda, privados tambem do proprio cabello de tão gentil señorita. Que ferro, minha amiga, que ferro!{141}

Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no Prado. Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante vestido de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem mesmo se aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por ahi se gastasse em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua carruagem—uma bonita carruagem moderna e commoda—e tinha tambem, além de muitos escravos, de que o seu coração por vezes escarnecia, os seus creados e as suas governantas.

Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do boulevard, um espirito risonho, attrahente, leviano,—nem Rigolboche, nem Magdalena. Ella alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára suas irmãs; e conduzia seu pae—um triste cego!—pelo braço. Não amava porque não queria; tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era simplesmente porque lhe reconhecia os{142} perigos. Afóra isto, como se encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de educação, fez vida pela sua formosura, e caminhou rectamente, serenamente, desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos pela estrada dos assalariados da terra.

No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa, sentiu que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se d'ella. Mas ao olhar para traz viu que a sua familia—uma pobrissima e desgraçada familia—carecia, para não morrer de fome, de comer e de se alimentar.

Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado pelo mesmo desespero e pela mesma agonia!...

Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par. Que alegria, meu Deus!—exclamava ella. Finalmente... finalmente...

E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos, incomprehensiveis...{143}

D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e perigosissimas rainhas do Prado.

Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella como que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia—bom rapaz, é verdade, mas algum tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó ou por capricho permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o rendez-vous, que durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,—ó pudor!—apenas a comprimentou á entrada e á saída.

Muito bem.

No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte carta:

 

«Minha senhora,

 

«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»{144}

 

—Curioso, curioso!—exclamava ella, rindo e correndo pela sala.

—Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu chacho... elle que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não... attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés d'elle... não, não te suicidarás, formoso!....

E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:

 

CONTA CORRENTE

 

«Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou prata, dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã.

 

 

Assignada—DOLORES.»{145}

 

E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado. Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o unico meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da carta, respondeu com a mesma singeleza:

 

«Minha senhora,

 

«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer, mandar receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»

 

Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as fibras da sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com que fôra brindada, ella a orphã, ella, a desdichada, ella, a meiga,{146} ella—a preciosissima joia, engastada numa sociedade de meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou sinceramente.

—Não!—dizia ella—Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do seu dinheiro—oh, sim!—eu receberei o seu amor, que deve ser sublime com a sua generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração honesto e simples.

E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:

 

Meu amigo,

 

«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o. Venha quando quizer.

 

«Dolores.»

 

Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida arrependida,{147} tornou-se, todavia, mulher séria e grave. O nosso provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.

Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.

Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.

Oh! os boulevards, minha querida marqueza...

Mas, por Deus, entremos no Retiro.

O seu braço, minha amiga, o seu braço!...

*
*     *

O passeio do Retiro, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares, especie de marquez de Pombal na Hespanha.

Quasi todos os despotas gostam de deixar{148} assignalada a sua passagem na terra com monumentos immorredouros, por via de regra attestados de inepcia, de orgulho e de mau gosto.

Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre convento de Mafra. E foi assim que nasceu o Escurial, embora de melhor gosto e de mais elevação artistica.

Durante o reinado do seu fundador, o Buen-Retiro, pelos seus passeios, pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios, pelos seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos das morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros desde aquelles periodos aventurosos.

Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de Aranjuez, onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com Versailles, de todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o mais sumptuoso, ainda quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas, as quaes,{149} na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.

Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á vida. E o facto é que o Retiro, mercê das grandes e enormissimas quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das revoluções e em plenos sorrisos de felicidade.

Leitora amiga—se realmente ama o passeio, percorra a Carreira de S. Jeronymo e entre no Retiro. Levante-se cedo, tome o seu chaile, calce as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe bem, porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu chocolate; ha de saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter ido ao lago, depois de ter visto as feras, emfim, depois de estar cançada. E verá que a não engano. Lá encontrará um bom restaurant aceiadissimo e commodo. Á cautella, porque o almoço{150} é tarde, sempre lhe aconselho que mande vir duas ou tres bolachas.

Como queira. Perto de nós temos a montanha artificial e o salão oriental. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia, apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que magnifica cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!

É verdade—e o jardim botanico? É logo no passeio do Prado. Dizem que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro. Mas é um famoso recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num magnifico local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de plantas e uma curiosissima secção zoologica, cujo objecto é alimentar e propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.

E a Recoletos—já foi a leitora?—E á fuente Castellana?

O primeiro tem, como o Prado, oito lindissimas fontes, todas ellas no meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao nacional o supremo{151} consolo de poder passar bem duas ou tres horas por dia.

Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são os seus fins e outras são tambem as suas vantagens.

Os boulevards, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.

No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por isso, á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se. Tivessem elles uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e o amor do vinho desapparecera. Tivessem elles, sobretudo, municipalidades desinteressadas e independentes, e as suas doenças, assim como o seu mal estar não teriam mais razão alguma de ser.

O artista tem no boulevard, uma formosa galeria, especialmente merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se{152} os quadros pintados. Pois o boulevard é um museu—ao vivo, já se entende.

Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua bota. D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás influencias do mundo exterior e dos boulevardiers.

O boulevard é ainda mais o figurino, a moda, o chic. Quem fôr á fuente castellana, que começa na casa da moeda e termina na fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade madrilena—toilletes finissimas, aristocracia elegante e burguezia desempenada.