Nota de editor:
Devido à
existência de erros tipográficos neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
mantida de acordo com o original. No final deste livro
encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita
Farinha (Nov. 2009)
JOSÉ BARBOSA
As relações luso-brasileiras
LISBOA
1909
JOSÉ BARBOSA
As relações luso-brasileiras
(A immigração e a
«desnacionalização» do
Brasil)
LISBOA
EDIÇÃO DE JOSÉ BARBOSA
RUA DO LORETO, 56, 1.º D.
1909
todos
os direitos reservados
LISBOA
TYPOGRAPHIA DO COMMERCIO
Rua da Oliveira, 10, ao Carmo
1909
Amicus Plato
sed magis amica
veritas...
INTRODUCÇÃO
O Brasil já foi uma região mal conhecida. Hoje
já
o não é. Em todos os centros civilizados deixou
de ser
ignorado. Existe, emfim! E não existe sómente por
ser
riquissimo de climas, de flora e de fauna, nem por offerecer,
nos seus terrenos inexplorados, largo campo
ás ambições insatisfeitas dos povos do
Velho Mundo,
nem sequer por haver desenvolvido de maneira collossal
as suas producções.
Tudo isso torna conhecido o Brasil. Mas o que mais
lhe propaga o nome é a surpreza causada pela sua cultura,
ainda ha pouco representada de modo inolvidavel
e memorando pelos seus delegados na Conferencia de
Haya e no Congresso de Hygiene de Berlim, Ruy Barbosa
e Oswaldo Cruz.
O que, além disso, não escapa a ninguem
é a supremacia
que lhe cabe entre as nações sul-americanas,
é a funcção de arbitro da paz do
continente, em que o
investiram os estadistas da Republica, entre os quaes
se tem de destacar a excelsa figura de Rio Branco.
Para o Brasil de hoje convergem todos os olhares.
Deixou de ser a terra do ouro e dos diamantes para
se transformar em vasta arena aberta ás mais levantadas
especulações da intelligencia e ás
mais audazes e
fecundas iniciativas materiaes. O estudo e o trabalho
congregam-se para o seu progresso. A liberdade e a
paz social acolhem e protegem os desherdados que alli
vão buscar pão e esperanças...
As sociedades européas, imbuidas de preconceitos e
avassalladas pelos privilegios, trancam o futuro ás classes
trabalhadoras. Que lhes resta, senão o recurso da
expatriação? O caminho é o Oceano; a
Chanaan é a
America, a livre e egualitaria America, onde o trabalho
é toda a nobreza.
Nós, os portugueses, acompanhamos o movimento
geral. A nossa America consiste principalmente no Brasil.
Nem podia deixar de ser assim. A raça e a lingua
são factores decisivos na escolha do destino.
Nenhuma raça revéla maior resistencia do que a
nossa, nenhuma é mais soffredora e tenaz.
Como, porém, estamos desapparelhados para a
lucta hodierna pela falta de diffusão do ensino,
só excepcionaes
qualidades ethnicas
[1]
explicam a posição
que ainda cabe á nossa colonia no Brasil. Seria, no
emtanto, indigno occultar, neste momento, que essa
colonia se encontra sériamente ameaçada pelos
nossos
concorrentes. Está, aliás, na consciencia de
todos esta
verdade, que uns calam para lisonjear a nossa colonia
no Brasil e outros por não lhe vêrem
solução deante
da criminosa pertinacia com que os governos dão tudo
ás clientellas politicas e negam, por systema, a
esmóla
do ensino primario aos filhos do contribuinte faminto e
esfarrapado!
A obra da escola não se concilia com os interesses
do regimen, não ha duvida; mas recusem ao povo,
forçado a emigrar para não morrer de fome, a
instrucção
indispensavel para competir com os outros estrangeiros
no Brasil e esperem o resultado no volume das
remessas de numerario com que acudimos ao nosso
balanço economico!
O recurso das remessas do Brasil e a exportação
que para esse paiz fazemos tornaram-se essenciaes á
vida portuguesa. E, como nada se fez para dispensar
tal dependencia e nada se procurou para assegurar
aquelle estado de coisas, a nossa gente laboriosa, conscia
dos riscos que corremos, mas sem noção exacta
do problema, recebe com esperança e enthusiasmo todas
as idéas apresentadas por pessoas bem intencionadas.
Isso bastaria para explicar o côro das adhesões
á
proposta do sr. Consiglieri Pedroso
[2],
se não interviessem,
no lance, a especial categoria, a illustração e
o talento do emérito professor. Discordando, em varios
pontos, desse plano de approximação
luso-brasileira,
dirigi a s. ex.
a uma
carta aberta
a
que o
Mundo deu
a sua larga publicidade e na qual se lia:
«O estreitamento das
relações de
Portugal com o Brasil, dada
a vontade que nesse sentido revelam os dois povos, é mais do
que
facil, porque é inevitavel, porque está nos
destinos de ambos.
Imaginar, porém, como deduzo
dos considerandos de v. ex.a
que, precisando nós da
seiva do Brasil, temos meio de lhe
conferir
uma compensação primacial, qual seja a de evitar
o risco
da desnacionalização que esse povo corre pela
entrada cada vez
maior de outros elementos ethnicos, é erro profundo que os
factos
condemnam de maneira formalissima. E, sobre ser um erro, esse
juizo levantará contra Portugal e contra os portugueses a
hostilidade
das outras colonias e das outras raças, alli na mais intima
convivencia e na mais constante fusão com a gente lusitana e
luso-brasileira.
Com tal motivo, qualquer esforço de
approximação resultará
contraproducente. Não posso, desde que se parte dessa base,
dar
a minha insignificante collaboração a uma
tentativa que tenho
por inefficaz, pelo menos.
O Brasil precisa de milhões de estrangeiros. Não
lhos podemos
dar. Ha de procural-os em outros paizes. Mas, como é um
paiz que se sabe governar e que nunca, nem sob este nem sob o
antigo regimen, deixou de demonstrar sentimentos patrioticos e
ardor civico, não corre o perigo, que v. ex.a
entreviu na
colonização
italiana e alleman, de se desnacionalizar.
Com mais vagar, em um opusculo, hei de deixar demonstrado
quanto estão afastados da realidade os que pensam como v.
ex.a.
Se houvessemos de iniciar negociações com a
idéa de evitar esse
supposto risco, creia v. ex.a que os
brasileiros, cuja hospitalidade
tive durante dezeseis annos e cujo espirito conheço,
não agradeceriam
o aliás generoso empenho, porquanto nelle veriam menos
apreço pelas qualidades de intelligencia e de patriotismo,
de que,
com justiça, se ufanam muito mais do que das riquezas
naturaes da
sua patria.
Sei que v. ex.a, meu illustre correligionario,
só
é movido por
altos e nobres estimulos. Estou convencido de que só
á falta de
documentos directos e de observação propria se
póde attribuir
o desvio do seu grande espirito critico em materia em que estudos
especiaes dão a v. ex.a merecida
auctoridade.
Felizmente, porém, entre muitas idéas de real
utilidade que
constam da proposta de v. ex.a, vejo uma que me
garante que o
problema, nas suas linhas mestras, tem em v. ex.a
o paladino ao
lado do qual se poderão alinhar os soldados da democracia
portuguesa
e os cidadãos da grande Republica Brasileira.
