X
FRUCTA DO BRAZIL

Murro, s. m. pancada com a mão fechada. Soco.

ROQUETE, Dicc. da Lingua Port.

Aqui desapparece o romantico nome de Raul.

Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de actualidade, como já se não diz. Amores de luveira...

Não é isto exactamente. A luveira não o amava. Era para elle em rigor o que lhe disse que era.

Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado orgulho{128} houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou—mais execravel ainda—tres milhoens!

O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espaço de quinze dias.

Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaçoens que ninguem sabia dar-lhe, o moço desafogava em cartas enviadas a D. Maria José, nas quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.

D. Maria José de Portugal respondia compassivamente ás cartas, adoçando-lhe a dôr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem ella havia perdido sua mãe, e gemêra na dupla orphandade de mulher e mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E, tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem veria nas cartas d'ella o esforço da mulher que se disfarça, ou procura colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos sentimentos. {129}

O conde não escondia o seu despeito de Damião Ravasco. Lia-lhe as cartas que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato, pouco dado a interpretaçoens de phrases que se afiguravam reconditas á vaidade do conde, sahia-se ás vezes com umas reflexoens alheias do bom senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.

Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar ou endoudecer, Damião, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:

—Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras é que se quer. Seja homem, e attenda lá ao que lhe vou dizer. Se o menino quer morrer ou perder o siso, não quero eu. A mulher ha de ser sua tanto me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira é ella, isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de camurça. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de V. Ex.ª morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que bem; se não pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era eu.{130}

—Que fazias tu, Damião?—perguntou entre grave e risonho o conde.

—Que fazia?

—Sim...

—Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma parvoice, não se enfade, que perde o tempo. Um homem é um homem, parta d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um homem não é uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem desembaraço... é mulher. Lá que a gente morre, quando não se desengana a puxar por si, não tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria ás malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A prudencia é boa nas terras onde não ha marotos...

—Mas a que vem tudo isso, Damião? Bem se vê que o frade não conseguiu ensinar-te logica!... Então que queres tu que eu faça?

Damião Ravasco soltou uns froixos de riso sêcco, esfregou as mãos, deu duas palmadas nas pernas, e respondeu:

—Se o menino me dissesse: «Damião, eu quero aquella mulher, custe o que custar»—a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do inferno! Diga-me cá,{131} snr. conde: como foi que se arranjou no Rio aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino contou-me que ella não o queria, e o maltratára diante de outros...

—Cala-te, que me estás irritando!—atalhou o conde.—Não admitto comparaçoens entre a franceza e D. Maria!

—Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz d'esta—observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um pratico do coração humano.—Eu fui dar com V. Ex.ª, na chacara de Petropolis, triste, pensativo, a fallar só, a dar uns ais que parecia rebentar de paixão d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabeça, se a não pudesse tirar ao francez. Foi assim, ou não foi?

—Não me atormentes!—insistiu o conde, corrido talvez de confrontação que o mulato equiparava entre as duas situaçoens analogas.

—Mas...—tornou Ravasco.

—Já te disse que me não afflijas... Queres dizer-me que fazes á filha d'um principe o que fizeste á franceza?...

—Sim... eu... acho que...

—Achas que D. Maria póde ser levada n'uma sege á traição, e calar-se depois mediante alguns centos de libras como a outra?...{132}

Damião sacudiu os hombros á feição de quem cynicamente presume que a distancia divisoria entre duas mulheres não é tamanha como os poetas a medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando:

—Instinctos de cocheiro... a final!

O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo de colera se denunciou na mudança d'aquelle aspecto. O amor de Damião ao filho de seu padrinho era tolerante e impassivel até á covardia. Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mães beijam os filhinhos que as esbofeteam.

Não obstante, logo que o espanto e a dôr cederam á reacção da dignidade, o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoção:

—O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me á cavalhariça de V. Ex.ª, e sahirei de lá para outra, quando souber que o snr. conde encontrou feitor que me substitua.

O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante.

Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita á filha dos Braganças{133} podia menos no amor do moço que a inveterada gratidão aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinião publica do Rio de Janeiro, quanto á filiação do filho da escrava, não era estranha ao conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era não ter podido elevar Damião á decente independencia que projectára.

Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias suspeitas, o conde não podia esquivar-se á conjectura de que o mulato era seu irmão; e tal desconfiança, penetrante como um sobresalto de subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas de Damião, rebeldes á vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato e pedir perdão para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em serviço das paixoens frequentes de seu amo, não distinguia entre a concubina d'um chanceller e a filha de um rei.

Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde, quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braços, estreitou-o ao peito, e disse:

—Não finjas que me deixas, Damião, porque tu não deves nem podes deixar-me...

E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava{134} palavras convulsas, em quanto o conde proseguia:

—Não se deixa um rapaz de quem se é amigo, desde o berço, e a quem se deu protecção quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou só no mundo, Damião. Não tenho ninguem que me estime, senão tu. Dos affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu só. Se me faltares, accuso-te de máo e ingrato, e hei de convencer-me que não ha para ti amisade duradoura senão... a dos trens—concluiu jovialmente o conde, já quando o mulato o levantára nos braços como quem afaga no colo uma creança para desamuál-a com meiguices.

D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu fatal amor á mulher que lhe não dava mais estimação ás qualidades pessoaes do que á riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se lhe elle offerecesse a mão de esposa.

—O menino já lh'o disse?!—interrogou Damião.

—Não. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.

—Snr. conde—volveu o sceptico—olhe que ha mulheres finorias!... Olho vivo, menino!{135}

—Damião!—accudiu desabrido o conde em desforço de D. Maria.—Sinto que o teu espirito não saiba respeitar devidamente a mulher que eu escolheria para minha esposa!

—Respeito, sim, senhor. Isto é um modo de fallar. Mas não creio que haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que é moço, é bem parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o não quizer, tem outro homem, ou é douda. Eu, no seu logar, tratava de averiguar se essa creatura é o que parece, e regula bem da cabeça.

