Do Sagrado Monte Olivete, e Bethania.


Neste Sagrado monte Olivete obrou Christo Senhor nosso muitas cousas pertencentes à nossa Redempçaõ; porque alèm do que tenho dito, que se obrou na raiz deste Sagrado Monte, ha muito em todo elle, que considerar, e reverenciar. Direy por agora sómente do Lugar da Ascensaõ admiravel, e tornarey a baixar, por hir pelo caminho, por onde este Senhor foy muitas vezes a Bethania.

Começámos a subir junto à Igreja do Sepulchro de nossa Senhora, e a poucos passos parámos, adonde dizem, que vindo esta mesma Senhora das Estaçoens deste Sagrado Monte, que ordinariamente fazia, depois que Christo seu Unigenito Filho, e Senhor nosso subio aos Ceos, vio apedrejar a Santo Estevaõ, e que neste Lugar orou, atè o Santo Prothomartyr entregar a Deos o seu espirito; e subindo pouco mais, vimos o Lugar, em que dizem, que o Apostolo S. Thomè recebera o cinto da Virgem Senhora nossa. Mais acima está o Lugar, adonde os Apostolos disseraõ a Christo Senhor nosso que os ensinasse a orar, e lhes deu a oraçaõ do Padre nosso, &c. Neste Lugar está huma Igreja cahida. Subimos hum pouco mais, e vimos o Lugar adonde os Apostolos compuzeraõ o Credo; e mais acima, o em que Christo Senhor nosso, e os Apostolos, vendo a Jerusalem, e ouvindo este Senhor que elles louvavaõ a fabrica do Templo, e o bem lavrado das pedras, lhes disse, como tudo havia de ser destruido: e assim o foy pelos Emperadores Tito, e Vespasiano; e tambem lhes disse os sinaes, que haviaõ de preceder ao dia do Juizo.

Ha outros Santuarios mais, que os Mouros possuem, e alguns estaõ convertidos em Mesquitas. O Lugar da Ascensaõ naõ he Mesquita, porèm os Mouros, e Turcos tem a chave, e naõ permittem a entrada aos Christãos, sem que lhe paguem muito bem. No alto deste Sagrado Monte, está huma Igreja grande, mas muito cahida; e no meyo está huma Capella redonda de bobeda inteira, e no meyo della huma pedra de dous palmos, e pouco mais de altura, em que se vê hum pè sinalado, que dizem ser de nosso Redemptor, quando daqui subio aos Ceos: o outro pè, dizem, o levara hum Principe Christaõ, que naõ sey dizer, quem fosse. Com grande devoçaõ beijámos este pé muitas vezes. He este Lugar de Santa alegria para todos os Christãos, que o vem; porque nos parece, que vemos a Christo Senhor nosso subir pelos ares, e à Virgem nossa Senhora sua Santissima Mãy, e aos Apostolos, que estaõ com os olhos, e coraçoens suspensos, olhando o caminho, que Christo Senhor nosso fazia para si, e para os seus Fieis.

Adorámos,e despedimo-nos com muita saudade deste Santo Lugar, e fomos pelo alto, e plano deste Sagrado Monte para a parte do Septentriaõ, pouco mais de duzentos passos, a huma torresinha, e casa; Lugar, aonde dizem, que baixaraõ os Anjos, e disseraõ no dia, e hora da Ascençaõ aos saudosos Apostolos: Viri Galilaei, &c. pelo que se chama Galilea pequena. He muito alegre, e fermoso este Sagrado monte. Tem muitas arvores, especialmente oliveiras, (de que tomou o nome) figueiras &c. e vinhas. Está à parte Oriental da Santa Cidade. De tal modo estaõ este Sagrado Monte, e o de Siaõ, que tudo o que hum tem se vê do outro; e vendo-se do Olivete a Santa Cidade, por ser hum pouco mais alto, he huma das mais alegres, e deliciosas vistas, que ha no Mundo, ainda que Jerusalem hoje he muito pequena; porque está assentada no meyo do Monte Sion, da maneira que hum livro está em huma estante; pelo que se podem contar todas as casas, e torres de cima a baixo, sem que falte alguma. Saõ as mais das casas de bobeda, como Capellas de Igrejas, e todas de terrados, e assim ha poucas, ou nenhuma, que tenha madeira, o que tudo faz, e representa huma magestosa vista. Tem a Cidade quatro mil visinhos, pouco mais, ou menos; ainda que em outro tempo foy das grandes do Mundo, como se vê das ruinas, que ha por aquelles outeiros, de que está rodeada. As ruas que atravessaõ do Meyo dia ao Septentriaõ saõ planas, e as do Poente ao Oriente costa abaixo, ainda que naõ muito empinadas, pois corre muito bem hum cavallo por ellas.

Deste Sagrado Monte Olivete se vê bem o Templo, no Lugar em que esteve o de Salamaõ, que agora he Mesquita de Mouros, e Turcos. Está no meyo de hum grande quadro murado, e hum angulo delle he muro da Cidade Santa, em hum prado desembaraçado, e limpo, com algumas arvores. He fabricado à maneira de hum Zimborio, de Moysaico, e riquissimas columnas, e taboas de marmore, e jaspe; e por fóra eleva apparatosamente a vista. Nenhum Christaõ entra dentro sobpena de perder a vida, ou renegar; o que se pratica em todas as suas Mesquitas, como tenho dito; porèm nesta he com mais rigor; porque depois da Casa de Meca em que estes barbaros dizem estar o Çancarraõ de Mafoma, esta he a mais principal. Algumas vezes ouviamos a hum Mouro, que de huma Torre chamava o Povo para a sua oraçaõ com grandes gritos; o que praticaõ em todas as Mesquitas; porque naõ admittem sinos, nem os permittem aos Christãos.

Baixámos deste Sagrado Monte pela parte, por onde subimos, e ainda que huma vez fomos a Bethania pela outra parte, quizemos nesta occasiaõ hir por onde Christo Senhor nosso fora, poucos dias antes de sua Sacratissima Paixaõ: e tornando ao rio Cedron, começámos a subir a ladeira do mesmo Sagrado Monte em roda, que he caminho mais plano. Este he, por onde o Senhor sahia a visitar as suas devotas Maria Magdalena, e Martha de Jerusalem a Bethania por este caminho he menos de meya legoa; e nelle nos mostraraõ a horta, em que estava a Figueira, que Christo Senhor nosso amaldiçoou.