Refiro-me á idéa de procurar approximar os dois
povos pela
adopção de um espirito commum na
legislação de ambos. Nesse
ponto estou enthusiasticamente com v. ex.a,
porque, não
podendo
a democracia pura, que é a Republica dos Estados Unidos do
Brasil, seguir a evolução regressiva, essa
aspiração impõe-nos, a
nós portugueses, a marcha progressiva para a
situação juridica
do Brasil—o que só poderá ser conseguido por uma
transformação
politica e social, tão almejada por mim quanto por v. ex.a.
E comprehendo com que intimo
constrangimento quem assim
sente teria de obedecer ás regras protocolares do cargo ao
pedir
ao joven rei D. Manuel a sua cooperação para um
emprehendimento
que só póde ser levado a bom termo pelos dois
povos e
que só se desentranhará em realidades promissoras
quando a
realeza portuguesa constituir méra
recordação historica.
Faço votos por que v. ex.a veja em
breve realizadas as
nossas
aspirações communs. Se, porém, o nosso
esforço interno não
chegar para tanto, creia v. ex.a que, para
não falharem os
seus
destinos historicos, o Brasil e Portugal se hão de
approximar
cada vez mais e cada vez mais intensamente a democracia brasileira
ha de exercer fatal acção sobre a
nação portuguesa, abreviando
os dias do regimen monarchico e apressando o advento da
Republica Portuguesa.
Não ha mais eloquente lição do que a
dos factos. Não ha mais
violenta propaganda do que a comparação
antithetica dos povos
brasileiro e português. E, cada português, que
volta á patria,
não tarda em sentir a magnitude da
acção da Republica no Brasil
e em reconhecer a falta das instituições a que
lá se afizera.
Garanto-o a v. ex.a: se não fizermos
a
revolução, o Brasil
ha de republicanizar Portugal. V. ex.a conhece
melhor do que eu
o poder da osmose social.»
Eis a origem deste trabalho. Julguem brasileiros e
portuguêses se as convicções, que elle
traduz, carecem
de fundamento.
I
A PROPOSTA CONSIGLIERI PEDROSO
Eis a proposta do presidente da Sociedade de Geographia:
«Considerando que na evolução politica
do mundo contemporaneo
é facto historico, que se não póde
contestar, a irresistivel
tendencia para a unificação moral dos grupos
ethnicos, que falam
o mesmo idioma, podendo até por isso definir-se o dominio da
lingua, na sua funcção social, como a patria
espiritual de uma
nacionalidade;
Considerando que nem os mais poderosos Estados logram
eximir-se a esta universal tendencia, como o prova o movimento
de concentração que no momento actual se
está operando nos
povos anglo-saxonicos, nos germanicos propriamente ditos e mesmo
nos povos slavos, apezar das differenças de
religião e de linguagem
que separam estes ultimos entre si;
Considerando que, em virtude desta tendencia, é legitimo
prevêr-se como irremediavel, em futuro relativamente pouco
distante,
se não o desapparecimento, pelo menos a
desintegração
das pequenas nacionalidades que não consigam defender-se,
pela
massa dos seus habitantes, da absorpção,
consequencia fatal da
lucta pela existencia, cada vez mais implacavel entre as grandes
nações, que na sua ancia de
açambarcamento inquietam os agrupamentos
secundarios, embora muito adeantados em cultura;
Considerando que Portugal e Brasil, pela
sua origem, historia
e tradições, pela lingua que ambos falam, pela
raça a que pertencem
e pelos multiplices interesses que os ligam, sem embargo
do glorioso facto consummado da independencia brasilica, e,
não
obstante, portanto, serem duas soberanias politicas separadas e
perfeitas, constituem na realidade, em face das outras
agremiações
nacionaes e exoticas, um grupo áparte, nitidamente
delimitado,
com individualidade distincta e, por conseguinte, com um
destino historico completamente autonomo, circumstancia a que
o direito internacional não póde ficar estranho;
Considerando que, na situação de isolamento
reciproco, em
que se encontram, as duas nações estão
compromettendo a grandeza
do papel primacial que deviam representar no mundo, com
grave prejuizo dos interesses proprios e apenas com vantagem
para as nações rivaes, que se estão
aproveitando habilmente da
desunião de ambas;
Considerando que a grande nação brasileira,
não obstante os
quasi illimitados recursos de que dispõe e as brilhantes
qualidades
dos seus filhos, que se estão impondo á
consideração universal
pela sua intelligencia e illustração, pelo seu
patriotismo e pela
sua actividade, corre o risco de se ir desnacionalizando pouco a
pouco pela introducção, cada vez em mais larga
escala, de elementos
de immigração estranhos ao seu carater historico
e até
antipathicos á sua idiosyncrasia ethnica—provaveis
causadores
de futuras perturbações e de inevitaveis perigos
para a União;
Considerando que este sério risco de
desnacionalização lenta,
mas segura, sómente o Brasil póde conjural-o pela
approximação
e relações cada vez mais estreitas com Portugal,
possuidor ainda
hoje de um rico e vastissimo imperio em Africa, de territorio reduzido
na Europa, não ha duvida, mas berço de uma
robusta e
prolifica população largamente espalhada pelo
mundo, de extraordinarias
faculdades de adaptação e resistencia,
população indispensavel—e
não substituivel por outra—para a
conservação
e pureza da raça nacional do Brasil;
Considerando mais que o problema da gradual e progressiva
fusão da numerosissima colonia portuguesa, que vive no
Brasil,
com a terra que lhe dá tão generosa hospitalidade
é para os futuros
destinos da nacionalidade brasileira de capital e decisiva
importancia, mas sómente de solução
integral possivel quando as
duas nações, hoje separadas e quasi estranhas uma
á outra, se
harmonizarem no superior interesse de uma fecunda
approximação;
Considerando, por outro lado, que a
economia nacional portuguesa
só ao contacto intimo da exuberante seiva brasileira
póde
robustecer-se e tonificar-se, sendo, além disso,
fecundissimo campo
para a nossa actividade material e progredimento moral as
vastas regiões cobertas pela gloriosa bandeira auri-verde;
Considerando por isso como verdade evidente, sem possibilidade
de discussão sequer, que a resolução
definitiva do problema
economico português depende grandemente—quaesquer que sejam
os esforços, a sinceridade e a intelligencia que para ella
se empreguem
dentro das nossas estreitas fronteiras—de plenamente
se realizar um forte e largo accordo luso-brasileiro, formula de
renascimento mundial da nossa commum nacionalidade;
Attendendo a que a tradicional alliança de Portugal com a
Inglaterra, base da nossa situação politica
internacional, assim
como intimas relações de cordealidade com as tres
nações latinas,
nossas irmans, e com a Allemanha, nossa cooperadora em
Africa, em coisa alguma são prejudicadas pela
unificação moral
de Portugal com o Brasil n'um pacto superior, permanente e
sui
generis, tal como o impõem os
especialissimos laços fraternaes
existentes entre as nações que falam a lingua
portuguesa;
E, attendendo, finalmente, a que á Sociedade de Geographia
