59 X 23.461 =
1.384.199 portugueses.
Muito menos do que os taes dois milhões. Ora, o
retorno é de 25% a 30%; a edade média dos
emigrantes
é 28 annos; a média da vida é de 65
annos; e
em 1906, depois do saneamento, a média da mortalidade
no Brasil foi de 20,74 por mil habitantes.
Já em um artigo de imprensa
[7]
tivémos
occasião
de dizer que a média da emigração
portuguesa para
o Brasil não excede 18.000 e que o total da nossa colonia
não chega a 700.000 pessoas. Diziamos, então:
«Isto não diminue, senão que augmenta o
beneficio
feito pelos portugueses domiciliados no Brasil á economia
da sua patria, visto que são menos a mandarem
esses 18.000 contos de réis, que são, segundo o
sr.
Anselmo de Andrade, a nossa salvação, o
«dinheiro
que melhor nos serve para saldar a parte do deficit
geral em ouro que o dinheiro das outras proveniencias
deixa a descoberto».
E depois de analysar as avultadas remessas que os
colonos de todas as origens fazem, concluiamos:
«É evidente que esta
situação economica é transitoria.
Um paiz em formação, como o Brasil, cujo
povoamento
se está fazendo com intensas correntes immigratorias,
tem de pensar em impedir este escoamento
de ouro, que lhe sangra constantemente as energias.
Quer por instituições legaes tendentes a
nacionalizar
os estrangeiros, quer por medidas que fixem o colono
á terra tornada sua, quer finalmente por providencias
de franca defesa, esse é o caminho de todos os povos
para cujo rapido crescimento é aproveitado o excesso
de população ou de pobreza de outros
paizes».
VII
A PERMUTA COMMERCIAL
A unica razão sólida que hoje determina os
tratados
de commercio e, portanto, os favores que as
nações fazem umas ás outras,
é a capacidade que
ellas offerecem para o consumo reciproco de
producções.
Estamos longe dos tempos em que não se
realizavam estes pactos por motivos utilitarios, mas
por méras combinações derivadas de
relações dynasticas.
Nos nossos dias prevalece a reciprocidade, tanto
quanto tal criterio póde ser adoptado para
populações
deseguaes, de habitos differentes e de producções
em
parte similares ou identicas, e tanto quanto o permittem
as distancias entre os concorrentes, distancias que
influem no custo dos transportes e, em ultima analyse,
no dos artigos.
Fala-se de ha muito e a proposta apresentada á
Sociedade de Geographia agora insiste na necessidade
de um tratado de commercio com o Brasil. Não querendo
entrar em conjecturas, parece-nos que essa
aspiração
exige minucioso estudo, antes do julgamento
das difficuldades oppostas até aqui á sua
realização.
Apesar de tudo quanto dizem os politicos de
soluções
retumbantes,
a nossa
producção gosa de
tratamento
amistoso no Brasil. Ha annos, quando o sr.
Campos Salles foi presidente da Republica, o ministro
das relações exteriores ia enveredando por um
caminho
que, sem fundamentos consistentes, tendia á exigencia
de fortes augmentos de consumo.
Era impossivel tal coisa; e logo se adoptou
orientação
mais logica, deixando o Brasil, que consumia
bastante do Uruguay e de Portugal e pouco lhes vendia,
de pensar em levar a exportação dos seus artigos
para esses paizes a proporções compensadoras,
reconhecendo
que os seus generos exportaveis eram de
natureza impropria a operar esse equilibrio.
O que os factos nos dizem é que o brasileiro, de
origem lusa ou exotica, tem o habito de consumir os
productos da nossa terra. Esses productos possuem,
por isso uma situação realmente privilegiada no
mercado
brasileiro. Tanto basta para que, na competencia
com os outros povos, tenhamos—como temos, de facto—vantagens
indiscutiveis.
A actual situação da permuta commercial entre os
dois paizes deixa muito a desejar. O Brasil podia importar
muito maior volume de productos portugueses
e Portugal podia consumir mais productos brasileiros
e preparar-se para vir a ser cliente muito maior ainda
da nação irman.
No anno de 1906, ultimo de que temos dados officiaes
para confrontar com os do Brasil (de onde ja possuimos
os de 1907 e 1908) os principaes artigos de lá
exportados foram:
Algodão, 31.668 toneladas; areias monaziticas 4.352
tonel.; assucar, 84.948 tonel.; borracha, 31.643 tonel.;
café, 13.965.000 saccas
[8];
cacáo, 25.135 tonel.;
farinha
de mandioca, 6.644 tonel.; tabaco, 23.630 tonel.; herva
matte, 57.796 tonel.; manganez, 121.331 tonel.; caroços
(oleaginosos) 30.904 tonel.; couros, 32.765 tonel.;
ouro nativo, 4.548 kilogrammas.
O nosso consumo de artigos brasileiros cresceu de
244.549 libras esterlinas a 312.755 ou 27,89%, de 1901
para 1906; mas o consumo dos nossos no Brasil cresceu
mais intensamente: cresceu 34%, ao que se vê do
relatorio das finanças relativo a 1907.
Não se póde, portanto, gritar que o trafico
luso-brasileiro
decáe: médra e de maneira sensivel.
Ora, querendo nós, como se diz todos os dias, melhorar
essas relações por um convenio commercial com
o Brasil, e, não sendo licito, hoje, negociar taes
instrumentos
diplomaticos sem clara noção das reciprocas
concessões, occorre naturalmente investigar o que podemos
offerecer e o que pedimos, o que o Brasil nos
offereceria e o que desejaria.
Visto que a iniciativa nos pertence, vejamos o que
podemos offerecer e o que queremos conseguir.
Analysemos a producção brasileira exportavel
neste
momento: compõe-se dos artigos que acima
mencionámos
com as quantidades respectivas. Olhemos para a
nossa estatistica de 1906.
1.º
Algodão.
Importámos n'esse anno 13.013 toneladas,
no valor de 3.123 contos, de algodão em rama
ou em caroço. Tendo industria de algodão, e
industria
protegida pela tarifa, só poderiamos importar do Brasil
a materia prima, a rama. O Brasil não está em
condições
de exportar fios e tecidos de algodão visto que
ainda os importa. Da sua materia prima, 85% tem
mercado na Inglaterra. Os 15% restantes destinam-se
a outros paizes manufactureiros. A sua producção
póde
crescer muito; mas poderemos nós adquirir quantidade
sensivel desse accrescimo? Eis o que convém saber.