Chegámos a Bethania, que hoje terá sessenta casas, que mais parecem covas de coelhos, que habitaçaõ de homens, por estarem quasi debaixo da terra. Naquelles tempos foy grande Povoaçaõ, hoje nem o que foy mostra. Entrámos logo na casa de Simaõ Leproso, que saõ duas Capellas de pedra, bem lavradas, no Lugar donde Christo Senhor nosso ceou com Lazaro resuscitado, e Maria Magdalena o ungio. Está hum Altar em que se diz Missa no dia, que se canta este Euangelho, e ao presente he curral de cabras, e boys: e naõ faltará que alimpar, quando neste Lugar se houver de dizer Missa; e ainda que nos entristece o ver quaõ maltratados saõ estes Lugares dos Mouros, e Turcos, naõ desmaya a devoçaõ, e Fé dos Catholicos, porque consideramos, que Deos permitte que assim seja por seus occultos juizos. Daqui fomos a visitar o sepulchro de Saõ Lazaro, de que tem os Mouros a chave, e dando-lhes algum dinheiro, de boa vontade abrem a porta. Entrámos por huma escada de quinze, ou mais degraos, debaixo da terra, a este Lugar, em que estava sepultado, quando Christo Senhor nosso o resuscitou. He Lugar de muita devoçaõ, considerando as lagrimas de Christo Senhor nosso, de Maria, e de Martha, e dos mais, que estavaõ com os Apostolos. Daqui sahimos, e andados alguns passos, vimos o Castello, e casa que foy de Saõ Lazaro; e ainda que está tudo arruinado, bem mostra ter sido casa de homem principal, e visitámos a casa de Maria, e de Martha, que estaõ destruidas. No caminho está huma pedra, em que dizem, esteve sentado Christo Senhor nosso atè que chegou Martha, e disse: Domine, si fuisses hîc, &c. Tudo o [~q] referi está fóra da Cidade de Bethania, ainda que esteve dentro naquelles tempos, por ser entaõ Cidade grãde, e hoje muito pequena a Povoaçaõ. Della sahimos, e subindo por hum outeiro como trezentos passos, chegámos ao Lugar adonde foy Bethfage. Delle mandou Christo Senhor nosso aos Apostolos pela asna, e jumentinho, e subindo nella fez a sua entrada solemne, e triunfal em Jerusalem. Naõ ha aqui algum edificio, mais que humas Figueiras para sinal. Daqui se vem algumas casas da Cidade de Jericó, que todas saõ poucas. Está edificada em campina raza, que vaõ acabar nas margens do Jordaõ. Está distante de Jerusalem trez legoas, poucos mais, ou menos. Tambem se vê deste sitio hum lago, que terá de comprimento trez legoas, pouco mais, e de largo duas. He este lago do Rio Jordaõ, e nelle se acaba, pois naõ tem outra corrente, nem sahida. Chama-se o Mar morto; e debaixo delle estaõ aquellas malditas, e infames Cidades Sodoma, e Gomorrha: e se vê tambem outro monte, que estará quasi huma legoa distante, a que Christo Senhor nosso se retirou, e nelle jejuou quarenta dias, e quarenta noites, e foy tentado pelo demonio. Passado o Jordaõ por esta parte, que está de Jerusalem oito legoas, pouco mais, principiaõ os montes de Arabia.

Sahimos do Lugar de Bethfage, e subimos ao alto do Monte Olivete, levando o rosto para o Septentriaõ, e declinado ao Poente, passando pela Igreja da Ascensaõ, baixámos ao Lugar, adonde vendo Christo Senhor nosso a Cidade de Jerusalem, chorou sobre ella, dizendo: Si cognovisses, & tu, &c. e descendo ao Valle de Josaphath, subio à Cidade, e Templo, entrando pela Porta Aurea, que agora está no muro cerrada de cal, e pedra, sahindo o Povo a seu recebimento com ramos de palmas, e os meninos cantando: Hosanna in excelsis.

Todos os annos faziaõ os Religiosos Latinos esta representaçaõ, em que o Guardiaõ, que representava a Christo Senhor nosso, e doze Religiosos os Apostolos, sahiaõ paramentados de Bethfage, e mandava o Guardiaõ a dous Religiosos, que fossem pela asna, e jumentinho; e trazendo-a, subia nella; e cantando os Religiosos em circuito do Preste, e chorando pela muita devoçaõ varios Hymnos, e versos a este proposito, ordenavaõ na Dominga de Ramos esta triunfal, e solemne Procissaõ, e o sahiaõ a receber da Cidade muitas naçoens Christãas, e muito Infieis, e lançavaõ ramos, e as suas vestiduras, por donde passava. Os Mouros; e Turcos estavaõ como pasmados vendo esta Procissaõ, sem perturbarem aos Christãos, o que parecia milagre, e o era certamente, por naõ terem mãos, nem linguas para os impedir, por Deos nosso Senhor o naõ permittir; e subindo ao Santo Cenaculo, que era entaõ Convento seu, proseguiaõ o Officio daquelle dia. No tempo, que eu estive na Santa Cidade naõ se fazia esta Procissaõ, porque o Turco mandou, que se não fizesse.



Da Cidade de Bethleem, e do caminho que fizemos atè lá chegar.


Já he tempo de tratar do alegrissimo, e bemditissimo caminho, que ha da Santa Cidade de Jerusalem à de Bethleem, que saõ duas leguas para a parte do Meyo dia. Sahimos da Santa Cidade ao nascer do Sol, pela porta de Jaffa, e passando pela Fonte de Salamaõ, e casa de Bersabè sua mãy, subimos huma pequena, e suave costa, e démos em hum caminho, todo plano, ainda que nelle ha muitas pedras. He este caminho muito aprazivel, porque o espaço de huma legoa delle tudo saõ herdades, vinhas, oliveiras, frutas, e muitas Torres, e casas, o que tudo faz huma deliciosa vista, e muitas dellas foraõ casas de Profétas, e algumas já foraõ Igrejas. Vimos em hum campo grande quantidade de pedras taõ pequenas como graõs, e do seu feitio; e se conta, que a Virgem Senhora nossa vendo semear grãos a hum Lavrador, lhe pedio, lhe désse delles; e que elle zombando respondera, que naõ eraõ grãos; que eraõ pedras, e assim saõ atè hoje. Eu os vi, e trouxe alguns. Vimos tambem neste caminho huma grande arvore, que me pareceo Aroeira, e lhe chamaõ Terebintho. Tomámos ramos com devoçaõ, porque à sua sombra dizem que descançára a Virgem Senhora nossa. Vimos tambem o sepulchro de Rachel, que os Mouros, e Turcos guardaõ, e usaõ delle Mesquita. He fermoso edificio, situado em hum lindo quadro, com hum muro cuberto com hum capitel sobre columnas. Vimos tambem huma cisterna de muita, e boa agua, em que os Santos trez Reys tiveraõ grande alegria, por lhes apparecer a Estrella, que se escondera, antes que entrassem em Jerusalem, e dalli os guiou atè o Lugar aonde estava o Menino Deos no portal de Bethleem. Vimos tambem huma Igreja de Gregos, que he a casa adonde esteve Elias. Ha por esta parte muitas antigalhas dignas de ver, e curiosas. Desta casa se descobre a feliz, e desejada Igreja, e Cidade de Bethleem.

Quando a vimos, Peregrinos, e Religiosos, que nos acompanharaõ, nos puzemos de joelhos, cantando Hymnos, e oraçoens, dando muitas graças a Deos pelo Mysterio do seu Nascimento, e por permittir que, que visitassemos aquella Santa Cidade; e assim continuámos, até chegarmos a ella, e à porta da Igreja, que está fóra da dita Cidade, que agora terá pouco mais de sessenta visinhos. Entrámos pela porta principal da Igreja, que está defronte da Capella mayor, ficando à maõ esquerda a entrada do Convento. Sahiraõ-nos a receber os Religiosos de Saõ Francisco, que alli assistem, e commummente saõ nove, ou dez; e fizemos oraçaõ na Igreja, que he da Invocaçaõ de Santa Catharina. Esta Igreja, Convento, e Igreja grande do Santissimo Nascimento, fazem hum corpo, e na de Santa Catharina dissemos Missa no dia que chegámos.