de Lisboa, pelos seus fins, pela sua constante
tradição e pelo logar
proeminente, tão excepcionalmente em evidencia, que occupa
na vida nacional portuguesa, compete, nesta hora difficil para a
patria, cooperar, quanto em si caiba, no movimento de
renovação
do nosso querido Portugal;
Tenho a honra de propôr que, nos termos do artigo
40.º dos
estatutos, se crie uma commissão geral permanente com o
titulo
de «Commissão Luso-brasileira» a qual
terá, entre outros, os seguintes
fins:
1.º—Estudar a forma mais adequada de se realizarem congressos
periodicos luso-brasileiros, que devam, em prazos a fixar,
reunir-se alternadamente em Lisboa ou Porto e no Rio de Janeiro
ou outras cidades brasileiras com o intuito de discutir todos os
assumptos de ordem intellectual e economica que interessem em
commum e exclusivamente as duas nações, e onde
haja de fazer-se
a propaganda das deliberações que pelos mesmos
congressos
e pelos governos dos dois paizes tenham de ser tomadas a beneficio
de ambos os povos, respeitando-se escrupulosamente a independencia
de cada um delles e evitando-se toda e qualquer
interferencia, por minima que seja, na vida interna e no modo de
ser dos dois paizes reciprocamente;
2.º—Estudar a forma de se negociar um tratado de
incondicional
arbitragem entre Portugal e as suas colonias de um lado
e o Brasil do outro e de se realizar a conveniente
cooperação das
duas nações em assumptos de caracter
internacional;
3.º— Estudar a
fórma de se ultimar, com a urgencia
que razões
obvias aconselham, um tratado de commercio, ou antes um
largo entendimento commercial entre as duas
nações, procurando-se
a maneira, até onde fôr possivel vencer as
difficuldades naturaes
inherentes ao assumpto, de que uma á outra concedam
respectivamente
vantagens especiaes que deixem de ser transmittidas
aos outros Estados, não sendo, portanto, attingidas pela
clausula
de nação mais favorecida, inscripta actualmente
nos tratados
já existentes tanto de Portugal como do Brasil com os paizes
estrangeiros;
4.º—Promover a creação de uma linha de
navegação luso-brasileira
entre os dois paizes, sob o alto patrocinio de ambos
os governos;
5.º—Promover a fundação em Lisboa de um
entreposto
central para o commercio do Brasil na Europa e de um entreposto
central no Rio de Janeiro para o commercio português na
America, podendo, no caso de isso ser conveniente, fundar-se
outros dois entrepostos, um no Porto e outro no Recife, ou onde
mais convenha ao Brasil;
6.º—Promover a construcção de dois
palacios, um em Lisboa
e outro no Rio de Janeiro, destinados á
exposição e venda
permanente dos productos nacionaes de cada um dos dois paizes
no outro;
7.º—Promover, sempre que fôr possivel, a
unificação ou pelo
menos a harmonização da
legislação civil e commercial dos dois
paizes;
8.º—Promover a approximação
intellectual—scientifica, literaria
e artistica—dos dois paizes, dando aos professores e diplomados
brasileiros em Portugal e aos professores e diplomados
portugueses no Brasil os mesmos direitos com equivalencia dos
respectivos titulos de habilitação;
9.º—Promover visitas regulares de excursionistas e de
estudo—de
intellectuaes, de artistas, de industriaes e commerciantes
portugueses ao Brasil e brasileiros a Portugal e ás suas
mais importantes
colonias;
10.º—Estudar a maneira de se fundar em qualquer das duas
capitaes, ou simultaneamente em ambas, uma revista que seja o
orgão para servir de interprete permanente a este movimento
de
approximação luso-brasileira;
11.º—Promover mais intimas e continuadas
relações entre
a imprensa brasileira e a imprensa portuguesa pela troca de
collaboração
e pela instituição de reuniões
periodicas dos editores
de livros e dos representantes do jornalismo de ambas as
nações;
12.º—Promover a intelligencia entre si, respectivamente, das
sociedades scientificas, artisticas, de
instrucção, de beneficencia,
de gymnastica, de tiro, de natação e outros
desportos maritimos
e terrestres, etc., pertencentes aos dois paizes, assim como das
associações academicas brasileiras e portuguesas,
creando-se
tambem bolsas de viagem para os estudantes de cada um dos
dois paizes no outro;
13.º—Promover o movimento de
approximação luso-brasileira
no Brasil, ou por intermedio de alguma das sociedades alli
existentes, como a Sociedade de Geographia ou o Instituto Historico
Brasileiro, que, á semelhança da Sociedade de
Geographia
de Lisboa, queira no territorio da União pôr-se
á frente deste
movimento, ou contribuindo para a fundação no Rio
de Janeiro
de uma liga luso-brasileira, com os mesmos intuitos que os da
commissão permanente cuja creação aqui
se propõe;
14.º—Finalmente, estudar a maneira de se fazer da benemerita
colonia portuguesa no Brasil a activa intermediaria da
approximação
moral dos dois povos, approximação que
terá como
symbolo da realidade da sua existencia a formosa lingua de
Camões e Gonçalves Dias a falar-se dos dois lados
do Atlantico
e a servir, em duas patrias fraternalmente enlaçadas, de
vinculo
inquebrantavel á raça luso-brasileira, cujo
destino historico, assim
engrandecido, deverá, a bem da
civilização, alargar-se triumphante
pelas mais bellas regiões do globo, ás quaes o
immortal genio
latino, representado pela nossa commum nacionalidade,
imprimirá,
com o supremo encanto da forma, o estimulo da sua energia
eternamente creadora.»
II
O PROBLEMA LUSO-BRASILEIRO
O problema luso-brasileiro é uma realidade. Não
está definido, não se lhe conhecem com
precisão os
termos; mas existe. Affinidades, claras e logicas umas,
e outras obscuras e inconscientes, sollicitam os dois grupos
sociaes e politicos, que compõem a
gens
lusitana,
se assim se póde exprimir o conjuncto ethnico em
elaboração
nas terras sob a soberania portuguesa e sob
a soberania brasileira.
Existe o problema luso-brasileiro, como existe o hispano-americano,
como existe o anglo-saxonio. Paizes
que derivaram dos povos colonizadores por excellencia
e que mantêem com elles intimas
relações e permanente
convivencia, ha tres nucleos de estados americanos
que constituem, á maneira que se desenvolvem e á
maneira que prosperam, não já simples e
justificados
motivos de orgulho para aquelles povos, mas poderosas
engrenagens a cuja sorte elles não podem, de maneira
nenhuma, ser estranhos.
Sentimos vagamente que ha laços insoluveis que nos
prendem ao Brasil. Dia a dia, hora a hora, reconhecemos
que existe uma verdadeira interdependencia na
vida luso-brasileira. O Brasil influe sobre Portugal e
Portugal influe sobre o Brasil. Como e em que espheras
das respectivas actividades se exercita essa
acção?
Eis onde surgem, cá e lá, as divergencias; eis
onde
collidem as opiniões e onde mais nitidamente se manifesta
a complexidade do problema luso-brasileiro.
Ha quantos annos Castelar lançou a idéa de
estreitar
os vinculos hispano-americanos? Ha mais de quarenta
e, todavia, o problema ficou sem solução...
