Do Sagrado
Monte Olivete, e Bethania.
Neste
Sagrado monte Olivete obrou
Christo Senhor nosso
muitas cousas pertencentes à nossa
Redempçaõ; porque
alèm do que tenho dito, que se obrou na raiz deste
Sagrado
Monte, ha muito em todo elle, que considerar, e
reverenciar.
Direy por agora sómente do Lugar da
Ascensaõ
admiravel, e tornarey a baixar, por hir pelo caminho,
por
onde este Senhor foy muitas vezes a
Bethania.
Começámos a subir junto à Igreja do
Sepulchro de nossa
Senhora, e a poucos passos parámos, adonde
dizem, que
vindo esta mesma Senhora das Estaçoens deste Sagrado Monte,
que ordinariamente fazia, depois que
Christo seu
Unigenito
Filho, e Senhor nosso subio aos Ceos, vio apedrejar a
Santo Estevaõ, e que
neste Lugar orou, atè o Santo Prothomartyr
entregar a Deos o seu espirito; e subindo pouco
mais, vimos o Lugar, em que dizem, que o
Apostolo S.
Thomè
recebera o cinto da
Virgem Senhora
nossa. Mais acima está
o Lugar, adonde os
Apostolos
disseraõ a
Christo Senhor
nosso que os ensinasse a orar, e lhes deu a
oraçaõ do
Padre
nosso, &c. Neste Lugar está huma
Igreja cahida. Subimos
hum pouco mais, e vimos o Lugar adonde os
Apostolos compuzeraõ
o
Credo; e mais acima, o em que
Christo Senhor nosso,
e os
Apostolos, vendo a
Jerusalem, e ouvindo este Senhor
que elles louvavaõ a fabrica do Templo, e o bem lavrado
das pedras, lhes disse,
como tudo havia de ser
destruido: e
assim o foy pelos Emperadores
Tito,
e
Vespasiano; e tambem
lhes disse os sinaes, que haviaõ de preceder ao dia do
Juizo.
Ha outros Santuarios mais, que os Mouros possuem,
e alguns estaõ convertidos em Mesquitas. O Lugar da
Ascensaõ
naõ he Mesquita, porèm os Mouros, e Turcos tem
a chave, e naõ permittem a entrada aos Christãos,
sem que
lhe paguem muito bem. No alto deste
Sagrado
Monte, está
huma Igreja grande, mas muito cahida; e no meyo está
huma Capella redonda de bobeda inteira, e no meyo della
huma pedra de dous palmos, e pouco mais de altura, em
que se vê hum pè sinalado, que dizem ser de
nosso Redemptor,
quando daqui subio aos Ceos: o outro pè, dizem, o
levara hum Principe Christaõ, que naõ sey dizer,
quem
fosse. Com grande devoçaõ beijámos
este pé muitas vezes.
He este Lugar de Santa alegria para todos os Christãos, que
o vem; porque nos parece, que vemos a
Christo Senhor
nosso subir pelos ares, e à
Virgem nossa Senhora sua Santissima
Mãy, e aos Apostolos, que estaõ
com os olhos, e coraçoens
suspensos, olhando o caminho, que
Christo Senhor
nosso
fazia para si, e para os seus Fieis.
Adorámos,e despedimo-nos com muita saudade deste
Santo Lugar, e fomos pelo alto, e plano deste
Sagrado
Monte para a parte do
Septentriaõ, pouco mais de duzentos
passos, a huma torresinha, e casa; Lugar, aonde dizem,
que baixaraõ os Anjos, e disseraõ no dia, e hora
da
Ascençaõ
aos saudosos
Apostolos: Viri Galilaei,
&c. pelo que se
chama Galilea pequena. He muito alegre, e fermoso este
Sagrado monte. Tem muitas arvores,
especialmente oliveiras,
(de que tomou o nome) figueiras &c. e vinhas. Está
à
parte Oriental da
Santa Cidade. De
tal modo estaõ este
Sagrado
Monte, e o de
Siaõ, que tudo o que hum
tem se vê
do outro; e vendo-se do
Olivete a
Santa Cidade, por ser hum
pouco mais alto, he huma das mais alegres, e deliciosas
vistas, que ha no Mundo, ainda que
Jerusalem hoje he muito
pequena; porque está assentada no meyo do
Monte Sion,
da maneira que hum livro está em huma estante; pelo que
se podem contar todas as casas, e torres de cima a baixo,
sem que falte alguma. Saõ as mais das casas de bobeda, como
Capellas de Igrejas, e todas de terrados, e assim ha poucas,
ou nenhuma, que tenha madeira, o que tudo faz, e representa
huma magestosa vista. Tem a Cidade quatro mil
visinhos, pouco mais, ou menos; ainda que em outro tempo
foy das grandes do Mundo, como se vê das ruinas,
que ha por aquelles outeiros, de que está rodeada. As ruas
que atravessaõ do Meyo dia ao Septentriaõ
saõ planas, e
as do Poente ao Oriente costa abaixo, ainda que naõ muito
empinadas, pois corre muito bem hum cavallo por ellas.
Deste
Sagrado Monte Olivete se
vê bem o
Templo, no
Lugar em que esteve o de
Salamaõ, que agora he
Mesquita
de Mouros, e Turcos. Está no meyo de hum grande quadro
murado, e hum angulo delle he muro da
Cidade
Santa,
em hum prado desembaraçado, e limpo, com algumas arvores.
He fabricado à maneira de hum Zimborio, de Moysaico,
e riquissimas columnas, e taboas de marmore, e jaspe;
e por fóra eleva apparatosamente a vista. Nenhum
Christaõ entra dentro sobpena de perder a vida, ou renegar;
o que se pratica em todas as suas Mesquitas, como tenho
dito; porèm nesta he com mais rigor; porque depois da
Casa de Meca em que estes barbaros dizem estar o
Çancarraõ
de Mafoma, esta he a mais principal. Algumas vezes ouviamos
a hum Mouro, que de huma Torre chamava o Povo para
a sua oraçaõ com grandes gritos; o que
praticaõ em todas
as Mesquitas; porque naõ admittem sinos, nem os permittem
aos Christãos.