—Damião!... és incorrigivel!—bradou o conde.

—Palavra de honra, que não sei fallar com o menino! Sabe V. Ex.ª que mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o enganem; eu cá por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como sei. Se a senhora fidalga é boa, não perde nada com a minha opinião; se não é boa, peor para ella. O que eu quero é que V. Ex.ª não soffra, nem seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella o ama, case com ella; se o não ama, de que lhe serve padecer? Eu cá não queria mulher que me quizesse por compaixão.

Apezar da nimia tolerancia com que o escutava,{136} o conde pretextou qualquer motivo para cortar a conversação.

N'esse mesmo dia, Damião Ravasco foi á loja da luveira, com o disfarce de quem passava, e perguntou a D. Maria José se queria alguma cousa para o snr. conde.

—Elle está bom?—perguntou ella.

—Não, minha senhora.

—Não! que tem? está doente?

—Da alma.

—Saudades do pae?

—Tudo se ajunta. Saudades... e paixão....

—Paixão? sim... paixão pelo pae...

—Paixão por V. Ex.ª

D. Maria córou. Não era bem o pejo de tal revelação feita por pessoa de esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que não é commum de todas as senhoras fibrinosas. É um filamento adelgaçado pelo esmeril do tempo atravéz das raças; cousa que vem das castellans do cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que não tem vibração nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de requerer a mão da luveira para o conde.{137}

É que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas pessoas, entraram á loja, e com ademanes farçolas, pediram collarinhos de bretanha.

Expoz no balcão a luveira as bocêtas dos colleirinhos.

Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar, galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:

—Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem tão matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a amam...

Eram negros côr da noite
Uns olhos negros que eu vi...

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d'esta arte:

—Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo{138} consta, sangue real nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo.

—E eu dois—ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço—(de Melgaço é que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos—continuou mais requebrado—limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mãos, mãos de princeza...

D. Maria José, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, não erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. Mal-fadados lhes chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e cuspia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega mortal.

E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice:

—Então o meu anjo não se humanisa até{139} á humanidade de me tomar a medida do pescoço?

—Meço-lh'o eu—disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignação, e disse-lhe:

—Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.

E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do seu infausto amigo.

Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.

Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia á furia, idealisára{140} o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens, porque pensava que elles, repostos na posição vertical, o atacariam façanhosamente.

N'este emtanto, D. Maria não dava signaes de susto, nem d'aquelle nervoso palpitar que vai tão senhorilmente ás compleiçoens feminis, quando um homem esmurraça dois na sua presença. Longe d'isso. A desaffronta dilatara-lhe o coração que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixão da vingança. O sangue de princeza, orgulhosa de raça, refluira ao coração da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. Não podia nem queria fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a commoção do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damião:

—Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha causa, não se arrependa de defender a mulher que só tem tido a sua dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos...

Avisinhou-se então o estrupido de uma carruagem. Damião conhecia o trotar cadenciado dos seus normandos.

—É o patrão...—disse elle, correndo á rua.

E abriu a portinhola da carruagem.{141}

—Estavas cá?—perguntou o conde.—Que faz aqui este povo?

Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na rua.

—Que faz aqui esta gente?—instou o conde ao mulato que se occupava distrahidamente em alargar umas fivélas dos arreios.

—Fui eu que sacudi o pó a dous pirangas que...

—Tornas ao fadario antigo?... Que te fizeram?—volveu o conde mal assombrado.

—A mim? nada...

—Então a quem?

—Estavam a rinchar pachuchadas e chalaças á senhora alli da loja como quem derriça por uma mulherinha de pouco mais ou menos. Figurou-se-me que o snr. conde, se cá estivesse, faria o mesmo que eu fiz... Os cavallos estão endiabrados com a mosca! Olha a rédea falsa, rapaz! Vai ahi até ao Rocio, e desanda. Toca!... Não me deixes escarvar o gado que se escabreia... Olha o cavallo da mão... não no vês a arrifar?

—Espera!—disse o conde ao sota.—Eu volto a pé... Damião, salta para a almofada, mette os cavallos á cocheira, e espera-me em casa.

O mulato obedeceu constrangido. Vaticinava-lhe{142} o coração que ausentar-se era perder lanço de desemperrar as articulaçoens dos pulsos.

D. Maria de Portugal referiu o successo, colorindo-o nos promenores improprios da sua narrativa; mas entremostrando, nas hesitaçoens delicadas, que os offensores haviam merecido o castigo recebido.

N'esta conjectura, abeirou-se da porta um dos curiosos, que mantinham na rua o auditorio á espera da explicação da desordem, e disse para dentro que os dois janotas socados pelo mulato vinham do lado da Praça da Figueira com tres municipaes.

—Snr. conde!—disse D. Maria assustada—rogo-lhe que se retire...

—Não me peça V. Ex.ª sacrificios em que a minha dignidade seja violentada. Retirar-me de que perigos? O procurado pelos soldados de certo, não sou eu! Prouvera a Deus que o fosse... N'este momento invejo Damião; e prezo-o mais do que é costume prezar as pessoas que se invejam.

Dito isto, o conde assomou ao limiar da porta, a tempo que os soldados e os dois respeitadores da intervenção judicial defrontavam com a loja.

O conde conheceu o amigo do deputado. Era um dos seus commensaes nas ceas amostardadas{143} por dançarinas, mulheres que dissolviam o coração em champagne, e o espumavam nos labios em beijos acres de tanino. Os quaes beijos, na alma deste contubernal do liberalissimo Raul, haviam deixado contusoens menos duradoiras que os tres bofetoens do selvagem americano nas maçans pizadas da sua cara.

Acercou-se o paralta da porta da loja e perguntou:

—Ó conde, ahi dentro está um preto?

—Não.

—O scelerado fugiu! disse o deputado.

—Não fugiu—emendou o conde.—De quem havia de fugir elle? De VV. Exc.as? Dos soldados de certo não; porque seria injuriar dois cavalheiros dessa laia, suppor que VV. Ex.as, castigados ao mesmo tempo por um só homem, iam invocar a protecção de trez municipaes!

—Que ar é esse teu?—perguntou o lisboeta, estranhando o tom insolentemente ceremonioso do conde.—Que tens tu com o assassino que nos assaltou ahi na loja d'essa notabilidade protegida por sicarios de tal casta?

—Vejo que a protecção da força armada—replicou rindo o conde—lhe permitte á lingua a actividade que lhe falta nos braços!... O homem que lhe bateu, não fugiu.

—Então onde está?{144}

—Quer esclarecimentos para instaurar querella contra elle? Eu lh'os dou. Chama-se Damião Ravasco, e vive na casa de Raul Baldaque, ás Janellas Verdes... Procure-o lá.

—Ah! então o preto é da sua familia brazileira?—atalhou o lisboeta casquinando.—Eu não sabia que a sua nobilissima raça era bicolor! E nós a cuidarmos que o assassino era um bolieiro!—proseguiu o esmurraçado, tregeitando jogralmente para o legislador melancolico.

—Ó camaradas!—disse o conde aos municipaes—a nação portugueza paga-lhes para guardarem as costas a covardes d'esta ralé?

O que parecia mais auctorisado entre os soldados, voltando-se aos dois queixosos, disse que elle e seus camaradas não tinham que fazer alli, visto que o homem que os espancára já lá não estava.

E, como, depois se retirassem, os queixosos seguiram o exercito.

E logo a gentalha, o jury permanente das ruas, usando aquella sarcastica philosophia que lhe dá a independencia dos farrapos, apupou os janotas, socados por um mulato de jaleca.

—Lá vão a mastigar fructa do Brazil! dizia um caiador preto, floreando o pincel com ademanes de vaidoso patriotismo.{145}

XI
SOLEMNIA VERBA

Allons, de l'égoisme, de l'esprit, et de l'impudence, e tu seras bientôt dans les grandeurs.

BALZAC.

Elle rugiu de indignação, e metteu na algibeira um rewolver de seis tiros, quando soube que D. Maria José de Portugal tinha sido ultrajada. Elle quem?

Victor Hugo José Alves—pois quem havia de ser?

D. Maria, n'aquella tarde da sova subministrada por Damião Ravasco, nutava indecisa se deveria fechar o estabelecimento e obstar a novo insulto, se affrontar animosamente as contingencias da sua posição.

N'esta penosa alternativa, em que de um lado preponderava a inflexivel necessidade, e{146} do outro lado o medo da zombaria, a encontrou Victor Hugo.

O ingresso precipitado, que elle fez na loja esbofando, alvorotou a dama.

—Acabo de saber—disse elle, com intercadencias de asphyxia—que dois biltres ousaram aggraval-a, minha senhora! Eu antevi sempre que V. Ex.ª, baixando á plana onde se acha, seria alvo de taes vilipendios. O sentimento de excelsa virtude, que lhe aconselhou tal passo, não podia ser entendido n'este javardeiro de Lisboa. Ha dedicaçoens santas que se não permittem ás mulheres formosas. É prohibido aos anjos avoejarem por este inferno sem crestarem as azas. Eu avisei-a, snr.ª D. Maria José. Contava com isto. Sei o que é esta sociedade. Esperava que a sua innocente alma provasse o fel do intransitivo calix que está sempre emborcado aos labios puros. Mas... não venho arguil-a... Venho saber os nomes dos bigorrilhas que a offenderam!

—Não conheço as pessoas que me offenderam, snr. Victor—respondeu D. Maria José, abafando o despeito que lhe causara o tom pretencioso da censura.

—Mas aqui—volveu o cavalleiro da Ala, arejando-se com o chapéo e chibatando a perna direita com a badine de caoutchouc—aqui{147} estava alguem que sabia os nomes dos dois birbantes!...

—Estava, sim. O conde de Baldaque sabe quem são: eu não sei.

—N'esse caso, vou procurar... sua excellencia... o snr. conde de Baldaque.

Victor Hugo pausou em cada syllaba uma accentuação ironica, deixando vêr nos dentes caninos o azedume e a podridão.

—Procural-o...—acudiu D. Maria, mais receiosa da tolice que da braveza—Procural-o!...

—Sim..., minha senhora.

—Para quê?

—Para que me diga o nome dos dois sujeitos que enxovalharam V. Ex.ª, se é que o snr. conde não reserva para si a honra de a desaggravar.

—O favor do desaggravo já o recebi de um criado do conde; entretanto, agradeço ao snr. Victor a resolução com que veio aqui.

—Mas eu, minha senhora!—replicou o filho de Rozenda, enroscando a badine, e fazendo resaltar a ponta de uma para outra mão—eu lamento profundamente que V. Ex.ª fosse desaggravada por um criado de quem quer que seja. As senhoras, nascidas em degraus inferiores da escala social, recusariam tão ordinario paladim; salvo se o conde de{148} Baldaque pode armar cavalleiros os seus criados.

D. Maria José encarou soberanamente no poeta, e disse:

—A final, que ares são esses que se está dando, snr. Victor? Depois das zombarias dos homens que não conheço, vem V. S.ª com os seus motejos? Estou em lhe dizer que os insultos dos estranhos não me ferem tanto como as ironias das pessoas que me conhecem.

—Eu não a motejo, snr.ª D. Maria—acudiu Victor Hugo, compondo a cara de visagens melodramaticas.—Queixo-me, deploro-me, appéllo do seu orgulho para o seu coração. Uns peitos recalcados dão lagrimas; outros dão sangue; e os mais infelizes são os que não podem desafogar chorando, nem succumbem ao gume da ingratidão que os sangra e retalha... Os mais dignos de lastima são os que a si mesmos se despedaçam com os gryphos do escarneo. Mas eu queixo-me, senhora, sem accusar. Accusar a filha d'um principe não ousa o vérme, o plebeu, a fronte onde a mão de Deus pode ser que esculpisse a palavra GENIO...

(Em parenthesis: Victor Hugo, quando pronunciou a palavra «genio», não fez algum signal indicativo que me auctorisasse a escrevêl-a{149} em lettras maiusculas, a não ser o tom, a pancada com que elle a proferiu, batendo na testa).

—GENIO,—repetiu elle—só genio; corôa de conde, não: as corôas não as dá Deus; compram-se cá. Vinte negros, vendidos depois de azorragados, dão uma corôa de conde, snr.ª D. Maria José de Portugal. O sangue de vinte negros n'um prato da balança; e no outro prato a corôa de conde. Aqui tem como hoje na monarchia de seu pae se forjam os grandes do reino, os senhores do novo feudo, os castellãos dos armazens de molhados, os ricos-homens que conquistaram pendão e caldeira nas arrancadas de Africa, nas costas de Guiné, pelos sertoens dentro, á montaria das rezes negras, que se acurralam nos poroens dos açougues, e se infeiram nos atrios dos palacios d'estes condes, d'estes Baldaques, d'estes...

D. Maria, que o estivera escutando com os olhos baixos, relançou-lhe um olhar de frecha, e disse:

—Está-me incommodando, senhor Victor! Lembro-lhe o dever de não insultar uma pessoa ausente, que me tem tratado com a maior delicadeza, e de quem V. S.ª não tem razão de se queixar.{150}

—Estou-a incommodando!—replicou elle com espanto.—Onde foi V. Ex.ª escavar palavra tão aviltante, tão despresadora!?... Diga-me antes que a injurio. Incommodar! Isso diz-se a um mendigo importuno, a um miseravel que nos enoja, a uma lama que nos salpica o verniz das botas! Incommodar! V. Ex.ª perdeu a magnanimidade com que tratava os humildes, antes de viver com os condes? A mim, senhora, devêra incommodar-me o carcere onde estive por amor de V. Ex.ª, e não me incommodou! Deviam incommodar-me as vaias, as zombarias dos correligionarios que deixei por amor de V. Ex.ª, e não me incommodaram! Devia incommodar-me o aprumo realengo das suas vozes sentenciosas quando me falla, e não me incommodam; porque as ingratidoens de V. Ex.ª não incommodam, dilaceram; não são fastidiosas como a impertinencia; são percucientes como a ponta hervada d'um punhal!...

—Tanta palavra, meu Deus!—exclamou D. Maria José, rebuçando a ironia no tregeito da admiração.—Todo esse excesso de sentimentalismo seria bom de perceber, se algum acto da minha vida me obrigasse a dar conta dos outros ao snr. Victor Hugo... Mas eu creio que não... A amisade não explica o zelo{151} de V. S.ª nem me força a respeitar a censura que me faz. Se me avalía injustamente, sinto; mas não sei que lhe faça...

—Quer dizer—sobreveio o poeta—que ama o conde de Baldaque?

—Não, senhor; quero dizer que amo a minha liberdade.

—E nega que ama o filho do negreiro?

—Quem é o negreiro?

—O negreiro era o pae do roué, cujo escravo despicou V. Ex.ª. Vai bem á filha do snr. D. Miguel de Bragança deixar-se requestar de um homem a quem seu augusto pae daria como escudo um tagante sobre as costas negras d'um ethiope a ressumbrarem sangue? Senhora D. Maria José de Portugal, não responda: medite, e, depois dir-me-ha se eu devo noticiar aos fidalgos portuguezes, com quem me dou, que V. Ex.ª fez d'este balcão uma especie de altar baixo, ao réz da rua, bem baixo, para que algum ignobil transeunte pudesse levantar até aqui o braço humilde e depôr o vóto. Só assim, minha senhora, o arlequim, trajado de conde, ousaria defrontar-se com V. Ex.ª. Emfim, começo a ler no seu rosto o fastio que avilta. Eu retiro-me... Saiba, porém, que a amo, snr.ª D. Maria José... Note bem... que a amo! E os homens da minha tempera, quando são indignamente menoscabados,{152} morrem, ou fazem guerra mortal a quem os despreza! Note bem isto! palavras solemnes!...

E sahiu.

Victor Hugo José Alves era assim! Amava e bramia d'aquelle feitio; mas era homem—como já poucos havia, e não ha hoje nenhuns—capaz de desfechar valentes rhetoricas á face de uma senhora. Não lhe afeminavam os olhos as lagrimas da pieguice. Em vez de suspiros ciciosos como auras entre moitas de rosmaninho e trevo, trovejava urros, quando o ôdre da paixão lhe rebentava dentro. Fizeram-no assim a natureza e o theatro, o sangue do dom abbade de Cistér misturado ao sangue do Alves da sóla, caceteiro defunto; e, além d'estes sangues, a arte, os dramas do snr. Mendes Leal, cheios de judeus ciosos, e outros facinoras metaphoricos.

Na noite d'esse dia funesto, o amador aviltado pediu a D. Rozenda que lhe mostrasse um folheto publicado em 1840 contra a mãe de D. Maria José de Portugal.

D. Rozenda, receiosa de alguma imprudencia intempestiva, quiz saber que destino o filho tencionava dar ao folheto.

—Nenhum,—disse elle, coando um riso feroz por entre as luras croozothicas de tres dentes incisivos.{153}

—Vê lá, Victor!... Não faças mal á rapariga...—instou a mãe.—Se ella doidejar, deixal-a... Olha que este folheto mente que tem diabo... Lá que ella é filha de D. Miguel, isso é tão certo como tu seres meu filho... O que tu tens sei eu... É ferro... soubeste que ella namora um conde... Isso já eu desconfiava... E então que se lhe ha de fazer?...