Note-se que, em 1906, os 15% do algodão não
collocado
na Inglaterra montavam em 4.752 toneladas, das
quaes Portugal importava 4.717—quasi o total dos
15%.
As nossas colonias começam a cultivar o algodão.
Em 1906 recebemos: de Angola, 55.493 kilos; de Moçambique,
1.491 e da India, 2.600.
2.º
Areias monaziticas. Os
seus mercados serão,
por muitos annos, a Gran-Bretanha e a Allemanha.
3.º
Assucar. Temol-o das
colonias. Consumimos,
em globo, 32.700 toneladas. O assucar colonial tem
auxilio pautal. Em 1906 recebemos das colonias quantidade
insignificante; mas o desenvolvimento da lavoura
da canna nas colonias, em especial na de Moçambique,
é consideravel. Nesse anno, do Brasil recebemos 159
toneladas. Para a exportação brasileira, que
tende a
crescer muito, o nosso mercado seria bom. Este genero,
apezar da producção colonial, póde
entrar nas bases
de uma negociação intelligente, não
para escorraçar
de golpe os demais fornecedores, mas para ir modificando
a situação das permutas no sentido de garantir
parte do nosso mercado ao Brasil.
4.º
Borracha. O nosso
consumo não é em bruto e
é pequeno. A producção colonial tende
a avolumar-se,
em especial a de Angola e Guiné.
5.º
Café. O
consumo português em 1906 não chegou
a 3.103 toneladas, sendo do Brasil quasi 460 toneladas.
Das colonias exportaram-se, para outros paízes,
4.177 toneladas, que, com 2.388, consumidas no
reino, representam uma producção colonial
superior ao
dobro do consumo.
Portugal é um dos paízes de menor consumo de
café,
per capita. Tendo
menos de seis milhões de habitantes,
pode dizer-se que cada português não consome
mais do que meio kilo de café por anno. Se o consumo
subisse ao dobro, o café colonial sobraria ainda.
Na Allemanha o consumo é de 3 kilos por habitante.
[9]
6.º
Cacau. A nossa
producção, em 1906, de vinte
e cinco mil toneladas, foi egual á do Brasil. O nosso
consumo orçou por 145 toneladas, das quaes só uma
procedia do Brasil.
7.º
Farinha de pau.
Importámos, em 1906, para
consumo quasi 1.364 toneladas, não chegando a uma
tonelada a parte proveniente de fóra do Brasil. É
consideravel,
mesmo para a exportação desse paíz.
8.º
Tabaco. O consumo
é importante. Está naturalmente
indicado para a exportação brasileira o nosso
mercado. Aqui está um artigo em que poderiamos
offerecer vantagens ao Brasil, que, directamente pelo
menos, nos fornece pouco, sob o actual regimen de
exclusivo.
9.º
Herva matte. Consumo
inaprehensivel, mas que
se podia criar, substituindo parte do chá, que entrou
no paiz por um valor de 315 contos no anno de 1906.
10.º
Manganez. O seu
mercado é a Inglaterra.
11.º
Caroços
(oleaginosos). Consumimos 20.812
toneladas, das quaes perto de 11.000 são das colonias.
Devia se encaminhar a exportação brasileira para
Portugal,
onde ella foi representada, em 1906, por 11 toneladas.
12.º
Couros. O Brasil
está batendo, em Portugal,
os mais concorrentes; sobre 2.371 toneladas de pelles
diversas que importámos, em 1906, pertenciam-lhe
1.040.
13.º
Ouro nativo.
É insignificantissima a entrada.
A exportação brasileira é para a
Inglaterra.
Além destes artigos exporta o Brasil muitos outros
em menor escala. Desses, diremos quaes podem ser
dirigidos, após as negociações
precisas, para Portugal,
enumerando-as pela nossa pauta:
Fibras texteis; fructas; canhamo em rama; madeira
em bruto (genero em que o Brasil podia e devia quasi
monopolizar o nosso mercado); madeira das diversas
categorias da pauta; paus, raizes e cascas córantes;
milho (cuja producção cresce espantosamente no
Brasil);
amido em pó; especiarias; melaço; mariscos;
carne secca e em conserva—além de outros que dentro
em pouco tempo o Brasil poderá exportar, como o arroz.
Offerecemos pouco? Não se nos affigura que o Brasil
pense em obter de um paiz com a nossa população
o que seria licito esperar de vinte milhões de habitantes.
É certo que o Brasil nos compra muito. Em 1906
o vinho entrado no Brasil representou 1.628:854 libras
esterlinas: a metade dessa quantia coube ao nosso paiz.
É consideravel, sem duvida. O Brasil nesse anno consumiu,
da nossa exportação global de 908.492
hectolitros,
435.652—quasi metade! A população portuguesa,
se todo o seu mercado pertencesse ao café brasileiro,
não representaria mais do que 60.000 saccas de
consumo, e se este subisse ao triplo, não chegaria a
200.000 saccas, quantidade que não pesaria sobre uma
exportação que anda por 13 milhões de
saccas...
Exigir de Portugal, com menos de seis milhões de
habitantes, compensações que só com
dezoito ou vinte
milhões poderia dar, fôra absurdo. Não
ha que receiar
que o Brasil pense em semelhante coisa. O grande perigo
reside na perda da nossa clientella pela concorrencia
dos outros productores de generos similares, pela
falta de perfeição do preparo e do
acondicionamento
dos nossos e pela inefficacia da nossa
organização mercantil.
A esse risco acudiriam algumas das idéas lembradas
pelo sr. Consiglieri Pedroso, na sua proposta e,
dentre ellas, citaremos as constantes das
alineas 1.ª,
4.ª, 6.ª e 9.ª.
[10]
Quanto ao conselho da
alinea
3.ª discordamos delle
por completo. Porque entendemos que o tratado de
commercio, ou como se lhe queira chamar, não
póde,
em hypothese alguma, dar-nos «vantagens especiaes
que não sejam attingidas pela clausula de
nação mais
favorecida» concedida pelo Brasil a outros paizes. Sem
poder citar os accordos que o Brasil tem, julgamos,
todavia, manifesto que, se os tem com concorrentes
nossos, não seria possivel collocar esses competidores
de Portugal em tamanha inferioridade. Por quê? Pela
razão singela de que
business is
business e elles são
maiores compradores dos generos brasileiros do que
Portugal...