Baixámos deste Sagrado Monte pela parte, por onde
subimos, e ainda que huma vez fomos a
Bethania pela outra
parte, quizemos nesta occasiaõ hir por onde
Christo Senhor
nosso fora, poucos dias antes de sua
Sacratissima Paixaõ:
e tornando ao rio
Cedron,
começámos a subir a ladeira
do mesmo
Sagrado Monte em roda, que
he caminho mais
plano. Este he, por onde o
Senhor
sahia a visitar as suas devotas
Maria Magdalena, e
Martha de Jerusalem a
Bethania
por este caminho he menos de meya legoa; e nelle nos
mostraraõ
a horta, em que estava a
Figueira,
que
Christo Senhor
nosso amaldiçoou.
Chegámos a
Bethania, que
hoje terá sessenta casas,
que mais parecem covas de coelhos, que habitaçaõ
de homens,
por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos
foy grande Povoaçaõ, hoje nem o que foy mostra.
Entrámos
logo na casa de
Simaõ
Leproso, que saõ duas Capellas
de pedra, bem lavradas, no Lugar donde
Christo Senhor
nosso
ceou com
Lazaro resuscitado, e Maria
Magdalena o ungio.
Está hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta
este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys:
e naõ faltará que alimpar, quando neste Lugar se
houver de
dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver quaõ
maltratados
saõ estes Lugares dos Mouros, e Turcos, naõ
desmaya
a devoçaõ, e Fé dos Catholicos, porque
consideramos,
que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos.
Daqui fomos a visitar o sepulchro de Saõ Lazaro, de que
tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de
boa vontade abrem a porta. Entrámos por huma escada de
quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar,
em que estava sepultado, quando
Christo Senhor
nosso o resuscitou.
He Lugar de muita devoçaõ, considerando as
lagrimas
de
Christo Senhor nosso, de
Maria, e de
Martha, e dos
mais, que estavaõ com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados
alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de
Saõ
Lazaro; e ainda que está tudo arruinado,
bem mostra ter
sido casa de homem principal, e visitámos a casa de
Maria,
e de
Martha, que estaõ
destruidas. No caminho está huma
pedra, em que dizem, esteve sentado
Christo Senhor
nosso
atè que chegou
Martha, e
disse:
Domine, si fuisses hîc,
&c.
Tudo o [~q] referi está fóra da Cidade de
Bethania, ainda que
esteve dentro naquelles tempos, por ser entaõ Cidade
grãde,
e hoje muito pequena a Povoaçaõ. Della sahimos, e
subindo
por hum outeiro como trezentos passos, chegámos ao Lugar
adonde foy
Bethfage. Delle mandou
Christo Senhor nosso
aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez
a sua entrada solemne, e triunfal em
Jerusalem. Naõ ha aqui
algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui
se vem algumas casas da Cidade de
Jericó, que todas
saõ
poucas. Está edificada em campina raza, que vaõ
acabar
nas margens do
Jordaõ.
Está distante de Jerusalem trez legoas,
poucos mais, ou menos. Tambem se vê deste sitio
hum lago, que terá de comprimento trez legoas, pouco
mais, e de largo duas. He este lago do
Rio
Jordaõ, e nelle
se acaba, pois naõ tem outra corrente, nem sahida. Chama-se
o
Mar morto; e debaixo delle
estaõ aquellas malditas, e
infames Cidades
Sodoma, e
Gomorrha: e se vê tambem
outro
monte, que estará quasi huma legoa distante, a que
Christo
Senhor nosso se retirou, e nelle
jejuou quarenta dias, e
quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o
Jordaõ
por esta parte, que está de
Jerusalem oito legoas, pouco
mais, principiaõ os montes de Arabia.
Sahimos do Lugar de
Bethfage, e
subimos ao alto do
Monte Olivete, levando o rosto para
o Septentriaõ, e declinado
ao Poente, passando pela Igreja da
Ascensaõ,
baixámos
ao Lugar, adonde vendo
Christo Senhor
nosso a Cidade
de
Jerusalem, chorou sobre ella,
dizendo:
Si cognovisses,
& tu, &c. e descendo ao Valle de
Josaphath, subio à Cidade,
e
Templo, entrando pela
Porta Aurea, que agora
está no muro
cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento
com ramos de palmas, e os meninos cantando:
Hosanna in
excelsis.
Todos os annos faziaõ os Religiosos Latinos esta
representaçaõ,
em que o
Guardiaõ, que
representava a
Christo
Senhor nosso, e doze Religiosos os
Apostolos, sahiaõ
paramentados
de
Bethfage, e mandava o
Guardiaõ a dous
Religiosos,
que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a,
subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste,
e chorando pela muita devoçaõ varios Hymnos, e
versos
a este proposito, ordenavaõ na Dominga de Ramos esta
triunfal, e solemne Procissaõ, e o sahiaõ a
receber da Cidade
muitas naçoens Christãas, e muito Infieis, e
lançavaõ
ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros;
e Turcos estavaõ como pasmados vendo esta
Procissaõ, sem
perturbarem aos Christãos, o que parecia milagre, e o era
certamente, por naõ terem mãos, nem linguas para
os impedir,
por
Deos nosso Senhor o
naõ permittir; e subindo ao
Santo
Cenaculo, que era entaõ Convento seu,
proseguiaõ o Officio
daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade
naõ se fazia esta Procissaõ, porque o Turco
mandou, que
se não fizesse.
Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos
atè
lá chegar.
Já he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo
caminho,
que ha da
Santa Cidade de Jerusalem
à de Bethleem,
que saõ duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos
da
Santa Cidade ao nascer do Sol,
pela porta de Jaffa,
e passando pela
Fonte de
Salamaõ, e
casa de
Bersabè sua
mãy, subimos huma pequena, e suave costa, e démos
em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas
pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espaço
de huma legoa delle tudo saõ herdades, vinhas, oliveiras,
frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma
deliciosa vista, e muitas dellas foraõ casas de
Profétas,
e algumas já foraõ Igrejas. Vimos em hum campo
grande
quantidade de pedras taõ pequenas como graõs, e
do
seu feitio; e se conta, que a
Virgem Senhora
nossa vendo
semear grãos a hum Lavrador, lhe pedio, lhe désse
delles; e que elle zombando respondera, que naõ
eraõ
grãos; que eraõ pedras, e assim saõ
atè hoje. Eu os vi,
e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande
arvore, que me pareceo
Aroeira, e
lhe chamaõ
Terebintho.