—Que pergunta!—replicou sacudindo a juba o equivoco neto do ferrador de Povolide.—Que se lhe ha de fazer!... Ignobil pergunta! Ó mãe, mãe, que é dos instinctos nobres da sua origem? Como pode consentir que seu filho seja acalcanhado por um villão, que se diz conde? Conde! Nós, os legitimistas, não reconhecemos titulos outhorgados pelo governo usurpador. Baldaque é o negreiro, é o chatim, é o plebeu reféce. Maria José de Portugal, a luveira, é filha de um rei. Nós, os que defendemos o prestigio dos nomes historicos, não consentimos que um bandalho, vestido de conde na guarda-roupa d'esta tramoia que se chama o systema liberal, se atreva a mercadejar com o producto das negras uma senhora que teve o pae no throno...

—Pois se sabes que ella teve o pae no throno—replicou a mãe sensata—que queres fazer ao folheto?

—O que quero? Vêr se posso convencer-me{154} de que esta mulher não é filha do snr. D. Miguel, casando ella com o plebeu, arraiado dos xaireis de conde, percebe?

—Mas, ó rapaz, se esse conde tem dois ou tres milhoens...

—Ahi vem a senhora com as baixezas do costume!... É o que eu lhe tenho dito muitas vezes... Está contaminada...

—O quê?—interrompeu D. Rozenda funestando a cara com uma ruim visagem.—Estou contaminada?!

—Sim, senhora! está contaminada da peste do dinheiro; está gafa da podridão dos costumes. Creio sinceramente que nasceu nobre; mas a convivencia com um homem de negocio abastardou-lhe o sangue...

—Olha que esse homem era teu pae, Victor! Vê lá como fallas do auctor dos teus dias; que eu não admitto atrevimentos, ouviste? Já uma vez te puz as mãos na cara, por me dizeres que bem se via que eu era fidalga por ser burra; agora, dizes que estou contaminada dos costumes, porque acho que a luveira não andaria mal, se se fizesse condessa... Ora queira Deus que as tuas faltas de respeito me não obriguem a quebrar-te a cara, percebes?

Victor Hugo, voltando o dorso ás ameaças maternas, ia retirar-se, quando ella, retendo-o pelas abas do fraque, exclamou:{155}

—Já p'r'aqui, malcriado! Você volta as costas a sua mãe! Olhe que o espatifo, ouviu?

N'isto, acudiu aos brados da mulher de rija tempera a irmã Euphemia, cuja brandura de alma se operara debaixo das emollientes meiguices e trechos litterarios do finado dramaturgo e d'outros homens sensiveis dados ás lettras. As duas irmans altercaram largo tempo ácêrca da materia sujeita. Rozenda opinava que o filho era um bréjeiro. Euphemia desculpava-o, porque todos os poetas eram assim esquentados da idéa:—these que ella poderia provar com o snr. conselheiro Viale, se o conhecesse tão de perto e á lareira como devem ser apalpados os poetas grandes.

Assistiu Victor Hugo, impando de tedio, á discussão das manas. Aquelle espirito, dilatado ao calorico das salas da côrte, não cabia na área burgueza onde outr'ora Elias e Antunes couberam com as suas almas fadadas para a pasta e para a mitra. O rival do conde pejava-se de ter estado no seio de Rozenda por espaço de nove luas. Dizia-lhe a philosophia que o talento é emancipação quando a tutela é bruta, e que as mães de natural bronco, bem que sejam respeitaveis como machinas productoras, devera ser desviadas{156} do caminho do genio, se lh'o atravessam com babozeiras e outras coisas chatas. Encabrestado por estas idéas, Victor, ainda então bastante adinheirado d'aquelles tres contos das inscripçoens da luveira, sahiu da casa da mãe, e foi morar no Hotel de Bragança.{157}

XII
EXPLOSÃO DE AMOR

Deus, ecce Deus!

VIRGILIO, Eneida, L. VI, V. 46.

Um dia, corridos poucos mezes depois dos successos relatados, entrou na loja da luveira um ancião com tres senhoras pobremente vestidas de luto e quatro meninos pallidos, magros, com os olhos grandes e socavados da fome.

Descobriram-se o velho e as crianças. D. Maria José levantou-se e respondeu á cortezia profunda das tres mulheres, que a cortejaram como a desgraça corteja o valimento.

O homem, que parecia engulir as lagrimas para poder fallar, disse com o chapéo em uma das mãos e a outra no peito:

—Está na presença de V. Ex.ª um brigadeiro{158} que em Evora-monte entregou a espada aos vencedores. Em vez de entregal-a, se eu não tivesse mulher e quatro filhas, ter-me-hia inclinado para a ponta da espada, e cahiria vingado da sorte, já que as balas do inimigo me pouparam para tão longa e desmerecida infelicidade. Estas tres mulheres são minhas filhas, A mãe morreu esgotada de forças, porque teve fome quando creava a ultima menina, que não está aqui, porque tambem morreu ha seis mezes. Era já viuva: foi descançar na sepultura, e deixou-me quatro netos que são estas crianças. Somos oito pessoas de familia. As minhas filhas trabalham quanto podem e em tudo que sabem. Mas pouco sabem, porque a si devem tudo. As duas mais velhas ainda estiveram dois annos em collegio; porém, aprendiam linguas, como cumpria que aprendessem as filhas d'um official-general, com appellidos tradicionaes e serviços á patria mais valiosos que os appellidos. Tirei-as do collegio, logo que principiei a vender as joias de minha mulher. As duas meninas, voltando a casa, fallaram em francez á mãe, que tinha sido educada no estrangeiro; e eu disse então ás innocentes mal entendidas na desgraça de seu pae: «Filhas, aprendei a pedir esmola em portuguez.» Ellas estremeceram e choraram,{159} como se adivinhassem a fóme e a nudez.

D. Maria José, com as palpebras trementes e as lagrimas a borbulharem, atalhou o brigadeiro:

—Deve ser muito penoso a V. S.ª contar-me a sua desgraça, e a mim ouvil-a. Se me julga nas circumstancias de soccorrer as suas mais urgentes precisoens, e se quer servir-se do meu pouco, espere V. S.ª que eu vou buscar algum dinheiro...