Não se leve á conta de mau patriotismo esta
franqueza.
Julgamos que não faremos coisa alguma neste
terreno se procurarmos favores especiaes, que ponham
em perigo interesses collossaes do Brasil...
Cumpre estudar o problema, nos seus termos de
puro negocio e não esquecer que a nossa vantagem,
aquella que nenhum outro povo póde ter, é
só isto: o
Brasil prefere os nossos productos, como qualquer
pessôa vae á loja de um negociante, porque o
estima
mais do que aos seus concorrentes.
VIII
A SITUAÇÃO REAL
O Brasil é o melhor dos grandes freguezes da nossa
producção exportavel.
Em 1906, ao passo que para a Inglaterra exportavamos
11.440 contos, para a Allemanha 6.651 e para
a Hespanha 6.290, mandavamos para o Brasil 5.961
contos.
Mas, em compensação destas vendas, compravamos
ao Brasil só 1.965 contos que, com os generos em
transito, baldeação e
reexportação, ascendiam a 2.025
contos; e dos outros paizes recebiamos, em contos de
réis:
| Inglaterra |
|
19.864 |
| Allemanha |
|
11.173 |
| Hespanha |
|
5.948 |
Da França importámos 6.836 contos contra uma
exportação de 1.299, e dos Estados-Unidos 4.960
contos
contra 974 de exportação.
O Brasil foi, pois, então, o que sempre tem sido, o
nosso melhor freguez. Ao crescimento do commercio
universal com o Brasil é que não corresponde a
nossa
exportação actual.
Do relatorio do sr. David Campista, ministro da
fazenda do Brasil
[11],
em 1907, resulta que de 1902
para 1906 a importação proveniente de Portugal
cresceu
34,9%, contra o augmento, em egual periodo, de:
35,6% para a do Chile; 41,8% para a da Gran-Bretanha;
45,6% para a da Hespanha; 49,5% para a da
França; 68,4% para a da Argentina; 83% para a da
Allemanha; 86,5% para a da Suissa; e 132,5% para
a da Belgica.
Os valores livres no Brasil, em mil réis, ouro,
moeda brasileira, dão, no anno de 1906, os algarismos
seguintes para essa importação:
| Procedencias |
|
Importação
em
contos de
réis
|
| Portugal |
|
19.330 |
| Chile |
|
393 |
| Gran-Bretanha |
|
82.619 |
| Hespanha |
|
2.379 |
| França |
|
27.176 |
| Argentina |
|
31.190 |
| Allemanha |
|
43.316 |
| Suissa |
|
2.660 |
| Belgica |
|
11.432 |
| Italia |
|
9.274 |
Bastaria este quadro para não acreditarmos que os
outros paizes emigrantistas nos deslocaram, no fornecimento
de artigos similares aos nossos. A Italia, que é
a maxima fonte da colonização brasileira actual,
teve,
de 1902 a 1906, um augmento de 28,4% na sua
exportação
para o Brasil. E quanto exportou? 9.274 contos,
em 1906—metade do que exportámos!
A Hespanha, que fornece tambem muitos trabalhadores,
tem uma exportação ainda insignificante para o
Brasil.
Da Austria-Hungria, que viu, de 1902 a 1906, crescer
19,3% a sua exportação para o Brasil, de 4.556
contos de valor, a corrente emigratoria com o mesmo
destino egualmente é importante.
Dessas nações só podemos considerar
concorrentes,
por terem varios artigos similares aos nossos, a
França, a Hespanha, a Italia e a Austria-Hungria.
Ora, que nos diz o estatistica brasileira? Diz-nos
que, em 1906, a exportação, para o nosso e para
esses
paizes, foi:
| Destino |
Valor
em
£ |
|
Augmento
ou
diminuição de 1901
para 1906 |
| França |
6.507.470 |
+ |
36,66% |
| Hespanha |
196.839 |
+ |
217,61% |
| Italia |
510.118 |
+ |
34,90% |
| Austria-Hungria |
1.821.959 |
+ |
60,58% |
| Portugal |
312.755 |
+ |
27,89% |
Isto quer dizer que, de todos esses paizes, aquelle
que manifesta menos tendencias para augmentar o consumo
dos productos brasileiros é o nosso. Falam os
numeros, affirma-o a estatistica, que, como diz o professor
Rodolfo Benini, é o unico meio de verificar nos
phenomenos collectivos o que ha de typico na variedade
dos casos, de constante na variabilidade, de mais
provavel no apparente acaso, e de decompôr, até
onde
o methodo o permitte, o systema das causas ou forças
de que taes phenomenos são resultantes...
[12].
Não ha que negar a conclusão: a estatistica
é o
unico processo logico de estudo dos phenomenos sociaes,
pondéra Rameri.
[13]
O Brasil está, portanto, deante de varios paizes,
como productor que precisa de escoadouros para os
seus artigos. O que tem de medir, não nos illudamos
com devaneios romanticos, é a capacidade acquisitiva,
que ha nesses paizes, para os seus productos. Porque
produzir presuppõe a idéa de vender. Porque
vender
implica a existencia de quem compre...
O utilitarismo não é uma doutrina, no sentido
philosophico
da palavra. É uma necessidade, é uma
imposição
da lucta pela vida. Para não morrer é preciso
a qualquer povo guiar-se por necessidades uteis,
nunca deixar de ter em vista os seus interesses e conveniencias.
O utilitarismo é o systema que a experiencia
aconselha aos povos, que querem viver nesta hora
da evolução humana, para as suas
relações com os
outros povos.
Deinde philosophari... Sejamos
francos. Concordemos
em que não nos move o receio da
desnacionalização
do Brasil, que não nos ameaça porque
não
ameaça o Brasil; mas sim o presentimento de que as
relações economicas desse grande mercado
estão evolvendo
de modo que nos poderá vir a ser desvantajoso.
Tratemos, em summa, de nos salvar e deixemo-nos
de fantasias salvadoras em beneficio alheio.
Deante do crescimento espantoso das energias do
povo brasileiro, o nosso mal é a
estagnação em todas
as fórmas da actividade humana. Só o poder enorme
dos elementos estaticos das sociedades e a resistencia
da inercia social explicam a posição que ainda
temos
no commercio do Brasil. Nós, pelos nossos governos
e pela nossa imprevidencia, graças á autophagia
historica que permitte que nos alimentemos de
glorias de um passado visto por nós ao bruxolear da
mais pallida lamparina critica de que ha exemplo, e
graças ao espirito providencialista de latinos communarios,
tudo fizémos, ou deixámos de fazer, para perder
essa posição.