Tomámos ramos com devoçaõ, porque
à sua sombra
dizem que descançára a
Virgem
Senhora nossa. Vimos tambem
o
sepulchro de Rachel, que os
Mouros, e Turcos guardaõ,
e usaõ delle Mesquita. He fermoso edificio, situado
em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum
capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de
muita, e boa agua, em que os
Santos trez
Reys tiveraõ
grande alegria, por lhes apparecer a
Estrella, que se escondera,
antes que entrassem em
Jerusalem, e
dalli os guiou
atè o Lugar aonde estava o
Menino
Deos no portal de
Bethleem.
Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa
adonde esteve
Elias. Ha por esta
parte muitas antigalhas
dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz,
e desejada Igreja, e Cidade de
Bethleem.
Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos
acompanharaõ, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos,
e oraçoens, dando muitas graças a Deos pelo
Mysterio
do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos
aquella
Santa Cidade; e assim
continuámos, até chegarmos
a ella, e à porta da Igreja, que está
fóra da dita
Cidade,
que agora terá pouco mais de sessenta visinhos.
Entrámos
pela porta principal da Igreja, que está defronte
da Capella mayor, ficando à maõ esquerda a
entrada
do Convento. Sahiraõ-nos a receber os Religiosos de
Saõ
Francisco, que alli assistem, e commummente saõ nove,
ou dez; e fizemos oraçaõ na Igreja, que he da
Invocaçaõ
de
Santa Catharina. Esta Igreja,
Convento, e Igreja grande
do
Santissimo Nascimento, fazem hum
corpo, e na de
Santa
Catharina dissemos Missa no dia que
chegámos.
Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com
tochas accezas, baixámos por huma escada, que
está na parede,
e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas,
em que estaõ fabricadas na penha viva estas Capellas.
Hum Altar, no Lugar, em que foraõ mortos muitos dos
meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado
o
sepulchro de Santo Eusebio,
discipulo de
Saõ Jeronymo;
mais dentro dous passos em huma Capella o
sepulchro
de Santa Paula, e de sua filha
Eustochio; e de fronte na mesma
Capella o
sepulchro de Saõ
Jeronymo; mais dentro huma
Capella, adonde
Saõ
Jeronymo viveo muito tempo, e traduzio
a
Sagrada Biblia. Todos os dias se
visitaõ estes Santos
Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas,
Versos, e Oraçoens em cada huma destas Estaçoens,
e
se ganhaõ muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e
entrámos
por hum passadiço apertado, e estreito, para hirmos
à Capella
do
Santissimo Nascimento, e nos
pareceo, quando entrámos,
que entravamos no Paraiso.
Esta Santissima Capella em que a
Virgem Mãy
de
Deos, e Senhora nossa pario ao
Filho
de Deos, está fabricada,
como as outras, na penha viva. Terá como doze palmos
de comprimento, de largura quatro, e dous estados
em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo
Moysaico. Ha nella hum Altar de huma só pedra,
vaõ
por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo
Jesu
Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos
verdadeiro.
Está este Lugar sinalado com huma pedra branca, que
no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar
dissémos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos
adiante está o Lugar, como huma piasinha de marmore
quadrada,
mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino
Deos reclinado no Presepio. Aqui está descuberto hum
pedaço
de penhasco, taõ ditoso, que gozou (se se pòde
dizer) do
resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que
este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e
Moysaicos; porque estes nos alegraraõ a vista corporea,
aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos
foraõ os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar
à vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.
Entre o Lugar do
Santissimo
Nascimento, e
Santissimo
Presepio, está hum Altar de marmore, que
sinala o Lugar,
em que os Reys offereceraõ os seus dons. Eu como musico
tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos
do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos,
para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao
Menino Jesus, a sua
Mãy Santissima, e ao
glorioso
Saõ
Joseph, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que
se
acharaõ naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre,
excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.
Nos lados do Altar do
Santissimo
Nascimento ha duas
escadas, porque subimos à
Capella
mòr da Igreja principal,
porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que
referi, estaõ debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima,
ainda
que em parte está despida da sua fermosura, porque todas
as paredes, e pavimento, estiveraõ cubertas com taboas
de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte
tiraraõ para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves,
a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes
columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e saõ
quarenta e oito. Sobre estas columnas estaõ assentadas vigas
de cedro, que atravessaõ de huma a outra, muito curiosas
pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra,
e sobre elles em hum lado está lavrada de riquissimo
Moysaico
a geraçaõ de
Christo Senhor
nosso, como a escreveo
Saõ
Mattheus, e do outro lado, como a escreveo
Saõ Lucas;
tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.
Junto à Capella mayor està hum Altar, adonde o
Menino Deos foy circumcidado. Nesta
fermosa Igreja se
diz Missa algumas vezes, e naõ sempre; porque os Turcos
quasi todo o dia estaõ nella, e como saõ muito
porcos,
está pouco aceada. O Padre Guardiaõ nos levou aos
terrados
da Casa, e Igreja; e de lá vimos o lugar, e prados, em
que os
Santos Pastores
estavaõ, quando o Anjo lhes disse,
que
Christo nosso Salvador era
nascido, cantando:
Gloria in
excelsis Deo. Está de
Bethleem como a terceira parte de
huma
legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estavaõ as vinhas do
Balsamo, no tempo de
Salamaõ, que se chama
Engadi. Está
pouco mais de huma legoa de
Bethleem.
Desta
Santa Casa sahimos como cem
passos, e entrámos
em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde
estiveraõ escondidos a
Virgem Senhora
nossa, o Menino Deos,
e
Saõ Joseph, quando o
Anjo lhes disse, que fugissem para
o
Egypto, por Herodes procurar o
Menino para o matar.
Nesta cova dizem, que dando a
Virgem Senhora
nossa de
mamar ao seu
bemditissimo Filho, lhe
cahira do seu purissimo
Leite na terra; pelo que todos
levaõ desta terra por devoçaõ,
para dar às mulheres, que tem falta de leite, e
lançada
em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, confórme
a fé da que o usa.
Aqui nos hospedaõ os Religiosos, dando-nos de comer,
e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade,
sem que seja necessaria recompensaçaõ; ainda que
todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que
podem, por agradecimento, o que naõ espera a sua grande
caridade, com que trataõ a todos sem differença.