Dizia Emilio Castelar:
«Reunir as idéas de todos os nossos escriptores;
communicar ao Novo Mundo o espirito hespanhol sob
todas as suas formas raras e variadas; lembrar-lhe todos
os dias, sob todos os tons da nossa lingua, que aqui
vivem homens que são seus irmãos; mostrar a seus
olhos o ideal de um futuro de paz, em que pela reunião
das nossas forças e das nossas intelligencias poderemos
fazer germinar nas entranhas dessa infeliz
America, ferida pela tempestade, e no seio desta desgraçada
Hespanha consumida pelas cinzas das suas ruinas,
uma sciencia nova e uma literatura nova; fazer
tudo isto com uma constancia, que lembre o nosso antigo
caracter, e fazel-o sem outra recompensa além da
satisfação da nossa consciencia, é um
dos maiores e
mais positivos beneficios que se podem conceber para
a nossa raça abatida.»
A iniciativa do sr. Consiglieri Pedroso no tocante ás
relações luso-brasileiras relembra a de Castelar
no que
concerne ás hispano-americanas. A cultura historica,
em ambos fortalecida pelas sciencias politicas e sociaes,
levou esses dois espiritos de eleição a encararem
o mesmo
problema sob aspectos quasi identicos. Ao lusitano,
como ao hespanhol, affigurou-se indispensavel a
seiva
americana ao caule ibérico. Era, nos dois
casos, a verificação
confessada de factos insophismaveis da economia
da peninsula hispanica; mas problemas economicos
têm de ser resolvidos economicamente. Ora, se
Castelar queria que se puzesse em pratica todo o seu
programma com a só recompensa da consciencia satisfeita,
o sr. Consiglieri Pedroso, mais positivo, estabeleceu
um programma em que prevalece o
do ut
des, a
troca de vantagens e serviços capazes de apertar os
laços
que prendem a patria de Camões á de
Gonçalves
Dias.
A forma pela qual se virá a tornar effectiva essa
solidarizacão decorre forçosamente das bases que
se
adoptarem para a conseguir.
O estadista hespanhol Francisco Silvela, abordando
o problema hispano americano, dizia que, «para a
renascença
das forças da sua patria», era indispensavel
«luctar nos mercados» das antigas colonias, que
considerava
mercados naturaes da Hespanha; mas, no seu
plano, que ia até uma confederação
ibero-americana,
entendia que «o mercado hespanhol» devia
«uma legitima
reciprocidade ao commercio, á industria e á
agricultura
desses povos irmãos».
Como dar realidade ao ridente projecto? Não nol-o
soube ensinar Castelar, não nol-o mostrou Silvela:
morreram e tudo continua como antes... Oxalá seja
mais proveitosa a nossa iniciativa.
O sr. Consiglieri Pedroso, com todo o seu saber,
labóra num engano. Á sua perspicacia deve ter
causado
impressão a simples lista dos brasileiros que, com
representação official, assistiram á
sessão da Sociedade
de Geographia. Alli esteve o primeiro secretario de
legação,
sr. Alvaro de Teffé, filho do almirante barão de
Teffé, cuja familia,
von
Hoonoltz, se me não affigura
lusitana, embora aos serviços do almirante deva o Brasil
a mais grata recordação de patriotismo; e, dos
quatorze
officiaes de marinha presentes, um era Burlamaqui,
outro Bardy, outro Lindenberg, outro Wegylin,
outro Costallat... Este facto bastaria, numa
representação
tão diminuta, para nos desilludir ácerca da
idéa
corrente em Portugal de que sómente os filhos dos
portugueses
adoptam a nacionalidade brasileira. Antes,
estivera no porto de Lisboa o
destroyer
«Piauhy», commandado
por Pedro Frontin, tendo por immediato Armando
Burlamaqui. E por Lisboa têm passado Filinto
Perry e Octavio Perry, officiaes de marinha e filhos de
outro illustre official, e tantos outros, a quem nem o
nome nem a origem attenuam o sentimento nacional.
Lauro Müller, filho de colonos allemães de Santa
Catharina, é senador e coronel do exercito e foi ministro
da viação no governo Rodrigues Alves.
Olavo Bilac, Escragnolle Taunay, Pardal Mallet,
Clovis Bevilacqua, Henrique Oswald, Felix de Otero,
H. Chiaffitelli, Rodolpho e Henrique Bernardelli, Ludovico
Berna, Elyseu d'Angelo Visconti, o architecto
Stahlembrecher, o pintor Chambelland, nas letras e
nas artes; Raja Gabaglia, Lima Drummond, Alfredo
Pujol, Vergueiro Steidel, G. Hasslocher, Wanderley
Araujo, no direito; Chapot Prévost, Monat, Chardinal,
Seidl, Niobey, Alberto Muylaert e Rebello Kock,
na medicina; Paulo de Frontin, José e Jorge de Lossio
Seiblitz, Estanislau Bousquet, Victor Villiot, Everardo
Backeuser, Henrique Kingston, Julio Delamare Koeler,
Van Erven, Dunham, na engenharia; Gaffrée, Guinle e
Street, na industria—para citar só de memoria e para
pôr de lado aquelles que remontam a um passado já
distante—são nomes que ninguem póde
crêr usados
por pessôas alheias ao espirito nacional brasileiro.
Quem foi o ministro da marinha do governo provisorio?
Wandenkolk. E quem é o actual ministro da
guerra? Bormann. De sangue italiano são os filhos do
insigne jornalista, hoje presidente do Senado, Quintino
Bocayuva; têm sangue francês os filhos do
extraordinario
patriota que se chama Rio Branco.
E, apezar de toda esta fusão de raças, o
sentimento
brasileiro nada soffre! E, apezar de quaesquer receios
de desnacionalização, o que se vê
é que cada vez se
vae robustecendo mais a nacionalidade!
E, se é certo que a lingua é o mais poderoso
elemento
caracteristico das nacionalidades, é evidente que,
dentro do Brasil, todos os exoticos são absorvidos e
assimilados
pela massa luso-brasileira, que forma a sua
força ethnica preponderante.
O dr. Bulhões Carvalho, director geral da Estatistica,
no prologo do «Boletim Commemorativo da
Exposição
Nacional de 1908», dizia:
«Em relação á naturalidade,
é extraordinario o predominio
do elemento nacional do Brasil. Em 1872, o
numero de estrangeiros era de 383.546 para 9.728.515
brasileiros; em 1890 o total dos estrangeiros era de
351.545 para 13.982.370 brasileiros; em 1900 a cifra
dos estrangeiros attingia a 1.240.264 para 16.078.292
brasileiros.»
III
O SUPPOSTO PERIGO
Onde existe o perigo da desnacionalização?
Diz o sr. Consiglieri Pedroso, no seu 7.º considerando,
que «o Brasil corre o risco de se ir desnacionalizando
pouco a pouco pela introducção, cada vez
em mais larga escala, de elementos de immigração
estranhos
ao seu caracter historico e até antipathicos á
sua idiosyncrasia ethnica—provaveis causadores de
futuras perturbações e de inevitaveis perigos
para a
União».
A immigração não portuguesa—eis em
que consiste
o perigo, no dizer do eminente professor. Ora, a
verdade, falada pelos numeros, póde ser sem brilho,
mas é irrecusavel.
Em todo o periodo que vae de 1820 até 1907, diz-nos
a estatistica (
Bulhões
Carvalho, trabalho citado)
que, nos portos do Brasil, entraram 1.213.167 italianos,
634.585 portugueses, 288.646 hespanhoes, 93.075 allemães,
56.892 austriacos, 54.593 russos, 19.269 franceses,
11.731 turco-arabes, 11.068 ingleses, 9.086 suissos,
3.780 suécos, 11 belgas e 165.590 de outras nacionalidades.