—Não, minha senhora—tornou o velho.—É certo que venho pedir a V. Ex.ª uma esmola, mas esmola muito avultada: nada menos que o pão, a educação e o futuro destes meus netinhos...

—Oh! se eu pudesse...—atalhou D. Maria—V. S.ª provavelmente está enganado com os meus recursos...

—Eu não me valho dos recursos da fortuna; mas sim dos da alma de V. Ex,ª. Receio estar roubando-lhe tempo, minha senhora, e portanto serei succinto quanto possa, até para me não parecer com todos os desgraçados que são geralmente diffusos. Ha um mancebo poderoso em Lisboa, do qual muitas familias realistas, de seis mezes a esta parte, recebem mezadas abundantes. Este caritativo senhor não é legitimista; não sei o{160} que é politicamente: sei que é bom; é dos que professam a divina legitimidade de Jesus Christo. Chama-se elle o snr. conde de Baldaque...

D. Maria José corou: eram o nome, a surpreza, e o jubilo, tudo simultaneamente.

O ancião proseguiu:

—Eu tambem sou dos favorecidos pela bem-fazeja mão do snr. conde, que me não conhece, nem recebe á sua presença as pessoas que o buscam para lhe agradecerem a esmola: recebe apenas as que vão pedir-lh'a. Eu já o procurei. Annunciei-me como portador das lagrimas reconhecidas de meus filhos e netos. O benigno mancebo mandou-me dizer que voltasse eu a pedir á minha familia que lhe mandasse sorrisos em vez de lagrimas. Delicado coração! Como é possivel haver no peito de um rapaz afortunado, que nunca soffreu, esta sciencia da desgraça, este respeito ao pêjo com que um velho, outr'ora feliz e affagado de ricas esperanças, se dobra a beijar a mão que lhe reparte o pão de cada dia pela sua familia! Diga-me V. Ex.ª minha senhora, como tão cedo se formou na alma do snr. conde de Baldaque a virtude que é costume retemperar-se na fragua das dores!... Teria elle, em annos tão verdes, experimentado desenganos, perdas de nobres{161} affectos, dissabores grandes que antecipam a velhice moral e influem a precoce piedade dos anciãos como eu, e das familias angustiadas como esta minha?

—Não posso responder-lhe...—disse a luveira—conheço o snr. conde ha pouco mais de um anno... Não sei de alguma dôr grande na sua vida, senão da morte do pae...

—Um cavalheiro que o conhecia não me disse mais do que V. Ex.ª—continuou o velho.—A este cavalheiro, que priva muito com os meus correligionarios e se chama Victor Hugo José Alves, perguntei se as relaçoens, que tem com o snr. conde, o auctorisariam a pedir-lhe um favor para o desvalido brigadeiro Tavares. Respondeu-me o snr. Victor Hugo que não; mas ajuntou que me diria pessoa idonea, e logo me nomeou a snr.ª D. Maria José de Portugal. Hesitei se devia acceitar a informação seriamente, porque havia no tom das palavras e no gesto d'elle certo azedume ou ironia que me fez desconfiar. Contei isto a minhas filhas, e ellas, principalmente as duas mais velhas, quando eu proferi o nome de V. Ex.ª, disseram logo que tinham conhecido uma filha do snr. D. Miguel, no collegio onde algumas vezes foram visitar as suas antigas mestras; e uma{162} d'ellas, se bem se lembra, ainda deu liçoens de francez a V. Ex.ª...

—É aquella!—exclamou com alvoroço D. Maria José, saindo fóra do balcão para abraçal-a.—É a snr.ª D. Ernestina Tavares... Eu entrevia no seu rosto uma pessoa conhecida...

—É esta velha que aqui vê de cabellos todos brancos aos trinta e cinco annos... disse Ernestina.

E D. Maria, com mais familiar sorriso:

—Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de mais a mais pobres...—E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita, e esperou que as oito pessoas entrassem.

Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que lhe desse a satisfação de ser util á sua familia.

—Eu não sei que futuro hei de dar a estes quatro meninos...

N'este acto, parou um cabriolet defronte da casa. A luveira chegou á vidraça, e disse serenamente ao brigadeiro:

—É o snr. conde de Baldaque... Eu digo-lhe que suba, e V. S.ª tem excellente occasião de dispensar o meu patrocinio, pedindo directamente o que pretende.{163}

Levantaram-se todos com alvoroto e certa inquietação como de medo. Mil e duzentos contos representados por um homem é coisa capaz de assustar um ministerio, quanto mais uma familia pobre!

O conde ficou maravilhado quando D. Maria José, descendo até ao ultimo degrau da escada, lhe pediu que subisse á salinha.

Era o primeiro convite que recebia.

Entrou, e deu logo de rosto com o velho inclinado, quasi ajoelhado que lhe tomára a mão, e a levára aos labios.

—Eu não conheço...—tartamudeou o conde no maior enleio.

—Sou um brigadeiro do exercito do snr. D. Miguel, sou Christovão de Pina Tavares, a quem V. Ex.ª ha seis mezes dá o pão d'esta numerosa familia que aqui está.

—Mas...—balbuciou o conde, voltando-se para D. Maria José.—V. Ex.ª não me disse que conhecia esta familia...

—Não conhecia—respondeu a luveira—; mas reconheci agora esta senhora que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex.ª me honrava com a sua amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde, procurou-me, e agora mesmo começava a expor a sua pretenção.{164} Estava dizendo o snr. brigadeiro que não sabia que destino havia de dar áquelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares...

O ancião, tomado de sobresalto, acanhou-se na presença do millionario. O pejo e a dignidade empéciam-lhe a eloquencia da palavra, realçando-lhe a do silencio. O conde olhou na face das creanças uma por uma, chamou-as para si, e disse brandamente:—É necessario fazermos homens estes pequerruchos... Então que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi todas as creanças querem ser generaes...

—Seduzidos talvez pela fortuna militar do avô...—interrompeu Tavares; e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.—O que eu muito desejo obter do valimento de V. Ex.ª, mediante a protecção d'esta senhora que bondosamente nos recebeu, é que os meus quatro netos sejam recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu já requeri ao actual governo, documentando o requerimento com os meus serviços de soldado, desde 1801 até ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada, para estar hoje na alta posição onde subiram os meus camaradas desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus generaes{165} e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora, se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o começo da penuria, isso é questão que não vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V. Ex.ª com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admissão de meus netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha que o meu requerimento nem sequer mereceu a consideração de ser indeferido. Fechadas as portas da justiça, bati ás da caridade. É V. Ex.ª, snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e...

—Muito bem...—obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do velho.—Tenho entendido que V. S.ª deseja que os seus netos sejam recebidos em algum estabelecimento de educação... Ámanhan, á hora da tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa...

O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mãos, sorrindo para elle com a graça do infantil amor que vem do coração das creancinhas aos labios que ainda não sabem agradecer. Depois, ergueu-se; apertou francamente a mão do venerando veterano; cumprimentou-lhe as filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas;{166} e despediu-se de D. Maria José, que o fitava com estranho e amoravel olhar.

Ao entardecer do dia seguinte, Christovão Tavares entrou na loja da luveira impando de cançasso e exultação. Contou que o snr. conde o mandára entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um sujeito, a quem dissera:—Aqui estão os seus alumnos.

—Era o director d'um collegio de primeira ordem—ajuntou o velho.—O snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que choravam de contentamento. O generoso moço disse-me á sahida que fosse todos os mezes ao escriptorio d'um cambista á rua dos Retrozeiros, e que hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe agradeci... Os desgraçados, minha senhora, quando de repente se acham a respirar uma atmosphera que não é a sua, suffocam, ouram, e não se acham em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerração!... Fui á rua dos Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem{167} mil reis! Eil-os aqui, snr.ª D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se eu me não affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade é a V. Ex.ª que a devo...

—A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu?

—Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr. conde nos visse atravez do seu coração... Oh! eu creio que este milagre o fez a piedade abraçada ao amor... Quem nos deu o pão abundantissimo, o vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome diante, o futuro das creanças... quem foi senão a... futura condessa de Baldaque?

Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegára convulsante da mão de D. Maria José e collára n'ella os labios tremulos.

A filha de D. Miguel sentira n'esse lance mui deliciosa commoção, um alvorecer de luz em cheio na alma, a revelação subita d'um amor, o primeiro, com as santas alegrias da pureza, e a confiança profunda nas virtudes{168} do homem amado. A revelação, em tom prophetico, feita por aquelle velho de barbas brancas orvalhadas de lagrimas, soou-lhe na alma com religiosa suavidade.

O instante foi solemne. A poesia pode engrinaldar o quadro com as suas flores e a moral regosijar-se, como é justo, de um caso de amor nascido em condiçoens tão honestas.

Eu, de mim, menos attreito que o leitor á idealisação de coisas naturalmente explicaveis, penso que ella já o amava tão devéras e de dentro da consciencia, que, se o conde descorçoado por desdens, se vingasse esquecendo-a, teria levado pela mão da saudade a filha do principe á sepultura; mas ás fragilidades das amorosas mais celebradas, não.

Isto é o que me parece; mas não afirmo que assim houvesse de acontecer. Sei historias de amores tão bem começadas como esta e acabadas nas enfermarias das loucas. Os personagens masculinos d'algumas andam ahi ao flaino ainda com a sua velhice tingida e sadia. Creio que o castigo d'elles é andarem pintados; mas o diabo conhece-os, apezar do fluido. Elles lá irão cair-te nas prezas, ó horrendo Minos!{169}

XIII
DESASTRE DO GATUNO

Vem agora aqui o casar.

D. FRAC. M. DE MELLO, Carta de Guia de Casados

Aquelle rapaz abrazado de cara, a refulgurar uns olhos vertiginosos á feição dos ebrios, cercado de gente, que o escuta, á mesa redonda do Hotel Bragança, é Victor Hugo José Alves.

O energumeno vocifera contra certa mulher que o trahiu. Conta que lhe immolou as convicçoens politicas, a juventude e a liberdade. Diz que por amor d'ella apostatára do socialismo, renegára das crenças republicanas, furtára ao edificio do futuro as achêgas do seu talento, e puzera o seu nome illustre debaixo das maldiçoens da posteridade.

Alguns convivas riem de esguêlha, em quanto outros lhe vão solicitamente reparando{170} o destroço que elle faz no kumel, acinte pedido para afogar a hydra que lhe roe as fêveras da alma.

Disse elle mais que essa perfida havia casado no dia anterior com o filho de um negreiro que morrera conde, transmittindo ao herdeiro, com a herança ignominiosa de tres milhoens, o titulo, o pergaminho onde o ministro fizera assignar ao rei a abdicação da sua moralidade. Acrescentou que o segundo conde de Baldaque se deixára embair do ardil de uma luveira, que se dava ares de princeza bastarda, tendo sido sua mãe uma famosa aventureira que não poderia com exactidão apontar o pae aos filhos que tivera. Disse mais... Não disse mais nada, porque n'este comenos estalava-lhe em cada face uma bofetada das que entupem os jorros da mais caudal eloquencia.

O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admiração á objurgatoria do poeta era um velho barbaçudo, de espessos bigodes brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovão de Pina Tavares.

Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque, encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente conhecia.{171}

—Villão!—rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte annos—Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido, que comes no Hotel Bragança os tres contos de reis de...

Tavares susteve-se, reprimido pela mão da caridade. O homem, que havia bebido o fel da injustiça, receiou ultrapassar o direito do castigo. Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia tombal-o com o pé.

Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de Chistovão Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com força pelo braço, e levou-o.

Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espaço, sem sequer averiguarem da injustiça do insulto. Elle, porém, restaurado da pancada moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as sacudidelas da colera e dos gazes da indigestão:

—Ó minha vingança!... Ó minha vingança!...

Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez então!

Quando, passados minutos, o criado lhe{172} entrou ao quarto com os castiçaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo:

—Que queres?

E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool.

—Que queres?—tornou elle de murros apontados á cara innocente do gallego.

—Trago as luzes, snr. Victor Hugo...—tartamudeou o moço assombrado.

—Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingança!

O criado sahiu, e disse á criada, que espreitava o poeta:

—Safa-te, que elle está borracho!...

Safemo-nos tambem nós: deixemol-o gizar a traça da vingança; não assistamos áquella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe destillem em peçonha escorrida da fornalha do cerebro ao coração.

Mas quem disse a Christovão Tavares que o seu correligionario consumia em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripçoens da condessa de Baldaque?

Não foi ella.

Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia—bem se lembra o leitor—denegada n'outra occasião,{173} fêl-a espontaneamente depois que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava. Similhante revelação realçou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada mais formoso, mais para se adorar que a pobreza tão de vontade, o despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe não enviára sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o coração; mas sem queixar-se.

Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo de D. Maria as suas desconfianças.

Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D. Maria José solicitára a familiaridade das filhas a quem communicava as delicias do seu amor.

Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas, duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado por D. Maria José de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel de Bragança. O indagador{174} levava instrucçoens para não citar o nome do medianeiro, talvez com o proposito de lhe não ferir o pundonor, se elle houvesse honradamente cumprido o encargo.

A commissão de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fôra entregue de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde concorria Victor Hugo José Alves, se houvesse mencionado tal senhora como filha d'el-rei o snr. D. Miguel—filiação aliás duvidosa para elles membros da commissão de soccorros.

No dia immediato, Christovão Tavares entregava tres contos de reis aos encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria José de Portugal qualquer palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito.

Antes de volvidas tres semanas, a commissão de soccorros enviava, por via do ex-brigadeiro, á luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que tão generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi Rolim de Portugal.

O conde, disfarçando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu ao mavioso espectaculo{175} da ternura com que ella beijava a carta do pae.

Dizia então D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta:

—Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor Hugo não mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada, receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!...

E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade.

Tavares, por sua parte, obedecia ás ordens do conde, guardando, com superior esforço e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda assim, encontrava o ladrão entre os homens de bem do partido absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos, resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava, como se levasse sobre a alma um enorme remorso—remorso de não avisar os seus correligionarios.

Uma vez pediu com as mãos erguidas ao conde que o deixasse expulsar d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu:

—Isso é de justiça; mas deixe-me casar e saír de Portugal; depois, quando minha mulher{176} estiver longe, fará o que entender. Não lhe roubemos á feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D. Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andará tão fallado por essa Lisboa que D. Maria será das primeiras pessoas que o saibam.

N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu áquelle jantar, a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa correspondente ao ex-brigadeiro, a gratidão e a honra cooperaram n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graças ao sentimento de commiseração que o reteve, os circumstantes não perceberam senão que Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis.

No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunára a herança que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinião dos sugeitos contusos por Damião Ravasco. Outros, rejeitando a tradição mais corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza desde 1801—ou 1789,{177} acrescentava o meu amigo José Parada para quem todos os infortunios eram cornucopias de chalaça.

O conde, recolhido á dôce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou o successo; e, quando saíu, não houve indiscreto que lh'o referisse.

No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, não comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados da causa; nem sequer nos saráos somnolentos, onde a idéa velha passava as noites cabeceando acalentada nos braços do snr. padre Beirão e d'outros.

Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio de ser interrogado ácêrca dos tres contos de reis, sabido já o roubo pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso ás casas principaes, e reputação de homem honesto.

E mais depressa ainda se esclarece a conversão d'este desgarrado bode ao seu rebanho antigo,—á seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com elementos combustiveis de tanta força, que todos se vaporaram, deixando as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Paço, encrustadas nas pastas dos ministros que foram, que são, e hão de ser. Diziam os{178} seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido á bandeira que desertára por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fôra tão Samsão na força do verbo, tão Hugo na energia das figuras, tão republicano na medula dos seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a cavallaria desferrada do archanjo.

É justo que não se esqueça, na correnteza d'estes casos, a familia d'esta pessoa.

D. Rozenda Picôa, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria José de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaçoens com a sua hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco vulgar de uma corôa de condessa com tres milhoens.

Annunciou-se ao guarda-portão do palacio. Tangeu-se uma campainha. Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr.ª condessa não recebia.

—Então porque?!—perguntou D. Rozenda abespinhada.{179}

—Porque não quer... É boa a pergunta!—respondeu o escudeiro com altivez.

—Não quer?!—redarguiu a mãe de Victor.

—Então a snr.ª luveira já não conhece as amigas velhas?... Não?... Ella me conhecerá!...

E saíu enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle para collaborarem na vingança.

Em abono do benigno coração da condessa cumpre saber-se que ella receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir proferir o nome da mãe de Victor Hugo, não pedisse brandamente á esposa que se abstivesse de receber tal senhora.

Perguntou ella que razão havia para não a receber. O conde respondeu:

—Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira vez, minha filha. Tu a saberás. Por em quanto, basta que eu te diga que esta mulher é mãe de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar nas suas assemblêas de taverna. Sabes de mais que eu não defendo minha casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos são todos pobres. Se essa senhora está necessitada, soccorre-a; mas não a recebas, porque é mãe de um homem que está hoje escarnecendo os amigos de teu pae. {180}

A condessa ficou sabendo que Victor Hugo renegara da sua quarta ou quinta religião politica, e mais nada. Observava ella porém:

—O que a mim me admira, Raul, é ter elle entregado os tres contos de reis! É uma honra que não se entende bem a d'este homem!...{181}