Neste momento, o que nos cumpre é reconhecer o
feliz conjuncto de circumstancias de vária ordem que
ainda sustenta esse estado de coisas e aproveital-o,
com energias, que hão de ser creadas, com intelligencia,
que precisa ser educada, e com bom-senso, que
unicamente os factos pódem nortear.
Aspirar a grandezas e prosperidades e preparal-as
com elementos de ruina e pobreza é simples e puramente
um absurdo, de que deveriamos esperar, como
resultado, o suicidio nacional.
Ser patriota não é rufar tambores de preconicio
em
torno dos desvarios da patria. É, antes, mostrar, sem
medo de affrontar alheias opiniões e sem intuitos de
captar popularidade, os vicios e erros proprios, para
que tenham, na medida do possivel, remedios efficazes.
Nenhum povo se deixa levar por boas palavras, mas
pelas suas conveniencias e pelos seus interesses, com
a restricção natural do respeito pelas
conveniencias e
interesses justos dos outros.
A perda do mercado brasileiro seria, hoje, para
Portugal, a ruina. Confessemol-o. Por que não, se
é a
verdade? Ruina definitiva? Não vem a pello discutir se
o seria. Basta que saibamos que seria, neste momento,
a ruina, para que o nosso dever seja evitar essa contingencia
aterradora.
Embora tenhamos de nos preparar para um futuro
menos dependente de uma só nação,
é de crêr que
o Brasil continuará a representar, para o nosso commercio
externo, cifras pelo menos eguaes ás presentes.
No seu progresso e na sua expansão economica e
demographica, cabe bem á vontade a diminuta quota
com que contribuimos. E ha muito logar para a augmentarmos.
Assim saibamos e possamos fazel-o!
Outro não é o perigo real, o perigo das coisas,
está
claro...
IX
A NOSSA RAÇA «AT WORK»
Permitta-se-nos, para a comprehensão exacta, da
importancia que o Brasil vae assumindo deante de todos
os povos e do português em especial, uma rapida
analyse do seu desenvolvimento material, que explica
assás a unanimidade de attenções de
que é objecto.
A exportação do Brasil em 1889, anno em que caiu
o imperio, foi de 24.160.000 libras esterlinas. Vejamos
o que ella foi de 1901 a 1906.
| Annos |
|
Valores
em libras |
| 1901 |
|
40.621.993 |
| 1902 |
|
36.437.456 |
| 1903 |
|
36.883.175 |
| 1904 |
|
39.430.136 |
| 1905 |
|
44.643.113 |
| 1906 |
|
53.059.480 |
Para avaliar a força de expansão productora dada
ás
antigas provincias pela autonomia concedida pelo novo
regimen federativo aos seus estados, basta que comparemos
a exportação de 1901 com a de 1906. A
differença,
n'esse curto espaço, é de pasmar. Vejamol-a:
| Estados |
Valores
em
£ |
|
Augmento
ou
diminuição |
|
1901 |
1906 |
|
|
| Matto
Grosso |
356.180 |
376.023 |
+ |
5,57% |
| Amazonas |
4.688.477 |
6.643.050 |
+ |
41,69% |
| Pará |
4.053.264 |
6.665.191 |
+ |
64,44% |
| Maranhão e
Piauhy |
192.604 |
652.485 |
+ |
238,77% |
| Ceará |
139.595 |
822.586 |
+ |
489,27% |
| Rio Grande do
Norte |
34.376 |
58.342 |
+ |
69,72% |
| Parahyba |
92.561 |
540.535 |
+ |
483,98% |
| Pernambuco |
1.472.105 |
1.333.127 |
- |
9,44% |
| Alagoas |
489.820 |
514.095 |
+ |
4,96% |
| Sergipe |
|
8.849 |
|
|
| Bahia |
3.133.103 |
3.706.617 |
+ |
18,30% |
| Espirito
Santo |
553.195 |
784.726 |
+ |
41,85% |
| Rio de Janeiro e Minas |
7.857.423 |
7.481.159 |
- |
4,79% |
| S.Paulo |
16.140.742 |
20.282.593 |
+ |
25,66% |
| Paraná |
653.039 |
1.310.832 |
+ |
100,73% |
| Santa
Catharina |
145.264 |
315.522 |
+ |
117,21% |
| Rio Grande do
Sul |
620.247 |
1.563.748 |
+ |
152,12% |
Só diminuiu a exportação de dois
estados: Rio de
Janeiro e Pernambuco. É devido este facto á baixa
de
um dos seus principaes artigos, o assucar, que de 71
réis, ouro, em 1901, passou a vender-se a 60
réis, em
1906, por kilo. Apezar desta depreciação ser de
15,59%, a diminuição representou, para
Pernambuco,
9,44%, e, para o Rio de Janeiro, 4,79%, o que indica
que houve augmento na exportação global.
Nesse periodo a importação, que significa a
acquisição
de conforto e de instrumentos de progresso, tambem
teve sensivel marcha ascendente.
Não houve estado em que a importação
diminuisse
de 1901 para 1906. Cresceu 31,9% na Bahia; 33,1%
em Pernambuco; 32,6% no Rio de Janeiro e Minas
Geraes; 42,3% em S. Paulo; e 55,9% no Rio Grande
do Sul—para citar sómente os mais importantes da
região central e da do sul.
Em globo, a importação cifra-se nos seguintes
valores
em libras esterlinas:
| 1901 |
|
21.377.270 |
| 1902 |
|
23.279.418 |
| 1903 |
|
24.207.810 |
| 1904 |
|
25.918.428 |
| 1905 |
|
29.830.050 |
| 1906 |
|
33.204.041 |
Estes algarismos contêm uma relevante
indicação e
vem a ser que as facilidades de vida augmentaram,
porque, não tendo havido, de 1901 a 1906, nem sequer
dez por cento de crescimento na população, houve
augmento
de mais de 50% na acquisição de artigos
estrangeiros.
O que, porém, demonstra mais clara e elequentemente
essa affirmação é a
importação de farinha de
trigo. É o que garante e prova que a vida melhora no
Brasil.
Com effeito, em 1901, a importação do trigo—que
é o classico pão!—era de 200.000 toneladas, e em
1906
foi de 320.000!
Um augmento de 60%, em seis annos! A população,
nesse periodo, não podia ter accrescimo que nem
de longe influisse nesse facto. A quota,
per
capita, de
trigo é que augmentou; o numero
dos que o
podem comer
é que passou a ser maior...
Fala-se muito na má administração de
Republica,
nos seus primeiros annos. Não a negaremos. O mecanismo
era novo e as experiencias foram duras. Houve
deficits; precisou-se de recorrer ao
credito, até quasi
ser fechada essa porta. Mas, com patriotica energia,
souberam os governos emendar a mão e iniciar obras
fecundas, apparelhar, emfim, o paiz para a prosperidade.
Erraram; mas resgataram os seus erros. Outros
ha que só erram e só querem errar...
Os orçamentos do imperio
[14]
tiveram
deficits desde
1857, ininterruptamente. Antes, houvéra alguns saldos,
que sommados, desde a independencia até 15 de novembro
de 1889, perfazem 32:625 contos, contra um
total de 891.960 contos de
deficits,
tambem de 1823 a
1889.
Os
deficits de alguns annos da
Republica não são
de estranhar, não só porque os tivesse o imperio,
mas
tambem porque o desenvolvimento do paiz e a crise
politica, motivada pelas tentativas de destruição
do regimen
popular, impuzeram pesados sacrificios á
nação.
A Republica, creando producção, fomentando
riquezas,
assentando linhas ferreas de penetração, fazendo
portos e saneando o Brasil—soube, porém,
realizar o que o imperio não soubéra, soube armar
o
povo brasileiro com meios seguros de pagar os seus
saques sobre o futuro.
É interessante a nota da receita e da despeza dos
annos de 1899 a 1907, expressa em contos de réis, ao
cambio de 15 dinheiros por mil réis:
| Anno |
|
Receita |
Despeza |
| 1899 |
|
333.105 |
295.363 |
| 1900 |
|
353.607 |
448.160 |
| 1901 |
|
318.559 |
334.513 |
| 1902 |
|
343.814 |
298.691 |
| 1903 |
|
408.589 |
378.187 |
| 1904 |
|
433.802 |
439.553 |
| 1905 |
|
463.765 |
451.977 |
| 1906 |
|
495.910 |
483.568 |
| 1907 |
|
483.744 |
472.478 |
Em 1889 a despeza não chegava a 200.000 contos,
e o
deficit era pequeno.
As despezas publicas subiram consideravelmente;
mas as receitas tambem subiram. Das visinhanças dos
200.000 contos em 1889 foram ás dos 500.000 em 1906.
E note-se que a Constituição republicana conferiu
aos
estados da federação os impostos de
exportação, os
impostos sobre os immoveis ruraes e urbanos, sobre a
transmissão de propriedade e sobre industrias e
profissões,
ficando a União nacional unicamente com os
direitos de importação e os impostos de consumo.
O balanço economico de 1906 é assim formulado
pelo ex-ministro Campista, no seu relatorio de 1907:
Activo
| Exportação |
|
£ 53.000.000 |
| Capital
novo |
|
4.000.000 |
|
|
|
|
|
£ 57.000.000 |
Passivo
| Importação |
|
£ 33.600.000 |
| Despezas do governo
federal |
|
5.600.000 |
| Serviço das dividas dos
Estados e
municipios |
|
1.231.940 |
| Juros de capitaes
estrangeiros |
|
3.200.000 |
| Passageiros para o
exterior |
|
600.000 |
|
|
|
|
|
44.231.940 |
|
Saldo |
£
12.768.060 |
|
|
|
|
|
57.000.000 |
É uma situação de prosperidade. Na
propria America,
só os Estados Unidos do Norte têm melhor
situação,
apezar da Argentina ser muito mais rica do que o
Brasil, dadas as respectivas populações e
producções.
A Argentina, em 1906, exportou £ 58.000.000, mas
importou £ 53.565.000. O serviço dos juros do
capital
estrangeiro é lá muito maior do que no Brasil. E,
nesse
anno, o seu balanço economico não podia
apresentar
saldo.
Força é, porém, reconhecer a
incomparavel riqueza
da Argentina, que possue a terça parte da
população
do Brasil, se não menos, e cuja
producção cresce em saltos
prodigiosos.
Com os Estados Unidos não ha parallelo possivel.
Em 1906, importavam 271 milhões esterlinos e exportavam
369 milhões.
O Canadá, com uma exportação de
£ 45.791.000,
importava 54.000.000.
Cuba exportou £ 22.638.000 e importou 19.482.000.
O Mexico exportou £ 24.724.009, e importou
17.997.000.
O Chile offerece-nos, para essas duas parcellas
do seu commercio, respectivamente, £ 16.200.000 e
11.787.000.
O Brasil figura nesse anno com £ 53.059.480 exportadas
e 33.204.041 importadas—quasi vinte milhões
de saldo a seu favor nas permutas internacionaes de
mercadorias!
Estará, porém, esta
situação prejudicada pelas
condições
financeiras do Brasil? Longe disso.
Em 1906, a divida interna e externa do Brasil—incluindo
a divida estadoal e a emissão de papel moeda,
era de £ 195.581.677 ou £ 10-3-10
per capita.
A capitação do norte-americano era de £
5-9-3; a
do japonês de £ 6; a do egypcio de £
9-17-2; a do canadense
de £ 9-7-4.
Quasi todos os outros paizes devem mais
per
capita.
A Argentina figura com o coefficente de £ 14-2-4;
a Hespanha com o de £ 13-2-6 e o nosso Portugal,
como compete ao seu desgoverno, inverte os algarismos
da nação visinha e estadeia a
capitação de £ 31-18-6.
Bem sabemos que outros paizes supportam coefficientes
mais altos do que Portugal. Não na Europa,
em todo o caso... O prussiano contenta-se com £ 12-8-3;
o inglês com £ 18-1-6; o italiano com £
15-7-10; o austriaco
com £ 14-11-1; o francês com £ 27-19-9; o
hollandês
com £ 17-6-4; o belga com £ 17-16-8.
O Brasil, paiz que progride e inicia melhoramentos,
que se povoa e coloniza, está, como a Argentina, em
outras condições: saca sobre o futuro, porque o
tem
nos braços que acodem todos os dias ás suas
plagas.
Nós estagnámos. Elles recebem vida nova com o
advento dos immigrantes; nós golfamos vida na
emigração.