Ao todo entraram 2.561.482 immigrantes. Tirando
os portugueses, temos 1.926.897 immigrantes, não sabemos
se todos «estranhos ao caracter historico e antipathicos
á idiosyncrasia ethnica» do Brasil.
É claro que não constituiu a sua superioridade
numerica
causa de perturbações nem de perigos para a
nação... Esses elementos encontraram na sociedade
organizada o meio propicio á
adaptação. Foram assimilados.
E, como a emigração não representa a
cultura,
porque é recrutada entre as classes mais desprotegidas
dos paizes europeus, essas ondas humanas foram
fecundar as terras de Santa Cruz e lá puderam
proporcionar á sua próle o bem-estar, a
instrucção e a
educação que, deste lado do Atlantico, ella
desconheceria;
mas não lhe modificaram a cultura: quando
muito, integraram-se nella.
Desses immigrantes ficaram os nomes. Os cruzamentos,
o ambiente e a evolução peculiar da sociedade
nova em que foram incorporados, formaram um typo
nacional, em que predominam as caracteristicas portuguesas,
mas que, sob alguns aspectos, tende a differenciar-se
do nosso.
Por que se deu esse predominio? Pelo facto politico-social
da posse e da soberania, em primeiro logar;
depois pela acção eugenica dos portugueses sobre
os
elementos indigenas e africanos; e, finalmente, pela
continuação d'essa influencia na descendencia
mestiça.
Quando, ha oitenta e tantos annos se iniciou a corrente
immigratoria não portuguesa para o Brasil, já
lá havia
uma consideravel população com a nossa cultura,
com
as nossas tradições e com as nossas
instituições.
Era a nossa raça? O brasileiro era o luso? Sylvio
Romero nega que o fosse. Acha que a historia do Brasil
não é a «historia exclusiva dos
portugueses na America»,
nem
a dos tupys, nem a dos
negros. «É, antes,
a historia de um typo novo.»
Esse typo novo não podia deixar de ter com o
português—elemento
superior da sua formação inicial—affinidades
mais intimas do que com qualquer outra
nacionalidade. Os destinos de um povo dependem dos
seus elementos ethnicos superiores. Assim foi que,
dada a implantação da
civilização européa na America,
as nações, que vieram a constituir-se n'esse
continente,
se tiveram de modelar e pautar pelas de que promanavam,
reproduzindo, além da medida exacta do sangue,
as qualidades essenciaes das raças originarias superiores.
É sob este ponto de vista que o brasileiro é o
português
da America, onde o Canadá ainda representa
o francês e o inglês, o americano do norte prolonga
a
modalidade britanica, e os demais povos conservam
inconfundiveis traços do hespanhol.
Limitando-nos ao caso que nos respeita, quer isto
dizer que o brasileiro se encontra apparelhado pela
consciencia nacional e pelas energias de ordem legal,
moral e material, que dão realidade aos gremios nacionaes,
para proseguir na sua marcha evolutiva independente,
apezar de quaesquer nucleos extra-lusitanos que
para o Brasil emigrem.
Os factos corroboram a nulla acção
desnacionalizadora
dos immigrantes não portugueses. De 1824 a 1859,
anno em que os allemães deixaram de ir para o Brasil
em virtude do rescripto famoso do ministro prussiano
Van der Heydt, esses colonos, espalhados pelas
provincias do sul, não logravam attingir a cifra de
30.000. A Allemanha, reconhecendo que cresciam extraordinariamente,
apezar de prohibida a emigração, as
populações germanicas no sul do Brasil, procurou
conserval-as
unidas á
Vaterland por
meio do ensino: creou
escolas e na lingua tinha um vinculo precioso e poderosissimo.
São conhecidos por
teutos
esses brasileiros,
que, se puderam ser motivo de preoccupações,
deixaram
de o ser desde que, á escola e á lingua allemans
se
oppuzeram a escola brasileira e a nossa lingua.
Quinhentos mil
teutos, muito
prolificos, em incessante
incremento, constituirão esse perigo? Ou serão
os quasi cem mil que, nesse total, conservam a nacionalidade
alleman? Ou serão esses, mais os dois milhões
e meio de italianos e filhos de italianos e mais outro
milhão de pessoas de outras linguas?
Quatro milhões dos seus dezoito a vinte milhões
de
habitantes não podem desnacionalizar o Brasil.
E ai de nós se o pudessem fazer! Que remedio lhe
poderiamos dar com os nossos seis milhões de habitantes,
em que só não são analphabetos
1.200.000, quando
esses paizes para lá mandam gente muito menos ignorante?
O perigo da desnacionalização não
existe realmente.
A actual população possue capacidades
triumphantes
de resistencia á invasão exotica.
Quem o reconhece não somos nós, são os
proprios
allemães e italianos. A illusão desfez-se. O
Deutschthum
falliu na sua execução sul-americana. A
Nova Italia foi
fantasia logo batida pela realidade. E, como, afinal, á
falta de melhor, basta, a quem faz negocios, não os
perder, a politica dos povos emigrantistas, isto é, dos
que precisam ir conquistar a terras novas o pão que as
velhas lhes negam, transformou-se; e em novas
aspirações
praticas passou a traduzir-se.
Diz o allemão dr. Robert Jannassh:
«O immigrante que aqui vive e trabalha, tem de se
tornar brasileiro, deve aprender a lingua do paiz,
esforçando-se
por se exprimir n'ella tão bem como em
seu proprio idioma, sem o que não poderá tomar
parte
na vida publica em beneficio da collectividade.»
Diz o professor Siever, da Universidade de Giessen:
«Se o imperio allemão quer recuperar a sua antiga
preponderancia no concerto das potencias, procure
adquirir, na America do Sul, real influencia; mas não
sob a forma de annexações e sim na base de
relações
commerciaes, industriaes e pecuniarias...»
O professor Vincenzo Grossi, da Universidade de
Roma, aconselha egualmente que os emigrados adoptem
a lingua e a nacionalidade dos paizes em que se
installam.
O remedio, está-o applicando a Republica dos Estados
Unidos do Brasil: é a escola, é a
legislação tendente
á absorpção do estrangeiro.
Assim prevenido, o Brasil ha de receber, sem risco
algum, as enormes lévas de trabalhadores, que o seu
progresso material e a sua missão no equilibrio
sul-americano
reclamam e que Portugal, já com escassas
energias no ponto de vista demographico, não lhe
póde
offerecer.
IV
OS ESTRANGEIROS NO BRASIL
Chegou a haver no Brasil uma forte corrente de
opinião contraria á
immigração italiana e alleman. Não
ha negal-o; mas a verdade é que essa corrente deixava
de encarar o problema tal qual era na verdade,
para vêr unicamente um facto apparentemente grave
para a existencia nacional, qual era a formação
de
poderosos nucleos de lingua italiana e alleman nos
Estados do sul da Republica.
Esses nucleos não encontravam meio favoravel á
conservação das suas nacionalidades de origem.