Dita a Missa, todos os Religiosos, e Pereginos com tochas accezas, baixámos por huma escada, que está na parede, e lado da Epistola, e tem vinte degraos, a humas covas, em que estaõ fabricadas na penha viva estas Capellas. Hum Altar, no Lugar, em que foraõ mortos muitos dos meninos Innocentes; poucos passos mais dentro, a hum lado o sepulchro de Santo Eusebio, discipulo de Saõ Jeronymo; mais dentro dous passos em huma Capella o sepulchro de Santa Paula, e de sua filha Eustochio; e de fronte na mesma Capella o sepulchro de Saõ Jeronymo; mais dentro huma Capella, adonde Saõ Jeronymo viveo muito tempo, e traduzio a Sagrada Biblia. Todos os dias se visitaõ estes Santos Lugares processionalmente cantando Hymnos, Antifonas, Versos, e Oraçoens em cada huma destas Estaçoens, e se ganhaõ muitas Indulgencias. Daqui sahimos, e entrámos por hum passadiço apertado, e estreito, para hirmos à Capella do Santissimo Nascimento, e nos pareceo, quando entrámos, que entravamos no Paraiso.

Esta Santissima Capella em que a Virgem Mãy de Deos, e Senhora nossa pario ao Filho de Deos, está fabricada, como as outras, na penha viva. Terá como doze palmos de comprimento, de largura quatro, e dous estados em alto. He cuberta de marmore, e jaspe, e de fermosissimo Moysaico. Ha nella hum Altar de huma só pedra, vaõ por baixo, que he o proprio Lugar, em que nasceo Jesu Christo, verdadeiro Filho de Deos, Homem, e Deos verdadeiro. Está este Lugar sinalado com huma pedra branca, que no meyo tem huma Estrella de jaspe. Sobre este celestial Altar dissémos Missa do Nascimento dous dias. Dous passos adiante está o Lugar, como huma piasinha de marmore quadrada, mais baixo que o pavimento, em o qual foy o Menino Deos reclinado no Presepio. Aqui está descuberto hum pedaço de penhasco, taõ ditoso, que gozou (se se pòde dizer) do resplandor, e gloria de Deos humanado: e na verdade, que este penhasco nos alegrou mais que todos os mais jaspes, e Moysaicos; porque estes nos alegraraõ a vista corporea, aquelle nos encheo a alma de contentamento. Bem discretos foraõ os edificadores deste Santissimo Lugar, em o deixar à vista, para alegria espiritual de todos os que o vem.

Entre o Lugar do Santissimo Nascimento, e Santissimo Presepio, está hum Altar de marmore, que sinala o Lugar, em que os Reys offereceraõ os seus dons. Eu como musico tive mil desejos, e ancias, de ter alli os melhores musicos do Mundo, assim de vozes, como de todos os instrumentos, para dizer, e cantar mil vilhancicos, e chansonetas ao Menino Jesus, a sua Mãy Santissima, e ao glorioso Saõ Joseph, em companhia dos Anjos, Reys, e Pastores, que se acharaõ naquelle diversorio; que ainda que parecia pobre, excedia a todas as riquezas, que imaginar se podem.

Nos lados do Altar do Santissimo Nascimento ha duas escadas, porque subimos à Capella mòr da Igreja principal, porque o Lugar do Nascimento Santissimo, e os demais que referi, estaõ debaixo desta Igreja. Esta he fermosissima, ainda que em parte está despida da sua fermosura, porque todas as paredes, e pavimento, estiveraõ cubertas com taboas de marmore, que os Turcos ha poucos annos a esta parte tiraraõ para ornarem as suas Mesquitas. He de trez naves, a do meyo muito alta, e sustenta-se o tecto em ricas, e grandes columnas de marmore, inteiras, e bem lavradas, e saõ quarenta e oito. Sobre estas columnas estaõ assentadas vigas de cedro, que atravessaõ de huma a outra, muito curiosas pelo artificio; e sobre isto ha outros arcos de pedra, e sobre elles em hum lado está lavrada de riquissimo Moysaico a geraçaõ de Christo Senhor nosso, como a escreveo Saõ Mattheus, e do outro lado, como a escreveo Saõ Lucas; tudo de figuras de meyo corpo, com seus nomes.

Junto à Capella mayor està hum Altar, adonde o Menino Deos foy circumcidado. Nesta fermosa Igreja se diz Missa algumas vezes, e naõ sempre; porque os Turcos quasi todo o dia estaõ nella, e como saõ muito porcos, está pouco aceada. O Padre Guardiaõ nos levou aos terrados da Casa, e Igreja; e de lá vimos o lugar, e prados, em que os Santos Pastores estavaõ, quando o Anjo lhes disse, que Christo nosso Salvador era nascido, cantando: Gloria in excelsis Deo. Está de Bethleem como a terceira parte de huma legoa. Vimos tambem o Lugar, em que estavaõ as vinhas do Balsamo, no tempo de Salamaõ, que se chama Engadi. Está pouco mais de huma legoa de Bethleem.

Desta Santa Casa sahimos como cem passos, e entrámos em huma cova (de que os Mouros tem a chave) adonde estiveraõ escondidos a Virgem Senhora nossa, o Menino Deos, e Saõ Joseph, quando o Anjo lhes disse, que fugissem para o Egypto, por Herodes procurar o Menino para o matar. Nesta cova dizem, que dando a Virgem Senhora nossa de mamar ao seu bemditissimo Filho, lhe cahira do seu purissimo Leite na terra; pelo que todos levaõ desta terra por devoçaõ, para dar às mulheres, que tem falta de leite, e lançada em hum vaso de agua, ou vinho, se lhestitue, confórme a fé da que o usa.

Aqui nos hospedaõ os Religiosos, dando-nos de comer, e camas a todos os Peregrinos com muito amor, e caridade, sem que seja necessaria recompensaçaõ; ainda que todos, conforme a sua possibilidade, contribuem com o que podem, por agradecimento, o que naõ espera a sua grande caridade, com que trataõ a todos sem differença. A mayor parte dos edificios desta Casa edificou Santa Paula em tempo de Saõ Jeronymo. Aqui habitaraõ atè morrerem. O que está aruinado se pòde reparar, porèm naõ o permittem os Turcos. Tem bastante vivenda para os Religiosos. Tem dous Jardins, em que ha muitas Larangeiras, e outras arvores, frutas, e hortaliças; bons passeyos, boas vistas, e em tudo o que se descobre houve antigamente cousas notaveis. Tem hum dormitorio para os Peregrinos, à maneira de huma nave, em que se podem hospedar atè duzentos. Sahimos deste Santo Lugar com tantas saudades, como quem deixava lá a alma, e naõ acertavamos a nos retirar: e tornámos para a Santa Cidade de Jerusalem pelo mesmo caminho, chorando, sem tirarmos os olhos, em quanto o alcançamos com a vista, de Lugar taõ Santissimo.



Da Igreja do Monte Calvario, e Santo Sepulchro.