O mal está principalmente na
applicação da divida,
não na pequenez da população.
Vêde as colonias britanicas da Austrália:
população,
5 milhões de habitantes; divida, £ 292.401.351,
em 1906, devendo hoje estar em 300 milhões esterlinos!
O coefficiente de capitação é de 60
£, numeros redondos.
Mas que importa, se 200 milhões foram empregados
em caminhos de ferro, obras de portos, resgate
de serviços publicos—e se, em tudo isso, as rendas
supportam o serviço de juros e
amortização do capital!
Mas... estavamos a tratar do Brasil.
Os onus do Brasil são annualmente, para resgate e
juros da divida, 82.000 e tantos contos—20% da receita.
Outros paizes—um dos quaes muito bem conhecemos—fazem
o serviço da divida com quasi 50%
da receita...
Portugal pagaria a sua divida com o producto integral
de 13 annos da sua receita.
O Brasil faria o mesmo serviço em 6 annos.
Tal é, em linhas largas, o estado do paiz, que saiu
do nosso e que hoje é o principal mercado da nossa
producção e o nosso melhor fornecedor de
numerario.
X.
MEDIDAS PROPOSTAS
Não é de estranhar que o desenvolvimento da
nação
brasileira motive excogitações patrioticas de
alguns
portugueses.
Ha um século vivia a então nossa colonia
americana
numa inferioridade manifesta de cultura.
Escreveu Eduardo Prado que «a intelligencia nacional
do Brasil,» no começo do reinado de D. Pedro II,
era talvez inferior á de Portugal no começo do
século...»
[15]
Entretanto—o espirito partidario não nos céga—o
reinado desse imperador contribuiu para o progresso
intellectual e material do Brasil.
E tanto assim é que o novo regimen poude adoptar
uma constituição que, no dizer do professor de
direito
Almeida Nogueira
[16],
«compendiou em suas paginas
os principios mais adeantados do direito publico moderno»
e poude fomentar, nas proporções que vimos,
os recursos do paiz.
Essa nação, que assim prosperou, pertenceu a
Portugal,
foi obra de portugueses na civilização e no
povoamento;
e, durante um largo transcurso de annos,
constituiu para o nosso povo uma especie de
eldorado,
em que era tão facil grangear a vida que, apezar de
todo o nosso atrazo, se nos affigurava terra mal empregada
em mãos de possuidores a nosso vêr indolentes
e sem energias redemptoras.
Foi desse juizo falso, a que nos guindára a ignorancia
presumida, que caímos ao fundo da realidade.
Era a humilhação. Se tivérmos
patriotismo ha de
se converter em grande estimulo—porque é uma
lição
de coisas...
Á nossa ruina contrapõe-se a prosperidade da
ex-colonia?
Imitemol-a. Á estagnação das nossas
forças
responde o Brasil com provas de actividade? Trabalhemos,
com o cerebro e com os musculos, sejamos
fortes de intelligencia e de vontade. É o nosso dever.
A economia portuguesa depende do estrangeiro. Estamos
roidos de todos os males de uma politica desleixada,
egoistica e corruptora. Falta-nos o necessario ao
abastecimento do paiz. Produzimos artigos para que
não encontramos bastantes mercados e procuramos
mercados para que não temos artigos adequados.
É a anarchia, de alto a baixo.
Mas não é a ruina definitiva, porque queremos
viver
e é indispensavel que não nos deixemos morrer
miseravelmente.
O Brasil é, como dizia Silvéla dos povos
hispano-americanos
para a sua patria, o nosso mercado natural.
O futuro do Brasil é immenso. Toda a nossa
expansão economica póde e deve acompanhar o
crescimento
fatal desse enorme paiz.
Todavia, para que isso se realize, é preciso que
Portugal saiba o que é possivel fazer e deixe de lado
chiméras e utopías.
Que queremos, em ultima analyse? Queremos que
o Brasil continue a comprar os productos da nossa
terra; queremos que a nossa exportação para
lá cresça
sempre; queremos que os generos portugueses sejam
bem acolhidos pelo consumidor brasileiro.
Sob o ponto de vista material—é quanto desejamos.
Moralmente aspiramos á mais perfeita intelligencia
com os brasileiros.
Ignora-se em Portugal o que se havia de offerecer
ao Brasil no dia em que porventura se iniciassem
negociações
garantidoras dos nossos
desiderata.
Quem procura vantagens tem de contar com esta
pergunta natural: «E que compensação
nos dá?»
Ora, na proposta do sr. Consiglieri Pedroso, nada,
absolutamente nada, existe que possa equivaler á troca
de concessões, á permuta de vantagens.
Bem sabemos que, muitas vezes, as negociações
commerciaes assentam, por uma parte, em favores
materiaes e, por outra, em apoio diplomatico e até de
caracter militar; mas, na hypothese vertente, parece
mais facil darmos favores da primeira especie do que
da segunda.
O Brasil, na proposta Consiglieri, não encontra
bases de reciprocidade commercial. Nem é crivel que
a procure. Não lha poderiamos dar, devido á
identidade
que ha entre muitas das suas producções e as
das nossas colonias.
Approximação, sim! Amemo-nos;
conheçamo-nos;
abramos as nossas fronteiras intellectuaes uns aos outros;
firmemos tratados de arbitragem e de reconhecimento
de titulos de habilitação profissional;
promovamos
congressos periodicos luso-brasileiros; fundemos
uma linha nossa, luso-brasileira, de navegação;
construamos palacios de exposição dos productos
de
cada um dos dois paizes no outro; promovamos a
fundação
de revistas, o estreitamento dos laços que prendem
a imprensa de um á do outro paiz; entendam-se
as nossas sociedades scientificas, artisticas, etc.; visitemo-nos;
enlacemo-nos fraternalmente.
Quanto a negocios, porém, meditemos, porque o
Brasil não os faz sem meditar. E é bom que se
saiba
que, se o sr. Wenceslau de Lima tem visto baldados
todos os seus esforços no sentido da
realização de um
tratado de commercio com o Brasil, não é porque
esse
paiz nos hostilize, mas sim porque não tem reconhecido
a conveniencia, nem a utilidade desse tratado.
Conveniencia para os seus interesses, utilidade para
os seus interesses—é claro.
Não procurou ainda o Brasil accordo comnosco.
Mas procurou-o, por exemplo, com os Estados Unidos—mercado
de café e de borracha e seu fornecedor de
muitos artigos, entre os quaes figura o trigo.
Portugal é que deseja o tratado de commercio.
Portugal é que precisa garantir o seu mercado no Brasil,
como o Brasil precisava assegurar a clientella
yankee.
Negocios tratam-se como negocios. O vendedor é
que se esforça por trazer o consumidor satisfeito...
Esta é a verdade. De nada serve disfarçar os
factos.
O tratado de commercio é irrealizavel?
Não iremos até lá. A diplomacia
consegue, ás vezes,
coisas espectaculosas, mas sem real alcance.
Far-se-á, talvez, o tratado de commercio; mas, em
hypothese alguma, o Brasil nos concederá
«vantagens
especiaes que deixem de ser transmittidas aos outros
estados, não sendo, portanto, attingidas pela clausula
de nação mais favorecida inscripta nos tratados
do
Brasil com paizes estrangeiros».
E o café? E a borracha? E o tabaco? E o cacau?
E toda a producção brasileira, no valor de 57
milhões
de libras?
Lembremo-nos de que não consumimos meio milhão
esterlino de productos brasileiros... Ponderemos
as represalias alfandegarias a que o Brasil se exporia...
Amemo-nos; mas convém ter bom senso. Estreitemos
relações; mas é prudente que nos
não limitemos
ao sonho.
Tambem se fala de entrepostos, do Brasil em
Portugal e de Portugal no Brasil—aquelle destinado
á exportação brasileira para a Europa
e este destinado
á portuguesa para a America...
É uma ideia velha. Velha e tão velha que
já não
se adapta ás condições presentes do
commercio internacional.
Não se deu por isso em Portugal. É tudo assim na
nossa terra. Andamos tão atrás dos outros povos
que,
quando as idéas nos chegam, já têm
saido da circulação.
Chegamos sempre tarde, como os carabineiros da
opereta.
O entreposto!
Ha trinta annos falou-se nisso; ha vinte, voltou-se
a lembrar essa maravilha; ha dez, resurgia a idéa novinha
em folha. Terá de apparecer, além desta vez de
1909, ainda algumas duzias de vezes e sempre terá—quem
sabe?—enthusiasticos applausos...
O entreposto! Ficava realmente muito bem, alli,
em Cacilhas! Os navios atulhados da borracha da Amazonia;
do café de Santos e Rio; do assucar de Pernambuco,
Sergipe e Alagôas; do tabaco bahiano; da
monazite do Espirito Santo e Bahia; e do mais que fôra
longo mencionar—incessantemente a descarregarem
tudo isso, alli, em Cacilhas! Outros transatlanticos, dia
e noite, alli mesmo, a encherem os porões de productos
brasileiros para o Havre e para Hamburgo, Antuerpia,
Liverpool, Hull, Amsterdam, Plymouth, Londres,
Rotterdam, Genova, Cádiz, Barcelona, Napoles,
Marselha, etc!
Que lindo movimento maritimo!
Que negocio! Só é pena que se não
possa fazer...
É que as baldeações, descargas,
transbordos e armazenagens
onerariam os productos, que hoje vão o
mais perto possivel dos consumidores, graças a uma
navegação collossal sob todas as bandeiras.
É que um entreposto que torna mais caros os productos
só serve para lhes diminuir o consumo.
É que a navegação demanda o Brasil
porque, ao
voltar, nos paizes por onde passa ou para que se destina
existem mercados dos generos brasileiros, e porque
milhares de toneladas de carga para o Brasil lhe
compensam a viagem até lá.
O entreposto! Quando chegámos ao Brasil, em
1893, fallámos delle a um grande jornalista, amigo extremoso
de Portugal e dos portugueses.
Achou a idéa engraçada e ponderou:
«Entreposto
ideal é o navio—porque o café precisa sair de
bordo
e entrar no caminho de ferro para ser torrado no dia
seguinte pela manhã, moido das 10 ao meio dia e tomado
dessa hora em deante. No dia seguinte chega
outro vapor e repete-se a historia.»
[17]
O entreposto em Lisboa para abastecer a Europa!
Como se todas as nações estivessem desprovidas de
portos e a marinha mercante fosse exclusivo português...
A incuria dos nossos governos é proverbial. A falta
de curiosidade basta para explicar essa incuria em pessôas
tomadas da mania politicante.
Se assim não fôra, saber-se ia em Portugal que,
tendo o governo do Brasil organisado um «serviço
de
propaganda e expansão economica», lhe estabeleceu
quatro delegacias; que a 4.ª delegacia, com séde em
Barcelona, tem jurisdicção na Hespanha e
Portugal;
que, portanto, na propria peninsula iberica, o Brasil
prevê mais possibilidade de expansão economica na
Hespanha do que em Portugal...
É o que nos parece logico inferir da escolha da
séde da 4.ª delegacia.
A proposta do sr. Consiglieri nada offerece ao Brasil,
além do serviço de lhe evitar o perigo da
desnacionalização.
O perigo não existe; logo, o serviço reduz-se
a zéro.
Dir-se-á: «E a
emigração?»
A emigração—eis o que realmente damos ao
Brasil.
A emigração é um
mal
necessario: quem não tem
trabalho remunerador no paiz, vae arranjal-o fóra do
paiz, e, de lá, acóde ao nosso
deficit economico.
Sendo assim, nem a propria emigração
póde constituir
base de um accordo commercial—porquanto ao
Brasil, que precisa de trabalhadores, não assusta a
idéa de a prohibirmos.
Como prohibil-a, se precisamos della? E, se, num
plano de reforma economica, cortassemos a corrente
emigratoria, os mercados brasileiros talvez tivessem
de se fechar aos nossos productos...
É esta a triste situação a que o
regimen monarchico
reduziu Portugal!
XI
A EVOLUÇÃO BRASILEIRA
Estamos deante do Brasil em deploravel ignorancia
das suas coisas.
Não fôra esta a verdade e teriamos clara
noção dos
phenomenos ethnicos alli operados ou ainda em
elaboração
e estariamos certos de que não ha perigo de
desnacionalização,
mas tão sómente se dá, nesse paiz, uma
evolução geral logica, inevitavel e fatal.
As instituições politicas e sociaes da
nação brasileira
seguiram o seu curso, sob influencias peculiares
ao meio americano e ás exigencias do concerto internacional,
por um lado, e, por outro, em obediencia á
educação e ás
aspirações do povo que se foi e ainda
está constituindo dentro da nossa antiga colonia.
A raça, sem perder as suas caracteristicas iniciaes,
obedeceu ao determinismo do novo meio e transformou-se,
como, com as successivas migrações, succedeu,
através da historia, a todas as chamadas raças e
nacionalidades.
Portugal não deu por isso. A falta de curiosidade
vae neste paiz, dos que governam aos que são governados;
dos assumptos mais sérios aos mais facêtos, dos
factos decisivos aos incidentes subalternos da politica,
da economia, das artes—de tudo!
Ora, se é verdade que, em 1615, nas
instrucções
dadas a Fragoso de Albuquerque para o tratado de
paz com La Revardière,
[18]
se dizia que no Brasil
«havia
mais de tres mil portugueses» e, portanto, «as suas
terras não estavam despovoadas», não ha
duvida, todavia,
de que ao predominio da nossa população se deveu
o não ter o Brasil caido em outras mãos, apezar
das vicissitudes
por que passou Portugal, volvidos poucos
annos sobre essa data.
Ao fechar o XVII século, o povoamento tinha tomado
incremento notavel com o descobrimento das
minas de ouro de Caethé e Rio das Velhas. Não
sómente
a miragem do ouro determinou a immigração:
havia, então, um systema colonizador no espirito dos
governantes portugueses. E, embora deficiente, o critério
que dictou as doações era digno de um governo;
e os seus fructos foram valiosos. Em 1680, uma carta
régia, reveladora da noção de
imminente conflicto entre
colonos e gentios, mandava conceder terras a estes
«ainda mesmo as já dadas de sesmaria visto que
deviam
ter preferencia os mesmos indios
naturaes senhores
da terra».
[19]
Não se repellia o gentio.
As ondas de africanos, que, desde os fins do século
XVI, foram atiradas sobre a America portuguesa, o
indigena e o português foram as componentes ethnicas
do typo brasileiro.
Os cruzamentos deram-se. Fez-se a selecção lenta,
sob a preponderante acção da raça
superior, cujos
attributos a hereditariedade resalvou da existencia
transitoria do mestiço.
Estudando este phenomeno, Euclydes da Cunha,
alto espirito de artista e pensador, escreveu que «a
raça superior se tornára objecto remoto para que
tendiam
os mestiços deprimidos, e estes, procurando-o,
obedeciam ao proprio instincto da conservação e
da
defeza».
Junte-se a este facto, comprovado pela historia de
todos os cruzamentos desse genero, o axioma ethnologico
da tendencia das raças eugenicas para subordinarem
ao seu destino os elementos inferiores com que
se encontram e ter-se-á explicada a hegemonia do
português na formação do typo novo, a
que se refere
Sylvio Roméro.
Não foram exterminadas as raças inferiores; foram
absorvidas lentamente, eliminadas pelos cruzamentos
sempre ascendentes. Tanto assim foi que, apezar da
enorme superioridade numerica dos africanos, a
immigração
escassissima dos lusos indo-europeus foi capaz
de formar a maioria branca que ha no Brasil e que é
uma evolução ainda não bastante
differenciada do typo
português.
A nossa resistencia, como raça colonizadora, apresentou
na America uma prova sem par. A sobreposição
das heranças psychicas das raças fundidas quasi
se não distanciou da parcella lusitana, apesar da nossa
falta de cultura nos tres séculos ultimos e apezar do
evidente accrescimo physiologico da população ser
devido
aos cruzamentos.
Com absoluta razão, e em contrario do que affirmou
o visconde de Ouguella na
Questão
social, sustentou
o sabio brasileiro dr. Luiz Pereira Barretto que
a raça portuguesa não degenerou.
Não é, diz o dr. Barretto, um caso de
degeneração,
mas sim de inhibição cujas causas, a seu
vêr, se encontram
na educação clerical e na subserviencia dos
poderes publicos ao clericalismo.
O Brasil curou-se desse mal, que ainda domina
a nossa terra.
O que se vê da estratificação dos
primeiros elementos
constitutivos da população do Brasil é
a conservação
das linhas geraes do typo português, com os
seus defeitos, mas com as suas qualidades de
adaptação
e de resistencia.
Foi com essa massa que, a partir da abertura dos
portos da ainda colonia ao commercio universal, se
tiveram de encontrar, em escala cada vez maior, os colonos
europeus de outras linguas.
Não se verificava, apezar do atrazo do português
e do brasileiro, a hypothese da collisão de uma
raça
superior, a exótica, com outra inferior, a nossa commum.
Se tal acontecesse, repetir-se-ia a selecção
realizada
com os indios e africanos, selecção que, desta
vez,
seria em prejuizo dos luso-brasileiros.
Ora, é precisamente o contrario—isto é, a
absorpção
do elemento exótico—o phenomeno que se tem
de reconhecer na fusão de raças operada no
Brasil,
visto que, apezar da superioridade numerica desses
exóticos sobre os immigrantes portugueses, o typo brasileiro
não se alterou sensivelmente e as caracteristicas
nacionaes permanecem intactas e predominantes
nos proprios descendentes de gente de lingua estranha.
Daqui tem de se inferir que os dezoito a vinte milhões
de brasileiros—a estatistica dirá, em 1910, se
são mais ou menos—possuem energias nacionaes capazes
de subordinar os adventicios ao seu modo de
ser proprio.
A civilização varía de clima para
clima.
O homem, ao expatriar-se, está condemnado, por
uma fatalidade invencivel, a aspirar, para si e para a
sua descendencia, á civilização
adequada ao paiz que
escolheu para domicilio.
Por isso, o emigrante procura, em regra, as regiões
em que a sua adaptação é menos
violenta.
Por isso, como diz Cesar Zumeta
[20],
«quaesquer
que sejam as raças povoadoras, na zona tórrida
não
imperará senão uma
civilização lentamente progressiva».
Por isso, o italiano e o allemão se congregam nos
estados do sul do Brasil.
[21]
Por isso, finalmente, todos os estrangeiros das raças
superiores são assimilados no Brasil, cujo meio,
antes de se modificar, os modifica a elles, até a sua
completa identificação com o typo nacional, que,
é
claro, por sua vez tambem se transforma, como acontece
aos typos de todos os outros paizes.
As migrações nunca deixaram de ter este
resultado:
adaptam-se ao meio, mas influem na sua evolução.