É
certo que para onde convergiam os italianos, como
em S. Paulo, acorriam outros italianos, da mesma fórma
que os allemães se congregavam no Rio Grande
do Sul, Santa Catharina e Paraná. Era tal a força
das
affinidades nacionaes que em algumas regiões 80 a
95% da população era
teutonica; e, como era natural,
os
teutos, por lá, eram
os que tinham de desempenhar
todas as funcções publicas e de exercer todas as
fórmas
da actividade segundo as tendencias da sua raça
e de accordo com as conquistas da propria
civilização.
Mas a verdade dos factos é que esses agglomerados
ethnicos perdiam o espirito nacional á maneira que os
filhos entravam na vida brasileira e á medida que a
prosperidade no novo
habitat os
prendia á terra de
adopção.
E adopção dizemos porque, de facto, os
estrangeiros
idos para o Brasil até 1890—anno em que, com a
autonomia aos estados dada pela Republica, entrou a
crescer de modo consideravel a immigraçao
[3]—eram
absorvidos, incorporados na massa nacional.
Affirma-o a estatistica. O censo de 1890 accusa,
com effeito, 351.545 estrangeiros para 13.982.370 brasileiros.
Quer isto dizer: 1.º que os filhos de immigrantes
tinham adoptado a nacionalidade brasileira;
2.º que a propria gente exotica, em grande parte, tinha
acceitado a naturalização tacita, porquanto
só nos annos
de 1880 a 1889, a entrada no Brasil—de todas
as origens—tinha passado de 300.000 estrangeiros.
É, porém, verdade que alguns homens,
aliás eminentes,
do Brasil tiveram receio dos grandes grupos
de população de lingua estranha. Desse facto, nem
sempre apreciado com justeza de criterio, resultou a
noção de um
perigo
allemão e de um
perigo
italiano,
que, se existiram algum dia, foi pela possibilidade de
conflictos internos de gentes de culturas divergentes
em fusão, e não pela ameaça de desviar
a nacionalidade
dos seus destinos resultantes de tendencias acima
de tudo definidas pela lingua.
A Republica, ao ser proclamada, encontrou-se
deante de «sérios problemas», neste
terreno melindrosissimo.
Falava-se no espirito monarchico dos
teutos; dizia-se que, a um aceno de
Silveira Martins,
se ergueriam dezenas de milhares de
teutos; havia
quem acreditasse—na Europa principalmente!—que
o Brasil se ia dividir em tres estados: ao norte, a
Amazonia; ao centro uma nação em que viriam a
preponderar os italianos; ao sul, uma nova Allemanha,
que, lá para 1999, devia ter 30 a 35 milhões de
habitantes...
Andou isto pela imprensa francesa, inglesa e alleman,
que, sobre um artigo do
Tempo,
[4] de
Lisboa,
bordou longas e arbitrarias considerações
historicas e
ethnologicas e se perdeu em estopantes
dissertações
de direiro.
Os «sérios problemas» existiam, em todo
o caso.
Era preciso introduzir trabalhadores no Brasil! Esse
é que era o maximo problema. Faltavam os braços
á
lavoura. Aonde ir buscal-os, senão aos paizes que os
podiam fornecer em maior abundancia? Aonde, senão
aos paizes de lingua estranha, já que Portugal só
lhe
dera 24.000 colonos em 1888 e 28.000 em 1889? Aonde,
se, apesar de todos os esforços, o estado de S. Paulo
só conseguiu, de 1890 a 1904 exclusivé, pouco
mais
de 36.000 portugueses contra 190.000 italianos?
A immigracão subsidiada pelo Estado obedecia a
uma imperiosa necessidade economica. Tinha de ser
feita, com as raças que offerecessem mais braços
disponiveis.
Mas, se já na epoca das fracas lévas exoticas
se falára em «perigos», que
não seria depois de abolida
a escravidão, depois de mudado o regimen politico?...
Mais do que nunca havia que cercar a nacionalidade
de meios de defeza. Foi por isso que o governo provisorio
tratou, logo nos seus primeiros dias, de decretar
a grande naturalização. O decreto de 15 de
dezembro
de 1889, que deu a nacionalidade a todos os estrangeiros
que, estando no Brasil em 15 de novembro, a
quizessem, teve alcance muito maior do que se imagina,
embora os protestos de Portugal, Hespanha, Inglaterra
e Hollanda contra a lei tivessem attenuado, de certo
modo, a sua efficacia.
No debate deste assumpto, no seio do governo provisorio,
propondo que se mantivesse a lei, dizia Quintino
Bocayuva, ministro das relações exteriores, que
«a par da energia» que devia manter o governo para
com as nações estrangeiras, «devia
tambem usar de
certa delicadeza» porque o Brasil
«
dependia do problema,
maximo da
immigração».
[5]
Observou-se a delicadeza. Manteve-se a lei. Os resultados
de tal politica estão no censo de 1890, como
já vimos; mas vinha de longe esse esforço. O
partido
republicano, tantas vezes accusado, depois do novo regimen,
de hostilizar o estrangeiro, sempre advogára
as mais liberaes medidas para a naturalização. E
essa
pretensa hostilidade sómente significava justificado
espirito
nacionalista.
Já em 1881, ao dirigir-se aos eleitores de S. Paulo,
o grande cidadão, que se chamou Francisco Rangel
Pestana, dizia (
Programma dos
Candidatos) que o seu
partido tinha, no seu manifesto de 1880, tomado nessa
materia um compromisso solemne, que impunha «uma
reforma na legislação de modo a ser facilitado ao
estrangeiro
domiciliado no Brasil o meio de entrar,
sem
vexame e com o conhecimento exacto das necessidades
do paiz, na communhão social»
brasileira.
E, depois de criticar a legislação
então vigente na
materia e de mostrar as necessidades que havia para
o bom exito da medida, dizia:
«Nem especialmente em relação ao
augmento da
corrente de immigração, nem em
relação ao progresso
moral e material do paiz, a propaganda em favor
da naturalização trará resultado
seguro e vantajoso,
se outras reformas não vierem mudar
este
estado de
coisas que entristece os bons pensadores de todos os
partidos.»
Entendia Rangel Pestana que o estrangeiro não
procuraria adoptar a nova patria se não reconhecesse
que havia nella «garantias para os seus direitos civis
e mesmo para os politicos».
A Republica não faltou aos seus compromissos.
V
O POVOAMENTO E A NACIONALIDADE
Os systemas geralmente adoptados para a
acquisição
de braços foram todos experimentados no Brasil.
Desde a immigração subsidiada ás
multiplas formas de
colonização, não houve processo que,
em maior ou menor
escala, deixasse de ser ensaiado.
Tratava-se realmente do problema maximo. Os elementos
naturaes não bastam, as riquezas de todos os
generos e os mais vastos territorios de nada servem
quando falta a população. É o homem
que fecunda e
valoriza tudo.
Escrevia, em 1901, o Dr. Luiz Pereira Barretto:
[6]
«Variedade de climas; numerosos e volumosos cursos
de agua irradiando de um admiravel planalto central
que convida a humanidade futura a alli vir derramar
400 milhões de habitantes; exuberantes florestas;
uma flora e uma fauna de suprema belleza; riqueza de
sólo; immensas jazidas de mineraes de toda a sorte:
1.200 léguas de costa; portos abundantes e tocando ao
ápice da perfeição ideal como
largueza, segurança e
elegancia e attingindo alguns a proporções
colossaes;
tudo, tudo possuimos na mais vasta escala.
Não seremos capazes de fazer valer tantos e tão
excepcionaes
recursos?»