A mayor
parte dos edificios desta Casa edificou
Santa
Paula em
tempo de
Saõ Jeronymo.
Aqui habitaraõ atè morrerem. O
que está aruinado se pòde reparar,
porèm naõ o permittem
os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos.
Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras
arvores, frutas, e hortaliças; bons passeyos, boas vistas, e
em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis.
Tem hum dormitorio para os Peregrinos, à maneira
de huma nave, em que se podem hospedar atè duzentos.
Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como
quem deixava lá a alma, e naõ acertavamos a nos
retirar: e
tornámos para a
Santa Cidade de
Jerusalem pelo mesmo caminho,
chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcançamos
com a vista, de Lugar taõ Santissimo.
Da Igreja do Monte Calvario, e Santo
Sepulchro.
Vistos os Santuarios da
Santa Cidade de
Bethleem, pedimos
ao Senhor Guardiaõ nos procurasse a entrada no
Sagrado Monte Calvario, e Santo
Sepulchro; e ajustado o dia,
e hora com o
Subasi, Governador da
Santa Cidade de Jerusalem,
que tem as chaves desta
Santa
Igreja, que sempre
está fechada, e sómente se abre quando elle quer,
ou quando
o Padre Guardiaõ o avisa de que haõ de entrar
Religiosos,
ou Peregrinos, ou alguma das naçoens Christãas; e
chegado
o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo
Subasi com
o Escrivaõ, e Porteiro, e se sentou à porta desta
Santa Igreja
sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins
de veludo; e o Padre Guardiaõ com outros Religiosos,
e hum Christão da terra, que se chama
Ánà, muito bom
homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano,
e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda
a Palestina, e Syria. Chegámos sete Peregrinos, que eramos,
que o Padre Guardiaõ appresentou ao Subasi, e perguntando-me
o nosso interprete, pois era o primeiro, o como
me chamava? Respondi, que
Alberto;
porque parecesse nome
Tudesco, e naõ
Hespanhol,
por ser de perigo, que elles
saibaõ, que somos Hespanhoes, porque entendem, que
vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano,
os assegurámos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome,
que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove
zequies de ouro, que vale cada hum
sete centos e cincoenta,
e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos
Sacerdotes naõ pagaõ cousa alguma. Paga se
sómente este
dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja;
e depois, quando se abre, basta que se dê ao Porteiro hum,
ou dous maydines.
Entrámos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista
naõ pòde estar ociosa, pelo muito que ha, que
ver, e venerar.
A primeira cousa he o Lugar, aonde
nosso
Redemptor
foy ungido para o sepultarem; e à maõ direita, na
mesma
nave, està o
Santissimo
Calvario, à maõ esquerda na nave
do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, está o
Sepulchro
do nosso Redemptor; e no meyo da Igreja o Coro, que
tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo
se sentàraõ juntos os quatro Patriarchas da
Christandade.
Está hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor
com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor.
As naves saõ direitas, excepto que para a parte do Oriente,
e Poente saõ redondas, à maneira de Colisseo. A
Igreja
he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico.
As paredes em outro tempo estiveraõ cubertas de marmores,
agora está a pedra aberta. Naõ perde com tudo a
fermosura
esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta
falta.
As naçoens Christãas, que ha em
Jerusalem de diversos
Reynos, e Provincias, e Linguas, saõ estas.
Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas.
Abexins. Surianos. Maronitas.
De cada huma destas naçoens ha dous, ou trez Religiosos,
repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que
dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua,
e tem cuidado das suas alampadas, que estejaõ sempre
accezas, e limpas. A habitaçaõ dos nossos
Religiosos
de Saõ Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio,
Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar atè
trinta pessoas.
Comem, e dormem estas naçoens dentro nesta Igreja,
e os Peregrinos, que estaõ dentro, dando-lhes de comer,
e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta,
cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta fallaõ,
e se lhes ministra o necessario, e se vê hum
pedaço da Igreja;
por ella fazem oraçaõ os que estaõ de
fóra. Tal ordem tem
dado o Turco, para que estejaõ conformes, e como germanadas
estas naçoens, humas com outras, que se huma alampada
se estiver apagando, e o visinho a quizesse atiçar por
devoçaõ, o condemnariaõ em muitos
cruzados; e assim com
este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete
na obrigaçaõ, ou devoçaõ do
outro.
A todos saõ communs os
Santuarios, para os poderem
visitar em qualquer hora, que quizerem, porque estaõ
continuamente abertos; e como sempre està fechada a porta
da Igreja, tudo està bem guardado: pelo que he de grande
contentamento, e devoçaõ o poder entrar
livremente, de
dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illuminaõ.
Em todos os Santuarios tem todas as naçoens suas alampadas,
huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.
Começámos os Peregrinos, e Religiosos a nossa
procissaõ
nesta Santa Igreja com vèlas accezas, cantando o
Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos,
e chegando o Religioso, que està paramentado, nos
diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que
ganhámos.
A primeira Estaçaõ foy em huma Capella, que se
chama
o
Carcere de nosso Salvador, no qual
esteve em tanto,
que os Judeos esperavaõ, que a Cruz, e o lugar em que se
havia pôr, estivessem aparelhados. Mais adiante
visitámos
huma Capella, na qual os Soldados, que prenderaõ a
Christo
Senhor nosso,
lançáraõ sortes sobre as suas
vestiduras. Mais
adiante entràmos por huma porta, e baixando trinta degraos,
chegámos à Capella de S. Helena, mãy
do Emperador Constantino,
em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se
cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa
ha muitas Indulgencias. Baixámos mais onze, ou doze degraos,
feitos na mesma penha do
Monte
Calvario, e he o
Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo,
cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chamaõ-se estas
Capellas da Invençaõ da Cruz. Estaõ
bem fabricadas, e muito
espaçosas, ainda que debaixo da terra, que corresponde
ao Calvario.