Vistos os Santuarios da Santa Cidade de Bethleem, pedimos ao Senhor Guardiaõ nos procurasse a entrada no Sagrado Monte Calvario, e Santo Sepulchro; e ajustado o dia, e hora com o Subasi, Governador da Santa Cidade de Jerusalem, que tem as chaves desta Santa Igreja, que sempre está fechada, e sómente se abre quando elle quer, ou quando o Padre Guardiaõ o avisa de que haõ de entrar Religiosos, ou Peregrinos, ou alguma das naçoens Christãas; e chegado o dia, que foy quinta feira de tarde, veyo Subasi com o Escrivaõ, e Porteiro, e se sentou à porta desta Santa Igreja sobre hum poyal, que se cobrio com hum tapete, e coxins de veludo; e o Padre Guardiaõ com outros Religiosos, e hum Christão da terra, que se chama Ánà, muito bom homem, e fiel interprete do Convento, que falla bem Italiano, e Arabigo, que he a lingua commua da terra em toda a Palestina, e Syria. Chegámos sete Peregrinos, que eramos, que o Padre Guardiaõ appresentou ao Subasi, e perguntando-me o nosso interprete, pois era o primeiro, o como me chamava? Respondi, que Alberto; porque parecesse nome Tudesco, e naõ Hespanhol, por ser de perigo, que elles saibaõ, que somos Hespanhoes, porque entendem, que vamos por espias, e nos fazem escravos; e fallando Italiano, os assegurámos de toda a suspeita. Escreveo o Turco o nome, que eu disse, com huma penna de cana, e lhe dey nove zequies de ouro, que vale cada hum sete centos e cincoenta, e o mesmo deu meu companheiro, e os mais. Os Religiosos Sacerdotes naõ pagaõ cousa alguma. Paga se sómente este dinheiro na primeira vez, que se entra nesta Santa Igreja; e depois, quando se abre, basta que se dê ao Porteiro hum, ou dous maydines.

Entrámos logo nesta Santissima Igreja, em que a vista naõ pòde estar ociosa, pelo muito que ha, que ver, e venerar. A primeira cousa he o Lugar, aonde nosso Redemptor foy ungido para o sepultarem; e à maõ direita, na mesma nave, està o Santissimo Calvario, à maõ esquerda na nave do meyo, defronte da porta do Coro ao Poente, está o Sepulchro do nosso Redemptor; e no meyo da Igreja o Coro, que tem quatro Cadeiras Patriarchaes, em que em outro tempo se sentàraõ juntos os quatro Patriarchas da Christandade. Está hoje a cargo dos Gregos, e nelle tem o seu Altar mayor com Imagens de Santos, pintadas com todo o primor. As naves saõ direitas, excepto que para a parte do Oriente, e Poente saõ redondas, à maneira de Colisseo. A Igreja he de fermosa fabrica. O tecto em partes he de Moysaico. As paredes em outro tempo estiveraõ cubertas de marmores, agora está a pedra aberta. Naõ perde com tudo a fermosura esta fabrica excellentissima, ainda que tenha agora esta falta.

As naçoens Christãas, que ha em Jerusalem de diversos Reynos, e Provincias, e Linguas, saõ estas.

Latinos. Gregos. Armenios. Georgianos. Jacobitas. Abexins. Surianos. Maronitas.

De cada huma destas naçoens ha dous, ou trez Religiosos, repartidos pelas Capellas desta Santa Igreja, que dizem o Officio Divino cada hum a seu modo, rito, e lingua, e tem cuidado das suas alampadas, que estejaõ sempre accezas, e limpas. A habitaçaõ dos nossos Religiosos de Saõ Francisco Latinos he a melhor; porque tem Refeitorio, Dormitorio, e tudo o que basta para poderem estar atè trinta pessoas.

Comem, e dormem estas naçoens dentro nesta Igreja, e os Peregrinos, que estaõ dentro, dando-lhes de comer, e o que pedem por hum buraco, que a casa tem como fresta, cruzada com duas barras de ferro. Por esta fresta fallaõ, e se lhes ministra o necessario, e se vê hum pedaço da Igreja; por ella fazem oraçaõ os que estaõ de fóra. Tal ordem tem dado o Turco, para que estejaõ conformes, e como germanadas estas naçoens, humas com outras, que se huma alampada se estiver apagando, e o visinho a quizesse atiçar por devoçaõ, o condemnariaõ em muitos cruzados; e assim com este rigor, ha summa paz entre todos, e nenhum se intromete na obrigaçaõ, ou devoçaõ do outro.

A todos saõ communs os Santuarios, para os poderem visitar em qualquer hora, que quizerem, porque estaõ continuamente abertos; e como sempre està fechada a porta da Igreja, tudo està bem guardado: pelo que he de grande contentamento, e devoçaõ o poder entrar livremente, de dia, e de noite, em que muitissimas alampadas a illuminaõ. Em todos os Santuarios tem todas as naçoens suas alampadas, huns mais, outros menos, e cada huma cuida das suas.

Começámos os Peregrinos, e Religiosos a nossa procissaõ nesta Santa Igreja com vèlas accezas, cantando o Hymno, Antifona, e Verso daquelle Santuario, que visitamos, e chegando o Religioso, que està paramentado, nos diz o Mysterio, que alli passou, e a Indulgencia, que ganhámos.

A primeira Estaçaõ foy em huma Capella, que se chama o Carcere de nosso Salvador, no qual esteve em tanto, que os Judeos esperavaõ, que a Cruz, e o lugar em que se havia pôr, estivessem aparelhados. Mais adiante visitámos huma Capella, na qual os Soldados, que prenderaõ a Christo Senhor nosso, lançáraõ sortes sobre as suas vestiduras. Mais adiante entràmos por huma porta, e baixando trinta degraos, chegámos à Capella de S. Helena, mãy do Emperador Constantino, em [~q] se sentou a Santa Emperatriz, em tanto, que se cavava, procurando a Cruz. Aqui nesta Cadeira da Santa ha muitas Indulgencias. Baixámos mais onze, ou doze degraos, feitos na mesma penha do Monte Calvario, e he o Lugar adonde a Santa Emperatriz achou a Santa Cruz, titulo, cravos, e as cruzes dos Ladroens. Chamaõ-se estas Capellas da Invençaõ da Cruz. Estaõ bem fabricadas, e muito espaçosas, ainda que debaixo da terra, que corresponde ao Calvario.

Sahimos desta Capella, e visitámos outra, donde està hum pedaço de huma columna, em que Christo Senhor nosso esteve sentado, quando os Ministros de Pilatos, depois de o açoutarem, o coroaraõ de espinhos. Daqui subimos por dezanove degraos, e fomos ao Santo Monte Calvario, e nos pareceo, que entràvamos no Paraiso. Estando no alto, vimos huma Capella, que saõ duas estancias a modo de tribuna, que corresponde à primeira nave da Igreja. A primeira he o Lugar Sacratissimo, em que o Filho de Deos foy levantado na Cruz; nelle está o buraco donde a Santa Cruz esteve fixada. Tem hum bocal de prata, e o adorámos, e beijámos, como Santuario taõ admiravel. Metemos dentro os nossos braços nùs, e assim digo, que terá de fundo como trez palmos. Nos lados estaõ sinalados os Lugares das cruzes dos Ladroens, que me parece, que tocavaõ huma, e outra cruz. Ha entre a de Christo Senhor nosso, e a do mào Ladraõ, huma abertura na penha de sete palmos de comprido, e mais de hum de largo, que chega abaixo ao Lugar da Invençaõ da Santa Cruz. Esta se abrio quando Christo Senhor nosso espirou. Na outra parte da Capella, a trez passos, està o Lugar em que cravaraõ a Christo Senhor nosso, estando a Cruz no chaõ, e dalli a levantaraõ, e puzeraõ no sitio referido. Donde isto succedeo está huma memoria de jaspe, e marmore bem lavrados. Esta Capella, que se chama da Crucifixaõ, toda está cuberta de marmore, e jaspe finissimo com muitos lavores, e o tecto he todo de Moysaico, de que estaõ pendentes mais de cincoenta alampadas de todas as naçoens de Christãos. Dissemos Missa na parte da Crucifixaõ, na sexta feira seguinte ao dia, em que entràmos, e foy a da Paixaõ secundùm Joannem; e este Altar se divide com huma cortina do Lugar em que esteve fixada a Santa Cruz. Naõ poderey explicar a grande afluencia de devoçaõ, que todos aqui sentem interior, e exteriormente, considerando, que tudo, o que o Santo Euangelho refere, se obrou neste Santissimo Lugar. A parte donde Christo Senhor nosso foy encravado, està entregue ao cuidado dos Religiosos de Saõ Francisco; adonde esteve crucificado aos Religiosos Georgianos, que saõ extremosamente devotissimos, e sempre estaõ neste Sagrado Lugar rezando, e cantando. Saõ virtuosissimos Varoens, e de muita abstinencia, e pobreza. He taõ agradavel, e devota para a alma, e corpo esta estancia do Sagrado Monte, que não se enfada, ou cança alguem de estar nella. Em tudo he hum Paraiso. Oh que bem pareceraõ aqui alguns Musicos cantando as lamentaçoens de Jeremias, vendo, e considerando o Calvario, e Santo Sepulchro, porque ambos estes Santuarios se podem ver juntamente!

Baixando deste Sagrado Lugar, chegàmos ao meyo da primeira nave, e veneràmos huma pedra grande, pegada na terra, cercada de grades de ferro de altura de palmo; e por cima estaõ pendentes oito, ou nove alampadas de todas as naçoens Christãas. Neste Lugar foy ungido Christo Senhor nosso para o sepultarem, por seus devotos servos, Nicodemus, e Joseph ab Arimathea, assistindo a Virgem Senhora nossa, e as mais Santas Mulheres, e o amado Discipulo Saõ Joaõ. Este Santo, Lugar està defronte da porta da Igreja, e se vê pela fresta, que nella ha; e os que estaõ fóra, por ella fazem oraçaõ, e ganhaõ as Indulgencias. Daqui ao Santo Sepulchro haverà quarenta passos para a parte do Poente, dentro da mesma Santa Igreja. Esta inestimavel reliquia possuem os nossos Religiosos de Saõ Francisco, e sómente os Latinos dizemos nelle Missa. A sua fórma he esta. Antes da entrada ha huma pequena Capella quadrada, em que caberáõ dez, ou doze pessoas, e no meyo della está huma pedra de dous palmos de altura, e dous de grosso. Nesta pedra, dizem, que o Anjo estava sentado, quando fallou às Marias, dizendo-lhes, que já Christo Senhor nosso resuscitára. Por esta Capella se entra a outra taõ pequena, que a porta terá quatro palmos de alto, e trez de largo. Á maõ direita está o Santo Sepulchro de nosso Salvador, donde esteve o seu Santissimo Corpo, e delle resuscitou. He hum Altar como huma arca, cuberta com huma pedra marmore. Sobre este preciosissimo Sepulchro dissémos Missa; e naõ cabe neste lugar mais que o Sacerdote, e o que o ajuda. O vaõ ninguem o vê, porèm o mais gozaõ todos, tocando-o, e beijando-o. Da parte superior pendem muitas alampadas de todas as naçoens. Aqui disse Missa pela misericordia de Deos, e foy a da Resurreiçaõ, e foy grande alegria para mim, quando dizia no Santo Euangelho: Surrexit, non est hîc, ecce locus ubi posuerunt eum; sinalando com o dedo o lugar adonde esteve o nosso Salvador. Move certamente os nossos coraçoens esta verdadeira representaçaõ.

Esta Capella do Santo Sepulchro, ainda que por dentro he quadrada, por fóra he redonda, e tem as paredes cubertas de marmore. Em cima tem hum capitel de columnas muito bem lavrado, que offerece huma boa vista aos que o vem de fóra. Está no meyo de hum circuito de columnas, sem tocar em alguma parte. O zimborio da Igreja, que lhe corresponde, he huma meya laranja de madeira de cedro muito antiga. No meyo tem huma grande abertura, como coroa, por donde entra a luz aos que estaõ em baixo. No alto de huma parte está o retrato da Emperatriz Santa Helena, e da outra o do Emperador Constantino seu filho, de rico Moysaico, muito antigo, e outras figuras de Santos, que quasi naõ se parecem, por estarem maltratadas da antiguidade, e do tempo.

Sahidos deste Santissimo Lugar como dez passos, à maõ esquerda, estaõ duas pedras redondas de marmore postas na terra, huma apartada da outra, como trez passos. Em huma esteve Christo Senhor nosso depois de resuscitado, na outra a Santa Magdalena, quando lhe appareceo em figura de Hortelaõ, e lhe disse: Noli me tangere. Daqui fomos à Capella, e Coro dos nossos Religiosos Franciscanos, em que dizem, appareceo Christo Senhor nosso a sua Santissima Mãy. Na entrada desta Capella, na parede, guardada com huma rede de ferro, de modo que o podemos tocar com os dedos, está hum pedaço da columna, em que Christo Senhor nosso foy açoutado. Com esta Estaçaõ acabámos de visitar esta Santissima Igreja. Nos quatro dias, e noites, que nella estivemos encerrados, reiteramos estas Estaçoens muitas vezes em procissaõ, e sós. He de grande contentamento ouvir pela meya noite a todas estas naçoens dizerem Matinas, cada h[~u]a na sua lingua, e canto.

Sahidos desta Santa Igreja, nas costas da Capella Mayor, e no mais alto della, que he parte do Sagrado monte Calvario, visitámos huma Capella, adonde Abraham offereceo o sacrificio; e outra, que está perto, adonde Melchisedech offereceo paõ, e vinho; das quaes tem cuidado os Religiosos Abexins: e tornando para o nosso Convento de Saõ Salvador, nelle estivemos alguns dias, esperando ao nosso Trucimaõ Atala para ajustarmos a nossa vinda. Nestes dias reiterámos as Estaçoens dos Sagrados montes Sion, e Olivete; e chegando à Santa Cidade de Jerusalem quatro Religiosos de Saõ Francisco, que vinhaõ do Cayro, dous Italianos, e dous Hespanhoes, o principal dos Italianos se chamava Fr. Mattheus Salerno, homem nobre do Reyno de Napoles, e muito virtuoso, que vinha para Comissario de Jerusalem; e o principal dos Hespanhoes, Fr. Luiz de Quesada, natural de Sevilha, os acompanhámos na continuaçaõ destes exercicios, que nunca enfadaõ, mas antes nos daõ recreaçaõ espiritual, por espaço de dez, ou doze dias. Trazia o Padre Salerno muito dinheiro, e muitas joyas para o serviço do Santo Sepulchro. Muitas toalhas, corporaes, e demais cousas para o Altar, e celebraçaõ das Missas, que offereciaõ muitas Senhoras de Hespanha, e Italia. Hum rico Caliz, que mandava ElRey de Hespanha; e outro com huma alampada, que offerecia o Grão Duque de Florença. Tudo me mostrou na Sacristia por contentar o meu desejo, e querer fosse eu testemunha de tudo.

Já tratavamos de voltar para Italia, e o nosso Atala nos persuadia, a que fossemos com elle a Jaffa; porèm o Padre Salerno disse, que de nenhum modo queria andar por mar a costa da Palestina, porque já entrava o Inverno; pelo que resolveo hir por terra atè Tripoli, e eu em o acompanhar: e tendo eu assistido hum mez na Santa Cidade de Jerusalem, e os Religiosos quinze dias, dispuzemos a jornada; e agradecemos ao Padre Guardiaõ a hospedagem, dando-lhe tambem cada hum a esmola, que podia, e naõ a que desejava: e recebemos delle as patentes, e testemunho da nossa entrada na Santa Cidade, escritas em pergaminho, com o sello do Santo Cenaculo.



Da nossa sahida da Santa Cidade de Jerusalem.


Chegou o tempo de sahirmos da Santa Cidade de Jerusalem, e o Padre Guardiaõ ajustou com Atala, e outros Mouros visinhos de Jerusalem, que nos levassem a Damasco, caminho de oitenta legoas. Com elles sahimos em jumentos, (por naõ permittirem, que os Christãos andem a cavallo) sete Religiosos, e seis Peregrinos. Dous Religiosos destes faziaõ jornada para Alepo; trez para Constantinopla; dous, que eraõ o Padre Salerno, e seu Companheiro Fr. Serafino, e hum Leigo Hespanhol, chamado Irmaõ Juliaõ, e nòs Pedro Tudesco, e Nicolao Polaco, para Veneza.

Despedidos do Padre Guardiaõ, tomada a sua Santa bençaõ, e abraçando com muitas lagrimas a todos os Religiosos, sahimos acompanhados de todos muitos passos fóra da Cidade, e repetidos os abraços, e lagrimas, começamos a caminhar, voltando a cada passo os olhos a traz, para vermos a Santa Cidade, os Sagrados montes Sion, e Olivete, e nos despediamos de taes Santuarios com muita tristeza; e tendo caminhado como meya legoa, a perdemos de vista. Nesta meya legoa vimos huma Igreja, e he o lugar adonde Jeremias, vendo a Cidade, e chorando, compoz as Lamentaçoens.

Fizemos noite em huma Cidade destruida, trez legoas de Jerusalem, e nella esperámos huma caravana de trinta e trez camellos de mercadores Mouros, por fazermos jornada em sua companhia. Nesta Cidade foy que a Virgem Senhora nossa achou menos ao seu Filho Christo Jesus de tenra idade, e tornando a Jerusalem a procurallo, o encontrou no meyo dos Doutores no Templo. Proseguimos a jornada por esta parte de Judéa, e entrámos na Provincia de Samaria. Neste dia fizemos noite na Cidade de Sichar, a que os Mouros chamaõ Nablos. Aqui está o poço, donde Christo Senhor nosso fallou à Samaritana; naõ o vi, porque entrámos já de noite; porèm meu companheiro o vio, que ficou a traz com parte da companhia, e disse que naõ tinha agua. Estivemos naquella noite dentro da Cidade, e dormimos na rua, porque nos naõ déraõ pousada; e no dia seguinte, pela tarde, continuámos a jornada.

Nesta Cidade de Sichar prégou Christo Senhor nosso dous dias, convertendo os seus moradores. He muito fermosa, e fresca, e tem boas casas, e muitas Torres. He habitada de dous mil visinhos. Está entre dous montes, e o principal he o Garisim. Tem hum valle, dos fermosos que se podem ver, em que ha muitas hortas, e fontes, arvores, e frutas. Quando eu vi da outra parte da Cidade tantas fontes, passando por este valle, entendi que as naõ haveria no tempo da Samaritana; porque havendo-as, naõ buscaria taõ longe a agua. Aqui habitou Jacob com seus filhos, e gados, e deu a Joseph por melhor huma herdade, como diz a Santa Escritura. Na Cidade nos mostraraõ a sua casa. Toda esta Comarca de Sichar he fertilissima de paõ, gados, e de tudo o necessario para a vida humana. Ao outro dia chegámos à Cidade de Sebaste, Cabeça do Reyno, e Provincia de Samaria; nome que teve em outro tempo; agora está destruida, ainda que alguns edificios bem mostraõ a sua antiga grandeza. Ha nesta Cidade huma Igreja de pedra, e duas partes della estaõ cahidas; porèm o que está em pé, he taõ bem lavrado, como a mais perfeita obra Romana. No Altar desta Igreja, dizem, foy degollado o grande Saõ Joaõ Bautista por mandado delRey Herodes. He digno de consideraçaõ particular, o ver esta Cidade em que residiraõ tantos Reys, destruida; pois apenas terá cincoenta casas; o que tambem se vê em toda a Palestina, pois vimos Cidades, pelos caminhos que andámos, que antigamente foraõ populosas, e insignes; e hoje só se vem pedras, e algumas paredes. Bem se colhe ser vontade de Deos; e que estaõ destruidas por peccados dos habitadores daquelle tempo. Aqui nos disseraõ, que a companhia dos camellos, que vinha comnosco, ficando muito a traz, a roubáraõ os Arabes. Naõ sey que assim fosse, o que posso dizer he, que já mais a vimos; e démos graças a Deos por nos livrar.

Passadas dez legoas de travessia desta Provincia de Samaria, entrámos na de Galilea. Da Santidade della basta dizer, que Christo Senhor nosso a passeou muitas vezes, e nella obrou as maravilhas, que referem os Chronistas Sagradas. Cinco legoas dentro nesta Provincia está h[~u]a Igreja cahida entre h[~u]as casas, de que se fórma huma pequena Aldea, chamada Janim, em o lugar adonde Christo Senhor nosso sarou aos dez Leprosos. Mais adiante trez legoas, vimos quatro celebrados montes. O Carmelo, [~q] está ao Poente do nosso caminho, junto ao Mediterraneo. O Hermon, [~q] está à parte de Levante, e junto a elle a Cidade de Naim, adonde Christo Senhor nosso resuscitou o filho da Viuva; agora he pequena Villa. O monte, a que está contigua a Santa Cidade de Nazareth, adonde encarnou o Filho de Deos. Naõ subimos a este lugar, bem que estava perto, por[~q] o naõ permittiraõ os nossos Mouros; e sómente vimos branquear as ruinas dos edificios. A ditosa casa, em que a Virgem Senhora nossa concebeo ao Filho de Deos, que estava nesta Cidade, a trouxeraõ os Anjos, haverá duzentos annos, para Italia, e a collocáraõ em Loreto, tendo primeiramente sido levada a duas partes. Obra Deos nella infinitos milagres, de que estaõ cheyos os livros, e na Igreja em que está, já naõ ha parte adonde se ponhaõ tantas memorias. Tem muita riqueza de pessas de ouro, e prata, ornamentos, offertas que fizeraõ Pontifices, Reys, Principes, Senhores, &c. no que lhe naõ excede alguma Igreja do mundo. Cercaraõ os Pontifices esta camara Angelical com huma fermosa Igreja, e está no meyo della. As paredes de fóra estaõ cubertas de marmore lavrado de lindas figuras, em que se vê a vida da Santissima Virgem, Mãy de Deos, e Senhora nossa. Por dentro estaõ descubertas as pedras, e ladrilho, mais agradaveis, ainda que antigos, que todas as pedras preciosas do Mundo, pois cremos, que foraõ tocadas milhares de vezes por Christo Senhor nosso, e sua Santissima Mãy Tem no meyo hum Altar donde dizemos Missa, que divide a huma parte a chaminé, adonde a Virgem Senhora nossa guizava a sua ordinaria comida. Está esta ditosa chaminé cuberta de prata, e outras riquezas.

Junto a esta Santa Igreja está hum sumptuoso Collegio da Companhia de Jesus, em que assistem Religiosos de muitas naçoens. Esta Santa Casa he frequentada de muita gente, que a visita, de toda a Christandade.

Desta Santa Cidade de Nazareth sahio a Virgem Senhora nossa pejada, acompanhada do seu Esposo Santissimo Saõ Joseph, a escreverse na Cidade de Bethleem, pelo edito, e mandato geral do Emperador Cesar Augusto, por ser esta Cidade sua, como descendentes da Real estirpe de David; e alli pario a seu Unigenito Filho, e do Eterno Pay. De Nazareth a Bethleem ha trinta legoas, pouco mais, ou menos.

O outro monte he o Thabor. Ao pé delle chegámos, e vimos dous edificios cahidos; hum no principio, outro no alto do monte, adonde Christo Senhor nosso esteve com os seus Discipulos Saõ Pedro, Saõ Joaõ, e Santiago, e se transfigurou ante elles, e de Moysés, e Elias. Nelle ouvio a voz do Eterno Pay, dizendo: Hic est Filius meus dilectus, &c. Demais da Santidade deste monte, que he o principal, por nelle se mostrar Christo Senhor nosso glorioso, e resplandescente com os rayos de gloria; he tambem muito alegre, fermoso, e bem proporcionado na sua postura, alto redondo, e apartado dos outros; de modo, que parece, foy posto à maõ naquelles Valles.

Proseguimos o nosso caminho, levando o rosto ao Norte, e chegámos ao mar de Galilea, que se chamou Tiberiades. Ainda que se chama Mar, naõ o he; porque a agua he doce, e está apartado do Mediterraneo mais de doze legoas. Neste mar, ou lago, fez Deos milhares de maravilhas. Aqui estavaõ pescando Saõ Pedro, e santo André, e em outro barco Saõ Joaõ, e Santiago, quando os chamou Christo Senhor nosso para que o seguissem, e que os faria pescadores de homens; e deixando as suas redes, o seguiraõ. Ha na ribeira deste lago muitas Povoaçoens, que em outro tempo foraõ Cidades principaes. Entre ellas he celebre Capharnaum, Corozaim, e Bethsaida. Ao presente sómente se vem as suas ruinas. Junto a este lago fez Christo Senhor nosso o milagre de dar de comer às turbas, que o seguiaõ, com cinco paens, e dous peixes. Muitas vezes andou, e navegou sobre as suas aguas este mesmo Senhor. Aqui se manifestou aos Discipulos, depois de resuscitado. Terá este cinco legoas, pouco mais, ou menos de comprido, e de largo pouco mais de duas. A agua he do Rio Jordaõ, que nelle entra, e sahe correndo, mais de quarenta legoas atè o Mar morto, em que se recolhe, e naõ torna a sahir. Na sua ribeira ha muitas fontes. Pousàmos esta noite, e tarde, que chegàmos, junto a este lago, em Bethsaida, terra, e Patria dos Apostolos Saõ Pedro, Santo Andrè, seu irmaõ, e Saõ Filippe. Alegria grande tivemos por pernoitarmos aqui, pois Christo Senhor nosso aqui esteve muitas vezes. He agora huma Villa de cem visinhos. A Comarca he das fermosas, que tem o Mundo, muito fertil de gados, frutas, e palmas. Comemos peixe deste lago, que nos soube muito bem, por ser donde Christo nosso Redemptor o comeo algumas vezes, e por ser bonissimo, e pela devoçaõ com que o comiamos, e pela fome, que tinhamos.

No outro dia madrugàmos muito, e caminhàmos por asperas montanhas, e chegàmos antes do meyo dia ao celebre Rio Jordaõ, que ainda que nesta parte naõ foy o Bautismo de Christo Senhor nosso, com tudo por nelle se celebrar, nos deu a sua vista muita alegria, e contentamento. Apeàmonos todos contra a vontade dos Mouros, e com grande ancia chegàmos à agua, bebendo toda a que podémos, lavando nella cabeça, rosto, e mãos; e nos parecia, que tinhamos desejo de nos converter em peixes, para naõ sahirmos de aguas taõ santificadas. Nesta parte he o rio apertado, e se pòde vadear. A agua he cristalina, fresca, e muito doce. Passàmos por huma ponte de pedra bem lavrada, e à maõ esquerda vimos huma lagoa, que se chama Aguas Meronas, que saõ do mesmo rio.

Nasce este famoso rio de duas fontes, que vem do Monte Libano, huma chamada Jor, outra Daõ, e dellas toma o nome de Jordaõ. Estas fontes deixamos à maõ esquerda, quando vamos de Damasco a Tyro, e Sydonia.

Passado o rio Jordaõ, entràmos na Syria, que commummente se chama Suria, e em trez dias chegàmos a Damasco. Naõ vimos cousa notavel neste caminho, sómente encontràmos muitos Senhores, e Cavalheiros Turcos, acompanhados de muita gente de pè, e cavallo, e muitos camellos carregados com as suas recamaras, mulheres, e familia, que faziaõ jornada para o Cayro. Neste mesmo caminho me lembra sempre, quando hum Turco me deu com hum pao, sómente por passatempo, e foy rindo com os seus companheiros. Antes de chegarmos à Cidade quatro legoas, a vimos; porque se descobre assentada ao pè do Monte Libano. He muito fermosa pelas muitas Torres, que tem; e pela abundantissima veiga. Legoa e meya antes que nella entrassemos, passàmos muitas hortas, assudes, fontes, e sitios frescos, e aprasiveis. A tarde antes, e o dia, em que entràmos, vimos sahir, e entrar nella mais de mil camellos, com provimentos necessarios. Entràmos, e andàmos grande parte della primeiro que chegassemos à pousada, que foy na Alfandega, sempre a pè porque naõ consentem os Turcos, que entremos a cavallo; nos seus Povos, e pelas jornadas sómente nos permittem jumentos.

Tem esta Cidade em todas as ruas, ao menos huma fonte. He a mais abundante do necessario para a vida, assim de comestivel, como de sedas, brocados, panos, tèlas, &c. que naõ creyo haja outra no Mundo. He a sua Povoaçaõ, pouco menos, que a de Sevilha. Por fóra naõ parecem as casas bem, ainda que por dentro ha muitas principaes, e apparatosas. Ha nella, como diziaõ, quatro centas mil Mesquitas, bem edificadas, e todas tem à porta fonte, para se lavarem, os que entraõ a fazer sua oraçaõ. Por fóra vimos muitas, porque dentro naõ podemos entrar na fórma que està dito.