O Brasil, para fazer valer os seus recursos, em
verdade excepcionaes, precisou sempre, precisa hoje, e
precisará amanhan de augmentar a sua
população, cujo
crescimento vegetativo é insignificante para o seu
territorio,
com gente das regiões em que a lucta pela vida
é mais dura. A immigração é
o processo de crescimento
que se lhe impõe.
Foi, com esse intuito que o estado subsidiou a
introducção
de trabalhadores, fez as concessões dos burgos
agricolas, creou os nucleos coloniaes, e, por fim,
organizou um vasto e completo systema de povoamento
do sólo.
A experiencia ensinou que era indispensavel preparar
o meio para attrahir e prender o estrangeiro. A
esta orientação obedeceram recentes medidas
governativas,
de entre as quaes podemos destacar:
as leis que declararam privilegiadas as dividas provenientes
de salarios de operarios agricolas (janeiro de
1904, dezembro de 1906 e março de 1907);
a organização do serviço de Propaganda
e Expansão
Economica do Brasil no Estrangeiro (outubro de 1907);
a regulamentação do serviço de
povoamento do sólo
(leis de 30 de dezembro de 1906 e 19 de abril de 1907);
as instrucções para a
fundação de nucleos coloniaes
e localização de immigrantes por conta da
União
(portaria de 21 de dezembro de 1907);
o decreto de 5 de janeiro de 1907, que creou os
syndicatos e as cooperativas—instituições
correntes
em alguns paizes emigrantistas.
As vantagens e garantias constantes de todas estas
medidas são obvias; todavia ha que lêr o
regulamento
do serviço de povoamento para comprehender o espirito
que guiou, nesta materia, o governo brasileiro.
É preciso fixar muita gente: por isso, «a
União
promove o povoamento, mediante accordo com os Estados,
emprezas de viação ferrea e fluvial, companhias
ou associações e particulares» (Art.
o
1.º); os immigrantes,
cuja moralidade e cuja saude são fiscalizadas (art.
2.º),
constituem nucleos em lotes de terras escolhidas, em
bôas condições de salubridade e com
transporte facil e
installam-se nos nucleos como proprietarios (art.
o
5.º),
e só excepcionalmente (art.
o
4.º)—porque
é preciso
admittir as surprezas de uma exploração que se
inicía—os
immigrantes poderão ser introduzidos sem
acquisição
de terras; pelo Estado ou pelas emprezas serão fornecidas
gratuitamente, aos immigrantes, ferramentas e
sementes (art.
o 7.º, alinea V); os
lotes em regra
terão
casa para a familia do immigrante e terreno preparado
para as primeiras culturas (art.
o
21.º); os lotes
serão
vendidos a prazo ou á vista; os adquirentes dos lotes
terão (art.
o 36.º), durante
os seis primeiros
mezes, o auxilio
indispensavel á sua manutenção e
á da sua familia;
terão, durante um anno, pelo menos, (art.
o
27.º),
serviços
medicos e pharmaceuticos; se o adquirente morrer,
depois de pagar tres prestações, (art.
o
43.º) serão dispensadas
as outras em favor da viuva e dos orphãos;
o Estado (art.
o 96.º)
restituirá aos immigrantes
espontaneos,
que fôrem agricultores, a importancia das passagens
do porto de embarque ao de destino, dar-lhes-ha
(art.
o 97.º) desembarque, agasalho,
alimentação, medico
e remedios até seguirem para o seu destino, com
transporte gratuito; será concedida
repatriação a viuvas,
orphãos e inutilizados por doença ou accidente,
os
quaes (art.
o 131.º) poderão
vender os seus lotes;
aos
melhores immigrantes com mais de tres e menos de seis
annos de posse dos lotes serão concedidos (art.
o
132.º)
premios de viagem ao seu paiz do origem.
Basta este insignificante extracto para se avaliar o
intelligente esforço que o Brasil faz para fixar o
estrangeiro.
Bem dizia o ministro Calmon, no seu relatorio de
1908, que esse regulamento revelava «a
preoccupação
de assegurar ao immigrante elementos de feliz exito e
garantias de bem-estar e liberdade». E, justificando as
medidas que resumimos, ponderava que a «suprema
ambição do proletario que se expatria
é tornar-se proprietario.»
Introduzir immigrantes não é, porém, o
unico fim
da lei a que nos estamos referindo: tem ainda em mira
povoar o Brasil, isto é,
preparar novas forças de crescimento
vegetativo; e não deixa de attender á
questão da
nacionalidade. Como? É o que vamos vêr resumindo
outros dispositivos da lei.
O art.
o 19.º manda reservar, em cada
nucleo, lotes
para grupos escolares.
O art.
o 44.º estabelece aulas de ensino
primario
gratuito; o art.
o 57.º manda applicar o
art.
o 44 aos nucleos
fundados pelos governos dos estados; o art.
o
57.º
impõe essas obrigações ás
emprezas de viação, as
quaes têm de promover o povoamento das terras marginaes
ou proximas das suas linhas.
Temos, pois, o ensino da lingua portuguesa, como
meio de nacionalização, aliás
adoptado, de ha muito,
em todas as regiões onde se agglomeram massas de
immigrantes. Onde se abriu uma escola estrangeira, não
raro em um pardieiro, surgiu sempre um edificio lindo,
com bellos jardins, para a escola nacional.
Mas ha outras providencias com o mesmo intuito nacionalizador.
Assim, os lotes são vendidos a prazo só aos
immigrantes com familia, os quaes podem adquirir segundos
lotes contiguos aos primeiros (art.
os
26.º, 27.º e
28.º).
Ao immigrante estrangeiro que contrahir casamento
com brasileira ou filha de brasileiro nato, ou ao agricultor
nacional que se casar com estrangeira aportada
ha menos de dois annos como immigrante, será concedido
(art.
o 29.º) um lote de terra com
titulo provisorio,
que se substituirá por outro definitivo de propriedade,
sem onus algum para o casal, se este
tiver durante o
primeiro anno, a contar da data do titulo provisorio,
convivido em boa harmonia.
E se, após o casamento, quizer adquirir um lote a
titulo definitivo (art.
o 30.º) ser-lhe
ha feita
a venda por
metade do preço estipulado.
Em todos os nucleos (art.
os 46.º e
53.º)
serão dados
10% dos lotes a nacionaes. Sempre que n'um nucleo
houver 300 lotes de estrangeiros será organizada (art.
o
46.º) uma secção de lotes para
agricultores nacionaes.
O mesmo poderão fazer as emprezas contractantes de
colonização (art.
o
78.º). E sempre que
«a necessidade
publica o exigir e o Estado interessado não os
pudér
organizar, a União fundará nucleos coloniaes
destinados
exclusivamente a agricultores nacionaes.
Julgamos que estas disposições legaes falam com
sufficiente eloquencia.
Ainda ha outras precauções com identico fim.
A constituição, que só véda
ao naturalizado a presidencia
da Republica, estatue que a navegação de
cabotagem
tem de ser nacional (art.
o 13.º
§ unico).
A recente lei das successsões é de intuitos
nacionalistas.
A lei dos syndicatos profissionaes, os quaes (art.
o
2.º)
para gosarem de personalidade civil têm de ter
direcções
formadas por brasileiros natos ou naturalizados,
tambem é um elemento de attracção para
o operariado
dos paizes mais cultos, que nesse estatuto encontra os
conselhos, a que está habituado, de
conciliação e arbitragem
e as associações de previdencia, assistencia e
mutualidade, que lhe são indispensaveis.