Sahimos desta Capella, e visitámos outra, donde
està
hum pedaço de huma columna, em que Christo Senhor nosso
esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois
de o açoutarem, o coroaraõ de espinhos. Daqui
subimos por
dezanove degraos, e fomos ao
Santo Monte
Calvario, e
nos pareceo, que entràvamos no Paraiso. Estando no alto,
vimos huma Capella, que saõ duas estancias a modo de
tribuna,
que corresponde à primeira nave da Igreja. A primeira
he o Lugar Sacratissimo, em que o
Filho de
Deos foy levantado
na Cruz; nelle está o buraco donde a Santa Cruz esteve
fixada. Tem hum bocal de prata, e o adorámos, e
beijámos,
como Santuario taõ admiravel. Metemos dentro os
nossos braços nùs, e assim digo, que
terá de fundo como
trez palmos. Nos lados estaõ sinalados os Lugares das cruzes
dos Ladroens, que me parece, que tocavaõ huma, e
outra cruz. Ha entre a de
Christo Senhor
nosso, e a do mào
Ladraõ,
huma abertura na
penha de sete palmos de comprido,
e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar
da
Invençaõ da Santa
Cruz. Esta se abrio quando
Christo
Senhor nosso espirou. Na outra parte da Capella, a
trez passos,
està o Lugar em que cravaraõ a
Christo Senhor nosso, estando
a Cruz no chaõ, e dalli a levantaraõ, e
puzeraõ no
sitio referido. Donde isto succedeo está huma memoria de
jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama
da
Crucifixaõ, toda
está cuberta de marmore, e jaspe finissimo
com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico,
de que estaõ pendentes mais de cincoenta alampadas de todas
as naçoens de Christãos. Dissemos Missa na parte
da
Crucifixaõ, na sexta
feira seguinte ao dia, em que entràmos,
e foy a da
Paixaõ secundùm
Joannem; e este Altar se divide
com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa
Cruz. Naõ poderey explicar a grande afluencia de
devoçaõ,
que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando,
que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou
neste Santissimo Lugar. A parte donde
Christo Senhor
nosso
foy encravado, està entregue ao cuidado dos Religiosos de
Saõ Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos
Georgianos, que saõ extremosamente devotissimos, e sempre
estaõ neste Sagrado Lugar rezando, e cantando.
Saõ virtuosissimos
Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He taõ
agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do
Sagrado Monte, que não se
enfada, ou cança alguem de
estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem pareceraõ
aqui alguns Musicos cantando as lamentaçoens de Jeremias,
vendo, e considerando o
Calvario, e
Santo Sepulchro,
porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!
Baixando deste Sagrado Lugar, chegàmos ao meyo
da primeira nave, e veneràmos huma pedra grande, pegada
na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo;
e por cima estaõ pendentes oito, ou nove alampadas de todas
as naçoens Christãas. Neste Lugar foy ungido
Christo
Senhor nosso para o sepultarem, por seus devotos
servos,
Nicodemus, e
Joseph
ab Arimathea, assistindo a
Virgem
Senhora
nossa, e as mais
Santas
Mulheres, e o amado Discipulo
Saõ Joaõ. Este
Santo, Lugar està defronte da porta da
Igreja, e se vê pela fresta, que nella ha; e os que
estaõ fóra,
por ella fazem oraçaõ, e ganhaõ as
Indulgencias. Daqui
ao
Santo Sepulchro haverà
quarenta passos para a parte do
Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia
possuem os nossos Religiosos de Saõ Francisco, e
sómente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua
fórma he
esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada,
em que caberáõ dez, ou doze pessoas, e no meyo
della
está huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso.
Nesta pedra, dizem, que o
Anjo
estava sentado, quando
fallou às
Marias,
dizendo-lhes, que já
Christo Senhor
nosso resuscitára. Por esta Capella se
entra a outra taõ pequena,
que a porta terá quatro palmos de alto, e trez de
largo. Á maõ direita está o
Santo Sepulchro de nosso Salvador,
donde esteve o seu
Santissimo Corpo,
e delle resuscitou.
He hum Altar como huma arca, cuberta com huma
pedra marmore. Sobre este preciosissimo
Sepulchro dissémos
Missa; e naõ cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o
que o ajuda. O vaõ ninguem o vê, porèm
o mais gozaõ todos,
tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem
muitas alampadas de todas as naçoens. Aqui disse Missa pela
misericordia de Deos, e foy a da Resurreiçaõ, e
foy grande
alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho:
Surrexit,
non est hîc, ecce locus ubi posuerunt eum;
sinalando
com o dedo o lugar adonde esteve o
nosso
Salvador. Move
certamente os nossos coraçoens esta verdadeira
representaçaõ.
Esta Capella do
Santo Sepulchro,
ainda que por dentro
he quadrada, por fóra he redonda, e tem as paredes cubertas
de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas
muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o
vem de fóra. Está no meyo de hum circuito de
columnas,
sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe
corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro
muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como
coroa, por donde entra a luz aos que estaõ em baixo. No alto
de huma parte está o retrato da Emperatriz
Santa Helena,
e da outra o do Emperador
Constantino seu filho, de
rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos,
que quasi naõ se parecem, por estarem maltratadas da
antiguidade,
e do tempo.
Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, à
maõ esquerda, estaõ duas pedras redondas de
marmore postas
na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em
huma esteve
Christo Senhor nosso
depois de resuscitado, na outra
a
Santa Magdalena, quando lhe
appareceo em figura de
Hortelaõ, e lhe disse:
Noli me
tangere. Daqui fomos à Capella,
e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que
dizem, appareceo
Christo Senhor
nosso a sua
Santissima
Mãy.
Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma
rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos,
está hum pedaço da columna, em que
Christo Senhor nosso
foy açoutado. Com esta Estaçaõ
acabámos de visitar esta Santissima
Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos
encerrados, reiteramos estas Estaçoens muitas vezes em
procissaõ, e sós. He de grande contentamento
ouvir pela
meya noite a todas estas naçoens dizerem Matinas, cada
h[~u]a
na sua lingua, e canto.
Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor,
e no mais alto della, que he parte do
Sagrado monte
Calvario, visitámos huma Capella, adonde
Abraham offereceo
o sacrificio; e outra, que está perto, adonde
Melchisedech
offereceo paõ, e vinho; das quaes tem cuidado
os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso
Convento
de Saõ Salvador, nelle estivemos alguns
dias, esperando
ao nosso
Trucimaõ Atala
para ajustarmos a nossa vinda.
Nestes dias reiterámos as Estaçoens dos Sagrados
montes
Sion, e
Olivete; e chegando à
Santa Cidade de Jerusalem
quatro Religiosos de Saõ Francisco, que vinhaõ do
Cayro,
dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos
se chamava
Fr. Mattheus Salerno,
homem nobre do
Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario
de
Jerusalem; e o principal dos
Hespanhoes, Fr.
Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanhámos na
continuaçaõ destes exercicios, que nunca
enfadaõ, mas antes
nos daõ recreaçaõ espiritual, por
espaço de dez, ou doze
dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas
joyas para o serviço do
Santo
Sepulchro. Muitas toalhas, corporaes,
e demais cousas para o Altar, e celebraçaõ das
Missas,
que offereciaõ muitas Senhoras de Hespanha, e Italia.
Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro
com huma alampada, que offerecia o Grão Duque de
Florença.
Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu
desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.
Já tratavamos de voltar para Italia, e o nosso
Atala
nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; porèm o
Padre Salerno disse, que de nenhum
modo queria andar por
mar a costa da Palestina, porque já entrava o Inverno; pelo
que resolveo hir por terra atè Tripoli, e eu em o
acompanhar:
e tendo eu assistido hum mez na
Santa Cidade de
Jerusalem,
e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada;
e agradecemos ao Padre Guardiaõ a hospedagem, dando-lhe
tambem cada hum a esmola, que podia, e naõ a que
desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da
nossa entrada na
Santa Cidade,
escritas em pergaminho, com
o sello do
Santo Cenaculo.
Da nossa sahida
da Santa Cidade de
Jerusalem.
Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de
Jerusalem,
e o Padre Guardiaõ ajustou com
Atala, e outros
Mouros visinhos de
Jerusalem, que
nos levassem a
Damasco,
caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos,
(por naõ permittirem, que os Christãos andem a
cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos
destes faziaõ jornada para
Alepo; trez para
Constantinopla;
dous, que eraõ o
Padre
Salerno, e seu Companheiro
Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado
Irmaõ
Juliaõ, e nòs Pedro Tudesco, e
Nicolao Polaco, para Veneza.
Despedidos do Padre Guardiaõ, tomada a sua Santa
bençaõ, e abraçando com muitas
lagrimas a todos os Religiosos,
sahimos acompanhados de todos muitos passos fóra
da Cidade, e repetidos os abraços, e lagrimas,
começamos
a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos
a
Santa Cidade, os Sagrados montes
Sion, e
Olivete, e
nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e
tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista.
Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde
Jeremias, vendo a Cidade, e
chorando, compoz as Lamentaçoens.
Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas
de
Jerusalem, e nella
esperámos huma caravana de trinta e
trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada
em sua companhia. Nesta Cidade foy que a
Virgem
Senhora nossa achou menos ao seu Filho
Christo Jesus de tenra
idade, e tornando a
Jerusalem a
procurallo, o encontrou
no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada
por esta parte de
Judéa,
e entrámos na Provincia de
Samaria.
Neste dia fizemos noite na Cidade de
Sichar, a que os
Mouros chamaõ
Nablos.
Aqui está o poço, donde
Christo
Senhor nosso fallou à
Samaritana; naõ o vi,
porque entrámos
já de noite; porèm meu companheiro o vio, que
ficou
a traz com parte da companhia, e disse que naõ tinha agua.
Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na
rua, porque nos naõ déraõ pousada; e
no dia seguinte, pela
tarde, continuámos a jornada.
Nesta Cidade de
Sichar
prégou
Christo Senhor
nosso
dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa,
e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada
de dous mil visinhos. Está entre dous montes, e o principal
he o
Garisim. Tem hum valle, dos
fermosos que se
podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e
frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes,
passando por este valle, entendi que as naõ haveria no tempo
da Samaritana; porque havendo-as, naõ buscaria
taõ
longe a agua. Aqui habitou
Jacob com
seus filhos, e gados,
e deu a
Joseph por melhor huma
herdade, como diz a
Santa
Escritura. Na Cidade nos mostraraõ a sua
casa. Toda esta
Comarca de
Sichar he fertilissima de
paõ, gados, e de tudo
o necessario para a vida humana. Ao outro dia chegámos
à Cidade de
Sebaste,
Cabeça do Reyno, e Provincia de
Samaria;
nome que teve em outro tempo; agora está destruida,
ainda que alguns edificios bem mostraõ a sua antiga
grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas
partes della estaõ cahidas; porèm o que
está em pé, he taõ
bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar
desta Igreja, dizem, foy degollado o grande
Saõ Joaõ
Bautista
por mandado delRey Herodes. He digno de
consideraçaõ
particular, o ver esta Cidade em que residiraõ tantos
Reys, destruida; pois apenas terá cincoenta casas; o
que tambem se vê em toda a Palestina, pois vimos Cidades,
pelos caminhos que andámos, que antigamente foraõ
populosas,
e insignes; e hoje só se vem pedras, e algumas paredes.
Bem se colhe ser vontade de Deos; e que estaõ destruidas
por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui
nos disseraõ, que a companhia dos camellos, que vinha
comnosco, ficando muito a traz, a roubáraõ os
Arabes.
Naõ sey que assim fosse, o que posso dizer he, que
já mais
a vimos; e démos graças a Deos por nos livrar.
Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de
Samaria,
entrámos na de
Galilea.
Da Santidade della basta dizer,
que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e
nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas.
Cinco legoas dentro nesta Provincia está h[~u]a Igreja
cahida
entre h[~u]as casas, de que se fórma huma pequena Aldea,
chamada
Janim, em o lugar adonde
Christo Senhor nosso sarou
aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro
celebrados montes. O
Carmelo, [~q]
está ao Poente do nosso
caminho, junto ao Mediterraneo. O
Hermon, [~q] está
à parte
de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde
Christo
Senhor nosso resuscitou o filho da Viuva; agora he
pequena
Villa. O monte, a que está contigua a
Santa
Cidade de Nazareth,
adonde encarnou o
Filho de Deos.
Naõ subimos a este
lugar, bem que estava perto, por[~q] o naõ
permittiraõ os nossos
Mouros; e sómente vimos branquear as ruinas dos edificios.
A ditosa casa, em que a
Virgem Senhora
nossa concebeo
ao
Filho de Deos, que estava nesta
Cidade, a trouxeraõ
os Anjos, haverá duzentos annos, para Italia, e a
collocáraõ
em
Loreto, tendo primeiramente sido
levada a duas
partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que estaõ
cheyos os livros, e na Igreja em que está, já
naõ ha parte
adonde se ponhaõ tantas memorias. Tem muita riqueza de
pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizeraõ
Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &c. no que lhe
naõ
excede alguma Igreja do mundo. Cercaraõ os Pontifices esta
camara Angelical com huma fermosa Igreja, e está no
meyo della. As paredes de fóra estaõ cubertas de
marmore
lavrado de lindas figuras, em que se vê a vida da
Santissima
Virgem, Mãy de Deos, e Senhora nossa. Por
dentro estaõ
descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda
que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois
cremos, que foraõ tocadas milhares de vezes por
Christo
Senhor nosso, e sua
Santissima Mãy Tem no
meyo hum Altar
donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chaminé,
adonde a
Virgem Senhora nossa
guizava a sua ordinaria
comida. Está esta ditosa chaminé cuberta de
prata, e outras
riquezas.
Junto a esta Santa Igreja está hum sumptuoso Collegio
da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de
muitas naçoens. Esta Santa Casa he frequentada de muita
gente, que a visita, de toda a Christandade.
Desta Santa Cidade de
Nazareth sahio
a Virgem
Senhora
nossa pejada, acompanhada do seu
Esposo Santissimo
Saõ Joseph, a escreverse na Cidade de
Bethleem, pelo edito,
e mandato geral do Emperador
Cesar
Augusto, por ser
esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de
David; e alli pario a seu
Unigenito Filho, e do
Eterno
Pay. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco
mais,
ou menos.
O outro monte he o
Thabor. Ao
pé delle chegámos,
e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro
no alto do monte, adonde
Christo Senhor
nosso esteve com
os seus Discipulos
Saõ
Pedro,
Saõ
Joaõ, e
Santiago, e se transfigurou
ante elles, e de
Moysés,
e
Elias. Nelle ouvio a voz
do
Eterno Pay, dizendo:
Hic est Filius meus dilectus,
&c.
Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por
nelle se mostrar
Christo Senhor
nosso glorioso, e resplandescente
com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso,
e bem proporcionado na sua postura, alto redondo,
e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto à
maõ naquelles Valles.
Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao
Norte, e chegámos ao mar de
Galilea, que se chamou
Tiberiades.
Ainda que se chama
Mar,
naõ o he; porque a agua
he doce, e está apartado do Mediterraneo mais de doze
legoas.
Neste
mar, ou
lago, fez Deos milhares de
maravilhas.
Aqui estavaõ pescando
Saõ
Pedro, e
santo
André, e em outro
barco
Saõ
Joaõ, e
Santiago, quando os chamou
Christo Senhor
nosso para que o seguissem, e que os faria pescadores
de homens; e deixando as suas redes, o seguiraõ. Ha na
ribeira
deste lago muitas Povoaçoens, que em outro tempo
foraõ Cidades principaes. Entre ellas he celebre
Capharnaum,
Corozaim, e
Bethsaida. Ao presente
sómente se vem
as suas ruinas. Junto a este lago fez
Christo Senhor
nosso o
milagre de dar de comer às turbas, que o seguiaõ,
com
cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou
sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou
aos Discipulos, depois de resuscitado. Terá este cinco
legoas,
pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais
de duas. A agua he do
Rio
Jordaõ, que nelle entra, e sahe
correndo, mais de quarenta legoas atè o
Mar
morto, em
que se recolhe, e naõ torna a sahir. Na sua ribeira ha
muitas
fontes. Pousàmos esta noite, e tarde, que
chegàmos,
junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos
Saõ Pedro,
Santo Andrè, seu
irmaõ, e
Saõ
Filippe. Alegria
grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois
Christo
Senhor
nosso aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa
de cem
visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo,
muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe
deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde
Christo
nosso Redemptor o comeo algumas vezes, e por ser
bonissimo,
e pela devoçaõ com que o comiamos, e pela fome,
que tinhamos.
No outro dia madrugàmos muito, e caminhàmos por
asperas montanhas, e chegàmos antes do meyo dia ao celebre
Rio Jordaõ, que ainda que
nesta parte naõ foy o
Bautismo
de Christo Senhor nosso, com tudo por nelle se
celebrar,
nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento.
Apeàmonos
todos contra a vontade dos Mouros, e com grande
ancia chegàmos à agua, bebendo toda a que
podémos, lavando
nella cabeça, rosto, e mãos; e nos parecia, que
tinhamos
desejo de nos converter em peixes, para naõ sahirmos
de aguas taõ santificadas. Nesta parte he o rio apertado,
e se pòde vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito
doce. Passàmos por huma ponte de pedra bem lavrada,
e à maõ esquerda vimos huma lagoa, que se chama
Aguas
Meronas, que saõ do mesmo rio.
Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do
Monte Libano, huma chamada
Jor, outra
Daõ, e dellas toma
o nome de
Jordaõ. Estas
fontes deixamos à maõ esquerda,
quando vamos de
Damasco a
Tyro, e
Sydonia.
Passado o rio Jordaõ, entràmos na
Syria, que commummente
se chama
Suria, e em trez dias
chegàmos a
Damasco.
Naõ vimos cousa notavel neste caminho, sómente
encontràmos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos,
acompanhados
de muita gente de pè, e cavallo, e muitos camellos
carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia,
que faziaõ jornada para o
Cayro. Neste mesmo caminho me
lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao,
sómente por passatempo, e foy rindo com os seus
companheiros.
Antes de chegarmos à Cidade quatro legoas, a vimos;
porque se descobre assentada ao pè do
Monte
Libano.
He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela
abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos,
passàmos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios
frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que
entràmos,
vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos,
com provimentos necessarios. Entràmos, e andàmos
grande
parte della primeiro que chegassemos à pousada, que foy
na
Alfandega, sempre a pè
porque naõ consentem os Turcos,
que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas
sómente nos permittem jumentos.
Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma
fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim
de comestivel, como de sedas, brocados, panos, tèlas,
&c.
que naõ creyo haja outra no Mundo. He a sua
Povoaçaõ,
pouco menos, que a de
Sevilha. Por
fóra naõ parecem as
casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas.
Ha nella, como diziaõ, quatro centas mil Mesquitas,
bem edificadas, e todas tem à porta fonte, para se lavarem,
os que entraõ a fazer sua oraçaõ. Por
fóra vimos muitas,
porque dentro naõ podemos entrar na fórma que
està dito.
Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os
Peregrinos enfermàraõ, porque dormiamos no
chaõ, e em
mao aposento; porèm Deos me reservou pela sua misericordia,
com saude, para tratar delles. Havia naquelle
tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado
Bernardo, Consul dos Italianos, que
nos deu nestes dias de
comer regaladamente, com que reparàmos o damno, que
experimentàvamos de naõ ter comido de
Jerusalém atè
àquella Cidade mais que paõ, uvas, e agua; porque
ainda
que naõ falta de comer, como naõ ha estalagens
para os Christãos,
passàmos mal, pois pousàmos nos curraes, e
estrevarias
em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro,
e hum Religioso de
Saõ
Francisco, que o
Baxà
ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de
seus filhos, de quem sómente os fiava, e naõ de
Turcos, ou
Mouros, andàmos muitas vezes a mayor parte da Cidade
passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas
para a nossa jornada.
Celebravaõ os Turcos, e Mouros nestes dias que alli
estivemos a sua
Paschoa, que durou
trez dias, em que todos
andavaõ muito alegres. Em hum destes hia eu por huma
rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava
a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande
destreza para os que estavaõ naõ ficarem
atropellados.
Levava hum alfange nù, e estava bastantemente borracho,
pelo que abrio a cabeça a hum Mouro com huma só
cutilada.
Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle
escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de
dar outra tal, vendo hum Christaõ. Este foy o encontro,
que tive de receyo; pois sempre andámos pela Cidade, vendo
suas festas, sem que nos offendessem. Naõ deve esta
Cidade nada às melhores do Mundo. He habitada de Turcos,
Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas naçoens de
Christãos, que saõ o mais viandantes. Em todos os
officios
tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem
sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia
o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece
esta Cidade o ser Cabeça da
Syria. O que nella ha que ver
de devoçaõ, he a casa de
Ananias, Discipulo de
Christo nosso
Redemptor, em que lhe fallou, e mandou, que fosse
buscar
a
Saõ Paulo já
convertido, que estava orando, e o foy a bautizar,
e confortar. Mostráraõ-nos o muro, por donde a
este
Santo Apostolo o
lançáraõ os Christãos em
huma alcofa,
e assim escapou delRey
Aveta, que o
queria matar.
Mostráraõ-nos tambem em huma praça
huma pedra cercada
com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Saõ
Jorge, quando foy a matar a Serpente. Sómente escrevo o
que vi, e o que nos disseraõ.
Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza,
e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou
com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem
à Cidade de
Tripoli,
donde nos haviamos de embarcar,
que tambem está na
Syria.
Alcançámos ainda em
Damasco
a Festa de
Todos os Santos, e o dia
dos Fieis Defuntos, e dissemos
Missa no aposento do Consul encerrados, e era
quanto celebravamos, esperavaõ de fóra
Mouros,
Turcos,
e
Judeos, que vinhaõ a
negociar, para nos naõ perturbar.
Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho
mais direito para
Tripoli; e nos
disséraõ, que pelo
Monte
Libano, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano,
naõ
fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o
monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como
vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de
Damasco.
Vimos
Tyro, e
Sydonia; passámos por
Baruth, e por suas
hortas fresquissimas. Por este caminho seraõ como quarenta
e cinco legoas de
Damasco a
Tripoli.
He esta ribeira da
Syria, de
excellente terra, grandes
montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christãos
Maronitas, que vivem no
Monte
Libano, junto a
Tripoli.
Ha por estes montes perdizes, e outras caças de Europa;
e muitos rios, e passagens por regates, que baixaõ do
Libano ao Mediterraneo.
Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho
estreito aberto nas penhas, e chegámos a hum rio, que
passámos
por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos.
Alli se lê em duas pedras hum letreiro Latino, e outro
Arabigo,
em que se faz memoria dos Emperadores
Marco
Antonio,
e
Marco Aurelio. Chama-se o rio
Caõ, por certa fabula
dos Gentios, que dizem, que este Caõ, que era de
pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra,
ou alguma fatalidade, e depois o
lançáraõ no rio, que
tomou o seu nome. Eu o vendo pelo preço, que o comprey.
Cada hum crea o que lhe parecer.
He este
Monte Libano muito grande, e
atravessa muita
terra de Damasco atè o mar. Tem muitos braços, e
o
principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a
diante da Cidade, se vê bem a parte mais alta, que toda
estava
cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para
o
Templo de Salamaõ. Ha
nelle boas vinhas, e o vinho
dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas
vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia,
que chegámos a
Tripoli
choveo muito, pelo que naõ sahio
huma grande embarcaçaõ, e tinhamos grande desejo
de a alcançarmos.
Deos nosso Senhor parece que a guardou por
sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que
havia outras naos para
Constantinopla, e para outras partes
de
Italia, e
França, esta vinha em
direitura a
Veneza.
He a Cidade de
Tripoli na
Syria muito boa, e de fortes
casas. A sua Povoaçaõ está em trez
montesinhos, junto
ao mar; ainda que o porto está desviado meya legoa. He
fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens,
palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil.
He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante,
e India Oriental. Na nossa nao vieraõ para hirem para
Veneza nove Mercadores Italianos, que vinhaõ da India,
a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta
dias por desertos, como nos affirmáraõ, e por
caminhos
de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma:
pelo que trazem o que haõ de comer, e beber em camellos,
que commummente costumaõ trazer mil em companhia.
Recolhemonos em
Tripoli em h[~u]a
casa de Religiosos,
e Peregrinos, que he como hum Convento, em que estaõ
ordinariamente trez Religiosos de
Saõ
Francisco, mandados
pelo Padre Guardiaõ de Jerusalem, que saõ como
Curas dos
Mercadores Italianos, que alli estaõ.
He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos.
O Padre Guardiaõ nos acompanhou a todos, Religiosos,
e Peregrinos atè a embarcaçaõ: e
excepto os Religiosos, nos
embarcàmos sete Peregrinos.