Estivemos nesta Cidade cinco dias, e quasi todos os Peregrinos enfermàraõ, porque dormiamos no chaõ, e em mao aposento; porèm Deos me reservou pela sua misericordia, com saude, para tratar delles. Havia naquelle tempo em Damasco hum Cavalheiro Veneziano, chamado Bernardo, Consul dos Italianos, que nos deu nestes dias de comer regaladamente, com que reparàmos o damno, que experimentàvamos de naõ ter comido de Jerusalém atè àquella Cidade mais que paõ, uvas, e agua; porque ainda que naõ falta de comer, como naõ ha estalagens para os Christãos, passàmos mal, pois pousàmos nos curraes, e estrevarias em companhia de camellos, e bufallos. Com este Cavalheiro, e hum Religioso de Saõ Francisco, que o Baxà ViRey, e Senhor da Cidade tinha em sua casa por ayo de seus filhos, de quem sómente os fiava, e naõ de Turcos, ou Mouros, andàmos muitas vezes a mayor parte da Cidade passeando-a, para a vermos, e para comprar algumas cousas para a nossa jornada.

Celebravaõ os Turcos, e Mouros nestes dias que alli estivemos a sua Paschoa, que durou trez dias, em que todos andavaõ muito alegres. Em hum destes hia eu por huma rua, em que havia muita gente, vi, que hum Turco andava a cavallo correndo por entre elles, e era necessaria grande destreza para os que estavaõ naõ ficarem atropellados. Levava hum alfange nù, e estava bastantemente borracho, pelo que abrio a cabeça a hum Mouro com huma só cutilada. Eu me escondi entre os Mouros, e passou como rayo. Delle escapey diligentemente, porque sem duvida gostaria de dar outra tal, vendo hum Christaõ. Este foy o encontro, que tive de receyo; pois sempre andámos pela Cidade, vendo suas festas, sem que nos offendessem. Naõ deve esta Cidade nada às melhores do Mundo. He habitada de Turcos, Mouros, e Judeos Mercadores, e de muitas naçoens de Christãos, que saõ o mais viandantes. Em todos os officios tem bons officiaes; e muito particularmente os que tecem sedas; o que vimos na casa de hum Turco, em que se tecia o melhor brocado, que vi na minha vida. Bem merece esta Cidade o ser Cabeça da Syria. O que nella ha que ver de devoçaõ, he a casa de Ananias, Discipulo de Christo nosso Redemptor, em que lhe fallou, e mandou, que fosse buscar a Saõ Paulo já convertido, que estava orando, e o foy a bautizar, e confortar. Mostráraõ-nos o muro, por donde a este Santo Apostolo o lançáraõ os Christãos em huma alcofa, e assim escapou delRey Aveta, que o queria matar. Mostráraõ-nos tambem em huma praça huma pedra cercada com humas grades, e della dizem, subio a cavallo Saõ Jorge, quando foy a matar a Serpente. Sómente escrevo o que vi, e o que nos disseraõ.

Chegou o tempo de fazermos viagem para Veneza, e o Consul Veneziano, que nos regalou neste tempo, ajustou com huns Mouros honrados, e fieis para nos levarem à Cidade de Tripoli, donde nos haviamos de embarcar, que tambem está na Syria. Alcançámos ainda em Damasco a Festa de Todos os Santos, e o dia dos Fieis Defuntos, e dissemos Missa no aposento do Consul encerrados, e era quanto celebravamos, esperavaõ de fóra Mouros, Turcos, e Judeos, que vinhaõ a negociar, para nos naõ perturbar.

Tratouse antes de sahirmos da Cidade, do caminho mais direito para Tripoli; e nos disséraõ, que pelo Monte Libano, por onde viera hum Cavalheiro Veneziano, naõ fossemos; porque nelle havia muitos ladroens Arabes, e o monte estava muito cheyo de neve: e assim rodeando, como vinte legoas ao nosso Mediterraneo, sahimos de Damasco. Vimos Tyro, e Sydonia; passámos por Baruth, e por suas hortas fresquissimas. Por este caminho seraõ como quarenta e cinco legoas de Damasco a Tripoli.

He esta ribeira da Syria, de excellente terra, grandes montes, muitas, e boas herdades, e algumas de Christãos Maronitas, que vivem no Monte Libano, junto a Tripoli. Ha por estes montes perdizes, e outras caças de Europa; e muitos rios, e passagens por regates, que baixaõ do Libano ao Mediterraneo.

Passando a ribeira do mar, fomos por hum caminho estreito aberto nas penhas, e chegámos a hum rio, que passámos por huma fermosa ponte do tempo dos Romanos. Alli se lê em duas pedras hum letreiro Latino, e outro Arabigo, em que se faz memoria dos Emperadores Marco Antonio, e Marco Aurelio. Chama-se o rio Caõ, por certa fabula dos Gentios, que dizem, que este Caõ, que era de pedra, dizia aos desta terra, quando havia de haver guerra, ou alguma fatalidade, e depois o lançáraõ no rio, que tomou o seu nome. Eu o vendo pelo preço, que o comprey. Cada hum crea o que lhe parecer.

He este Monte Libano muito grande, e atravessa muita terra de Damasco atè o mar. Tem muitos braços, e o principal vay direito a Tripoli, e passando duas legoas a diante da Cidade, se vê bem a parte mais alta, que toda estava cuberta de neve. Deste monte se cortou a madeira para o Templo de Salamaõ. Ha nelle boas vinhas, e o vinho dellas he excellentissimo. He digno de se ver, pelas muitas vezes, que a Santa Escritura faz delle memoria. No dia, que chegámos a Tripoli choveo muito, pelo que naõ sahio huma grande embarcaçaõ, e tinhamos grande desejo de a alcançarmos. Deos nosso Senhor parece que a guardou por sua infinita bondade para virmos nella; porque ainda que havia outras naos para Constantinopla, e para outras partes de Italia, e França, esta vinha em direitura a Veneza.

He a Cidade de Tripoli na Syria muito boa, e de fortes casas. A sua Povoaçaõ está em trez montesinhos, junto ao mar; ainda que o porto está desviado meya legoa. He fresquissima, abundante de aguas, e hortas, laranjas, limoens, palmas, e tudo o mais que tem huma terra fertil. He escala dos Mercadores de meyo Mundo, de Poente, Levante, e India Oriental. Na nossa nao vieraõ para hirem para Veneza nove Mercadores Italianos, que vinhaõ da India, a que ha mais de duas mil legoas por terra, passando quarenta dias por desertos, como nos affirmáraõ, e por caminhos de area, adonde nem se acha agua, nem que se coma: pelo que trazem o que haõ de comer, e beber em camellos, que commummente costumaõ trazer mil em companhia.

Recolhemonos em Tripoli em h[~u]a casa de Religiosos, e Peregrinos, que he como hum Convento, em que estaõ ordinariamente trez Religiosos de Saõ Francisco, mandados pelo Padre Guardiaõ de Jerusalem, que saõ como Curas dos Mercadores Italianos, que alli estaõ.

He esta Cidade habitada de Turcos, Mouros, e Judeos. O Padre Guardiaõ nos acompanhou a todos, Religiosos, e Peregrinos atè a embarcaçaõ: e excepto os Religiosos, nos embarcàmos sete Peregrinos.