VI
A IMMIGRAÇÃO PORTUGUESA
Ha porventura melhor immigrante do que o português?
Direi, sem receio de contradicta, que, para o
Brasil, é o melhor, apezar das
condições especiaes em
que tem estado a nossa patria quanto á
instrucção publica.
No Annuario de Estatistica demographo-sanitaria
de 1895, Bulhões Carvalho, aliás nem sempre justo
com a nossa colonia, reconhece que o português é o
immigrante «que tem mais inclinação
para se fixar no
paiz». É certo. Patriota até onde
póde elevar-se esse
sentimento, o português, em regra, não se
naturaliza.
Affeiçôa-se ao novo domicilio; não
elege nova patria.
Não significa o seu proceder menos estima ao Brasil,
senão mais acendrado amôr a Portugal. Para elle ha
um paiz sem egual: é o seu, que não tem defeitos,
que
é o mais intrépido e o mais feliz do mundo...
O sentimento exalta-se-lhe com a distancia. A
recordação
dos mais tenros annos amplifica a sua visão
saudosa. Mas é preciso reconhecer que, mesmo quando
revê a sua terra, a nossa, tão bella e
tão infeliz, a dôr
que lhe causa o descalabro geral não consegue arrancar-lhe
do intimo esse ardente amôr. Póde a evidencia
dos factos transformar-lhe as aspirações,
rasgar-lhe
horisontes fulgentes para o lado que antes se lhe affigurava
caliginoso.
Que importa? O seu sonho é a felicidade de Portugal.
E ou tenha visto e sentido o mal, ou tenha ficado
alheio á verdade da situação
portuguesa, permanece
português.
O seu domicilio é que já não
é Portugal. A sua
vida, em geral, adaptou-se ao meio brasileiro. Fixou-se.
A sua próle é brasileira; os costumes, que
contrahiu,
criaram-lhe segunda natureza.
O Brasil só lhe póde ser grato porque elle lhe
dá
o seu trabalho indefesso e honrado e porque os seus filhos
são brasileiros. Elle cumpre a missão do homem
que se expatria para melhorar de fortuna.
Não concordamos com a affirmação de
Bulhões Carvalho,
no Annuario referido, quanto á pretendida tendencia
dos portugueses para afastarem, dos logares em
que dominam, qualquer outro elemento estrangeiro.
Existem, é certo, nucleos de portugueses e em alguns
pontos póde um exame superficial permittir a
supposição
de que se encontram sós por haverem expellido
os outros immigrados. Não é essa a
razão do phenomeno,
que tambem se manifesta com os italianos, os
allemães e os hespanhoes. Um inquerito minucioso
demonstraria
que esses agrupamentos não se limitam ás
nações, descem ás provincias,
ás regiões e até ás villas
e aldeias. Não se comprehenderia a immigracão
espontanea,
que não é quantidade desprezivel, sem o
reencontro
de parentes, visinhos e conhecidos. Um parte
porque o outro partiu antes. Assim se congregam os
trabalhadores em todos os paizes americanos. Assim
tinha de acontecer com os nossos patricios no Brasil.
Forçoso é convir que o director geral da
Estatistica
tem razão quando affirma que «o progresso na
industria,
no commercio, nas letras e nas artes é mais
bem representado por outros povos do que pelo velho
Portugal com as suas grandiosas tradições
historicas».
Ha mistéres para todos, mesmo para os mais atrazados,
num paiz novo: os mais humildes cabem aos
menos preparados para a lucta pela vida. O accrescimo
physiologico não soffre com essa inferioridade. O que
é claro é que dahi decorre a imminente
subalternização
da nossa colonia. O aviso do distincto funccionario brasileiro
mereceria a nossa gratidão official, se acaso nas
regiões do poder se olhasse a sério para os
interesses
nacionaes. É um brado affectuoso: «Olhae para os
vossos competidores. Defendei-vos!»
Defender nos... Como havemos de nos defender,
se o regimen tem medo do
a b c ?
A miseria impelle para o mar os camponios analphabetos
e elles lá vão, heróes obscuros,
trabalhar
pela Patria! E como trabalham alegres, confiantes e
esperançados!
A America, disse um publicista italiano, é, pelo
menos, a esperança. A esperança move os que
emigram,
e emigra quem é capaz de luctar, quem se sente
disposto a não mendigar e a não morrer de fome.
É a
regra, com as naturaes excepções. Ora, sendo
assim,
os povos emigrantistas perdem energias preciosas, que
não sabem ou não podem utilizar, e que, bem ou
mal,
feliz ou infelizmente, são compensadas pelas remessas
de dinheiro e pelo consumo dos seus productos.
É o nosso caso. Lévas de emigrantes
vão para o
Brasil, onde se fixam e de onde nos auxiliam.
Convém ao Brasil o trabalhador português?
Convém,
pelas affinidades dos dois povos, e principalmente
porque, graças a essas affinidades, é o que mais
se fixa
no paiz.
Todavia o elemento emigratorio português é
insufficiente
para o povoamento do Brasil. Se constituissemos
uma grande massa humana, mesmo atrazada e de
pequena cultura, o Brasil não recorreria a outras
raças.
Não temos, porém, seis milhões de
habitantes...
A colonia portuguêsa no Brasil, cuja importancia
se nos affigura tanto maior quanto menor é o numero
dos que a compõem e acodem, ao nosso balanço
economico,
está muito áquem dos dois milhões a
que o
rei D. Carlos se referiu.
Os dados estatisticos que pudémos colher e conferir
em documentos officiaes dos dois paizes dão as seguintes
entradas de portuguêses nos annos de 1890 a 1908,
e são os de maior emigração de
Portugal:
| 1890 |
|
25.174 |
| 1891 |
|
32.349 |
| 1892 |
|
17.797 |
| 1893 |
|
28.989 |
| 1894 |
|
25.773 |
| 1895 |
|
40.390 |
| 1896 |
|
23.998 |
| 1897 |
|
17.793 |
| 1898 |
|
20.131 |
| 1899 |
|
13.348 |
| 1900 |
|
14.493 |
| 1901 |
|
14.489 |
| 1902 |
|
15.003 |
| 1903 |
|
14.527 |
| 1904 |
|
21.448 |
| 1905 |
|
24.815 |
| 1906 |
|
26.147 |
| 1907 |
|
31.483 |
| 1908 |
|
37.628 |
|
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445.775 |
Nos 19 annos de maior movimento emigratorio de
Portugal, entraram, pois, no Brasil 445.775 portugueses.
A média annual do periodo de maior
emigração
é, segundo esses algarismos, de 23.461 pessoas. Se
imaginarmos que o português vive no Brasil até a
edade de 70 annos—o que é absurdo; se suppuzermos
que a edade em que se emigra é de 11 annos—outro
exagero; se admittirmos—novo absurdo—que
nenhum português morreu desde 1850, no Brasil, nem
de lá voltou; e se, afinal, dermos de barato que ha 59
annos a média dos immigrantes nossos patricios é
alli
a dos ultimos annos (e nos 40 annos de 1850 a 1889 foi
muito menor) poderemos dizer que ha no Brasil: